Adelino Moreira, nascido em Portugal (na cidade de Gondomar), mas desde os cinco anos no Brasil, conheceria Nelson quando já estava com 32 anos, passara por uma carreira de cantor sem maior relevância e guardava dezenas de composições inéditas na gaveta. Para se sustentar trabalhava na joalheria do pai. Nelson Gonçalves já era famoso quando, em 1952, gravou o samba-canção Última Seresta, a primeira música assinada por Adelino Moreira com um parceiro, Sebastião Santana, jornalista que intermediou o encontro entre Nelson e Adelino (possivelmente, ganhou a parceria por conta disso).
Em pouco tempo, Adelino deixaria de trabalhar com o pai. Quando passou a ser fornecedor de canções para Nelson Gonçalves, poucos astros da música brasileira venderam tantos discos. Na soma geral, ao longo da carreira, 81 milhões de cópias, até os anos 90. Nelson só perdia para Roberto Carlos, que já passou dos 120 milhões. Numa época em que autor dividia composição com intérprete famoso, Adelino não abria a parceria. Nelson assina pouquíssimas músicas com ele. Nos grandes sucessos da dupla, Adelino faturou o suficiente para comprar uma vistosa mansão com piscina em Campo Grande, carrões, e fazer investimentos. No final dos anos 50 e início dos 60, Adelino Moreira foi o compositor que mais faturou com direitos autorais no país. Não apenas com Nelson Gonçalves. Compôs para Ângela Maria, Núbia Lafayette e o clone de Nelson, o capixaba Carlos Nobre.
DESENCONTROS
O compositor aplicava o que ganhava e o cantor gastava. Já no início da carreira exagerava na bebida. Elvira, a primeira mulher, o largou pelos maus tratos que recebia do marido notívago e namorador. Com a cantora Lourdinha Bittencourt teve um relacionamento longo e problemático. Ela aguentou o quanto foi possível. Não estava mais com o cantor no seu pior momento: o 8 de maio de 1966. Na edição de 11 de maio daquele ano, O Globo estampava na primeira página uma foto do cantor, visivelmente abatido, e o título: “Nelson Gonçalves Preso Por Tráfico de Cocaína”. Nelson disse comprara a droga para uso próprio. Revelou que era viciado desde 1949. Mas não traficava. Nessa época, sua carreira naufragava. Tinha mais amizades entre traficantes do que no mundo artístico. A polícia não chegou para prender um ídolo popular e, sim, um fora da lei. Foi um escarcéu.
A casa cercada pela polícia, a porta arrombada, o delegado bateu na cara de Nelson e o algemou, na frente da mulher, Maria Luiza (empregada doméstica com quem se casou em 1962), e dos filhos. Foi autuado por tráfico. Uma balança de precisão encontrada em sua casa era uma das provas, reforçada por 200 gramas de cocaína que um dos seus fornecedores acabara de trazer.
No dia 20 de maio uma multidão acorreu ao presídio onde o cantor estava preso. Ele seria libertado naquele dia. Saiu pela porta dos fundos, driblando os fãs. Dois dias mais tarde internou-se numa clínica de recuperação para dependentes químicos, no bairro da Liberdade. Mas não se libertou logo das drogas (além de coca, consumia comprimidos, na época chamados de “bolinha”). Somente no início da década seguinte, Nelson Gonçalves livrou-se dos vícios. Porém teria que começar do zero. Imóveis, carros, lojas de eletrodomésticos, contas bancárias, tudo ele torrou com farras e drogas.
NO RECIFE
A capital pernambucana ocupou um lugar de destaque na carreira de Nelson Gonçalves. Entre 1944 a 1947, ele lançou 11 frevos de autores do Recife: Capiba, Sebastião Lopes, Irmãos Valença, Nelson Ferreira e Zumba. Gravações exclusivas para o Carnaval de Pernambuco, encomenda de lojistas locais, que foram tocadas na Rádio Clube, a única do Recife na época. Em 1945, ele emplacaria nas paradas com Maria Bethânia, samba-canção de Capiba.
A partir da década seguinte, apresentou-se com mais frequência na cidade, que, além dos programas de auditório nas emissoras de rádio, tinha boates chiques, feito a do Restaurante Leite, onde ele cantou, em dezembro de 1950, com a mulher Lourdinha Bittencourt. Quando retomava a carreira, no começo dos anos 70, o cantor ganhou um alentador impulso dado pelo empresário Pinga, com quem fez a primeira turnê, indo do Espírito Santo à Bahia. Num período de oito anos, segundo o biógrafo de Nelson Gonçalves, o historiador Marco Aurélio Bezerra, Pinga promoveu 78 apresentações do cantor, país afora.
Assim como Cauby Peixoto, Ângela Maria e o próprio Agnaldo Timóteo, somente no final da carreira Nelson Gonçalves foi reconhecido pelo público dito classe A. Nos anos 90, a Raio Lazer levou-o ao Teatro Guararapes, pela primeira vez. Nelson era cantor de clubes sociais, de churrascarias ou de show abertos ao público. No Guararapes foram dois dias de casa lotada.
