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sábado, 2 de janeiro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macêdo Junior


OS MAIS IMPORTANTES CONJUNTOS MUSICAIS BRASILEIROS – SECOS E MOLHADOS

Secos e Molhados

Fecho hoje a trilogia do que considero os três grupos, bandas ou conjuntos que mais influenciaram gerações e períodos musicais no Brasil.

Falei até agora d’Os Mutantes, d’Os Novos Baianos e hoje trago aos nossos leitores os “Secos & Molhados”. Ao contrário dos pontos de contato e de vida que tive com as bandas anteriores, com “Os Secos…” não conto nenhuma história individual ou pontos de encontro ou de experiência comum.

Logo que vi a capa do primeiro disco, a sensação que foi um misto de indigestão e a visão da passagem bíblica de João Batista, que teve a cabeça decepada e colocada numa bandeja de prata, entregue a Salomé.

Entre o nojo das cabeças à mesa e a história de João Batista, fiquei mais constrangido com a parte bíblica.

Tempos depois confesso que ficava contemplando a capa, descobrindo seus detalhes, buscando mais sangue do que o que ali havia. Só me aquietei quando a Folha de São Paulo informou que, de acordo com pesquisa, aquela era a mais expressiva capa de discos brasileiros em todos os tempos. Ufa, pensei que só eu era doido!

Ainda não entrei na parte musical, que é a mais importante diferença dos ‘Secos’ para os demais grupos de então, porque, de fato, eles se fizeram diferenciar logo imediatamente pelas roupas extravagantes, trejeitos, androginia, alegria e libertinagem que os aproximavam de outro grupo, este teatral, “Dzi Croquettes” que começava a remexer as estruturas com atitudes e comportamentos de ruptura, neste caso em performances musicais e cênicas.

Também não ficaram de fora as comparações como as feitas com o grupo ‘Alice Cooper’, e depois Vicente Furnier, que abocanhou o nome do grupo para si, chamando-se ele próprio Alice Cooper.

A primeira formação do grupo consistia em João Ricardo (vocais, violão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gerson Conrad (vocais e violão).

João havia criado a banda sozinho em 1970, até juntar-se com as outras formações nos anos seguintes ao primeiro grupo.


Flores Astrais



Os Secos & Molhados começaram a fazer apresentações, acrescidas de figurino e maquiagem extravagantes, que lhe deram imensa notoriedade.

Mas isso era pouco, ao lado dessas estranhezas para o público careta da ocasião, iniciaram a apresentação de um repertório de canções como “O Vira”, “Sangue Latino”, “Assim Assado”, “Rosa de Hiroshima” que misturavam danças e canções do folclore português, como o Vira, a críticas à ditadura militar. Apresentavam a poesia de Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário, pai de João Ricardo, mesclando com um rock pesado inédito do país, o que fez com que se tornassem um dos maiores fenômenos musicais do Brasil da época e um dos mais aclamados pela crítica em todos os tempos.

O álbum de estreia, de 1973, projetou o grupo no cenário nacional, vendendo mais de 700 mil cópias no país.

Desentendimentos financeiros fizeram a formação inicial se desintegrar em 1974, ano da gravação dos “Secos & Molhados II”. João Ricardo seguiu com a marca da banda.

O grupo está inscrito numa categoria privilegiada entre as bandas e músicos que levaram o Brasil da Bossa Nova à Tropicália e então para o rock brasileiro. Estilo que só floresceu com mais expressão nos anos 80.

Os dois primeiros álbuns de estreia incorporaram elementos novos à MPB, que vai da poesia o glam rock ao rock progressivo, servindo com referência fundamental para uma geração de bandas underground que não aceitavam a MPB como expressão.

Em 2007, o grupo continuou ganhando a atenção das novas gerações. A revista Rolling Stone Brasil posicionou o primeiro LP, como o 5º lugar na sua lista dos 100 Maiores discos da Música Brasileira.

Em 2008, ficou na posição 97 no “Los 250: Essential Albuns of All Time Latin Alternative – Rock Iberoamericano”.

