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Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CANTOR LÍRICO PERNAMBUCANO, SUCESSO MUNDIAL, É DESCONHECIDO NO BRASIL

Miguelangelo Cavalcanti vive há 30 anos na Europa e realiza temporadas de óperasem diversos países

Por Adriana Victor


Miguelangelo Cavalcanti em encenação de O Torvador (Verdi), em Praga


Cantor lírico, o barítono Miguelangelo Cavalcanti nasceu e cresceu no Recife. Também foi na cidade que começou a cantar. Mas quem quiser assistir a uma de suas apresentações precisará viajar para outros continentes, como Ásia e Europa. Palcos de países como França, Áustria, Inglaterra, Portugal, República Checa, Coreia do Sul e Japão já receberam espetáculos de ópera com o pernambucano no elenco principal. Há 30 anos morando fora do Brasil, o artista cujos primeiros passos foram guiados por um maestro de frevo é quase um desconhecido em sua terra. “Para mim, é uma situação mais triste do que estranha. E garanto que não sou a único a viver isso”, afirma ele.

Aos 54 anos, fazia 21 que Miguelangelo não visitava o Recife. De volta ao local de nascimento, tentou mostrar por aqui o que vem apresentando a plateias estrangeiras: entrou em contato com o Conservatório Pernambucano de Música, chegou a oferecer um concerto gratuito. Ouviu como resposta que a pauta estava lotada. Um acaso proporcionou aos pernambucanos a sua única apresentação na terra natal, a convite da pianista Elyanna Caldas. No domingo (28/8), ele substituiu um cantor que não pôde participar de concerto na Academia Pernambucana de Letras. A troca deu certo: o recital foi um sucesso. “Miguelangelo é meu amigo desde a encenação da ópera Bastien et Bastienne, de Mozart, na década de 80”, lembra a pianista. “Depois partiu para a Europa onde estudou e iniciou a sua brilhante carreira. O reencontro me encheu de orgulho e emoção.”

Na sua passagem pelo Brasil, ele chegou a ministrar aulas para profissionais e também para crianças carentes em Belém (PA), cidade que tem grande tradição operística, trabalho encabeçado pela Fundação Carlos Gomes.



TRAJETÓRIA

Foi ainda na infância, nas rodas de violão em festas de família, que a voz de Miguelangelo começou a ser notada. O maestro Fernando Borges (1938-1998), um dos grandes do frevo de Pernambuco, decidiu que o menino talentoso precisava estudar e levou-o ao Conservatório. “Comecei a cantar com o maestro José Guedes, depois fiz um curso de música sacra no Seminário Teológico e, por fim, a Universidade Federal de Pernambuco”, lembra o barítono.




A paixão inicial foi a música barroca – cantar óperas não estava nos seus planos. “Era um sonho muito longínquo. Mas cada pessoa que me escutava, dizia: ‘Menino, você tem que ir embora. Vá pra fora.’ Aí eu fui.” O caminho de canto Miguelangelo em terra estrangeira foi trilhado pela Europa: Portugal, Áustria, Suíça e República Checa, onde vive há 15 anos na capital, Praga. “Sou solista residente do Teatro Nacional de Praga. A minha vida é cantar. Eu vivo do canto.” 

Sua estreia em óperas na Europa foi grandiosa: “Meu debute foi ao lado da grande (mezzo-soprano espanhola) Teresa Berganza, cantando uma ópera de Händel, Rinaldo. Também tive a sorte de fazer todas as óperas de Mozart no papel de barítono”. Só doDon Giovanni, ele conta, foram cerca de 150 recitais. O repertório do artista também inclui encenações de obras como Carmem, As Bodas de Fígaro, O Trovador e La Traviata. 

Em 7 de setembro, data em que o Brasil comemora o Dia da Independência, ele já estará de volta a um palco eropeu. Miguelangelo tem apresentação marcada no Teatro Nacional de Praga com a ópera Aida, de Giuseppe Verdi. Há mais seis apresentações agendadas na cidade até o final do ano e a temporada de 2017 também já está reservada. “Os convites chegam com, no mínimo, um ano de antecedência”, revela. 

Um deles o levará a França para um concerto de Natal com um maestro suíço. Miguelangelo fala seis idiomas, além do português: espanhol, italiano, francês, alemão, inglês e checo. Também canta em latim. O artista não pretende mais ficar tanto tempo longe do Recife: tem convite para ministrar masterclass, em 2017, no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco. Do que sente falta vivendo lá fora? “Do coração do povo brasileiro e da minha comida nordestina. Disso eu sinto muita falta.”

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

VÔTE... ESPIA SÓ: DUETOS

Bar 304 Havana Velha - Cuba. Foto de Mariana Martins de Carvalho.



MESA DE BAR

Numa mesa de bar,
de um subúrbio qualquer,
me perco no encontro,
que insisto já tonto,
em ter com você,
razão dos meus contos,
poema em mulher.

Se peço cerveja,
com copo prá dois,
estando sozinho,
é porque acredito,
que aqui nessa mesa,
o amor não se pôs,
nem se fez de perdido,
no meio do caminho.

É aqui que consigo,
sem sair do lugar,
me encontrar
com a esperança,
que me faz encontrar,
no fundo do copo,
seus olhos perdidos,
no fundo dos meus...


Eurico Rodolfo de Araújo. (Autor do poema)

GEOGRAFIA DAS EXPRESSÕES

Um ensaio fotográfico sobre o homem e seus territórios, focando as expressões diversas dos indivíduos no cotidiano e em suas respectivas paisagens. 

Por Fábio Nunes








SAMBA NA GAMBOA

terça-feira, 27 de setembro de 2016

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*





"Chega! / Meus olhos brasileiros se fecham saudosos. / Minha boca procura a 'Canção do exílio'. / Como era mesmo a 'Canção do exílio'? / Eu tão esquecido de minha terra... / Ai terra que tem palmeiras / onde canta o sabiá!". São com estes versos que Carlos Drummmond de Andrade fecha o poema "Europa, França e Bahia", poema cujo sujeito poemático, após parecer deslumbrar-se com as belezas sedutoras dos países civilizados, sente saudade e tem os "olhos brasileiros sonhando exotismos".

Para ele e diante dele, em gesto antropofágico, a torrer Eiffel é um imenso caranquejo; "submarinos inúteis retalham mares vencidos"; "a Itália explora conscienciosamente vulcões apagados"; e é das águas sujas do Sena que a sabedoria escorre. "Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa", afirma. Estranho a tudo e desentendido de tudo, ele quer lembrar a canção do exílio, aquela que canta os exotismos da [sua] terra e, por isso mesmo, faz o sujeito retornar à terra familiar e íntima.

Guardado no livro Alguma poesia, "Europa, França e Bahia" serve para complexificar a discussão da importância da tão temida "cor local". Tendo o seu uso mal compreendido, ou rejeitado veementemente, confundiu-se por muito tempo, a fim de inserir o Brasil na modernidade, cor local e exotismo. Para este segundo termo, não há melhor entendimento do que o dado por Caetano Veloso ao final da canção "Um índio": "aquilo que nesse momento se revelará aos povos / Surpreenderá a todos, não por ser exótico / Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto / Quando terá sido o óbvio".