Por coincidência, o disco que fechou a longa discografia de estúdio do cantor teve um produtor pernambucano, Robertinho do Recife, que conta que só teve problemas com Nelson Gonçalves, que não queria cantar Bem Que Se Quis (versão de Nelson Motta, para E Po’ Che Fa, de Pino Daniele). Machão assumido, Nelson se invocou com os versos: “Agora vem pra perto vem/vem depressa vem sem fim/ dentro de mim/que eu quero sentir o teu corpo pesando/sobre o meu”. “Mas como, Roberto, dentro de mim? Teu corpo pesando sobre o meu? Eu cantar isso?”. Acabou sendo convencido a gravar a música, uma das faixas de Ainda É Cedo, lançado em 1997 pela BMG (que assumiu a RCA).
Nelson Gonçalves morreu às 20h45m, de 18 de abril de 1998, de um fulminante infarto do miocárdio, a dois meses de completar 79 anos.
DISCOS
Um centenário com menos celebrações e homenagens do que Nelson Gonçalves merecia. A mais importante de todas foi o anúncio, pela Sony Music, da liberação nas plataformas de streaming (desde sexta, dia do centenário) de parte da discografia do cantor. Trinta e cinco álbuns voltam ao catálogo, por enquanto no formato digital. O cantor ganha dos Correios um selo oficial alusivo à data.
Desde 4 de janeiro de 2019, está nos palcos o musical Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo, dirigido e coreografado por Tania Nardini. A cantora pernambucana Cristina Amaral, com aval de Margareth Gonçalves, filha de Nelson, montou o espetáculo Uma Saudade Chamada Nelson Gonçalves. Cristina é dirigida por Carlos Pacheco, com roteiro de Saulo Aleixo e direção musical e arranjos de Jefferson Cupertino e Thiago Albuquerque. No dia 18 de abril, dia da morte do cantor, o show teve imagens captadas para um DVD.
Nelson Gonçalves, que teria feito 100 anos neste dia 21 de junho de 2019, por pouco não nasceu no Uruguai. Seu Manoel Gonçalves e dona Libânia de Jesus, portugueses, ganhavam a vida como cantores ambulantes, com um repertório de canções populares portuguesas. Naquela noite de 21 de junho chegaram a Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai. A intenção era ganhar algum dinheiro cantando na feira na fronteiriça Rivera, no país vizinho. Mas Dona Libânia sentiu as dores do parto e interromperam a viagem.
Naquele dia nasceu Antônio Gonçalves Sobral, um dos mais bem sucedidos nomes da música popular brasileira, recordista em vendas de disco, com uma trajetória atribulada, de bons e maus momentos. Muitas passagens na biografia de Nelson Gonçalves são controversas, incluindo o dia em que nasceu. No registro está como 25 de junho. Mas Nelson sempre disse que nascera no dia 21 (às vezes no dia 19). Provavelmente foi registrado dias depois do nascimento. No documento não consta o “Sobral”. Apenas Antonio Gonçalves.
Nada a estranhar. Seu Manuel chegou ao Brasil em 1902, e Dona Libânia em 1911. A obrigatoriedade de imigrantes se registraram na Delegacia Especial de Estrangeiros só foi instituída em 1938, durante o Estado Novo. Ainda assim, o casal só regularizou sua situação em 1942. Não sem ter certeza se o pai do cantor se chamava Manuel ou Manoel.
Um bom exemplo do difuso limite entre realidade e ficção na biografia de Nelson Gonçalves está num episódio acontecido na Lapa, bairro boêmio que costumava frequentar. O cantor se encontrava no balcão de um botequim diante de um traçado (mistura de vermute, ou conhaque, com cachaça) quando um sujeito deulhe um esbarrão e derramou a bebida. Nelson virou-se e acertou um jab no queixo do desastrado, pondo-o a nocaute.
Os fregueses apressaram-se em lhe revelar em quem ele batera: Miguelzinho Camisa Preta, malandro temido na Lapa. Porém, nunca existiu um Miguelzinho Camisa Preta. Miguelzinho foi, sim, um capoeirista. Houve um Camisa Preta que com a navalha na mão era um perigo. Mas morreu em 1912.
Aos cinco anos Antônio já cantava nas feiras com o pai e a mãe. Cantou até os nove, quando seu Manoel, decidiu deixar a música, e se estabelecer com emprego fixo em São Paulo. O filho foi jornaleiro, engraxate, trabalhou numa tamancaria carregando toros de madeira (com QUE se faziam os tamancos). Aos 14 anos, o pai conseguiu-lhe emprego na fábrica de metais Wolf. Antonio, no entanto, queria ser cantor. Embora tenha tentado por pouco tempo ser boxeador.
Em 1939, já casado, chegou a ser contratado pela rádio PRA-5, da capital paulista. Foi dispensado, e contratado pela Rádio Cruzeiro do Sul. O irmão mais velho, Quincas tornou-se profissional do rádio antes de Antonio, mas nunca escapou da sombra do irmão, quando este entrou no mundo da música como Nelson Gonçalves. Dispensado pela Cruzeiro do Sul por exigir aumento no salário, Nelson foi para o Rio, onde penaria durante três anos.