O sucesso do grupo atraiu a atenção da mídia, que abriu várias participações na televisão. As mais relevantes foram os especiais do programa Fantástico, da TV Globo. Sempre apareciam com maquiagens inusitadas, roupas diferentes, sendo uma das primeiras e poucas bandas brasileiras a aderir ao glam rock (glamour no rock).

Em fevereiro de 1974, fizeram um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os recordes de público, jamais visto no Brasil – enquanto o estádio comportava 30 mil pessoas, outra 90 mil ficaram do lado de fora.



Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes, João Apolinário e Gerson Conrad.




Ainda em 1974, o grupo sai em turnê internacional, que, segundo Ney Matogrosso gerou oportunidades de criar carreira internacional solo e sólida. No mesmo ano, é lançado o segundo disco de estúdio da banda, que tinha em destaque “Flores Astrais”, único hit do disco. O lançamento foi pouco antes do fim da formação clássica da banda.

Após o fim dos “Secos & Molhados”, os três membros seguiram carreira solo. Ney lançou, em 1975, o disco “Água do Céu-Pássaro” (recheado de experimentalismos musicais) e com o sucesso “América do Sul”. João Ricardo lançou, também em 1975, disco homônimo, mais conhecido como Pink Record. Gerson Conrad juntou-se a Zezé Motta e lançou um disco no mesmo ano.

João Ricardo adquiriu os direitos autorais sobre o nome “Secos & Molhados” e saiu à procura de novos músicos para formar novos grupos…

Semana que vem, tem mais.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

DISCO DE ESTREIA DE OITO ARTISTAS DA MPB CHEGAM AOS 40 ANOS MANTENDO RELEVÂNCIA

Por Silvio Essinger


RIO - Houve quem virasse mito popular e quem sofresse com a pecha de maldito. Quem construísse frutífera carreira e quem tivesse que se contentar com uma discografia esparsa. Quem resistisse neste planeta e quem se fosse precocemente. Em comum: a criatividade irrefreável e o fato de terem lançado seus LPs de estreia em 1973. “Krig-ha, bandolo!” (Raul Seixas), “Secos e Molhados”, “Pérola Negra” (Luiz Melodia), “Manera fru fru, manera” (Fagner), “Eu quero é botar meu bloco na rua” (Sérgio Sampaio), “Ou não” (Walter Franco), “João Bosco” e “Luiz Gonzaga Jr.” chegam aos 40 em 2013 com uma cara de menos de 20. Diferentes em suas propostas, mas sempre questionando as fronteiras da música popular brasileira, esses discos seguem influenciando novas levas de músicos e suscitando a pergunta: afinal, como é que tanta gente boa apareceu assim, ao mesmo tempo?

— Havia um espírito libertário, uma necessidade de se expressar numa época em que nada era permitido. E a música tinha o poder de forçar os limites — explica Ney Matogrosso, então cantor dos Secos & Molhados, grupo que começou no undergound paulistano, vendeu 900 mil cópias de seu LP de estreia, pôs 25 mil pessoas no Maracanãzinho em fevereiro de 1974 e, pouco depois, encerrou sua era dourada com uma cisão motivada por disputas entre os integrantes.

— A gente via que ia chegar alguma coisa — conta o produtor Roberto Menescal, que em 1973 era diretor artístico da Phonogram/Philips e acabou cuidando pessoalmente dos talentos que a gravadora pescou para lançar em LP: Raul, Melodia, Fagner e Sérgio Sampaio. — Já tinham se passado movimentos como a bossa nova, a Jovem Guarda e a tropicália. E depois, sempre vêm aquelas pessoas que não se enquadram, mas que estão na onda de renovação. Eles vêm soltos, solitários, mas fortes.

Nem tão solitários assim. O baiano Raul e o capixaba Sérgio já tinham participado juntos, em 1971, do excêntrico LP “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez” e se destacaram, no ano seguinte, concorrendo em festivais com as músicas “Eu quero é botar meu bloco na rua” (Sérgio), “Let me sing, let me sing” e “Eu sou eu, Nicuri é o diabo” (ambas de Raul). Menescal estava de olho nos dois e os contratou para a Philips.

