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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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CARMEM MIRANDA

Já nos prim eiros dias de casada, o m arido a pertuba com o entra e sai de brasileiros na casa. Autoritário, tenta controlar as visitas, sem sucesso. Carmen nutre enorme carinho por seus fãs e não perm ite que sejam maltratados por ninguém . As portas devem continuar abertas, e assim permanecem . No entanto, ela passa a m aior parte do tem po fora, trabalhando sem parar. Quando está em casa, dorm e, entupida de soníferos. Logo, Sebastian e Gabriel, m arido de Aurora que também m ora na residência, enfrentam-se. O clim a pesa. Sem saber o que fazer, Carmen viaja e passa um tempo sozinha em Nova York. Sabe que errou. Não devia ter se casado. Mas, católica fervorosa, sequer cogita a separação. O que Deus uniu, somente a morte pode separar. 

Em Nova York, encara m ais um a exaustiva temporada no cinem a Roxy . Desde o começo da vida profissional, aos vinte anos, Carmen jamais teve um período de férias. Nunca recarregou as baterias. Contudo, nesta tem porada, precisa inverter completam ente o relógio biológico. O prim eiro show, logo ao m eio-dia, a obriga a acordar por volta das oito da m anhã, j ustam ente quando costum ava ir dorm ir. No Roxy, faz um a apresentação a cada intervalo entre as sessões dos film es. São quatro performances diárias, um a a cada duas horas, sem pre com exaustivas trocas de figurinos. Assim , durante o dia, os soníferos dão lugar aos excitantes. As bolinhas de benzedrina descem aos m ontes. Só assim para não sucum bir em cena. Aos poucos, o cansaço tom a conta. Dor e estafa são suas com panheiras inseparáveis. O organism o não aguenta, e ela desmaia em cena. O diagnóstico é um a infecção intestinal causada por vírus. Seu sistema imunológico está à beira de um colapso. 

O marido Sebastian voa até Nova York e leva Carm en de volta para Hollywood. Em casa, ele dem ite Frank, o produtor que livrara a estrela de Shubert no passado. Se Frank ganhava 10%, Sebastian passa a ganhar 15% de tudo que a m ulher fatura. Essa divisão é no m ínim o estranha, um a vez que os dois vivem um casam ento com regim e de com unhão total de bens. 

Agora, com o em presário, Sebastian passa a negar todos os convites que os grandes estúdios fazem para Carm en. Ganancioso, anuncia que bancará as produções da esposa. Mal sabe ele o custo de um film e. Sequer sonha com o esquem a m ilionário que envolve a produção, a finalização e a distribuição cinem atográfica. O m arido desperdiça os m elhores convites, m uitos dos quais Carm en nem chega a tom ar conhecim ento. Junto das drogas legalizadas, ele é peça fundam ental para a decadência da estrela. 

Sebastian tam bém seria o responsável pela capitulação de Carm en ao álcool. Prim eiro, ele a ensina a preparar o suave Alexander, no qual ela logo se vicia. Quando com eça a engordar, percebe a bom ba calórica que é o drinque e parte para o uísque. A força da bebida acorda um a nova m ulher. De uísque com soda, passa para o com gelo, até chegar ao cowboy, o últim o estágio. O topo etílico. Agora são rem édios para dorm ir, rem édios para acordar e álcool para viver. Ou para suportar a existência. 

Arrependida de ter entregado a vida nas m ãos de Sebastian e decidida a retom ar o controle, visita a MGM, quando aceita o convite para film ar Meu príncipe encantado (A date with Judy), ao lado de Elizabeth Tay lor. Nas telas, surge um a nova Carm en, m ais sofisticada, com penteados e figurinos elegantes. Tem 39 anos, m as a im prensa anuncia 34. 

Contratada pela prim eira vez para fazer shows na Europa, em barca num navio decidida a se livrar dos rem édios e do álcool. Em alto-m ar, tenta dorm ir, m as não consegue. Está esgotada, e o cérebro não desliga. Sucum be aos soníferos, m as m esm o assim não consegue apagar. Exausta, delira, trem e e entra em pânico. Em Londres é apresentada a um novo estágio das arm as para dorm ir: os tranquilizantes inj etáveis. Neste caso, o Dem erol, à base de m orfina – um poderoso e perigoso narcótico e analgésico. 

Em m eio a tudo isso, Carm en descobre estar grávida. Ter filhos é seu m aior sonho. Nas nuvens, cancela os com prom issos para se dedicar integralm ente à m aternidade. Repousa, com e bem e consegue passar dias sem rem édio. Está tom ada pela vida. Mas um aborto espontâneo acaba com suas esperanças. Os m édicos são unânim es: Carm en não tem nem j am ais terá condição de ser m ãe. Seu organism o está profundam ente com prom etido em função de anos de m aus-tratos. A benzedrina age diretam ente no útero, causando danos irreparáveis. Por não conseguir se opor à m oral e à religião da época, que condenam o divórcio, ela e Sebastian seguem casados socialm ente, porém separados de fato. 

O clim a na casa se torna insuportável. Sem conseguir lidar m ais com a situação, a irm ã e o cunhado de Carm en se m udam . Algum tem po depois, Aurora e dona Maria voltam para o Brasil. Pela prim eira vez, aos 42 anos, Carm en Miranda está com pletam ente sozinha nos Estados Unidos. 

Sem entrar num set de film agens há quase dois anos, Carm en faz a prim eira tem porada em Beverly Hills, cantando no elegante Ciro’s para um a plateia lotada. Na sequência, sem descanso, parte em um a caravana por 43 cidades norte-am ericanas. Sem largar os rem édios, com eça a sofrer sequelas. Em casa, bebe uísque sem parar. O m arido é visto constantem ente com outras m ulheres, m as a crença católica fervorosa de Carm en a im pede de acabar com a farsa do casam ento. 

Em frangalhos, film a Morrendo de medo (Scared stiff). Não se trata apenas de seu pior film e, m as tam bém do últim o. A m ãe sente que a filha segue um cam inho irreversível de autodestruição e retorna aos Estados Unidos. Tudo que Carm en m ais precisa agora é de repouso, m as a Europa lhe cham a para um a longa turnê. São m uitas cidades, infinitas trocas de roupas, cerim oniais e fãs enlouquecidos dispostos a tudo para arrancar um pedaço da estrela. As doses de Seconal aum entam proporcionalm ente às doses de benzedrina. Carm en faz tudo o que os m édicos proíbem . 

