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sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO, EM 1966, ACUSA MPB DE PRETENSIOSA E SUPERADA - PARTE 01

Músicos e compositores procuravam uma saída para o impasse 

Por José Teles



A turma da MPB que estaria no festival da TV Record em 1967  


A inquietação que desaguaria no que se batizou de tropicalismo iniciou-se em 1966, logo depois do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em que o primeiro lugar deu empate entre Geraldo Vandré e Théo de Barros (Disparada), e Chico Buarque de Holanda (A Banda). A MPB politizou-se e virou monotemática. O Nordeste onipresente nas canções de protesto, pano de fundo com catilinárias dirigidas contra os militares que assumiram a ditadura naquele ano, quando a linha dura do marechal Arthur da Costa e Silva tomou o poder.

A música popular (a universitária, dos festivais) chegara a um impasse. Estacionara numa encruzilhada, sem que se soubesse que caminho seguir. Estava entre o samba jazz, baiões, sambas, toadas, de letras que falavam num porvir, um futuro utópico. “Ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão (Viramundo, de Gilberto Gil e Capinam), com a devida retaliação ao opressor, “é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Aroeira, Geraldo Vandré). Caetano Veloso escreveria um antológico artigo na revista Civilização Brasileira, em que conclamava os companheiros a retomarem a “linha evolutiva da Música Popular Brasileira”. Ela seria retomada, um ano depois. Mas foi preciso o guru de todos os emepebistas, João Gilberto, vir dos Estados Unidos e dar um puxão de orelhas nos pupilos.

VIRADA DE MESA

No início de 1966, João Gilberto, então morando nos Estados Unidos, passou quatro meses no Brasil, entre Rio e Bahia e São Paulo (na casa dos pais de sua então mulher Heloísa Buarque de Holanda, que mais tarde faria sucesso como Miúcha, o apelido de família). Negou todos pedidos de entrevistas, até que resolveu conversar com o Jornal do Brasil. A matéria, assinada por Armando Aflalo, surpreendeu muitos, e irritou outros tantos. João Gilberto, o papa da bossa nova, influência maciça na geração que entrara em cena em 1964, não aprovava o que começava a se chamar MPB, e até teceu elogios à odiada (pela esquerda), Jovem Guarda.

João voltou para um Brasil muito diferente de 1958, quando deflagrou a bossa nova com Chega de Saudade, o chorinho de Tom e Vinicius, a qual ele deu uma roupagem nova, revolucionária. No Rio, visitou o Beco das Garrafas, dos lendários clubes noturnos, palcos de shows memoráveis, mas em decadência. Não encontrou mais ninguém conhecido por lá. E pior: nem foi reconhecido. Estava-se na fase dos combos de samba jazz, ou bossa instrumental, que considerou datada: “É pretensiosa, e até superada, porque estão querendo fazer um tipo de jazz que foi feito há uns 20 anos nos Estados Unidos, e porque, além de tudo, o fazem mal”, sentenciou o baiano.

Quanto à música brasileira que estava sendo exportada para os EUA, não foi menos severa sua crítica: “É melhor mandar músicas como as de um Jackson do Pandeiro do que o negócio desses meninos de hoje, que só servem para chatear o público”. Além de não procurar os velhos amigos da música, João não livrou a cara nem do incensado Edu Lobo. Considerou a música Arrastão, parceria de Edu com Vinicius de Moraes, “uma bobagem, demagogia”.

Quanto ao iê iê iê, que cada vez mais deixa nosso samba em segundo plano, João diz que não é contra ele, pois é uma música inocente, enquanto a bossa nova que os meninos estão fazendo hoje, esta sim é que prejudica o nosso desenvolvimento musical, porque é pretensiosa, sem autenticidade e sem espontaneidade”, resumia o artigo no jornal. 
 
 
NOVOS INVENTOS

João, um inventor, não aprovava os novos inventos da MPBM (Música Popular Brasileira Moderna, como se chamou por algum tempo a MPB): “... os músicos brasileiros são muito inconstantes. São ávidos demais em inventar novas coisas e por isso nunca terminam o que começam”. O cunhado Chico Buarque de Holanda foi dos poucos novatos que ele elogiou, depois de ouvir, a também cunhada, Cristina cantar Sonho de Um Carnaval: “Tão Brasil, não só o samba, mas este clima”. Tietado pelo violonista Toquinho, que frequentava a casa dos pais do amigo Chico, João deu uns conselhos: “A música é som, e o som não pode ser arrancado, tem que ser obtido naturalmente, suavemente. Quem gosta mesmo de tocar, estuda muito, e não larga nunca o instrumento”.

A entrevista começou meia-noite e se estendeu até oito da manhã, na casa dos Buarque de Holanda, em São Paulo. O repórter teve o privilégio de curtir João Gilberto repassar seus conhecimentos de música popular brasileira, algo que os principais produtores de shows do país não conseguiram. João Gilberto recusou todas as propostas que recebeu para fazer shows no Brasil. Durante a madrugada, até o dia amanhecer, entre uma e outra alfinetada na MPB, ele desfiou clássicos feito Faceira (Ary Barroso), Linda Morena (Lamartine Babo), Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha), Diz Que Vou Por Aí (M.Rocha/Zé Kéti) e Acalanto (Dorival Caymmi).

AOS 88, MORRE JOÃO GILBERTO, ÍCONE DA BOSSA NOVA

Artista faleceu na tarde deste sábado (6), no Rio de Janeiro


João Gilberto tinha 88 anos.

O cantor e compositor João Gilberto, um dos criadores da bossa nova, morreu neste sábado, 6, segundo uma postagem de seu filho João Marcelo nas redes sociais. A causa da morte ainda não foi confirmada pela família.

"Meu pai morreu. Sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz da perda da independência. Agradeço minha família por estar aqui por ele", escreveu o filho do cantor.

João Gilberto era o próprio violão. Calado para o mundo, ruidoso consigo mesmo, percutia as ideias em sua caixa de ressonância de forma que só quem estivesse próximo o escutasse. Na vida em monastério que adotou por anos, seguia invisível e em total silêncio, abrindo a porta de seu apartamento apenas para poucos, como a filha Bebel Gilberto, a ex-namorada Claudia Faissol e sua filha com ela, Lulu.

João não estava pronto para se tornar um gigante. Nunca entendeu bem o que era isso. Menino de Juazeiro da Bahia, nadou nas águas do São Francisco e beijou garotas da vizinha Petrolina como se fosse normal. E era, até o dia em que avistou um caminhão vindo por uma estrada que cruzada sua cidade. Ao amigo que o acompanhava, disse como se recitasse uma oração: "Veja lá aquele caminhão, que maravilha. As árvores estão acariciando sua cabeça " Árvores, pássaros, chuva, tudo parecia mais importante a seus olhos e ouvidos do que os próprios homens.

