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domingo, 4 de novembro de 2018

VINICIUS DE MORAES: ESTE RAPAZ SÉRIO, UM LITERATO.

Uma homenagem aos 105 anos do poeta compositor




O romance Quo Vadis e Vinicius de Moraes foram lançados ao mundo no mesmo ano: 1913. O romance tinha um galã super-herói chamado Marcus Vinicius, nome que Seu Clodoaldo e Dona Lídia acharam perfeitamente adequado para aquela coisinha frágil que acabara de nascer. Daí, Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes.

O pai, Clodoaldo, era funcionário da Prefeitura, tendo sido secretário do Prefeito Pereira Passos, e homem de muito dinheiro. A família morava na Gávea. Mas Clodoaldo meteu-se numa série de negócios azarados, o dinheiro foi embora, a saúde de Dona Lídia abalou-se e, em consequência, mudaram-se todos para a Ilha do Governador. Para o menino Vinicius foi ótimo:

— Às vezes, no calor mais forte, eu pulava de noite a janela com pés de gato e ia deitar-me junto ao mar. Acomodava-me na areia como numa cama fofa e abria as pernas aos alísios e ao luar; e em breve as frescas mãos da maré cheia vinham coçar meus pés com seus dedos de água.

Ilha, praia, pescadores. Ambiente com o qual Vinicius conviveu e que mais tarde aparecia com frequência em sua temática. Sem pertencer à comunidade humilde (pois era mais forte o seu substrato familiar), Vinicius formou dela uma visão pura, bela, romântica e, de certa maneira, ingênua.

Se na Ilha Vinicius conhecia o que falar, em casa ia aprendendo como falar: papai, amigo de Olavo Bilac, fazia poemas e arranhava o violão. Mamãe arrancava tangos do piano. Também tinha o avô pianista e um tio, Henrique de Mello Moraes, que volta e meia chegava na Ilha com o compositor Bororó, os dois trazendo os convenientes violões. Quando não havia o sarau musical, Vinicius abria o Tesouro da juventude e ia copiando ou imitando as poesias que encontrava. Depois disso, foi até uma pena deixar que ele fizesse o curso de direito. Também, tendo-se formado, “só aguentou um mês de fórum”, sucumbindo à atração do jogo de sinuca que havia por perto. Mas a faculdade foi importante pelos amigos que fez. Entre eles, o romancista Octavio de Faria (Tragédia burguesa) que, segundo Vinicius, encaminhou-lhe os primeiros passos na literatura e apresentou-o à poesia moderna.

Em 1933, quando obteve o diploma de bacharel, sem ter nada o que fazer (vivia de mesada dos pais), escreveu letra para um Fox (Dor de uma saudade, com música de J. Medina) e uma valsa (Canção para alguém, música de Haroldo Tapajós), ambos gravados na RCA Victor, e publicou um livro de poesias (O caminho para a distância). Em música já não era inédito, pois um ano antes, 1932, fizera o fox Loura ou morena, de parceria com Haroldo Tapajós. Mas se alguém pensou que começava uma carreira de compositor, enganou-se, porque após essas três canções Vinicius só voltaria à música dezenove anos mais tarde, em 1952, com Quando tu passas por mim (parceria com Antônio Maria), gravada por Dóris Monteiro. Era uma obra precoce, e Vinicius tratou de superá-la, desenvolvendo sua poesia. Seu grupo de amigos já incluía, além de Octavio de Faria, Manuel Bandeira; e, nas viagens para ver a namoradinha paulista, Oswald e Mário de Andrade. A vida intelectual e as poesias ele as ocultava de sua outra turma, a da pesada (cachaça, carnaval e pancada), que frequentava em Copacabana. Em 1935 ficou difícil esconder que era um poeta, pois de repente tornou-se um “afamado autor”: ganhou, com o livro Forma e exegese, o Prêmio Filipe de Oliveira, que era assim uma espécie de concurso nacional de literatura. Vinicius ganhou, disputando palmo a palmo com Jorge Amado, e o livro foi muito comentado. Foi aí que Vinicius “botou na cabeça que era gênio”, ideia irritante que, como ele mesmo confessa, “demorou um pouco a passar”.



PARCEIROS...E MAIS PARCEIROS

A parceria com Tom e a gravação do LP (da Odeon, em 10 polegadas) com as músicas de Orfeu da Conceição (1957) iniciaram o período mais importante da carreira musical de Vinicius de Moraes. Johnny Alf, Lúcio Alves, Dick Farney: a interpretação da música brasileira começava a parecer diferente, invadida pelo jazz. Foi quando João Gilbertodescobriu a nova batida de violão e Tom fez o resto. Vinicius também. Foi parceiro de Tom em Chega de saudade, Brigas, nunca mais, Insensatez, Só danço samba e, afinal, Garota de Ipanema. Entre 1958 e 1960 Vinicius ficou trabalhando na embaixada em Montevidéu e, talvez pela precariedade do cinema uruguaio, vivia indo e vindo ao Rio de Janeiro, mantendo a parceria com Tom. Em 1961, um rapaz magrinho tocou a campainha da casa de Vinicius e foi logo dizendo:

— Eu sou o Carlos Lyra e queria mostrar umas músicas para você.

Desse primeiro encontro nasceram Coisa mais linda, A primeira namorada, Nada como ter amor, Você e eu. Mais tarde a dupla comporia mais uma dúzia de músicas, entre as quais Minha namorada, Maria moita e Marcha da quarta-feira de cinzas. O ano de 1961 ainda lhe traria outro grande parceiro, durante um show do Tom na boate Arpège:

— Uma noite eu vi entrar aquele molequinho que foi tocar com a orquestra. Tocava guitarra elétrica. Era o Baden. Aí, quando acabou, nos apresentaram e ele me disse: “Pois é, estava tocando para você. Tem umas músicas minhas aí que eu gostaria que você pusesse letra”.

Vinicius entusiasmou-se logo que ouviu os temas e, por ele, começariam a compor juntos no dia seguinte, não fosse Baden sofrer um de seus ocasionais desaparecimentos. Mas logo se reencontraram e o produto disso foi Canto de amor e paz, Samba em prelúdio, Pra que chorar. Depois, a série afro-sambas: Berimbau (1964), Canto de Ossanha, de Xangô, de Iemanjá, Bocochê e Lamento de Êxu. Isso, fora Consolação, Samba da bênção, Tempo feliz, Astronauta, Apelo, Tem dó, etc. Mas, falando dos parceiros, tem ainda J. Medina (em 1933), Gaya, Ary Barroso (no Rancho das namoradas), Vadico, Moacir Santos, Nilo Queiroz, Francis Hime, Pixinguinha (em Mundo melhor), Edino Krieger, Francisco Enoé, Dulce Nunes e Edu Lobo, para não dizer dos mais recentes.

Cada samba tem seu folclore próprio. Os primeiros da sagra de Baden, por exemplo, foram feitos num embalo só, que levou alguns dias, os dois trancados na casa de Vinicius, com muito uísque. No Pra que chorar, a história é meio tétrica. Estava Vinicius numa clínica de repouso (nessas ocasiões, quem repousa mesmo é o fígado), tentando fazer letra para a música do Baden, quando:

— Ouvi um choro que vinha do quarto ao lado; aí fui olhar e era um velhinho que estava à morte, cercado de parentes. Aquilo ia começar a me enfossar, mas eu não quis me preocupar, tinha que fazer o meu samba. Voltei para o quarto meio enfossado e continuei trabalhando a letra. Quando o dia começou a clarear e eu coloquei a última palavra no samba, o choro parou. Fui até lá e o velho tava morto e as pessoas ajoelhadas no quarto. Sempre que toco esse samba, eu me lembro desse fato.