Fez amizades na boemia, mas demorou a agradar aos que comandavam o rádio carioca. Passou por pensões baratas no Catete e na Lapa, dormiu em bancos de praça, mas acabou sendo contratado pela Mayrink Veiga, grande emissora de então, onde estreou em 28 de agosto de 1941. Estreou em disco no mesmo ano, com um 78 rotações que trazia no lado A Se Eu Pudesse Um Dia (Osvaldo França/Orlando Monello) e, no B, Sinto-me Bem (Ataulfo Alves). O sucesso viria com Renúncia (Roberto Martins/Mário Rossi), lado B do bolachão com o samba Isso Aqui Tem Dono (Benedito Lacerda/Darci de Oliveira). Muita gente achou que se tratava de Orlando Silva. Soava realmente parecido para quem não sabia das sutilezas das interpretações do “Cantor das Multidões. Que fazia malabarismos harmônicos, brincava com o andamento das canções, feito João Gilberto anos mais tarde. Curiosamente o baiano João, em tempos quando se deixava ser entrevistado, revelou que sua maior influência foi Nelson Gonçalves:
“Eu era um menino ainda, lá em Juazeiro – pequena cidade do interior baiano onde nasci – tinha a cabeça povoada de sonhos, o coração repleto de esperanças, quando ouvi falar em Nelson Gonçalves. Desde o primeiro momento em que seu nome ficou gravado no meu cérebro procurei ouvi-lo... Ouvi-o e, a partir daquele instante, incorporei-me à legião do criador de Boemia. Confesso que, na minha inocência de garoto pobre, desejei ardentemente ser um Nelson Gonçalves quando crescesse” (à Revista do Rádio, em 1960). Talvez por isso, Nelson Gonçalves poupasse João Gilberto quando falava mal da bossa nova.
"Rei do Rádio", o cantor cujo centenário se completa nesta sexta-feira segue vivo na memória dos fãs e em projetos de outros músicos
Por Cristiano Bastos
O intérprete de "A Volta do Boêmio" em foto de 1988Dulce Helfer / Agencia RBS
Jornalista, autor de “Júpiter Maçã: a Efervescente Vida & Obra” e de uma biografia ainda inédita de Nelson Gonçalves, que tem previsão de publicação para este ano de 2019
Em confessional entrevista para os jornalistas Juarez Fonseca e Jussara Silva na edição da Revista ZH de 27 de março de 1977, o cantor Nelson Gonçalves afirmava: “Minha vida daria um romance”. Nascido em 21 de junho de 1919, em Santana do Livramento, a vida de Antônio Gonçalves (seu nome de batismo) na verdade rendeu um denso romance – farto em aventuras, desventuras, tragédias e, sobretudo, incontáveis sucessos. Seu impávido coração foi parado por um fulminante ataque cardíaco, em 18 de abril de 1998.
A permanência dos Gonçalves na fronteiriça Livramento durou poucos anos. Logo os pais, andarilhos, imigrantes portugueses de Vizeu, conseguiram juntar dinheiro para comprar um imóvel no bairro paulista do Brás. Foi lá que Nelson, ainda criança, soltou as primeiras notas de seu famoso ré-gravíssimo e ganhou o apelido, que muito lhe irritava, de “Carusinho do Brás”. Muitos outros apelidos viriam. Entre os mais famosos, “Metralha” (por causa da fala rápida e entrecortada) e “Rei do Rádio”, que, na realidade, aludia a sua consagração como maior cantor do Brasil, um título que amealhou inúmeras vezes nos anos 1950.
A discografia do Metralha assombra. De acordo com os cálculos do próprio cantor, da gravação de estreia – a valsaSe Eu Pudesse um Dia (outubro de 1941) – ao derradeiro CD Ainda É Cedo (uma compilação de versões de música pop dos anos 1980) são mais de 2 mil registros fonográficos. No Brasil, em vendagem, Nelson, até hoje, só fica atrás de Roberto Carlos. Um cancioneiro sulcado em 183 discos de 78 rotações, cem compactos, 200 fitas K-7 e 127 long-plays. Só o registro de A Volta do Boêmio vendeu 2 milhões de cópias.
Nelson gravou de tudo: sambas-canções, marchinhas de Carnaval, foxes, tangos, boleros, valsas, serestas, jazz, bossa nova, pop. Interpretou Wilson Batista, Herivelto Martins, Mario Lago, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Silvio Caldas, Cartola, Cole Porter e uma infinidade de outros compositores. Só com Adelino Moreira foram mais de 300 gravações.
Ele cativou muitos corações, porém, jamais foi santo. Antes de revelar-se cantor de sucesso, o Metralha andou perigosamente no meio da malandragem na Lapa. Por lá, fez lenda e história. Uma das contendas aconteceu por causa de uma tola desavença que acabou comprando com o temido bandido Miguelzinho Camisa Preta, no qual teria batido. Boxeur na juventude, Nelson acertou-lhe um jab de direita que levou o malandro carioca a nocaute. Arrependido da fria em que se metera, Nelson acabou acudido pelo lendário Madame Satã, que o levou a Miguelzinho, o qual o teria perdoado por ter sido “justo” na briga.
