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sábado, 29 de julho de 2017

DOCUMENTÁRIO DANADO DE BOM PAGA TRIBUTO A JOÃO SILVA

Filme recupera a história de um dos últimos parceiros de Luiz Gonzaga

Por Ernesto Barros



Vencedor de quatro troféus Calungas no Cine PE do ano passado, inclusive o de Melhor Longa-Metragem da Mostra Competitiva, o documentário Danado de Bom – As Histórias e a Vida de João Silva estreou comercialmente no dia 6 de julho, no Cinema São Luiz. Na verdade, desde o início de junho – o mês do São João – que Danado de Bom vem conquistando espectadores de todo o Brasil.

O principal chamariz do filme é o compositor João Silva (1935-2013), o último parceiro de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. A pré-estreia aconteceu há exatamente um mês, em Arcoverde, terra natal de João, no majestoso Cinema Rio Branco, construído em 1917. Agora, a sala está equipada com projeção digital e conta com a curadoria do Programa Cine de Rua, da Secult-PE e Fundarpe.


Esquecido desde os anos 1980, quando terminou a parceria com Luiz Gonzaga, João Silva ganhou uma excelente introdução à sua obra de compositor, marcada por clássicos juninos como Nem se Despediu de Mim, Uma pa Tu, Uma pa Mim e Danado de Bom – a faixa título do LP homônimo que deu a Luiz Gonzaga o primeiro disco de ouro de sua carreira. Dezenas de canções pontuam o documentário, mas Pagode Russo se destaca pelo número de versões e recordações nordestinas (título de trabalho do filme) de quem a ouviu quando era criança. “Essa música faz parte da minha vida, uma das memórias afetivas mais fortes da minha infância”, revela cineasta Marianna Brennand, que produziu o filme, dirigido pela prima Deby Brennand. Pagode Russo é cantada em vários estilos ao longo do documentário, no qual ainda ganha uma análise precisa de Josildo Sá.


10 ANOS

O projeto do filme acompanhou mais de 10 anos as duas primas – da primeira viagem que fizeram a Arcoverde e à região do Crato, no Ceará, até a estreia nos cinemas. “Ainda lembro muito bem quando Roberta Jansen chegou acompanhada de João Silva, que se considerava esquecido”, diz a produtora. A jornada do compositor em busca de suas origens é recheada de momentos emocionantes. Ele visita Arcoverde, de onde havia saído há 30 anos, e vai até o povoado de Olho d'Água de Baixo, onde viveu com o pai à sombra de um umbuzeiro”. “Foi incrível o reencontro de João com a senhora que viu ele dormir, ainda menino, entre as folhas da árvore”, relembra Marianna.

João Silva iniciou a carreira de compositor nos estúdios da Rádio Mayrink Veiga, no Rio, no começo dos anos 1950. No filme, as músicas do compositor servem como narração, na voz de Siba, para que Deby conte a história de João, principalmente a parceria que manteve com Luiz Gonzaga, que estava passando um por uma má fase, fazendo poucos shows e com uma baixa vendagem de discos. Com um rica pesquisa de imagens a cargo de Antônio Venâncio, Danado de Bom recupera cenas de um Brasil que não se vê mais, além de apresentações ao lado de Luiz Gonzaga e shows de artistas que interpretaram os seus sucessos, como Alcione, Elba Ramalho, Gilberto Gil e Dominguinhos.

Para melhor cuidar da trajetória do filme, Marianna também tomou para si a sua distribuição nos cinemas e salas alternativas Brasil afora, através da Inquietude, a companhia que ele criou para projetos especiais, como a edição dos diários de Francisco Brennand. “Numa parceria com a plataforma Taturana, Danado de Bom já teve 49 sessões gratuitas em 13 estados brasileiros. Mais outras 19 estão para acontecer”, diz Marianna. De acordo com a Taturana, 901 pessoas viram o filme nas primeiras 15 exibições, com uma média de 60 espectadores por sessão.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A IMPORTÂNCIA DE JOÃO SILVA: O COMPOSITOR QUE FEZ GONZAGA VOLTAR AO SUCESSO

Por Carolina Santos



O ano de 2013 segue para o final já como um dos piores da história para o forró. Em um espaço de menos de seis meses, perdemos Dominguinhos, Arlindo dos Oito Baixos e, na sexta-feira, dia 06, João Silva, um dos maiores compositores pernambucanos. O enterro aconteceu na cidade natal do músico, Arcoverde. Ele tinha 78 anos.

