A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 3) – Chega a ser irônico que Joyce Moreno, cantora e compositora carioca de importância fundamental na revolução feminina feita na MPB em 1979, tenha atravessado aquele ano sem lançar álbum.
Contudo, o fato é que o álbum que projetou definitivamente a artista, Feminina, somente foi gravado e lançado em 1980. E nenhum romantismo norteou a gravadora EMI-Odeon na decisão de bancar o disco. Joyce teve reabertas as portas da masculina indústria fonográfica brasileira somente por questão comercial.
É que tantas músicas de autoria da artista estavam sendo gravadas e lançadas com sucesso em 1979 que ficou óbvio para o mercado que era preciso dar voz a essa cantora e compositora que, sozinha, em 1967, tinha feito a própria revolução ao defender em festival uma música, Me disseram, escrita sob ótica feminina com direito a um controvertido "meu homem" inserido em um dos versos da letra.
Naquele efervescente ano de 1967, Joyce fez a hora sem esperar acontecer. Mas foram precisos 12 anos para o público se liberar e, sob os ventos da abertura política que começaram a soprar em 1979, se permitir admirar e cantar o cancioneiro feminino de Joyce – na época, ainda sem o 'Moreno' que somente iria incorporar ao nome artístico a partir de 2009.
Joyce em 1980, ano em que lançou álbum com canções propagadas em 1979 — Foto: Reprodução / Álbum 'Feminina'
Atentos aos sinais, grandes intérpretes da MPB começaram a gravar músicas de Joyce quase simultaneamente ao longo de 1979. Maria Bethânia incluiu no álbum Mel a composição Da cor brasileira, em cuja letra (da parceira Ana Terra) o macho nacional foi perfilado com ternura e consciência femininista.
Já o Quarteto em Cy incluiu a emblemática composição Feminina no álbum Quarteto em Cy em 1.000 kilohertz. Samba que batizou o álbum lançado por Joyce em 1980, Feminina exemplifica com perfeição a mudança no cancioneiro feminino. Na MPB, a mulher já podia celebrar o gosto de ser mulher e de questionar a posição feminina no mundo (ainda) dos homens.
Lançada por Elis Regina (1945 – 1982) no álbum Essa mulher, a canção homônima, música de Joyce com letra de Ana Terra, tocou fundo nessa questão ao perfilar com poesia densa a cantora que era também mãe, fêmea, dona de casa. Mulher, enfim.
Reforçando o coro, Ney Matogrosso propagou a liberdade do corpo e o gosto pelo prazer ao registrar Ardente no álbum Seu tipo. Mesmo sem obter o sucesso de canções como Mistérios (Joyce Moreno e Maurício Maestro), lançada por Milton Nascimento em 1978 e regravada pelo grupo Boca Livre em 1979, Ardente sublinhou o progressista discurso musical de compositora que libertou a mulher da culpa e da dor entranhadas no cancioneiro de desbravadoras antecessoras como Dolores Duran (1930 – 1959) e, sobretudo, Maysa (1936 – 1977).
Atualmente com 71 anos, essa mulher carioca, feminina, chamada Joyce Moreno, contribuiu decisivamente para que as sucessoras pudessem ter voz ativa na música do Brasil, já livres do jugo historicamente machista do mercado fonográfico.
Álbum saiu primeiro no Japão e a artista critica: ''falta de política cultural decente'' e lamenta descaso do Brasil com sua produção musical
Por Ana Clara Brant
Para Joyce Moreno, a música é a palavra dançando na boca do cantor. A frase não só resume o que a cantora e compositora carioca pensa a respeito da canção, como define seu mais novo disco, Palavra e som, lançado pela Biscoito fino. Quando foi batizar o trabalho, essa ideia não era a mais recorrente, mas nem por isso deixou de se encaixar perfeitamente à proposta. “A música é feita de palavra e som. No meu caso, a melodia brota espontaneamente; basta pega no violão que ela vem. Depois vem o processo da palavra, que é mais lento. Palavra e som acabam sendo a conclusão do meu processo de composição. Por isso escolhi essa faixa para encerrar o projeto”, comenta.
Lançado primeiramente no Japão, no ano passado, onde Joyce é conhecida há pelo menos 30 anos, o álbum traz 13 músicas inéditas que refletem o atual momento da autora de Clareana e Feminina. “Componho compulsivamente, mas demoro para montar um repertório. Quando fui escolher quais entrariam no disco, dei preferência para aquelas em que eu tinha feito letra e música. Claro que muita coisa ficou de fora, mas as músicas refletem muito do que eu queria dizer e os assuntos que mais me interessam atualmente”, afirma.
SAMBA
Na faixa de abertura Joyce exibe sua ginga e sua ligação de longa data com o samba. No mistério do samba foi a única feita por encomenda. Maria Rita pediu a canção para integrar o disco Coração a batucar (2014). Um dos destaques é a belíssima Forrobodó das meninas, dedicada a Chiquinha Gonzaga. “Toda mulher gosta dessa música”, observa. Outra figura feminina, Nossa Senhora, é celebrada em Ave Maria serena, cuja letra diz: “Ave maria serena/ Tantas Marias morenas/ Vêm te pedir proteção/ Maria, mulher sagrada/ Dentre as mulheres amada/Padroeira da nação”. Das 13 canções, apenas três foram feitas em parceria: Dia lindo, com João Cavalcanti, e que conta com o vozeirão de Dori Caymmi; Casa da flor, ao lado de Paulo César Pinheiro, e O poeta nasce feito, com Torquato Neto.