O episódio deu reputação a Nelson no submundo carioca. Sem ter ainda como sobreviver no Rio, ele foi, em suas palavras, ser “cafetão na zona”. Contou: “Na Lapa eu era leão de camisa de seda, lenço no pescoço, navalha no bolso e chinelo ‘charlão’. Elas (as prostitutas) pagavam 15 mil réis de pedágio por semana. Era com esse dinheiro que eu virava o mês”.
Mas seriam muitos anos depois, 1966, que Nelson atravessaria o período mais infernal de sua vida, enfrentando um pesado vício em cocaína. E, ainda por cima, tendo sua vida pessoal escrutinada – como nunca se vira antes – pela imprensa brasileira. Em 5 de maio de 1966, Nelson foi preso sob a acusação de tráfico e, assim, entrava para a história do show business nacional como o primeiro grande artista a ir para atrás das grades em razão de seu vício. O desenrolar foi dramático: “É mais fácil sustentar 10 crianças a um vício”, comparou. Em uma de suas declarações chegou a afirmar: “Cheirei mais de 50 quilos”. Dois meses depois, Nelson, que ficara preso na Casa de Detenção de São Paulo, foi absolvido. Sua recuperação, por sua vez, seria tão espetacular quanto sua queda.
Nelson Gonçalves achava o Brasil um país sem memória. Temia ser esquecido depois que morresse. Seu cancioneiro, porém, sempre estará no imaginário popular. E grandes artistas continuam reverenciando-o. Um exemplo é João de Almeida Neto, que gravou um disco inteiro cantando as músicas do Metralha e ainda montou um lindo espetáculo com suas canções. Mas o regalo mais marcante desse centenário de Nelson Gonçalves, sem dúvida, são os 35 álbuns do cantor – remasterizados a partir dos tapes originais – que a gravadora Sony Music (possuidora dos fonogramas da velha RCA) disponibilizou nas plataformas de streaming. Nelson continua o Último dos Moicanos, mas agora reabilitado para o futuro.
Pernambucana também se prepara para show que vai resgatar o legado do Rei do Rádio
Como quem faz um convite para degustar um vinho antigo, Cristina Amaral quer que o público aprecie a obra do cantor Nelson Gonçalves. Com o fim do período carnavalesco, a cantora lançou o clipe de Naquela mesa, regravação de um dos maiores sucessos do artista, considerado o Rei do Rádio.
A homenagem é uma comemoração do centenário de Nelson, nascido em 21 de junho de 1919. Disponível no YouTube, o vídeo também foi o ponto de partida para o show Uma saudade chamada Nelson Gonçalves, que teve estreia em 18 de abril, com objetivo de resgatar a memória e o legado de um dos grandes cancioneiros românticos do Brasil.
Com direção e roteiro de Mayra Laet, o clipe mostra a pernambucana de Sertânia vestida de terno, cantando em um microfone vintage num cenário desalumiado, em alguns momentos diante de um copo de uísque. São aspectos que resgatam as características boêmias que o cantor gaúcho sempre pregou na sua carreira, tendo A volta do boêmio, Devolvi e Argumento como alguns dos inúmeros sucessos - ele é o segundo maior vendedor de discos da história do país, atrás apenas de Roberto Carlos. A montagem cinematográfica do clipe foi de Fred Alves, enquanto a pós-produção ficou por conta da Eximius Filmes, localizada em Amsterdã, capital da Holanda.
"Eu vim de uma família de músicos que sempre cantavam muito Nelson Gonçalves. Eles realizavam serestas com faixas de vários cantores, mas o Nelson sempre foi o que me chamou mais atenção, talvez pelo tom de sua voz", conta Cristina, em entrevista ao Viver. Agora, é justamente o tom grave do cantor que configura o maior desafio do projeto, mas Amaral encara com felicidade. "Já cantava algumas músicas dele. É engraçado, porque eu sempre me pego cantando em casa, quando estou fazendo uma coisa ou outra. É como se estivesse predestinado que um dia eu faria essa homenagem".
Proféticas foram às palavras do Nelson Gonçalves quando ele falou a citação postada ontem por mim:
"Este país não tem memória.Alguém sabe quando morreu Chico Alves?É por isso que quero ser cremado:pra ninguém fazer xixi na minha campa" (Nelson Gonçalves)
Esperei até hoje para poder comentar o total descaso pela partida há 10 anos de um dos maiores nomes de nossa música popular brasileira. Nelson foi sem dúvida alguma, um dos maiores intérpretes de sua geração. Juntamente com Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Gilberto Alves fazia da música brasileira da primeira metade do século XX um tipo de música que tinha por características principais grandes cantores, de voz possante, e que por muitos anos foram a alegria do povo brasileiro. Queria ir até mais longe e dizer que talvez Nelson faça parte de uma geração musical que dificilmente irá se repetir em nosso país até por conta das circunstâncias das quais ela surgiu. Em uma época em que o que valia na verdade era o potencial vocal, Nelson em minha modesta opinião, poderia ser enquadrado entre as maiores vozes musicais de todos os tempos de nossa música e quiçá até mundial. Frank Sinatra, considerado por muitos como um dos maiores nomes da música mundial, considerava Nelson como um dos maiores cantores que ele já ouvira atuar.