Luiz Gonzaga teve a ajuda de três grandes parceiros para construir uma carreira única na Música Popular Brasileira e no imaginário do Nordeste. O primeiro foi Humberto Teixeira, advogado cearense que ajudou Gonzaga a cantar sobre os retirantes e a natureza do Sertão. Logo depois, o médico Zé Dantas deu continuidade aos temas, e adicionou a crítica social ao repertório do Rei do Baião.

João Silva evidenciou a malícia, a “gaiatice”, o duplo sentido na obra de Luiz Gonzaga. Os dois se conheceram em 1962, mesmo ano em que Zé Dantas faleceu, mas a parceria foi aprofundada somente nos últimos discos do sanfoneiro. O auge do trabalho da dupla foi Danado de bom, de 1984, do qual João Silva tinha imenso orgulho, não apenas por ter participado de quatro músicas , mas também pela atuação nos bastidores (colocando polpudos cheques nos discos que a gravadora enviava às rádios, o famoso jabá) , que levou ao primeiro disco de ouro da carreira de Gonzaga. E a sua volta triunfal às paradas de sucesso das rádios.

De personalidade forte, João Silva não tinha papas na língua. Falava o que pensava, o que nem sempre agradava aos forrozeiros. Apontava o dedo contra mediocridade do forró eletrônico, reclamava que não tinha seu legado devidamente reconhecido. Ganhou, claro, algumas inimizades.

Esses críticos falavam que João Silva teria se aproveitado da fragilidade dos últimos anos de Gonzaga para “enfiar” suas composições nos últimos discos dele, para, assim, se tornar, numericamente, seu maior parceiro – foram sete composições em Vou te matar de cheiro (1989), dez em Forrobodó cigano (1989) e mais quatro em Aquarela Nordestina (1989), todos três lançados no último ano de vida de Gonzaga. Um ano anos, em 1988, Aí tem já trazia oito de suas 13 faixas com a assinatura de João Silva.

Ter sido o derradeiro parceiro de Gonzaga em nada diminui a qualidade artística de João Silva. O talento do arcoverdense era agradar as massas, fazer um forró cheio de vida, do tipo para dançar. Adorava o baião e não caía de amores pelo xote, a levada mais romântica do forró. Pagode russo, Vou te matar de cheiro, Nem se despediu de mim e Danado de bom são clássicos gonzagueanos e não podem jamais serem vistas como obras “menores” na carreira de Gonzagão.

João Silva era um dos patrimônios vivos de Pernambuco. Foi um dos três forrozeiros que receberam o título, ao lado de Arlindo (falecido em outubro) e do sanfoneiro Camarão. Detestava cantar e subir ao palco, mas fazia shows porque era o que dava dinheiro. Para 2014, planejava lançar um novo disco, com repertório inédito.

Faleceu em casa. Foi encontrado no final da tarde da sexta-feira pelo produtor Silveirinha, que entrou no modesto apartamento que ele morava em Boa Viagem a pedido da esposa do compositor, que estava viajando e, aflita, não conseguia falar com o marido pelo telefone. João Silva deixou três filhos, esposa e dois enteados: a cantora Thaís Nogueira e o sanfoneiro Mestrinho, que acompanha nomes como Gilberto Gil e Elba Ramalho.

Pernambuco perdeu um dos seus maiores compositores.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

MORRE JOÃO SILVA, UM DOS COMPOSITORES MAIS GRAVADO POR LUIZ GONZAGA, O REI DO BAIÃO

Parceiro do velho Lua em diversos sucessos de sua carreira, o arcoverdense João Silva foi encontrado morto em seu apartamento na capital pernambucana



Precoce, o pequeno João antecipou-se bastante objetivando mostrar a sua arte. Aos sete anos de idade já tocava pandeiro. Aos nove anos apresentou-se como cantor e venceu o concurso disputado. Aos dez, vindo de Arcoverde, apresentou-se na Rádio Clube de Pernambuco, mais no programa Ademar Paiva, nessa apresentação mostrava mais uma vez a sua versalidade tocando acordeom.