Em 2000, Joyce deu uma entrevista a Ziraldo que provocou certa polêmica. A cantora afirmou que a canção, no formato que todos conheciam, havia acabado. Chico Buarque fez análise semelhante em 2004. A artista chegou a se arrepender da declaração, mas acredita que o auge da canção, esse sim, já passou. “A música é uma forma muito específica de arte. O século 20 foi o século da canção e, hoje em dia, a gente só acha coisa boa pelas frestas, meio underground. Temos uma cena criativa bem atuante no país, mas ninguém está na grande mídia que, infelizmente, é movida por outras questões, como o agronegócio, a igreja evangélica”, lamenta.
Joyce Moreno diz ainda que, lá fora, o interesse pela boa música brasileira é crescente e que acha uma pena isso não ocorrer por aqui. “É um tesouro brasileiro que a gente está deixando escapar. E não há interesse, porque há anos não temos uma política cultural decente. É triste, porque é um valor que é sonegado à população. Você chega numa escola e ninguém conhece Chico Buarque, Elis Regina, Tom Jobim. O Gil tem uma frase que acho que resume muito bem isso: ‘O povo sabe o que quer. Mas o povo também quer o que não sabe.’ Deixar o mercado dirigir o que você pode ou não ouvir é antidemocrático”, desabafa.
Produzido por Joyce e Roberto Menescal para Albatroz Produções
Direção artística: João Augusto
Concepção do projeto: Tulio Feliciano
Gravação e mixagem: Marcio Menescal
Assistentes de gravação: Marcelinho da Lua, Bernardo Sombrinha e Frank Araújo
Assistente de produção: Adriana Mamede
Fotografia: Marisa Alvarez Lima
Assistente: Bruno Alves de Lima
Maquiagem: Dhu
Cabelo: Werner
Fotos dos convidados: Marcelo Jesuíno e Marluce de Azevedo Albino
Capa e projeto gráfico: Egeu Laus
Todos os arranjos de Joyce exceto 'Da cor brasileira' e 'Minha gata Rita Lee' por Joyce e Roberto Menescal, 'Aldeia de Ogum' por Gilson Peranzetta e 'Clareana' por Maurício Maestro
Gravado em DDD no Studio 126, Rio de Janeiro, primavera de 1993
Faixas:
01 - Outras mulheres (Paulo César Pinheiro - Joyce) 02 - Cartas do exterior (Joyce) 03 - Stone washed (Monique Hecker - Joyce) 04 - Da cor brasileira (Ana Terra - Joyce) 05 - Mistérios (Maurício Maestro - Joyce) 06 - Aldeia de Ogum (Joyce) 07 - Clareana (Maurício Maestro - Joyce) 08 - Monsieur Binot (Joyce) 09 - Minha gata Rita Lee (Joyce) 10 - Duas ou três coisas (Joyce) 11 - Essa mulher (Ana Terra - Joyce) 12 - Mulheres do Brasil (Joyce) 13 - Feminina (Joyce) 14 - Capitão (Joyce - Fernando Brant)
A artista carioca vem gravando dois álbuns: um voltado para a Bossa Nova e outro acústico, de piano e voz
Por Bruno Negromonte
Prestes a completar cinco décadas de carreira, Joyce Moreno não pára de produzir. Depois de ter lançado "Tudo" em 2012 a cantora e compositora carioca apresenta este ano mais dois projetos fonográficos voltados para atender tanto ao mercado brasileiro quanto o seu massivo público ao redor do mundo. "Raiz", que conta com a participação de Roberto Menescal, é um trabalho voltado para a Bossa Nova, movimento este que influenciou de modo substancial o trabalho da cantora e compositora. O trabalho, feito sob encomenda para o mercado japonês (com previsão de lançamento também na Europa) contará com canções como 'Desafinado' (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça), Tamba' (Luiz Eça), 'Cartão de visita' (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes), 'Madame quer sambar' (Roberto Menescal, Carlos Lyra e Joyce Moreno), O Barquinho' (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli) e contará com a participação dos paulistas Hélio Alves ao piano e Rodolfo Stroeter no baixo. Já o segundo trabalho a ser lançado foi gravado nos Estados Unidos ao longo do último mês de março e trata-se de um dos projetos mais intimistas da artista, pois Joyce une a sua voz ao piano do norte-americano Kenny Werner.
Público ajudou a definir repertório no final de shows realizados na capital paulista; cantora assina sozinha oito das 13 faixas
PorAilton Magioli
Apesar de a compositora sustentar a cantora, como ela gosta de dizer, nem sempre Joyce Moreno lança um disco autoral como 'Tudo'. “Meu último 100% foi 'Gafieira moderna' (2001), seguido de 'Banda maluca', dois anos depois, com apenas três canções que não eram minhas”, diz ela.
Joyce avisa: é compositora, antes de tudo. “Isso, desde o primeiro disco, além do fato de intérpretes como Elis Regina, Milton Nascimento, Gal Costa, Ney Matogrosso, Nana Caymmi e Fafá de Belém gravarem minhas composições”, acrescenta. “Disco autoral não se lança a toda hora”, pondera, lembrando que necessita de um tempo para o “buquê certo” de canções vir à tona com algo que justifique a combinação entre elas. Em 45 anos de carreira, já são mais de 30 álbuns.
Originalmente lançado no Japão, 'Tudo' chega simultaneamente aos mercados europeu e norte-americano pelo selo Far Out Recordings. Em iniciativa inédita em sua carreira, a cantora, além de pesquisar via internet, consultou o público de seus shows para saber que disco lançar. O inédito 'Rio', com canções sobre a Cidade Maravilhosa, está na fila aguardando uma boa data para chegar a público.