No fim de 1953 os trem ores se tornam visíveis. Já não é capaz de segurar nada nas m ãos. Internada por Sebastian em Nova York, passa um a sem ana sedada na cam a de um hospital. Depois, é despachada de volta para casa em Holly wood. O repouso não surte efeito algum . Carm en segue com trem ores, crises de choro, pânico e um a necessidade absurda de estar sob o efeito de algum tóxico – j á não sabe o que é ficar lim pa. A receita dos m édicos, então, é o eletrochoque. São m uitas e intensas as sessões, que acontecem num curto intervalo de tem po, m as a depressão não m elhora. Aos poucos, lapsos de m em ória fazem Carm en esquecer até m esm o as letras de seus m aiores sucessos. Em casa, sofre constrangedoras crises de ausência diante de visitas. A confusão m ental é cada vez m aior. Sem alternativa, passa os dias deitada, abatida, sem ver ninguém . A residência agora é com andada por Sebastian, que dirige um batalhão de m édicos e enferm eiros. Dona Maria não pode fazer nada além de obedecer. 

Aurora, m esm o a distância, percebe o perigo que a irm ã está correndo e pega um voo rum o à Califórnia. Quinze dias depois, Carm en é carregada para dentro de um avião e retorna ao Brasil após catorze anos exilada. Já não fica em pé, e chora sem parar. A viagem de trinta horas é exaustiva, com direito a crises de trem ores, ausência m ental e insônia. Ao chegar ao Rio, ainda no avião, recebe um a dose cavalar de Dexedrina. A estrela desem barca radiante para enfrentar a m ultidão que a espera. 

* * * 

Os médicos brasileiros se espantam diante do estado de saúde de Carmen  Miranda. Ela é proibida de assum ir qualquer com prom isso profissional, deve repousar sem interrupção. Um a unidade de tratam ento intensivo é m ontada na sua suíte do Copacabana Palace. Visitas estão proibidas. Ninguém entende o que pode estar acontecendo com a Pequena Notável, sempre tão cheia de vida nos film es norte-am ericanos. Im ediatam ente form a-se um aglom erado de j ornalistas nas portas do hotel. O retorno de Carm en é um anticlím ax. Os brasileiros esperavam que, com ela, retornasse também o clima de festa, mas o que volta é um corpo intoxicado e doente. 

Após algum as sem anas de absoluta reclusão no m ais sofisticado hotel do país, Carm en com eça a receber a im prensa e os am igos m ais próxim os, sem reconhecer m uitos deles. Aos poucos, é autorizada a fazer pequenos passeios. Nos shows em que com parece com o espectadora, quase sem pre é convidada a subir ao palco, onde recebe um a estrondosa ovação e canta alguns de seus sucessos. Am or, respeito e consideração é o que a cidade m ais dedica à sua filha. Contudo, a intensa vida social com eça a torná-la vulnerável aos excessos. Para não com prom eter sua recuperação, Carm en é enviada para a Região Serrana, para um retiro durante o Carnaval. Após dias sob intensa vigilância, a Pequena consegue escapar do hotel em que está hospedada. Livre, sozinha e com um a garrafa de uísque debaixo do braço, Carm en carnavaliza pelas ruas da cidade. 

* * * 

No dia 1º de abril, contra a sua vontade, deve retornar aos Estados Unidos. Dave Sebastian, o estranho híbrido de m arido e em presário, a espera. Por sorte, o avião sofre um a pane e não pode decolar. O voo é cancelado. Pela prim eira vez, após catorze anos, Carm en finalm ente regressa à casa onde passou a m elhor fase da sua vida. 

Voltar à casa é voltar à prim eira m etade dos anos 1930, quando cantava no Cassino da Urca, tom ava banho de sol e descansava nas areias quentes do Rio de Janeiro. Por três dias, Carm en volta ser apenas a filha de dona Maria. Mas o idílio logo term ina, e ela em barca rum o à m orte dura e fria no Hem isfério Norte. 

Desobedecendo todas as ordens m édicas de repouso, em m enos de três sem anas Carm en retorna aos palcos. Dave Sebastian, o m arido, precisa faturar. Talvez intuindo que logo a fonte de renda sofreria um a pane, o em presário suga ao m áxim o a engrenagem da estrela. Em um a das apresentações, Carm en desaba, após um súbito apagão. Mas, apesar do susto, o show tem que continuar – e continua. Sebastian é quem escala os m édicos responsáveis por m anter o pique induzido de Carm en. Ao que tudo indica, ela j á não tinha m ais vontade própria. Sem a m ãe e a irm ã por perto, está sozinha vivendo o seu pior inferno em Beverly Hills. Poucos dias depois, sofre um a nova queda, dessa vez em casa, quebrando um dos dedos. Na m etade do ano, a depressão e as inconstâncias de hum or voltam com tudo. Carmen esquece as letras de suas músicas com cada vez mais frequência. Em meio à crise, viaj a para Cuba, mas não descansa nada. Durante quinze dias cumpre três apresentações diárias. Quarenta e cinco performances consecutivas para um corpo à beira do colapso é desumano demais. O marido suga ao máximo o que resta de forças na mulher.

A popstar já não consegue mais se concentrar em nada. Sozinha nos Estados Unidos, chora e não sai da cama. Tem dificuldades para comer. O marido, incansável, fecha mais um show na televisão norte-americana. Durante a transm issão ao vivo, os joelhos da mulher fraquejam e ela é amparada pelo colega de cena. Apesar do susto, segue cantando números que exigem extrem o fôlego. Após o show, turbinada por um coquetel de estimulantes, ainda encontra forças para receber alguns convidados em casa e realizar mais um a performance íntima, regada a fartas doses de uísque. Ninguém sabe que aquele será seu último canto. Entre os íntimos, dança, conversa e gargalha, tomada por um surto eufórico quimicamente estimulado. É seu último sopro de vida. Por volta das 2h30 da manhã, despede-se dos remanescentes e sobe as escadas para se recolher. Dia 5 de agosto de 1955. Carmen tem apenas 46 anos. Enquanto se prepara para dormir, um enfarto fulminante apaga para sempre o brilho da maior estrela que o Brasil já produziu.