Sérgio foi o primeiro a estourar, com o compacto do “Bloco”, que vendeu 500 mil cópias. Seu LP, produzido por Raul, não chegou a ser um grande sucesso, mas deixou clássicos, entre o samba e o rock, como “Cala a boca, Zebedeu” e “Viajei de trem” (o disco deve ganhar um relançamento, remasterizado, da Universal Music, no segundo semestre). O LP do baiano, por sua vez, seguiu um caminho mais lento e acabou se tornando um dos discos mais conhecidos da música brasileira, com “Mosca na sopa”, “Metamorfose ambulante”, “Ouro de tolo” — sucessos de um artista que virou uma religião. Raul morreria em 1989 e Sérgio, em 1994.

A bordo das vozes de Gal Costa (“Pérola Negra”) e Elis Regina (“Mucuripe”) chegaram também à Philips, respectivamente, um carioca do Morro de São Carlos (Melodia) e um cearense de Orós (Fagner).

— Eu estava na hora certa, no lugar certo, com as pessoas certas — diz Melodia, atração do Teatro Net Rio nas próximas segunda e terça-feira, e artista cujas canções tinham chamado a atenção de nomes da intelectualidade como o jornalista Torquato Neto, o artista plástico Hélio Oiticica e o poeta Waly Salomão (que dirigia o show “Gal a todo vapor”).

— A gravadora queria que eu fosse bem lançado. E deixaram que eu fizesse o disco da minha maneira — revela Fagner, que teve Ivan Lins e Luiz Cláudio Ramos nos arranjos de “Manera fru, fru, manera”, disco que uniu rock, gêneros nordestinos e até um tanto de seresta, e que voltará às lojas este ano, em edição de luxo, remasterizada, incluindo a faixa “Canteiros”, que tinha sido banida de edições posteriores por questões com os herdeiros da poeta Cecília Meireles.

Se Raul Seixas era a mosca na sopa, o paulistano Walter Franco radicalizou, pondo uma mosca na capa de “Ou não”, exercício de vanguarda acústico que incluiu sua canção premiada em festival (a colagem de vozes “Cabeça”). O LP vendeu pouco, mas ganhou admiradores como Caetano e Arnaldo Antunes. Preparando-se para “botar o bloco na rua” em 2013, recuperado de um acidente vascular cerebral acontecido há poucos meses, Walter diz que hoje a censura estética talvez não permitisse que um artista estreasse com um disco como aquele:

— Ela é tão perigosa quanto aquela censura contra a qual nos colocamos na época. Ela age de maneira inconsciente.

Integrante da ala um pouco mais tradicional da MPB (como Gonzaguinha, que iniciou em 1973 uma série de LPs só interrompida por sua morte, em 1991), João Bosco também teve sua dose de vanguarda na estreia: o tropicalista Rogério Duprat (que, por sinal, produziu “Ou não”) dividiu os arranjos com o pianista Luís Eça.

— É um disco que parece ter dois lados, o das músicas com o Luizinho e as com o Duprat — conta João, que faz de quinta a sábado, no Teatro Rival, seu show de 40 anos de carreira.

Para a jornalista Ana Maria Bahiana, que acompanhou toda a movimentação de 1973, aquela era uma turma crescida sob a influência da MPB dos festivais e do rock, que tinha ganhado da Tropicália uma espécie de “licença para matar”.

— O que os unia era o desejo de fazer algo nos incrivelmente reprimidos, controlados, censurados anos 1970.

— Naquela época, era só deixar a porta aberta que os talentos chegavam — diz, saudoso, André Midani, então presidente da Phonogram, que pegou os grandes sucessos da leva, menos os Secos e Molhados. — Fiquei contrariadíssimo!

— Mandamos a nossa fita para todas as gravadoras — assegura Ney Matogrosso. — A Continental só nos contratou porque o (produtor da banda) Moracy do Val disse: se vocês não os contratarem, outra gravadora vai fazê-lo!

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