PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

Mostrando postagens com marcador Mauro Ferreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mauro Ferreira. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de setembro de 2019

A EXPLOSÃO DA MULHER NA MÚSICA DO BRASIL EM 1979 ECOA HÁ 40 ANOS – A SENSUALIDADE DE SIMONE

Por Mauro Ferreira, G1


Simone na capa do álbum 'Pedaços', de 1979 — Foto: Fernando Carvalho / Reprodução de capa de disco


A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 5) – Duas músicas lançadas em disco em 1979 são as mais perfeitas traduções da tomada de posição das mulheres na MPB naquele ano que projetou cantoras e compositoras como Angela Ro Ro, Fátima Guedes, Joyce Moreno e Marina Lima.

Ambas as músicas fizeram parte da trilha sonora de Malu mulher, série estreada pela TV Globo em maio daquele ano de 1979 que contribuiu para consolidar a revolução feminina na música e, por extensão, na sociedade.

Uma é o samba Feminina, composto por Joyce em meados dos anos 1970 e lançado pelo Quarteto em Cy em gravação incluída tanto no LP com a trilha sonora de Malu mulher quanto no álbum Quarteto em Cy em 1.000 kilohertz (1979).

A outra – a libertária canção Começar de novo – foi composta por Ivan Lins e Vitor Martins sob encomenda da TV Globo justamente para a trilha de Malu mulher. O diretor da emissora na época, Boni, cogitou o nome de Maria Bethânia para gravar Começar de novo.

Como Bethânia recusou o convite para dar voz à composição inédita, Começar de novo ganhou vida com Simone em gravação antológica que inseriu o nome dessa cantora baiana na revolução feminina da MPB em 1979.

Propagada na abertura da série Malu mulher, Começar de novotambém abriu o álbum lançado por Simone naquele ano, Pedaços(1979), obra-prima da discografia da artista. Surgiu ali uma Simone de imagem mais sensual, evidenciada na foto clicada por Fernando Carvalho para a capa do LP.

Arte do encarte do álbum 'Pedaços', de Simone — Foto: Fernando Carvalho / Reprodução de encarte de disco


"Ah, meu amor, estamos mais safados / Hoje tiramos mais proveito do prazer", explicitou Simone em versos de Condenados, música da então emergente compositora Fátima Guedes.

Aos ouvidos de 2019, tais versos podem soar até banais. Há 40 anos, eles simbolizavam uma pequena revolução comportamental e musical. A mulher passava a ter voz ativa, inclusive como compositora, deixando de reverberar somente o pensamento masculino através da música. E desde então nada mais foi como antes.

Simone não compunha, mas, como intérprete, também foi bafejada com os ventos da liberdade que sopraram naquele ano de 1979, regido sob o signo da mulher na música brasileira.

domingo, 22 de setembro de 2019

A EXPLOSÃO DA MULHER NA MÚSICA DO BRASIL EM 1979 ECOA HÁ 40 ANOS – A ESTREIA DE ANGELA RO RO

Por Mauro Ferreira, G1


A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 4) – Angela Ro Ro já rondava a cena musical brasileira desde o início da década de 1970, mas somente lançou o primeiro álbum em 1979, contribuindo decisivamente para a explosão feminina na MPB naquele ano.

Sete anos após ter tocado gaita em participação (não creditada) na gravação de Nostalgia (That's what rock'n'roll is all about) (Caetano Veloso, 1972), música que encerra o segundo álbum londrino de Caetano Veloso, Transa (1972), Ro Ro debutou como cantora e compositora em disco que, com o passar dos anos, se tornou uma espécie de best of do repertório da artista carioca.

Já virou até clichê caracterizar Angela Ro Ro como mistura singular e improvável de Maysa (1936 – 1977) com Janis Joplin (1943 – 1970). Só que o clichê faz sentido e ajuda a entender o espírito do álbum Angela Ro Ro, lançado em 1979 pela Polydor – selo que representava o braço popular da gravadora Philips – com repertório arrasador que mixava com sensibilidade o lamento desesperado do blues, a atitude do rock, o suingue do boogie e a melancolia dramática do samba-canção.


Ro Ro já chegou ardendo na fogueira das paixões, com o diferencial de assumir a homossexualidade no gênero dos versos das letras de canções como Tola foi você (1979), uma das pérolas deste disco gravado com o toque personalíssimo do piano de Ro Ro.