Mas a história estava em suas mãos. Filho do comerciante Juveniano Domingos de Oliveira e da católica Martinha do Prado Pereira de Oliveira, a Patu, João viveu em terras juazeirenses até 1942, aos 11 anos, quando seguiu para estudar em Aracaju.

Juazeiro ainda o teria de volta quatro anos depois, quando o violão que o pai lhe deu começou a ganhar as primeiras carícias. A Rádio Nacional lhe trazia o mundo e João flutuava ao som de Orlando Silva, Dorival Caymmi, Chet Baker e Carmen Miranda. O primeiro grupo, Enamorados do Ritmo, veio logo, e Juazeiro ficou pequena.

A cidade que o recebeu na sequência teria sério papel na formação de seu caráter artístico. Aos 18 anos, em Salvador, já trabalhava com carteira assinada na Rádio Sociedade da Bahia. Não havia ainda desenhado o formato voz e violão, mas seguia os mandamentos de Orlando Silva tentado imitá-lo, por mais que o moderno já fossem Dick Farney e Lúcio Alves. O grupo vocal Garotos da Lua o chamou e lá se foi, ainda sem a obrigação com o violão, gravar dois discos em 78 rotações.

O Rio de Janeiro fervia na segunda metade dos anos 50, e foi para lá que João seguiu, aos 26 anos, em 1957. Sem muitos recursos, seguia a trilha de quem queria ser alguém com um violão debaixo do braço. Cantou para quem poderia fazer a diferença, como o cantor Tito Madi, mas teve mais sorte ao cair nas graças do produtor e também violonista Roberto Menescal.

O violão de João virava a vedete. Bim Bom, uma das primeiras que apresentou aos círculos de artistas no Rio, já trazia o caminhão com a carroceria cheia. A levada uniforme deslocando acentos fortes para lugares incomuns, a harmonia abrindo picadas onde ainda ninguém havia passado, a mão que fazia acordes fazendo também percussão. E a voz. A voz de João deixava as tentativas da impostação e partia para o que fazia o trompetista Chet Baker quando cantava. Volume baixo e notas de longa duração, limpas, sem vibrato. João, depois de acreditar no violão, passava a ter fé no fio da própria voz.

E, então, fez-se a Bossa Nova. Era julho de 1958 quando Elizeth Cardoso aparecer com o disco Canção do Amor Demais, com músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Ao violão em duas das faixas, Chega de Saudade e Outra Vez, João Gilberto. E era só a ponta da cabeça de um baiano que se revelaria por inteiro um mês depois. Em agosto, João, já uma aposta de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Aloysio de Oliveira, grava seu próprio 78 rotações com Chega de Saudade e Bim Bom, gravado pela Odeon.

Se acabasse aqui, a missão de João já estaria completa. O que ele fez foi pouco e simplesmente tudo. Criou um violão brasileiro e, sobre ele, ajudou a fundar um gênero. Seguiu na formatação de sua proposta com o seguinte 78, em 1959, que trazia Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, e Hô-bá-lá-lá, música de sua autoria. E ainda traria seu LP Chega de Saudade, definindo-se como um acontecimento. "Em pouquíssimo tempo, (João) influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores", escreveu Tom na contracapa do disco.