Pior aconteceu com o Samba da bênção. Em 1964, quando de seus estertores diplomáticos em Paris, a serviço da UNESCO, Vinicius conheceu o produtor Pierre Barouh, a quem vendeu o argumento de um filme chamado Arrastão, que “no fim saiu uma porcaria”. Mais tarde, aqui no Brasil, Pierre pediu a Vinicius e Baden uma gravação do Samba da bênção, que levou com ele para a França. Pouco depois, Vinicius foi convidado a participar do júri do festival de Cannes (1966):

— Era o ano de Um homem, uma mulher, e o filme foi exibido. Quando da apresentação, eu ouvi a minha música e levei um susto. Fiquei contentíssimo, é claro. Na saída, o Pierre estava com a mulher esperando a gente. Abracei o cara, que maravilha e coisa e tal. Mas, daí, comecei a pensar: “Que negócio é esse de música de Francis Lai e palavras de Pierre Barouh?”

De fato, nem Vinicius nem Baden apareciam como autores da música. E a explicação do produtor era meio estranha:

— Ah, você sabe, na versão do disco já saiu o seu nome...
— Como? Isso na França, mas e no resto do mundo, como é que fica? Depois vão pensar que o samba é seu! E o meu parceiro, como é que fica?

Pierre quis cair fora, e Vinicius foi ver o diretor do filme, Claude Lelouch, que lhe respondeu:

— Olha, velho, se eu for fazer um corte no filme para incluir teu nome e o do teu parceiro, vai custar uns 160 000 francos.
— Azar seu. Você vai botar porque senão eu vou te processar.

Com jeitinho, tudo se resolve. Foi assim que o nome da dupla brasileira passou a figurar no filme, muito embora, ao que parece, não em todas as cópias. Esse período todo marcou a época áurea de Vinicius de Moraes na música popular brasileira. Entre 1963 e 1967, foram gravadas cerca de 62 composições suas. Em 1968, só seis, e pouco expressivas. Em 1969, duas, inclusive uma regravação. E Vinicius? Já estaria iniciando a contagem decrescente?

— Não foi um afastamento definitivo. Que eu tivesse desistido de fazer música ou qualquer coisa deste gênero. Primeiro lugar, meus parceiros começaram a viajar muito — o Tom, o Baden, o Carlinhos Lyra ausente também. Eu, nesses lapsos assim, costumo compor eu próprio. Mas confesso que, na verdade, não estava numa fase muito boa pra isso. Talvez uma fase pessoal. E então eu acabei desviando minha vida para outras atividades. Voltei a escrever, fazer crônica, trabalho para jornal. E talvez também um pouco devido à onda de música pop no Brasil. Não dava, pra nós, elementos de competição. A gente tinha mesmo que deixar passar.




*Texto extraído do LP “História da Música Popular Brasileira: Vinicius de Moraes”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

OS NOVOS AFRO SAMBAS DE AMORIM E PINHEIRO

Por Tárik de Souza




Nomeado a partir do disco “Os afro sambas”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, de 1966, o gênero que conecta nosso ritmo principal com suas raízes vem de longe, praticado de formas diversas desde a santíssima trindade ancestral, Donga, Pixinguinha e João da Bahiana. O próprio Vinicius já havia se aventurado por este caminho em “Água de beber” (1961), com Tom Jobim, “Berimbau” e “Consolação” (1964), com o próprio Baden, além de entabular parcerias com o maestro pernambucano Moacir Santos (“Triste de quem”, “Menino travesso” ), o artífice inescapável do clássico “Coisas” (1965), alicerçado “nos candomblés e maracatus de sua terra”, como define o poeta e letrista Paulo Cesar Pinheiro.

Co-autor de “Lapinha” com o supracitado Baden, Pinheiro já desenvolvera o gênero em “Áfrico”, ao lado do compositor, cantor e violonista mineiro Sérgio Santos. Em “Voz nagô”, em parceria com o bandolinista e compositor carioca Pedro Amorim, ele retoma essa vereda afro brasileira, procedente do candomblé e capoeira, através de um conjunto de 14 afro sambas, lundus, chulas e jongos, inéditos em sua maioria.


“Iemanjá rainha do mar” e “Linha de caboclo” tinham sido gravadas por Maria Bethânia, em 2006 e 2009, e “Voz nagô” (na releitura, com participação de Pinheiro) foi registrada pelo percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, em 2002. No disco, Amorim troca seu instrumento principal, o bandolim, pelo violão (que domina também no registro tenor, junto com o cavaquinho e o banjo), ao lado de um afiado grupo de percussionistas, Thiago da Serrinha, Paulino Dias, Pedro Miranda e Marcus Thadeu e o intenso clarone de Pedro Paes.

Embrenha-se por temas embebidos em misticismo religioso, como “Tocador de santo”, “Dança dos orixás”, “Ogum-megê”, denuncias de injustiças (“Quilombo dos Palmares”, “Sina do negro”, “Voz nagô”), cenas de capoeira (“Batizado”) e ainda escaramuças e exaltações amorosas (“Brigador”, “Sangue de rei”, “Sestrosa”), como as dos certeiros versos (“o mestre que me ensinou/ nunca foi à escola”) de “Berimbau de Angola”: “A navalha do ciúme corta até lenço de seda/ quero em vez desse perfume/ pra seguir minha vereda/ mais amor de vagalume que paixão de labareda”.

terça-feira, 16 de maio de 2017

OLÍVIA E FRANCIS HIME HOMENAGEIAM VINICIUS DE MORAES EM NOVO DISCO


Sem mais adeus celebra o amor e a amizade e turnê deve chegar a Belo Horizonte no primeiro semestre, depois de rodar o mundo 

Por Ana Clara Brant 


Juntos há 53 anos, Olívia e Francis Heime começaram a namorar graças à uma forcinha de Vinicius


Um disco, claro, tem a música como matéria-prima. Mas há aqueles que vêm recheados de muitas histórias. É o caso de Sem mais adeus – Uma homenagem a Vinicius (Biscoito Fino), projeto do casal Olivia e Francis Hime.

A faixa-título começa com o relato do compositor e pianista carioca sobre como se deu o processo de criação da canção. Em 1962, numa tarde em Ipanema, Vinicius de Moraes chegou a um bar e deixou um guardanapo de papel na frente de Francis. Era a primeira parceria dos dois.

O Poetinha sempre esteve presente na vida de Francis Hime. Em certa ocasião, sua mãe, a pintora Dalia Antonina, reuniu amigos. Um deles era justamente o cantor, compositor e diplomata. “Tinha 15 anos e havia um piano de cauda lá em casa. Já estudava o instrumento desde os 6, acabei tocando para o Vinicius uma de suas criações, Valsa de Eurídice. Toquei cheio de energia, foi uma emoção. Ele comentou com minha mãe: ‘Não deixa esse menino ser engenheiro, porque o negócio dele é a música’”, relata Francis.

Realmente, não teve jeito. Apesar de ter concluído o curso de engenharia, a paixão pela arte falou mais alto. No dia de sua formatura, com cerimônia em pleno Maracanãzinho, Francis estava em São Paulo inaugurando uma TV. “Não dá pra ser contra o que a gente é”, resume.


CUPIDO

Vinicius foi uma espécie de cupido do jovem compositor e Olivia Hime. Em 1964, o poeta rascunhou a letra de Saudade de amar num papel para os dois cantarem. “Vinicius rabiscava, mostrava pra mim e eu tocava. Depois mostrava pra Olivia e ela cantava. Ficou nesse vaivém até que começamos a namorar”, lembra.

Já são 53 anos de união, que renderam ao casal três filhas e quatro netas, além de vários projetos pessoais e profissionais. “Sempre trabalhamos juntos na coxia da nossa casa. Em 2011, percebemos que nunca tínhamos feito um disco juntos. Foi assim que surgiu o álbum Alma música. Agora a gente decidiu repetir a parceria e homenagear uma figura importantíssima não só pra gente como para o Brasil”, diz Olivia.

A ideia surgiu em 2013, ano do centenário de nascimento de Vinicius de Moraes. Os dois perceberam que nenhuma das homenagens programadas passava pelo Itamaraty, apesar de o Poetinha ter sido diplomata. Surgiu o show, com o apoio de algumas embaixadas. “Rodamos vários países, entre eles Finlândia, Noruega, China e Alemanha. É impressionante como o público estrangeiro entende e gosta de música brasileira. A MPB é muito respeitada fora do Brasil”, observa Olivia Hime.