Esse cancioneiro lapidar já vinha sendo burilado e apresentado pela compositora ao longo dos anos 1970. Se tivesse sido concretizado o projeto de álbum com trechos das gravações ao vivo dos shows do festival Som, sol & surf – Saquarema, realizado em 1976 na cidade fluminense de Saquarema (RJ), a voz rouca e intensa da cantora poderia ter sido ouvida em disco três anos antes do álbum Angela Ro Ro.

Contudo, talvez não fosse a hora certa. Por força do destino ou por acaso, Ro Ro debutou mesmo em disco no emblemático ano de 1979, em movimento feminino consolidado pela projeção do repertório autoral de Joyce Moreno e pelos lançamentos quase simultâneos dos primeiros álbuns das cantoras e compositoras Fátima Guedes e Marina Lima.

Foi no álbum de Marina, aliás, Simples como fogo, lançado no primeiro semestre de 1979, que uma música de Ro Ro foi pela primeira vez registrada em disco. A canção Não há cabeça foi lançada por Marina em gravação feita com o toque do piano de Ro Ro, sendo regravada pela autora no mesmo ano para o álbum projetado nas rádios com o sucesso da canção Amor, meu grande amor, parceria de Ro Ro com a compositora letrista Ana Terra.

A mim e a mais ninguém (Angela Ro Ro e Sérgio Bandeira), Abre o coração, Agito e uso, Balada da arrasada, Cheirando a amor, Mares da Espanha, Gota de sangue – canção gravada por Maria Bethânia naquele menos ano para o álbum Mel (1979) – e Me acalmo danandosão outras músicas que, além das já canções já mencionadas, compõem o repertório inteiramente autoral de um dos melhores primeiros álbuns de um artista todos os tempos.

Embebida em eventual irreverência, a melancolia do cancioneiro do álbum de estreia de Angela Ro Ro continua embriagante 40 anos após a edição deste disco antológico que ainda cheira a amor e dor com o mesmo frescor de 1979.

domingo, 15 de setembro de 2019

A EXPLOSÃO DA MULHER NA MÚSICA DO BRASIL EM 1979 ECOA HÁ 40 ANOS – A CONTRIBUIÇÃO DE JOYCE MORENO

Por Mauro Ferreira, G1




A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 3) – Chega a ser irônico que Joyce Moreno, cantora e compositora carioca de importância fundamental na revolução feminina feita na MPB em 1979, tenha atravessado aquele ano sem lançar álbum.

Contudo, o fato é que o álbum que projetou definitivamente a artista, Feminina, somente foi gravado e lançado em 1980. E nenhum romantismo norteou a gravadora EMI-Odeon na decisão de bancar o disco. Joyce teve reabertas as portas da masculina indústria fonográfica brasileira somente por questão comercial.

É que tantas músicas de autoria da artista estavam sendo gravadas e lançadas com sucesso em 1979 que ficou óbvio para o mercado que era preciso dar voz a essa cantora e compositora que, sozinha, em 1967, tinha feito a própria revolução ao defender em festival uma música, Me disseram, escrita sob ótica feminina com direito a um controvertido "meu homem" inserido em um dos versos da letra.

Naquele efervescente ano de 1967, Joyce fez a hora sem esperar acontecer. Mas foram precisos 12 anos para o público se liberar e, sob os ventos da abertura política que começaram a soprar em 1979, se permitir admirar e cantar o cancioneiro feminino de Joyce – na época, ainda sem o 'Moreno' que somente iria incorporar ao nome artístico a partir de 2009.

Joyce em 1980, ano em que lançou álbum com canções propagadas em 1979 — Foto: Reprodução / Álbum 'Feminina'


Atentos aos sinais, grandes intérpretes da MPB começaram a gravar músicas de Joyce quase simultaneamente ao longo de 1979. Maria Bethânia incluiu no álbum Mel a composição Da cor brasileira, em cuja letra (da parceira Ana Terra) o macho nacional foi perfilado com ternura e consciência femininista.

Já o Quarteto em Cy incluiu a emblemática composição Feminina no álbum Quarteto em Cy em 1.000 kilohertz. Samba que batizou o álbum lançado por Joyce em 1980, Feminina exemplifica com perfeição a mudança no cancioneiro feminino. Na MPB, a mulher já podia celebrar o gosto de ser mulher e de questionar a posição feminina no mundo (ainda) dos homens.

Lançada por Elis Regina (1945 – 1982) no álbum Essa mulher, a canção homônima, música de Joyce com letra de Ana Terra, tocou fundo nessa questão ao perfilar com poesia densa a cantora que era também mãe, fêmea, dona de casa. Mulher, enfim.