“'Rio' traz até uma inédita ('Rio meu'). Na verdade, é um disco com regravações e raridades, como o trecho da 'Sinfonia Rio de Janeiro' (Tom Jobim-Billy Blanco) que gravei”, relata Joyce. A cantora promoveu votação ao final dos shows, em São Paulo, com canções dos dois álbuns. “Foi interessante. Tanto a pesquisa virtual quanto a real deram, em média, 90% de votos favoráveis ao CD de inéditas. É bacana ver a ansiedade por repertório novo”, revela.
Para ela, há excesso de regravações na MPB. “E isso não é de hoje”, acrescenta. O motivo é o fato de as pessoas se dizerem sem paciência para o repertório inédito. Mas algo mudou. “Agora é diferente. As inéditas têm provocado impacto no público. As pessoas costumam sair dos shows assobiando as músicas”, comemora.
Briga
Nos anos 1970/1980, intérpretes brasileiras brigavam pela produção dos compositores. “Se você gravava uma inédita, tinha de escondê-la até o lançamento do disco” ,relembra. Ela mesma agiu assim. “Quando fiz 'Monsieur Binot', escondi-a da Elis Regina, porque sabia que ela iria gravar e se apropriar da canção”, confessa Joyce. “Hoje, ninguém procura músicas novas. Tudo ficou muito estranho, você não vê criatividade, nada que seja realmente interessante”, afirma.
A cantora e compositora não perdoa os hits contemporâneos. “Você liga a TV e ouve eu quero tchu, eu quero tcha. É a trilha sonora da barbárie, que fala de sentimentos primários. Os profundos deixaram de ser importantes para a música”, acredita. Mas Joyce avisa que esse não é o seu caso. “Se quiser uma música, vou lá e faço”, conclui.
Bossa nova com galope
Em 'Tudo' (Biscoito Fino), Joyce assina oito canções. O repertório vai do samba ao jazz, passando por galope nordestino, choro e bossa nova clássica. Joyce estreia parcerias com Nelson Motta ('Estado de graça') e Teresa Cristina ('Sem poder dançar'), além de se manter fiel a velhos companheiros, como Paulo César Pinheiro ('Quero ouvir João' e 'Dor de amor é água') e Zé Renato ('Pra você gostar de mim'). Com o ex-Boca Livre, divide os vocais de 'Dor de amor é água'. Sozinha, fez 'Boiou', 'Puro ouro', 'Aquelas canções em mim', 'Claude et Maurice', 'Trianguelingue', 'Domingo de manhã', 'Choro do anjo' e a faixa-título. “A cada dia esse disco se mostra mais atual, porque prega a tolerância. O Brasil vive um momento de grande intolerância. É importante, portanto, bater neste tecla: falar e ouvir o outro.”
No Dia Internacional da Mulher o site MPB.com me pediu um texto sobre os 30 anos de lançamento do meu disco 'Feminina', seus desdobramentos e reflexos no nosso cancioneiro. Passado já um mês da publicação pelo site, peço licença aos leitores para reproduzir este texto aqui no blog.
Em 1980 minha vida estava mudando. Depois de um período de parada quase total das atividades musicais, por conta do nascimento de minhas filhas, voltei a compor direto, vi minhas músicas serem gravadas pelas mais importantes vozes do Brasil e finalmente fui convidada a gravar um disco meu pela EMI-Odeon. Este disco se chamaria "Feminina", e seria um marco em meu trabalho e em minha vida.
Para começar, porque pela primeira vez, eu tinha o controle absoluto do meu próprio trabalho. Tudo ali era pensado e criado por mim: as músicas, os arranjos básicos, os violões, os vocais, a maioria das letras, as idéias, o conceito. Pois era um disco autoral e conceitual, e refletia exatamente tudo o que eu queria dizer naquele momento, a partir do discurso no feminino singular, que no comecinho de minha carreira fora quase que apedrejado em praça pública. Enfim, era uma mulher assumindo o controle.
Quase todos os meus maiores sucessos de carreira estavam contidos naquele LP. Muitas daquelas canções já haviam sido gravadas por Elis, Milton, Nana, Bethania, Boca Livre e outras vozes. Mas ainda havia coisas inéditas, e com uma destas, "Clareana", fui classificada no Festival MPB-80 e explodi nacionalmente, no mesmo palco onde fora vaiada 13 anos antes ao cantar "já me disseram/ que meu homem não me ama". A menina de 19 anos que dizia "meu homem" em 1967 era chocante demais para o Brasil daquele momento. Mas a mãe que em 1980 cantava o amor por suas meninas estava livre para ser amada pelo povo brasileiro, àquela altura já cascudo por declarações de cama, mesa e banho, feitas por 10 entre 10 novas cantoras que chegavam na MPB aos borbotões.
Essa dicotomia santa/devassa sempre me incomodara na música brasileira, e eu não queria estar em nenhuma das duas posições. Por isso mesmo tinha feito, com minha parceira Ana Terra, músicas como 'Essa Mulher' e 'Da Cor Brasileira'. E propunha uma reflexão mais abrangente do assunto em 'Feminina', um samba-jazz-quase mandala, de mãe pra filha e de filha pra mãe, questionando se 'o cabelo, o dengo, o olhar' teriam mesmo tanta importância assim na construção da nossa identidade.