Alguns anos depois resolve mudar-se para o Rio de Janeiro. acompanhado por uma carta de recomendação chegou a apresentar-se em alguns programas como o "Domingueira" apresentado por Arnaldo Amaral na Rádio Mayrink Veriga. Nesta oportunidade apresentou "Crepúsculo sertanejo", uma canção de sua autoria.

Por volta de 1964 tem início a profícua parceria com aquele que seria um de seus maiores intérpretes e sem sombra de dúvidas o mais importante: Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga gravou no disco "A sanfona do povo" o baião "Não foi surpresa", de sua parceria com João do Vale. Em 1965, o Rei do Baião gravou dele e Albuquerque a marcha junina "Piriri". Em 1966 gravou "Crepúsculo sertanejo", dele e Rangel. No mesmo disco, "Óia eu aqui de novo", aparece sua primeira parceria com Luiz Gonzaga, "Garota Todeschini". Em 1968, no LP "São João do Araripe", aparecem duas composições da parceria entre os dois, "Lenha verde" e "Meu Araripe", que se tornou um enorme sucesso. 

Em 1973, no LP "Nova Jerusalém", Luiz Gonzaga gravou "O vovô do baião" dele e Severino Ramos. Em 1978 compôs com Gonzaga "Umbuzeiro da saudade". Em 1979 compôs com Pedro Maranguape "Adeus a Januário", em homenagem ao pai de Luiz Gonzaga recentemente falecido. Em 1980, compôs com P. Maranguape a composição "Cego Aderaldo", gravada por Luis Gonzaga. Em 1983, no disco "70 anos de sanfona e simpatia", Luiz Gonzaga gravou três de suas parcerias, "Cidadão sertanejo", "Forró de Ouricuri" e "Sequei os olhos", esta uma pungente canção sobre a seca que assolou a região nordestina entre 1979 e 1983.


Em 1984 compôs com Luiz Gonzaga o forró "Pagode russo", regravado nos anos 1990 pelo grupo Mastruz com Leite. Em 1984, no LP "Luiz Gonzaga e Fagner", a composição de abertura do disco é "Sangue nordestino", outra parceria de suas parcerias com Gonzaga. Em 1985 no LP "Sanfoneiro macho", o Rei do Baião gravou seis composições de parceria com João Silva, entre as quais "A mulher do sanfoneiro", além de "Maria baiana" de sua parceria com Zé Mocó e "Amei à toa" com Joquinha Gonzaga. Em 1986 compôs em parceria com Luiz Gonzaga "Forró de cabo a rabo", que deu nome ao disco de Gonzaga daquele ano e no qual aparecem mais duas parcerias entre os dois e ainda "Xote machucador", parceria com Dominguinhos, e "Passo fome mas não deixo", em parceria com Zé Mocó. No mesmo ano, Marinês em seu LP "Tô chegando" gravou dele e Luiz Gonzaga "Tá virando emprego", e dele e Zé Mocó "Amigo velho tocador". Em 1987, mais uma de suas composições, "De fia pavi", feita em parceria com Oseinha, deu nome a um disco de Luiz Gonzaga, no qual aparecem ainda "Doutor do baião", "Pobre do sanfoneiro" e "Toca pai", três parcerias suas com o Rei do Baião. No mesmo ano, Marinês gravou no LP "Balaio de paixão" sua parceria com Chico Xavier "Danação de gamação" e dele, Maranguape e Iranilson, "Olhos duidinhos". Em 1988 compôs com Luiz Gonzaga "Pra que mais mulher", "Fruta madura" e "Outro amanhã será", todas gravadas no LP "Aí tem Gonzagão". 

