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domingo, 10 de junho de 2018

ARY BARROSO, UM RABUGENTO GENIAL

Por Luis Pimentel




O ano de 1964 foi mesmo fatídico para o Brasil e os brasileiros. Além dos fatos políticos conturbadores que influenciaram todo o país, morreu no Rio de Janeiro (no dia 9 de fevereiro) o compositor, letrista, autor de espetáculos para o teatro-de-revista, animador de auditórios, locutor esportivo (profissão na qual marcou época e ficou conhecido como “o homem da gaitinha”), ex-vereador, flamenguista doente, boêmio sadio e personalidade internacional Ary Evangelista Barroso.

Além do enorme talento, Ary ficou conhecido pela fama de rabugento. Contam que semanas antes de morrer ele teve um encontro com o jornalista e compositor Antônio Maria (outro gigante da MPB), com quem andava às turras por conta de uma disputa de genuína vaidade. Ary vivia repetindo que a música brasileira mais conhecida dentro e fora do país era Aquarela do Brasil (“Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos”), de sua autoria. Antônio Maria rebatia, alegando que a canção mais badalada aqui e no exterior era a sua belíssima Ninguém me ama (“Ninguém me ama/Ninguém me quer/Ninguém me chama de meu amor”). 

Depois de alguns bate-bocas, Maria foi visitá-lo em casa, onde ouviu um insólito pedido:

– Maria, canta para mim Aquarela do Brasil.

Comovido, Antônio Maria não se fez de rogado. Puxou uma caixa de fósforos e cantarolou a música inteirinha, sem errar uma palavra. Fingindo-se muito agradecido e pretendendo retribuir a gentileza, Ary Barroso alfinetou:

– Agora pede para eu cantar para você Ninguém Me Ama.
– Bom, Ary, se você faz questão...

A resposta:

– Não sei a letra.

A lenda deve corresponder à verdade, pois o compositor tinha mesmo a fama de ser um sujeito de temperamento difícil, que se envolveu em inúmeras picuinhas nos palcos, nas gravadoras, nos estádios de futebol, na Câmara de Vereadores e até nos Estados Unidos – onde recusou um convite para ser o todo-poderoso diretor musical da Walt Disney Production com uma frase que até hoje os americanos se esforçam para entender:

– Não fico nem mais um dia. Aqui não tem Flamengo.

Ary Barroso, que se tivesse conseguido driblar o cigarro e o conhaque teria comemorado o centenário no ano de 2003, ficou órfão de pai e mãe aos seis anos, na cidade de Ubá, em Minas Gerais, onde nasceu em 1903, no dia 7 de novembro. O deputado estadual e promotor público João Evangelista Barroso morreu poucos dias depois da mulher, Angelina Resende Barroso (ambos de tuberculose), deixando o pequeno Ary sob os cuidados das tias e da avó. Com 40 contos de réis no bolso – sua parte na herança de um tio abonado – desembarcou no Rio em 1921, reservando imediatamente acomodações em uma pensão da Rua André Cavalcanti, perto da Lapa, e inscrevendo-se no vestibular para a Faculdade de Direito. Aprovado, demorou oito anos para concluir o curso, trancado diversas vezes por incompatibilidade de horários. 

No carnaval de 1964 a Escola de Samba Império Serrano escolheu como enredo o tema Aquarela do Brasil, cujo samba-enredo começa assim: “Vejam essa maravilha de cenário/É um episódio relicário/Que o artista num sonho genial/Escolheu para este carnaval/E o asfalto, como passarela/Será a tela do Brasil em forma de aquarela”. Pouco antes de a escola pisar na avenida, chegou a notícia: Ary Barroso morreu. Quem assistiu garante que a Império conseguiu, apesar de tudo, fazer um belo carnaval. 


Fonte da imagem: Premio da Música

domingo, 6 de novembro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Resultado de imagem para ary barroso

Considerado por muitos como um dos grandes compositores de sua época, Ary de Resende Barroso, ou simplesmente Ary Barroso, é autor de alguns clássicos da MPB tal qual "Camisa Amarela" e "Aquarela do Brasil". Em sua biografia consta também uma significativa passagem pela radiofonia brasileira a partir de locuções esportivas e programas de calouros. Atuando como locutor esportivo, por muitas vezes, largava o seu posto e o microfone para brigar com juízes em defesa do Flamengo, clube ao qual era extremamente apaixonado. Uma das marcas de suas narrações era a gaitinha que o acompanhava para anunciar a hora do gol como certa vez registrou Moraes Moreira na canção "Vitorioso Flamengo": "A gaitinha vai tocar / Como no tempo de Ari Barroso / Pra comemorar mais um gol! / Desse meu vitorioso flamengo". Como apresentador de programas de calouro, o compositor de Ubá deu início a este ofício em 1947, na Rádio Cruzeiro do Sul, com o programa Calouros em desfiles. Neste programa foi protagonista de momentos inusitados ao avaliar erroneamente calouros que posteriormente viriam a se tornar expressivos nomes dentro de nossa música popular brasileira. Como apresentador de tais programas, há diversas histórias envolvendo o nome de Ary, dentre elas, a da apresentação de uma caloura negra, franzina e de aparência (apesar da pouca idade) bastante sofrida. Ao chegar com um sapato maior que o seu pé, os cabelos mal arrumado, com um vestido desordenado, a pretensa cantora foi olhada dos pés à cabeça pelo apresentador que com sarcasmo soltou a pergunta: "Minha filha, o que você veio fazer aqui?", a caloura então respondeu: "Cantar, seu Ary..."; o apresentador então a questionou com uma pergunta que a desprezava com altivez: "De que planeta você veio?". Sem titubear, aquela que viria a se tornar uma grande cantora pouco tempo depois respondeu: "Do planeta fome". A resposta emudeceu Ary que não teve como gongar aquela menina que passaria a ser conhecida em todo o país como Elza Soares.

