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segunda-feira, 25 de maio de 2015

80 ANOS MILTON BANANA

Por sua técnica, Milton acabou tornando-se o Rei do Ritmo na terra dos grandes bateristas

Por Marcelo Pinheiro



Edgar Nunes Rocca, o pioneiro Bituca,Edison Machado, Dom Um Romão, Wilson das Neves, Hélcio Milito, Chico Batera,Pascoal Meirelles, Jorge Autuori, Airto Moreira, Toninho Pinheiro, Ronald Mesquita, Rubinho Barsotti, Ivan “Mamão” Conti, e tantos outros. Não restam dúvidas: o Brasil dos anos 1960 e 70 foi prolífico em revelar grandes bateristas. Músicos inventivos e essenciais para reescrever a história do instrumento no País e compor um irresistível jeitinho brasileiro de conduzir pratos, bumbos e tambores. Tradição que teve em Antonio de Souza, ou melhor, Milton Banana, a figura de um desbravador. Acompanhando João Gilberto e Tom Jobim no histórico concerto da bossa nova realizado em Nova York, no Carnegie Hall, Milton fez mais que história. Deu ao instrumento novas possibilidades e estabeleceu rico diálogo entre as tradições rítmicas do samba e a riqueza técnica do jazz.

Naquela noite de 21 de novembro de 1962, em Nova York,arrebatados pela revelação da beleza harmônica das canções interpretadas por João Gilberto, os músicos presentes na plateia – e não eram poucos – também devem ter dado um nó na cabeça ao descobrir o modo peculiar com que Milton construía sua elegante teia percussiva para o baiano e o jovem maestro Tom. Se a João é atribuída paternidade da batida bossa nova ao violão, o mesmo vale para Milton em relação a seu instrumento, visto que, como o baiano, ele propôs um salto de modernidade sem precedentes. Depois deles, aos músicos que lidavam com os dois instrumentos, como diria a bela canção de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, nada seria como antes.



Nascido em 1935, no bairro de São Cristovão, Zona Norte do Rio de Janeiro, aos 20 anos o autodidata Milton Banana (nome artístico sugerido por sua mãe, acrescido da fruta pela qual tinha verdadeira compulsão) começou a tocar bateria profissionalmente na orquestra do maestro Waldir Calmon, que se apresentava regularmente na boate Arpège (ouça Zorra, releitura de Calmon paraPop Corn – With a Feeling, de James Brown). Meses depois, Milton passou a integrar o conjunto dançante da boate Drink, de Djalma Ferreira, também líder do popular Milionários do Ritmo, cujo crooner era o ás do sambalanço, Miltinho (ouça Samba do Drink).

Se as noites na casa de Djalma, situada na divisa do Leme e Copacabana, na Avenida Princesa Isabel, eram dedicadas à dança, na calçada do lado oposto, no Hotel Plaza, uma espécie de “laboratório” da bossa nova funcionava a revelia do grande público. No Hotel Plaza, quem dava as cartas regularmente era o grande Johnny Alf; vez ou outra, um jovem visitante armado de seu violão, chamado João Gilberto, dava canja. Foi no “after-hour” das noites solitárias e esfumaçadas do Plaza, entre uma escapada e outra da boate de Djalma, que Milton começou a trilhar os caminhos que o levaria a “paternidade” da batida bossa nova na bateria.

No final de 1955, após Johnny partir para São Paulo, convidado a liderar o conjunto do novo bar Baiuca, na boemia região central da capital paulistana, Milton passou a integrar o conjunto de Luizinho Eça, outro jovem prodígio do piano que, depois de ser laureado por ninguém menos que o presidente Juscelino Kubitscheck, ganhou bolsa para ir a Europa e foi ter aulas com o maestro dodecafonista H.J. Koellreutter (que viveu longos períodos no Brasil). Ao voltar do Velho Mundo, decidido a abrir mão da formação erudita, Luizinho montou o fundamental Tamba Trio.

O grupo liderado por Luizinho no Plaza era da pesadíssima. No contrabaixo, Ed Lincoln, que depois se tornaria célebre em bailes e LP’s ao “pilotar” seu órgão Hammond B-3, com doses cavalares de sambalanço; no acordeon, um certo pianista e trombonista acreano chamado João Donato, ex-namorado de Dolores Duran, com quilometragem de sobra em jam-sessions, e um primeiro LP na praça, Chá Dançante; tentando fugir do rótulo limitador de “Princesinha do Baião”, a miúda Claudette Soares assumiu os vocais do grupo e também encontrou ao lado de Luizinho, Ed, Donato e Milton, novos e frutíferos caminhos no bar do Hotel Plaza .

Habitué, João Gilberto passou a ser espécie de referência moderna para o local. Afinal, se o baiano, conhecido na Zona Sul carioca por estar renovando estruturas musicais, frequentava religiosamente o bar do hotel é porque ali havia pessoas com visão futurista e interessadas no novo – “gente descolada”, como diria a juventude de hoje. O Plaza passou, então, a aglutinar protagonistas da vanguarda musical carioca naquela última metade dos anos 1950. Foi lá que, acompanhando João Gilberto e Tom Jobim, Milton Banana abriu caminho para tornar-se referência mundial em seu instrumento. No livro Chega de Saudade, Ruy Castro relembra e defende: “João Gilberto não era o único a estar cozinhando ousadias no Plaza. O baterista Milton Banana recebeu permissão para acompanhá-lo, desde que tocasse bem baixinho. Aos poucos, limitando-se a escovinha em cima do pano e a uma baqueta contra o aro da caixa, Banana conseguiu transpor para a bateria Pingüim a mesma batida do violão”. E foi, assim, nas madrugadas boêmias do bar do hotel, na base do improviso, e sob o rigor técnico de João, que nasceu a batida bossa nova na bateria. Entre 1958 e 1959, não por acaso, Milton integraria as gravações dos primeiros compactos de João e do marco-zero da bossa Chega de Saudade.

No início de 1962, depois de experimentar uma temporada argentina com João, Os Cariocas e Badden Powell na boate 686, em Buenos Aires (e despertar enorme admiração no grande Astor Piazzolla, presença constante em seus shows), de volta ao Brasil, Milton integraria as gravações de Muito A Vontade, um dos clássicos da extensa discografia de João Donato. Ao lado de João Gilberto, Tom e d’Os Cariocas, o baterista participou também de outro momento divisor para a música popular do País, a temporada de shows Um Encontro – Milton fechou a cozinha com o baixista Octavio Bailly Jr, que depois integraria o Bossa Três de Luis Carlos Vinhas, com a saída do primeiro baterista, o grande Edison Machado.Produzido por Aloysio de Oliveira no nightclub Au Bon Gourmet, o show Um Encontro revelou ao Brasil a faceta de cantor do poeta e diplomata Vinicius de Moraes. O espetáculo foi também a primeira e última ocasião em que Tom, João e Vinicius dividiram um mesmo palco.



Se os últimos dias de 1962 foram marcados pelo histórico concerto no Carnegie Hall e uma fossa terrível – Milton namorava, à época, a cantora Elza Soares, que o deixou para ficar com Mané Garrincha, ironicamente, o maior craque do seu time do coração, o Botafogo –, o ano seguinte seria de conquistas ainda maiores para ele. Além de integrar, em Nova York, as gravações deGetz/Gilberto, LP que tornou a bossa nova cultuada no mundo todo, acompanhando João, o baterista fez uma temporada de três meses no Bussoloto, clube anexo à imponente casa de shows La Bussola, na cidade de Vaireggio, no Sul da Itália. A incrível banda de João também integrava Tião Neto (que apesar de vergonhosamente não ter sido creditado, foi o baixista de Getz/Gilberto) e João Donato, que aceitou convite do baiano e partiu com ele, de Nova York para a Itália. Na mesma ocasião em que os brasileiros fizeram sua temporada, o “Rei do Twist”, Chubb Checker, fez vários shows no La Bussola. Reza a lenda, não perdia uma apresentação de João e seu conjunto.