Hoje ninguém mais se assusta com mais nada, graças a Deus, e nós mulheres podemos inclusive pegar o bonde de volta pra casa e parir, criar, trabalhar, amar, fazer ou não fazer tudo isso ou nada disso, conforme nossa escolha. Tenho certeza de que a música brasileira foi importante nesse movimento. E cada vez que vejo no YouTube uma criança cantando 'Clara, Ana e quem mais chegar', ou um coral de meninas cantando "ô mãe, me explica, me ensina"', ou Maria Rita revivendo 'Essa Mulher' com lágrimas nos olhos, ou Maria Bethania cantando 'é o homem da cor brasileira, a loucura, a besteira que dorme comigo" - quando vejo tudo isso, sei que ter gravado o "Feminina" há 30 anos atrás teve alguma participação na construção do nosso imaginário feminino.
JOYCE - FEMININA (1980)
Faixas:
01 - Feminina (Joyce)
02 - Mistérios (Joyce / Maurício Maestro)
03 - Clareana (Joyce)
04 - Banana (Joyce)
05 - Revendo Amigos (Joyce)
06 - Essa Mulher (Joyce / Ana Terra)
07 - Coração de Criança (Joyce / Fernando Leporace)
Em texto no encarte, Joyce Moreno (como agora passou a assinar) diz que o projeto desse novo disco, "Slow music" (Biscoito Fino), começou a surgir há cerca de dez anos, após conhecer o "Slow food manifesto", lançado por um chef italiano, Carlo Petrini, que reagia contra o avanço no mundo da "fast food". Transportado o conceito para a música, na qual os silêncios e as pausas passam a ter tanta importância quanto os sons, com as bênçãos e as referências da cantora Shirley Horn, do pianista Bill Evans e do papa bossa-novista João Gilberto - ela dedica o álbum aos três -, o quarteto de Joyce (voz, violão e arranjos), Hélio Alves (piano), Jorge Helder (baixo) e Tutty Moreno (bateria) passeia com delicadeza e invenção por 12 canções.
O repertório, no qual predomina o formato de baladas, alterna originais de Joyce e parceiros com clássicos de diferentes origens. Além da abordagem musical "vagarosa", o tema das letras tem em comum o amor, mas, como a cantora frisa, fugindo das "canções de amor desesperado, daquelas de cortar os pulsos, pelo contrário: queria canções que tivessem o agridoce, o claro-escuro, a dúvida, a ironia, o questionamento." Numa de suas composições inéditas, fechando o CD, "Valsa do pequeno amor", Joyce dialoga com um clássico de Chico Buarque, que também gravou agora, "Samba do grande amor": "O grande amor/ (...)/ é tenebroso, é embriagador / Mas só se mostra inteiro em esplendor / Pra quem viveu / quem teve o seu pequeno amor".
Entre as antigas, há lugar para bolero ("Esta tarde vi llover", de Armando Manzanero), samba-canção e bossa nova ("Medo de amar", letra e música de Vinicius de Moraes; "Olhos negros", de Johnny Alf e Ronaldo Bastos; "Amor, amor", de Sueli Costa e Cacaso; e "O amor é chama", de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) e standard ("But beautiful", de Burke e Van Heusen, gravada por, entre outros, Sinatra, Billie e Bill Evans).
A faixa-título e de abertura do CD (com letra em inglês de Robin Meloy Goldsby) é o manifesto de Joyce, que rema contra a corrente da "junk music": "You listen and sigh, and nothing slips by / 'Cause time doesn't fly, it flows...". E, além do conceito, bela canção, para ser apreciada sem correria, como toda essa "slow music".
FAIXAS:
01 - Slow Music (Joyce Moreno/ Robin Meloy Goldsby)
02 - Amor, amor (Sueli Costa/ Cacaso)
03 - Medo de amar (Vinicius de Moraes)
04 - Essa tarde vi llover (Armando Manzanero)
05 - Convince Me (Joyce Moreno/ Robin Meloy Goldsby)
06 - Nova ilusão (Zé Menezes e Luis Bittencourt)
07 - Samba do grande amor (Chico Buarque)
08 - O Amor é chama (Marcos Valle e Paulo Sergio Valle)
09 - But Beautiful (J. Burke e J. Van Heusen)
10 - Olhos Negros (Johnny Alf e Ronaldo Bastos)
11 - Sobras da partilha (Joyce Moreno E Paulo César Pinheiro)
Leio que Jane Fonda, 71 anos, que também tem seu blog, tem escrito sobre a passagem do tempo e como administrá-la. Estava inclusive começando a escrever um livro sobre o assunto, quando lhe apareceu uma temporada na Broadway, oito espetáculos por semana. Melhor, impossível. Não há como se ficar deprimida com um ritmo de trabalho desses. God bless.Sempre me pergunto, por exemplo, como foi que minha mãe aguentou a aposentadoria, depois de 38 anos de trabalho diário de 09 as 05. Ela ia`a praia, nadava, lia muito, ajudava a mim e a meus irmãos quando precisávamos de algum suporte com nossos filhos e filhas. Também tinha seus momentos de nostalgia do trabalho no Ministério da Fazenda, conversando com antigas colegas e descobrindo novas formas de investir dinheiro (talento que infelizmente não herdei), o que para ela era diversão garantida. Era uma pequena investidora de classe média, mas extremamente esperta. Se dispusesse de mais capital, teria ficado rica, mesmo naqueles tempos de inflação. Nessa ela foi levando seu tempo ocioso, até os 90 anos de idade. Lúcida e fazendo