Neste domingo, ela e o marido vão se apresentar no Kuweit, no Oriente Médio. “Fomos convidados por nossa embaixada para mostrar a música brasileira àquele país. Além de Vinicius, vamos tocar Tom Jobim, Ary Barroso e Luiz Gonzaga. Como somos apenas eu e Francis no formato voz e piano, facilita viajar”, comenta a cantora.

O repertório do show, que acaba de virar disco, traz pérolas como as duas canções que marcaram a trajetória dos Hime (Valsa de Eurídice e Saudade de amar), assim como A felicidade, Chega de saudade, Canto de Ossanha, Samba da bênção, Coisa mais linda, Berimbau e Água de beber.


MOVIMENTO

Diretora artística da gravadora Biscoito Fino, Olivia Hime não faz parte do grupo que critica o cenário contemporâneo da MPB. Para ela, a música está em constante movimento. “Não sou da turma dos pessimistas. A gente tem que deixar o rio fluir. Não dá para segurar a força das águas, que já nos trouxeram Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e Noel Rosa, desembocando em Francis Hime, Chico Buarque, Toninho Horta, Milton Nascimento, Gilberto Gil e por aí vai”, frisa.

Olívia reforça a tese de que nem tudo o que é novidade é ruim. Mesmo que não conheça ou não goste de determinado gênero ou estética musical, considera presunçosos os prejulgamentos. “Meus filhos me mostram muitas coisas que estão surgindo, porque a gente tem que ao menos conhecer. Não podemos ficar na ideia fixa de que tudo o que é bom acabou, e não vai surgir mais nada. O Brasil é um país jovem, imenso e com muita riqueza neste mundo de criatividade, beleza e loucura”, defende.


JOVENS

Francis Hime acredita na criatividade do brasileiro e na força da MPB. “É uma fonte inesgotável de diversidade. Se o Vinicius estivesse por aqui, teria uma visão mais positiva e esperançosa das coisas. Como sempre incentivou muito os jovens, ele se encantaria com a juventude que está aí frequentando a Lapa, sobretudo a garotada do choro”, diz, referindo-se ao point da cultura – e do samba – carioca. “O Poetinha se engajaria ao lado das pessoas que tentam dar força e ânimo à música brasileira”, aposta.

Este mês, a turnê de Sem mais adeus chega ao Rio de Janeiro. O casal Hime planeja fazer shows em Belo Horizonte, Brasília e São Paulo neste primeiro semestre.


Com Adriana 

Um sequestrador, a última faixa do disco Sem mais adeus, seria, inicialmente, parceria de Vinicius de Moraes e Francis Hime. Mas a canção acabou ganhando letra de Adriana Calcanhotto (foto). “Um tempo depois da morte do Vinicius, Francis conheceu a Adriana e tiveram uma ótima empatia. Então, ele a convidou para botar a letra naquela música, que tinha quase 50 anos. Ela sofreu, disse que não teria coragem, mas o resultado ficou ótimo”, conta Olivia Hime. Adriana participa de duas faixas do novo álbum do casal: Um sequestrador e Samba de Maria.


SEM MAIS ADEUS
Uma homenagem a Vinicius
. De Olivia e Francis Hime
. Biscoito Fino, 27 faixas
. R$ 29,90

domingo, 5 de fevereiro de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB


Todos nós sabemos da importância das contribuições tanto de Vinicius de Moraes quanto de Baden Powell para a música popular brasileira. De um lado um dos mais expressivos compositores da MPB e que traz sob a sua assinatura alguns dos grande clássicos da MPB; do outro um não menor compositor, que trazia como característica mais marcante não a interpretação das canções de sua lavra, mas o violão que brilhantemente executava. Hoje, de ambos, só nos resta a saudade e uma discografia pontuada por alguns discos que entraram para o rol dos grandes álbuns já produzidos no Brasil. Uma prova irrepreensível desta afirmação completou ao longo do ano passado, cinco décadas de lançamento: Os Afro-sambas, considerado por muitos críticos como um divisor de águas na música brasileira por fundir vários elementos da sonoridade africana ao samba. Composto por oito faixas, o disco apresenta uma rica e singular musicalidade, que traz uma mistura de instrumentos do candomblé e da umbanda (como atabaques e afoxés) com timbres mais comuns à música brasileira (agogôs, saxofones e pandeiros). Dentre as canções presentes no disco está lá "Canto de Ossanha", futuro clássico da MPB, que conta com a participação nos vocais da atriz Betty Faria e na flauta de Nicolino Cópia. Os Afro-sambas tem arranjos e  regência do Maestro Guerra Peixe e participação especial nos vocais das meninas do Quarteto em Cy. No entanto a coluna de hoje não irá prender-se a importância de ambos para a nossa música pois isso já é público e notório. O que me fez relembrar o nome desses dois emblemáticos artistas foi a a música "Samba em Prelúdio", canção indefectível que teve o seu primeiro registro em disco por outro grande nome de nosso cancioneiro: Geraldo Vandré, que em 1963 (um ano após ser composta) a registrou.

Baden Powell costumava relatar que ao compor a melodia de "Samba em Prelúdio" chamou Vinicius (quem considerava "mais que um pai") para ouvir a música que compusera. Na cabeça do melodista só um letrista seria capaz de colocar uma letra digna daquela romântica e bela canção: Vinícius de Moraes. O poetinha ouviu a melodia uma, duas vezes e, sentados à mesa, deram início a empreitada de fazer uma letra para aquela melodia. Com papel, caneta, whisky e violão, começaram a parceria daquela canção que se destacaria anos mais tarde na obra de ambos. Secaram a primeira garrafa de whisky e nada... secaram a segunda garrafa de whisky e mesmo assim não havia surgido nada que pudesse ser considerada como a letra daquela melodia. Na terceira garrafa da bebida, enquanto a letra não saía, Vinícius de Moraes, constrangido, disse achar que a música era plagiada de Frédéric Chopin, ao que Baden Powell respondeu: "Você que bebeu demais e está implicando comigo!". Estava armado o impasse e este imbróglio só conseguiu ser solucionado quando Lucinha, então mulher de Vinícius, foi acordada às 3:00 da madrugada para tirar essa dúvida da dupla. Recorreram à Lucinha porque ela além de pianista ardorosa fã de Frédéric Chopin e conhecia toda a obra do músico polonês. Ao constatar que estava errado e que as notas realmente eram originais de Baden PowellVinícius de Moraes ficou sem graça e disse: "Então, Baden, Chopin esqueceu de fazer essa". Com a dúvida sanada, o poetinha pode, finalmente, inspirar-se à máquina de escrever e fazer a letra inteira da música "Samba em Prelúdio", uma das mais belas canções da dupla que já ganhou registro de alguns dos maiores nomes do cancioneiro brasileiro tais quais Toquinho, Paulinho Nogueira e outros.

domingo, 27 de março de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB


Vinícius de Moraes (Out/1913 – Jul/1980)


Quem acompanha este espaço e por conseguinte esta coluna talvez lembre que quando surgiu esta ideia de trazer algumas curiosidades do cancioneiro brasileiro os primeiros personagens abordados foram o maestro Antonio Carlos Jobim e o multifacetado Vinicius de Moraes. O cantor e compositor Oswaldo Montenegro bem definiu o poetinha quando disse que ele de tantos tinha nome e sobrenome no plural.

Neste mês em que Vinícius completaria um século de existência retomo seu nome para contar mais algumas passagens interessantes sobre sua biografia e vida artística. De início posso começar a contar um problema que Vinícius tinha que assola boa parte dos brasileiros: insônia. Ele costumava dizer que invejava quem batia na cama e dormia logo. Sua última esposa, Gilda Mattoso, costuma contar que quando pedia para o poeta acordá-la ela sempre perdia as horas. Ele costumava dizer que não tinha coragem de acordar ninguém. Em suas crises de insônia ele costumava entrar na banheira com água morna, que dizia ser o útero da mãe. Ficava ali e, quando vinha o sono, ele saía da banheira e se metia na cama, ainda molhado, para não perder o embalo. Se o sono não engrenasse, não fazia cerimônia e voltava para a água para reiniciar todo o processo.