Mas o grande feito de Milton, em 1963, foi mesmo o lançamento de seu primeiro disco solo, O Ritmo e o Som da Bossa Nova. Dando conta da importância do músico, a gravadora Audio Fidelity deu ao álbum o solene sub-título Apresentando Milton Banana, o Maior Baterista da Bossa Nova, com o conjunto de Oscar Castro Neves (parte da história do selo americano do produtor Sidney Frey foi contada em texto de Quintessência que trata dos bastidores do primeiro álbum do Sambalanço Trio, lançado pela Audio Fidelity).

O álbum é composto de 12 temas instrumentais. A maioria deles standards da bossa nova, comoVocê e Eu, Desafinado, Samba de Uma Nota Só, Chega de Saudade e Influência do Jazz. Além dessas cinco unanimidades, não menos importantes, outros sete temas: de João Roberto Kelly, Boato; de Pernambuco e Antonio Maria, O Amor e a Rosa; de Dé Rosa e Vera Brasil, O Menino Desce o Morro; de Luiz Bandeira e Luiz Antonio, O Apito no Samba; de Oscar Castro Neves (morto em setembro deste ano, em Los Angeles, vitimado por um câncer), Bossa Nova Blues, Não Faz Assim e Chora Tua Tristeza (esta em parceria com Luvercy Fiorini). Dão auxílio luxuoso e acabamento requintado ao disco de estreia do baterista os seguintes músicos: o irmão de Oscar (multi-instrumentista que nele toca piano), Iko Castro Neves (contrabaixo), Roberto Pontes Dias (percussão), e os americanos Leo Wright (sax alto e flauta) e Henry Percy Wilcox (guitarra).


Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana, em 1963, durante as gravações de “Getz/Gilberto” (foto: Verve Records)

Lançado pela filial paulistana da Audio Fidelity, sediada na Rua Rego Freitas, no coração da cidade, O Ritmo e o Som da Bossa Nova seria sucedido por uma série de discos gravados em São Paulo com um novo conjunto, o Milton Banana Trio, formado pelo baterista, o pianista Wanderley e o baixista Guará. 

Entre 1965 e 1979, Milton lançou nada menos que 13 álbuns autorais. Nos anos 1980, voltaria a morar no Rio e lançaria LP’s dedicados ao repertório dos amigos Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Em 1992, o diabetes levou Milton a desenvolver graves problemas circulatórios. Sete anos mais tarde, em abril de 1999, ele teve parte da perna direita amputada. Mesmo assim, não deixou o instrumento). Em 15 de maio daquele ano, extremamente debilitado e vivendo severas privações financeiras, Milton Banana morreu aos 64 nos, vitimado por um infarto fulminante. Tom Jobim jamais revelou tal fato em vida, mas amigos próximos garantem que foi o maestro quem manteve por anos as despesas fixas do baterista, incluindo-se aí, o aluguel de seu diminuto apartamento em Copacabana. No velório do pai da bateria bossa nova, entre inúmeras coroas de flores, uma delas se destacava pela dedicatória: “À Milton, a quem o Brasil não homenageou, nem conheceu nunca. Ass.: Todos os músicos do Brasil”. Lógico, ele jamais surgiria em público ou daria uma entrevista para confirmar, mas o belo tributo a Milton Banana, diversas fontes garantem, foi cortesia do amigo João Gilberto.

domingo, 24 de maio de 2015

PROGRAME-SE


sexta-feira, 22 de maio de 2015

EDDIE LANÇA DISCO COM TÍTULO INSPIRADO NA OBRA DE JOÃO CABRAL

Vocalista Fabio Trummer declara que o álbum é o que mais se aproxima do "alvo" estabelecido em relação ao som produzido desde a década de 1990


Por Larissa Lins



Estarás mais ancho que estavas no mundo, está escrito em Morte e vida Severina, do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto. Fábio Trummer, a voz da banda Eddie, está, de fato, mais ancho. À vontade, conta que o sexto álbum – lançado nesta segunda-feira (04) na internet – é aquele que mais se aproxima do “alvo” estabelecido pelo grupo em relação ao som produzido desde a década de 1990. De bom tamanho, “nem raso, nem fundo”, nas palavras de João Cabral.

Isto porque o quinteto mergulhou na própria experiência, mas faz questão de fugir aos rótulos “aprofundados” da crítica musical quanto ao gênero do disco. Segundo Trummer, não se trata de rock, frevo, samba ou música caribenha. “É a música da Eddie, simplesmente. Não há como nem por que classificar o que é autoral”, reforça. Quanto ao título Morte e vida, explica: “Não se trata de uma releitura da obra [de João Cabral], mas de letras que filosofam sobre a morte e o renascimento de tudo, sobre o ciclo das coisas e relações.”

Assim como o auto de Natal pernambucano, no entanto, o álbum está repleto de dicotomias. Se Cabral lista as “vantagens” da cova em relação ao mundo, descortinando o lado “conveniente” da partida, Eddie comemora e lamenta ao mesmo tempo a perda de um amor, na faixaQuebrou, saiu e foi ser só. E em Longe de chegar – com participação de Karina Buhr – a utopia de um lugar sempre distante, porém “tão singular”, remete à vida ideal (mas jamais alcançada) das entrelinhas dos versos de Morte e vida Severina. 

A separação da esposa, a perda do pai e o contexto político do país influenciaram a construção das letras – todas compostas por Fábio Trummer, em São Paulo, entre março e novembro de 2014. O gasto com os estádios destinados à Copa do Mundo, o mau desempenho da Seleção e, principalmente, a troca de ofensas entre eleitores frente às urnas são latentes em faixas comoQueira não – “Desculpe a gentileza/ eu desculpo o empurrão.” 

Mas a prova de que são referências ideológicas e não textuais que unem os versos de João Cabral e o novo disco da Eddie está na faixa-título, Morte e vida. Nenhum trecho do escritor pernambucano é citado ou parafraseado. Mas a ideia da morte – e da vida injusta antes dela – está lá. “A prova do crime é o corpo à prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu.” A violência urbana é condenada, como em Pedrada certeira, com mensagem crítica e pacifista. “Buscamos refletir sobre o ciclo das coisas, dos relacionamentos, sobre o convívio social e sobre o fim de todas as coisas. Cabral é um professor, a referência foi filosófica”, explica Trummer. 




O show de estreia da turnê está marcado para 26 de junho, em São Paulo. Depois, o grupo segue viagem pelo país, sem contratos fechados até então. Nos próximos shows em Pernambuco, não-relacionados à turnê de Morte e vida, algumas faixas inéditas já entram no repertório. No dia 5 de junho, Eddie sobe ao palco do Clube Atlântico de Olinda para comandar a festa Quando tu balança, junto com Forró Bole Bole e DJ Pós.


Frases


Morte e vida não é uma tradução literal. A morte, na verdade, representa uma renovação. Morrer é se renovar, não significa o momento final. Simboliza ainda a renovação da rotina, cada dia é uma nova luta.