palavras cruzadas.Enfim, minha mãe e Jane Fonda, personalidades totalmente incompatíveis, entraram neste post como uma improvável mistura de siri com Toddy, por causa da repórter. Ela me procurou para uma matéria sobre o dia internacional da mulher. Já estou acostumada com isso, e respondo meio no piloto automático: esta é uma data em que, de alguma forma, sempre sou lembrada pra falar sobre o meu, o dela, o nosso genero. Ia eu, portanto, seguindo pela estrada costumeira, quando me dei conta de que não, ela não queria falar sobre meu trabalho, e sim sobre minha faixa etária.Tomei um susto, pois ainda não me tinha caído a ficha de que ao ultrapassar a singela marca dos 60, além dos beneficios da meia-entrada, recebemos o bônus de ser considerados cidadãos de terceira idade. Levei uns trinta segundos para me refazer, ao fim dos quais, depois de explicar `a minha entrevistadora que não se fazem mais velhos como antigamente, disse a ela mais ou menos o seguinte:Cara repórter: sei que o que você quer ouvir de mim se refere a tudo o que no momento não me interessa. Sei também que o motivo de você me procurar para esta alentada entrevista é o fato de eu ter entrado, assim de um dia para o outro, em idade provecta, ainda usando jeans e tênis. Você quer saber meus truques de beleza, meus segredos de sobrevivencia, quer que eu sirva de exemplo para outras senhoras na mesma faixa etária. Acho que não vai dar, sorry. Você me pergunta como me sinto aos 61 anos. E eu lhe afirmo, com toda sinceridade: não faço a mínima idéia. Não faço mesmo, e isso não é uma frase de efeito. Está aí um assunto que ainda não me tinha passado pela cabeça. Como me sinto? Deixa eu pensar um pouco. Um pouco mais esperta, possivelmente. Somos tão bobinhas na juventude. Mas posso garantir que me sinto mais capaz do que nunca quando o assunto é o meu trabalho. O que eu sei hoje sobre o meu ofício, eu não sabia há quarenta, trinta ou vinte anos atrás. Cada dia que passa é um dia em que conheço um pouco mais de mim mesma e redesenho meu lugar no mundo. Se estou mais ou menos feliz com isso, é outra questão. Uns dias estou, em outros quero fugir voando para uma praia do Caribe e arrumar um emprego num bar de hotel. Sério.E o amor, você pergunta? Ah, l’amour! Oui, bien sûr, é muito bom, é bom demais, mas você não quer saber sobre amor, confesse. Amor aqui na entrevista é assim uma espécie de nome artistico para sexo, certo? Pode dizer logo. Você não usa a palavra porque acha que vai me escandalizar, mas foi você quem ficou chocada ao saber que eu durmo com o mesmo homem há trinta anos e ainda acho ótimo. Aliás, se durmo é justamente porque ainda acho ótimo. Ficou confuso pra você? Pois é, eu avisei. Não se fazem mais velhos como antigamente.
Joyce Silveira Palhano de Jesus nasceu no Rio de Janeiro, em 31 de Janeiro de 1948, filha de Zemir Silveira Palhano de Jesus e Helge Arvid Johnston (dinamarquês radicado no Brasil). Os pais se separaram antes de seu nascimento e Joyce foi registrada pela mãe como filha de seu primeiro marido, Luiz Antonio Palhano de Jesus, com a concordância deste. Zemir, funcionária pública, criou a filha sozinha, assim como seus dois filhos do primeiro casamento.
Nascida e criada na Zona Sul do Rio (no Posto Seis, em Copacabana), Joyce estudou do primário ao então curso Clássico no Colégio São Paulo, escola católica situada em Ipanema. Começou a tocar violão aos 14 anos de idade, observando seu irmão, o guitarrista, bancário e advogado recém-formado Newton, 13 anos mais velho, e amigo de músicos da bossa nova como Roberto Menescal e Eumir Deodato. Por sua casa, nesse período, passaram outros grandes músicos da época, todos da turma do irmão: além de Menescal e Eumir, Luiz Carlos Vinhas, Leny Andrade, os irmãos Castro Neves e muitos outros. Também alguns desses músicos fizeram parte do Bingo Sete, conjunto de baile liderado por Newton, como o baterista João Palma, o baixista Sérgio Barroso Neto e o próprio Eumir, que nos primeiros tempos do conjunto tocava acordeon. Assim, a adolescente ia se familiarizando com as últimas novidades da bossa-nova e abrindo os ouvidos para as harmonias novas que surgiam.
Em 1964, aos 16 anos, participou pela primeira vez de uma gravação em estúdio, no disco do grupo vocal "Sambacana", com músicas de Pacífico Mascarenhas, convidada por Roberto Menescal. A partir daí, sempre a convite do amigo, gravou alguns jingles produzidos por ele. Na mesma época, começa a compor. Tudo era ainda visto como brincadeira, e a música como profissão, um sonho distante.
Ainda que autodidata, ia fazendo seus progressos no violão, chegando a dar aula(para alguns alunos desavisados, pois a professora jamais tivera uma aula sequer). Mais tarde, aos 18 anos, logo depois de ser aprovada no vestibular para Jornalismo, finalmente iniciou seus estudos formais de música: primeiro com Jodacil Damaceno (violão clássico e técnica), em seguida com Wilma Graça (teoria e solfejo).
Cursando Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro, em 67 Joyce ingressaria como estagiária no que era a meca dos aspirantes a jornalista da época: o Caderno B do Jornal do Brasil. Ali, Joyce viria a conhecer (e trabalhar com) alguns dos grandes da profissão, que seria sua alternativa, caso o sonho de fazer música não desse certo. A experiência no JB foi enriquecedora e interessante, mas seria interrompida por uma série de eventos que culminariam na sua primeira contratação por uma grande gravadora.