Fonte: Estadão Conteúdo

VERDADE TROPICAL (CAETANO VELOSO)*

Verdade Tropical - Caetano Veloso


Roberto Santana me apresentou a Gil num encontro casual na rua Chile (eu ia sozinho no sentido praça Castro Alves - praça da Sé e eles dois vinham ao meu encontro) e nós todos nos sentimos inteiramente à vontade, cada um querendo falar mais do que o outro. Gil parecia tão feliz de me conhecer quanto eu a ele. Dir-se-ia que ele também vinha me vendo em algum vídeo transcendental e esperava por esse encontro tanto quanto eu. Meus elogios à sua técnica e musicalidade logo nos levaram à apreciação dos mestres da bossa nova (principalmente João, Jobim e Carlos Lyra), tema de nossa paixão comum, e a conversa (sem violões) dispensou um teste de minhas capacidades musicais para e stimular o interesse de Gil: ele se entusiasmava com observações de ordem geral que esclarecessem o significado da música - o que não é muito comum em músicos -, de forma que o que eu dizia já valia por uma boa sequência de acordes. Algumas vezes, ao longo dos anos, ouvi, comovido, Gil dizer que ao me encontrar se sentiu saindo de uma espécie de solidão: ao me ver e ouvir teve certeza de que achara verdadeira companhia. Tenho a impressão de que, por valorizar em mim uma visão de mundo que englobava a música, para a qual ele era tão dotado (eu próprio, a essa altura, não imaginava que me profissionalizaria
no setor) - uma visão que lhe parecia uma ampliação da sua mesma - , ele criou a imagem de mim como mestre e - como fazem os grandes quando julgam ver grandeza em quem admiram - relevou minhas deficiências ou melhor: interpretou-as sempre de forma a lhes dar um sentido superior. Viu, por isso, qualidades na minha música que possivelmente nenhum outro músico de talento igual ao seu veria então - e assim não apenas me estimulou e encorajou como também me ensinou tudo o que me era possível aprender, tornando-se, ele sim, meu verdadeiro mestre.
Não que Gil me desse aulas de harmonia ou de técnica violonística. Mas vê-lo tocar violão e cantar me desinibiu para a música como nada o poderia ter feito. O que me possibilitou arriscar-me a ampliar o repertório de acordes e de "batidas" no violão barato que minha mãe tinha me comprado e para cujo domínio eu não alimentava esperanças. Gil trazia o mistério celestial da beleza da bossa nova para o alcance dos meus dedos - eu me permitia apenas querer roçá-lo de leve: acreditava poder tirar uma lasquinha sem profaná-lo. Gil não se negava - ao contrário - a explicar as relações entre os acordes, a descrever o modo como se posicionavam os dedos ou ensinar -me harmonias de canções inteiras, mas fazia tudo isso casualmente, em meio às conversas despreocupadas. Hoje me assusta a rapidez com que progredi do básico tônica/dominante/tônica para acordes alterados e para a noção de vozes internas que caminham. Eu não tinha ideia do quanto estava me tornando mais "musical": julgava que apenas aprendia mal - na medida do meu talento imutável - um ou outro aspecto do saber musical a que Gil tinha acesso por direito congênito. Até hoje acho que a forma desequilibrada como trato a música - como autor e como ouvinte - (exibindo complexidade quando já não se espera senão primarismo, e ingenuidade quando a expectativa seria de sofisticação) se deve ao fato de eu ter me negado a me impor um método, por não ter em minha capacidade musical a fé que Gil tinha. Na verdade, nunca mais fiz progressos comparáveis àquela arrancada. Mas nada eu poderia hoje em música se Gil não reafirmasse essa sua fé a cada instante, apesar de mim mesmo. Gil tirou de mim muito mais música do que jamais sonhei poder engendrar.
Algumas vezes, apesar da felicidade de poder estar mais próximo de João Gilberto por causa dos ensinamentos de Gil, eu entrava em crise por não me achar no direito de fazer música. Uma das coisas mais deprimentes de um país desorientado em sua história - de um país incompetente como disse Hannah Arendt dos países subdesenvolvidos - é a incapacidade de se adequarem os talentos e os temperamentos dos indivíduos às funções que irão exercer. Há uma sensação de desperdício e frustração de que sempre tive consciência e contra a qual sempre quis me insurgir. Este é um ponto central de meus cuidados, foi do tropicalismo e permanece, para mim, irresolvido. Suponho que se eu vivesse em São Paulo ou no Rio teria concluído o curso de filosofia e talvez esse tivesse sido um caminho mais condizente. Ou - tivesse eu conseguido reunir forças para começar por fazer filmes antes de a música me agarrar - quem sabe minha mente generalista aliada a minha vocação visual de ex- pintor (e o pouco de música que haveria sempre) fariam de mim um cineasta mais eficaz do que posso ser músico. De todo modo, eu temia - e esse temor não morreu de todo - que minha entrada na história de nossa música antes a empobrecesse do que contribuísse para seu engrandecimento. No seu livro sobre a bossa nova, o jornalista Ruy Castro coloca o tropicalismo como tendo vindo para jogar a pá de cal na cova daquele movimento de requinte e refinamento. O primeiro pensamento que essa observação provocou em mim foi o de repetir meu velho exame de consciência - e para os mesmos resultados inconclusivos. Antes de Gil sair da Bahia para São Paulo em 65, um desses exames de consciência me fez dizer-lhe, de coração, que tinha decidido não mais fazer música. Gil foi enfático: "Se você não fizer música eu também não faço". E disse que não aceitava a hipótese, que não veria sentido em seguir sem mim. Isso era, para mim, a própria música falando. E recuei.
Gil é um mulato escuro o suficiente para, mesmo na Bahia, ser chamado de preto. Eu sou um mulato claro o suficiente para, mesmo em São Paulo, ser chamado de branco. Meus olhos são, sem embargo, muito mais escuros do que os dele. Por outro lado, embora fôssemos ambos da classe média, Gil, filho de médico (e com apenas uma irmã), conheceu alguns privilégios da burguesia com os quais eu, filho de funcionário público (e com sete irmãos), nem podia sonhar. Seu pai tinha carro e ele estudara em escola privada. As escolas públicas eram freqüentemente melhores do que as escolas privadas naqueles tempos em que o privatismo ainda não era uma mania. Mas se estudar em escola particular não era certificado de melhor educação, era sinal de status social. Gil tinha saído dos padres maristas para a Escola de Administração da Universidade da Bahia, o que denotava um projeto de reafirmação da posição social conquistada por seu pai. Ele se sentia perfeitamente à vontade entre seus colegas na maioria" brancos" saídos da burguesia propriamente dita, sem que isso entrasse em contradição com o ideário de esquerda que ele compartilhava com um bom número deles. A Escola de Administração, é claro, não era um reduto de comunistas. Mas Gil era muito mais parecido com um militante do que eu que estudava na Faculdade de Filosofia, com seus departamentos de Sociologia, Letras e História, onde a esquerda imperava. Nossas visões das questões políticas, no entanto, não diferiam muito no essencial. Nós nos encontráramos na música e não nos sentíamos distantes um do outro em nada mais: saudávamos o surgimento do CPC da UNE - embora o que fazíamos fosse radicalmente diferente do que se propunha ali – e amávamos a entrada dos temas sociais nas letras de música, sobretudo o que fazia Vinicius de Moraes com Carlos Lyra.