Uma das características de Vinícius, que falava com fluência vários idiomas, era misturá-lo nessas turnês corridas. Chico Buarque certa vez contou que quando estava em Roma foi a uma apresentação do autor de Chega de saudades e ele contava mil casos a plateia. O público ria muito, inclusive um senhor que estava sentado ao lado de Chico que olhou para Chico e exclamou:

– E bravíssimo questo Vinicius ma, scusa che língua parla? (É fantástico esse Vinícius, mas me desculpe, que língua ele está falando?).

Outra passagem interessante na biografia do saudoso artista aconteceu por volta de 1980. Nessa época Vinícius já não mantinha a vida social de outrora e isso o deixava bastante abatido. Esforçava-se para sair, ver amigos, mas estavam cada vez mais complicadas e sofridas essas saídas. Nessa época João Gilberto gravaria para a rede Globo um programa para a série “Grandes nomes”, no entanto no dia marcado para a gravação o poeta passou mal. Vinícius ficou inconsolado em não ter condições de participar desse programa até que dias depois ele recebeu a visita do parceiro Baden Powell. Durante toda tarde, Baden tocou e os dois cantaram em uma alegria de dar gosto. Baden ficou para jantar e ao final da refeição caiu uma chuvarada feia que fez com que permanecesse na casa de Vinícius para poder voltar para casa no dia seguinte, já que a cidade provavelmente estava alagada. O poeta e sua esposa providenciaram as acomodações de Baden no quarto de hóspedes e seguiram também para o quarto para também dormirem. Trocaram de roupas e já preparavam-se para deitar quando o interfone toca e do outro lado era Miúcha que o questionou se ainda estavam acordados. Mesmo de pijama o poetinha prontamente respondeu entusiasmado:

— Tô Miuchinha, pode entrar.

Quando a porta foi aberta entraram não só Miúcha, mas também João Gilberto com seu violão. João refez para Vinícius o especial todinhos com várias interrupções para atender a pedidos de Vinícius. João pacientemente atendeu a todos os pedidos ao longo de toda a noite e saíram já com o dia amanhecendo.

Ao acordar no dia seguinte por volta de meio-dia foram acordar Baden, que ainda repousava, para comer alguma coisa. Baden chegou a dizer que teve um sonho excelente: “Parecia que João Gilberto tocava e cantava a noite toda para me embalar…”.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

35 ANOS SEM VINÍCIUS DE MORAES

2015 completa-se 35 anos sem o saudoso poetinha, o branco mais preto do Brasil


AMIZADE


Vinicius de Moraes foi um poeta rodeado de amigos. A amizade foi tema de muitos de seus poemas, crônicas e músicas. Era um poeta que ficou conhecido tanto por criar sua obra a partir dos afetos das suas mulheres, quanto pelo amor aos amigos. Foram décadas de trocas constantes entre seus pares de literatura e música, construindo pactos afetivos e histórias de vida.

Com sua polivalência cultural e social, Vinicius esteve rodeado desde a juventude por pessoas das mais diferentes classes e procedências. Eram anônimos e famosos que contribuíram de alguma forma para sua vida e obra. Podemos citar, entre tantos, nomes como Otavio de Faria, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Antonio Maria, Pablo Neruda, Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti ou Portinari. Aqui, apresentamos apenas alguns dos principais amigos dessa jornada.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Drummond e Vinicius nunca foram amigos íntimos, apesar de próximos. Não tinham personalidades parecidas. A diferença no estilo de vida – mais pacato do poeta mineiro e extremamente movimentado do poeta carioca – já nos diz muito dos dois. Mesmo assim, sempre estiveram por perto, trocando cartas e admiração mútua. Drummond, aliás, cunhou algumas das melhores frases sobre Vinicius. Nenhuma delas, porém, sintetiza tanto a amizade dos dois como a declaração definitiva: “Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.


CARLOS LEÃO
O arquiteto Carlos Leão entrou na vida de Vinicius através de seu casamento com Tati, sua primeira mulher. Ou melhor, Vinicius a conheceu através de Carlos, mas com o casamento, essa convivência tornou-se constante, já que Carlos era cunhado de Tati. Ele tornou-se na década de 1940 o grande amigo de Vinicius nas incursões boêmias pelas ruas do Rio. Além disso, foram parceiros em vários projetos, livros e publicações. Foi na casa de Carlos Leão, no Morro do Cavalão, em Niterói, que Vinícius iniciou, ainda em 1942, o texto que, anos depois, se tornaria Orfeu da Conceição.


JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Vinicius e João Cabral foram diferentes e, de certa forma, complementares. A secura de um equilibrava e se alimentava do lirismo do outro. Eles se conheceram em 1942, durante a visita do escritor norte-americano Waldo Frank. Em Recife, os dois poetas iniciam uma amizade profunda, aproximada pela vida em comum da diplomacia. Foi o “homem que não gosta de música”, como João Cabral ficou conhecido, que, em 1949, publicou em sua prensa O Livro Inconsútil, 50 exemplares do poema Pátria Minha. Foi ele também quem sugeriu o título de Orfeu da Conceição para a peça de Vinicius. 


MANUEL BANDEIRA
A amizade entre Vinicius e Manuel Bandeira começa precisamente em 1936, quando o poeta carioca tinha 23 anos e o poeta pernambucano já tinha 50. A diferença de idade não impediu que fosse construída uma das mais sólidas amizades entre poetas brasileiros. Vinícius o chamava de “poeta, pai, áspero irmão”. 





RUBEM BRAGA
O escritor capixaba Rubem Braga foi durante muito tempo um dos mais próximos amigos de Vinicius. A amizade se consolidou durante os animados anos 1940, quando os dois participavam ativamente de rodas boêmias do Rio de Janeiro. A dupla ficou famosa principalmente na roda de amigos que se reunia no Bar Vermelhinho, no centro da cidade. A roda era célebre por reunir arquitetos, artistas plásticos, escritores, dramaturgos e a fina flor do Modernismo brasileiro daquele período. Anos depois, Braga, ao lado de Fernando Sabino, tornou-se editor de alguns livros do poeta carioca, publicados através de suas editoras Do Autor e Sabiá. 


OS “AMIGOS MINEIROS”
Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Peregrino e Fernando Sabino formaram durante um bom período um quarteto de amigos inseparáveis, no Rio de Janeiro. As amizades tinham sua origem ainda em Belo Horizonte, antes de todos virem morar no Rio. Foi ainda em 1942, em uma visita a Minas, que Vinicius os conheceu. Ele se tornou amigo do grupo durante uma viagem à capital mineira a convite do então prefeito Juscelino Kubitscheck. A partir daí, criou amizades muito particulares e de toda vida com cada um deles. 


Fonte: Site Oficial do Artista

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

APADRINHADA POR VINICIUS, MARIA CREUZA SEGUE CARREGANDO O LEGADO DO POETINHA

A baiana interpreta várias canções do repertório do amigo para um público cativo, sempre ávido pelos versos do compositor, responsável por impulsionar a carreira da cantora


Por Gabriel de Sá





Maria Creuza é uma operária da música de Vinicius de Moraes. Há 16 anos, de quinta a domingo, a cantora sai da Barra da Tijuca, onde mora, até Ipanema. É no bairro carioca, mais precisamente no Vinicius Bar, na rua que também leva o nome do Poetinha, que a baiana interpreta várias canções do repertório do amigo para um público cativo, sempre ávido pelos versos do compositor, responsável por impulsionar a carreira da cantora nos anos 1970. “Virou uma espécie de reduto meu”, conta ela, aos 69 anos. Em 2013, ano do centenário do compositor, Creuza já levou as músicas para a Espanha, Peru e Colômbia, além de várias cidades do país. A Argentina é o próximo destino.

