PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

BAÚ DO MUSICARIA


A exatamente cinco anos, esta é uma das matérias que estava sendo publicada em mês como este:



Link para relembrar a matéria:

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

HANGOUT MUSICARIA - ENTREVISTA RODRIGO NASSIF

Lançando "Mar de dentro", Rodrigo Nassif volta ao Musicaria Brasil para um bate papo exclusivo onde fala a respeito de suas influências em sua sonoridade, um pouco de sua biografia, seus exitosos projetos fonográficos e outras peculiaridades neste excelente bate-papo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

GONZAGA LEAL - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de estrada, o artista pernambucano recentemente lançou "De Mim", projeto que contou com a adesão de nomes como Marília Medalha, Jaime Alem e os pernambucanos Públius e Juliano Holanda

Por Bruno Negromonte


 
Chega uma hora em que há necessidade de mudança em nossas vidas. Desde os mais simplórios gestos até transformações que interferem de forma radical em nossa vida. No caso de Gonzaga Leal este momento chegou quando teve que optar por trilhar o caminho da música ou da dança e ele optou pela segunda alternativa. Hoje, com oito discos gravados (incluindo o EP "Aparição") Leal vem apresentando desde o início do ano "De mim", um álbum que apresenta diversas características que o destaca não apenas na carreira fonográfca do artista, mas também na cena musical como um todo. O disco é responsável por trazer novamente aos estúdios de gravação a cantora e compositora Marília Medalha assim como também por apresentar mais uma faceta do artista pernambucano: o seu lado compositor. Depois de protagonizar, aqui mesmo em nosso espaço, o pauta sob o título de "SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE", Gonzaga volta ao Musicaria Brasil para este bate-papo exclusivo onde fala sobre este novo projeto que vem recebendo elogiosas críticas Brasil afora, a sua relação com a cena musical de São Paulo e que virá em comemoração as quatro décadas de carreira que o artista comemora em 2014. Vale a pena conferir. Boa leitura!


 
2014  é um ano emblemático para você, afinal de contas são quarenta anos desde a sua primeira aparição profissional diante do  público. O que você destacaria ao como relevante em sua carreira ao longo destas quatro décadas de estrada?

Gonzaga Leal - Sempre acho que o mais recente trabalho de um artista é o mais importante de uma trajetória, uma vez que ele representa um alcance definido por tudo que ele já produziu e passou. Para gravar esse novo disco, apoiando-me na sonoridade da viola brasileira e debruçando-me sobre um repertório baseado no tempo e na saudade, foi necessário olhar para trás e ver no passado um espelho do que venho produzindo e do que ainda pretendo fazer.

02 – “De Mim” como o próprio título sugere vem arraigado de pessoalidade através de letras que poderíamos até afirmar tratar-se de confessional. Qual foi o principal desejo que o conduziu a registro com essas peculiaridades?

GL - Estava há quatro anos sem gravar, mesmo sendo incentivado e ativado no meu desejo pelos músicos que trabalham comigo já há algum tempo, mas, mesmo assim, não encontrava motivo algum que justificasse entrar em estúdio, pois gosto de gravar projetos, não canções apenas porque são lindas ou magníficas, isto não me atrai.

Mas o tempo não brinca com ninguém, e aí que fui surpreendido por uma canção enviada por Públius. Ao ouví-la, fui tomado por um sentimento gigantesco, sobretudo de aproximação comigo mesmo. Naquele período havia completado 55 anos e a canção ativou em mim uma saudade de mim mesmo, de um Gonzaga que não é mais, mas se avizinhando de um novo tempo. A canção chama-se "Da Saudade". E assim, percebi de imediato que o projeto começava a nascer, projeto no qual iria cantar sobretudo o tempo e a saudade, e fazê-lo, com muito frescor e ausência de ressentimento.

03 – A sonoridade do disco apresenta a viola de modo matricial. Há em suas reminiscências alguma razão ou motivo para torná-la o principal instrumento de um projeto que traz como características tanta pessoalidade

GL - Realmente, a viola é uma das principais protagonistas do projeto. Sou um homem do interior, e muito precocemente comecei a me familiarizar com o mistério e o enigma do som das violas. Sem falar no fato que o meu diretor musical, Cláudio Moura, é um magnífico violeiro, que extrai poesia pura do som do seu instrumento. A junção desses dois fatos foi o grande lance para suscitar em mim o desejo de ter comigo outros violeiros de gerações diferentes para fazerem parte do projeto, a exemplo do Jaime Alem, Hugo Lins e Juliano Holanda, cujas violas têm afinações diferentes umas das outras.

 
04 – Nestas últimas duas décadas a cantora e compositora Marília Medalha mantém-se afastada dos estúdios. Acredito que essa participação em “De Mim” venha a ser o seu único registro fonográfico até então ao longo deste século. Como se deu o convite para que a Marília viesse a participar do álbum e quais os argumentos que acabaram por convencê-la a tais participações?

GL - É um enorme privilégio tê-la neste projeto. Realmente a Marília hoje vive um tanto quanto reclusa, mas não avessa a realizar trabalhos que a entusiasme. Somos grandes amigos, já fizemos alguns trabalhos juntos e temos muito interesse pelo repertório de canções de domínio público. Quando formulei o convite e, encaminhando o reisado “A deusa da lua”, percebi de imediato o seu interesse e alegria em vir à recife, cidade que ela tanto gosta, fazer a gravação. Naquele momento, me senti premiado. Foi tudo emocionante e lindo.

 
05 – Uma característica presente em seus projetos é a valorização ao texto da canção. Suas interpretações são carregadas por muita verdade e “De Mim” parece trazer essa característica de modo muito mais arraigado inclusive a partir de peculiaridades antes não existentes como a inserção de “Sonho imaginoso” (primeira composição de sua lavra que aqui ganha seu registro). Você pretende a partir de então dar continuidade a registros de sua autoria?

GL - Realmente não me considero um cantor. Estou muito distante, interessa-me cada vez mais aguçar em mim o intérprete que habita-me. Por isso, deixo-me tanto perseguir pela palavra. A palavra, pra mim, é de uma força inimaginável, tanto no que diz respeito a sua força, complexidade e simplicidade. Preciso sentir-me emoldurado pela palavra para dar sentido ao meu canto. Com relação à "Sonho Imaginoso" (Gonzaga Leal - Guito Argolo - J. Velloso), a ideia partiu de J. Velloso, que gostou de um texto confessional que escrevi e achou que poderia virar canção. Então consultou-me e eu, sem titubear, dei todo o aval para que ele pudesse editar o texto e convidar pessoa da sua confiança para inserir melodia. Foi quando ele trouxe o Guito Argolo para cuidar de musicar o texto. Adorei de verdade e combinamos que quem primeiro gravasse um cd, convidaria o outro para dividir os vocais. Isso não quer dizer que sou um compositor. Não sou, pois sou o mais crítico de mim mesmo. Foi um feliz e fecundo acaso.