Andret Oliveira, trompete e teclado


A morte vai além da morte biológica. Há o fim das coisas, dos relacionamentos. Os términos fazem parte da relação entre os seres. Isso tudo é morte e vida. Pode ser o fim de um casamento, a mudança de emprego, uma nova fase e tudo o que ela traz.
Fabio Trummer, vocalista


Morte e vida sugere uma estética nova, um conceito maduro. É sobre a renovação, sobre não se repetir. Produzir coisas novas. Ao invés de finais, recomeços.
Kiko Meira, bateria

quinta-feira, 21 de maio de 2015

GRAMOFONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*





Canção: Ao som dos violões

Composição: Jacob do Bandolim

Intérprete - Déo Rian e Conjunto Noites Cariocas

Ano - 1980

Álbum: Inéditos de Jacob do Bandolim - Déo Rian e Conjunto Noites Cariocas - Eldorado


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 5000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

quarta-feira, 20 de maio de 2015

APÓS SHOWS DE 'CARBONO', LENINE DIZ QUE SUA MÚSICA GANHA OUTROS CONTORNOS NO PALCO

Longe do 'ambiente hospitalar' do estúdio, onde é difícil encontrar a emoção, artista percebe como suas composições chegam ao público

Por Eduardo Tristão Girão



São Paulo – Lenine se considera um “zeppeliniano”. “Uma coisa é um disco do Led Zeppelin, outra coisa é o show dos caras. É tudo estímulo, mas a mecânica é diferente”, explica. É por isso que seu novo disco, 'Carbono', soa diferente no fone de ouvido e no palco. Se no estúdio alinhou com competência colaborações díspares como Nação Zumbi e os holandeses da Martin Fondse Orchestra, no palco do Sesc Pinheiros, em São Paulo, onde encerrou na noite deste domingo a minitemporada de estreia, a aposta foi num som mais direto e pesado. Não é “mais um” show de MPB.

Para início de conversa, todas as 11 novas faixas estão lá (algumas rearranjadas) e praticamente não há hits. Cheia de ritmo, a mão direita da guitarra de Lenine, sua marca, é a mesma, mas a banda não fica à mercê dela. A concepção musical do espetáculo deixa clara a intenção de que ali se estabeleça o chamado “som de banda”, aquela colaboração orgânica entre músicos que não estão ali para cumprir um roteiro secundário. Não são meros acompanhantes.

O cantor e compositor pernambucano foi acompanhado pelo núcleo duro que gravou 'Carbono' com ele: o experiente JR Tostoi (guitarra), o filho Bruno Giorgi (bandolim e guitarra), Guila (baixo) e Pantico Rocha (bateria) – os dois primeiros assinam com Lenine a produção do disco. Sem convidados especiais, sem firulas e num cenário de poucos elementos, o que inclui fundo preto, uma escultura de ferro pairando acima da banda e 600kg de raspas de pneus espalhados pelo chão.

“No estúdio, você busca o sentimento, mas é difícil chegar a ele, já que o ambiente é hospitalar. No palco, o sentimento é a isca maior e é o melhor lugar, pois nele percebo de maneira inconteste como chega o que faço. Gosto muito da certeza de que, com a música, viajo. Já rodei o mundo fazendo o que faço, fiz amigos e tenho lugar para cair em qualquer canto do planeta. 'Carbono' também tem isso, é um somatório de amigos, é muito coletivo. Conto com a autoralidade, no caso do palco, de cada um dos integrantes”, afirma o artista.

Ao longo de uma hora e meia, ele passa de ponta a ponta pelo novo disco, pinça canções de outros trabalhos (como 'Envergo mas não quebro', 'Na pressão', 'Olho de peixe', 'Martelo bigorna' e 'Sonhei') e abre pequena janela para tocar, só com voz e violão, dois sucessos (a exemplo de 'Hoje eu quero sair só'), totalizando pouco mais de 20 composições. “Sei que tem aquela pessoa que quer ouvir isso. Tenho umas seis ou sete canções que tiveram mais exposição. Gosto desses filhos, mas tenho uma prole maior”, justifica.

No final das contas, o novo repertório mantém Lenine como um dos nomes de expressão da MPB, aliando esmero musical que mantém seu ouvinte habitual curioso e cuidado na escolha das palavras, ao lado de parceiros como Carlos Posada, Vinicius Calderoni, Lula Queiroga, Carlos Rennó e o filho João Cavalcanti. É possível que uma parcela do seu público (a mais afeita a hits) não vá achar tanta graça, mas o pernambucano cumpriu seu papel como artista. Experimentou.


COSTURA 

A audição de Carbono revela a habilidade de Lenine, Tostoi e Giorgi para deixar coerente a costura das participações que conferem matizes distintos ao disco. Isso começa já na faixa de abertura, 'Castanho', que teve participação do violeiro Ricardo Vignini. “Percebi nessa canção uma verve pantaneira e imaginei a viola. Queria alguém desse universo, mas com veia roqueira. Foi assim que cheguei ao Ricardo”, conta Lenine.

Também marcou presença em estúdio a Orkestra Rumpillez e seu maestro, Letieres Leite, naquele que é talvez o ponto alto do trabalho, 'À meia-noite dos tambores silenciosos', marcada por delicado trabalho de sopros e percussão. Também vale destacar as colaborações com a Nação Zumbi (no frevo contemporâneo 'Cupim de ferro') e com a Martin Fondse Orchestra (a introspectiva 'O universo na cabeça do alfinete'). O percussionista Marcos Suzano e o flautista e saxofonista Carlos Malta, ambos instrumentistas de peso, também estão lá.

“A hora do disco é a da experimentação. É um processo laboratorial, com uma lupa diferente, que não é a mesma do show. Meus discos são para fazer o que não fiz. Passar para o palco é outra coisa. No fundo, faço disco para agradar a umas 30 pessoas. Família, filhos e algumas pessoas que são desconfiômetros meus, que uso como filtros. Alguns, como Lula Queiroga e Bráulio Tavares, trabalham com música. São os primeiros para quem mostro. Tenho certeza de que pelo filtro desses caras não passa nada”, conta Lenine.

Sobre o título do trabalho, o pernambucano, que é formado em engenharia química, esclarece: “Carbono é a base da vida e em torno dele há possibilidades de que seja agregado a qualquer coisa para criar coisas novas. Grafite e diamante são, exclusivamente, carbono e a diferença de pressão faz um diferente do outro. Eu me aproximei disso para entender o que faço, esse hibridismo, essa busca por novas ‘moléculas’. É tudo carbono, todo mundo fazendo música e procurando a beleza juntos”.


Inspiração no Grupo Corpo

'Carbono' foi feito em apenas dois meses. “Foi tudo ao mesmo tempo agora. Precisávamos do disco físico na estreia, que já estava marcada, e, para isso, foi necessário entregar masterizado em 30 de março. No início de fevereiro, comecei do zero. As canções só surgem a partir do desejo e nunca tive tão pouco tempo. Foi um exercício maluco”, lembra.

Na visão dele, essa urgência tem ligação com sua experiência como compositor de trilhas sonoras para os mineiros do Grupo Corpo (assina as trilhas de 'Breu' e 'Triz'). “Numa dessas vezes, a única exigência eram 40 minutos de música inédita e eu só deveria mostrar quando achasse que devesse. Precisava dar subsídios para a expressão dos corpos daquelas pessoas. Então, polirritmia. Uma equação diferente que tive de fazer pelo inusitado do agora, do momento, do único. Não é do efêmero, como pode parecer. Isso me deu uma sensação muito boa”, afirma.