Em 1989, uma composição de sua parceria com Luiz Gonzaga, "Vou te matar de cheiro", deu título ao último disco do Rei do Baião, no qual João Silva participou da gravação de três faixas, "Um pra mim, um pra tu" e "Arcoverde meu", em parceria com Gonzaga, e "Ladrão de bode", com Rui Moraes e Silva. Ao todo compôs mais de 30 músicas com Luiz Gonzaga, todas gravadas pelo Rei do Baião. Teve ainda composições gravadas com sucesso pelo Trio Nordestino, entre as quais "Estou roendo sim", em parceria com Anatalício, "No galpão da bulandeira" com K-boclinho, "Intupidinho de amor" com J. B. de Aquino e "Gamado até demais" com Sebastião Rodrigues. Dominguinhos gravou, "Pode morrer nessa janela", "O galo já miudou" e "Cintura de abelha".

Tem cerca de 2000 composições. Entre seus parceiros estãoJoão do Vale, Onildo Almeida, Rosil Cavalcante, Severino Ramos, Bastinho Calixto, Pedro Maranguape, Zé Mocó, Pedro Cruz, Dominguinhos, Sebastião Rodrigues e outros. Entre seus principais sucessos estão "A mulher do sanfoneiro", "Danado de bom", "Pagode russo", "Nem se despediu de mim", "Meu Araripe", "Uma pra mim outra pra tu" e "Pra não morrer de tristeza", que já teve cerca de 40 gravações. Como produtor, produziu discos de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino e Jackson do Pandeiro entre outros. Atuou também como arranjador. Em 2006, o coco "Como tudo começou", de sua autoria, foi gravado por Dominguinhos, no CD "Conterrâneos". Em 2012, participou da coleção tripla de CDs "Pernambuco forrozando para o mundo - Viva Dominguinhos!!!", produzida por Fábio Cabral, cantando a música "Bodo bodocó", de sua autoria com José Maria Marques. A coletânea trouxe forrós diversos interpretados por 48 artistas, e que fazem referência aos 50 anos de carreira do seu inspirador: Dominguinhos. Interpretando músicas de compositores em sua grande maioria pernambucanos, fizeram parte do projeto também artistas como Acioly Neto, Adelzon Viana, Dudu do Acordeon, Elba Ramalho, Jorge de Altinho, Irah Caldeira, Liv Moraes, Hebert Lucena, Geraldo Maia, Sandro Haick, Spok, Jefferson Gonçalves, Chambinho, Joquinha Gonzaga, Maciel Melo, Luizinho Calixto, Silvério Pessoa, Walmir Silva, entre outros, além do próprio Dominguinhos.

Fonte: Dicionário da MPB

sexta-feira, 19 de abril de 2013

OS POETAS DE LUA – O CONTRADITÓRIO

Por Abílio Neto


O compositor João Leocádio da Silva, nascido em Arcoverde/PE, em 16/08/1935, no dia 23/06/2011, deu uma entrevista para o Diário de Pernambuco na qual passou a limpo essa história das suas parcerias com Luiz Gonzaga. Por não ser um homem de cultura igual a Zé Dantas ou Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga se sentia muito à vontade com esse parceiro que foi muito importante na sua vida, do final da década de setenta até a sua morte, em 02/08/1989. Mas a parceria começou antes, em 1968, com a música “Meu Araripe”, homenagem ao centenário daquele lugar. Em 1964, Luiz Gonzaga gravou a primeira produção dele em conjunto com João do Vale: “Não Foi Surpresa”.


Percebe-se pela entrevista que o que eles fizeram na música foi parceria mesmo. Luiz Gonzaga dava o tema e depois que recebia as músicas sugeria alterações nas letras, nas melodias, enfim tudo o que fez com seus parceiros mais famosos. A mesma coisa que Jackson do Pandeiro também fazia com os seus.