06 – A sua ligação com a cena musical paulista faz-se bastante perceptível ao longo dos seus projetos fonográficos (com exceção dos álbuns tributos a Nelson Ferreira e Capiba). Essa aproximação deu-se de modo intencional ou foi algo espontâneo?

GL - São Paulo é uma cidade que adoro, onde tenho grandes amigos das mais variadas linguagens artísticas. Gosto de trabalhar em São Paulo, sobretudo com os paulistas. A minha conversação sobre música mais profunda e consistente com São Paulo acontece exatamente no álbum "Minha Adoração - um tributo a Nelson Ferreira", quando, a meu convite, Zé Miguel Wisnik colocou versos na valsa azul, de Nelson Ferreira. Isso foi um passo para, através do Zé Miguel, conhecer o Luiz Tatit que, no meu cd "Gonzaga Leal cantando Capiba, ...e sentirás o meu cuidado", vestiu o choro "Relembrando Nazareth", de Capiba, com seus lindos versos. Essa ponte foi determinante para todas as demais conversações que tive e continuo tendo (e que muito me interessa!!!) Com São Paulo.

07 – A capital pernambucana já teve a oportunidade de receber o espetáculo referente ao álbum “De Mim” por duas vezes. A primeira, em janeiro, na estreia da turnê e posteriormente em abril. Você tem recebido elogiosas matérias da crítica especializada em todas as regiões do país. Já existe uma agenda fechada em relação a turnê do álbum para o segundo semestre?

GL - Estou muito orgulhoso e agradecido pela forma como a imprensa brasileira tem recebido o meu trabalho. Isso é o máximo para qualquer artista. Nesse aspecto também me sinto um privilegiado. Adoro fazer o show do disco por tudo que o envolve e o emoldura: os músicos, os diretores (musical e cênico), o cenário, a luz, o repertório e toda a cumplicidade das pessoas envolvidas. Temos uma turnê prevista, mas a depender da aprovação do funcultura por esses dias. É um show caro, que envolve uma equipe de pelo menos 15 pessoas. Adoraria que o projeto fosse aprovado para termos a oportunidade de sair pelo Brasil. Sem isso, se torna praticamente impossível, pois não me contento em apresentar um trabalho pela metade. Não é justo que se ampute uma equipe e uma estética para viabilizar viagens. Nisto sou muito rigoroso e não faço concessões.

08 – Você é um dos artistas que mais subiu ao palco do Teatro de Santa Isabel. Em relação a esse feito você nos trouxe em tom confessional aqui mesmo neste espaço que arquitetava um projeto pautado em piano e voz cujo título a princípio seria “Teatro – Na boca de cena nasci”. De janeiro de 2012 (época da primeira entrevista) aos dias atuais a que pé anda o projeto? Quando esse desejo tomará forma?

GL - O teatro e a minha casa são os lugares onde mais me sinto confortável e seguro. É como se fossem um templo que me remete inevitavelmente ao sagrado. O Teatro de Santa Isabel, em especial, faz muito sentido na minha vida, não só artística mas de espectador, foi lá que lancei todos os meus cd's, realizei outros tantos shows e presenciei espetáculos memoráveis. Tenho um apreço muito grande por esse lugar. Tornei-me amigo de grande parte de seus diretores e nutro amizade também pela maioria de seus funcionários. Por isso, acho-me com essa dívida de fazer um cd que possa homenageá-lo, sobretudo agora que ele completa 160 anos. Portanto, o projeto na boca de cena nasci, de voz e piano, com repertório de trilhas de peças de teatro, continua sendo o meu grande sonho e desejo. Espero realizá-lo em breve. Estou indo atrás. Um detalhe desse projeto é que os pianistas serão aqueles todos que tive a felicidade de trabalhar, a exemplo de Zé Gomes, Francis Hime, Marco Caneca, George Aragão, Cida Moreira, Zé Miguel Wisnik e Eliana Caldas.

09 – Por falar em Santa Isabel “De Mim” foi o único projeto que não teve seu lançamento no palco do tradicional teatro. Há pretensão de levar o espetáculo a este teatro que é considerado o templo maior da cultura pernambucana?

GL - A estreia desse show em um teatro que já vinha tendo um grande namoro: o Teatro Capiba. Num acordo conjunto entre músicos, equipe e diretores, tomamos essa decisão de estrear num teatro menor, onde pudéssemos estar numa relação mais próxima com o público, coisa que o repertório e a sonoridade do show, de uma certa forma, exigem. Foi tudo lindo e surpreendente, sobretudo porque estreamos dentro do projeto janeiro de grandes espetáculos. Mas acredito que, até o final de ano, estaremos levando o show para o teatro de Santa Isabel, para o contentamento ficar completo. Claro que o show sofrerá algumas adaptações, especialmente no plano cenográfico e de iluminação.


10 – Neste ano você está chegando aos 40 anos de estrada qual o balanço que você faz desse percurso? Esta comemoração se estenderá aos palcos?


GL - Esse aniversário me dá uma noção mais apurada da minha responsabilidade e do meu compromisso com todos os que me acompanham ao longo de todos esses anos e com essa cidade que tanto me abraça e me prestigia. Imagine um jovem que chega do interior na cidade sem conhecer ninguém e, pouco a pouco, vai construindo uma rede de amizades férteis que me impulsionam a ser artista. É a sensação exata de ter obtido régua e compasso. E claro que a melhor forma e contrapartida para com todos, é através do que posso emocioná-los e presenteá-los com meu singelo canto e o meu fazer artístico. Tendo sempre o palco como um nobre parceiro. Uma coisa que realmente adoraria em termos de comemoração de uma data redonda, é construir uma cartografia interpretativa a partir da revisitação todo o meu repertório de shows. Nos dias atuais, isso se torna praticamente impossível. Mas não custa nada sonhar, não é?

11 – Com tantos anos de estrada e primorosos registros fonográficos não seria a hora já de cogitar a possibilidade de um projeto áudio-visual? Já pensou na possibilidade de um registro em DVD?