Até então, diz ele, fazer disco significava abrir a gaveta de composições e retirar dali o que mais lhe conviesse. O gosto pelo imediato, então, passou a ditar a forma de trabalhar e seu álbum 'Labiata' (2008) foi concebido assim. “Essa urgência é benéfica para a sensação de ‘sou eu agora’. Isso envolve todo um questionamento do que quero falar, de que maneira, o tom e o peso das palavras, como jogar com elas”, resume.

terça-feira, 19 de maio de 2015

CARREIRA DE SUCESSO DE AMADO BATISTA PROVA QUE O AMOR É FUNDAMENTAL PARA A HISTÓRIA DA MPB

Tocar o coração das pessoas em canções sobre o cotidiano brasileiro é um dos méritos do cantor


Por Lucas Rolfsen





Amado Batista é um cantor que, prestes a completar quarenta anos de carreira, prova que para carimbar o seu nome na história da música genuinamente popular brasileira, foi preciso apostar na verdade de canções como Mãe e Cuida de mim e muitas outras, que o ajudaram a conquistar um espaço de destaque na cena dos cantores românticos brasileiros.

O cuidado com o repertório é para esse goiano nascido em Davinópolis, o motivo para estar em evidência todo esse tempo. "É difícil fazer sucesso e mais difícil ainda mantê-lo por tantos anos. A única explicação parar isso é ter o mesmo cuidado desde o primeiro trabalho até hoje, com o repertório". Como ele iria imaginar que isso chegaria ao público de maneira direta, estabelecendo uma sintonia entre palco e plateia durante seus shows? Em 1951, tinha inicio a vida de um homem de origem humilde. "Canto o que sinto, por isso passo verdade e o publico se emociona junto comigo. Cada canção é uma forma diferente de se expressar sobre o amor".

Justamente por se tratar de uma temática amplamente difundida, abordada de muitas maneiras é que, Amado Batista tem os seus méritos e consegue cativar as pessoas. Sua história começou, quando trabalhava em uma livraria e montou em Goiânia uma loja de discos, que seu irmão tomava conta enquanto ele trabalhava. Em 1975 lança seu primeiro disco: Amado Batista (1975) e fez sucesso. Acontece que na capa não tinha uma imagem sua e, as pessoas faziam fila em sua loja para comprá-lo sem saber que era ele o dono de uma voz que veio para ficar.

Mas seu segundo disco Sementes de amor (1978) foi o que estourou e vendeu na época um milhão de cópias. "De lá pra cá o público vem gostando cada vez mais do meu trabalho. Este ano cheguei a 30 milhões de discos vendidos em 40 anos de carreira", diz um artista que não se cansa de amar e espalhar sentimentos bons por aí.

Ele parece não sentir o tempo passar. A energia de suas canções o faz olhar para o sólido caminho construído de maneira consciente e orgulhosa de que fez um bom trabalho: "Faço o que meu coração manda, canto o que me emociona e por isso chego aos corações das pessoas". E outros artistas parecem se espelhar nessa escola romântica e vêm utilizando o amor como tempero para outras ondas musicais que, em um primeiro momento não teriam influência direta de cantores românticos.

Ganha a música brasileira e ganhamos nós ouvintes: Mano Brown em sua nova fase solo e independente de seu trabalho com o Racionais Mc´s, já declarou que Amado Batista, entre outros românticos, serve de influência. Mais uma lição - que o próprio rap prega de não rotularmos as pessoas - a ser aprendida através da cena musical contemporânea: uma renovação a partir de um gênero que durante muitos anos ficou estigmatizado como “Brega".

A obra de Amado nos mostra que o ser humano precisa buscar a simplicidade e a alegria, sem rótulos: "Acho que o amor está aí independente do ritmo. Todo mundo vive o amor, quem gosta de rap, quem gosta de samba, quem gosta de música sertaneja, quem gosta de música romântica. Seja no ritmo que for. O amor nunca vai sair de moda", finaliza.

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*



"Tchau chupeta", de Taciana Barros e Arnaldo Antunes (Pequeno cidadão, 2009), é o canto da transição: a dramática hora de dar tchau à chupeta, tomada ao longo da canção como uma muleta (instrumento de dependência) que está atrapalhando o sujeito (a criança) a soltar a voz - a ter a possibilidade de se autocantar - afirmando-se, por si só, no mundo.

Há aqui duas vozes: a voz do adulto que recorda sua experiência do passado - "Quando eu era pequena eu joguei a minha no mar" (com o duplo uso do "eu" como reforçador da ação) - e a voz da criança que, seduzida pelo convite e pelas imagens estranhas, consegue se libertar: "Agora eu quero cantar / Cair de boca no som / Ficar de boca pro ar".

O sujeito adulto faz comparações tão banais quanto lúdicas, dando exemplos pessoais. Enfatizando, no primeiro momento, nas imagens que a criança tem (e deseja) daquilo que considera ser um adulto - "Já pensou uma mãe chupando chupeta? / Já pensou um pai chupando chupeta? / E uma vó de bobs e chupeta? - o sujeito se argumenta mexendo com a capacidade imaginativa de quem ouve.

Colocando um objeto estranho (a chupeta) no lugar errado (impensável), ele desestabiliza os possíveis contra-argumentos da criança: estimula o pensamento, num gesto de passar a bola da subjetivação - até então filtrada e dada pelos pais - à criança.

No segundo momento argumentativo, o adulto é mais enfático, mas não menos lúdico: "Já pensou um peixe chupando chupeta? / Aquela que eu joguei nem ele vai querer / A baleia prefere tocar a trombeta / Do que ficar com medo de crescer". Eis o cerne da canção: dar tchau a chupeta implica em crescimento interior: em abandono das muletas externas (físicas) para o mergulho no mar de si.

Importa perceber que as vozes das crianças (Brás, Luzia, Joaquim Scandurra) só entram na cena sonora (até então só ouvimos as vozes de Taciana, Arnaldo e Edgard Scandurra) nos versos "Agora eu quero cantar / Sem uma tampa de borracha pra me atrapalhar". O que intensifica a intenção da canção: instigar a transição pré e pós chupeta: favorecer a construção da subjetividade, do desejo de voz própria. Gesto metaforizado pelo abandono da chupeta: objeto que tampa as vias emissoras de ar, voz, canto, canção.

A palavra "chupeta" se prolifera na canção: contamina tudo. Isso reforça o ritual consciente e lúdico do tchau. "Todo mundo tem seu tempo de mamar / Mas depois que o tempo passa tem que se jogar no mar", diz o sujeito adulto. É hora de desfazer amarras infantis: é hora de ser adulto - botar a boca no mundo; romper a bolha de proteção; assumir a brincadeira (dolorosa e alegre) de construir e desconstruir personas; e, para além da canção materna e paterna, compor sua própria canção: Ser (sozinho) no mundo.


***

Tchau chupeta
(Taciana Barros / Arnaldo Antunes)

Já pensou uma mãe chupando chupeta?
Já pensou um pai chupando chupeta?
E uma vó de bobs e chupeta?
E um vovô de bengala e chupeta?