Em 1967, classificou sua canção "Me disseram" no II Festival Internacional da Canção (RJ), que iniciava com a frase "Já me disseram/ que meu homem não me ama". A canção provocou grande polêmica na época, por ter a letra escrita na primeira pessoa do feminino, o que ainda não tinha sido feito por nenhuma das pouquíssimas compositoras brasileiras até então. A compositora estreante de 19 anos foi criticada como "vulgar e imoral" por alguns jornalistas, como Sérgio Porto, enquanto outros, como Nelson Motta e Fernando Lobo, a defendiam pela "postura feminista" - coisa que, na época, ela não tinha a menor idéia do que fosse: queria apenas se expressar no seu gênero, como vira antes em artistas como Billie Holiday e Edith Piaf.
No ano seguinte (1968), finalmente o esperado início de carreira: lançou pela Philips seu primeiro LP, "Joyce", produzido por Armando Pittigliani, com arranjos de Gaya e Dori Caymmi e texto de apresentação assinado por Vinicius de Moraes na contracapa. No repertório, cinco músicas suas e mais seis inéditas de autores amigos seus, tão ou quase tão iniciantes quanto ela: Paulinho da Viola, Marcos Valle, Francis Hime, Caetano Veloso, Jards Macalé, Toninho Horta e Ronaldo Bastos.
Em 1969, gravou seu segundo disco, o LP "Encontro marcado", primeira incursão de Nelson Motta como produtor. Os arranjos foram de Luiz Eça. Fez sua primeira viagem internacional como profissional da música, apresentando-se ao lado de Edu Lobo no Teatro Villaret, em Lisboa.
Graduou-se em Jornalismo pela PUC-Rio em 1970. No mesmo ano fez parte do grupo Sagrada Familia, liderado por Luiz Eça, que ficou em temporada de dois meses no México, no Hotel Camino Real. Ao retornar da turnê, casou-se com o compositor mineiro Nelson Angelo, também integrante do grupo.
Entre 1970 e 1971, fez parte, juntamente com Nelson Angelo, Novelli, Toninho Horta e Naná Vasconcelos, do grupo vocal e instrumental A Tribo, chegando a gravar algumas faixas no disco "Posições", lançado pela Odeon, e um compacto duplo seu, pela mesma gravadora.
Em 1973 gravou, com Nelson Angelo, o LP "Nelson Angelo e Joyce", único registro profissional da cantora no período compreendido entre 1971 e 1975, quando se dedicou exclusivamente às filhas Clara e Ana, nascidas em 1971 e 1972, respectivamente.
Em 1975, recém-separada, retomou a carreira, substituindo o violonista Toquinho, ao lado de Vinicius de Moraes em turnê pela América Latina. Com o sucesso das apresentações, foi convidada para participar dos shows do poeta pela Europa, já com Toquinho de volta ao grupo. A temporada gerou, na Itália, a gravação do LP "Passarinho urbano", produzido por Sérgio Bardotti para a etiqueta Fonit-Cetra, em 1976. Nesse disco, a cantora interpretou músicas de compositores brasileiros que naquele momento estavam tendo sua obra censurada pela ditadura militar, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo, Maurício Tapajós e o próprio Vinicius de Moraes, entre outros. O disco teve lançamento discreto no mercado brasileiro no ano seguinte.
Em 1977, apresentou-se em temporada de seis meses em Nova York, gravando mais um LP internacional, "Natureza", em parceria com Maurício Maestro. O disco, com produção e arranjos do maestro alemão Claus Ogerman e participação de músicos de jazz, como Michael Brecker, Buster Williams e Joe Farrell, não chegou a ser comercializado. Dele constavam algumas canções de Joyce que mais tarde se tornariam emblemáticas em sua carreira, como "Feminina" e "Mistérios". Apenas duas faixas deste disco viriam à luz, muitos anos depois: "Feminina", incluída na coletânea "A Trip to Brazil II", de 1999, e "Descompassadamente", incluída por Claus Ogerman em sua caixa de 4 CDs "Claus Ogerman - The Man Behind the Music", lançada em 2002.
A temporada novaiorquina, em 1977, teria ainda conseqüências importantes na vida pessoal: o encontro com o baterista baiano Tutty Moreno, radicado em NY na época, com quem se casaria e teria mais uma filha (Mariana, nascida no Rio em 1979).
A partir de 1979, Joyce começa a ter suas músicas gravadas por outros intérpretes como Milton Nascimento, Elis Regina, Maria Bethânia, Boca Livre, Nana Caymmi, Quarteto em Cy, Joanna, Fafá de Belém e Ney Matogrosso, entre outros. O sucesso de suas composições em outras vozes mais conhecidas fez com que a gravadora EMI-Odeon se interessasse em contratá-la para um projeto próprio.
Em 1980, participou do Festival de Música Popular Brasileira da TV Globo, classificando "Clareana", canção de ninar escrita em Roma, em 1976, para suas filhas (e que já sugeria a caçula Mariana, que só
nasceria três anos depois, no verso"... Clara, Ana e quem mais chegar..."). Nesse mesmo ano, lançou o disco "Feminina", com destaque para a canção título e para "Clareana", sucesso de vendagem e responsável pela primeira grande exposição de Joyce na mídia.
Ainda na década de 1980, lançou os discos "Água e luz" (1981, que continha o hit "Monsieur Binot") "Tardes Cariocas" (1983, uma produção independente que receberia no ano seguinte o prêmio Chiquinha Gonzaga, para os melhores lançamentos fora do circuito das gravadoras), "Saudade do futuro" (1985) com participação de Milton Nascimento, "Wilson Batista: o Samba Foi Sua Glória" (1986, com o sambista Roberto Silva), "Tom Jobim: anos 60" (1987 - uma homenagem, com Gilson Peranzzetta, aos 60 anos de vida do compositor, que escreveu o texto de contracapa), "Negro demais no coração" (1988, um tributo a Vinicius de Moraes com participações especiais de Caetano Veloso, Maria Bethânia e Moraes Moreira, indicado ao Premio Sharp de Musica nas categorias Melhor Cantora e Melhor Disco de MPB), e "Joyce ao vivo" (1989).
