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sábado, 7 de março de 2020

ANA DE OLIVEIRA E SÉRGIO FERRAZ - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Instrumentistas de primeira grandeza, Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz unem-se para celebrar a música e acabam nos presenteando com um álbum caracterizado por uma rica e cativante sonoridade

Por Bruno Negromonte 


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Nascido em 2018 durante um dos maiores festivais de música instrumental do país, o MIMO Festival, o Duo Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz tem tido uma grande e positiva receptividade por parte do público e da crítica especializada ao se apresentar nos mais distintos palcos do Brasil assim como também na Europa. Tal receptividade fez com que a junção do violino e do violão também se expandisse para o estúdio, o que acabou resultando no irrepreensível álbum Carta de Amor e Outras Histórias”, um projeto fonográfico singular e caracterizado por uma série de homenagens como foi possível perceber aqui mesmo em nosso espaço a partir da matéria "CORDAS EM SINTONIA", publicada aqui mesmo em nosso espaço recentemente. Hoje a dupla volta ao espaço para um bate-papo informal acerca da carreira, dos projetos, de como se deu este encontro entre outras peculiaridades. Excelente leitura!


Ana de Oliveira

Seu envolvimento com a música vem desde a mais tenra idade não é isso? Quais são as suas reminiscências musicais mais remotas e como se deu essa sua arrebatadora paixão pelo violino?

Ana - Eu ouvi o violino pela primeira vez no rádio a caminho do jardim de infância, meu pai ouvia o Concerto de Brahms para violino e orquestra e me apaixonei por aquele som ou sons. Perguntei como era e pedi para tocar. As primeiras aulas foram engraçadas pois eu não falava com a professora. Cochichava para minha mãe que falava para ela...com o tempo eu comecei a gostar mais da dona Lola Benda uma violinista suíça alemã que vivia em São Paulo.


Quanto a ida para a Alemanha. Como se concretizou essa viagem? Havia interesse de sua parte em dar continuidade aos estudos musicais no Exterior?

Ana - Sempre quis estudar fora do Brasil, na época não havia muitas referências aqui e não havia internet, youtube etc...desde meus 14, 15 anos estudei para tentar sair do Brasil e aos 19 consegui. Aos 20 anos ingressei na Staatliche Hochschule für Musik (Escola Superior de Música) em Freiburg im Breisgau nno sul da Alemanha.


Quando veio a decisão que já estava na hora de voltar para o brasil?

Ana - A saudade ficou insuportável, chegava a doer. Passei 4 anos sem pisar no Brasil. Tirei umas férias para ficar aqui uns 2 meses e experimentar voltar e foi muito bom. Eu senti que havia muito mais necessidade de estar aqui do que imaginava, em todos os sentidos. Decidi voltar, peguei minhas coisas na Alemanha, encerrei os trabalhos e voltei de navio a partir de Gênova. Um bela viagem de 13 dias.  


Como entrou a  música contemporânea em sua vida uma vez que o violino, dentro dos “padrões convencionais”, é um instrumento voltado mais para a música erudita?

Ana - Sempre tive interesse desde sempre. Na Alemanha participei do grupo de câmara do Institut für Neue Musik em Freiburg durante anos. Também trabalhei com músicos de jazz e free jazz, principalmente com o violinista Harald Kimmig e com o baterista Dieter Schröder. Mais recentemente no Brasil toquei com artistas como Egberto Gismonti, e me dedico ao repertório de câmara brasileiro com diversos grupos, principalmente o Trio Puelli, além do Duo com Sérgio Ferraz e meu trio de cordas. Fiz também como trabalho de mestrado um livro sobre técnicas estendidas de violino com inúmeros exemplos da música contemporânea brasileira.


Como se deu esse encontro com o Sérgio Ferraz? Antes da participação no MIMO vocês já conheciam-se?

Ana - Eu conheci o Sérgio desde o início do MIMO, mas de vista e poucas palavras. Em 2012 eu o assisti solando ao violino o seu Concerto Armorial e daí conversamos mais. Em 2018 nos encontramos por causa de uma rabeca e ali iniciou nosso duo. Nossa afinidade musical é muito grande e esta formação de duo de cordas é muito intensa e enriquecedora.



Sérgio Ferraz

Você vem de Garanhuns, terra de exímios instrumentistas a exemplo de Dominguinhos, em sua família há algum instrumentista? como se deu o seu encontro com o instrumento? Quais as lembranças mais antigas do seu envolvimento com música?

Sérgio - Eu nasci no ano de 1973 e vivi em Garanhuns até meus 7 anos de idade. A TV só pegava depois do meio dia. Lembro de muita música em casa. No radio tocava, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Beatles, Elvis Presley, então eu ouvia tudo isso. Meu pai era bancário, e sempre teve ótima voz, ele cantava no coral da igreja. Minha mãe tocava acordeon em casa. Eu já desde cedo mostrava inclinação para a música e artes em geral. Gostava de cantar, desenhar, dançar. Eu via os Beatles na TV e eu de alguma forma sabia que eu faria parte de algo assim. Daí corri pra conseguir um violão e comecei a aprender.