Todo mundo uma hora tem que se libertar
Quando eu era pequena eu joguei a minha no mar

Vai, vai navegar. Valeu obrigada
Mas minha boca não é mais seu lugar
Agora eu quero cantar
Sem uma tampa de borracha pra me atrapalhar

Já pensou um peixe chupando chupeta?
Aquela que eu joguei nem ele vai querer
A baleia prefere tocar a trombeta
Do que ficar com medo de crescer

Todo mundo tem seu tempo de mamar
Mas depois que o tempo passa tem que se jogar no mar
Vai, vai navegar. Valeu mamadeira,
Mas eu prefiro respirar

Agora eu quero cantar
Cair de boca no som
Ficar de boca pro ar

Vai, vai navegar
Sem uma tampa de borracha pra me atrapalhar




* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Gal Costa e Gilberto Gil 

sábado, 16 de maio de 2015

QUE SE VOLTEM NOVAMENTE OS HOLOFOTES

Nome presente em diversas trilhas sonoras das dramaturgias nacionais ao longo dos anos 1990, Edmon Costa tenta retomar o espaço alcançado a duas décadas atrás

Por Bruno Negromonte





Há quem julgue a década de 1990 como uma década perdida dentro da música popular brasileira devido à enxurrada de produtos comercialmente descartáveis com que as grandes gravadoras preenchiam as prateleiras as seções de cd's das grandes lojas de departamento Brasil afora.  Diferente das décadas anteriores onde a música produzida pelos artistas em evidências faziam-se, por suas qualidades, perenes; a grande maioria da sonoridade tão executada e propagada na última década do século XX não tinha fôlego para resistir (raras as exceções) por mais que alguns semestres.  No entanto, pode-se dizer quem nem tudo foi perdido. Expressivos nomes surgiram nessa leva. Uns permanecem ainda hoje escrevendo a história da música de qualidade como é o caso de nomes como Chico CésarZeca Baleiro e até mesmo Lenine, que apesar de alguns projetos fonográficos na década anterior só a partir dos anos de 1990 firmou-se como cantor e compositor. Outros nomes, apesar do talento, não tiveram a mesma sorte. Acabaram sem chance ao passar pelo clivo de uma industria cultural tacanha que leva em consideração ao avaliar determinados trabalhos características que atendem mais a expectativa do mercado do que necessariamente dos amante da boa música como é o caso do artista aqui em questão: Edmon Costa, cantor que ao longo dos anos de 1990 teve seu trabalho conhecido pelo grande público a partir da Rede Globo nas trilhas sonoras de suas novelas. De 1991 à 1994, o músico teve seu nome inserido em diversos folhetins, dentre os quais O dono do mundo” (1991), “Olho no olho” (1993), Quatro por quatro” (1994) e “Cara e coroa” (1995). Além dessa façanha, Edmon também chegou a participar de outros programas da grade da emissora carioca, a exemplo do extinto "Planeta Xuxa" e do show anual "Criança Esperança". Vale ressaltar ainda a sua participação no coral que cantou junto com Stevie Wonder em um a das apresentações do músico americano aqui em nosso país ainda nos anos 90.




Com essa bagagem e talento é de se estranhar a ausência do Edmon Costa na crista da onda de nossa música popular brasileira. O que consequentemente acaba gerando uma incoerência no cenário musical nacional, uma vez que atesta-se de modo veemente que não basta o talento e é preciso algo mais que o sucesso momentâneo para manter-se em evidência. Nascido no Rio de Janeiro em meio ao universo protestante, o pequeno Edmon teve seu destino traçado de modo semelhante a alguns dos grandes nomes do soul mundial. Rapidamente inserido neste cenário, o futuro cantor logo estava dando os seus primeiros passos na música cantando em coros gospeis. Daí em diante foi galgando espaços cada vez mais significativos a partir de trabalhos diversos, dentre os quais a sua participação em bandas como Fanzine e Sindicato do Soul. Na década de 1990 surge a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum solo via Sony Music. O destaque deste debute fonográfico foi a canção "Coração de gelo", faixa também presente na novela "O dono do Mundo" como tema do personagem Herculano, interpretado pelo ator Stênio Garcia. Já o seu segundo disco saiu pela Polygram tendo como grande destaque para duas canções: "Toda Noite" e "Tocar você", a primeira tema musical presente em "Olho no olho", teledramaturgia global exibida às 19 horas de 6 de setembro de 1993 à 8 de abril de 1994; já a segunda foi escolhida como a canção tema de abertura da novela "Cara ou coroa", outra produção da Rede Globo exibida no horário das 19 horas entre outubro de 1994 e julho do ano seguinte. De lá pra cá chegaram ao mercado mais três álbuns contendo a assinatura de Edmon e que reforçam o seu talento a partir da escolha de um seleto repertório que abrande alguns dos maiores da música.

Recentemente, em busca de uma nova oportunidade de levar a sua música ao público de norte ao sul do país, o o artista subiu ao palco do “The voice Brasil” cantando a clássica “Samba de verão”, de autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. A partir de uma peculiar interpretação conseguiu chamar a atenção de dois dos quatro jurados participantes. Edmon conseguiu virar a cadeira” de Lulu Santos e Claudia Leitte. Sem contar o baiano Carlinhos Brown, que arrependeu-se de não ter virado a sua cadeira para o artista carioca: “Eu me arrependi. É uma das vozes mais surpreendentes”. Apesar de não lograr êxito na edição a qual participou a presença do artista carioca no programa acabou tornando-o lembrado novamente e isso, é claro, acaba por gerar novas possibilidades abrindo-o portas que acabaram fechando-se nos últimos anos devido justamente a essa falta de oportunidade e abrangência.

Atualmente o artista vem apresentando o show Do samba ao soul”, onde atende aos mais distintos gostos musicais procurando pautar-se sempre na coerência e qualidade das canções escolhidas. Com um repertório que abrange nomes de destaque dentro da música nacional e internacional, o artista carioca vem mostrando toda a sua versatilidade, sensibilidade e talento a partir de um repertório bastante diversificado que busca apresentar nomes como o dos grupos Brilho (“Noite do prazer”) e Banda Black Rio (“Maria Fumaça”); Cassiano (“Coleção”), Djavan (“Flor de lís” e “Samurai”), Stevie Wonder (“Superstition”) entre outros destaques do samba e do soul. Mesmo não tendo levado o título da edição a qual participou, Edmon pode considerar-se um vitorioso por ter tido a oportunidade de voltar à mídia assim como também aos olhos dos saudosos fãs que não o viam há tempos. Esta nova chance também possibilitou ao seu trabalho a oportunidade de chegar ao conhecimento das novas gerações, plantando através do seu talento a tal semente que corre-se o risco de brotar a qualquer momento. Sem sombra de dúvidas voltar a mídia através de um programa televisivo que tem uma média de audiência entre 17 e 22 pontos (a julgar pela última temporada) renova a esperança de Edmon Sebastião Silva Costa ou simplesmente Edmon Costa de reviver os áureos tempos vividos no início dos anos de 1990 onde sua voz e talento abarcava os mais distintos corações de norte ao sul do país.


Maiores Informações:

Contato para shows - luizaugusto69@yahoo.com.br

Fones - (21) 3597 1909 / (21) 9 8382 5534

sexta-feira, 15 de maio de 2015

AFETO E DESCASO POR CHICO SCIENSE

Enquanto os fãs nutrem as lembranças do mangueboy, o poder público vira as costas para a memória daquele que colocou Pernambuco no mapa da música pop


Por Karoli Pacheco


Landau de Chico Science sofre com a maresia no Espaço Ciência

A memória de Chico Science, que hoje faria 49 anos, se ainda está muito viva entre os familiares, companheiros de banda e fãs (muitos deles que sequer o conheceu), ela é, por outro lado, objeto de um abjeto descaso do poder público do Recife, Olinda (onde nasceu) e de Pernambuco, sua terra natal que tanto projetou e colocou no mapa da música pop, em tão pouco tempo de meteórica carreira – abortada num acidente de carro às vésperas do Carnaval, em 2 de fevereiro de 1997. 

A saudosa Dona Rita, 81 anos, mãe de Francisco de Assis França, sabe que para lembrar do filho não necessita ver fotografias, tampouco ouvir suas músicas. Por sinal, a memória dela não falha ao recordar daquele nascimento. “Ele nasceu numa maternidade que ficava à beira do rio, o Hospital Evangélico, no Recife. Foi um dos meus filhos que nasceu bem fácil”, diz. Sobre o início da carreira artística de Chico Science, relembra: “Depois do show do Aeroanta, em São Paulo, ele foi convidado para fazer outro show. E ele me disse: mamãe, eu vou por baixo e volto por cima.” Literalmente, foi de ônibus e voltou de avião, com um contrato com a Sony que rendeu o seminal Da lama ao caos (1994), que marcou uma década e uma geração.