GL - Sinceramente, esse desejo já esteve mais aguçado. Hoje não tenho mais tanta motivação e interesse em fazer um registro em dvd. Mas, se eu o fizer, interessa-me fazer algo bem simples com uma moldura cenográfica e uma luz muito poética, em preto e branco, em um estúdio de gravação. Jamais realizar um show para transformá-lo em dvd. Esse formato não me interessa. Por enquanto as coisas mais imediatas são continuar fazendo o show "De mim"; o projeto chamado concerto de assobios, que pretendo estrear ainda esse ano na companhia da atriz Ceronha Pontes e dois músicos (um violeiro e um percussionista). É um recital baseado na poesia do poeta Manoel de Barros e canções da tradição oral brasileira, que juntos formam uma dramaturgia. Estamos todos felizes, por estarmos embalados por tanta lindeza contida na poesia e nas canções. Por fim, continuarei empenhado em viabilizar o projeto na boca de cena nasci, mesmo porque ele já tem um tempinho de pendência. Na minha vida não sou afeito a pendências.

Quero te agradecer, Bruno, por esta nobre oportunidade que mais uma vez você me concede. É sempre muito bom, para qualquer artista, dar uma entrevista para uma pessoa que conhece do seu trabalho e se interessa pelo artista. E nesse aspecto, tenho o maior prazer de responder quantas perguntas me chegarem. É assim que me sinto: agradecido e prestigiado.


Maiores Informações:
Leal Produções Artísticas Ltda.
Rua Raul Lafayette, 191 - sala 403
Boa Viagem - Recife - PE
CEP: 51021-220

Fone/fax: (81) 3463.4635 e 8712.5110

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O álbum pode ser encontrado nos seguintes endereços:

Leal Produções Artísticas - Fone/fax: (81) 3463-4635



Salvador: Pérola Negra - Fones: 71 3243-1432/3336-6997

Belo Horizonte: Disco Play - Rua Tupis, 70, Centro - Fones: 31 3222-0046/3271-4897

Fortaleza: Loja Desafinado - Av. Dom Luiz, 655,Lojas 2 e 3 - Fones: 85 3224-3853/3224-7774

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ANDREA AMORIM - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Após abrilhantar o nosso espaço com o seu projeto ao lado de Roberto Menescal, Andrea Amorim volta ao Musicaria Brasil para esta entrevista exclusiva

Por Bruno Negromonte


A música autoral brasileira tem por característica a predominância masculina no entanto vez por outra surge um significativo nome feminino para heterogeneizar as estatísticas com a peculiar beleza e sensibilidade ao qual o sexo está intrinsecamente associado. A cantora e compositora pernambucana Andrea Amorim chega para engrossar esse cordão a partir de trabalhos consistentes e bem elaborados. Sob forte influência do rock, a pernambucana mostra talento e ecletismo ao pegar carona no barquinho de Roberto Menescal, um dos mais respeitados nomes da música brasileira, com o álbum "Bossa de alma nova" que a artista vem apresentando não apenas no Brasil como também no Exterior e que foi apresentando ao nosso público a partir da matéria "UMA HOMENAGEM QUE ACABOU RENDENDO UMA SIMÉTRICA PARCERIA". Hoje Andrea volta ao Musicaria Brasil para abrilhantar o espaço com esta entrevista exclusiva onde fala, dentre outras coisas, do seu novo projeto fonográfico, seus projetos autorais, a adesão do homenageado a um deles entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Excelente leitura!



Seu envolvimento com a música vem desde a infância? Dentre as suas referências musicais quais aquelas que contribuíram de algum modo para que a jovem Andrea viesse a seguir a carreira de cantora e compositora tempos depois?

AA - O rock sempre foi a minha referência musical. Em especial, posso dizer que Renato Russo foi o meu grande incentivador, tanto na criação, como na produção. Por meio dos discos da Legião Urbana, “descobri” que poderia compor e cantar. Outras influências foram sendo agregadas depois, e foram me moldando ao longo do tempo, mas essa foi mesmo a principal e a desencadeadora de todo o processo (rsrs).


Você vem de Garanhuns, cidade localizada no agreste pernambucano e que acabou popularizando-se nacionalmente também por ter um dos mais conceituados festivais culturais existentes no Brasil, que é o FIG (Festival de Inverno de Garanhuns). De algum modo você acredita que eventos como o citado e o Festival de Música e Arte de Garanhuns contribuem para artistas da cena independente como você?

AA - Acredito muito, por experiência própria! Sempre costumo dizer que foi o Festival de Música e Arte de Garanhuns que me propiciou a oportunidade de seguir carreira. Até então, nem eu mesma acreditava no meu trabalho. Quando ganhei o Festival, em 2006, foi estabelecido em minha vida um divisor de águas. Com o dinheiro que ganhei, juntei as poucas coisas que tinha, gravei algumas músicas minhas e fui pro mundo!

Em relação ao Festival de Inverno de Garanhuns, desde 1999, eu tive a oportunidade de me apresentar. Ou seja, eu participo desde o comecinho da minha carreira, e já são 15 apresentações. No FIG, eu pude dividir palco com os grandes artistas nacionais, e comecei a entender e aprender como era ser um “artista” de verdade, mesmo sempre sendo tratada como tal. Tenho muito respeito pelo FIG, e eu sou muito grata aos meus conterrâneos por sempre terem me dado tanta força, ao longo desses meus 15 anos de carreira.


Vem de longas datas a emigração de alguns artistas para o sudeste afim de sedimentar ou dar projeção as suas respectivas carreiras. No entanto hoje com os adventos tecnológicos houve um reordenamento deste contexto propiciando a Pernambuco um lugar de destaque na cena cultural nacional. Você seguiu os ditames tradicionais e partiu para o eixo Rio-São Paulo e vem galgando significativos espaços nestes estados. Em sua opinião quais os maiores entraves existentes aqui no Nordeste para a projeção artística e que acabam, de certo modo, provocando este tipo de evasão?

AA - Acho que não existe mais essa necessidade de migração pro Sudeste. Atualmente, o artista pode consolidar sua carreira onde estiver. Eu sou apenas uma remanescente desse contexto migratório, que hoje, virou obsoleto. Mas minha casa é e sempre será Garanhuns, independente de onde eu esteja.


Atualmente você vem divulgando “Bossa de alma nova”, um projeto que seria uma homenagem e acabou rendendo uma profícua parceria entre você e Roberto Menescal. Como se deu a adesão de Menescal nesta homenagem?