Foi muita boa essa conversa registrada porque bate de frente com o conteúdo da reportagem de 20/06/2012, do JC de Pernambuco, na qual o jornalista José Teles fez João Silva se contradizer. Eu achei interessante isso, apesar de que tenho a maior admiração pelo seu trabalho. O maior sucesso dele com Luiz Gonzaga foi a polca “Pagode Russo”, instrumental do sanfoneiro de Exu, que ganhou letra debochada de João Silva em 1984. Ao lado da obra antes citada estão as músicas “Nem se Despediu de Mim”, “Danado de Bom”, “Sanfoninha Choradeira”, “A Mulher do Sanfoneiro”, “Forró de Cabo a Rabo”, Vou Te Matar de Cheiro” e “Deixe a Tanga Voar” que também agradaram muito aos fãs de Gonzagão.

Mas vamos ao que José Teles “arrancou” de João Silva para atender a seus objetivos de manchar a memória de Luiz Gonzaga no ano do seu centenário:

Eu fazia a música sozinho e a gente assinava junto. Ele nem tinha tempo de fazer música, viajava demais. Dava os temas, fazia sugestões, e eu compunha, mas sempre deixava uma brecha para ele mexer na música...

O fato de deixar brecha para alguém mexer na música parece ser uma prática usual de João Silva. Das músicas que eu conheço dele (dizem que chega a 2.000), ele sempre precisou de uma escora, ou melhor, de um parceiro. Pouquíssimas ele assina sem companhia. Os selos dos discos de diversos artistas confirmam isso. Ele iria compor sozinho justamente para Luiz Gonzaga? Na reportagem, ainda é dito que ele entregou ao Rei do Baião 130 músicas. É inverídico isso: gravadas por Luiz Gonzaga (em parceria) eu somente conto 53 composições. E mais 16 músicas de João Silva com outros parceiros, todas gravadas por Gonzaga. No entanto, na aludida publicação, o jornalista reconhece que “curiosamente os últimos álbuns em que as parcerias foram feitas conjuntamente são os dois discos instrumentais derradeiros, Forrobodó Cigano e Luiz Gonzaga e sua sanfona, lançados tendo como sanfoneiro o maestro gaúcho Chiquinho de Moraes” (sic). 

Ah, bom, um reconhecimento! Porém existe um erro monumental aí. O sanfoneiro em questão foi Chiquinho do Acordeon, cujo nome de registro era Romeu Seibel, gaúcho de Santa Cruz do Sul.

O livro “Vida de Viajante - A saga de Luiz Gonzaga”, de Domenique Dreyfus, trouxe às páginas 300, um depoimento muito interessante do compositor João Silva:

Se eu for me encontrar com ele e ficarmos só trabalhando os dois, em uma hora saem três, quatro músicas. Mas ele não tem tempo nem de terminar uma música. Ele tem a idéia, o esboço da música e pronto, o parceiro que termine. Mas quando resolve compor, ele é bom. Nós fizemos ‘Forrofiar’ para Alcione em cinco minutos, no estúdio da RCA. (...) Nossa parceria é um casamento que deu certo até nas brigas. A gente briga muito porque eu bebo e ele não gosta, aí fica perguntando: você tá achando que é Vinícius de Moraes?

Quando Gonzaga gravou o disco “Forró de Cabo a Rabo”, disse Pedro Cruz, seu produtor na época: “a gente percebeu que não havia a música que ia puxar o disco (que foi justamente essa). Faltava o gancho que passaria no rádio e daria o Disco de Ouro a Gonzaga. Todo mundo podia dar música a Gonzaga, mas as que aconteciam mesmo eram as que ele fazia com João Silva. Então nós chamamos ele: olha João, pegue uma suíte num hotel, pegue sua garrafa de uísque, chame Gonzaga e pelo amor de Deus, façam a música para amanhã”.

E assim foi feito. Os dois se juntaram, discutiram e por fim a música saiu. Disse Dominique que eles ficaram até altas horas da noite e que, quando o monstro ficou pronto, Gonzaga pegou a sanfona e João o gravador. Gravaram a música, mas Gonzaga avisou ao parceiro: “olha, agora acabou e eu quero me deitar. Vá pra sua suíte e pelo amor de Deus não fique tocando violão que eu quero dormir”. No dia seguinte, Gonzaga escutou a gravação, ainda acrescentou uns versos, deu um jeito na música e com João Silva foi direto para a RCA. A fonte dessas informações foi o próprio João Silva que acrescentou: “A música foi um estouro total! Mas com três semanas, eu e Gonzaga já brigamos de novo, quando ele me disse: não quero mais conversa com cachaceiro”.