Gil nunca parecia consciente do fato de que era preto. Isso não o humilhava ou enaltecia: ele simplesmente se portava como um cidadão desembaraçado. Sua desenvoltura natural fazia com que a negritude nele correspondesse ao tom em que minha mãe se referira a ela. No final da década - sobretudo sob o impacto de Jimi Hendrix - Gil vestiu a máscara do negro com consciência racial, e essa nova persona, em vez de meramente ocultar o homem resolvido além dos conflitos, revelou conteúdos de mágoa e orgulho havia muito latentes sob o antigo véu. Era como se ele se tivesse longamente submetido à crença de que não era preciso bater no peito e gritar "sou negro!" ou protestar contra discriminações, considerando bastante ter uma vida digna e afirmar-se social e intelectualmente como fizera seu pai. Agora, com o aspecto black is beautiful" da cultura pop que ele abraçava como conseqüência de seu refinamento pessoal, ele encontrava africanidades em suas reminiscências domésticas e revolta contra os aspectos raciais da injustiça da sociedade brasileira. É revelador de profunda verdade sobre essa questão no Brasil o fato de Gil ter sido um exemplo perfeito de filho de "preto doutor" baiano e, à medida que os negros pobres foram dominando a paisagem humana da Cidade do Salvador com sua afirmação cultural popular pós-60, e, ao mesmo tempo, perdendo chances de se tornarem profissionais liberais por causa da intensificação das desigualdades sociais e da ruína da educação pública, ter se tornado um líder mítico dessas novas massas negras. Assim, o pequeno burguês bossa-nova de 63 é cantado pelos blocos afro dos anos 80 e 90 como aquele que ficou no lugar de Bob Marley na defesa de seu povo. A mudança de Gil em relação à questão do negro trouxe novo sentido à sua velha paixão por Jorge Ben. E os interesses musicais deste, no momento de deflagração da Tropicália, convergiam com os nossos. Nos anos 70, de volta do exílio londrino, aproximando-se ainda mais de Ben, Gil - que, ao contrário de mim, jamais gostara de Carnaval - fez uma música suplicando aos orixás que fizessem renascer o afoxé Filhos de Gandhi, seu único amor de infância do Carnaval de Salvador, um curiosissimamente lindo grupo carnavalesco surgido nos anos 40,
formado de homens, na maioria negros, vestidos à indiana, usando turbantes brancos, com um deles caracterizado como o líder hindu (óculos, bengala e tudo) a puxar um elefante de papelão sobre o qual uma criança negra também vestida a caráter desfila pelas ruas da cidade - tudo ao som de atabaques e agogôs saídos diretamente dos terreiros de candomblé. Gil compôs a música ao ver que só restavam uns dez ou doze teimosos filhos de Gandhi sem forças para fazer frente aos potentes trios elétricos (que a essa altura já apresentavam o frevo com pitadas de progressive rock, glitter e heavy metal), cuja vitalidade eu mesmo louvara numa marcha-frevo de 68 (o que lhes aumentara o poder). Dir-se-ia que os orixás atenderam os pedidos de Gil, pois o bloco já no ano seguinte saía com mais de mil componentes e até hoje só tem feito crescer em tamanho e garbo.
Isso estimulou o surgimento de novos afoxés que, por sua vez, já incluindo temas de afirmação racial em caráter político, deram lugar ao nascimento de blocos afro como o Ilê Aiy ê e o Olodum, hoje conhecidos nacional e internacionalmente pela vigorosa originalidade de suas baterias. O mito astrológico que diz serem os signos de Câncer e de Leão opostos e complementares - um, o Sol, o outro, a Lua; um condenado à explicitude, o outro, ao mistério - foi usado com proveito tanto por mim quanto por Gil para explicar nossa união e nossa diferença. Walter Smetak, o músico erudito suíço-baiano inventor de instrumentos e amante de esoterismos, dizia que nós éramos, juntos, a encarnação do arquétipo dos gêmeos. Nascemos os dois no mesmo ano de 42, com diferença menor do que um mês. Meu pai se chamava José e o pai dele se chamava José. Minha mãe se chama Claudionor e a mãe dele se chama Claudina. Mas os misticismos que entraram em moda a partir do final dos anos 60 não tomaram de todo conta das nossas cabeças (e da minha ainda menos do que da dele) e essas interpretações e coincidências só servem para enfeitar com toques curiosos nosso companheirismo renitente.
Quando Rogério dizia que "Gil é o profeta, Caetano é apenas seu apóstolo", isso me parecia verdadeiro sobretudo porque praticamente não houve nada de relevante que não fosse primeiro arriscado misteriosamente por ele para, depois de um tempo de elaboração, ser transformado por mim em algo mais perceptivelmente coerente. Foi assim com Jorge Ben; foi assim com o tropicalismo como um todo; foi assim com o reconhecimento da importância de São Paulo como cidade a tomar outra posição no imaginário brasileiro; foi assim com os procedimentos composicionais resultantes do que julgávamos ouvir nos Beatles; foi assim com Hendrix; foi assim com a descoberta do gênio de Milton Nascimento; foi assim com a nova cultura pop da Cidade do Salvador. Mas isso não quer dizer que eu (ou ele) sempre tivesse consciência de que trabalhávamos assim. Muito menos que nossas divergências de opinião e temperamento não nos levassem a expor (ou - o que tem sido sempre mais freqüente - calar) discórdias. Assim, se muitas vezes me senti recebendo os louros que lhe eram devidos e negados, não faltaram nem têm faltado momentos em que preciso desembaraçar minha inteligência e meu poder de discernimento das oscilações de sua intuição e da obscuridade de seu espírito a um tempo teimoso e ultrareceptivo. E ele também deve se cansar de me idealizar.
Talvez sua reação a Tropicália ou Pan is et circensis nascesse de uma defesa de seu ego contra o meu (hoje ouço as desafinações dos metais na primeira faixa com muito mais clareza do que então). Seja como for, nenhum de nós dois é egomaníaco o suficiente para deixar que problemas desse tipo se tornem maiores que a amizade ou a parceria.
Quando o disco ficou pronto, eu exultava com o êxito conceitual, mas o que me parecia um relativo avanço técnico soava como um retrocesso aos ouvidos de Gil. De todo modo, para Zé Agrippino, apenas a faixa dos Mutantes (o tratamento que eles deram à minha parceria com Gil "Panis et circensis") saia do limbo do subdesenvolvimento. De fato os Mutantes - por sua extrema juventude, começando a vida ao mesmo tempo que o neo-rock'n'roll inglês; por sua
condição de paulistas, vivendo na região mais rica e menos característica do Brasil; por sua familiaridade com equipamentos eletrônicos (o irmão mais velho dos dois rapazes é um inventivo engenheiro); mas sobretudo pelo talento dos irmãos Batista e da namorada de um deles - tinham um domínio da linguagem pop (sonora e visual: os teipes da época e alguns dos filmecos feitos com eles parecem produções atuais da MTV) que os distanciava tanto da MPB convencional quanto do iê-iê-iê e do próprio tropicalismo.
Eu achava, contudo, que em "Baby " por Gal e Duprat, ou em "Enquanto seu Lobo não vem" por mim, Gil e Duprat, havia alguma coisa de outra natureza e que me interessava mais. Algo mais fértil e para ser julgado por outros critérios que não o mero cotejo com a produção anglo-americana. O tropicalismo ganhou corpo na história da MPB como um conjunto de atos dos quais a colaboração com os eficientes e inspirados Mutantes foi um dos mais auspiciosos, mas o núcleo estava em outra parte. Depois que voltei de Londres, nos anos 70, Rita Lee se tornou, com um trabalho de excelente qualidade e grande sucesso, a roqueiramor do Brasil. E os Mutantes, sem ela, se inclinaram para o progressive rock, com competência para soar como o Yes ou o Emerson, Lake and Palmer.
Serginho sempre foi um virtuose e Arnaldo, bom instrumentista, um músico de forte marca pessoal; nesse período, juntaram-se a Liminha, um contra-baixista excepcional que, como eles, tinha trabalhado com Ronnie Von e, depois, comigo (e hoje é um produtor de primeira linha em termos mundiais), e formaram um trio que, se nunca se tornou comercial como Rita, elevou o nível técnico e de ambição do rock brasileiro e mesmo latino-americano.
O rock chamado "progressivo" não nos atraía. Amávamos e admirávamos os novos Mutantes sem compartilhar com eles do entusiasmo pelo tipo de música que eles elegeram. Mas a própria Rita trabalhando solo, com sua poesia, sua musicalidade, seu wit e sua elegância, trazia de volta a divisão entre MPB e rock que o tropicalismo tentara superar. A palavra-chave para se entender o tropicalismo é sincretismo. Não há quem não saiba que esta é uma palavra perigosa. E na verdade os remanescentes da Tropicália nos orgulhamos mais de ter instaurado um olhar, um ponto de vista do qual se pode incentivar o desenvolvimento de talentos tão antagônicos quanto o de Rita Lee e o de Zeca Pagodinho, o de Arnaldo Antunes e o de João Bosco, do que nos orgulharíamos se tivéssemos inventado uma fusão homogênea e medianamente aceitável. Somos baianos. Eric Hobsbawm, em suas apreciações do nosso "breve século XX" escreveu que, desde o entreguerras, "no campo da cultura popular [e dando, curiosamente, o esporte como única exceção em que se destaca o futebol brasileiro como "arte"], o mundo era americano ou provinciano". Isso era um dado que os tropicalistas não queríamos negar. Tampouco queríamos encarar com rancor ou melancolia. Reconhecíamos a alegria necessária que há em alguém achar-se participando de uma comunidade cultural urbana