AA - Eu digo que essa parceria foi o maior presente que Deus me deu. Menescal é um artista genial, sobretudo um ser humano adorável e muito sábio. Sempre aprendo alguma coisa nova quando nos encontramos. Eu fiz uma turnê no Japão, com 24 apresentações, em dezembro de 2011, cantando rock e MPB! Ironicamente, foi lá que conheci música brasileira de verdade. Os japoneses são literalmente apaixonados por Bossa Nova! Essa viagem foi a maior e mais incrível experiência da minha vida. Quando voltei,  eu estava com uma imagem completamente diferente de tudo e, como sugestão de um produtor de lá, Marcos Sussumi,  propus a Menescal a gravação de um disco! Seria um desafio, mas eu queria conseguir, de alguma forma, reproduzir o amor dos japoneses, que eu vi de perto, em relação à nossa música. Ele não somente abraçou a ideia, como quis participar de todo o projeto. Como ele estava completando 75 anos de vida, eu quis fazer um disco em sua homenagem, interpretando suas canções. Pra completar o presente, tatuei seu nome em japonês no meu antebraço (rsrs).


E a sua aproximação do Roberto Menescal antecede esta homenagem não é? Como vocês se conheceram?

AA - Mais uma vez, aparece aqui o Festival de Música de Garanhuns (rsrs). Eu ganhei esse festival em 2006, e, em 2008, fui convidada pra fazer um show. Menescal estava como jurado, na ocasião, e comentou com o compositor Carlos Fernando sobre mim. Esse, por sua vez, falou pra nós e, prontamente, descobrimos o e-mail de Menescal, quando entramos em contato com ele. Desde então, nossa amizade somente cresceu e, naturalmente, fui sendo lapidada por esse mestre da vida e da música. A maturidade que eu alcancei, nesses três anos, convivendo mais de perto com Menescal, valeu por toda uma vida.


O CD “Bossa de alma nova” está entre os cem melhores discos de Música Brasileira já lançados no Japão, segundo registro do livro “A verdadeira história da Bossa Nova”. Você apostava que o disco alcançaria esta relevância no mercado fonográfico japonês?

AA - Tivemos essa grata surpresa com a publicação do nosso amigo japonês e jornalista Willie Whopper, nesse seu livro. Willie é um grande apreciador e um apaixonado por nosso país. Sabe tudo sobre nossa música. Ele tem um estabelecimento em Tóquio (Barzinho Aparecida), no qual tive a oportunidade de me apresentar, onde somente se encontram coisas do Brasil, desde música ao vivo até discos de vinil e feijoada no cardápio (rsrs).

Eu não sou muito de apostar em nada nessa vida, nem ter grandes pretensões e nem criar expectativas. O que vem de bom sempre encaro como um bônus que a vida vai me dando, e sempre agradeço a Deus por tudo. Esse, portanto, foi mais um presente.


Você tem por característica fonográfica álbuns onde sua veia autoral pulsa fortemente. Com exceção de “Solidão nunca mais” (parceria sua com Menescal) neste projeto você deixa essa característica de lado nas catorze faixas restantes. Como você encarou esse desafio e experiência?

AA - Foi, literalmente, um desafio e uma experiência única. Gravar faixas como o hino “O Barquinho”, sendo produzida por seu criador não tem comparação com nenhuma outra coisa. Durante os dois dias de gravação das vozes do disco Bossa de Alma Nova, fiquei em estado de plenitude, o qual se sobrepôs ao nervosismo. Depois que me dei conta do que realmente se passou: eu estava gravando as músicas de Menescal, e o próprio estava na minha frente, produzindo-me! (rsrs). Foi um momento mágico, inesquecível, e essa sensação ficou perpetuada em mim, como uma riqueza imensurável.


Tal qual o mitológico Midas, tudo o que Menescal toca vira ouro. Você ganhou significativa projeção a partir desse projeto em duo com ele. Após o registro do DVD vocês já pensam em algum novo trabalho em parceria? 

AA - Ganhei projeção sim, mas acima de tudo, experiência de vida, que, pra mim, é o mais importante. Não busco fama. Busco produção, aprimoramento e evolução. Enquanto isso, eu e o Menescal seguimos fazendo shows e compondo. Quem sabe, não vem por aí um disco somente de parcerias nossas (rsrs). Seria mais um sonho meu, mas primeiro precisamos completar a lista de músicas, pra que eu possa propor-lhe esse projeto (rsrs).


Em suas incursões pelo Exterior você costuma apresentar-se como interprete dos clássicos brasileiros você costuma apresentar um repertório autoral?

AA - Eu sempre gosto de mostrar meu lado compositora, porque, pra mim, a maior identidade do artista é a sua obra, por mais simples que pareça, afinal toda manifestação artística merece respeito.


Atualmente você vem na elaboração de um novo projeto a ser lançado ao longo deste ano. Você poderia nos adiantar alguma coisa sobre ele?

AA - Claro que posso e, inclusive, agradeço a oportunidade de falar sobre isso também. Além do meu CD de rock autoral, com 13 músicas inéditas, que está saindo este mês, com o título Doce Divã, estamos num projeto de total conexão Brasil – Japão (rsrs). Estamos gravando um disco, produzido e arranjado por Marcelo Kimura, descendente japonês que mora na Terra do Sol Nascente. Todo o CD vai ser produzido e gravado lá, por músicos japoneses, além do Kimura, e eu apenas colocarei as vozes aqui no Rio. No repertório, canções que marcaram época, as chamadas músicas de fossa, transformadas em Bossa, bem como uma parceria minha com o próprio Kimura, e outra com o Menescal também.


Andrea, aproveito a oportunidade para agradecer por toda a disponibilidade e atenção dada a mim e consequentemente àqueles que acompanham este espaço. Parabéns por esta profícua parceria junto ao Menescal que já rendeu um CD e um DVD. Torço para que você obtenha sucesso absoluto daqui pra frente.

AA - Eu que agradeço a ti, Bruno e à Musicaria Brasil, por esse espaço e essa oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho e a experiência única que é conviver com o Menescal. Parabéns pelo belo trabalho, o qual tenho acompanhado! Desejo muito sucesso pra vocês e uma longa e promissora carreira. Contem sempre comigo! Muito obrigada mesmo! Um forte e carinhoso abraço!