O agitador cultural Roger de Renor lembra-se bem do carro tunado de Chico, do mesmo modelo de um que ele tivera. “Ele comprou esse carro quando voltou daquele show no Summerstage, em Nova Iorque, e não o reformou. Ele dizia que o carro tinha que parecer com o da galera do Brooklyn, pagando mais caro no som e nas luzes florescentes do carro, e deixou amassado mesmo”, conta um dos maiores bróders de Chico.

Segundo Jamesson França, Jamelão, irmão de Chico Science, o Ford Galaxy Landau 79 está exposto no Memorial Arcoverde há mais de 15 anos. Aliada a falta de manutenção, a maresia deteriora o veículo estacionado no Espaço Ciência. Outra negligência diz respeito ao Memorial Chico Science, no Pátio de São Pedro. Mofo, infiltrações, calor e outros problemas estruturais deixa o espaço às moscas – já que os fãs, muitas vezes, passam direto pela fachada mal sinalizada. Na contracorrente, os mangueboys se manifestam e cobram à Prefeitura do Recife a reforma do local. O órgão público responde de forma rasa. Diz que espera receber, oficialmente, as reivindicações para posterior análise das ações a serem realizadas no local.



Enquanto isso, um tributo neste sábado (14), em Olinda, faz as homenagens que a Semana Chico Science, cancelada pela Secretaria de Cultura, não fará neste ano. No palco do Fábrica Bar (Travessa Municipal, 9, Carmo), às 23h, a banda Cadillac 65, com participação de Jamaelão, toca o repertório da Nação Zumbi enquanto teve o malungo como frontman. E, assim, mais pelos fãs que pelo governo, a memória daquele que teve Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão toma corpo.

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por Luiz Américo Lisboa Junior


João Donato - Lugar comum (1975)

No mundo em que vivemos as pessoas dão um imenso valor ao sucesso, a serem uma celebridade, palavra que ficou em moda nos últimos tempos como se essa fosse a única e irremediável maneira se tornar alguém na vida, conseguir um lugar ao sol, principalmente no campo artístico. Ser famoso é quase uma necessidade orgânica para muita gente que tenta uma carreira seja na musica, teatro, cinema ou televisão. Contudo na grande maioria das vezes o sucesso e a fama vêm sempre acompanhados de uma grande vaidade, sentimento comum a todos mas que em doses exageradas prejudica a imagem e torna muitas vezes o artista um arremedo de si mesmo, ou seja, um ser artificial.

Daí ser verdadeiro a sempre propalada teoria de que os verdadeiros artistas não precisam utilizar a exaustão os recursos e as facilidades da mídia para se tornarem reconhecidos, mesmo porque ele se impõe pelo seu talento e não pela força de uma publicidade, de um jabá, ou qualquer outro meio que utilize a sua imagem como mercadoria. Muitos ainda vendem sua arte e sua imagem pública sem nenhum escrúpulo, o que importa é estar permanentemente em evidencia, custe o que custar, e para isso vale aceitar o jogo de revistas especializadas em vidas alheias, programas televisivos de péssima qualidade e fazer o jogo das gravadoras onde a arte é apenas um referencial financeiro em seus lucros, se der prejuízo, troca-se por outro produto e pronto.

Evidente que isso não pode ser considerado como uma regra geral no meio artístico, existem, claro, exceções, e são elas que fazem a diferença e continuam se mantendo sem se venderem ou vulgarizarem-se artisticamente, mas preservando a qualidade de seu trabalho e dando-se o devido valor, ou seja não leiloam seu talento. Infelizmente quem age assim não esta nas rádios ou nas televisões, para esses artistas isso não é tão relevante, mesmo porque seu mercado acaba internacionalizando-se e vão receber os aplausos de outras platéias que sabem reconhecer um verdadeiro talento e uma boa música, que o diga os japoneses, os maiores apreciadores de nossa melhor canção, principalmente da Bossa Nova, que no Brasil saiu das rádios e televisões e foi parar nos livros, que por sinal nem todos lêem.

Não adianta citar nomes daqueles que se respeitam musicalmente, mas basta falar de João Donato que verificaremos que esse acreano é uma unanimidade nacional quando se quer tratar de boa musica brasileira. Sua obra é significativa e respeitabilíssima, possui um repertório da melhor qualidade e seus discos são sempre referencia do que há de melhor em nossa canção popular.

Em 1975 ele lançou um LP com doze musicas a maioria com Gilberto Gil, dentre elas, Lugar comum, um verdadeiro e autentico sucesso e que da nome ao disco. São canções que demonstram o virtuosismo de um compositor notável e que faz dele um dos nossos mais reverenciados artistas. A Bahia se faz presente não apenas nas parcerias de Gil e Caetano, com quem fez a bela Naturalmente, mas ainda em Xangô é de Baê, samba feito com Ruben Confete e Sidney da Conceição, onde a citação da Ilha de Maré nos remete a um dos mais belos locais da Baia de Todos os Santos. Gil também participa nos vocais em Tudo bem, A bruxa de mentira e Patumbalacundê.

Ouvir Ê menina, feita com Gutemberg Guarabira e Lugar comum, são um prazer tão indescritível que so se compara a uma brisa refrescante sob o sol e o azul celeste das praias de Salvador, como Piatã, Placafor ou Itapoã, deixando-se embalar nos mais puros sentimentos de comunhão com a natureza.

Em Bananeira, música também divinamente gravada e interpretada com sucesso por Emilio Santiago, temos um desses raros momentos em que o talento passa de mãos em mãos e se firma sempre. Emoriô é o ritmo baiano em permanente demonstração de vigor e autenticidade. Da vontade de sair dançando e se deixar envolver completamente pelo som dos nossos afoxés.

O disco conta ainda com a participação de músicos da mais alta qualidade, como Novelli, no baixo; Wilson das Neves, na bateria; Copinha, na flauta e Rosinha de Valença, no violão.

Com sambas e canções estilizados e uma autenticidade e sonoridade inigualáveis, este trabalho de João Donato é para se ouvir sempre, pois ele se enquadra naquelas obras que quanto mais se ouve mais se gosta, não importa o tempo de sua realização. Perfeito!


Músicas: 
01 - Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)
02 - Tudo tem (João Donato e Gilberto Gil)
03 - A bruxa de mentira (João Donato e Gilberto Gil)
04 - Ê menina (João Donato e Gutemberg Guarabira)
05 - Bananeira (João Donato e Gilberto Gil)
06 - Patumbalacundê (João Donato, Gilberto Gil, Durval Ferreira e Orlandivo)
07 - Xangô é de baê (João Donato, Ruben Confete e Sidney da Conceição)
08 - Pretty dolly (João Donato e Norman Gimbell)
09 - Emoriô (João Donato e Gilberto Gil)
10 - Naturalmente (João Donato e Caetano Veloso)
11 - Que besteira (João Donato e Gilberto Gil)
12 - Deixei recado (João Donato e Gilberto Gil) 

Ficha Técnica
Direção de produção: Tobi
Arranjos: João Donato
Técnicos de gravação: João Moreira, Luigi e Luiz Cláudio
Assistentes de gravação: Paulinho e Zé Guilherme
Corte: Joaquim Figueira
Estúdio: Phonogram
Capa: Aldo Luiz Fotos: Luiz Garrido
Arte final: Jorge Viana
Logotipo título "João Donato": Rogério Duarte

Músicos:
Teclados: João Donato
Guitarra: Frederiko
Baixo: Novelli
Bateria: Wilson das Neves e Aladim
Percussão: Alberto das Neves e Luis Carlos
Flautas: Celso, Leny, Geraldo, Jorginho e Copinha
Trumpete: Formiga
Sax soprano: Netinho
Sax tenor e clarone: Aurino e Bijou
Sax barítono: Genaldo
Trombones: Maciel, Bogado e Flamrion

Participações especiais: 
Rosinha de Valença: Violão
Gilberto Gil: Vocal 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

GRAMOFONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: Reencontro com Paulinho

Composição: Canhoto da Paraíba

Intérprete - Canhoto da Paraíba e Zimbo Trios

Ano - 1993

Álbum - Canhoto da Paraíba - Zimbo Trio


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 5000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

ENTENDA O MUNDO DO STREAMING COM OS DIRETORES DO DEEZER, NAPSTER E RDIO

Por Paula Moizes



A entrada do Tidal na batalha dos streamings e um manual básico pra você escolher um serviço pra chamar de seu.