individualista universalizante e internacional. Os pruridos nacionalistas nos pareciam tristes anacronismos. Ao mesmo tempo, sabíamos que queríamos participar da linguagem mundial para nos fortalecermos como povo e afirmarmos nossa originalidade. O mero aggiornamento era pouco para nós. Sobretudo porque víamos (ou imaginávamos) que a oposição "americanos ou provincianos" estava – ou estaria, se agíssemos acertadamente - em vias de se modificar. Desse modo embora ainda hoje Rita nos dê lições de profissionalismo e atualidade, o fato é que a Tropicália sugere um horizonte de problemas que é enriquecido por trabalhos como o dela, mas isto não quer dizer que ela os resolve. Na concepção do disco Tropicália ou Pan is et circensis havia um plano, este sim totalmente tropicalista, de gravar uma velha canção brasileira em tudo e por tudo desprestigiada. Era a supersentimental "Coração materno", um dos maiores sucessos de Vicente Celestino, o melodramático compositor e cantor de voz operística cuja brilhante carreira remontava aos anos 30 e incluía, além de inúmeros discos de sucesso, operetas e filmes, como o recordista de bilheteria O ébrio de 46. "Coração materno" conta a história de um jovem camponês que se vê obrigado a entregar à sua amada, como prova de amor, o coração da própria mãe. O matricídio se dá enquanto a velhinha está ajoelhada diante de um
oratório. O jovem, depois de rasgar-lhe o peito e extirpar-lhe o coração, corre para a amada levando-o nas mãos. Na estrada, tropeça e cai, quebrando uma perna. Do coração da mãe, que tinha sido atirado longe, sai uma voz que pergunta: "Magoou-se, pobre filho meu?", e, num último e extremo golpe comovedor, exorta: "Vem buscar-me que ainda sou teu".
Em 67 Vicente Celestino estava praticamente esquecido e seu estilo – o extremo oposto do que viera dar na bossa nova - era indefensável. A melodia do "Coração materno", como todas as outras de Celestino, era para nossos ouvidos um mero pastiche de ária de ópera italiana. A idéia de gravar essa canção me ocorrera por ela ser um exemplo radical do clima estético acima do qual nós nos julgávamos alçados altamente. Mas essa era uma história que, em vários planos, era mais arcaica do que podia parecer. A minha primeira lembrança de patrulhamento do gosto - ou de educação estética por meio da humilhação; ou de esnobismo
cultural - remonta à infância remota, entre os quatro e os seis anos, quando meus irmãos riram de mim por eu externar admiração por Vicente Celestino, suas melodias, sua grande voz. Já então, nos anos 40 - pelo menos dentro de minha família – os dramalhões cantados com voz empostada eram considerados ridiculamente vulgares. Lembro que a vergonha que senti foi funda e, sem dúvida, a marca indelével que deixou, disciplinou minha sensibilidade. Cresci para desgostar de ópera italiana e suas imitações, e ainda hoje, quando se trata de canto lírico, tenho prazer total com sopranos e contraltos e quase nenhum com tenores e barítonos. (Curiosamente, tanto Gil quanto Milton Nascimento têm, nesse particular, gosto igual ao meu). O amaciamento da emissão e a flexibilização do fraseado que Orlando Silva legou a João Gilberto foram e são meu critério preferencial de julgamento do canto. Mas nunca esqueci de todo as canções de Vicente Celestino, que eu já sabia cantar quase antes de falar. Para gravar o "Coração materno" não precisei propriamente reaprender a canção, tive
apenas que conferir a gravação original para evitar eventuais erros tópicos. E lembrava melhor dela (que era indiscutivelmente a que melhor servia aos propósitos tropicalistas) do que de qualquer outra de Celestino. 
Por outro lado, ao ler o romance Spartacus, quando ainda no curso clássico, em Salvador, deparara-me com o drama do campônio matricida narrado por um personagem de dois mil anos atrás como sendo, para ele, uma velha história. Impressionou- me, à época, que esse conto popular pudesse ter se mantido igual em todos os detalhes por tantos séculos. Nunca verifiquei se de fato essa já era uma história corrente na Roma antiga ou se ela fora inserida no romance artificialmente pelo seu autor, que talvez a conhecesse de outras fontes. O fato é
que esse conto, usado por Vicente Celestino para comover multidões como exemplo do desprendimento materno - e que reencontrei em Terrible honesty, de Ann Douglas, recontado pelo psiquiatra Frederic Wertham para explicar o impulso matricida como decorrente da necessidade que tem o filho macho de se libertar de um amor materno demasiadamente sufocante -, mostrou -se representativo não apenas da sensibilidade das massas brasileiras, mas da própria natureza de toda cultura popular.
O arranjo que Rogério Duprat fez para essa canção é uma das maiores vitórias do tropicalismo. Excelente orquestrador, Duprat criou uma atmosfera de ópera séria (sem, no entanto, deixar de lembrar trilhas de filmes de Holly wood), restituindo dignidade e conferindo solenidade à canção execrável, o que fazia ressaltar minha interpretação assustadoramente sincera e sóbria. No que diz respeito a meu canto, ali eu reconheço profundas influências, algumas inconfessadas, que marcam meu estilo e lhe fazem a fama até hoje: notadamente Silvio Caldas (o anti-Celestino, em sua emissão cheia de "verdade" intensa e despretensiosa) e o radiador Roberto Faissal (aos meus ouvidos ele tinha aquelas mesmas características de Caldas ainda mais acentuadas, e lembro de declamar, sozinho, aos treze anos, letras inteiras de músicas de que eu gostava - inclusive o Hino Nacional! - imprimindo-lhes o tom de Faissal, sua convincente certeza, o que às vezes me levava às lágrimas; essas declamações serviam de treinamento para, depois, cantar as canções com mais precisão e segurança). O resultado da combinação do arranjo de Duprat - que inicialmente se funde aos tiros de canhão da faixa anterior - e minha "leitura" (Caldas, Faissal etc. me autorizariam o uso da palavra sem as aspas) da letra de Celestino é uma peça que comove porque faz o ouvinte passar, consciente ou inconscientemente, por todas as referências que pude explicitar aqui - e por tantas outras que não pude. Estou escrevendo estas notas sem o disco à mão. Na verdade, faz muito tempo
que não o ouço. Assim como não reouvi nenhum dos discos tropicalistas (fosse o meu, o de Gil, o de Gal ou o dos Mutantes) para fazer os comentários. Tampouco procurei Zé Celso ou algum arquivista em busca de fotografias da montagem de O rei da vela (na verdade há um filme, feito pelo próprio Zé). Talvez o vestido de Heloisa de Lesbos no terceiro ato fosse todo branco e não todo preto. 
Tropicália ou Pan is et circensis abre com uma composição de Gil e Capinan chamada "Miserere nobis", em cuja letra reconheço o embrião da poética mineira dos anos 70: as referências católicas, as imagens nobres envolvendo um compromisso político mais pressuposto do que explicitado, a dicção solene. Num nível sempre extraordinariamente mais alto do que seus seguidores, Capinan prefigurou toda a lírica "participante" pós-tropicalista. Mas foi Torquato quem escreveu, também sobre uma música de Gil, a letra que para muitos se tornou, mais do que a própria "Tropicália", da qual ela tirava a sugestão, a letra-manifesto do movimento: "Geléia geral". Começando com uma referência direta à figura do poeta ("o poeta desfolha a bandeira"), inventariando signos do trópico ("bananas ao vento", "calor girassol") e da vida brasileira (o Jornal do Brasil, Miss Brasil, a "Carolina" de Chico Buarque), citando Oswald de Andrade literalmente ("a alegria é a prova dos nove"), popularizando a expressão "geléia geral" (cunhada, como já contei, por Décio Pignatari no texto que tanto me impressionara num número da revista Invenção), pondo lado a lado o folclore tradicional brasileiro e o folclore urbano internacional ("ê bumba iê-iê boi, ê bomba iê-iê-iê"), "Geléia geral" apresentava a versão de Torquato do tropicalismo. Ela pode ter servido para alguns como uma espécie de "Tropicália" facilitada, mas, sublinhada pela melodia vivaz de Gil, trazia a leveza do lirismo de Torquato, a fluência de seus versos e de suas imagens, a melancolia fingidamente escondida - além, é claro, da para mim muito importante afirmação da dimensão poética do movimento, aqui inscrita na atitude que precede a decisão de escrever os versos singelos e não, como no caso de Capinan, no esforço de adensamento da poeticidade dos próprios versos





* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

"AS PELES DE GAL": OMAR SALOMÃO, FAOUR E BRENO GÓES REVIVEM GAL COSTA NOS ANOS 60 E 70 – PARTE 02

Dando continuidade a decupagem da carreira de Gal Costa, a eterna musa da contracultura, Rodrigo Faour bate um papo com o poeta Omar Salomão e o músico Breno Góes sobre os discos e performances de Gal durante os anos 80 até 2010.


“Aquarela do Brasil”, com arranjos modernos de Ary Barroso;
“Profana”, disco de sucesso estrondoso, com letras difíceis e nova gravadora;
“Bem Bom”, sucesso de vendas, sendo o disco mais vendido da cantora, onde ela canta com Tim Maia;
“O Sorriso do Gato de Alice”, que fecha um ciclo da carreira de Gal, mesclando a música com o teatro;
“Recanto”, uma volta de sua essência fatal.

Então “entra na roda, morena, pra ver: Ô balancê, balance” de Gal Costa no MPB COM TUDO DENTRO!


sexta-feira, 5 de julho de 2019

CANÇÕES DE XICO


NÃO DIGO

vem e tá chegando …

embrulhado num pingo de chuva,
amarrado numa bula de remédio,
‘apregado’ no suor do matuto …

vem, chega já, já
no fumacê do cigarro,
no pincinês do ‘ ceguim’,
no vidro de merthiolate no fundo da bolsa …

vem, eu já tô vendo
escondido na pestana de uma puta,
‘amontado’ na boléia de uma mula,
no algodão de um cotonete …
vem, e já chegou
chegou das bandas de lá,
e não me pergunte o que é …
eu sei mas não digo!

"AS PELES DE GAL": OMAR SALOMÃO, FAOUR E BRENO GÓES REVIVEM GAL COSTA NOS ANOS 60 E 70 – PARTE 01

Em 1945 nascia na Bahia de todos os Santos uma das vozes mais “Estratosférica” do Brasil, a “Baby Gal” Maria da Graça Costa Penna Burgos. Principal voz da Tropicália, Gal Costa, tornou-se a musa da contracultura com suas pernas abertas, flor no cabelo, violão nos braços e uma sensualidade selvagem que emanava de seu ser artístico através de uma voz sem igual. 


E “De tantos amores” da música brasileira, Rodrigo Faour escolheu falar desta que, “A todo vapor”, construiu e permanece construindo seu império musical “Plural” e sem muros, na terra de riquezas mil.

Nesta entrevista, o jornalista recebe dois grandes amigos e artistas da nova geração, Omar Salomão e Breno Góes, para falar sobre “A Pele do Futuro”, disco recente de Gal que traz composições dos músicos como “Palavras no corpo” e “Cabelos e unhas”, em parceria também com Silva e Moska. O vídeo ainda conta com execuções das canções pelos autores e traz recordações de vídeos onde a artista solta a voz para o mundo ouvir.

Aperte o play e sinta a F-A-T-A-L-I-D-A-D-E de Gal Costa!


quinta-feira, 4 de julho de 2019

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Ai ai amor

Composição: Ciro de Sousa - Rubens Campos.