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ROBERTO MENESCAL - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Ícone de um movimento musical que conduziu a música brasileira a um patamar antes jamais alcançado Roberto Menescal chega aos 55 anos de carreira e nos concede esta entrevista exclusiva

Por Bruno Negromonte



O nosso entrevistado de hoje dispensa apresentações. Com suas riquíssimas melodias associadas à poesia de alguns dos maiores nomes da música brasileira, Roberto Menescal é considerado um dos mais relevantes personagens da música popular brasileira do século XX. Seu violão contribuiu de modo consistente para a criação da Bossa Nova, um dos movimentos mais emblemáticos de nossa música. Hoje, com mais de meio século de carreira, Menescal continua em plena atividade levando ao seu público de modo cada vez mais apurado aquilo que o fez trocar abandonar diversos outros projetos ainda na juventude: a música. Neste bate-papo, Menescal fala de suas parcerias femininas, sua estreia no  Carnegie Hall, do novo dvd com a cantora Andrea Amorim que sairá em breve entre outros assuntos como vocês poderão observar logo abaixo. É com com muita honra e alegria que o Musicaria Brasil apresenta nesta informal conversa exclusiva com este que é um ícone da MPB.



Em 1955 Julie London lançava o disco “Julie is her name” acompanhada do violão de Barney Kessel, é verdade que você passava horas ouvindo este álbum por conta do Kessel como relata Ruy Castro em um dos seus livros? 

Roberto Menescal - Realmente foi um susto quando ouvimos esse disco, pois sempre escutávamos as cantoras normalmente acompanhadas por Orquestra e como gravava-se nesta época em um ou dois canais de gravação, não ouvíamos os acordes de guitarra Quando chegou esse disco somente com um baixo e uma guitarra, o mundo clareou p’ra gente e a música brasileira deu um pulo de 10 anos!


Ao final de sua adolescência você se viu envolvido em um tríplice dilema. Tinha que escolher entre a arquitetura, a Marinha e a música. Como se deu a escolha em definitivo pela música já que você tinha que enfrentar diversas dificuldades para isso?


RM - Na verdade também estudava para o concurso do Banco do Brasil. Carlos Lyra e eu, abrimos uma pequena escola de música para ensinar principalmente às meninas, a célebre batida da bossa nova. Um dia no final da tarde, a campanhia toca e quando abri, quase desmaiei pois na minha frente estava Tom Jobim que veio me convida para gravar com ele a trilha de Orfeu do carnaval!!! daí em diante, larguei tudo e fiquei com a música.


É verdade que nessa época você chegou a falsificar a sua identidade para poder ouvir o Tito Madi na casa noturna Scotch Bar?


RM - Claro que sim, lembrando que em cada esquina de Copacabana, havia um bar com música.


2014 completa-se duas décadas do falecimento daquele que foi o seu parceiro em algumas das mais relevantes canções do seu repertório. Você poderia descrever ou mensurar a importância de Bôscoli em sua biografia musical? 

RM - Bôscoli era mais velho do que a média da nossa turma de Bossa Nova, e como também era jornalista, dava um banho na gente, de cultura, informação etc, e foi um letrista que reinventou a poesia musical e assim com Carlos Lyra eu tive a sorte de compor com ele cerca de 300 músicas. Certamente sem ele, nossa obra musical não seria a mesma.


Acredito que a única estreia de um artista como cantor no Carnegie Hall tenha sido a sua. Como se deu essa inusitada passagem em sua carreira? 

RM - Certamente eu fui único. acontece que eu não queria ir ao Carnegie Hall pois não haveriam passagens para meu conjunto musical, mas tom e Sérgio Mendes me convenceram à ir e tocar com o grupo do Sérgio, mas o tempo foi passando e Sérgio me enrolando até que chegou a véspera do show e ele me comunicou que não haveria de tempo para ensaio comigo, então fui comunicar ao produtor do show, que eu não poderia participar pois não era cantor, e lógico que ele me obrigou à cantar sozinho com meu violão pois tinha um contrato assinado comigo. Foi uma carreira relâmpago e também um final de carreira de cantor, relâmpago.


“Morte de um Deus sal” é uma canção feita em compassos seis por oito. Não recordo de nada semelhante que tenha sido composto na época com essa característica na música brasileira. Como se deu a recepção dessa canção à época?


RM - Isso vinha muito do jazz que ouvíamos e fui feliz nessa canção que foi gravada por muitos intérpretes cantores e instrumentistas.



Este ano completa-se 55 anos de sua primeira incursão no mercado fonográfico com o lançamento do compacto simples “Bossa é Bossa Nova”. De lá pra cá você neste mercado você já chegou a atuar não só como artista, mas também como diretor artístico e hoje possui e hoje é um dos sócios da Albatroz, gravadora pautada na qualidade e associada a nomes como Emílio Santiago, Leny Andrade, Danilo Caymmi, Andrea Amorim, Oswaldo Montenegro, Os Cariocas e Wanda Sá (além do seu é claro). Com esta sua vasta experiência como você avalia o mercado nos dias atuais?

RM - Na verdade vejo como uma grande fase de transição do que havia no século passado e no que começa à acontecer neste século, são ciclos normais que acontecem desde que os séculos existe, e quem ficar parado vendo a banda passar, vai dançar!


Em sua carreira é possível perceber que a presença feminina se dá de modo bastante intenso. Isso vem acontecendo da década de 1950 até os dias atuais. Nomes como Wanda Sá, Nara Leão, Márcia Tauil, Cely Curado, Nathália Lima e Sandra Daulibe endossam essa afirmação. Atualmente você vem em parceria com a pernambucana Andrea Amorim com o álbum “Bossa de Alma Nova”. Como você justificaria essa característica em sua carreira?

RM - Na verdade não foi uma escolha minha, mas nada contra, e realmente prefiro as mulheres pois elas enfeitam nosso palco e principalmente essas que você citou, cantam muito bem! Andrea é outro achado que me surgiu de surpresa e que juntos temos feito muitas apresentações bonitas e prazerosas, além de um CD e um DVD que será lançado muito brevemente.


Dois meses antes da Nara prematuramente falecer vocês se tornaram parceiros em “Saudades de você”. É verdade que a canção saiu sob encomenda para uma propaganda no Japão? Essa foi sua única parceria com ela?

RM - Realmente foi uma encomenda de uma cerveja japonesa e tive sorte de fazer essa única parceria com minha irmã, Nara. 


Com a projeção que a Bossa Nova alcançou ao redor do mundo não é exagero afirmar que você como precursor do movimento é um dos nomes mais importantes da história da música brasileiro ainda em atuação. Olhando para trás qual o momento que você destacaria como mais importante ao longo desses 55 anos de carreira?

RM - Quero lhe dizer que me considero um aluno dos mestres, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Considero esse trio os números 1 da bossa nova e me considero junto com meus outros colegas, bons números 2 da Bossa Nova.


Para encerrar gostaria de agradecer toda a atenção dispensada e dizer que para o Musicaria Brasil é uma imensa honra o ter conosco nesta conversa. Obrigado pela entrevista, obrigado por ter, entre seus dilemas, optar pela música e principalmente por nos presentear com clássicos diversos. 