Aparentemente a sua musicalidade tem uma visível influência de elementos do movimento armorial. Como se deu a sua imersão nesse contexto?

Sérgio - Essa é uma ótima pergunta. Lá na segunda metade dos anos de 1980, eu e meus amigos músicos pesquisávamos nos sebos do centro do Recife LPs raros. Numa dessas encontramos LPs do Quinteto Armorial. Ouvir a música e a sonoridade do Quinteto foi algo revelador pra nossa geração. É uma sonoridade áspera e brava assim como o rock também.  Eu ouvia aquele tipo de sonoridade na música do Egberto Gismonti e do Hermeto Pascoal. Mas foi mágico saber que aquela estética sonora musical surgiu em Pernambuco. Décadas mais tarde eu gravei meu primeiro disco em parceria justamente com o Antonio José Madureira líder do Quinteto Armorial. O CD chama-se ‘Segundo Romançário” de 2009. Ainda nos anos de 1990 eu fazia parte de um grupo chamado Alma em Água que misturava vários elementos inclusive da música indígena. Quando o Ariano Suassuna foi secretário de cultura do governo de Miguel Arraes ele nos ajudou, daí começou meu contato com ele. Em 2007 Ariano me chamou pra fazer parte da assessoria dele pra o projeto das aulas-espetáculos que correu todo o estado de Pernambuco. Em 2012, escrevi um o Concerto Armorial para violino e orquestra dedicada ao Escritor. Esse concerto foi estreado no Teatro de Santa Isabel e depois apresentado também no MIMO Olinda 2013.


Essa característica facilitou o convite do Ariano Suassuna? Como foi essa experiência?

Sérgio - Bem, acho que já respondi essa pergunta na pergunta anterior. Mas conviver de perto com Ariano Suassuna foi uma experiência única. Ariano era um homem realmente preocupado com a questão da formação cultural.


Sérgio, seu primeiro álbum solo teve a primeira tiragem esgotada em cerca de 30 dias. Gostaria de saber como tem sido a receptividade deste novo álbum?

Sérgio - “Dançando aos Pés de Shiva” lançado no final de 2011 vendeu mil cópias em um mês. Foi uma surpresa já que trata-se de um disco de música instrumental. Quanto ao nosso novo trabalho “Carta de Amor e Outras Histórias”, um disco de também instrumental em parceria com a fantástica violinista Ana de Oliveira vem recebendo ótimas críticas de músicos e pessoas ligadas a ária de produção cultural bem como do público em geral. Considero esse um trabalho muito especial.


Como está a agenda de vocês para esse ano de 2020? Já estão novas previstas apresentações?


Sérgio - Estamos fazendo nossa agenda. Vem boas surpresas neste ano! Esperamos também puder trazer esse show para outras partes do Brasil fora do eixo Rio-São Paulo. 



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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

CORDAS EM SINTONIA

De um lado violões, do outro violino. Resultado: “Carta de Amor e Outras Histórias”, uma ode à Música Instrumental de qualidade.

Por Bruno Negromonte


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A diversidade da música instrumental brasileira está intrinsecamente associada à riqueza sonora existente em nosso país. Dentro deste nosso espaço de dimensões continentais cada região tem a sua peculiaridade, o que por seguinte acaba proporcionando não a fragmentação, mas a multiplicação de gêneros e ritmos. Essa afirmação evidencia-se ainda mais quando temos a possibilidade de enumerar os inúmeros artistas que contribuíram e vem contribuindo para a notoriedade do gênero instrumental em cada região do país. Se fomos até a região Sul podemos destacar nomes como Radames GnattaliAirto MoreiraRenato Borghetti, Yamandu Costa, dentre vários; do Norte vem João Donato, um dos mais significantes nomes da música brasileira do século XX e ainda em atividade. Do Centro-Oeste não podemos deixar de destacar nomes como o da saudosa Helena Meirelles, reconhecida mundialmente por seu talento como tocadora de viola. Quanto ao Nordeste destaque para relevantes nomes e grupos, tais quais Moacir Santos, Nonato Luiz, Walter Wanderley, a Banda de Pífano de Caruaru, Sivuca, Hermeto Pascoal, Armandinho, Canhoto da Paraíba entre outros. Por fim o Sudeste com destaque para nomes como Raphael Rabello, Tom JobimCarlos Malta, Paulo MouraLaurindo Almeida, Luiz Bonfá, Jacob do bandolimEgberto GismontiPixinguinha (isso só para destacar alguns). Destas duas últimas regiões é que vem os nomes que daremos notoriedade hoje não apenas por já estarem presentes neste rol de grandes instrumentistas brasileiros, mas também por apresentarem, cada qual com seu instrumento, relevantes trabalhos a favor da música brasileira instrumental.