Como já sabemos, o exótico só é visto na perspectiva depreciativa do termo por aqueles que não alcançam a obviedade o objeto/sujeito sob o olhar. O outro, sempre diferente, é exótico. O lugar que desconheço e cuja gente age de modo "oposto" ao meu, é exótico. Sob a pecha de exótica, Carmen Miranda voltou os olhos do mundo para o Brasil. Pagou caro por isso, renegada pela elite pensante, mas sabia que o povo que ela representava tinha nela a esperança (espelho refratário) de distinção e de reconhecimento universal.

Portanto, como venho tentando defender aqui, se a canção popular brasileira é a tradução prática da gaia ciência pensada, noutro plano de interpretação, por Nietzsche, posto que heterogênea e permeável, ela o é porque se alimenta de matrizes múltiplas, de produções populares diversas e de cores locais singulares e amalgamáveis.

Na canção popular brasileira, entretenimento, informação e criação se misturam forjando a educação ético-estético-filosófico-sentimental do brasileiro. Desde sempre foi assim, misturas de misturas, até entre linguagens diferentes. Isso se opõe a uma certa e interessada imagem única e limpa - pós-Bossa Nova - que alguns teóricos tendem fazer do Brasil para o exterior, a fim de se fazer entender pelos seus pares.

Mas, como sabemos "o baião vem de baixo do barro do chão da pista onde se dança" e "ninguém me salva / ninguém me engana / eu sou alegre / eu sou contente / eu sou cigana / eu sou terrível / eu sou o samba". O entendimento e a compreensão da canção popular - forjada e alimentada nos extratos populares - escapam à tradução meramente socrática, academicista.

Focado na força da cultura popular da Grécia Antiga, e defensor da superioridade do popular, Nietzsche elabora e desenvolve novas modalidades de percepção da cultura, nas quais não entra o rancor daquilo que vem do povo. Pelo contrário, Nietzsche nos ajuda a repensar a estigma da ignorância dada à cultura popular pela lineariedade capitalista de subjetividades controladas.

É no sentido nietzschiano que Luiz Gonzaga é gênio, por aglutinar elementos espalhados na cultura popular que lhe forjou a obra, as canções - muitas de exílio. Um exemplo é que a musa Rosinha, condensação de várias mulheres sertanejas, serve à apropriação imagética de todo e qualquer sertanejo distante de sua mulher, por causa da seca do sertão "das muié séria / Dos homes trabaiador". "O mundo não vale nada / Sem amor de Rosinha / Por isso vivo a sonhar / Com a minha moreninha".

Gonzaga estetizou o sertão e moldou uma imagem do nordeste não apenas nas letras que cantava e no jeito de corpo (e vestimentas), mas, principalmente, na voz. É no timbre adequado, porque carregado de vivência, ao ritmo da sanfona onde mora a beleza do canto de Luiz preenchendo casas humildes, comuns, simples de alegria e esperança, matenedouras do homem na terra: "A seca fez eu desertar da minha terra / Mas felizmente Deus agora se alembrou".

É do luxo exuberante e óbvio do vivente-cantador da "festafeira no pino do sol a pino", cantador das tragédias do cotidiano, cordelistas da vida comum e fantástica, que a voz de Gonzaga se alimenta. A gestualidade vocal de Luiz Gonzaga figuratizava o "sertão é em todo lugar; o sertão é dentro de mim" rosiano. Posto que a voz de Gonzaga, seu modo de cantar e dizer, é a grande vereda dos sertões geográficos e íntimos. O que é "A volta da asa branca" senão uma fresta de luz no corpo ressequido do sertanejo? Um bálsamo sonoro na intemperância dos dias de muito sol e quase nenhuma água.

Foi deste recanto também que Haroldo Campos pinçou as estrelas, planetas, satélites de suas Galáxias. Se "(...) para / outros não existia aquela música não podia porque não podia popular", é esta música vinda do povo e cantada pelo povo que alimenta a vida do povo: injeta remédio e veneno na existência.Exótica, óbvia é esta canção que sustenta o indivíduo com saudade de sua terra que "tem palmeiras onde canta o sabiá". É ela que faz ele querer voltar e, de novo, tentar - ir indo: "A asa branca / Ouvindo o ronco do trovão / Já bateu asas / E voltou pro meu sertão / Ai, ai eu vou me embora / Vou cuidar da prantação". "Chega! / Meus olhos sertanejos se fecham saudosos".

Gilberto Gil (Gilberto Gil canta Luiz Gonzaga, 2012) capta esta alegria do povo e da natureza natural inventada por Luiz Gonzaga ao cantar "A volta da asa branca" com acompanhamento festivo. Ele investe no sujeito que se enche de novas vontades: "(...) E se a safra / Não atrapaiá meus pranos / Que que há, o seu vigário / Vou casar no fim do ano".
Em entrevista à revista Bravo! (dez/2012), Gilberto Gil declarou: "Eu não existiria sem Gonzagão". Eu completaria que nem o sertão, nem o Nordeste, como os entendemos hoje, existiriam sem a voz de Gonzaga, sua agonia transvalorada em som. É ele o sabiá a sustentar memórias, crônicas e declarações de amor aqui na voz.


***

A volta da asa branca
(Zedantas / Luiz Gonzaga)

Já faz três noites
Que pro norte relampeia
A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da prantação

A seca fez eu desertar da minha terra
Mas felizmente Deus agora se alembrou
De mandar chuva
Pr'esse sertão sofredor
Sertão das muié séria
Dos homes trabaiador

Rios correndo
As cachoeira tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza
E a asa branca
Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza

Sentindo a chuva
Eu me arrescordo de Rosinha
A linda flor
Do meu sertão pernambucano
E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que há, o seu vigário
Vou casar no fim do ano.




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

LURDEZ DA LUZ LANÇA EP PARA CELEBRAR A ESPERANÇA E A MATERNIDADE

Em 'Bem vinda', rapper paulistana reage ao baixo-astral e à cultura do ódio com delicada homenagem à filha recém-nascida

Por Ângela Faria 


Lurdez da Luz luta pelo espaço das mulheres no hip-hop brasileiro (foto: Studio Gruhn/divulgação)


“Cancelem o Apocalipse”, convoca Lurdez da Luz na letra de Bem vinda, faixa-título do EP lançado na tumultuada semana em que Dilma Rousseff foi deposta, Michel Temer assumiu o comando do país, sob protestos, e a cultura da intolerância e do ódio contaminou ainda mais as ruas e as redes sociais.

Outrora inspirado na urgência frenética das implacáveis metrópoles e atento às mazelas do Brasil, o canto falado da compositora e rapper paulistana surge como um bálsamo. Aposta na delicadeza e celebra a esperança para saudar Pérola Rosa, a caçula nascida em junho.