RM - Graças a deus pude à tempo optar pela música, pois senão, acho que não seria um bom número 2 em nada fora da música.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PAULINHO PEDRA AZUL - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Dono de múltiplos talentos, Paulo Pedra Azul é sinônimo de coerência ao apresentar singulares trabalhos pautados em letras e canções  endossadas de poesia e lirismo que o fazem ser considerado um artistas mais querido em Minas Gerais



Por Bruno Negromonte



Artista nascido na região mineira do vale do rio Jequitinhonha, Paulinho Pedra Azul chega aos sessenta anos como um patrimônio artístico do seu estado natal. Difícil não associar Minas Gerais à obra do artista. E essa característica encontra-se vem ao longo de toda a sua trajetória desde o primeiro disco "Jardim da Fantasia" lançado em 1982 pela RCA Victor e responsável por alçar o cantor e compositor mineiro ao panteão da música mineira. Vale ressaltar que apesar de Paulinho Pedra Azul ter se destacado como cantor e compositor, não foi este o seu primeiro contato com o universo artístico, uma vez que ainda criança o pequeno Paulinho teve contato com as artes plásticas. Daí em diante tomou gosto pela coisa e ao final adolescência já estava participando de alguns festivais musicais existentes no Vale do Jequitinhonha com o grupo "The Giants", onde executava sucessos da Jovem Guarda e The Beatles nas festas e bailes da região com o impressionante repertório de cerca de 250 canções. Vem desta época, ainda no “The Giants”, as primeiras composições que hoje formam um apanhado de beleza e inspiração que, de certo modo, reflete-se em sua obra até os dias atuais. Com a carreira sedimentada a partir de uma produção fonográfica caracterizada substancialmente por uma independência artística, Paulinho vem preparando-se para lançar o seu primeiro DVD, um trabalho comemorativo pela passagem dos seus 30 anos de estrada e que conta com adesão de nomes, entre outros, como o do Padre Fábio de Melo e do Rogério Flausino, do Jota Quest como ele nos confidenciou nesta entrevista exclusiva.



São sessenta anos de vida e mais da metade destes dedicados as artes, em especial a música e a literatura. Quais as maiores lições extraídas ao longo dessas seis décadas que hoje você carrega consigo em sua vida profissional e pessoal?

Paulinho Pedra Azul - 60 anos de vida é 60% de um caminho percorrido em vida, onde aprendemos, erramos, acertamos e colhemos frutos que plantamos, para a continuação do viver.


O seu envolvimento com as artes o acompanha desde sempre ao longo de sua biografia. Primeiro através das artes plásticas e posteriormente através da literatura e da música. Quais as suas reminiscências mais antigas dessa relação tão intrínseca?

PPA - Sempre gostei de artes. A pintura me relaxa e me faz concentrar. A literatura nos faz viajar e sonhar e a música nos aproxima de Deus. 


Qual foi o momento que você percebeu que o seu envolvimento com a arte de modo geral era um caminho sem volta?

PPA - Quando uma professora do primário me deu nota máxima numa redação. 


Leon Tolstoi certa vez afirmou: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia". Essa afirmação do escritor russo é possível observar em sua obra de modo substancial desde o seu primeiro trabalho. Quais são as grandes influências que, de algum modo, corroboraram para caracterizar sua arte dessa forma?

PPA - Tolstoi só esqueceu de dizer que já está quase no momento de eu voltar para minha aldeia. Ela nunca saiu de mim. É minha maior fonte de energia. 


Muitos conhecem o Paulinho Pedra Azul como cantor e compositor, no entanto o Paulinho escritor antecede o ofício que o tornou mais conhecido em todo o país. Dentro do universo literário você vem atuando desde 1978, no entanto, segundo pesquisa realizada na internet, há dez anos que você não publica nenhum livro. Abandonou o seu lado escritor ou o mesmo apenas adormeceu temporariamente?

PPA - Adormeceu temporariamente, mas já estou com ideias novas para 2 livros, infantil e infanto juvenil. 





Ao longo dessas três décadas de carreira você traz como uma das características mais marcantes a sua independência fonográfica em uma época que não ter seu nome vinculado a uma grande gravadora era quase que o passaporte para o insucesso. Você conseguiu provar que o contrário era possível. O que o levou (e o leva ainda hoje) a sempre procurar manter essa postura junto ao mercado?

PPA - O mercado de gravadoras (com raríssimas exceções), não tem compromisso nenhum com a educação musical. Quanto pior, mais elas investem e tiram oportunidades de quem quer ouvir músicas de boa qualidade. É a guerra da ganância e da exploração. Cairão todas em breve. Aguardem! 


Você sente-se profissionalmente realizado ou ainda falta algo a ser conquistado? 

PPA - Me sinto sempre em realização. Não podemos parar de sonhar e realizar. É um trabalho eterno. 


O fato de estar longe dos grandes canais midiáticos não o impede de figurar entre os artistas mais conhecidos de Minas Gerais. Uma prova dessa afirmação foi a pesquisa feita pela AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), que o destacou como o segundo cantor mais conhecido de Minas Gerais, perdendo apenas para Milton Nascimento. Há, em sua opinião, alguma explicação plausível para esse carinho e reconhecimento do público mineiro ao seu trabalho?

PPA - Isso vem do trabalho. De acreditar nele e formar um público especial, que sempre se faz presente aos meus shows. Esse público me faz viver e acreditar sempre, que vale à pena cantar e compor. 


Em 2004 você lançou o álbum “Os 50 Anos de Paulinho Pedra Azul”, em 2014 haverá algum projeto temático neste sentido?

PPA - Estamos preparando uma coletânea com 120 músicas remasterizadas e 2 livros; um com 150 poesias dos livros lançados e 150 poesias inéditas, para comemorarmos meus 60 anos. É um projeto de lei que estamos em fase de captação, pois já foi aprovado.


Não seria a hora de um registro em DVD para celebrar a data?

PPA - O DVD e CD já estão em fase final de montagem de imagens, mixagem, projeto gráfico, etc. Devem ser lançados em 2015. O DVD e o CD são comemorativos aos meus 30 anos de carreira. Abs e obrigado por essa oportunidade. Paulinho Pedra Azul. 

Obs: O DVD e CD dos meus 30 anos de carreira, foram gravados no Palácio das Artes em BH, com participações de Padre Fábio de Melo, Rogério Flausino do Jota Quest, Célio Balona, Aggeu Marques, Mauro Mendes, Grupo Sarau Brasileiro e uma banda maravilhosa com 6 músicos.