Não posso deixar de citar o trabalho do cineasta Elizeu Ewald que em 2001 levou aos cinemas de todo país um história (muito embora superficial) do Nelson.
Fica aqui registrada a minha indignação quanto ao total esquecimento no aniversário de morte do Nelson. Talvez se fosse um dos integrantes do BBB houvesse uma atenção maior da mídia. E assim caminha a futilidade, ou melhor; a humanidade.
É por isso que quero ser cremado:pra ninguém fazer xixi na minha campa"
(Nelson Gonçalves)
Antônio Gonçalves Sobral, mais conhecido como Nélson Gonçalves, (Santana do Livramento, 21 de junho de 1919 — Rio de Janeiro, 18 de abril de 1998) foi um cantor brasileiro. Segundo maior vendedor de discos da história do Brasil, com 65 milhões de unidades, fica atrás apenas de Roberto Carlos, com oitenta milhões. Seu maior sucesso foi a canção A volta do boêmio.
Nascido no Rio Grande do Sul, mudou-se com os seus pais portugueses São Paulo, no Brás. Quando criança, era levado, para praças e feiras pelo seu pai, que fazendo-se de cego, tocava violino, enquanto ele cantava.
Foi jornaleiro, mecânico, engraxate, polidor e tamanqueiro. Foi também lutador de boxe na categoria peso-médio, recebendo aos dezesseis anos o título de campeão paulista.
Mesmo com o apelido de "Metralha", por causa da gagueira, decidiu ser cantor. Em uma de suas primeiras bandas, teve como baterista Joaquim Silva Torres. Foi reprovado duas vezes no programa de calouros de Aurélio Campos. Finalmente foi admitido na rádio PRA-5, mas dispensado logo depois.
Nesta época, casou-se com Elvira Molla e com ela teve dois filhos. Sem emprego, trabalhou como garçom, no bar do seu irmão, na avenida São João.
Seguiu para o Rio de Janeiro em 1939, onde trilhou mais uma vez o caminho dos programas de calouros. Foi reprovado novamente na maioria deles, inclusive no de Ary Barroso, que o aconselhou a desistir. Finalmente, em 1941, conseguiu gravar um disco de 78 rotações, que foi bem recebido pelo público. Passou a crooner do Cassino Copacabana (do Hotel Copacabana Palace) e assinou contrato com a Rádio Mayrink Veiga, iniciando uma carreira de ídolo do rádio nas décadas de 40 e 50, da escola dos grandes, discípulo de Orlando Silva e Francisco Alves.
Alguns de seus grandes sucessos dos anos 40 foram Maria Bethânia (Capiba), Normalista (Bene
dito Lacerda / Davi Nasser), Caminhemos (Herivelto Martins), Renúncia (Roberto Martins / Mário Rossi) e muitos outros. Maiores ainda foram os êxitos na década de 50, que incluem Última Seresta (Adelino Moreira / Sebastião Santana), Meu Vício É Você e a emblemática A Volta do Boêmio (ambas de Adelino Moreira).
Na década de 50, além de shows em todo o Brasil, chegou a se apresentar em paises como Uruguai, Argentina e Estados Unidos, no Radio City Music Hall.
Em 1952, casou-se com Lourdinha Bittencourt, substituta de Dalva de Oliveira no Trio de Ouro. O casamento durou até 1959.
Em 1965, casa-se de novo, COM Maria Luiza da Silva Ramos, com quem teve dois filhos, Ricardo da Silva Ramos Gonçalves e Maria das Graças da Silva Ramos Gonçalves. A caçula tem seu apelido no refrão da música Até 2001. (É no gogo gugu).
No entanto, o seu envolvimento com a cocaína, em 1958, tendo, inclusive, sido preso em flagrante em 1965 e passado um mês na Casa de Detenção, o que lhe trouxe problemas pessoais e profissionais. Superada a crise, lançou o disco A Volta do Boêmio nº1, um grande sucesso.
Após abandonar o vício com o apoio de sua mulher, retomou uma carreira bem sucedida.
Continuou gravando regularmente nos anos 70, 80 e 90, reafirmado a posição entre os recordistas nacionais de vendas de discos. Além dos eternos antigos sucessos, Nelson Gonçalves sempre se manteve atento a novos compositores, e chegou a gravar canções de Ângela Rô Rô (Simples Carinho), Kid Abelha (Nada por Mim), Legião Urbana (Ainda É Cedo) e Lulu Santos (Como uma Onda).
Ganhador de um prêmio Nipper da RCA, dado aos que permanecem muito tempo na gravadora, sendo somente Elvis Presley outro agraciado. Durante sua carreira, gravou mais de duas mil canções, 183 discos em 78 rpm, 128 álbuns, vendeu cerca de 78 milhões de discos, ganhou 38 discos de ouro e 20 de platina.[1]
Morreu de parada cardíaca no apartamento de sua filha Margareth, no Rio de Janeiro.