Nascida em Esplanada (BA) e criada em Salvador, Maria Creuza cantava em um festival universitário da TV Tupi, em 1969, quando a voz aveludada e grave, na faixa Mirante, chamou a atenção de um tal Vinicius de Moraes. Era a estreia da moça no Rio de Janeiro. O Poetinha teria ficado doido atrás do telefone da cantora, e acabou conseguindo o número. Vinicius telefonou para Maria e ela, claro, não acreditou que era realmente ele. “Achei que estavam me sacaneando”, relembra. Quando, enfim, a ficha caiu, recebeu o convite para uma turnê com ele e Dori Caymmi na Argentina e no Uruguai. Começou aí a amizade musical, que duraria até a morte do artista, em 1980.

Pouco depois, Dori foi substituído pelo novato Toquinho. Os três rodaram o mundo em apresentações. “Eu teria que abrir as várias agendas que guardo para saber quantos foram os shows”, diz Creuza. A Europa e a América do Sul eram destinos constantes. O Poetinha virou até compadre dela — ao lado da então mulher, Gessy Gesse, ele batizou a filha do meio de Maria Creuza, Luana.

Apesar da fama de conquistador, e da beleza da jovem Creuza, Vinicius nunca tentou avançar o sinal com a amiga. “Ele dizia que não era possível: ‘Mariazinha, você desperta paixões incontroláveis, mas não dá valor a ninguém’”, detalha a cantora. “Gessy era baiana também, e muita gente confundia, achava que era eu”, recorda-se. “Não tive absolutamente nada com ele, apesar de Vinicius ser uma pessoa cativante”. Na época, Creuza era casada com o compositor Antonio Carlos, da dupla Antonio Carlos & Jocafi. O relacionamento durou quase duas décadas e gerou três filhos.



Aplausos

No começo dos anos 1970, as apresentações sempre cheias na boate La Fusa, em Buenos Aires, acabaram rendendo um disco ao vivo, gravado por Creuza, Vinicius e Toquinho. A cantora se recorda que parte do trabalho, que acabou conhecido mundialmente, foi finalizada em estúdio. Quando saiu no Brasil, em 1972, o álbum recebeu o nome de Eu sei que vou te amar, e trazia Creuza como protagonista, em foto grande na capa. O nomes dos dois outros, menores, apareciam embaixo do dela.

A amizade com a dupla rendeu boas histórias. Certa vez, em Punta del Este, no Uruguai, como era de costume, Vinicius ficou sentado em uma mesa no palco, tomando seu “uisquinho”. Às vezes, levantava-se para agradecer os aplausos e abraçar os afilhados artísticos. Segundo Creuza, o Poetinha não era muito dado a usar roupas de baixo. Nesse dia, ele havia desabotoado a calça, um pouco apertada, e ergueu-se bruscamente. A trupe só percebeu quando as calças já alcançavam o chão. “Não chegaram a ver tudo, mas quase”, diverte-se Creuza.

Em outra ocasião, dessa vez em Paris, Creuza ficou tão emocionada que esqueceu a letra da música. Ela era novata e dividia o palco, também, com Baden Powell. A canção era Samba da bênção. “Eu não sabia o que fazer, e acabei inventando qualquer coisa”, conta. Ao final, Vinicius olhou para ela, com aquela cara, e soltou, ironicamente: “Quero apresentar para vocês a minha ‘parceirinha’, Maria Creuza”. É de Paris, também, o manuscrito de Vinicius que a cantora entregou ao Correio, detalhando o itinerário de apresentações dos dois com Toquinho na Cidade Luz.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PERNAMBUCANO ANTÔNIO MARIA FOI ALMA GÊMEA DE VINICIUS DE MORAES

Amizade entre o Poetinha e o cronista e compositor recifense está eternizada em crônicas, cartas e muitos mitos

Por Luiza Maia




Quando criança, Vinicius de Moraes era Marcus Vinitius. Aos nove anos, escolheu mudar o nome em cartório. Mas foi como Poetinha que morreu, em 1980, aos 66 anos. O apelido foi criado por um grande amigo, o cronista e compositor pernambucano Antônio Maria (1921-1964), “parente de uma linha de Moraes de Pernambuco que vai assim, faz assim e volta e da qual participa também o poeta João Cabral de Melo Neto”, segundo o carioca. O Poeta, de Maria, logo foi para o diminutivo, como tudo com Vinicius, cujo centenário de nascimento será comemorado em 19 de outubro.


A retribuição nunca pegou. Vinicius dizia que Maria era pernambaioca - junção bonitinha, mas inverídica, de pernambucano, baiano e carioca. Expliquemos: recifense, Maria declarava saudades das águas daqui nas crônicas diárias nos principais jornais da época, como O Jornal, Diário da Noite, Última Hora, O Globo, apesar do mar de Copacabana. Carioca, porque ser leitor das ácidas colunas Jornal de Antônio Maria (JAM) ou Romance policial de Copacabana era quase requisito para um boêmio da gema. Mas baiano era uma clara e ineficaz tentativa de aproximação: Vinicius se declarava o carioca mais baiano e o branco mais preto do Brasil. Maria morou na Bahia, na década de 1940, por tão pouco tempo quanto em Fortaleza: menos de dois anos.

Quando se dirigia ao pernambucano, usava Meu Maria ou Meu Bom Maria. Pessoalmente ou em cartas, como o tocante texto da derradeira despedida, em 15 de outubro de 1964. Com a morte precoce do Menino Grande (apelido inspirado em música homônima), após um infarto na calçada de um bar carioca, a amizade virou mito. Com poucas testemunhas vivas, histórias não confirmadas e passagens desencontradas.

Os companheiros de noitadas - Fernando Lobo, Ivan Lessa, Dolores Duran, Aracy de Almeida, Ary Barroso - já se foram. Os filhos não têm muitas lembranças: eram novinhos demais para acompanhar os programas alcoólicos e amorosos. “Vinicius não falava muito, mas eram sempre histórias boêmias, bem ao estilo deles”, conta o parceiro musical Toquinho.

Os registros dos encontros, iluminados mais pela luz lilás da boêmia Copacabana das décadas de 1950 e 1960 do que pelo Sol, ficaram entre uma dose e outra. Um verso e outro. Uma conquista e outra. Vinicius casou nove vezes, foi largado tantas outras e partiu muitos corações. Antônio - não que fosse feliz - viveu com a esposa Maria Gonçalves Ferreira, teve amantes, morou com Yolanda Cardoso e Ligia Andrade e protagonizou o escândalo de roubar Danuza Leão de Samuel Wainer, dono do Última hora, de onde foi demitido, obviamente.

A dupla conquistava pelos galanteios, apesar dos questionáveis atributos físicos. Ambos grandes e acima do peso, exprimiam orgulho de serem sedentários e desfrutavam de quitutes pesados. Feijoada, vatapá e cozido surpreendiam os convidados do Poetinha em jantares pós-meia-noite. Já o recifense, figura fácil nos restaurantes cariocas, dava indicações dos melhores pratos no seu Jornal de Antônio Maria, nas seções Comer e depois viver ou Não morra pela boca.

Vinicius calvo. Maria idem. E ainda famoso por sudorese constante. Mas, na lábia, eram insuperáveis. Maria dizia que precisava de três horas para fazer uma mulher esquecer sua cara. E conquistá-la. O amigo Carlos Heitor Cony brinca que, se visitasse o papa, voltaria cardeal. Vinicius, das paixões eternas enquanto duravam, ainda nutria fama de charmoso.

Nas colunas de Maria, declarações ao amigo e compadre (era padrinho de batismo de Luciana, filha de Lila Bôscoli), com um descarado protecionismo. A admiração por Vinicius o livrou das constantes críticas contra a bossa nova feitas por Maria - que foi diretor artístico da Rádio Tupi, locutor, apresentador de televisão e escrevia sobre arte, além de tudo, nos jornais. Mas, na década de 1960, próximo à morte precoce, aos 43 anos, ele já se rendia ao balanço da bossa. “Maria estava amicíssimo de Vinicius de Moraes e logo passaria a elogiar Tom Jobim, recebendo afagos de volta”, acredita Joaquim Ferreira dos Santos, autor de Um homem chamado Maria, embora o colunista já o tivesse feito. “Com Tom Jobim, (Vinicius), fez algumas das nossas melhores canções”, escrevia, em 29 de junho de 1961.