De um lado Ana de Oliveira (violino), que desde os 05 anos de idade interessou-se por música a partir da influência do seu pai e ainda na infância imergiu na música começando a ter aulas de violino (instrumento o qual se apaixonou ao ouvir o concerto de Brahms para violino). Depois de passar pelas mãos de alguns professores particulares, Ana graduou-se na classe de Rainer Kussmaul na Escola Superior de Música em Freiburg, na Alemanha, país que também a fez se aproximar da música contemporânea. Ao retornar para o Brasil atuou como spalla da Orquestra Sinfônica Brasileira, criou e liderou grupos de câmara e vem atuando na música popular nos mais distintos projetos, dentre eles o Trio Puelli; além de outras incursões que a fizeram dividir os palcos e os estúdios com importantes nomes da música brasileira. Quando questionada sobre a sua paixão pela música costuma dizer: Sempre soube que eu queria ser violinista”. Já Sérgio Ferraz (violões de oito e doze cordas) é natural de Garanhuns, agreste de Pernambuco. Iniciou desde cedo seus estudos na área, a princípio no Conservatório Pernambucano de Música, em seguida, na Universidade Federal de Pernambuco onde tornou-se bacharel. Músico atuante no cenário musical pernambucano desde os anos de 1980,  Ferraz traz em sua bagagem projetos como o Alma em água, grupo que ganhou destaque nos principais festivais de música existentes em Pernambuco na década de 1990. No início do milênio formou o Sonoris Fábrica, projeto que une elementos da música nordestina com o jazz mantendo o mesmo prestígio do projeto anterior. Dentre outros projetos destaque para o Quarteto Romançal o grupo de artistas que integraram as aulas-espetáculos do Escritor Ariano Suassuna. Em sua biografia consta, além de apresentações em palcos nacionais e internacionais, álbuns como seu primeiro CD solo “Dançando aos Pés de Shiva” (lançado em 2011), A Sublime Ciência e o Soberano Segredo” e Concerto Armorial”.

A junção destes dois talentos tem sido ovacionado tanto pelo grande público quanto pela crítica especializada. Um encontro musical coeso, onde a violinista Ana de Oliveira e o multi-instrumentista Sérgio Ferraz potencializam seus respectivos talentos a partir da união dos seus instrumentos. A possibilidade deste encontro concretizou-se no palco durante o MIMO Festival ocorrido na cidade de Olinda ao longo de 2018 tendo como proposta unir a abordagem de um repertório com principal enfoque na obra de compositores que são referências para ambos. Após esta estreia a dupla já soma apresentações em alguns dos mais importantes palcos do eixo Rio-São Paulo (tais quais o Blue Note SP e RJ, Sala Cecília Meireles, Casa do Choro, Centro de Referência da Música Carioca entre outros); além de Portugal, onde estiveram presente na programação do MIMO Festival Amarante, em julho de 2019, com grande aclamação do público. A parceria deu tão certa que rendeu o álbum “Carta de Amor e Outras Histórias”,  projeto que conta com o design gráfico de Guga Burckhardt e capa de Romero Andrade Lima. Composto por composições de Sérgio e de Egberto Gismonti, o projeto fonográfico conta em sua ficha técnica com a participação especial do percussionista Marcos Suzano.

Como dito: o Brasil sempre foi celeiro de grandes músicos. Lugar de exímios instrumentistas que existem em profusão pelo país afora. A junção de talentos como estes não apenas reforça, mas potencializa essa afirmação. Como bem define o Maestro, compositor e membro da Academia Brasileira de Música Ricardo Tacuchian: “Nosso país não é um só: são muitos os “Brasis”. Ele é plural em suas origens e singular em sua maneira de ser (...)Era a convergência de dois “Brasis” diferentes, mas que se consubstanciou numa síntese que só a arte e o talento de ambos poderiam alcançar (....)". Carta de Amor e Outras Histórias” chega confluente, unindo o "fácil" e o "difícil", tornando coerentemente uníssona a sonoridade de dois talentosos instrumentistas. Um projeto onde o erudito dá as mãos ao popular e proporciona ao ouvinte uma verdadeira viagem onde constam homenagens como Dia de São Sebastião” (uma ode ao  Rio de Janeiro), Floresta do Navio” (um samba-baião composto em homenagem à Floresta, cidade natal do pai do compositor no sertão pernambucano), e uma ode ao Egberto Gismonti a partir de duas canções do seu repertório: Lôro” e “FrevoEm síntese é isso: O disco é um verdadeiro cordel musical, uma síntese do popular com o erudito, um encontro norte-sul, uma superposição temporal contemporâneo/medieval” como bem definiu Tacuchian. Resta-nos aguçar a sensibilidade e nos permitirmos essa prazerosa audição.


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