No ano de 1985 iniciou parceria com o diretor de show musicais Túlio Feliciano. O primeiro show de Joyce dirigido por Túlio, "Quadrantes", marca uma nova postura da artista em seu trabalho de palco: um espetáculo de voz e violão, com cenários criados pelo grafiteiro paulista Alex Vallauri e grafitados pela própria Joyce durante o espetáculo. No ano seguinte a parceria prossegue com o show "Saudade do Futuro", no teatro Ipanema, e seguiria em frente pelo resto da década.
Entre os anos de 1985 e 1987, foi indicada e fez parte do CNDA - Conselho Nacional de Direito Autoral - ao lado de colegas compositores como Gonzaguinha, Fernando Brant e Mauricio Tapajós, todos militantes dos direitos de autor desde os tempos da Sombrás, representando a classe musical em Brasília.
Paralelamente, o trabalho internacional de Joyce recomeça a se desenvolver. Inicialmente em 85, com convites para apresentações em Moscou (no Festival da Juventude) e no Japão (Yamaha Festival), e logo depois com apresentações na Europa, começando pela França e pela Bélgica, com shows no Theatre de La Ville, em Paris, e diversos festivais de jazz. Iniciava-se aí uma produtiva carreira de show e turnês na Europa e no Japão que perdura até hoje.
Contratada pela tradicional gravadora americana de jazz Verve, lançou em 1990 o disco "Music Inside" e, no ano seguinte, "Language and Love" (com participação especial do legendário Jon Hendricks), cuja versão em português, feita especialmente para o mercado brasileiro, se chamou "Línguas e Amores". Ambos os discos foram gravados em Nova York.
Em 1993, realizou na The Fridge (Londres, Inglaterra), para um público de 2.000 pessoas, o primeiro show de um artista brasileiro no circuito acid-jazz. Este show abre novas perspectivas na carreira de Joyce, com a redescoberta de seu trabalho pelos DJs ingleses, cuja repercussão se estendeu mundialmente, levando o natural suingue acústico de sua música para as mais antenadas pistas de dança do mundo. Entre as músicas "redescobertas" por esse novo e jovem público, "Feminina", "Baracumbara" e principalmente, "Aldeia de Ogum", que se tornaria um grande hit na cena de música eletrônica.
No ano seguinte, a EMI-Odeon lançou o CD "Revendo amigos", songbook de seus sucessos na voz de outros intérpretes. Entre os convidados, Gilberto Gil, Gal Costa, Ney Matogrosso, Emílio Santiago, Wanda Sá, Sandra de Sá, Beth Carvalho, Boca Livre, Clara Moreno, Gilson Peranzzetta, Fátima Guedes e Chico Buarque. Na produção, o velho amigo Roberto Menescal.
Ainda na década de 90, gravou os discos "Delírios de Orfeu" (1994, com participação de Mario Adnet), "Live at the Mojo Club" (1995, gravado ao vivo no Mojo Club de Hamburgo, Alemanha, para uma platéia de 1.000 pessoas), "Sem você" (1995, uma parceria com Toninho Horta em segunda homenagem a Tom Jobim, logo depois de sua morte), "Ilha Brasil" (1996, um disco autoral, o primeiro de inéditas em muitos anos).
Em 1995, participou do primeiro tributo a Tom Jobim, realizado em Nova York, no Carnegie Hall. Em 1996, também em NY, fez parte do elenco que se apresentou na premiação do Songwriter's Hall of Fame - elenco que incluía, entre outros, Liza Minelli, Tony Bennet e James Brown.
Em 1997, publicou o livro "Fotografei Você na Minha Rolleyflex", uma coletânea de crônicas e histórias da música popular brasileira a partir do ponto de vista da compositora. A excelente recepção da imprensa para este lançamento faz com que, entre 1998 e 2000, Joyce atue como cronista semanal do jornal "O Dia", numa retomada da antiga paixão pelo jornalismo.
Em 1998 gravou em Nova York o disco "Astronauta", um tributo a Elis Regina. Este disco teve participação de músicos brasileiros, como Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, Guello, Dori Caymmi e Romero Lubambo, e jazzistas americanos, como Joe Lovano e Mulgrew Miller, além da pianista canadense Renee Rosnes. A combinação sonora valeu uma indicação para o Grammy Latino de 2000, como melhor CD de música brasileira.
Em 1999 grava mais um disco autoral: "Hard Bossa", sua primeira parceria com a gravadora inglesa Far Out, que prosseguiria com êxito nos anos seguintes.
Diversificando as atividades, criou e apresentou, durante os anos de 1999/ 2000, o programa "Cantos do Rio" (produção da MultiRio, empresa de multimeios da prefeitura do Rio, e exibido nesta primeira fase pela TVE), dedicado a mostrar o Rio de Janeiro e seus músicos. Este programa, de grande repercussão de público e imprensa, teria ainda uma segunda fase em 2002, com exibição pela TV Bandeirantes RJ. Entre os convidados das duas fases, que deram seus depoimentos e trocaram figurinhas musicais com a apresentadora, artistas como Hermeto Pascoal, Época de Ouro, Paulo Jobim e Lisa Ono, Elton Medeiros, D. Ivone Lara, Milton Nascimento e Naná Vasconcelos, Edu Lobo, Carlos Lyra, João Donato, Roberto Menescal, Billy Blanco, Zélia Duncan, Marcos Valle e Ed Motta, Paulinho Moska e Mauricio Carrilho, Leila Pinheiro e Zezé Gonzaga, Herminio Bello de Carvalho, Doris Monteiro e Tito Madi e muitos outros, além de programas gravados no Jongo da Serrinha, no forró em São Cristóvão, no teatro Rival, na Mangueira, na Lapa, e onde mais a música brasileira brotasse em solo carioca. O fim do programa mereceu página na internet criada pelos espectadores e matérias na imprensa reivindicando sua volta.