Intérprete - Nelson Gonçalves

Ano - 1943

Álbum - Victor 8-0037-B



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

CURIOSIDADES DA MPB

Depois de uma viagem para divulgar a música brasileira no exterior, Ataulfo resolve criar a ATA (Ataulfo Alves Edições) e passa a editar suas próprias músicas.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

HANNA - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Apresentando projetos em homenagem a um dos maiores nomes da história da música brasileira de todos os tempos, Hanna vem se destacando ao redor do mundo levando o que há de melhor de nossa música 

Por Bruno Negromonte


Resultado de imagem para cantora hannaRadicada no Exterior já faz algum tempo, a alagoana Hanna tem ganho merecido destaque ao levar a música popular brasileira mundo afora. Além dessas apresentações, a cantora nos presenteia com registros fonográficos que vão para além do convencional ao prestar uma sincera e merecida homenagem a João Gilberto, um dos nomes mais reverenciados da música popular brasileira ainda vivo. Em meio as polêmicas envolvendo o nome do cantor, compositor e instrumentista baiano; Hanna segue por outro viés ao apresentar o álbum duplo "O Amor É Bossa Nova - Vol. 2 -  Homenagem a João Gilberto", como foi possível conhecer a partir da pauta apresentada aqui mesmo no Musicaria Brasil intitulada "QUANDO A TÔNICA VAI MUITO ALÉM DO GÊNERO". Hoje a artista volta ao nosso espaço para um bate-papo exclusivo onde aborda questões referentes à carreira, projetos entre outros detalhes que você poderá conferir logo abaixo. Excelente leitura!


Como se deu o seu envolvimento com a música? Eu nunca fiz aula de canto para aprender a cantar. Recebi esse dom de Deus. Canto desde 6 anos. Minha mãe Julia ela tinha uma belíssima voz. Creio que ganhei dela essa belíssima herança. Há alguma influência familiar?

Hanna - Sim minha mãe Julia. Tenho uma filha Christine Valença. Ela é também cantora e atriz como eu, esse dom minha filha já ganhou creio que de mim. 


Em sua biografia consta já na mais tenra idade a sua participação em programas de calouro ainda em Maceió. Em que aspectos essas incursões musicais foram determinantes para você dar continuidade a carreira artística?

Hanna - Sim. Aos 6 anos idade. Eu fazia muito sucesso me apresentando num Programa de Calouros Mirim, que tinha aos Domingos na Radio Difusora de Maceió. Nesse Programa eu fui eleita a Rainha da Radio. Foi a partir dessas apresentações que eu descobri que o meu futuro seria ser uma cantora. Nas minhas orações eu sempre pedia a Deus que um dia eu seria uma cantora. Acho que Deus me ouviu.


Você vem de uma região musicalmente muito favorecida que é o Nordeste. Suas maiores influências na música são nordestinas?

Hanna -Eu a música nordestina. Adoro o Rei do Baião, o Mestre Luiz Gonzaga, assim como tambem adoro Gonzaguinha. Eu gravei um álbum nós em nós com musicas de Jards Macalé, Luiz Melodia, Caetano Veloso, etc. Nesse álbum eu gravei uma música inédita do Gonzaguinha. o nome da música é Vestidinho de Festa. A música é o ar que eu respiro. Eu amo a música.


Antes de dar início a carreira de cantora você estudou teatro e atuou em novelas, programas de TV e filmes. O que a fez desistir da carreira de atriz? Não era possível conciliar as câmeras com o microfone à época?

Hanna - Sim. A dificuldade da luta de uma atriz é imensa. Depois de muita luta eu resolvi abraçar a música e atuar interpretando com alma cada canção e começar a carreira de cantora, fui morar em Paris e lá nos Clubes de Jazz comecei a cantar a Bossa Nova em ritmo de Jazz com músicos franceses. Temporadas e Temporadas em Grandes Clubes de Jazz. Minha voz rouca com um timbre único me fez entrar na música em Paris.


Sua carreira sedimentou-se em definitivo no Exterior (tanto que você recentemente ganhou o título de Embaixadora do Turismo do Rio de Janeiro). Como é carregar essa responsabilidade mundo afora?

Hanna - Grande Honra pra mim representar a cidade do Rio de Janeiro no Mundo! Eu amo o Rio de Janeiro. Amo o Brasil.


Conte-nos, se possível, um pouco sobre a curiosa história envolvendo o rei do Marrocos. 

Hanna - Meu Show foi um Grande Sucesso. Fui convidada em Paris para me apresentar no Hotel Mamounia em Marrakech. Na estreia tive a honra da presença do Rei de Marrocos que me presenteou com flores. No final do Show ele me agradeceu. 


Pautada em músicas voltadas para os ouvidos mais atentos como é o caso da Bossa Nova, a sua carreira nunca foi de grande alcance popular. Você acredita que a opção por seguir esse caminho acaba, de certo modo, “elitizando” a sua arte?

Hanna - Sim. O João Gilberto está muito feliz com essa minha homenagem a ele. Me agradeceu muito. Ele disse HANNA o seu nome é lindo. Você é perfeita. Eu chorei de emoção ao ouvir essas palavras de João Gilberto, que autorizou duas músicas de sua autoria que são Ho ba lá lá e Bim Bom. Gravei Bossa Nova e tenho muito orgulho dela ser música eletizada. Gravei para um público exigente e que ama a boa música. Pra mim é uma Vitória.


Dar continuidade à abordagem de um dos mais representativos nomes da música brasileira de todos os tempos é sinal de que o primeiro projeto deu certo. Tanto que o próprio João deu o aval para a gravação de duas de suas composições neste segundo volume. Como o João recebeu a notícia tanto do primeiro quanto do segundo tributo?

Hanna - João Gilberto está muito feliz a minha Homenagem a ele. Ele é muito rígido com a obra dele a Bossa Nova. Ele me agradeceu muito. Ele me disse HANNA você é Perfeita. Sei que estou resgatando a Bossa Nova do João Gilberto para o Mundo. Pretendo lançar o meu CD O amor é Bossa Nova Vol. 1 e Vol. 2 em Paris, New York, Japão. É uma luta que hei de vencer.


E pincelar canções de um repertório irrepreensível? Como se de deu o seu critério de escolha?

Hanna - Interpretei a Bossa Nova bem suave como pediu o meu Mestre João Gilberto. Selecionei todo o repertório que João Gilberto eternizou no Mundo. Selecionei um total de 23 clássicos da Bossa Nova, não acreditava que todas as autorizações. Para a minha surpresa, foram autorizadas todas as músicas solitadas. Eu resolvi gravar todas as 23 músicas. Fiz um album duplo com todos os 23 clássicos da Bossa Nova eternizados pelo mundo pelo Mestre João Gilberto que são:

O amor é Bossa Nova Vol. 2 Homenagem a João Gilberto.

CD 01.
01 - Eu vim da Bahia
02 - Aquarela do Brasil
03 - Bim Bom
04 - Falsa Baiana
05 - Eu quero um samba
06 - Corcovado
07 - Avarandado
08 - Tin Tin por Tin Tin
09 - O Samba da minha terra
10 - Pra quê discutir com Madame
11 - Retrato em Branco e Preto

CD 02.
01 - Triste
02 - Você e eu
03 - Ho ba lá lá
04 - É preciso perdoar
05 - Águas de março
06 - Da cor do Pecado
07 - Desde que o samba é samba
08 - Fotografia
09 - Insensatez
10 - Lígia
11 - Caminhos cruzados
12 - Eu sei que vou te amar


Sua agenda já conta com shows de lançamento desse novo projeto como o que ocorreu no Rio de Janeiro recentemente. Como serão as apresentações a partir desse segundo semestre?