Nélson Gonçalves bem que poderia ter nascido no Velho Oeste. Ele fazia o estilo sujeito 'durão'. Pode levar no duplo sentido mesmo! Baixo-cantante, como gostava de ressaltar, não é que o gaúcho criado em São Paulo sacou a cartucheira depois de bater um longo papo diante da fotógrafa e deste humilde repórter. Já tinha escutado de coleguinhas que o cantor de A Volta do Boêmio tinha o hábito de se vangloriar do tamanho de sua 'pistola' e não raro mostrava a... prótese peniana. Embecado, de terno azul-marinho e cabelo gomalinado, Nélson não só fez a lenda se tornar realidade como deu a medida exata do que ele definiu como Cartucheira 44.
Era outubro de 1997. Nélson concedia o que seria a sua última coletiva em um bar chique de São Conrado, no Rio. Ele faleceu meses depois. Os jornalistas entravam de dois em dois para conversar com Nélson e fiz a entrevista com o xará Rodrigo Faour (que depois lançou a biografia de Cauby Peixoto). Com a voz enfraquecida devido a uma isquemia no miocárdio, o cantor lançava o derradeiro Nélson Gonçalves ? Ainda é Cedo. O CD é composto por músicas de roqueiros da década de 80. Cazuza, Renato Russo, Herbert Vianna, Lulu Santos...
A entrevista foi divertida. Durou 30min e foi regada a água e café. O neto de Nélson permaneceu ao seu lado durante quase todo o tempo. O final da entrevista foi surpreendente, com ele declamando duas poesias, que tenho até hoje no acervo de fitas cassetes com dezenas de entrevistas gravadas e que serão transcritas nesta série No Fundo do Baú. Foi engraçado quando Nélson ouviu o nome de João Gilberto. Ficou agitado, parecia realmente nervoso e chamou o ídolo do Caetano de "Diminuto" e "Fim de noite". Inesquecível.
O ÚLTIMO DOS MOICANOS
Entrevista Nélson Gonçalves
Por Rodrigo Teixeira
RODRIGO TEIXEIRA ? QUAL FOI O CRITÉRIO DE SELEÇÃO DAS MÚSICAS DO CD?NÉLSON GONÇALVES ? Já conhecia as músicas. E achei bom gravar estas músicas com a minha divisão musical. Valorizo muito as tônicas. Não dou as notas dissonantes. Vou pelo lado natural. Achei que podia fazer bonito com estas canções. Porque muitas músicas que eles fazem, estes rocks e tal, a gente não entende a letra. As palavras escapam. Você não entende. Então quis fazer uma alteração leviana, minha, com os instrumentos em segundo plano e o coro só pontuando as notas. Gravei só com um terço da minha voz. Tudo bem ficou suave. Lindo de morrer.
RT ? VOCÊ GRAVA DE PRIMA?
NG ? Gravei todas as músicas de prima. Não dá para repetir não. Ouviu uma, grava na outra.
RT ? DURANTE A DÉCADA DE 70 E 80, VOCÊ REGRAVOU MUITOS SUCESSOS SEUS. POR QUE SÓ AGORA RESOLVEU FAZER UM DISCO TOTALMENTE DIFERENTE DO QUE TINHA FEITO?
NG ? Porque tem o seguinte. Havia grandes cantores no Brasil. Chico Alves, Orlando Silva, Carlos Garlhado, Vicente Celestino, Silvio Caldas, mas eles morreram. E parece que só restei eu. Aquela época de ouro dos cantores. Então, com esta invasão, vamos dizer assim, no bom sentido, do rock, do pop, desta coisa toda, do reggae, que todo mundo canta, as moças cantam, eu, pra não ficar fora desta coisa, embora o Brasil hoje não seja um país só de jovem, tá quase dividida a população, achei bom misturar isto daí e juntar as duas gerações, terceira idade e jovem. Então escolhi as músicas com o Robertinho do Recife. As tônicas estão todas certinhas. Não diz saudadi, diz saudade. Não diz rosá, diz rosa. Não diz casá, diz casa. Foi a primeira vez que trabalhei com ele. É um bom produtor. Novo. Ele me ouviu muito. Nos reunimos antes. Disse para ele que queria um som como se fosse dentro de uma igreja vazia. Fica um som no ar. Não é um som sentado.
RT ? QUAL A SUA PREFERIDA DO CD?
NG ? Não posso falar, senão vou machucar os outros (hehe).
RT ? ANO PASSADO FIZERAM UMA PEÇA EM SUA HOMENAGEM. O QUE ACHOU DAQUILO?
NG ? Achei boa. Faltam alguns detalhes importantes, mas...
RT ? POR EXEMPLO?
NG ? Não vou dizer para não machucar o rapaz (hehehehehehe).
RT ? TEM ALGUMA CENA QUE VOCÊ SE VIU, QUE TE TOCOU?
NG ? Não, sabe por que? Na peça que ele passa para mim, solo e tal, e eu sou um pouco irreverente. Não mal criado, irreverente. Digo não, sim. Deram uma lapidada na pedra bruta. Mas ficou bom.
RT ? EM 60 ANOS DE CARREIRA, QUAL OS MOMENTOS QUE MAIS TE MARCARAM?