Assim com o foi sua vida, tam bém sua m orte é destaque na imprensa mundial. Uma semana depois, o corpo chega ao Rio. Carm en pode finalm ente descansar na cidade quente que a viu crescer. O enterro da Pequena assum e proporções estratosféricas. O cortej o é seguido por mais de meio milhão de pessoas. Carmen não se tornou mãe, mas sua morte deixou órfã uma geração acostumada à felicidade.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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CARMEM MIRANDA



O palco do Cassino da Urca é o Olimpo da música brasileira. Elegantérrimo, atrai endinheirados, cantores, atores e esportistas do mundo todo. Com o compromisso de realizar duas apresentações por noite e de não repetir o figurino vez alguma ao mês, Carmen fecha um voluptuoso contrato. Seu salário mensal gira em torno de trinta contos de réis. Somem-se a isso a venda de discos, incontáveis shows e campanhas publicitárias, Carmen já movimenta uma fortuna impensável para uma garota de sua idade. A estreia no Cassino da Urca é arrebatadora. O lugar, que já era disputado, passa a atrair ainda mais personalidades, todas sedentas pela baixinha de gestos e olhos expressivos. Grandes nomes internacionais se comportam como verdadeiros fãs da portuguesa. Boquiabertos, fazem de tudo para desfrutar de sua companhia – nada pode dar mais status do que ter Carmen Miranda sentada em sua mesa após o show. Não são poucos os convites recebidos para brilhar nos Estados Unidos, mas ela esnoba todos. Carmen já não é mais a única estrela da família. Aurora, sua irmã mais nova, também faz sucesso, cantando no rádio e gravando discos. Apesar de a imprensa alimentar uma possível disputa, as duas se dão muito bem, a ponto de juntarem as fortunas para comprar uma mansão na Urca onde abrigam a enorme família. É para essa nova casa que, em outubro de 1938, Dorival Caymmi, então recém-chegado de Salvador, será levado. Em meio às filmagens de Banana da terra, os produtores enfrentam um impasse. Ary Barroso, compositor contratado para as canções da trilha, pede um valor alto demais pela cessão de na “Na Baixa do Sapateiro”. É quando alguém se lembra daquele jovem que já mostrava um samba dengoso nas rádios cariocas, “O que é que a baiana tem?”. Para a criação do figurino de baiana, Caymmi acompanha a cantora pelas lojas de Carnaval no centro do Rio. Carmen se sente livre para criar uma figura totalmente diferente. Torna-se carnavalesca. Autêntica, veste uma nova fantasia sem deixar de ser ela mesma. A baiana de Carmen não é um personagem, mas o aprimoramento da própria persona. Dorival Caymmi adora o clima e acompanha as filmagens de Banana da terra. Colado à câmera, o compositor ensina Carmen a ser baiana. É ele quem conduz a coreografia das mãos e as piscadelas, contribuindo para o nascimento de uma Carmen louca, colorida, brilhante, com ainda caras e bocas. Seus turbantes florescem, frutificam, explodem na tela. Nasce um ícone gay que será copiado, reverenciado e parodiado em todo o mundo. Terminado o filme, Carmen se apropria da figura da baiana e a incorpora a seus shows. Coberta de frutas de plástico, miçangas, babados e lantejoulas, ainda equilibrada sobre um enorme par de plataformas, chama a atenção de todos, especialmente dos estrangeiros, sedentos por algo típico ou exoticamente brasileiro. Carmen é um banquete. Em fevereiro de 1939, junto do lançamento de Banana da terra, Carmen completa 30 anos. Lee Shubert, um poderoso empresário norte-americano de teatro, assiste à eletrizante performance no Cassino da Urca. Apesar de não compreenderem as letras, o produtor e sua acompanhante, Sonja Henie, atriz de Hollywood e patinadora tricampeã olímpica, estão fascinados. À frente de uma gigantesca rede de teatros nos Estados Unidos e na Inglaterra, Shubert é um rato do showbiz, sabe tirar vantagem dos artistas que contrata e tem faro para o sucesso – faro que não irá falhar diante de Carmen. A notícia de que Carmen Miranda irá para os Estados Unidos gera comoção nacional. O Brasil teme perdê-la para sempre. Talvez antecipando inconscientemente a falta que a estrela fará, a despedida ganha ares trágicos, com a cidade aos prantos. A chegada de Carmen ao navio Uruguay é acompanhada por uma população ensandecida, que invade a Zona Portuária para se despedir. O futuro nos Estados Unidos é absolutamente incerto. Assim como no primeiro ano de vida, quando atravessou um oceano para chegar ao Brasil, mais uma vez ela partia rumo a mares desconhecidos. * * * Durante a viagem, Carmen presta atenção nas norte-americanas a bordo e nota que quase todas são loiras. Disposta a ser diferente, pinta os cabelos de preto e transforma-se, assim, numa autêntica morena carioca. Ou numa falsa baiana. Sabe que precisa se diferenciar quando chegar à Broadway. No desembarque nos Estados Unidos, a primeira surpresa: Manhattan a recebe com uma multidão de fotógrafos. Na entrevista coletiva, quando perguntada sobre as palavras que sabe falar em inglês, dispara certeira: “I say money, money, money, money!” A empatia é imediata. Já no porto de Nova York, assim que pisa em solo norte-americano, nasce a Carmen Miranda comediante, personagem que assumirá a partir de então. Seu musical de estreia na Broadway, Streets of Paris, é detonado pelos críticos, unânimes em apontar a única exceção: a participação deslumbrante da jovem brasileira. Na segunda semana em cartaz, o nome de Carmen, que estava listado em qualquer outro lugar no outdoor, passa a encabeçar o elenco. É quando nasce a alcunha por meio da qual será reconhecida mundialmente: The Brazilian Bombshell (A Granada Brasileira). Cantando e dançando de um jeito único, com roupas que nenhum ser humano em sã consciência teria coragem de usar, Carmen é um prato cheio. Figura que mistura fantasia com realidade, esse personagem que se confunde com a pessoa é a gênese de uma escola no showbiz que se mantém até nossos dias. Antes de Michael Jackson, Madonna e Elvis Presley, houve Carmen Miranda para ensinar como se faz. A imagem da cantora começa a pipocar nas capas das grandes publicações norte-americanas. Na indústria de celebridades, o óbvio vem à tona: Carmen e Aloy sio de Oliveira são um casal. Contudo, ser vista com um brasileiro pode fechar muitas portas. Para ser desejada, precisa ser acessível. Ter um namorado, justamente no momento em que começa a despertar a paixão de uma nação, é tudo de que não precisa. Antes de encerrar a temporada na Broadway, a 20th Century Fox oferece à cantora e ao Bando um contrato em Hollywood. Mas, em função do sucesso de Streets of Paris, Carmen não pode viajar a Los Angeles para filmar. Assim, no começo de 1940, o estúdio transfere a produção de Serenata tropical para Nova York. Os norte-americanos estão aos pés da Pequena Notável, e Hollywood não pode perder tempo. Todos querem faturar com a brasileira. Sua presença é sinônimo de money, money, money. Carmen trabalha exaustivamente, e Shubert fatura alto. * * * Paralelamente ao filme e à peça, Carmen e o Bando da Lua cumprem uma exaustiva temporada de duas apresentações por noite num sofisticado restaurante de Manhattan. Aos poucos, a euforia passa e o corpo da estrela começa a dar sinais de cansaço. A praia da Urca, a brisa quente do Rio, o papo entre amigos, a vida familiar, o clima descontraído de um país sem indústria cultural feroz – tudo isso ficou para trás. Carmen agora é uma máquina e, como tal, deve funcionar para produzir, mas precisa de energia para isso. O sucesso é tanto que até mesmo as vitrines da popular loja de departamentos Saks, na Quinta Avenida, exibem manequins vestidas como a it girl Carmen Miranda. Uma farta linha de bijuterias inspiradas em seus balangandãs invade as lojas de uma costa à outra do país. As garotas norteamericanas querem imitar a latina. Seus turbantes são objeto de desejo entre as modernas. Todas se equilibram sobre plataformas. Os produtos são até pirateados, atestando ainda mais seu sucesso. Carmen Miranda é garotapropaganda da Ford, da pasta dental Koly nos, de marcas de cerveja e até de um curso de inglês. Na Decca, uma das principais gravadoras da época, grava de uma só vez seis canções: “Mamãe eu quero”, “Bambu bambu”, “O que é que a baiana tem?”, “South american way ”, “Marchinha do grande galo” e “Touradas em Madri”. Estressada, perde peso e desmaia durante as filmagens de Serenata tropical. É quando aparece a fórmula mágica. Antes que sucumba ao cansaço e faça a engrenagem à sua volta perder dinheiro, é apresentada à benzedrina, droga bastante popular no meio artístico norte-americano. Carmen, que jamais tinha experimentado qualquer aditivo, turbina o organismo com doses cavalares de motivação. Está deslumbrada com os efeitos dos químicos. Sente nascer uma nova mulher, mais segura, focada e cheia de energia. Onipotente, é capaz de tudo. Não só ela, mas o Bando da Lua inteiro começa a usar as bolinhas mágicas. Doidões, cantam e dançam. Os norte-americanos deliram. Para contrabalançar os efeitos e conseguir apagar depois dos shows, usa os poderosos soníferos Nembutal e Seconal. Assim como o cantor Michael Jackson faria anos mais tarde, a estrela aspira a dormir. E a sonhar. Em junho de 1940, Carmen retorna ao Brasil para uma temporada de descanso. A chegada também causa enorme comoção. Uma multidão a espera no porto. Políticos, autoridades, amigos, familiares e jornalistas. Muitos jornalistas. Policiais tentam conter o tumulto, mas a então capital federal para. Flores são jogadas das janelas dos edifícios por onde passa o cortejo da estrela. Chegando em casa, na Urca, a polícia é obrigada a cercar a propriedade, para que a população não invada. Nos dias seguintes, Carmen Miranda recebe a visita de seus compositores e amigos. Precisa descansar, mas não consegue, a excitação é maior. Se trouxe a mágica benzedrina na bolsa? É possível que sim.





* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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CARMEM MIRANDA



Carmen é convidada a retornar ao Cassino da Urca para um evento beneficente envolvendo aliados do governo Getúlio Vargas. Quando surge nopalco, cumprimenta a plateia com um estranho “Good night people”, e abre a apresentação cantando “South american way ” e “Disseram que eu voltei americanizada”. Mas a audiência está gélida, e assim prossegue. O cassino está tomado por políticos sisudos ligados ao Estado Novo. Aos prantos, Carmen deixa o palco em meio ao show. Não sabe que o Brasil, cada vez mais aliado à Alemanha nazista, vê os Estados Unidos como inimigo crescente. Carmen representa o sucesso norte-americano, e acaba por levantar suspeitas na plateia formada por grandes figurões nacionalistas. Em outubro, desiludida e abalada, retorna aos Estados Unidos levando a mãe e dois irmãos, Odila e Mocotó.
A produção do segundo filme em Holly wood, Uma noite no Rio, tem início. Logo a força de vontade de Carmen chama atenção. Ligadona, mesmo tendo que vestir pesados figurinos, está sempre disposta para o trabalho. Será a benzedrina fazendo efeito mais uma vez? Pontualíssima, é sempre a primeira a chegar. O diretor Irving Cummings a apelida de one take girl, por jamais errar em frente às câmeras. Sem falar inglês, estuda a sonoridade de cada frase antes de repeti-la em cena. Além disso, com dificuldade para seguir uma coreografia preestabelecida, pois nunca estudara dança, pede ao diretor que a deixe livre.
É Carmen quem rouba a cena na festa do Oscar de 1941. Logo depois, com apenas um filme lançado, deixa sua marca na Calçada da Fama, em Holly wood. Sua performance é parodiada e imitada ao redor do mundo, para os mais diversos fins.
Tudo vai bem. Ela está ambientada ao clima quente da Califórnia, e sofre sempre que precisa retornar à fria Nova York. Em Manhattan, ainda ligada a Shubert, deve cumprir a temporada de Sons o’ fun. Além dos ensaios, o empresário fecha dois shows por noite durante três meses, antes da estreia na Broadway. Anfetaminas e soníferos precisam ser consumidos mais do que nunca. Carmen segura firme, mas o Bando da Lua não aguenta o pique. Hélio e Vadeco abandonam o grupo e retornam ao Brasil. Da formação original, restam apenas três.

* * *
Finalmente, Carmen rompe com Shubert e assina um contrato de exclusividade com a Fox, prevendo dois filmes por ano. Apesar de estar menos sobrecarregada profissionalmente, seu corpo segue dependendo da mesma quantidade de remédios. Importante lembrar que, na época, a indústria farmacêutica era uma atividade recente, e pouco se sabia sobre os efeitos colaterais provocados por tantos químicos. Na Holly wood dos anos 1940, a única certeza era a de que a vida devia ser curtida sob o efeito constante de alguma droga. Carmen volta à Costa Oeste para gravar Minha secretária brasileira. 