Reforçando o coro, Ney Matogrosso propagou a liberdade do corpo e o gosto pelo prazer ao registrar Ardente no álbum Seu tipo. Mesmo sem obter o sucesso de canções como Mistérios (Joyce Moreno e Maurício Maestro), lançada por Milton Nascimento em 1978 e regravada pelo grupo Boca Livre em 1979, Ardente sublinhou o progressista discurso musical de compositora que libertou a mulher da culpa e da dor entranhadas no cancioneiro de desbravadoras antecessoras como Dolores Duran (1930 – 1959) e, sobretudo, Maysa (1936 – 1977).

Atualmente com 71 anos, essa mulher carioca, feminina, chamada Joyce Moreno, contribuiu decisivamente para que as sucessoras pudessem ter voz ativa na música do Brasil, já livres do jugo historicamente machista do mercado fonográfico.

domingo, 8 de setembro de 2019

A EXPLOSÃO DA MULHER NA MÚSICA DO BRASIL EM 1979 ECOA HÁ 40 ANOS – A ESTREIA DE FÁTIMA GUEDES

Por Mauro Ferreira, G1




A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 2) – Sempre atenta aos sinais, Elis Regina (1945 – 1982) pôs os olhos de farol na então desconhecida produção autoral de Fátima Guedes e incluiu a música Meninas da cidade no roteiro do show Transversal do Tempo, estreado por Elis em 17 de novembro de 1977, no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre (RS), cidade natal da cantora gaúcha.

Meninas da cidade entrou no roteiro de Transversal do tempo ao longo da turnê nacional do show, em 1978, ano em que Wanderléa gravou outra música de Fátima, Bicho medo, no álbum Mais que a paixão.

Estava preparado o terreno para a gravadora EMI-Odeon apostar na novata cantora e compositora carioca nascida em 1958 que, com vinte e poucos anos, fazia música com densidade que desmentia a linda juventude.

Com o aval de Elis e do mercado fonográfico, Fátima Guedes – que compunha desde os 15 anos e, desde 1973, já mostrava as próprias músicas em festivais regionais – encorpou o exército feminino que fez a revolução na música brasileira em 1979, com os lançamentos simultâneos de várias cantoras e compositoras de peso.

Lançado naquele ano de 1979, o álbum de estreia da artista, Fátima Guedes, apresentou uma cantora compositora de alma e obra densas, intensas. Uma compositora que, ciente de que a verdade não rima nas esferas pública e privada, ia fundo tanto ao falar de questões afetivas como de problemas sociais.

Passional – uma das primeiras músicas da artista – e Onze fitas, tema que a antenada Elis incluiu no roteiro do show Essa mulher (1979) e bisou no espetáculo seguinte Saudade do Brasil (1980), são exemplos da maturidade precoce da autora.

Nesse mesmo ano de 1979, outra música de Fátima, Condenados, foi lançada na voz de Simone em um dos melhores álbuns da cantora, Pedaços, e reiteraria a força da sensualidade feminina que deu o tom na MPB naquele ano. O amor e o sexo ganharam a ótica e a voz da mulher.

Decorridos 40 anos, Fátima Guedes ainda é compositora valorizada por intérpretes – uma música dela, aliás, está prevista no repertório do álbum que Fafá de Belém pretende lançar em 2019, Projeto humana.

De todo modo, a partir dos anos 1990, a compositora foi se exercitando e se aprimorando como intérprete de obras alheias. Foi nessa década que a discografia de Fátima Guedes foi ficando menos autoral, com a honrosa exceção do álbum Muito intensa (1999), lançado há 20 anos com repertório essencialmente inédito e autoral, e do recente Transparente (2015), calcado em recriações da criação.

Contudo, a compositora jamais deixou de produzir. Volta e meia, Fátima Guedes joga na rede uma música inédita para fisgar os admiradores desse cancioneiro de singular assinatura melódica e poética. Se a indústria da música já ignora obra de tal dimensão, é porque a verdade não rima, a verdade não rima, a verdade não rima...

domingo, 1 de setembro de 2019

A EXPLOSÃO DA MULHER NA MÚSICA DO BRASIL EM 1979 ECOA HÁ 40 ANOS – A ESTREIA DE MARINA LIMA

Por Mauro Ferreira, G1



Desde que o samba é samba, na primeira década do século XX, as mulheres foram ganhando progressivamente voz e espaço no ofício da composição – território historicamente masculino pela constituição originalmente patriarcal da sociedade.