Drummond disse que Vinicius “foi o único de nós que teve vida de poeta”. Vinicius afirmava que o poeta Maria foi o melhor personagem de si mesmo - e, nos diários escritos entre 12 de março e 19 de abril de 1957 (publicados em Os diários de Antônio Maria), é latente a solidão real do autor de Ninguém me ama (1952). Ele escrevia com o peso da desilusão. Vinicius, com a esperança de quem insistiu em nove casamentos.

Vítimas do exagero de bebidas, mulheres, amores e decepções, morreram como viveram. O Maria de Vinicius, cardisplicente (cardíaco e displicente), após uma noitada, num desabafo fatal da doença. O Vinicius de Maria, na banheira, após noite acordado, compondo com Toquinho, sob queixas de Gilda Mattoso. Sempre intensos, tornaram-se imortais.

Leia íntegra da carta escrita por Vinicius de Moraes no dia da morte de Antônio Maria:

Morrer num bar

Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer.

Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não agüentava mais de saudades - aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte. Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone - eram nove da manhã - eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: "É o Maria!" E ao descer correndo para a pensão fazia planos : " Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos…" E ainda a caminho fiquei pensando: "Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?..." Mas você, há uma semana - quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta - me tinha tranqüilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia.

Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: "Você tem medo de morrer, Poesia?" "Medo normal, meu Maria", respondi. " Pois olhe: eu não tenho nenhum" retorquiu você sem qualquer bravata na voz. "Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza."

Mas como eu descesse - dizia - para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: "Você sabe, Antônio Maria está muito mal...": e eu instantaneamente soubesse... - justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: "Sabe, meu filho, seu pai está muito mal…", o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? - onde?

Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer…

Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: "Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?" "Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar..."

Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápído e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu "Jornal de Antônio Maria" o seu "Romance dos pequenos anúncios", que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou...

Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na idéia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. "E Rubem Braga…", acrescentou você depois, brincando com ternura, "Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha..."

Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorrne ainda, meu Maria...) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

CASA MUITO ENGRAÇADA DE VINICIUS DE MORAES EXISTE DE VERDADE

Por Juliana Ferreira



"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada". Essa música foi escrita pelo poeta brasileiro Vinícius de Moraes em 1980. Mas ele não inventou essa casa: ela existe de verdade.

Ela se parece com um grande castelo branco à beira-mar e se chama Casapueblo. Fica no Uruguai, um país que faz fronteira com o sul do Brasil.

A obra começou a ser construída pelo artista Carlos Vilaró, 89, em 1958. No início, era um pequeno quarto feito com latas. Vilaró conta que fez a casa ladrilho por ladrilho e demorou trinta anos para deixá-la como é hoje.

"Se um pássaro com um bico constrói sua própria casa, por que não me animar a fazer a minha com minhas próprias mãos?", diz ele.

Vilaró ainda se lembra de quando Vinicius de Moraes visitava a Casapueblo.

Cada vez que Vinicius ia ao local, encontrava uma casa diferente, metade construída e metade em escombros. Por isso, Vilaró não tem dúvidas de que o amigo brasileiro fez a música sobre sua construção.

Vilaró diz que Vinícius cantou a música pela primeira vez lá em sua casa: "Era uma casa muito engraçada, não tinha portas, não tinha nada, era uma casa de pororó, era a casa de Vilaró". A canção foi um presente para as filhas do uruguaio, Agó e Beba.

"Essa vez ficou marcada para sempre na minha memória. Talvez, colocando meu nome na letra, quis me homenagear". Vilaró conta que o poeta brasileiro passava as tardes na casa tocando seu violão.

Hoje, Casapueblo é um museu, uma galeria de arte e um hotel. Os quartos têm nomes de hóspedes famosos, como o do compositor e cantor Toquinho.

Toquinho foi convidado por Vinícius para transformar poemas em músicas e participou da produção do disco em que foi gravada a música "A Casa".

"A casa é bem diferente, à beira de um penhasco, parece levitar ao pôr-do-sol. Fica a imagem de uma casa engraçada. Sem teto, sem chão, sem parede. Eis a magia da poesia de Vinicius", diz Toquinho.

sábado, 19 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES, 100 ANOS (CARTA AO PAI)

Por Georgiana de Moraes (especial para o Estado)





Espero que Maria não se aborreça por eu imitá-la escrevendo também uma carta para você, pois é muito boa a sensação de poder lhe falar. Nestas comemorações pelo ano de seu centenário tenho sido muito requisitada para entrevistas, fazer aparições em escolas e shows em sua homenagem.

Nunca mais parei de fazer shows depois de você ter aceito (com uma grande ajuda dos apelos de Miúcha) que eu participasse daquela antológica apresentação do Canecão com você, Tom, Toquinho e Miúcha.

Já tinha tido uma experiência nos palcos a seu lado durante um mês em Punta Del Leste (você me deixou participar muito a contragosto, já que achava que eu devia trilhar meu próprio caminho). Por isso, não receberia cachê e teria que “me virar” em conseguir um lugar pra ficar, pois você estava em plena lua de mel com sua poeta argentina Martita.

Como foi maravilhoso aquele mês em Punta, onde Tuca, seu neto, veio se juntar a nós, participando com uma composição dele e do Ricardo Lecoin, um uruguaio que já tinha sido fisgado por você e que ficava em êxtase cada vez que tocava a seu lado.

Marta está montando uma exposição em Buenos Aires sobre você. Todas as suas mulheres estão sendo convocadas a dar depoimentos e acho que você gostaria de saber que já o perdoaram e não esquecem o tempo que desfrutaram com você.

Te confesso que durante todos esses anos eu imaginei já ter falado absolutamente tudo a seu respeito! Cheguei a jurar que ia dar um basta: chega de falar de Vinicius!”

Mas não! Você é assunto inesgotável e ressurge cada vez com mais força e graça e sempre descubro uma coisa nova para falar a seu respeito.

Quero te dizer que você está mais vivo do que nunca e que as pessoas todas, velhos, jovens e crianças, se sentem muito próximos a você.

Então, quando me perguntam se você foi um pai presente, eu digo que você é um pai muito presente, sim, e que deve ter sido um bom pai já que seus filhos, apesar das três mães, são muito unidos e trabalham com muito afinco para cuidar de sua obra e manter a chama acesa.

Você ficaria muito orgulhoso em saber que seus netos já estão participando na empresa e que são todos pessoas muito bacanas e que vêm trazendo vigor e frescor à VM (produtora), empresa que criamos para cuidar desse legado.

Diana, neta que você não conheceu por pouco, te deu mais dois bisnetos, que são a paixão da minha vida. Suas músicas estão por toda parte e – coisa que sei que te agradaria – sendo curtidas pelas novas gerações. E você continua ajudando os namorados com suas frases e poemas de amor.

Um beijo, saudades.

Fonte: estadao.com.br

VINÍCIUS DE MORAES, 100 ANOS (MEMÓRIAS DO ÚLTIMO AMOR)

Por Gilda Mattoso (Especial para o Estado)



Parece mentira que Vinicius faria 100 anos nesse 2013 já que era um espírito de extrema jovialidade. Quando nos casamos em Paris, 1978, todas as pessoas se assustavam com nossa diferença de idade de quase 40 anos, menos eu, que o achava muito sem juízo mas também reconhecia que seu charme estava justamente aí. Vinicius se jogava na vida, corria riscos imensos, sempre destemido e em busca do amor perfeito!

Largava tudo pra trás e se atirava em um novo amor. Eu sempre mais ponderada apesar da tenra idade que tinha até mesmo quando ele morreu e me deixou viúva aos 28 anos! Desde muito menina, eu era admiradora dele, de sua poesia, de suas canções, e chegava a dizer, quando ele aparecia em jornais, revistas ou TV: “Quando me casar quero que seja com um homem como este”, provocando espanto em minha mãe, que retrucava: “Vira essa boca pra outro lado, este homem, embora excelente poeta (ela própria era poeta amadora) é um beberrão, destruidor de lares!!”