Enfim aparece sem as plataformas, balangandãs ou turbantes. Decidida a viver na Califórnia, compra uma casa em Beverly Hills, onde mora com a mãe, Aurora e o cunhado. Num quarto no andar de baixo fica Aloy sio, seu affaire. Carmen é profundamente ligada ao rapaz. Os dois chegaram juntos aos Estados Unidos e venceram longe de casa. Mas antes que o casal pudesse assumir o romance, Walt Disney contrata o brasileiro como seu assessor
pessoal para projetos latino-americanos. Aloy sio deixa o Bando, a casa e a vida de Carmen. Após cinco anos juntos, ela sofre a primeira solidão. Logo em seguida, o rapaz se casa e tem um filho com outra mulher. Carmen amarga a perda de mais um amor. Seu corpo clama por filhos. Deseja seguir os passos da irmã, Aurora, e constituir uma família. Está cansada de ser só, de ser apenas uma cifra, um nome brilhante no disputado casting de Holly wood. Ou um corpo que só sabe dançar sob o efeito de algum poderoso excitante. Seus sonhos se transformam, sem que haja indícios de que serão realizados.
Enquanto isso, no Brasil, Carmen é ridicularizada até mesmo pelos jornalistas de quem acreditava ser amiga. A crítica esculhamba praticamente todas as suas produções. Mesmo a distância, lê tudo o que sai a seu respeito. Não entende como pode ser tão hostilizada na própria casa. Não compreende o motivo de tanto desprezo. Porém, o que mais a incomoda agora é seu nariz. Em 1943, aos 34 anos, escondida da mãe e da irmã, submete-se a uma desastrosa cirurgia plástica.
A operação, rudimentar, é feita em casa. A cicatrização é lenta. Para piorar ainda mais o quadro, Carmen precisa filmar Entre a loura e a morena (The gang’s all here). Às custas de uma prótese artificial, ostenta um nariz perfeito, feito de cerâmica. O filme é um sucesso, talvez o ponto alto de sua carreira, mas Carmen Miranda está perdida. Quando terminam as filmagens, volta a operar o nariz. A prótese serve para a tela, não para a vida. A cirurgia, aparentemente simples, acaba gerando sérias complicações. O fígado sofre uma grave infecção, combatida com doses cavalares de antibióticos e transfusões de sangue. Suas chances de vida são mínimas. Carmen passa semanas à beira da morte. Os executivos da Fox se preparam para o pior. Passado algum tempo, Carmen se recupera e volta para casa. O fato é abafado na imprensa. Meses depois, retorna aos estúdios atuando em Quatro moças num Jeep. Terminadas as filmagens, volta à mesa de cirurgia para uma terceira intervenção nasal. Assim como Michael Jackson anos depois, ostentar um nariz finíssimo é sua maior obsessão.

* * *
Após essa passagem, Carmen começa a enfrentar dificuldades para ser encaixada nas novas tramas da Fox. Sua figura ficou datada. Já não exala mais a mesma juventude. Tornou-se uma senhora, mas ainda não sabe se comportar como tal. Seu coração apresenta problemas. Uma forte arritmia a deixa preocupada. Os médicos receitam descanso, mas tudo o que ela faz é  abusar de soníferos e estimulantes. Escapando da vigilância, cria uma rede de profissionais que podem lhe oferecer todas as receitas médicas necessárias.
Disposta a melhorar a saúde, torna-se fumante. As campanhas de cigarro vendem o vício como um excelente tônico para os pulmões. Fumar faz bem. Influenciada pela filha, até mesmo dona Maria decide cuidar da saúde e começar a fumar. Apesar de estar em frangalhos do ponto de vista físico e emocional, Carmen Miranda é a mulher que mais ganhou dinheiro nos Estados Unidos, e possivelmente no mundo, em 1944. Foram mais de 200 mil dólares. Apenas 36 homens faturaram mais do que ela naquele ano.
Em 1945 é só festa. Com o fim da Segunda Guerra, muitos brasileiros começam a chegar a Holly wood levando anotado o telefone da casa de Carmen Miranda. Pode parecer estranho, mas seu número é divulgado exaustivamente pela imprensa brasileira. Se hoje as celebridades reclamam das constantes invasões de privacidade, naquela época, Carmen parece não se incomodar. Ela se esbalda com os presentes que os conterrâneos trazem – sacos de feijão, quilos de farofa, metros de linguiça e cachaça, muita cachaça. Mas Carmen ainda não aprendeu a beber. Seu barato, por enquanto, são as bolinhas.
Entre os muitos brasileiros que frequentam a casa de Carmen está Vinicius de Moraes. Enviado pelo Itamaraty para trabalhar no Consulado brasileiro, o poeta logo vira amigo da estrela, que, como ele, tem o hábito de manter a casa sempre aberta. Os dois passam as noites conversando. Vinicius, com seu copo de uísque na mão, estranha o fato de aquela mulher feita jamais consumir uma única gota de álcool.
A casa de Carmen Miranda em Beverly Hills pode ser uma festa, mas sua vida profissional apresenta sinais preocupantes. A Fox agora lhe oferece apenas pequenas participações em filmes B. Seu nome já não é mais um trunfo capaz de atrair público. Antes de ser demitida, Carmen toma as rédeas, rompe seu contrato e se transforma numa das primeiras artistas independentes de Holly wood.
Apesar de desejar ardentemente ser mãe e constituir uma família, Carmen não consegue manter relacionamentos duradouros. Praticamente todos os homens que se aproximam acabam passando um tempo de festa ao lado da estrela para depois se afastar e se casar com outra mulher. Diante disso, Carmen inveja Aurora, sua irmã, que, mesmo sendo uma estrela internacional, vive um casamento de sucesso, com filhos e um marido presente. São muitas as desilusões, a última delas com um jovem ator de Holly wood com quem se envolve, e que desaparece subitamente para, como de costume, reaparecer casado com outra mulher pouco tempo depois. Arrasada, Carmen encontra consolo num assistente de produtor, fracassado e desinteressante. Na realidade, o cara é asqueroso. Apesar disso, é sua única possibilidade de, aos 38 anos, se tornar mãe.
Dave Sebastian investe pesado quando percebe que a estrela está disponível. Não demora muito para que, carente, ela caia na lábia do conquistador. O casamento, obviamente com comunhão total de bens, acontece poucos dias após o pedido. Antes da cerimônia, Carmen descobre que o noivo é judeu. A Igreja Católica, da qual é participante ativa, não abençoa o enlace, mas acaba cedendo após insistência do noivo. Assim, o fracassado assistente de produtor se casa com uma das mulheres mais ricas do mundo. De quebra, abocanha metade de sua fortuna.
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* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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CARMEN MIRANDA

