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quarta-feira, 18 de junho de 2014

O CAVAQUINHO CHEIO DE RECURSOS DE CLÁUDIO DE SOUZA

O cavaquinho cheio de recursos de Cláudio de Souza



Por Marcos Toledo




Aos 91 anos de idade, Cláudio de Souza pode ser considerado o pai do cavaquinho em Pernambuco. Músico intuitivo, marcou sua trajetória artística por extrair do instrumento, naturalmente rítmico, recursos melódicos e harmônicos como apenas os gênios são capazes de fazê-lo. Uma lacuna, contudo, não foi preenchida até hoje: apesar de conhecido como o compositor das homenagens, por titular suas músicas em tributo a pessoas que admira, Seu Cláudio, como é mais conhecido, ainda não teve nenhum projeto dedicado a ele aprovado. E nem sequer conseguiu realizar um disco solo.
A pedido do Jornal do Commercio, dois de seus principais seguidores, o maestro Marco César e o também cavaquinista João Paulo Albertim, expoente da nova geração no Estado, reuniu um grupo de jovens músicos para lembrar da carreira de Seu Cláudio, na residência dele, no bairro da Várzea (Zona Leste do Recife), onde vive desde 1951, e que adquiriu com a ajuda da venda de seu piano.
Seu Cláudio se confunde com o próprio instrumento ao qual se dedica durante quase toda sua vida. A baixa estatura e a aparência frágil escondem uma gama de expedientes que o fizeram um dos cavaquinistas mais requisitados pelos músicos, sobretudo chorões, que atuaram em Pernambuco, como Canhoto da Paraíba, Rossini Ferreira e Tonhé, e que atuam até fora do Estado, como Paulinho da Viola – todos, aliás, homenageados com temas do autor.
Nascido em Camaragibe, no Grande Recife, Cláudio Francisco de Souza despertou para a música ao 12 anos e começou a se projetar artisticamente uma década e meia depois, no programa de calouros de Ary Barroso na TV Tupi do Rio de Janeiro. Em 1951, foi um dos destaques da inauguração da local Rádio Tamandaré. Tocou ainda em programas como Quando os violões se encontram (Rádio Jornal do Commercio) e Recife dos serões e serenatas (TV Universitária). Como instrumentista, acompanhou artistas como o supracitado Paulinho, além de Elizeth Cardoso, Ademilde Fonseca, Gilberto Alves, Irmãos Batista e Baden Powell.
Na vida pessoal, o cavaquinista tem uma vida modesta. Casado durante 48 anos com Maria José da Conceição Souza (falecida em 2000), tem quatro filhas, seis netos e sete bisnetos. Também professor de violão, paralelamente à música sempre atuou como autônomo, vendendo objetos como alpercatas e roupas.
Agora aposentado, Cláudio de Souza nunca registrou sua própria música em disco. Mas seus seguidores têm se encarregado de manter sua música viva.
No minidocumentário produzido especialmente para esta reportagem, Marco César, João Paulo Albertim e Fernando Moura (cavaquinhos), junto com Seu Cláudio, e Rubem França (violão) e Júnior Teles (pandeiro) dão uma aula do que representa a música de Cláudio de Souza.

domingo, 27 de abril de 2008

ADEUS, CANHOTO!

ORAÇÃO POR CHICO SOARES, CANHOTO DA PARAÍBA

Por Urariano Mota

(Fecho os olhos, para melhor falar. Abro e ergo os olhos para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isso mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?) Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado desta referência, ao ser encontrado na Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz, como uma criança que se descobre nua em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

E desta maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto, a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente. Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade de sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar essas desrazões:

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro:

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não essa terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isto, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isto já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disto ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será! Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação.

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia de sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente.

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.


Urariano Mota é natural do Recife. Mora atuamente em Olinda.
Livros: Os Corações Futuristas, romance sobre jovens perseguidos em Pernambuco durante a ditadura militar, Japaranduba, 49 , novela sobre a busca de um amor da infância por um velho louco, O Caso Dom Vital, novela satíricopolicial educativa sobre o nosso apodrecido sistema de ensino.Inédito, este último livro.

A novela, Japaranduba, 49, está disponível no site www.livrorapido.com.br
Fonte: http://urarianoms.blog.uol.com.br/

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