Hanna - No segundo semestre farei mais um Show no Brasil e logo em seguida partirei para New York, depois para Paris!




MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

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Bezerra da Silva

terça-feira, 2 de julho de 2019

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Mulher do fim do mundo

“A mulher do fim do mundo / Dá de comer às roseiras, / Dá de beber às estátuas, / Dá de sonhar aos poetas. // A mulher do fim do mundo / Chama a luz com assobio, / Faz a virgem virar pedra, / Cura a tempestade, / Desvia o curso dos sonhos, / Escreve cartas aos rios, / Me puxa do sono eterno / Para os seus braços que cantam” (Murilo Mendes, “Metade pássaro”, 1941).
Lendo esse poema de Murilo Mendes e ouvindo o novo disco de Elza Soares, lembramos das palavras de Octavio Paz em O arco e a lira: “Poesia e religião são revelação. Mas a palavra poética não precisa da autorização divina. A imagem se sustenta sozinha, sem necessidade de recorrer à demonstração racional nem à instância de um poder sobrenatural: é a revelação de si mesmo que o homem faz a si mesmo”. O sujeito poético de Murilo Mendes antecede e antever a mulher do fim do mundo que Elza Soares é. O poema de 1941 revela a mulher de 2015, numa dessas torções temporais que só a arte consegue promover.
Há canções que parecem que só podem ser entoadas por determinadas vozes. A essas canções, essas vozes conferem legitimidade. Ou autoridade, para usar o termo usado por Paz. Seja ao sujeito da canção - à mensagem da letra -, seja ao sujeito cancional - ao ser que surge na frente do ouvinte durante a audição daquela canção entoada daquele modo por aquela voz (daquele alguém cancionista).
O ano de 2015 gerou duas dessas canções: “Átimo de som”, composta por Zé Miguel Wisnik e Arnaldo Antunes e gravada por Gal Costa no discoEstratosférica, e “Mulher do fim do mundo”, composta por Romulo Fróes e Alice Coutinho e gravada por Elza Soares em A mulher do fim do mundo. Que outra voz pode dizer, do modo como diz, que “um átimo de som / num átomo de ar / pode ser capaz de disparar / o que sente o pensamento / o que pensa a sensação / antes mesmo de virar canção”, senão a voz de Gal Costa? Que outra voz pode dizer “na chuva de confetes deixo a minha dor / na avenida deixei lá / a pele preta e a minha voz / (...) / mulher do fim do mundo / eu sou / eu vou / até o fim / cantar”, senão a voz de Elza Soares?
Elza é a mulher do fim do mundo profetizada e revelada na poesia de Murilo Mendes. A presença de Elza “tem por bandeira um pedaço de sangue / onde flui a correnteza do canal do mangue”, como diz “Coração do mar”, poema de Oswald de Andrade, cantado à capela por Elza Soares na abertura do disco. “É o navio humano, quente, negreiro do mangue / é o navio humano, quente, guerreiro do mangue”, completa o poema do poeta antropófago.
Em seguida entram o instrumental e a narrativa estilhaçada da canção “Mulher do fim do mundo”. Como se a cada piscar de olhos, a cada esquina essa mulher encontrasse um novo e desconcertante significante - “Pirata e super homem cantam o calor / Um peixe amarelo beija minha mão / As asas de um anjo soltas pelo chão”. A mulher que canta e chora Lupicínio Rodrigues caminha na avenida em dia de carnaval, revirando os resíduos da festa e revelando o trágico para além da máscara. A voz de Elza Soares humaniza o ouvinte cujas máscaras sociais querem esconder a dor, o hedonismo e a hipocrisia, típicas do humano dito contemporâneo e, mesmo, moderno.
Se, como escreveu Octávio Paz, “a poesia não é um juízo nem uma interpretação da existência humana”, a palavra cantada em Elza Soares contra interpreta-se revelando criticamente o genocídio (de negros) e o feminicídio naturalizados na cultura brasileira. A vocoperformance de Elza Soares recria o sujeito criado pelos compositores, ao inserir a cantora no conteúdo. Ou melhor: sua forma de cantar é conteúdo, porque forma é conteúdo e a artista-humana sabe disso. O que ela canta é vida, porque é arte, é invenção maturada no/do ser.
Podemos utilizar o conceito de palimpsesto para tratar da voz de Elza Soares. As várias camadas de tempo, raspadas para dar lugar a outros tempos (passado, presente e futuro), do pergaminho servem de metáfora e metonímia à performance vocal. E podem ser percebidas na condensação plena de arranhões da voz de Elza Soares. Porém, diferente do papiro que perdia a informação antiga para dar lugar à informação nova, Elza não apaga o antigo. Sua voz aglutina e deixa tudo à mostra, à audição do ouvinte. Sua capacidade de reutilização do suporte dá vida a seres que não medem esforços para cantar.
Nesse sentido, podemos dizer que Elza raspa a história, sobrepõe significantes sonoros ao tempo e reinventa-se como pessoa e como cantora. Se é que uma está apartada da outra. E faz isso conectada com as novas sonoridades, com as pesquisas de cancionistas que aprenderam muito com ela. Isso é estar aberta à vida: aprender com aqueles que com ela aprendeu. Afinal, “a mulher do fim do mundo / dá de sonhar aos poetas”, escreveu Murilo Mendes.
Tudo dói. E Elza termina o disco evocando a mãe. Elza sabe que faz parte de uma história que começou há muito tempo e que continua e persistirá tiranizando toda a existência: “É o navio humano, quente, negreiro do mangue / é o navio humano, quente, guerreiro do mangue”. Elza Soares é um ser cantante a nos tirar do sono eterno, do conforto dominical, é sereia do mangue a ameaçar: “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Dura na queda, ela dá a volta por cima, devora a dor, faz da dor o motor da luz e vai cantar até o fim: “Lá, lá, lá / lá, lá, lá”.


***

Mulher do fim do mundo
(Romulo Fróes / Alice Coutinho)

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qual é
Pirata e super homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do

Resto 
Dessa 
Vida
Na avenida 
Dura 
Até 
O fim

Mulher 
Do fim 
Do mundo
Eu sou 
Eu vou 
Até o fim 
Cantar




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

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