Mais de cem anos após seu nascimento, em 1909, essa falsa baiana continua viva no imaginário popular. Em algum lugar do mundo, exatamente agora, deve haver uma bicha velha ou um little monster imitando Carmen Miranda em frente ao espelho. Ícone da cultura pop, sua persona abriu caminho para Elvis Presley, Michael Jackson, Madonna e, obviamente, Lady Gaga. Todos são suas crias. Primeira referência musical brasileira a rodar o planeta, Carmen foi também um ícone fashion. Praticamente inventou o salto plataforma, e além de popularizar o uso dos turbantes e da maquiagem pesada entre as recatadas it girls norte-americanas. Tornou-se um meme muito antes de o termo existir. Quase uma drag queen, o visual que ela mesma criou, e muitas vezes costurou, a transformou em um valioso produto de exportação. Mas essa figura caricata e ao mesmo tempo genuína sempre dividiu os brasileiros, que até hoje vivem uma relação de amor e ódio com sua maior estrela. Carmen pode ser encarada tanto como um símbolo de afirmação e liberação da mulher quanto de submissão. Apesar de jamais ter esboçado qualquer opinião política, foi usada como instrumento de propaganda pelo Estado Novo e pela Política da Boa Vizinhança. Assim como Elvis e Michael, a pop star passou os últimos anos de vida dependente das anfetaminas para manter o pique, e dos soníferos para conseguir apagar. Morreu intoxicada. Todos os dias, sete dias por semana, Carmen trabalhava e também se drogava. Com supervisão médica, foi vítima da emergente indústria farmacêutica. Pouco a pouco, a criatura sufoca a criadora. A fantasia brejeira e sacana de baiana estilizada se torna uma prisão estética. Filme após filme, show após show, repete ad nauseam as mesmas piadas. Apesar de perfeitamente inserida na sociedade norte-americana, diante das câmeras persiste a personagem da imigrante recém-chegada, deslumbrada com o mundo novo, mas incapaz de falar inglês. Os anos avançam, e ela insiste no mesmo. Figurinos, gestual, maquiagem. Nada muda. Ainda assim, ou talvez por isso, o mito sobrevive. * * * Portuguesa de nascença, Maria do Carmo Miranda da Cunha chega ao Rio de Janeiro com apenas um ano, em 1910. A mãe, abandonada pelo marido que partiu para a América em busca de uma vida melhor, pega as duas filhas pequenas, Carmen e Olinda, e embarca rumo ao Brasil. Disposta a reunir a família, retoma o casamento e dá luz a nada menos do que seis crianças. O pai, seu José Maria, precisa se virar trabalhando como barbeiro. Dona Maria Emília, constantemente grávida, lava roupas para a vizinhança da Lapa. Em 1925, no centro do Rio, o enorme casarão onde a família mora se transforma durante o dia em um restaurante que serve refeições para os trabalhadores da região. Carmen tem 16 anos, atende as mesas e ajuda na cozinha. Quer fazer sucesso, mas ainda não sabe como. Logo cedo, seguindo os passos da irmã mais velha, começa a trabalhar em um ateliê de costura e toma contato com o maravilhoso mundo das linhas, tecidos e bordados. É um universo do qual jamais se afastará, desenhando e, muitas vezes, costurando os próprios figurinos. Depois, troca o ateliê pelo emprego de balconista na luxuosa loja A Principal, voltada ao comércio de artigos finos para cavalheiros endinheirados. Nessa época, a Fox do Brasil anuncia um concurso para eleger uma atriz e um ator brasileiros que ganharão contrato com Hollywood. Carmen, aos 18 anos, se inscreve, mas é desclassificada logo na primeira eliminatória. Seu rosto não tem o perfil roliço procurado pelos produtores. Também tenta uma vaga no filme Barro humano, dos cineastas Adhemar Gonzaga e Paulo Benedetti, novamente sem sucesso. Relatos da época contam sobre uma moça habituada às grossas camadas de maquiagem para esconder as espinhas. A jovem e obstinada Carmen Miranda consegue um teste com o respeitado compositor Josué de Barros. Munida de audácia, canta para o próprio autor a música “Chora violão”, e Josué fica deslumbrado com a pequena. O sambista conquista o pai de Carmen e obtém o aval para ser seu tutor artístico. A partir de então, quase todas as manhãs, no porão do restaurante, Carmen e Josué ensaiarão exaustivamente. Depois, se sentarão à mesa com o patriarca, com quem almoçarão e discutirão os planos artísticos. A parceria dá samba. Carmen logo fecha contrato com a recémchegada gravadora alemã Brunswick, pela qual grava duas canções de Josué, “Não vá simbora” e “Se o samba é moda”. O disco de 78 rotações acaba não saindo, e o tutor bate à porta da RCA Victor. Com ajuda de Pixinguinha, funcionário da gravadora, Carmen Miranda emplaca um novo contrato, assinado pelo pai, já que ela ainda não completou 21 anos. Na divulgação, omitem sua nacionalidade portuguesa para evitar comparações com as cantoras de fado. Em janeiro de 1930, a RCA lança seu primeiro disco e, ainda naquele mês, Carmen retorna aos estúdios, gravando duas canções para o Carnaval. Entre elas, seu primeiro grande sucesso popular, “Taí”, de Joubert de Carvalho. Nas ruas do Rio, todos cantam a marchinha, que toca à exaustão nas rádios do Brasil. Pelo feito, a pequena recebe a enorme quantia de catorze contos de réis. O ano de 1930 será fechado com chave de ouro. Com mais de 28 músicas gravadas na RCA em apenas um ano de carreira, já recebe, ao lado do consagrado cantor Francisco Alves, o maior cachê do país. Carmen Miranda é um fenômeno. Não consegue dar conta dos pedidos de apresentações, fotos, reportagens e eventos. Quando perguntada sobre sua origem, decide não manter a mentira inventada pela gravadora e revela ser portuguesa. A declaração em nada abala a reputação da personalidade mais amada do Brasil. Em 1931, um baque. A morte de Olinda, a irmã mais velha e seu modelo de conduta. A estrela desce ao inferno, cogita abandonar a carreira, mas é salva pela vontade de brilhar. Após três meses de luto, a Pequena estreia fora do Brasil, numa temporada em Buenos Aires. Sua vivacidade fora do comum remetia à cocaína, um tônico vendido nas farmácias até pouco tempo atrás e muito usado pelos artistas da época. Diferentemente de hoje, em que o pó vem acompanhado de todo um estigma, nos anos 1930 ele não era visto com tanto pudor. Mas, não, Carmen não cheirava, não fumava nem bebia. Ainda não tomava remédios. Estava limpa. Sua energia vinha unicamente da obstinada vontade de fazer sucesso. Carmen era baixinha. Media 1,52. Em terra de mulatas, quase desaparecia. Mas o palco que ela deseja é ocupado pelos que sabem ser grandes. Em 1934, aos 25 anos, a pequena vai ao sapateiro levando consigo o esboço de um sapato que, inspirado nos aparelhos ortopédicos, teria o poder de torná-la mais alta, sem o desequilíbrio e o incômodo provocados pelo salto agulha. Ela se apresenta em cima daquele estranho instrumento, antecipando o que Marily n Manson faria seis décadas depois, ao glamorizar as vestes cirúrgicas. Graças à ousadia de Carmen, o salto plataforma se torna um clássico. Encantada, continua a reinvenção do próprio visual, e enrola um pano em volta da cabeça, escondendo os cabelos castanhos claros. A pequena se torna longilínea. Notável. A primeira aparição desse novo visual é registrada no palco do Teatro Broadway , em Buenos Aires. Longe de casa, distante de seus conhecidos, ousa sem medo. É nessa mesma viagem que estreia ao lado do Bando da Lua. Justamente esses três elementos – Bando da Lua, uso de turbante e de sapatos plataforma – serão sua marca registrada. É importante ressaltar que, nessa fase inicial, sua cabeça ainda não carrega todos os balangandãs que farão dela um ícone pop. A profusão de frutas e enfeites de plástico, coloridos e brilhantes, ainda espera para explodir. Jovem, inteligente, linda e milionária, a moça é assediada de todos os lados. Carmen tem uma qualidade de estrela até então inédita no Brasil da primeira metade do século passado. A artista é um conjunto, não apenas uma cantora. Atua, canta, dança e inventa moda. No campo amoroso, envolve-se com alguns play boys, mas nenhum romance avança. Não tem tempo para isso.