A compositora mantém a verve dos discos anteriores, Lurdez da Luz (2010) e Gana pelo bang (2014). Porém, não se rende à deprê que se alastra por aí. Sem oba-oba, prega o amor (Love) e resiste ao baixo-astral (Good vibes). Assume, sem neuras, o plus size das formas generosas da maternidade. “Da Luz” se curva, com alegria, à potência da natureza.

Bem vinda expressa a revolução interna fruto da maturidade, da conexão profunda com a emoção e o desapego ao ego, conta Lurdez, de 36 anos. Se a primeira gravidez (o primogênito Rogê tem 10 anos) foi revelação, a segunda representa “o renascimento como mãe”, diz. O EP começou a ser gravado na sala de casa, quando ela estava grávida de quatro meses. Disco, versos, batidas e bebê foram gerados praticamente juntos.

Aliás, justiça seja feita. A ideia desse projeto tão feminino veio dos homens: os parceiros e produtores Bruno Esteves e Heder Vicente – a dupla PParalelo. Os dois levaram para a casa de Lurdez um microfone poderoso, capaz de registrar apenas a voz, eliminando latidos de cachorro, canos de descarga e buzinas. Na faixa-título, o artista plástico Tubarão, marido dela, recita versos à sua menina, prestes a nascer.

“Meu rap doméstico.” É assim que Lurdez define o novo trabalho. Porém, o disco feito em casa não se contrapõe aos 16 anos da carreira dedicada à “parada da rua”, como ela diz. “Nós, mulheres, somos cíclicas, não temos aquela linearidade dos homens”, observa, referindo-se à complexidade feminina, que se desdobra entre o “ninho” e o mundo. “Esse EP traz uma mulher em sua viagem interior, praticando a esperança”, resume.

Artista independente, Lurdez fez shows até os oito meses de gravidez, toda orgulhosa de exibir o barrigão no palco. Logo depois do nascimento de Pérola, voltou a trabalhar, conciliando mamadas e microfones. A turnê deve engatilhar em novembro, mas a agenda já está rolando. Nos próximos dias, ela vai se apresentar em Taguatinga, em Brasília.


NANÁ E DU PEIXE

Na batalha desde os anos 2000, Lurdez é uma das mulheres mais talentosas do rap brasileiro, embora confiná-la na “prateleira” do hip-hop seja pouco. Haja estrada: a MC integrou o grupo Mamelo Sound System, pioneiro do chamado afrofuturismo nacional; participou do coletivo eletrônico-percussivo Ekundayo ao lado do mestre Naná Vasconcelos; é parceira do mangue-beat Jorge du Peixe; trabalha com Russo Passapusso e Kiko Dinucci, expoentes da MPB contemporânea; e tem se apresentado com a banda Aláfia, sensação indie. Ganhou o respeito da velha escola do rap – KL Jay e Edi Rock, do Racionais, a citam como talento da nova geração. Já abriu shows para Mano Brown e cia., Jurassic 5 e De La Soul, ícones do hi-hop norte-americano. Confira o clipe de Andei, um dos sucessos da artista, lançado em 2010:

Beats, timbres e rimas criativos, além da abertura a sonoridades que podem soar estranhas a fãs ortodoxos do rap, marcam o estilo Lurdez da Luz. Du Peixe já disse que ela “dá samba”; os companheiros do PParalelo, que trabalharam com Gaby Amarantos e Thiaguinho, são craques em forró e pagode. A paulistana gosta do pop de Rihanna e Drake; adora as músicas jamaicana e africana; elogia “produções bem legais da Anitta”. E avisa: dá para dialogar com tudo isso sem perder a essência do rap. “Penso em cantar mais. Quando vier algo no formato de canção, vou confiar”, admite. A turnê de Bem vinda pode ter versões de canções de Gilberto Gil.


MULHERES

Embora as mulheres venham conquistando espaço no hip-hop brasileiro, o avanço ainda é relativo, afirma a pragmática Lurdez da Luz. Só muito recentemente a curitibana Karol Conka tem virado o jogo no universo dominado por Racionais, D2, Emicida, Projota, Rashid, Criolo e Filipe Ret. “Karol é superimportante, o único grande nome na cena”, constata a colega.

Para ela, ainda é preciso lutar muito para que as rappers e MCs ganhem a visibilidade merecida, lançando discos, fazendo shows, aparecendo no rádio, TV, festivais e projetos culturais. Lurdez diz que a história das brasileiras no rap ainda é mal registrada, subestimada. Porém, está convicta de que as pessoas querem ouvir as vozes femininas.

Lurdez destaca talentos da nova geração como Bárbara Sweet, que mora em BH. A mineira, feminista e batalhadora, destaca-se nos duelos de MC, tem participado de projetos importantes em São Paulo. “Ela escreve muito bem, é poeta, canta pra caramba”, elogia. “Cadê o disco da Sweet, cadê o disco da Flora (Matos)? É preciso fazer acontecer”, defende Da Luz.

Apesar de boa parte das brasileiras ainda sucumbir à autoestima em baixa e a relacionamentos abusivos, Lurdez acha que a nova onda feminista vai desaguar na cena hip-hop. “A cabeça das minas está mudando. A nova geração é ligeira, informada, já chega com o pé na porta”, conclui.


BEM VINDA
. EP
. De Lurdez da Luz e PParalelo
. Informações: www.facebook.com/lurdezluz/
. Site para ouvir as músicas do EP:

MORRE A CANTORA CARMEN SILVA, AOS 71 ANOS, DEVIDO A UMA PARADA CARDÍACA

Artista fez sucesso em 1969, com o hit 'Adeus, solidão' e, nos anos 2000, se lançou na carreira evangélica. Atualmente, estava afastada da música.

Por Anderson Dezan e Lucinei Acosta



Morre a cantora Carmen Silva em São Paulo aos 71 anos (Foto: Reprodução)


Uma notícia triste para o mundo da música. A cantora Carmen Silva, conhecida como Pérola Negra, morreu no início da manhã desta segunda-feira, 26, em São Paulo, aos 71 anos. Segundo o Hospital Presidente, ela estava internada na unidade desde o último dia 14, e a morte aconteceu em decorrência de uma parada cardíaca provocada por tromboembolia.

Natural de Veríssimo, cidade do Triângulo Mineiro, Carmen Sebastiana de Jesus (nome de batismo) trabalhava na juventude como babá e empregada doméstica, mas tinha o sonho de ser cantora. Determinada com essa meta, ela passou a participar de programas de calouros.

No fim da década de 60, em sua de suas tentativas, Carmen venceu o concurso "Um Cantor por um Milhão, um Milhão por uma Canção", na TV Record. Devido à visibilidade conquistada, foi convidada a gravar seu primeiro compacto, que a lançaria para o sucesso em todo o Brasil com a música "Adeus, solidão", de 1969. A canção era uma versão de Newton Miranda para "Picking up pebbles", de Custis.

Durante a carreira, lançou outros sucessos, como "Espinho na Cama", "Meu Velho Pai", "Fofurinha" e "Amor com Amor se Paga", e ganhou prêmios, como os troféus Roquete Pinto e Chico Viola.