NG ? Comecei a cantar em 1937. Minha emoção maior foi o meu primeiro disco. Quando ouvi meu primeiro disco, com Sinto-me Bem, de Ataulfo Alves, fiquei pensando: "Eu canto bem". Havia aquelas vitrolas que você colocava as moedas para tocar as músicas, voltava para casa sem um níquel porque colocava na vitrola para tocar. Quando acabei de ouvir o disco, foi uma emoção. Muito bonito. Foi aí que lancei um ritmo novo: o samba sincopado (demonstra tocando). Nasceu comigo. A divisão é difícil de fazer. E depois foi em 73 e 74, quando recebi o prêmio Nipper (aquele do cachorrinho beagle do gramofone), da RCA, que só tem dois no mundo. Um o Elvis Presley e o outro eu. Veio ao Rio o presidente da RCA americana, especialmente para entregar o prêmio. Pelo tanto de anos e de vendagem de disco.
RT ? QUAL A SUA MARCA?
NG ? Já vendi 78 milhões de discos. Gravei 127 LPs, 26 CDs, com este 27, 200 compactos duplos, 200 compactos simples, 200 fitas cassete, e 103 discos 78 rotações, como era antigamente.
RT ? DEPOIS DE TUDO ISSO TEM ALGUM PROJETO QUE VOCÊ AINDA QUEIRA FAZER?
NG ? Vou gravar um CD com rock, pop, reggae, samba. O próximo. Vamos misturar a música tradicional minha com a dos jovens novamente.
RT ? GRAVAR ATUALMENTE É MOLE PERTO DO INÍCIO DE SUA CARREIRA...
NG ? Antes a gente gravava com dois canais e o veículo era o rádio. Em algumas rádios tinha um cara que via o meu disco e riscava. Boicote. Um compositor chamado Nilton de Oliveira.
RT ? COMO VOCÊ ANALISA ESTES COMPOSITORES ATUAIS? NÃO EXISTE MAIS DA ESTIRPE DE UM ATAULFO ALVES, LUPICINIO RODRIGUES. ATUALMENTE FALTAM COMPOSITORES NESTA LINHA DO BOLERO...
NG ? Hoje ficou muito mais fácil. Antigamente você queria pegar uma mulher para transar você tinha que namorar, levar para dançar. Hoje em dia não. Você pode ficar com três, quatro na mesma noite. Então está fácil demais. E é por isso que está assim. Qualquer um compõe.
RT ? VOCÊ NÃO GOSTA DA MÚSICA ATUAL?
NG ? Ta aí a dança do tchan. A dança da bundinha. Daqui a pouco vão fazer a dança da bocetinha, vocês vão ver...
RT ? DE TODOS OS COMPOSITORES, QUAL CAIA COMO UMA LUVA PARA A SUA VOZ?
NG ?Lupicínio Rodrigues.
RT ? VOCÊ APONTARIA UM HERDEIRO MUSICAL DESTA SUA ESCOLA, QUE REALMENTE CANTE DE VERDADE?
NG ? Sou o último dos moicanos. Gostaria que tivesse, mas é muito difícil, porque sou baixo cantante, pego três oitavas. É muito raro...
RT ? VOCÊ CHEGOU A ESTUDAR MÚSICA. VOCÊ LÊ PARTITURA?
NG ? Sim, leio. Estudei voz com o Zebolati e música com Moacir Santos.
RT ? VOCÊ GRAVOU COM MUITA GENTE QUE SERIAM SEUS FILHOS MUSICAIS. VOCÊ SE SURPREENDEU COM ELES QUANDO VOCÊ FOI GRAVAR?
NG ? Tive surpresas sim, mas não foram agradáveis. Eles pensavam uma coisa: vamos cantar com o velho, chegaram lá e a coisa foi diferente. Teve um cantor que disse assim: ?vê o tom do velho aí que eu canto?. Eu falei pro maestro vê o tom dele que canto igual. Começamos a cantar e ele não conseguiu acabar a música... Parece que estava com diarréia. Um famoso cantor de boné... O meu horário de trabalho é nove horas da manhã. Acordo gravo e, no outro dia, está pronto o LP. Tem gente que grava uma música por um dia, repetindo, repetindo... Gravei este disco doente, de cama. Tive uma isquemia no miocárdio. Mas foi fácil gravar.
RT ? QUAL A QUE VC MAIS GOSTOU?
NG ? Para mim todas foram boas. Os cantores que foram ouvir lá choraram. Tá passando mal? Não, Nélson, é emoção. É a música que eu fiz, que coisa. Lágrimas. Que é isso? (kkkkk)
RT ? LOGO QUE SURGIU A BOSSA NOVA, VOCÊ FEZ AQUELE DISCO, "NÓS E A SERESTA", QUE TINHA UMA MÚSICA CHAMADA: "SERESTA MODERNA", QUE VOCË BRINCAVA COM O PESSOAL DA BOSSA NOVA. DEZ ANOS DEPOIS, VOCÊ GRAVOU TOM JOBIM. COM O TEMPO O SENHOR DEU MAIS VALOR AO PESSOAL DA BOSSA NOVA?