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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APRESENTAÇÃO

Entre muitos comentários e olhares sobre a música popular brasileira, poucos atentam especificamente à loucura de suas histórias. Nesse contexto, a trajetória das adições é convenientemente apagada, ou naturalmente esquecida. Temas focados no desenvolvimento específico dos vícios são raríssimos, por mais que, em vida, porres, escândalos e quedas tenham rendido farto material para a construção de mitos. A ousadia de se debruçar sobre o lado escuro da vida na música brasileira partiu de Nelson Motta. Foi ele quem, preciso como Juliet Taylor, elencou essas dezessete figuras, misturando medalhões e malditos, todos gênios, para traçar um panorama etílico da música popular brasileira moderna. Nunca mortos em vida, mas todos ainda vivos depois de mortos. A zombie walk da MPB. Dezessete figuras que não contemplaram qualquer barreira entre a música e o vício, que mergulharam de cabeça na vida e perpetuaram um testemunho tatuado em cifras que ainda não desapareceram de nossos ouvidos, mesmo depois de mortos. Mergulhei nessas vidas por meio de consultas a biografias, teses acadêmicas, revistas de fofoca, programas de rádio, histórias de ouvido, notas de jornais, vídeos no YouTube, e por aí vai. Investiguei um ponto de repetição. Uma mesma nota na polifonia dessas vozes. Haverá um lugar – ou um devir – onde todas essas vidas loucas se encontram? Além de geniais, são todos etílicos. Todos bebendo o último copo, talvez já sabendo que o último copo será sempre o próximo. Nessas vidas loucas, permanece a fuga arquitetada a partir da bombástica combinação entre bebida e talento. Apesar da quantidade de pó, heroínas pontuais e caixas e mais caixas de comprimidos, o que persevera neles é o fascínio pelo álcool. Todos fizeram questão de escolher o mais traiçoeiro dos cavalos. Impossível dizer quem venceu a batalha, se o homem ou o bicho. Mas quem mais saiu ganhando foi, sem dúvida, a música. E nossos ouvidos. Gênios, fixaram novos paradigmas na cultura brasileira. Todos inventaram um novo jeito de cantar: o seu. Mergulhar nessas vivências é acompanhar o processo de luz, sempre com uma atenção especial às sombras. Escrever este livro foi catalogar, a partir de uma farta produção já realizada, a hora em que a luz se apaga, o microfone é desligado e DO NOT DISTURB é colocado na porta. Mais do que a dor, fica a delícia dessas dezessete vidas, dessas dezessete obras fundamentais para se entender e pensar o Brasil a partir da sua música e dor. Meu agradecimento especial vai ao amigo Antônio Carlos Miguel, que teve a ousadia de me colocar nesse lugar e a generosidade de acompanhar a escrita. Se Vinicius estava mesmo certo quando disse que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, encontrar Antônio Carlos e, através dele, Maria João Costa e Martha Ribas, foi a confirmação da frase do poeta. Aos leitores, que leiam sem moderação.



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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A VIDA LOUCA DA MPB (ISMAEL CANAPPELE)*

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SEXO, DROGAS, MPB E ILUMINAÇÕES