Maiores Informações:

sábado, 12 de julho de 2014

DUZÃO MORTIMER - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Após um hiato de quase duas décadas o professor Eduardo Fleury Mortimer volta a cena musical em "Trip Lunar", projeto que marca o seu reencontro com antigos parceiros e artistas da nova cena musical mineira

Por Bruno Negromonte


Em 25 anos de carreira Duzão Mortimer lançou apenas três álbuns. Os dois primeiros com a banda O Grande Ah! nas décadas de 1980 e 1990 e agora este cujo o título é "Trip Lunar". Sua escassa discografia apresenta números irrelevantes se levarmos em consideração a produção acadêmica do professor Mortimer  como tivemos a oportunidade de apresentar aqui mesmo no Musicaria Brasil ao longo do último mês de junho a partir da pauta O TALENTO QUE SOBREPUJOU A DESPRETENSIOSIDADE. Hoje Duzão Mortimer volta ao nosso espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre a sua carreira como como docente, o porquê desses longos hiatos em sua discografia e também como tem sido a receptividade do público em relação a "Trip Lunar", este que é o seu primeiro projeto solo em mais de 25 anos de carreira entre outros assuntos que vocês podem conferir logo abaixo. Boa leitura a todos!




Dentre suas lembranças qual é a reminiscência mais antiga do seu envolvimento com a música? Houve alguma influência para que você que você viesse a tornar-se músico?

Duzão Mortimer - Olha, eu penso que o envolvimento com a música quase sempre vem do ambiente em que você vive, particularmente o familiar. A minha mãe tocava piano e eu herdei o piano que ela havia ganho como presente de casamento. Quando eu tinha 8 anos, minha mãe comprou um violão e começou a aprender. Assim que ela aprendeu algumas canções, começou a ensinar, primeiro para as minhas 2 irmãs mais velhas. Logo chegou a minha vez de aprender. Mas curiosamente eu sou canhoto e só havia um violão na nossa casa. Então, resolvi tentar assim mesmo, com o violão destro. Tive uma enorme dificuldade para aprender. Minha mãe me mandava para o quarto, fechar bem a porta, ninguém tinha paciência para ouvir os ruídos que eu produzia tentando aprender a tocar. Mas eu era insistente e finalmente, depois de muito esforço, começou a sair um som. Aí, rapidamente eu aprendi todas as músicas que minha mãe sabia e comecei a aprender outras na rua, com os vizinhos. Sim, pois essa era uma época em que a música fervilhava, ecoava por todos os cantos. Em cada esquina de Belo Horizonte havia um “conjunto”, tentando traçar o caminho aberto pelos Beatles. Eu considero que o Beatles revolucionaram a música também pelo fato de serem apenas 4 e conseguirem fazer música. Isso era, de certa forma, novidade, pois até então o que pintava no mercado era big bands, com vários músicos, o que dificultava enormemente quem queria percorrer esses caminhos. Havia também a Bossa Nova, mas essa era mais sofisticada e só vim a conhecer mais tarde. Nesta época, o que pululava em Belo Horizonte eram bandas tocando Beatles e Jovem Guarda.  Então, já nesta época eu comecei a me envolver com bandas: me lembro da primeira em que eu dava uma canja ou outra, que se chama “The Exotics”. Todas as bandas eram formadas por duas guitarras, baixo e bateria ou por guitarra, teclado, baixo e bateria, tinham nomes em inglês começados por “The”, a exemplo dos Beatles.


Por falar em influências, você na condição de músico acabou exercendo-a em sua clã. Como você enxerga esse interesse pela música por seus filhos? Há mais estímulos para que eles continuem contextualizando-se com este universo ou você está sempre buscando dar conselhos para que eles ponderem as escolhas nesta área?

DM - Eu penso que na época em que o Ivan Mortimer nasceu respirava-se os primórdios de “O Grande Ah!” na minha vida. Eu começava a compor mais consistentemente, pois havia conhecido o Marcelo Dolabela (poeta, meu parceiro) por intermédio da Regina, a Ré, minha mulher. Eu me lembro do Ivan, quando estava aprendendo a falar, ele já cantava, ou melhor, balbuciava, umas tantas músicas que viriam a constituir o primeiro repertório dessa nova banda, que se lançou profissionalmente em Belo Horizonte no ano de 1983. Então, a música entrou na vida dos meus filhos muito naturalmente, pelo ambiente mesmo. O Ivan era incrível, pois ele tinha um cavaquinho que pretensamente tocava e subia no palco para juntar-se a “O Grande Ah!” sempre que podia. Ele era super musical, desde sempre. A partir dos 6 anos eu coloquei tanto o Ivan como o Lucas no Centro de Musicalização Infantil da Escola de Música da UFMG, e foi aí que eles tiveram a iniciação musical, algo que foi bem diferente no meu caso, que havia sido iniciado pela minha mãe e na rua. O Ivan, quando foi fazer vestibular, decidiu fazer Composição na Escola de Música e eu dei força. Mas com dois anos de escola ele trocou de curso e foi fazer Biologia, algo que também apoiei. O Lucas foi fazer Educação Física, depois fez mestrado na área de Fisiologia do Exercício e aí decidiu largar para mexer com produção musical, algo que discutimos bastante, pois o Lucas se encaminhava bem para fazer carreira acadêmica e eu dava a maior força. Mas ele acabou saindo da Educação Física, e apesar de lamentarmos a sua decisão, também demos força. Agora ele está fazendo a minha produção e isso é fundamental.


Por que o título do álbum acabou sendo “Trip Lunar”

DM - Primeiro, tem uma faixa do álbum com esse nome. Mas o mais importante é que esse nome resume a viagem que foi fazer todas essas canções. Pois a maioria foi feita no interstício da minha produção para “O Grande Ah!”. São canções que eu sempre gostei, que foram muita inspiradas, e que não tinham tido oportunidade de serem tocadas. Quando me decidi a voltar a fazer música profissionalmente, no ano passado, resolvi que essas eram canções que não podiam se calar. Como elas foram feitas numa longa e louca viagem, veio o nome “Trip Lunar”.


Eu enxergo este projeto como uma grande celebração, onde se é possível perceber não apenas o reencontro de velhos amigos mas também uma espécie de encontro de gerações com novos talentos da cena musical mineira. É mais ou menos por aí a intenção?