Forró de Cabo a Rabo” recebeu dois discos de ouro e mais um de platina por conta das parcerias com o suposto “cachaceiro”.

Sinceramente, se o que João Silva disse a José Teles não o diminuiu junto a seus admiradores, pelo menos manchou um pouquinho aquela sua áurea de “o mais fiel parceiro” de Luiz Gonzaga. Eu o tenho em alta conta. Acho que dos parceiros de Gonzaga, ele é quem mais tem o cheiro do povo. Em uma festa na loja Passa Disco do Recife, no ano 2011, eu fui cumprimentá-lo porque ele é uma pessoa cativante e muito alegre. Não o questionei sobre o “problema” das parcerias, porém outro amigo que também o saudou chegou a abordá-lo sobre o tema. Leiam isto:

No ano de 2011 estive com o “Padre” (as aspas são minhas) Bruno (Negromonte) em uma festividade na PASSA DISCO e conversamos com o compositor João da Silva, o principal parceiro de Luiz Gonzaga. Ele nos revelou que Gonzaga sempre participou das parcerias em todas as músicas que ele assinava como compositor. Este encontro acima citado poderá ser comprovado no meu PERFIL do FACEBOOK, na parte de FOTOS e no álbum PASSADISCO, onde na 7ª foto poderá ser visto a constatação deste encontro”. (Jorge Macedo)

E aqui dou por encerrada esta série de três artigos que se põem como "o contraditório" ao libelo acusatório do jornalista e crítico musical José Teles no ano do centenário de Luiz Gonzaga. Garanto que o Rei do Baião não ficou menor depois daquela reportagem infeliz.

Vou colocar para tocar aqui um sensacional forró da dupla (Luiz Gonzaga e João Silva): é a música “Forrofiar”, na belíssima interpretação de Alcione:


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PERNAMBUCO GANHA MAIS TRÊS PATRIMÔNIOS VIVOS

Arlindo dos 8 Baixos, João Silva e a Associação Musical Euterpina de Timbaúba se juntam à lista de 24 homenageados.


O Governo de Pernambuco, através da Fundarpe e da Secretaria de Cultura, divulgou o resultado do VIII Concurso Público de Registro do Patrimônio Vivo do Estado. Arlindo dos 8 Baixos, João Silva e Associação Musical Euterpina de Timbaúba foram os selecionados. 

O sanfoneiro Arlindo dos 8 Baixos, natural de Sirinhaém, Mata Sul de Pernambuco, desde muito jovem chama a atenção por seu talento com a sanfona. No entanto, foi por conta de um conselho de Luiz Gonzaga que ele passou a se dedicar ao fole de 8 baixos, reconhecido pelo grau de dificuldade que apresenta. A partir daí, surgiu a parceria que levou Arlindo em turnê com o Velho Lua pelo Brasil. Há dez anos, estabelecido no Recife, ele mantém no quintal de sua casa, em Dois Unidos, periferia da capital, o Forró do Arlindo. A festa ocorre todos os domingos e já se estabeleceu como um dos principais pontos de preservação do forró tradicional na cidade. 

Outro recém-nomeado Patrimônio Vivo, João Silva foi também grande parceiro de Gonzagão. Compositor de mais de cem músicas das interpretadas pelo Rei do Baião, entre elas, "Tá Danado de Bom", “Pagode Russo” e "Deixa a Tanga Voar, não foi à toa que, no ano em que Gonzaga completaria 100 anos, seu parceiro teve sua obra valorizada e preservada.

Já a Associação Musical Euterpina de Timbaúba recebeu finalmente o devido reconhecimento pelos mais de 80 anos dedicados a música popular pernambucana. Formada por mais de 50 músicos, entre instrumentos de sopro e percussão, ela se mantém como um espaço de divulgação e manutenção da tradição musical do Estado. 