Das formas mais diversas e por diferentes motivos, a heterogênea constelação da MPB, com estrelas (e alguns cometas) que vão dos anos 1930 aos 2000, teve vida louca. Vidas muito loucas e, quase sempre, abreviadas por mortes precoces. Personagens reais, que agora se encontram neste livro principalmente pelas carreiras brilhantes, atuações e obras que inspiram tantas outras vidas. Em meio ao turbilhão de emoções, pressões, turbinados/detonados por drogas (legais e ilícitas), enfrentando preconceitos, amando e sofrendo muito, quebrando barreiras, esses dezessete artistas viveram intensamente, fundaram escolas, revolucionaram estilos, encantaram multidões e continuam sendo referência para qualquer um interessado na diversificada música popular brasileira. São histórias, muitas com mais de uma versão na cada vez maior bibliografia musical brasileira, recontadas a partir de uma perspectiva distanciada, sem dourar as pílulas ou esconder os vexames. Podem mudar as estações, as modas e as tecnologias, mas a essência complexa do ser humano continua a mesma, como mostra nesta obra o jovem escritor (e, tudo embaralhado, ator, roteirista, músico) Ismael Caneppele. Gaúcho cosmopolita, no início do século XXI, entrando em seus vinte anos, trocou a Lajeado natal por uma vaga numa peça que Gerald Thomas montava em São Paulo. Uma década e meia depois, novamente baseado no Rio Grande do Sul após temporadas em São Paulo e Berlim, ele roda o mundo, fisicamente e/ou através da carreira. Entre outros feitos, publicou quatro livros de ficção, textos em blogs e colunas na grande imprensa e foi roteirista (além de um dos protagonistas) do longa-metragem Os famosos e os duendes da morte (lançado em 2009, vencedor de dez prêmios no Brasil e no mundo, dirigido por Esmir Filho). Desafiado a perfilar esses vidas-loucas, Ismael tanto mergulhou na história de algumas personalidades que fizeram a trilha de sua adolescência e juventude – contemporâneos como Cássia Eller, Renato Russo, Cazuza e Itamar Assumpção – quanto foi atrás de gente da qual tinha menos referências, algumas vagas ou caricatas. Da hollywoodiana Carmen Miranda ao play boy assexuado carioca Mario Reis, passando pela antitética soturna e iluminada May sa, pelo múltiplo e contraditório Vinicius de Moraes, pelo sambista protopunk Noel Rosa, pelo sambista-blues Nelson Cavaquinho, pelo fenomenal cantor e lamentável aliado da ditadura militar Wilson Simonal… O retrato desses artistas, segundo Ismael, não cai na apologia da loucura pela loucura, sequer investe na condenação. Para o caso da droga, por exemplo, vale o ditado popular de que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Seja legal ou ilegal, o segredo é saber usar. Tim Maia foi um que, definitivamente, nunca soube. Mas esse exemplo ruim até para usuários, irresponsável, doidão sem limites, sempre exagerando na dose e que poderia ter virado número nos índices de deliquência juvenil antes de começar a criar tão intensa e musicalmente, não é maior do que o artista. Estamos falando dele porque brilhou como o primeiro brasileiro a fundir samba e baião com o soul e o funk dos negros norte-americanos. De Racionais MCs a Criolo ou Emicida, não há quem esteja fora de seu raio de influência. Como Cazuza no pop brasileiro, que de mais uma dose de tudo, claro, sempre esteve a fim, até que seu trajeto cada vez mais ousado na arte e na vida foi podado pela aids. Aos 32 anos, o autodenominado Exagerado foi uma das vítimas da “tuberculose do fim do século XX”, numa possível conexão com Noel, que, nos anos 1930, ainda sem a penicilina, teve sua “peste cinzenta” potencializada pelo cotidiano de orgias. No entanto, muito além desse paralelo natural e mórbido, Noel e Cazuza devem ser reverenciados como agudos cronistas de suas realidades, levando a poesia das ruas para as canções. Noel emburacou em noitadas regadas a muito álcool, alguma cocaína (que até ser proibida no Brasil em 1921 era vendida como remédio) e muito samba. Ou melhor, foi um dos inventores do samba urbano carioca, feito que, em outra quebra de paradigmas, ocorreu graças ao estreito convívio com artistas afro-brasileiros como Cartola e Ismael Silva. Algo impensável para um jovem da classe média branca no Rio de Janeiro daqueles tempos. Como estamos cansados de saber, a combinação de tuberculose e compromisso zero com uma vida regrada transformaram o Poeta da Vila no precoce (aos 26) precursor do Clube dos 27 – que reúne os roqueiros mortos nessa idade, numa lista que inclui Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Sob a ótica da política de guerra às drogas (cada vez mais contestada no mundo contemporâneo), Cazuza, Tim Maia, Renato Russo, Júlio Barroso e Raul Seixas estariam entre as típicas vítimas do tráfico. Mas, para todos eles, o abuso do legalizado álcool teve papel tão ou mais nocivo. Já a partir do Poetinha, que, imerso no uísque e similares, muito viveu, amou e criou: “O melhor amigo do homem, o cachorro engarrafado”, segundo a máxima de Vinicius, também fez muitos estragos. Limpa, e careta até para o álcool nos primeiros anos de sucesso, Carmen Miranda é um exemplo de como a medicina usada sem critérios pode ser letal. Já nos Estados Unidos, no auge do estrelato, quando se tornou a artista mais bem-paga do mundo, a fim de suportar o volume de trabalho a Pequena Notável passou a viver movida a drogas legais. Era remédio para dormir, acordar, emagrecer ou ter apetite, prender ou soltar o intestino, numa rotina macabra que antecipou em décadas a similar dependência e degeneração física que abreviou a vida louca de Elvis Presley e Michael Jackson. Por sinal, Carmen foi o primeiro caso de “impersonator” na cultura pop, fenômeno que depois prosseguiu com os mesmos The Pelvis (em sua fase final e mais caricata) e Jacko. Como Ismael escreve, revolucionária em muitos aspectos de sua carreira, atropelando preconceitos raciais e sexuais, Carmen continua viva em sua obra ou na pele de milhares de drag queens ao redor do mundo. No campo do comportamento, outras três mulheres escaladas neste livro romperam muitos tabus. Dondoca destinada a viver sufocada no luxo de um casamento infeliz, a adolescente Maysa chutou o balde (e o sobrenome pseudo-aristocrático) para se firmar como a fabulosa intérprete imortalizada em disco. E ainda, quebrando um hiato de décadas, despontar como uma das grandes compositoras populares do Brasil. Mesmo tendo Chiquinha Gonzaga como pioneira – “Ô abre alas”, lançada em 1899, literalmente abriu caminho para as marchinhas carnavalescas –, só nos anos 1950, com o surgimento de May sa, a canção popular brasileira ganhou nova compositora de sucesso e relevância. Para aguentar o tranco e se adequar aos padrões do star system, entornou quantidades industriais de droga legal, ingeriu infinitas pílulas nos 50 tons de tarjas pretas, abusou de remédios de emagrecimento e cirurgias. Outra vítima de uma sociedade pra lá de machista, Dalva de Oliveira rompeu com o marido infiel (e parceiro nos palcos e estúdios) para cair na boca do povo. Roupa suja lavada em público através de muitas canções feitas sob medida para ela e contestadas pelas do ex, Herivelto Martins, antecipando para o bem e para o mal nossa época de reality shows. Escândalo e arte caminhando juntos, regados a porres e ressacas sem fim. Mesmo vivendo numa sociedade bem mais aberta, na qual pôde assumir sem véus a homossexualidade, Cássia Eller também não segurou a barra. Em dezembro de 2001, apesar do sucesso comercial e artístico, o coração frágil de nascença parou de bater, em parte devido a tantos abusos químicos e pressões emocionais. Mas seu exemplo de vida e arte só cresce desde então. A vitória de sua companheira, Eugênia, na disputa pela guarda definitiva do filho natural de Cássia com o avô materno do garoto criou jurisprudência para casos similares. Chicão foi criado pela mãe afetiva, reforçando os anseios de tantos casais homossexuais. Drogas legais ou ilegais não foram o maior problema na vida de Itamar Assumpção. Ele sofreu mais com preconceito racial, que, cotidianamente, destrói o mito do homem cordial brasileiro, e com a rejeição do mercado à sua revolucionária música. Uma arte que, como acontece nesses casos, desde sua morte por câncer em 2003, não para de ser admirada. Talvez, como Ismael relata, a maior loucura do Nego Dito tenha sido a última década de vida, cercado da mulher e das filhas numa casa na periferia de São Paulo onde, além da música, cultivava inocentes e belas orquídeas. Vale destacar ainda o foco que Ismael dá para personagens que tiveram sucesso restrito na vida, mas foram influências decisivas para seus contemporâneos e continuam sendo redescobertos pelas novas gerações. Cometas que deixaram rastros luminosos. Entre eles, Sérgio Sampaio, o capixaba que botou seu bloco em todo o Brasil, e o carioca planetário Júlio Barroso, que se perdeu de sua Gang 90 na selva de Sampa. Mas chega de spoilers. É hora de mergulhar nessas vidas loucas e apaixonantes! Antônio Carlos Miguel, crítico musical, jornalista e poeta.


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