Nem todas as mulheres se contentaram ao papel reservado a elas de cantoras de músicas compostas por homens. A pioneira Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) abriu alas e fez o Carnaval ainda no século XIX.

A partir dos anos 1930 e 1940, Ivone Lara (1922 – 2018) começou a driblar o machismo reinante no samba e, aos poucos, foi se impondo como compositora até ser consagrada nos anos 1970. Também excelentes intérpretes de obras alheias, Dolores Duran (1930 – 1959) e Maysa (1936 – 1977) deram importantes contribuições como compositoras na década de 1950.

Nos anos 1960, Joyce Moreno deu passo adiante e, sob protestos, ousou compor sob ótica mais explicitamente feminina. Ao permanecer na música sem Os Mutantes, a partir de 1973, Rita Lee seguiu a trilha e foi a ovelha negra do rock nacional de marca autoral.

Contudo, a explosão da mulher na música do Brasil aconteceu para valer em 1979. Nesse ano, os lançamentos coincidentes dos primeiros álbuns de Angela Ro Ro, Fátima Guedes e Marina Lima – entre outras cantoras que já se apresentaram como compositoras – provocaram uma revolução em que as armas foram a sensualidade e a sensibilidade feminina expostas em forma de música e letra.

Essa revolução ainda ecoa após 40 anos e, por conta da efeméride, será tema de uma série de textos do blog ao longo deste ano de 2019.

Para começar, Marina Lima, cujo primeiro álbum, Simples como fogo, gravado entre o outono de 1978 e o verão de 1979, foi lançado nesse ano musical vivido no Brasil sob o signo da mulher.

Marina Lima posa com a guitarra em foto da contracapa do primeiro álbum, 'Simples como fogo' — Foto: Antonio Guerreiro / Reprodução contracapa de disco


A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 1) – Artista de ascendência piauiense, criada entre as cidades do Rio de Janeiro (RJ) e Washington (EUA), Marina Lima deveria ter sido lançada como compositora em 1976 se a censura não tivesse impedido Maria Bethânia de incluir Alma caiada, parceria de Marina com o irmão poeta Antonio Cicero, no álbum Pássaro proibido.

Como impediu, coube a Gal Costa a primazia de lançar em disco no ano seguinte a primeira música de Marina, Meu doce amor, parceria com Duda Machado que foi literalmente um lado B do álbum Caras & bocas(1977), um dos títulos mais roqueiros da discografia de Gal.

Abertas as portas da indústria fonográfica, Marina Lima – que então se apresentava artisticamente sem o sobrenome – começou a gravar o primeiro álbum em 1978, ano em que debutou como cantora em compacto que antecipou as abordagens de Muito (Caetano Veloso, 1978) e Tão fácil (Marina Lima e Antonio Cicero, 1978), duas das 10 músicas do álbum que se chamaria Simples como fogo.

Produzido por Gastão Lamounier sob a direção artística de Marco Mazzola, produtor que ganhava força na então recente filial brasileira da gravadora WEA, o álbum Simples como fogo não é o disco que mais bem traduz as intenções autorais de Marina Lima. Mas já estavam ali as pistas da modernidade e da liberdade que ainda hoje pautam a carreira da artista.

Tudo pode soar simples e até banal sob a luz de 2019, mas uma foto de uma cantora empunhando uma guitarra fora do universo do rock – como a foto de Marina clicada por Antonio Guerreiro e exposta na contracapa do LP – era uma demonstração de atitude e de demarcação de território feminino.

A atitude foi reiterada com a decisão de abrir o álbum com música da antecessora Dolores Duran, Solidão (1958), lançada há 21 anos.

O álbum Simples como fogo fugiu da cartilha dos álbuns de MPB da época. Mas tampouco soou como disco de rock. Ou de pop radiofônico.

Como se comprovaria ao longo dos anos 1980, Simples como fogo soou simplesmente como um disco de Marina Lima, um álbum tão pessoal como a assinatura desta compositora que, como intérprete, ainda teve a primazia de lançar a primeira música de Angela Ro Ro em disco, Não há cabeça, em gravação primorosa feita com os toques do piano da própria Ro Ro e da guitarra do mutante Sérgio Dias.

Em 1979, mesmo com a forma da obra ainda em progresso, Marina Lima já era muito.

LinkWithin