Na década de 90, a carreira começou a entrar em declínio e, com isso, passou a enfrentar crises de depressão. Nesse período, viajou aos Estados Unidos para visitar sua única filha, Karla, que frequentava cultos evangélicos. Lá, Carmen se converteu à religião.

Em 2001, iniciou carreira gospel ao assinar contrato com a gravadora Graça Music. Lançou três CDs pelo selo, sendo que o primeiro vendeu mais de 100 mil cópias, garantido Disco de Ouro à artista. Em 2004, ela decidiu não renovar contrato com a gravadora e passou a se dedicar a assuntos pessoais, deixando a carreira como cantora em segundo plano.

WILSON DAS NEVES, 80 ANOS

Em seu aniversário, Wilson das Neves lança livro e continua na estrada




Há 62 anos manejando suas baquetas com maestria, o baterista carioca Wilson das Neves completou 80 anos de vida em junho, mas vem comemorando a data nos palcos do país desde o dia 10 de junho, quando apresentou-se no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, ao longo de três noites. O momento festivo contou também com ilustres convidados. Na sexta, seu show teve participações especiais de Elza Soares e Luiz Melodia. No sábado, houve a participação do parceiro de música Paulo César Pinheiro e da cantora e pianista Maíra Freitas e, no domingo, o rapper Emicida e o músico Cláudio Jorge marcaram presença na apresentação. Como diria o próprio Das Neves, ‘Ô sorte’!. Esse bordão, aliás, é digno de nota: usado pelo baterista com frequência em suas falas, sempre em tom de alegria e exaltação, ele já virou sua marca registrada nos bastidores da MPB.

Nos três dias de shows, foi vendido no Sesc o livro Ô Sorte! Memórias de Um Imperador, uma breve biografia de Wilson das Neves, de autoria de Guilherme Almeida, lançado pela editora Multifoco. Para o palco, Das Neves diz que vai levar o repertório de seus quatro discos, nos quais também é intérprete – O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996), Brasão de Orfeu (2004), Pra Gente Fazer Mais Um Samba (2010) e Se Me Chamar, Ô Sorte (2013) –, além de sete canções inéditas. Compositor compulsivo, ele já tem centenas de canções em seu baú. “Só com o Paulo César Pinheiro, são quase 80 músicas”, revela o músico, em entrevista ao Estado, por telefone, ainda do Rio. “Faço melodia. Não sou poeta. Se não tivesse parceiros, não teria letra. Eles são importantes.

No show, há também os já mencionados encontros. Na sexta, o momento com Luiz Melodia teve Mestre Marçal. Paulo César Pinheiro que esteve com o amigo no sábado. Juntos, fizeram duas parcerias deles: Som Sagrado – que, segundo Beth Carvalho já definiu, fala tudo aquilo que todo sambista sente – e Partido do Tempo (“essa é a primeira que fizemos juntos", lembra Das Neves). No mesmo dia, a cantora e pianista Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, participou de Estava Faltando Você. No domingo, ele recebeu outros dois convidados: Emicida, onde cantaram Se Me Chamar, Ô Sorte, de seu mais recente álbum – os dois já fizeram shows juntos e Das Neves fez participação especial na música Trepadeira, no disco do rapper, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui – e Cláudio Jorge, com o qual fzeram Traz Um Presente Pra Mim, parcerias dos dois.

"Falaram para eu convidar meus parceiros e chamei os mais chegados.” Segundo o músico, se o Chico Buarque estivesse no Brasil, também participaria, mas ele está na França, para comemorar o aniversário, no dia 19. “Ele está compondo.” E previsão de Chico voltar a fazer disco e shows? “Quando ele quiser”, responde Das Neves. Os shows em São Paulo foram registrados e devem render CD e DVD ao vivo, ainda sem previsão de lançamento.

Wilson das Neves, por vezes, é descrito pela alcunha de ‘baterista de Chico Buarque’, por fazer parte da banda do compositor há mais de 30 anos. Um dado reducionista para a nobre biografia do baterista. Das Neves é, sim, baterista de Chico, a quem costuma chamar carinhosamente de “chefia”, mas sua carreira é muito mais ampla. E autônoma. Ele já gravou com mais de 750 artistas e acompanhou mais de 100, incluindo Ney Matogrosso, Elizeth Cardoso, Elza Soares e até Sean Lennon, filho de John Lennon.

Criado no bairro de São Cristóvão, Das Neves cresceu ouvindo a trilha sonora das festas na casa da tia e também o tambor tocando no candomblé. Mas o músico só conseguiu bancar seus estudos de bateria aos 18 anos, quando passou a servir no Exército e ganhar o próprio dinheiro. Tempos depois de dar baixa no quartel, já estava trabalhando no ofício. Já o exercício de seu lado de compositor e cantor veio mais tarde. Só em 1973, começou a compor. E, em 1996, após anos tocando para outros artistas, recebeu convite para gravar suas composições. Lançou, então, o primeiro álbum solo, O Som Sagrado de Wilson das Neves. Vieram depois outros três discos. Ao falar de seus 80 anos, Das Neves diz que ainda tem muita coisa para aprender. “Continuo estudando e aprendendo.”


Biografia sobre o músico está sendo lançada

Dois projetos relacionados a Wilson das Neves – e que já existem há anos – estão se concretizando justamente na mesma época em que o baterista faz 80 anos de idade. E nem foram pensados de propósito para a data. Pura coincidência. Está sendo lançado o livro Ô Sorte! Memórias de um Imperador (Editora Multifoco, 114 págs; R$ 40), de Guilherme Almeida, descrito como uma breve biografia de Wilson das Neves. O título foi vendido durante os três dias de shows do músico no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, mas o lançamento oficial foi realizado no Rio, no dia 16 de junho, no Multifoco Bistrô, com direito a pocket show de Clarice Magalhães e convidados. Há ainda um documentário, que, segundo o próprio Das Neves, depois de muitos anos, conseguiu patrocínio e está sendo editado.


Documentário e livro recuperam vida e obra do músico. A biografia foi ideia de Guilherme Almeida, fã do baterista. Mas não chega a ser uma biografia não autorizada, pois teve a ajuda do biografado. Das Neves concedeu mais de 15 horas de entrevista para o autor e lhe deu o contato de outros entrevistados. Almeida colheu depoimentos de nomes como Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Stéphane San Juan, Elza Soares, entre outros. O posfácio é do compositor e músico Cláudio Jorge.