Cada selecionado receberá uma bolsa anual vitalícia, além de ter inserção garantida na Política Cultural do Estado, através da participação em ações de divulgação e transmissão de saberes, e registro de atividades, com o objetivo de valorizar, documentar e repassar essas tradições às novas gerações.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

JOÃO SILVA E SUAS RAÍZES

O sertão de João Silva é puro. Daí o nome do seu novo CD, Sertão puro. As imagens do seu passado em Arcoverde estão cristalizadas desde que ele deixou sua cidade natal e foi morar no Rio de Janeiro. Fez carreira, formou família, conheceu, produziu e foi parceiro de Luiz Gonzaga em muitas músicas de sucesso, a partir do LP Danado de bom, até o final da vida do rei do baião. Há dois anos morando pertinho do mar de Boa Viagem, João tem sua história evidenciada num filme documentário (Recordações nordestinas, da Mariola Filmes, ainda não lançado), num livro (Pra não morrer de tristeza, de José Maria Almeida Marques), e agora num novo álbum, inédito, autoral e sem parcerias.

João Silva começou a gravar o disco em 2009, e não teve pressa. O objetivo é que a parceria com o produtor não batesse com o seu gosto. "Eu gosto de ser produzido, fico mais liberto, mas quando querem fugir da raiz e justificar alguma coisa, não deixo. É a raiz que eu defendo", diz o forrozeiro. O lançamento, hoje às 20hs na loja Passadisco (Shopping Sítio da Trindade, Estrada do Encanamento) deve reunir a nata do pé-de-serra, incluindo Gennaro, que produziu o disco junto com João e colocou sua sanfona; Walkyria, que fez coro com Gennaro e Quartinha, o lendário zabumbeiro e triangueiro, que também tocou com Gonzaga e toca com Dominguinhos, entre outros bons do forró.

O forró de João é trabalhado no baião. Com a voz e a sanfona na frente, acompanhada pelo trio zabumba, triângulo e agogô, encorpada pelo baixo, guitarra e bateria. A poesia de João é também elemento principal. Elas saem de uma memória geográfica, física e sentimental do compositor, que deixou Arcoverde ainda jovem, mas nunca se desligou de certas imagens, paisagens e comportamentos. Para João, o máximo da mudança no Sertão foi o asfalto e a luz elétrica. "O resto está quase tudo igual". E o que resta da cultura de sua época, na sua opinião, tem que ser preservado.

"Você vê uma brejeira pegar uma bandeija de café secado no terreiro e ir pilar com orgulho no pilão. Depois ir no moinho de pedra moer o xerém, hoje não tem mais isso". O disco então é saudosista? "Tem uma parte de saudosismo e uma parte de preservação da memória. Eu sou escritor do pequeno analfabeto", diz.

Memória ou realidade do pobre do Sertão, o disco de João relaciona rica e simplesmente homem, natureza, cultura e sociedade. "Catinga de palha que queime as palha/ mas não mexa na folha desse marmeleiro/ que no final dessa trilha mora/ uma família trabalhadeira num furmigueiro", canta em A formiga e o sertanejo.

"Pedi as conta tô de malas pronta/ por que cheguei agora a conclusão/ que a gente sai do nosso pé de serra/ mas o nordeste sai de nós não", canta em Baioneiro Gonzagão, que fez inspirado no inverso da Triste partida, de Patativa do Assará, onde o homem rural, nordestino, pobre, vai tentar a vida nas "terras do sul". João, ao contrário, foi e experimentou o prazer da volta. Ele também aproveita o novo cancioneiro e inclui uma crítica pertinente ao novo cenáriodo forró. Em Aonde mora meu baião, canta que, "xotizinho vez em quando é bom/ mas é feito bolo de brôa/ todo noite, toda dia enjôa". E tem o recado ainda para os que pensam que, depois da fama e do dinheiro, ele mudou. "Foi o gado e a fazenda/ a marca do meu carro/ e o meu dinheiro que aumentou/ mas mesmo assim/ minha vidinha continua/ comendo baião de dois, tumando facé de cuia".

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