NG ? Daquela época, me aponta um que ficou...
RT ? JOÃO GILBERTO.
NG ? Ele canta alguma coisa? Não canta nada. Tom Jobim foi um compositor excelente. Vinícius de Moraes excelente. Mas cantando, tchuntchuntchun...
RT ? NA BOSSA NOVA INAUGUROU-SE UM NOVO JEITO DE CANTAR, BAIXINHO...
NG ? Sabe como era o apelido do João Gilberto? Fim de Noite. Era ele com o violão!
RT ? DEPOIS DA BOSSA NOVA QUALQUER UM COMEÇOU A CANTAR?
NG ? O culpado disso é o João Gilberto. O Diminuto. Cantar sem voz. (Imita João Gilberto... kkkkk) ?Saudade que vc não tem... Passa comigo que vc vai ver... hum, hum, hum?... amplia, bota som... Puta que pariu!!! Imagina ele na cama com uma mulher. (Imita de novooo!!!) ?Meu amor, ai que gostoso?... Ah, vai para o raio que te parta! Eu não sou assim não. Eu sou agressivo, sem bater. Amorosamente. ?Vem cá, me dá aqui!!!?
RT ? QUAIS OS LUGARES QUE VOCÊ FREQUENTAVA NO RIO DE JANEIRO NOS ANOS 50...
NG ? Os piores. A Zona, na Sapucaí, na Lapa... Não se via assalto. O submundo era bem menos barra pesada.
RT ? VOCÊ SAIU DO SUL COM QUANTO TEMPO?
NG ? Com dois anos. Fui para São Paulo, onde morei no Brás. Mas o Adoniran começou comigo a vender anúncio para a Rádio Record. Eu ralei um bocado.
RT ? QUAL O CONSELHO QUE VOCÊ DARIA PARA UM JOVEM QUE ESTÁ COMEÇANDO UMA CARREIRA?
NG ? Tem que receber o não como sim. E vá em frente. Tive no Rio e fiz teste, sendo cantor profissional em São Paulo. Cantei na Marink Veiga, na Rádio Nacional, no Celso Guimarães, Ipanema... Só ouvi ?não gostei?. O Ary Barroso me mandou jogar boxe que ?eu não cantava nada?. Se for um qualquer, desiste. Mas fui à luta! E depois que fiz sucesso, ele veio falar que ?estava brincando?. Aqui para você!!!
RT ?AS LETRAS DOS SAMBAS-CANÇÕES TINHAM MUITO AQUELA COISA DE VOCÊ MUDOU DE DONO... COMO AVALIA AS LETRAS DE HOJE?
NG ? Eles falam da mulher indiretamente. Dizia ainda é cedo. Uma menina me falou. Não falam o nome da mulher, mas falam da mulher. Indiretamente e branda. A minha maneira é mais: ?Vamos lá?... Eles falam, ?você é linda? e eu, ?você é gostosa!? Acho que as coisas mudaram para melhor, embora haja um avanço meio inoportuno para a atual infância. A criança está ficando adulta muito cedo. Dança da bundinha para lá e para cá... Cresce como? P-U-T-A. Isso que é o mau. Mas vai ter uma virada. Uma suavizada.
RT ? VOCÊ AINDA COMPÕE?
NG ? Sim. Tem até um verso, que chamo de "Esquerdo do Amor". Tem o lado direito do amor, que é o cara casado, direito, correto, trabalha, chega em casa tem a mulher, não tem amante na rua... E tem o lado esquerdo, que é aquele cara que prevarica na rua, dorme na rua... É o Esquerdo do Amor: "MENTI, E COMO CONSEQUÊNCIA PERDI, TEU AMOR E TUA INOCÊNCIA. SOU AGORA UMA SAUDADE ESQUECIDA, UMA LEMBRANÇA PERDIDA, EU SOU O VAZIO QUE FICA DEPOIS DO AMOR, EU SOU O TÉDIO, O ÓDIO E O DESPEITO, SOU TUDO O QUE NÁO É DIREITO, EU SOU O ESQUERDO DO AMOR".RT ? ALGUMA VEZ VOCÊ FOI O ESQUERDO DO AMOR?NG ? Fui. Olha esta aqui. "SERÁ QUE VOCÊ MENTIA, NO TEMPO QUE ME DIZIA, EU NÃO VIVO SEM VOCÊ, OU É AGORA QUE MENTE, QUANDO PASSA INDIFERENTE, FINGINDO QUE NÃO ME VÊ". Olha, eu tenho segundo grau!
RT ? QUANDO É QUE VOCÊ COMEÇOU A SOSSEGAR ESTE LADO ESQUERDO DO AMOR?
NG ? Sossegar? Fui casado quatro vezes. Tenho 78 anos de idade, mas 25 anos de... Eu tenho 22cm de pau... Tenho um tesão filha da puta. Canto com um tesão do caralho. Não posso ir a piscina. Por causa do volume. Parece uma cartucheira 45.
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04 - Meu Erro (Herbert Vianna)
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06 - Você é Linda (Caetano Veloso)
07 - Bem Que Se Quis (Pino Danielle - versão: Nelson Motta)