Discografia Oficial

Elza Soares - Baterista: Wilson das Neves (1968)

Faixas:
01 - Balanço Zona Sul
02 - Deixa Isso Para lá
03 - Garota de Ipanema
04 - Edmundo(In The Mood)
05 - O Pato
06 - Copacabana
07 - Teleco Teco Nº 2
08 - Saudade da Bahia
09 - Samba de Verão
10 - Se Acaso Você Chegasse
11 - Mulata assanhada
12 - Palhaçada


Juventude 2000 - Wilson das Neves e seu Conjunto (1968)

Faixas:
01 - Juventude 2.000
02 - Brazzaville
03 - Goin' Out Of My Head
04 - Wave
05 - Don't Go Breaking My Heart
06 - Domingo No Parque
07 - Tem Dó
08 - João Belo
09 - O Amor Esta Pra Nascer
10 - Nanã
11 - Tema Prô Gaguinho
12 - O Abominável Homem Das Neves




Som Quente É o das Neves - Wilson das Neves e seu Conjunto (1969)


Faixas:
01 - Estou chegando agora
02 - Berimbau
03 - Mambito de arake
04 - Santeiro
05 - Unidunitê
06 - Pick up the pieces
07 - Rock around the clock
The saints rock'n roll (Haley-Gabler)
08 - Os caras querem
09 - Que é isso menina
10 - O canto do pagé
11 - Tema pra Elizeth
12 - Sá Nega 



Samba Tropi - Até aí morreu Neves - Wilson das Neves e seu Conjunto (1970)

Faixas:
01 - Na na Hey Hey Kiss Him Goodbye
02 - Essa Moça Tá Diferente
03 - Sarro
04 - Vênus
05 - Repouso
06 - Raindrops Keep Fallin’ On My Head
07 - Cloud Nine
08 - Feira
09 - Evil Ways
10 - Moeda Reza e Cor
11 - Bebete Vãobora
12 - Come Together

O Som Quente É O Das Neves - Wilson das Neves E Seu Conjunto (1976)

Faixas:
01 - Estou Chegando Agora
02 - Berimbau
03 - Mambito de Arake
04 - Santeiro
05 - Unidunitê
06 - Pick Up The Pieces
07 - Rock Around The Clock (De Knight / Freedman)
08 - Os Caras Querem
09 - Que É Isso Menina
10 - O Canto do Pagé
11 - Tema Pra Elizeth
12 - Sá Nega

.



O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996)
Resultado de imagem para O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996)
Faixas:
01 - O samba é meu dom
02 - Debaixo do cobertor
03 - Soberana
04 - Som sagrado
05 - Tentação
06 - Taça de vinho
07 - Grande hotel
08 - Anftrião
09 - Um samba pro Ciro Monteiro
10 - Partido do tempo
11 - Mestre Marçal
12 - Bisavó Madalena
13 - O Dia Em Que O Morro Descer e Não for Carnaval
14 - Fundamento

Brasão de Orfeu (2004)

Faixas:
01 - Imperial
02 - Fonte de Prazer
03 - De Muito Longe
04 - Ensinamento
05 - Samba pra Mim Mesmo
06 - Jóia Perdida
07 - Amor da Minha Vida
08 - Lupiciniana
09 - Traço de Giz
10 - Resto de Dor
11 - Enganos
12 - A Divina
13 - Brasão de Orfeu


Pra Gente Fazer Mais Um Samba (2010)

Faixas:
01 - Pra Gente Fazer Mais Um Samba
02 - Não Dá
04 - Assédio
05 - Estava Faltando Você
06 - Folha No Ar
07 - Coquetel
08 - Minha Trajetória
09 - Quem Espera Nunca Alcança
10 - Passarinho De Gaiola
11 - Ingrata Surpresa
12 - Nos Braços Do Amanhecer
13 - Velha Guarda Do Império


Se me chamar, ô sorte (2013)
113090680SZ


Faixas:
01 - Se me Chamar, ô Sorte!
02 - Cara de Queixa
03 - Trato
04 - O Dono da Razão
05 - Ao Nosso Amor Maior
06 - Fragmentos do Amor
07 - Jeito Errado
08 - Peão de Obra
09 - Limites
10 - Feito Siameses
11 - Licor, Sereno e Mágoas
12 - Máscara de Cera
13 - Não Existe Mais Saudade
14 - Samba Para João



Fonte: Estadão

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PAUTA MUSICAL: A RÉPLICA DE PEDRO CAETANO À COMPOSIÇÃO DE DORIVAL CAYMMI


Por Laura Macedo


Dorival Caymmi e Pedro Caetano


Os compositores a chamada “Velha Guarda” tinham o hábito de diante de uma determinada composição, responder com outra. Esse o caso de Pedro Caetano, quando Dorival Caymmi lançou “O que é que a baiana tem”, atacando de “O que é que tem?”.




O que é que a baiana tem” (Dorival Caymmi) # Carmen Miranda e Dorival Caymmi. Disco Odeon (11710-A) / Matriz (6023). Gravação (27/2/1939) / Lançamento (abril/1939).






Pedro Caetano, Joel de Almeida e Dircinha Batista


O que é que tem?” (Pedro Caetano/Joel de Almeida) # Dircinha Batista e Bohemios da Cidade. Disco Odeon (11743-A) / Matriz (6117). Gravação (2/6/1939) / Lançamento (julho/1939).




A jovem cantora/compositora Antonia Adnet está lançando o terceiro disco da carreira - "Tem + Boogie Woogie no Samba".


A produção coube a Antonia juntamente com o pai e grande músico Mário Adnet. Os elegantes arranjos valorizam uma seleção cuidadosa, com ótimas surpresas, descobertas no rico baú de preciosidades do nosso cancioneiro. Um exemplo é “O que é que tem?”, parceria de Pedro Caetano e Joel de Almeida, com letra que valoriza a mulher carioca, feita como resposta a “O que é que a baiana tem?” de Dorival Caymmi. Antonia divide a interpretação da música citada com a amiga e, também, cantora/compositora - Roberta Sá. Uma delícia!

O que é que tem?” (Pedro Caetano/Joel de Almeida) # Antonia Adnet com participação de Roberta Sá. Álbum - “Tem + Boogie Woogie no Samba”. Selo Biscoito Fino, 2015.



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Fontes:

- Fotomontagem: Laura Macedo.

- Portal Cultura Brasil - Música Popular Brasileira.

- Revista Carioca (nº 194 / P. 44 /1939).

- Site YouTube / Canais: “luciano hortencio” / “Gilberto Alves Gonçalves” / “Biscoito fino”.

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NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*



O grupo ficou besta, diante de uma farsa tão divertida e competente, de uma dupla de tanto talento, tão rock’n’roll. “Eu sou astrólogo, eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim, eu sou astrólogo, e conheço história do princípio ao fim.” Era como eles cantavam com sinceridade em “Al Capone”. Raul e Paulo, estourando um sucesso atrás do outro, atingindo o Brasil de A a Z, ídolos de pirados, friques e doidões do Oiapoque ao Chuí, estavam mergulhados em seu maior projeto: a “Sociedade Alternativa”. Fizeram até um hino, um hino-rock, um grito de guerra, que o público cantava com entusiasmo nos shows. Era um manifesto anárquico e libertário, alegre e divertido, absolutamente subversivo por qualquer
critério. Nos shows, o público gritava de punhos cerrados: “Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!”  E Raul respondia: “Faze o que tu queres, pois é tudo da lei.” O problema era que Raul e Paulo queriam materializar a “Sociedade Alternativa”, comprar um grande terreno no interior, construir a “Cidade das Estrelas”, organizar uma comunidade com regras e estatutos baseados na doutrina satânica de Aliester Crowley, fazer um jornalzinho, promover shows e reuniões: a sociedade, de alternativa, virava civil, com CGC e tudo. E colocava a dupla no radar da paranóia militar.