DM - Sim, e desse encontro de gerações é que eu tiro toda a energia para fazer esse trabalho. Nos shows, o pessoal que tem me acompanhado regula em idade com os meus filhos. No disco, toquei também com ex-integrantes de “O Grande Ah!”, com o Léo Lima e o Elio Silva. O Marcos Pimenta cantou uma música. A banda de base, que estruturou todos os arranjos, foi composta por mim e pelo Léo Lima, dessa geração de “O Grande Ah!”, e pelo Ivan Mortimer e Lucas Mortimer, meus filhos, e pelo Rafael Pimenta, filho do Marcos Pimenta. Eu considero que tocar com a nova geração é fundamental para não se fazer um som datado, que tem um certo ranço. Essa nova geração é que abre possibilidades de novos caminhos. Então tenho tocado com o Ivan Mortimer, Rafal Pimenta (os dois revezando entre o baixo e a guitarra), Yuri Vellasco (bateria), Henrique Staino (Sax tenor), Ygor Rajão (Trompete e Flugel horn), João Gabriel Machala (Trombone de vara) e Alexandre Andrés (Flauta). É uma turma da pesada, que coloca muita energia nestas músicas.


Esse encontro com a nova geração pode ser considerada uma espécie de reciclagem para aquilo que você produz? (uma vez que já passaram mais de 15 anos desde o seu último projeto fonográfico)

DM - Com eu disse, eles deixam minha música com sabor de música atual, nova, sem ranço, não datada.





Sua intensa vida acadêmica de certo modo interferiu em sua carreira artística ao longo desse tempo? (Falo isso porque você, em mais de 25 anos de relação com a música, tem apenas três registros fonográficos)

DM - Sim, claro. Em 1990 eu decidi, com base na necessidade de criar meus filhos e dar uma vida melhor para minha família, a me dedicar à carreira acadêmica e parar com a música, pelo menos no nível de envolvimento com que eu vinha fazendo. Em 1989 foi um grande ano para “O Grande Ah!”, nós tocamos a beça, demos vários shows em BH, pelo interior de Minas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando fiz as contas, percebi que infelizmente não dava para viver disso. Então, em 1990 comecei a fazer doutorado na USP, em 1992 fui para a Inglaterra fazer um sanduíche do meu doutorado, e lá carimbei meu passaporte, ou seja, me iniciei numa carreira internacional na área de Educação em Ciências. Não dava tempo para fazer música, pois a carreira acadêmica demanda muito, é uma loucura. Portanto, os envolvimentos que tive com música, como o CD Mariantivel em 1997 e alguns trabalhos aqui e ali com “O Grande Ah!”, foram pequenos, esporádicos e pouco consistentes. Em 2013 achei que era hora de rever essa equação e voltar a me dedicar de corpo e alma a música, desacelerando paulatinamente a minha carreira acadêmica. Acabou que esse ano lancei o “Trip Lunar” e também um livro, em parceria com Charbel El-Hani, pela Springer, editora acadêmica internacional, que se chama “Conceptual Profiles: a theory of teaching and learning scientific concepts”. Mas é justamente o cruzamento de duas tendências: acelerar a produção musical e desacelerar a produção acadêmica.


Apesar de você participar da construção da melodia de todas as faixas do álbum “Trip Lunar” apenas uma delas possui letra e música composta exclusivamente por você. Você poderia falar um pouco sobre a escolha do repertório do álbum?

DM - São duas compostas exclusivamente por mim, pois tem uma instrumental e uma com letra nesse rol. O Marcelo Dolabela sempre foi um excelente parceiro, cheio de letras em que ele combina a fala sobre as cidades, do interior e as capitais, com as tramas amorosas. A “Trip Lunar” é um exemplo: “Buenos Aires em qualquer cais, boa viagem prá nós dois, a Télavive sigo em paz”. As músicas do Trip Lunar, particularmente, surgiram sempre de uma grande inspiração, e foram todas compostas em cima de letras que o Marcelo me passava. As letras do Marcelo são muito musicais. Veja o exemplo de “Muita Alegria”. Ela tem algumas palavras aparentemente nada musicais, como “naftalina” e “absorventes”. No entanto, no contexto da canção essas palavras se tornam naturais, pois a letra como um todo puxou uma  canção, também como um todo.


Ao longo destes períodos de hiato ao qual você procura dedicar-se a outras atividades você busca manter-se envolvido com música de algum modo ou afasta-se abruptamente deixando de lado o artista existente em você em detrimento ao seu lado professor e pesquisador?

DM - Como eu disse, eu me dediquei de corpo e alma a carreira acadêmica, e não dava muito tempo para fazer música. Mas eu nunca me desliguei totalmente da música, seja tocando violão, seja escutando música. Essas duas atividades eu sempre mantive, de forma que na hora de voltar tudo estivesse bem conectado na minha cabeça. Porque, apesar do grande envolvimento com a carreira acadêmica, de uma coisa eu tinha certeza: que um dia voltaria para a música.


Como tem sido a receptividade do público em relação ao álbum “Trip Lunar”?

DM - Tem sido excelente. As pessoas reconhecem a qualidade do trabalho e, aos poucos, vamos voltando às rodas musicais. É um trabalho duro e de paciência, mas tenho certeza de que em pouco tempo estarei completamente de volta a música e tocando para muitas outras pessoas além dos amigos. Mas estes são fundamentais para segurar a onda nesse recomeço.


Recentemente você esteve fora do país fazendo o lançamento internacional do disco não foi?

DM - Sim, em Nova York, numa casa excelente, a SOB’s. Foi uma excelente oportunidade de testar um esquema que pretendo implementar daqui pra frente. Eu toquei com músicos locais: o Lucas Mortimer, que está por lá fazendo um curso de engenheiro de som, e uma turma de brasileiros formados na Berklee College of Music, de Boston, que é a melhor escola de jazz e música popular do planeta. O André Vasconcelos é um excelente guitarrista, que está atualmente morando em Nova York; e o Apoena Frota, baixista, João Nogueira, tecladista, e ainda com uma canja da Kel do Nascimento, na voz. Ficou muito bom, consistente, com apenas dois ensaios, essa turma tirou de letras minhas canções. É claro que eles se dedicaram a tirar as músicas antes dos ensaios, são super profissionais. Esse é esquema que pretendo implementar em outras cidades do mundo: reunir músicos locais, ensaiar e dar shows.


Há alguma coisa agendada para este segundo semestre que você poderia nos adiantar?



DM - Pois é, estamos tentando marcar shows para Hong Kong, Tóquio, Paris e Lyon, para esse segundo semestre, com esquema semelhante ao que rolou em Nova York. Vamos ver se vai dar certo. Tem também shows em Belo Horizonte e em Mariana, Minas Gerais.




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