Minha mãe também terminou sucumbindo ao charme dele (ela fazia até docinhos com adoçante para ele, que era diabético). Para surpresa geral, e até minha, esse homem se apaixonou por mim e eu por ele e vivemos felizes e intensamente os poucos anos que o destino nos reservara.

Fico pensando em como Vinicius estaria hoje com 100 anos e pensando nele nesse Brasil devastado pela corrupção e pelos políticos medíocres. Ele, pouco antes de morrer, fazia seu quadro de políticos de sonhos: Presidente da República: Jaime Lerner; Ministro da Cultura: Sergio Buarque de Hollanda; Ministro das Relações Exteriores: Otto Lara Resende; Ministro da Saúde: Clementino Fraga Filho ou Paulo Niemeyer... e por aí ia. Todos esses grandes nomes eram amigos dele mas, acima de tudo, grandes brasileiros.

Ele ficava horas na banheira onde, aliás, veio a falecer, pensando nisso e em outros sonhos, como a cura da diabetes (enfermidade que acabou por matá-lo por outras vias), a justiça entre os homens, o fim da desigualdade social brasileira... enfim, foi um grande brasileiro que levou o nome do Brasil para todos os lugares do mundo por onde passou, com sua música e sua poesia inesquecíveis.

Às vezes, quando via meus amigos Enrica e Michelangelo Antonioni, que tinham quase a mesma diferença de idade que a nossa, ficava com inveja e pensava em como você teria ficado, já mais velho, e achava que teríamos uma relação parecida com a do casal italiano.

Tem 2 traços na personalidade de Vinicius que me fascinavam: primeiro, a generosidade. Ele foi o ser mais generoso que conheci e dizia que a coisa pior do mundo era a avareza, que perdia só para a grosseria que ele abominava. Dizia que quem era mesquinho com coisas materiais também o era com os sentimentos. O segundo traço era o senso de humor. Ele também dizia que, em certas situações, ele preferia uma pessoa sem caráter a uma pessoa sem senso de humor! Por vezes, estou nas minhas caminhadas na Lagoa e me vem a canção que ele e Toquinho fizeram e que cantavam nas infinitas turnês que fizeram pelo Brasil e que dizia:

¨Nós vamos pelas rotas do Brasil / nós somos os quatro mosqueteiros musicais / cantamos com empenho varonil / prás meninas, coroas e mocinhas virginais / nós somos Athos, Portos, Aramis e D’Artagnan / vivemos uma vida bem feliz e folgazã / os quatro mosqueteiros musicais / Azeitona*, Mutinho* Toquinho / e o Vinicius.... e o Vinicius.... e o Vinicius de Moraes!”

*Azeitona era baixista e Mutinho baterista da banda que acompanhava eles.


Fonte: estadao.com.br

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES, 100 ANOS (UM LEGADO DE AMOR)

Por Mariana de Moraes (especial para o Estado)




Relembro e te vejo sorrindo ao meu lado, as mãos entrelaçadas, quentes, protetoras, as pessoas a te olhar na rua. No seu rosto um risinho maroto de quem sabe e não diz. “Pai, por que as pessoas te olham tanto?” “Você acha, Mariazinha?” “Olham sim, você sabe.” “Sei não” – o riso largo, sacana, já quase uma gargalhada – “não sei porquê me olham na rua”.

E seguimos em silêncio, os passos sincronizados, os meus saltitantes, passeando pelas ruas da cidade. Eu, uma menina de 7 anos, sem acreditar muito na resposta, algum mistério, esse pai cheio de histórias. Logo entendi o que quer dizer no poema o “Haver: resta esse desejo de sentir-se igual a todos, de refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória. Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade, de não querer ser príncipe senão de seu reino.” Papai era um homem sofisticadamente simples.

Décadas depois desse registro de memória afetiva dos poucos momentos em que estivemos juntos, o mantenho, pai e filha, mais ninguém, e assim, como filha, apesar do poeta ser do mundo, o guardo possessivamente dentro de mim. Meu pai. Tivemos pouco tempo, mas tive também, por ser temporã, momentos de um homem já avô, experiente, sábio, sempre gentil e verdadeiro. Ainda assim, nunca perdeu o espanto frente às coisas, esse espanto que os poetas têm, no cultivo de um olhar primeiro, de manter o menino que “achava bonita a palavra escrita, por isso sofria de melancolia, de sonhar o poeta, que quem sabe um dia, poderia ser”, ditos em O Poeta Aprendiz. E é, pai, para sempre, um grande e amado poeta, com um alcance impressionável. Para mim um dos melhores, craque nos sonetos, técnica impecável, sentimentos sublimes, tocando o coração das pessoas facilmente, as alegrando e diminuindo a pressão de se saber, das angústias, das dúvidas, da intensidade dos sentimentos.

Na busca em torno dessa ausência de quem perdeu o pai muito cedo, me sinto privilegiada, pois, afinal, quantos órfãos podem ter um pai tão presente, vivo na memória e nos corações das pessoas? Um pai que se vai e deixa uma obra aonde me aconselho desde então, na busca desse homem, dessa personalidade, do que pensa, do que sente, do que me reconheço, do gosto pela leitura, o amor e respeito à vida, principalmente pela humanidade. Quando é grande a dúvida e a angústia, é em Poética que sossego, afinal, o tempo é quando.

Era um homem, acima de tudo, perfeitamente imperfeito. Não há praticamente um dia que não esteja presente, seja nas canções executadas em todo o mundo, seja na grande referência que se tornou para todos, gente humilde, os acadêmicos, os amantes, estudantes, artistas, jornalistas, as crianças, as pessoas que o citam tanto, na mesma busca dessa filha por um conforto, um entendimento do que é sentir para valer! Como você disse, “quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu .”

Entre tantas ações comemorativas, uma das que mais me dá alegria é a visitação às escolas. É uma lindeza ser recebida com frisson pelos alunos, alguns tão miúdos que é extraordinário perceber que com 5 anos, antes mesmo da alfabetização, que se sintam íntimos do poeta centenário, do compositor que mudou paradigmas em suas letras geniais. Eu me emociono tanto, e acho graça, você é um pop star, e eles te buscam como eu, como tantos, como você sempre buscou com verdade e sem limites a si mesmo. E assim, cultivam o gosto pela poesia e se aventuram na escrita, seus novíssimos leitores, quanta ternura!

Ganhamos todos, que bem a cultura da nossa Pátria Amada, tão pobrinha, você faz. Tenho muito orgulho do branco mais preto do Brasil, um homem a frente de seu tempo, que ganhou o mundo, levando o melhor de nossa brasilidade. Com Orfeu e suas canções teve o reconhecimento internacional e até o imaginário do que o estrangeiro pensa sobre nós, levou Ipanema aos 4 continentes, fazendo as pessoas suspirarem em muitos idiomas e gravações a passagem do tempo.

Sei que olha por nós, e com prazer sei que é uma vitória ver seus filhos – de idades e mães diferentes – tão unidos, responsáveis. Seu maior legado é o AMOR, sem dúvida, esse sentimento poderoso que nós herdamos com intensidade, nem sempre é fácil ser de Moraes. Juntos, trabalhamos incansavelmente para divulgar sua obra, respeitando seus desejos, numa curadoria permanente para manter o alto nível de sua qualidade artística, tentando seguir o tempo e as mudanças, com todo o respeito ao autor. Seus netos são pessoas especiais, sensíveis, e todos nós temos uma certa meninice, comum à família, não envelhecemos por dentro.

Eu me lembro do texto do amigo e poeta Carlos Drummond de Andrade, publicado logo após a sua partida, um diálogo entre Deus e o simpático São Pedro, a perguntar quem era aquele baixinho de violão, copo cheio na mão, será que faria bagunça no coro dos anjos? E São Pedro responde que Vinicius combateu a maldade pela ternura, a injustiça pela fraternidade, que nasceu com a célula poética, desabrochou em canções variadas, encantou o povo e morreu fazendo música para as crianças. Sou uma voz a mais na multidão a cantar: Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver!