As tardes na Philips continuavam animadas. No estúdio, recebemos uma visita especial: diversos executivos da matriz holandesa que faziam uma visita à filial brasileira, para ver de perto o que eles estavam considerando um fenômeno de sucesso e lucratividade. Tim Maia, que estava gravando, saiu discretamente para fumar um baseado no seu “garrastazu”, que era como ele chamava um esconderijo, um mocó, um lugar secreto, dizendo com grande lógica que  era a palavra mais “limpeza” que existia, a que menos despertava suspeitas. Claro: era o nome do ditador-presidente, general Emílio  Garrastazu Médici. O “garrastazu” de Tim era uma salinha escura, úmida e de difícil acesso, cheia de canos e bombas, onde ele fumou tranquilamente seu baseado, sem nem desconfiar que estava na central do ar condicionado: não só o estúdio como o andar inteiro foram invadidos por um cheiro de maconha como nem nas ruas de Amsterdam se sentia. Meio constrangidos, os diretores brasileiros explicaram aos holandeses que Tim, além de muito peculiar, era o maior vendedor de discos da companhia — e eles acharam tudo muito divertido. Mas Tim estava preocupado: tinha comprado um terreno no alto do Sacopã, com uma bela vista para a Lagoa, e construído uma casa destinada a ser a sede de sua gravadora Seroma (Sebastião Rodrigues Maia). Deu tudo certo. O único problema é que Tim tinha construído a casa não no seu terreno, mas no do vizinho, que entrou imediatamente com uma inédita ação de despejo. Acabou comprando o terreno do vizinho por um preço absurdo e vendendo o seu baratíssimo. Em Ipanema, no final do ano, o poeta Torquato Neto, uma das forças criativas do tropicalismo, autor de algumas de suas melhores letras e companheiro de Gil e Caetano no exílio em Londres, fechou as portas e janelas de seu apartamento e abriu o gás. Não foram só musicais as grandes transformações de Elis depois da separação de Ronaldo e do início do namoro com César Mariano. Pessoalmente, ela começou a sofrer as conseqüências da radicalização política quando foi convidada — junto com outros artistas — para cantar nas Olimpíadas do Exército.

Um convite como esse era virtualmente indeclinável. O coronel encarregado do evento ligava para o empresário do artista e convocava, amavelmente. No caso do artista “já ter compromisso”, se dispunha a “interceder” com o clube que já tinha contratado um show no mesmo dia, convencê-lo a mudar a data, num tempo em que qualquer patente militar ao telefone já fazia tremer o interlocutor. Pagava o cachê normal do artista. Mandava buscar e levar em casa. Para recusar, só mesmo dizendo que não cantava para o inimigo. E Elis cantou. Foi chamada de traidora, amaldiçoada no meio musical, colocada no temido “cemitério dos mortosvivos” que o cartunista Henfil mantinha no Pasquim. Ficou furiosa, mudou drasticamente de atitude e passou a acrescentar uma nova prioridade a seu repertório: músicas com letras políticas, mesmo que metafóricas. Mudou-se para São Paulo
e saiu da TV Globo. Caiu na estrada, de ônibus, com músicos, técnicos, produtores e assistentes, se apresentando em 36 cidades do interior de São Paulo, no que imaginava ser um circuito alternativo, de estudantes. Como Bob Dylan e Joan Baez, ela queria cruzar o país com seu pessoal, como uma família, cantando para os jovens e rebeldes, conversando com eles, cantando pela liberdade e pela resistência democrática. Mas não foi nada disto: a turnê, organizada a seu pedido pelo empresário Marcos Lázaro, não tinha shows em clubes — que Elis detestava, achava caretas e comerciais —, só em ginásios e grandes auditórios. 

Mas o público não era de estudantes, como ela esperava: os ingressos eram caros e era o mesmo pessoal que a assistiria nos clubes que ela desprezava, que gritava para que ela cantasse “Upa neguinho”, “Madalena” e “Quaquaraquaquá”, tudo o que ela não queria. No final da turnê, rompeu seu contrato de dez anos com Marcos Lázaro, não queria mais ser uma cantora “comercial”, queria prestígio e independência — e redenção política. No novo disco gravou quatro músicas da nova sensação de compositor, o mineiro João Bosco, sofisticadíssimas, com letras de alto nível artístico e político de Aldyr Blanc, mais quatro de
Gilberto Gil, reflexões existenciais como “Oriente” (“Se oriente, rapaz...”), que abria o disco.
Para completar, dois velhos sambas, talvez as melhores faixas do Lp. “Folhas secas”, uma obraprima, das últimas, do veterano Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e um samba de velhos carnavais, um clássico popular de Pedro Caetano: “É com esse que eu vou”. Com essas duas gravações perfeitas, Elis cristalizava um estilo de cantar samba, oposto à estridência jazzística de Samba eu canto — assim e à exuberância rítmica dos sambões de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Mínima, discreta, sintética, Elis escondia as sílabas com dicção perfeita, dava menos volume à voz, sofisticava as divisões rítmicas, valorizava os silêncios, não desperdiçava nada. Epa! Parece que ela — finalmente — também se rendeu à magia de João Gilberto. Uma parte do seu público sentiu como “frieza” e “distanciamento” esse novo jeito de Elis cantar samba; outra encantou-se com seu refinamento e sutileza, combinados com uma soberba base musical, liderada pelo piano de César, valorizando as harmonias elegantes num ritmo irresistível.

Mas, cinco anos antes, por causa de um samba, Elis provocou a ira — certamente silenciosa — de João Gilberto. João tinha criado um arranjo — vocal e instrumental — absolutamente inovador e magistral para o velho e esquecido samba “Nega do cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser. Suas divisões rítmicas, suas sequências de acordes surpreendentes transformavam a música completamente. João tinha criado uma pequena obra-prima, mais uma. Empolgado, cantava-a para amigos, em casa, pelo telefone. Até que um deles, provavelmente uma, com bom ouvido e memória musical, de tanto ver João tocar e cantar, aprendeu tudo tintim por tintim. E, empolgada, mostrou ao amigo Roberto Menescal, que, mais empolgado ainda, mostrou para César e Elis, que, empolgadíssima, aprendeu e gravou, tal e qual o original. João se sentiu roubado, passou a ter um cuidado quase paranóico com o que mostrar e a quem, se aperfeiçoando na arte de jamais tocar duas vezes a mesma música com os mesmos acordes. Mas era tarde demais: o bem já estava feito. Em maio de 1973, Elis era uma das estrelas do grande evento da Philips — o festival “Phono 73” —, três noites em São Paulo com todo o seu elenco milionário reunido em duplas, algumas delas surpreendentes e provocativas, como Caetano Veloso e o rei do “brega jovem”, Odair José, grande sucesso popular com suas músicas de amor para prostitutas (“Eu vou tirar você desse lugar”) e empregadas domésticas, na crista da onda com o hit “Pare de tomar a pílula”. Mesmo sendo um festival sem prêmios, promovido por uma gravadora, na plateia do Phono 73 os ânimos estavam exaltados. O público e a imprensa ansiavam por novidades, surpresas, intervenções políticas, rebeldia e resistência. A Philips esperava gravar tudo ao vivo e lançar em três discos, valorizando e movimentando seus talentos em duetos, somando públicos, lançando novas músicas e novas versões de antigos sucessos, misturando suas estrelas estabelecidas com as jovens revelações musicais.