O Tidal pode ter chegado com o objetivo de desbancar seus adversários, mas para quem está no comando de serviços semelhantes, a plataforma de Jay Z é mais uma lenha na fogueira do streaming. Um mês após seu (re)lançamento, os números mostram uma queda nos downloads do aplicativo Tidal pela Apple Store, ficando de fora dos Top 700. Por outro lado, o Spotify, por exemplo, viu seu usuários crescerem ainda mais.

Como um streaming dito como revolucionário esfriou tão rápido? O que está por vir? Conversamos com osrepresentantes dos streamings mais utilizados no Brasil para fazer uma breve análise do atual modelo de consumo de música pela internet e saber mais sobre os streamings vigentes em nosso país.


Mudança de hábito

Ninguém pode prever as mudanças que ainda estão por vir no campo de batalha da internet, mas uma coisa é certa: sempre haverá gente querendo ouvir música. Quando o revolucionário Napster estreia em 1999 oferecendo uma nova forma de distribuição de faixas, mesmo que ainda ilegal, a aceitação do público é quase imediata e o serviço chegou a incomodar (bastante) bandas como o Metallica. Mas outros artistas viram o potencial do Napster e abraçaram a ideia. Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine, foi um deles. Ele disponibilizou o download gratuito de faixas pelo site da banda, depois da gravadora ter bloqueado os usuários do Napster de baixarem o álbum Renegades (2000). O problema do Napster era os direitos autorais. Foi preciso encontrar uma nova forma de distribuir música em parceria com artistas e gravadoras. Eis que surgem os streamings como o Tidal.


Napster em 2015

“O usuário vai sempre em direção ao caminho mais fácil – seja ele legal ou não”. O Diretor do Deezer para América Latina, Mathieu Le Roux, explica que alguns dos principais fatores que fizeram os serviços de streaming crescerem frente a pirataria: “baixar música é trabalhoso, os arquivos podem vir em má qualidade ou com vírus. O streaming oferece um catálogo enorme, legal e organizado”.

As funcionalidades dos streamings, que cada vez mais servem também como redes sociais e compartilhamento de interesses, acabaram atraindo as pessoas para essa nova forma de experienciar a música. Para Bruno Vieira, Diretor Geral da Rdio Brasil, muita gente ainda consome música em plataformas em que a música não é a protagonista, como o YouTube. “Os serviços de streaming têm um grande desafio de mudar esse hábito, mas diante de todas as facilidades que oferecemos, também temos uma grande oportunidade”, comenta.

Serviços como esses estão em constante aprendizado com a efêmera internet, procurando sempre se adequar às necessidades dos consumidores. Como o Napster, que de 1999 pra cá sofreu diversas transformações. “Foi uma transgressão que gerou as consequências que eram necessárias, além de aprendizados e evolução em toda a indústria. O Napster também evoluiu de maneira natural a fim de se ajustar aos aprendizados que ele mesmo provocou”, nos conta Roger Machado, Diretor de Desenvolvimento de Negócios e Marketing do Napster para a América Latina. Ressuscitado pelo Rhapsody, outro serviço de streaming, o catálogo do Napster desde o ano passado está disponível para os brasileiros, em parceria com a Vivo e o portal Terra, pela assinatura mensal de R$ 14,90. Caso você queira saber mais sobre a revolução do Napster, o documentário Downloaded (2013) é essencial, assista ao trailer abaixo.


Esse tal de Tidal

Mesmo com sua proposta de melhor qualidade sonora e conteúdos exclusivos, até agora o Tidal ainda não teve uma grande aceitação. Diferente dos outros serviços, ele não oferece plano gratuito de assinatura e para conseguir ouvir as músicas em 1411 kbps (qualidade superior aos 320 kbps dos outros streamings) o usuário precisa desembolsar U$ 19,90, ter uma conexão estável de internet, além de um fone de ouvido dos bons. Para os representantes de outros streamings, os usuários gratuitos são parte essencial da mudança no modo de consumir música.

“É o primeiro passo pro usuário começar a ter uma experiência com o serviço e poder, assim, começar a se habituar com uma nova forma de se ouvir música”, diz Bruno Vieira. Mathieu Le Roux pensa o mesmo: “oferecer aos usuários a possibilidade de cadastrarem-se gratuitamente no serviço permite que eles experimentem um novo jeito de consumir música legalmente antes de assinarem para ter acesso a todos os recursos na íntegra”.


Tidal

Mas o principal trunfo do Tidal são os artistas por trás dele. Para Bruno Vieira, o fato pode fazer com que mais músicos comecem a se envolver com os streamings, contribuindo para esses serviços, visto que “a indústria precisa do engajamento dos artistas para que a cultura de consumo de música por streaming cresça”.

Recentemente, Andy Chen, o CEO da Aspiro – empresa de tecnologia responsável pelo Tidal – deixou o cargo paraPeter Tonstad. Em respostas às críticas a respeito de seu serviço de streaming, Jay Z declarou em seu Twitter oficial que o “Tidal está indo bem. Temos mais de 770 mil assinaturas. Nós estamos no mercado há menos de um mês”.


Qual é o melhor?

À primeira vista, os principais serviços de streaming de música disponíveis no Brasil – Deezer, Rdio e Spotify – são similares. O valor que você vai encontrar é o mesmo para todos: R$ 14,90 a assinatura mensal. A qualidade máxima de som também: 320 kbps. No modo gratuito dos três streamings citados acima, o usuário irá ouvir uma propaganda a cada três ou quatro músicas, em média. Todos têm opção offline no modo pago, ou seja, você pode baixar as faixas para o seu celular, por exemplo. O catálogo de canções e discos varia constantemente, ultrapassando a marca das 30 milhões de músicas nos três streamings. Por enquanto, só no Spotify o usuário precisa baixar o aplicativo no computador para ter todas as funcionalidades do serviço, mesmo no modo gratuito.


Deezer



Spotify




Rdio

Então, qual é o melhor? A dica é: experimentar. Caso você ainda não seja usuário de nenhum streaming, comece hoje assinando os planos gratuitos e veja qual que se encaixa mais no seu perfil. Fique ligado nas promoções que de vez em quando rolam nesses serviços. Compare a interface, confira se os artistas que você gosta estão disponíveis e descubra as funcionalidades de cada um. Deixe também que a curadoria e algoritmos dos streamings lhe façam sugestões de bandas novas. Depois dessa fase de testes, um desses serviços irá lhe atrair mais e você poderá escolher com mais facilidade um streaming para chamar de seu.


O futuro é o streaming

Diferente do formato CD, nenhum streaming é absoluto. Todos eles estarão em constante mutação, afinal, são filhotes da volátil internet. Mesmo assim, serviços como o Tidal continuam sendo “o melhor modelo de consumo de música na internet”, segundo Mathieu Le Roux. O Diretor do Deezer para América Latina ainda comenta que “até surgir um modelo mais eficiente, o streaming é o futuro”.