Fonte: estadao.com.br

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES, 100 ANOS

No ano do centenário do poetinha seus parceiros falam um pouco sobre aquele que ainda é um dos maiores nomes do cancioneiro nacional

Toquinho (Especial para o Estado)



Quando comecei a trabalhar com Vinicius, em junho de 1970, ele ainda evitava viajar de avião. Então fomos para a Argentina de navio. Eu sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que é que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem eu só conhecia o que ele tinha escrito e cantado por aí.

Sei que na primeira noite no navio eu passei muito mal, no meu quarto, enjoado, com tudo a balançar por todos os lados. E Vinicius sentado a uma escrivaninha, segurando o copo para que ele não caísse, conversando naturalmente, sem se alterar. Ficou lá ao meu lado, como um pai, ou melhor, como alguém com pretensões de se fazer amigo. Nossa relação começou assim, e logo de cara eu passei a vê-lo um pouco como irmão, porque ele não sabia ser velho, o que na realidade ele não era.

Chegamos em Buenos Aires dois dias antes do final da Copa de 1970 e começamos a trabalhar. O Brasil ganhou a Copa, nosso show na boate La Fusa já fazia um grande sucesso e, naquele domingo, abrimos o espetáculo com aquela música: “A taça do mundo é nossa/ Com brasileiro, não há quem possa...”. Então, minha relação de amizade e conhecimento com Vinicius já se iniciou em meio a esse clima positivo da seleção ganhando a Copa, nosso show em pleno sucesso, aqueles jantares invadindo a madrugada.

Houve uma adaptação perfeita entre a gente, porque tudo que Vinicius gostava de fazer eu também gostava: tocar violão, curtir os temas que iam saindo, comer bem, viver a noite ao lado de amigos e mulheres bonitas. Voltei da Argentina com aquela sensação gostosa de ter trabalhado com Vinicius. Ainda não tinha saído nenhuma música nessa primeira viagem. Já no navio eu tinha mostrado a ele um tema que eu estava desenvolvendo. Ele gostou da ideia, ficou curtindo, mas não colocou letra. Isso aconteceria quase dois meses depois. Vinicius estava casado com a baiana Gesse, que arrumou para fazermos três shows no Teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 6, 7 e 8 de setembro.

Durante a viagem de ônibus à Bahia, Vinicius fez a letra para aquele tema. Aí começava efetivamente nossa parceria, com a música Como dizia o poeta.... Lançamos essa música no Teatro Castro Alves, levando desta vez a Marília Medalha para cantar com a gente. Esse show foi um risco, pois era quase uma afronta fazer e mostrar música brasileira numa época em que prevaleciam o tropicalismo, o rock, as guitarras. O show do dia 7 foi dedicado aos estudantes, que responderam com uma ovação memorável!

Animados por esse indício de sucesso, tomados pela Bahia, que já entrava na vida da gente, não precisava nem de muito esforço para as músicas brotarem. Surgiram A bênção, Bahia, Mais um Adeus, mas apesar disso, não imaginava que a parceria fosse tomar o impulso que tomou e chegar até onde chegou. Sentia insegurança, não sabia se ele ia gostar de minhas melodias. Então, ele fez a letra de Tarde em Itapoan e ia dar para o Caymmi musicar. Um poema lindo, perfeito, era a oportunidade de fazer uma melodia que não deixasse nenhuma dúvida quanto à minha capacidade musical. Aí, simplesmente “roubei” a folha de papel da máquina de escrever, vim para São Paulo e, depois de três dias, voltei para Salvador com a canção pronta. Depois de ouvir inúmeras vezes, Vinicius aprovou. Foi aí que ganhei o poeta! Tarde em Itapoan tem uma melodia maravilhosa, parece que Vinicius letrou a música. Então, embalamos de verdade, num intenso processo criativo. Nos dez anos de parceria, criamos mais de 100 canções, gravamos perto de 25 discos e fizemos mais de mil shows aqui e no exterior.

O que Vinicius queria. O que determinou a consolidação rápida e consistente dessa parceria foi o fato de termos nos encontrado no momento mais adequado para um e outro. Eu tinha o que o Vinicius queria: uma pessoa que tivesse disponibilidade para ficar trabalhando com ele, e que tivesse uma linguagem nova. Eu era totalmente disponível e motivado a ficar do lado dele. Contribuiu para isso o grande entrosamento existencial entre nós. Jamais enxerguei Vinicius como um pai de postura paternal e protetora. Mesmo porque ele não agia assim nem com os próprios filhos. A feição de pai surgia por sua grande sabedoria de vida. E, ao mesmo tempo, quando se via diante de um pescador, por exemplo, me falava cheio de emoção: “Não sei absolutamente nada da vida perto de uma pessoa assim.”

É que ele carregava o tempo inteiro o garoto que ele era, o jovem disposto e disponível à vida; que arriscava nas coisas, que chegava tarde para acordar cedo, e acordava cedo; que ficava como um Buda, sentado na capota do carro do Bardotti, em Firenze, dando voltas pela mesma praça, depois de algumas garrafas de vinho no jantar; que bebia até mais tarde sem problemas de ressaca no dia seguinte. Muito mais resistente que eu nesse aspecto. Mas, por mais controvertido que pareça, foi ele quem me ensinou a ser profissional, a cumprir horários, a observar compromissos, a respeitar as pessoas. Isso reflete as contradições desse grande poeta. “O cotidiano é a ferrugem da vida”, ele dizia.

Essa ferrugem o agredia demais, a ponto de, diante do espelho, começar a fazer a barba de um lado do rosto, e, no outro dia, iniciar pelo outro lado. Tudo para ludibriar a ferrugem do dia-a-dia. Odiava esse lado massacrante da vida, mas procurava harmonizar-se com isso tudo. Dizia que a bebida o ajudava a encontrar essa harmonia. Em tudo, ele confirmava o que um dia Drummond disse dele: “O único Poeta que viveu como poeta.” Vinicius nunca soube viver sem poesia.

Na rapidez do cotidiano quase sempre não cabe poesia, mas ela o acompanhava o tempo inteiro. Para ele, tudo era natural. Quantas vezes fiz parte dessa poesia, desde ter de erguer as calças dele, que, de um tanto largas, caíram-lhe em plena Avenida São Luiz, e ele não usava cuecas, e tinha ficado nu da cintura para baixo em pleno centro de São Paulo, depois de uma das muitas noitadas que fizemos. Não dando a mínima, achando-se a verdadeira poesia concreta daquele burburinho urbano. Até ter de enfrentá-lo zangadíssimo numa manhã: acordei, desci para o café, e Vinicius já estava à mesa, fumando, sem levantar os olhos do jornal. Dei bom-dia, tentei conversar, e ele não respondia: “Aconteceu alguma coisa, Vinicius?”, perguntei. Ele olhou-me furioso: “Olha aqui, Toco, se um dia você ousar alguma coisa com minha mulher, eu não te mato, porque é pouco. Sabe o que eu faço? Te amarro numa cadeira, prendo tuas mãos abertas na mesa, vou martelando dedo por dedo. Para você, esse castigo será pior que a morte. Toma cuidado, pois farei isso!” E ele falava ruminando a fúria em cada palavra. É que durante a noite, ele sonhara comigo tentando namorar a Gesse, e vivia aquilo com tanto realismo, sentindo-se traído, como se tudo fosse verdade, pela força da fantasia.

Esse era o Vinicius. Segundo ele, nossa relação era como um casamento sem sexo. O resto tinha tudo, ciúme e inclusive algumas brigas, claro. No fundo, e o mais importante, um grande amigo que a vida escolheu para morrer quase em meus braços. Sentindo-me, de início, um objeto da blasfêmia da vida, eu admitiria depois como um privilégio ter sido o escolhido para vivenciar as últimas horas do poeta.


Fonte: estadao.com.br

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