Quando entrou no palco, tensa e de cara fechada, Elis foi recebida com frieza pelo público passional e politizado. Entre os aplausos pouco entusiasmados, alguns assobios e uma voz raivosa que grita “Vai cantar na Olimpíada do Exército!”, provocando uma pororoca de vaias e aplausos e a réplica “Respeitem a maior cantora do Brasil”, atribuída a Caetano. Pior — ou melhor — se saíram Chico Buarque e Gilberto Gil, que tinham feito uma música perfeita para expressar o momento e o estado de espírito que vivíamos, de repressão e sofrimento, de medo e desconfiança, apropriadamente chamada, em tempos de boca calada obrigatória, “Cálice”: “Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue.” A música era um protesto tão sentido, tão doloroso e apropriado, tão óbvio, que a Censura Federal naturalmente a proibiu. Mesmo não constando da lista aprovada pela Censura, Chico e Gil decidiram cantá-la, sem a letra, só dizendo a palavra “cálice”. E assim tentaram fazer, no meio da gritaria do público, e nem isto conseguiram. O som do microfone foi cortado. Na versão oficial, por agentes da repressão, porém o mais provável é que tenha sido um funcionário mais apavorado da Philips, para evitar represálias. Ou talvez o censor, abominável presença obrigatória que acompanhava todos os shows, tenha mandado o técnico cortar o som. O fato é que Gil e Chico não conseguiram cantar — embora com isso tenham provocado ainda mais barulho.

A grande vitoriosa do Phono 73 foi Gal Costa, sem fazer política, estritamente musical e até religiosa, dividindo o microfone com Maria Bethânia na lindíssima e inédita “Oração a Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi. As duas, filhas do terreiro do Gantois, Iansã e Oxum, respectivamente, levantaram o público e no final da música, de mãos dadas, se beijaram na boca. De Gal também foi a música que se tornou o maior sucesso popular do Phono 73, uma esperta reinterpretação do velho sucesso local “Trem das onze”, um clássico “samba italiano” de Adoniram Barbosa delirantemente recebido pela platéia paulistana. O público envaidecido cantou entusiasmado com Gal o refrão edipiano. “... minha mãe não dorme enquanto eu não chegar, sou filho único, tenho minha casa pra olhar não posso ficar (breque), não posso ficar.” 

Depois de uma viagem a Paris, Londres e Nova York, que Marília não conhecia, passamos a morar juntos numa cobertura em Copacabana. Convidada pela TV Globo para estrelar um especial mensal — “Viva Marília!” — que entraria no lugar do “Elis especial”, Marília me chamou para ser o produtor musical e um dos roteiristas do programa, junto com Domingos Oliveira e Oduvaldo Vianna Filho. A direção musical seria de Guto Graça Mello e eu faria também as letras das músicas que seriam compostas especialmente para o programa, onde Marília receberia convidados para quadros de comédia, drama e musicais. A surpresa era a indicação da TV Globo para a direção: a dupla Miele e Bôscoli. Na primeira reunião de produção, pela primeira vez depois de tudo que tinha acontecido, fiquei cara a cara com Ronaldo. Nos cumprimentamos com naturalidade e até com certa efusão tensa e exagerada. Eu estava aliviado por encerrar aquela briga, aquela culpa, aquela história pesada de amor e traição. Acho que ele também, embora com Ronaldo fosse impossível ter certeza do que ele realmente sentia. Como dois Escorpiões, ele era de 28 e eu de 29 de outubro, guardamos os ferrões e nos entendemos. Ele estava casado de novo, com uma advogada, eu com Marília. Elis era uma palavra proibida.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

TOM ZÉ COMEMORA 80 ANOS EM MINITEMPORADA NO RECIFE



Tom Zé retorna ao Recife para uma minitemporada na Caixa Cultural Recife. De 28 de setembro ao dia 1º de outubro, o público poderá conferir o baiano ao vivo com o showTom Zé 80 anos. Os ingressos custam R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) e começam a ser vendidos a partir do dia 27/09 das 10h as 20h na bilheteria da Caixa Cultural Recife junto ao Marco Zero.

Tom Zé reelaborou músicas de vários de seus discos, incluindo o recente Vira lata na Via Láctea que contou com a participação de diversos músicos desta nova geração. Apesar dos 80 anos, o baiano continua com uma disposição invejável. “Eu me encontro com uma pulsante força de espírito que tem a confiança de me acompanhar e de aparecer nos lugares em que eu canto, e que se torna minha força e capacidade de compor”.

Tom Zé vem ao Recife trazendo como convidada especial a cantora paraense Luê. A sua banda de apoio é formada por Daniel Maia, produtor dos discos de Tom Zé há alguns anos (guitarrista e vocalista), Jarbas Mariz (violão, bandolim, percussão e vocal), Felipe Alves (baixo e vocal), Cristina Carneiro (teclados e vocal) e Rogério Bastos (bateria). Tom Zé não poupa elogios aos instrumentistas: “Minha família, que aqui é chamada de banda há pelo menos vinte anos, são músicos pra quem não é preciso garimpar adjetivos”.

Nascido na cidade de Irará, Tom Zé é um dos principais nomes do movimento tropicalista que irradiou música do Brasil para o mundo nos anos 1960. Há quarenta anos lançou o elogiado disco Estudando o Samba, tido como inovador por sua ousadia formal e que o consagrou perante crítica e público. Já foi tema de três documentários e é autor do livro Tropicalista Lenta Luta.


Fonte: O Grito!

domingo, 25 de setembro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Por Bruno Negromonte


Autora de "Velório de um sambista",
Dora ganhou destaque ao longo dos anos de 1950 e 1960


Esta semana trago novamente uma grande intérprete da música popular brasileira que infelizmente caiu no limbo do esquecimento e que hoje só tem espaço em locais que prezam pelo saudosismo e pela qualidade de registros fonográficos como é o caso deste nosso cantinho.  Nascida em 1922 no Rio de Janeiro, Dora Freitas Lopes aos 14 anos de idade, fugiu de casa com a intenção de ser cantora de Rádio. Alguns anos depois já se apresentava em casas noturnas de sua cidade natal assim como também de São Paulo. Por volta de 1947 conquistou o primeiro lugar no famoso e rigoroso programa de calouros apresentado pelo compositor Ary Barroso na Rádio Nacional, onde interpretou "Plac-plac", canção de autoria de Francisco Malfitano que tornou-se um grande sucesso em 1939 na voz da Dircinha Batista. Ainda nos anos de 1940 gravou pelo selo Star o seu primeiro disco com os sambas "Volta pro teu barracão" e "Roubei o guarani". A década seguinte veio acompanhada de diversos registros fonográficos para a artista, dentre eles, os batuques "Toma cachaça" e "Cão cambieci", marchas tais quais "Moço direito", "Pegando fogo" os samba-canções "Inclemência", "Baralho da vida", "Você morreu pra mime sambas como "Vou beber", "Me abandona", "Lei da razão" e o sucesso "Minha chave é você", parceria com Hamilton Costa e Waldemar Silveira gravado na RCA Victor por Dircinha Batista. Vem desse período as suas primeiras incursões internacionais, situação esta que acabou propiciando, ao longo dos anos anteriores, apresentações suas em países como França, Itália, Suíça, Venezuela, México e Estados Unidos, sempre buscando divulgar os mais distintos ritmos brasileiros por onde passou.