Algumas músicas suas foram utilizadas em trilhas sonoras de filmes de Hollywood: "Tema Para Jobim" (parceria de Joyce com o saxofonista Gerry Mulligan) seria usada, na gravação original de Joyce e Milton Nascimento, na trilha do filme "O Jogador", de Robert Altman. Tempos depois, a base da gravação de Joyce para seu tema "Aldeia de Ogum", sampleada pelo grupo de hip-hop Blackeyed Peas (e remixada com um refrão de Sting), ganhou o novo título de "Magic" e também foi usada na trilha do filme "Legalmente Loira".
Divulgando a música brasileira em seguidas turnês internacionais, ministrou workshops, em 2000, no Rytmisk Konservatorium de Copenhagen (Dinamarca) e em Soweto (África do Sul, onde também participou do Festival Arts Alive em Johannesburgo). Também em 2000, gravou o disco "Tudo bonito", que contou com a participação de João Donato - a partir daí, um parceiro constante.
Nascida Joyce Silveira Palhano de Jesus, teve seu nome alterado para Joyce Silveira Moreno, no dia 5 de maio de 2001, em função do registro civil de seu casamento com Tutty Moreno, depois de 24 anos de união informal. Nesse mesmo ano, lançou o CD "Gafieira Moderna", outra produção autoral, mais uma vez pela Far Out, que sairia no Brasil no ano seguinte pela Biscoito Fino. O CD teve a participação especial de Elza Soares e inovou, trazendo uma faixa-bônus com um curto videoclipe, para ser visto através de computador.
Em 2003, a convite da premiada compositora de trilhas Yoko Kanno, Joyce participou da trilha sonora do anime "Wolf's Rain", exibido na TV japonesa.
Ainda em 2003, lançou pela Far Out o CD "Just a Litte Bit Crazy", que na edição brasileira teria o título de "Banda Maluca" (Biscoito Fino, 2004). Este CD teve a participação especial do pianista norueguês Bugge Wesseltoft, expoente do chamado nu-jazz europeu, e teve seu lançamento oficial na Inglaterra no tradicional palco do Barbican Center, de Londres. Assim como foram "Hard Bossa" e "Gafieira Moderna", "Banda Maluca" foi um CD totalmente autoral, contrastando com "Bossa Duets", feito por encomenda para a Sony japonesa, e gravado quase que ao mesmo tempo, com apenas uma semana de intervalo. Neste, clássicos da bossa-nova são interpretados por Joyce em duetos com Johnny Alf, João Donato, Wanda Sá, Toninho Horta e Ana Martins - alguns dos convidados que com ela dividiram o palco em suas apresentações anuais na rede de clubes de jazz Blue Note do Japão.
Nos anos de 2002 e 2004, apresentou-se como artista convidada em tournées com a WDR Big Band de Colônia, na Alemanha, com arranjos e regência do maestro convidado Gilson Peranzzetta, além dos músicos convidados Tutty Moreno e Marcio Bahia, nas séries de concertos "A Trip to Brazil" e "Brazil Today".
Em 2004, mais uma indicação para o Grammy Latino, desta vez pelo samba "A Banda Maluca", indicado como melhor canção em língua portuguesa. Também em 2004, mais uma premiação: o Lifetime Achievement International Press Award, prêmio dado nos Estados Unidos aos brasileiros que projetam uma imagem positiva do país no exterior.
Lançou, em 2005, seu primeiro DVD, "Joyce & Banda Maluca - Ao Vivo", uma co-produção da TV Cultura de SP e da gravadora Biscoito Fino. Gravado ao vivo no Teatro Franco Zampari, em SP, o DVD privilegia o trabalho de Joyce com sua banda, destacando a atuação dos músicos que com ela vinham na estrada há muitos anos, em turnês internacionais, gravações e festivais de jazz: Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter, Teco Cardoso e Nailor Proveta na banda fixa, além da participação especial de Robertinho Silva. Este show foi apresentado pela TV Cultura de SP como o primeiro especial do ano, no dia 1ª de janeiro. Nos extras, cenas das turnês do Japão e da Europa realizadas em 2004. O CD Banda Maluca foi também indicado ao Grammy Latino 2005 como melhor álbum de Música Popular Brasileira.
Ainda em 2005, grava ao lado de Dori Caymmi o CD "Rio-Bahia", para a JVC japonesa em co-produção com a Far Out. O CD, com composições inéditas dos dois artistas e algumas regravações, tem ainda a participação de um dos grandes músicos de jazz da atualidade, o pianista nova-iorquino Kenny Werner (antigo parceiro de Joyce nas gravações americanas para a Verve, no início dos anos 90). Dori, primeiro arranjador de Joyce em 1968, volta aqui a escrever para ela arranjos de base e cordas, além da participação vocal em quase todo o disco. No repertório, também, a estréia de novas parcerias: Dori/ Chico Buarque e Joyce/ Carlos Lyra.
Em 2008 para comemorar 40 anos d carreira está lançnado um álbum ao vivo com diversas participações especiais.