“É uma questão de tempo pros usuários adotarem essa inovação tecnológica que veio pra ficar”, explica o Diretor Geral do Rdio Brasil, Bruno Vieira. Espaço é o que não falta para o streaming, um serviço ainda novo aqui no Brasil, multiplicar-se entre as pessoas. Estaremos acompanhando os próximos passos do Tidal, Deezer, Rdio, Spotify,Napster e dos outros streamings que estão por vir. Afinal, eles estão mudando nosso jeito de consumir música, tanto na internet como fora dela.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ZÉ BROWN MOSTRA QUE HIP HOP E EMBOLADA SE APRENDEM NA SALA DE AULA

Músico do Alto José do Pinho precisou trocar Recife por Diadema (SP) para poder levar adiante o desejo de unir sala de aula a cultura de rua


Por Alef Pontes




“Como os retirantes do passado/Saí da minha terra natal pra trabalhar em outro Estado/Trazendo a saudade na mala, mas vim pra ficar/Se é essa a missão, vou continuar/Eu sei que tenho responsabilidade/Tenho que aproveitar as oportunidades/É triste você na sua terra não conseguir trabalhar/É governantes: é bom se ligar/Peço desculpas Pernambuco, mas um dia vou voltar”. É com essa embolada que o compositor, rapper, embolador e arte-educador José Edson da Silva, o Zé Brown (ex-Faces do Subúrbio), se despede de sua terra para poder dar continuidade ao seu trabalho, agora em São Paulo.

Conhecido pelo projeto Zé Brown Apresenta, iniciativa social que une hip hop, cultura popular e educação no Alto José do Pinho desde os anos 1990, o músico se mudou no início do ano para dar vazão às suas atividades como arte-educador no projeto Matéria Rima, na cidade de Diadema.

Surgido inicialmente como um grupo de rap, o projeto une as rimas e o conteúdo para auxiliar na educação de crianças do ensino fundamental em 15 escolas do município.

“Eu percebi que a molecada gostava muito de rap, mas não curtia muito escola. E comecei a me perguntar como a realidade deles iria mudar se eles não se interessarem. Então, eu comecei a criar rimas a partir das matérias, das disciplinas da sala de aula, português, história, geografia etc.”, conta o rapper e idealizador do projeto, Jobson do Nascimento, o Joul, também pernambucano, que afirma ter encontrado no rap uma solução para sua própria mudança: “Eu me apaixonei e foi uma das fugas para não me envolver com drogas e violência, porque a situação da periferia é complicada.” 

Segundo ele, com o tempo o grupo percebeu que os professores também sentiam falta de uma proposta que unisse a educação com a cultura de rua. “O Matéria Rima nada mais é do que um grupo que incentiva a leitura e a pesquisa, utilizando o gancho que é o hip hop para chegar perto dessa criançada, trabalhando a valorização dos professores”, conta o MC Joul.

“A criançada está perdida nesse mundo da ostentação e do consumismo, e não valoriza muito o estudo. O Matéria Rima é essa ponte da rua pra escola, dando suporte para os professores”, complementa. 

Esse processo se dá através de letras que abordam os conteúdos que os alunos têm dificuldades dentro de sala. E é aí que entra Zé Brown: “A vinda de Zé Brown pra cá é fundamental, porque ele trabalha com o rap genuinamente brasileiro: a literatura de cordel e a embolada. Ele também trabalha o trava-língua e isso tira a inibição das crianças”. 


Segundo Jobson, que se diz fã no rap-embolador desde a época que integrava a banda Faces do Subúrbio, além de uma grande aposta para a ampliação do projeto, a ida de Brown para Diadema é uma vitória. “Eu estou feliz para caramba, ele é um ídolo, sabemos o valor que tem e precisamos mostrar isso”, afirma. Já para Brown, além de ser uma grande conquista, é uma oportunidade para aprender com o grupo. 

“Para mim, Matéria Rima é muito importante para mostrar meu trabalho, e principalmente para interagir com a escola. O hip hop está vencendo. É uma matéria de rua entrando num espaço onde a educação está vencendo. Era bom que existisse um projeto de lei que tornasse o hip hop obrigatório nas escolas e entrasse no Brasil todo”, afirma o músico do Alto José do Pinho.

“Hoje nós estamos muito felizes, porque estamos trabalhando como sonhamos: dentro da escola, junto com o professor, entendendo a dificuldade que eles têm e desenvolvendo esse trabalho em parceria. E tenho certeza que diversos Zé Brownzinhos vão surgir por aí”, brinca o idealizador do projeto. 

Além de rap, as oficinas abordam ainda dança, grafite e teatro. O grupo conta com cerca de 25 profissionais, entre MCs, DJs, dançarinos, grafiteiro, fotógrafos e uma coordenadora pedagógica que orienta as atividades, atingindo mais de duas mil crianças.


APESAR DAS DIFICULDADES, PROJETO CONTINUA LÁ NO ALTO

Residindo agora em São Paulo, onde pretende continuar tocando as atividades no Matéria Rima e finalizar seus próximos trabalhos, Zé Brown garante que o projeto Zé Brown Apresenta continuará a existir no Alto José do Pinho.

“Na minha vida, isso é a continuidade da missão. Eu comecei porque queria passar meu conhecimento, o hip hop e a embolada, e eu quero aproveitar essa oportunidade como um ímã, para atrair a gurizada para as atividades. Hoje, graças à Deus, a gurizada que começou comigo, que e tinha 14 anos nos anos 1990, hoje são multiplicadores e vão dar continuidade ao meu trabalho”, garante o rapper.


“Eu andei o Brasil dando oficinas e workshops, sempre utilizando a embolada e a literatura de cordel, juntamente com o ritmo e poesia do hip hop. Já estava para vir para São Paulo há um tempo. Porque eu sempre venho em aqui por causa da música”, conta. Ele lembra que gravou o último disco no Recife, mas finalizou em São Paulo, e mantém trabalhos com outros artistas, como a dupla Caju e Castanha.

“Aqui tem mais campo, o mercado é vasto e amplo, e tenho a oportunidade de fazer outros contatos. Só não vou falar o sotaque, vou continuar com o vixe do Nordeste, porque isso está no sangue”, brinca.

Apesar de esperançoso, ele não esconde a tristeza ao contar que, por enquanto, o projeto no Alto José do Pinho se encontra parado, devido à falta de apoio. “Todo o projeto sempre fui eu que banquei do meu bolso. E sempre foi muito difícil. Uma parte do dinheiro que recebo dos shows vai diretamente para o projeto. O que é mais complicado é você ter que parar por um período porque não tem grana”, queixa-se. 

“É complicado ter um trabalho contundente, bonito, de luta, de representação, e você ter que sair do seu Estado para trabalhar porque não consegue manter seu projeto”, conta, afirmando nunca ter recebido atenção do poder público no Estado, apesar de muita procura. Som, tênis, tablado para a dança e alimentação são alguns dos itens que, segundo Brown, o projeto precisa para ter continuidade. 

“Depois que a atividade acaba, a gurizada tem que se alimentar. É esforço físico, tudo é um conjunto. “Na verdade, eu acho que não acreditam na proposta. Porque, desde o início, eu nunca consegui um apoio que bancasse o projeto por um ano, seis meses. E não é que eu não coloquei projetos nos editais. Quantos Zé Browns vão ter que sair da sua cidade para trabalhar em outros Estados?”, questiona. “É legal fazer essa ponte, esse intercâmbio, mas seria mais importante ter um trabalho como o Matéria Rima no meu Estado”, complementa o raper.

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