Contemporânea de nomes como Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Dolores Duran, Silvinha Telles, Ary Barroso entre outros; Dora passou por gravadoras como a Continental (onde fez registros de canções como os sambas-canção "Toda só",   "Samba não é brinquedo", "Tenho pena da noite", entre outras); a pernambucana Mocambo (onde registrou faixas como o samba "Maria Navalha", a marcha "Fila de gargarejo", o samba "Samba borocochô", entre outras). Aliás, foi na Mocambo que a artista lançou o seu primeiro Long Play intitulado "Enciclopédia da gíria", projeto onde gravou autores como César Cruz (autor da faixa que batiza o disco), Zeca do Pandeiro, Arthur Montenegro, Ari Monteiro entre outros. Além de atuar em discos chegou a fazer parte também do casting das rádios Nacional e Mayrink Veiga. Sem contar o sucesso internacional que alcançou ao participar de uma excursão pela Europa e América do Norte onde apresentou-se divulgando ritmos brasileiros em diversos países tais quais  México, Estados Unidos, Suíça, França e Itália. Vale o registro do álbum que gravou pela Beverly em 1965. Intitulado de "Minhas músicas e eu", o disco incluiu várias músicas de sua autoria: "Dona solidão", "Madrugada zero hora", "Com Dolores no céu" e "Dúvida". Ao longo de sua carreira, atuou na vida noturna de Copacabana, convivendo com toda a boêmia das décadas de 1950, 60 e 70. Dora Lopes é também reconhecida por ter sido uma das primeiras cantoras notadamente homossexual da MPB. Vale o registro de sua carreira em números. Ao longo das décadas de 1950 à 1980 gravou um total de 19 discos em 78 rpm pelas gravadoras Sinter, Continental e Mocambo, além de 3 LPs. Como compositora seu maior êxito foi o "Samba da Madrugada".

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

MARTINHO DA VILA LANÇA PRIMEIRO DISCO DE INÉDITAS EM NOVE ANOS

"De bem com a vida" tem formato de cordas, pouca percussão e parcerias


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Martinho da Vila, 78 anos, acaba de fazer um dos grandes discos de sua trajetória. Na mão contrária da superpopulação de instrumentos e produções que tomam as gravações de estúdio, ele tira quase tudo para fazer um álbum bastante limpo que, a princípio, seria ainda mais "intimista", conforme conta: 

– Eu só queria um cavaquinho, um violão e eu mesmo fazendo um ritmo. Muito arranjo prejudica o recado que a letra deve passar, prejudica até a melodia. Hoje em dia, está tudo ritmado demais. Se deixar, fazemos samba apenas para as pessoas dançarem.

O novo disco de Martinho é De bem com a vida, com músicas inéditas depois que o sambista passou nove anos sem um novo trabalho conceitual. Se estivesse nos anos em que as gravadoras imortalizavam canções, várias delas ficariam para a posteridade. Além do formato de cordas e pouca percussão, Martinho conta com parceiros de luxo (como João Donato, Jorge Mautner e Arthur Maia) e com a produção de André Midani, o lendário ex-diretor das gravadoras Philips e Warner, que estava há três décadas longe dos estúdios. 

– Quando o convidei, ele respondeu dizendo que estava há muito tempo sem ir para o estúdio. E que nunca havia feito um disco de samba – disse o produtor.

Pois o álbum que reconduz Midani ao mercado e Martinho às inéditas é inspirado. Escuta, cavaquinho!, a primeira, é fruto de uma parceria com Geraldo Carneiro, na qual o violão faz uma declaração para o cavaco. Na sequência,Choro chorão é um chorinho de 1976 e, Danadinho danado (com Zé Catimba) foi lançada pela cantora Simone em 1995.

O clássico Disritmia, lançado pelo sambista em 1974 no disco Canta canta minha gente, dá dois frutos no novo repertório. O primeiro veio de um pedido da cantora Roberta Sá, chamada Amanhã é sábado, que ela lançou em Delírio, de 2015. Roberta queria que Martinho fizesse uma canção, desta vez, para uma mulher cantar. Ele aproveitou e criou Disritmia às avessas, com a mulher chegando exausta do trabalho, pedido colo ao marido. "Estou um bagaço, amor / Preciso de colo / Preciso de colo amor, estou em bagaços".

Com Carlinhos Vergueiro, Martinho fez Desritmou, outra cria de Disritmia. "Encontrei meu ex-amor / A mulher que eu sempre amei / E jamais deixei de amar / Mesmo estando distante / Ela me abriu os braços / Com sorrisos me saudou / Eu fiquei emocionado / Meu coração desritmou". Mas a tal mulher se revela outra, modificada pelo tempo, e o narrador se entrega à decepção.

Aos poucos, Martinho paga uma conta que pendurou em 1975, quando lançou a música que iria lhe dar mais dores de cabeça na vida: Você não passa de uma mulher. O feminismo no início de sua militância apontou o machismo do sambista em uma letra difícil de ser defendida mesmo por quem não via maldade no sambista. "Olha a moça inteligente / Que tem no batente o trabalho mental / QI elevado e pós-graduada / Psicanalizada, intelectual / Vive à procura de um mito / Pois não se adapta a um tipo qualquer / Já fiz seu retrato, apesar do estudo / Você não passa de uma mulher (viu, mulher?) / Você não passa de uma mulher (ah, mulher)". Hoje Martinho diz que, mesmo tendo feito a música de propósito para responder à patrulha que se armava contra os sambistas, não teria usado a expressão infeliz, "você não passa".

– A música fez muito sucesso, mas sofreu também muita resistência. Era a época de um feminismo que queria masculinizar a mulher, e eu acabei fazendo essa música para provocar mesmo. Penso hoje que, em vez de 'você não passa', eu deveria ter usado algo como 'não se esqueça' –admitiu.

O samba, como o rap, sempre foi machista, lembra Martinho:

– O país sempre foi, e os compositores sempre foram mais homens. Basta lembrar de Amélia (de Mario Lago). 

Além do novo disco, Martinho passou pela Bienal do Livro de São Paulo, na última quarta, para falar sobre seu novo romance, Barras, vilas e amores, sua terceira ficção dentre os 14 livros que já lançou. 

– Criei uma história fictícia, mas muito possível de acontecer.

BARRAS, VILAS E AMORES
Autor: Martinho da Vila Ed.: Sesi (216 págs., R$ 42)


Fonte: Estadão Conteúdo

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