Outra passagem interessante ao longo de sua carreira radiofônica se deu com outra caloura que pouco tempo depois viria a se tornar uma das grandes cantoras existente no Brasil: Dalva de Oliveira. Dalva pretendia seguir carreira artística, e tomada por uma coragem não sei de qual origem, acaba por se escrever no temido programa de calouros de Ary. Após a apresentação da pretensa cantora, o apresentador, que sempre buscava polemizar suas opiniões a frente do microfone, sem dó nem piedade sentenciou: “Volte imediatamente ao tanque, de onde nunca deveria ter saído. Vá lavar roupa! A senhora jamais deveria abrir a boca para cantar”. Essas duras palavras proferidas por Ary acabam por entristecer aquela menina que sonhava com os palcos, e tal humilhação, diante de todos, foi um baque, e Dalva acaba por cair em uma profunda melancolia. Por conta de tudo isso, Dalva pela primeira vez, devido a tanta tristeza, ousa duvidar daquele que é o seu maior sonho: cantar. Anos depois, ciente de que havia cometido uma grande injustiça com aquela jovem menina que viria a se tornar uma das grande cantoras da década de 1950, o mesmo Ary Barroso escreve o clássico “Folha morta”, como pedido de desculpas pelo erro cometido tempos atrás. Outro nome que em um primeiro momento foi gongado pelo apresentador foi o Rei do Baião Luiz Gonzaga. Em 1940, no Rio de Janeiro, o pernambucano estava a procura de uma oportunidade nos programas de calouros existentes. Na primeira vez que procurou mostrar o seu talento no programa de Ary Barroso foi reprovado; mas ao persistir em seu sonho, resolveu voltar ao programa do famoso compositor e ao se apresentar novamente , obteve a nota máxima, 5, raramente dada a alguém pelo exigente Ary Barroso.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PAUTA MUSICAL: ARY BARROSO NA INTERPRETAÇÃO DE CONJUNTOS VOCAIS/INSTRUMENTAIS

Por Laura Macedo




Neste post vamos destacar quatro Conjuntos Vocais/Instrumentais: Bando da Lua, Quatro Ases e Um Coringa, Anjos do Inferno e Vocalistas Tropicais, interpretando composições do grande Ary Barroso.



Bando da Lua


Da esquerda para a direita (plano alto): Osvaldo Éboli (Vadeco), Stênio Osório, Hélio Jordão Pereira / (plano baixo): Afonso Osório, Aloysio de Oliveira, Ivo Astolfi.

O primeiro Conjunto Vocal/Instrumental que gravou, em disco (78 rpm/duas faixas),composições de Ary Barroso foi o Bando da Lua.

“Olha a lua” (Ary Barroso) # Bando da Lua. Disco Victor (34.115-A) / Matriz (8028). Gravação (23/11/1936) / Lançamento (dezembro/1936).



“Chiribiribi Quá Quá” (Ary Barroso/Nássara) # Bando da Lua. Disco Victor (34.115-B) / Matriz (80249-1). Gravação (23/11/1936) / Lançamento (dezembro/1936).





Quatro Ases e Um Coringa


Da esquerda para a direita: Esdras Falcão Guimarães [Pijuca], José de Pontes Medeiros, Permínio de Pontes Medeiros, Evenor de Pontes Medeiros, André Batista Vieira [Melé ou Coringa].

Depois do Bando da Lua, a partir do final do ano de 1941, outro grupo Vocal/Instrumental gravaria composições de Ary Barroso: Quatro Ases e Um Coringa, formado no Rio de Janeiro, em 1939. Gravaram do Mestre Ary sete composições.

“Pica-Pau” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12.096-A) / Matriz (6849). Gravação (14/11/1941) / Lançamento (janeiro/1942).



“Batuca negra” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12.221-A) / Matriz (7045). Gravação (1/9/1942) / Lançamento (novembro/1942).



“Terra seca” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco (12.375-A) / Matriz (7387). Gravação (20/9/1943) / Lançamento (novembro/1943).



“Diz que dão” (Ary Barroso) # Quatro Ases e um Coringa. Disco Odeon (12.481-A) / Matriz (7603). Gravação (03/7/1944) / Lançamento (setembro/1944).



“Coisas do carnaval” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12.137-B) / Matriz (6909). Gravação (3/3/1942) / Lançamento (abril/1942).



“Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12.714-B) / Matriz (8053). Gravação (31/5/1946) / Lançamento (agosto/1946).



“Aquarela do Brasil” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12.763-A) / Matriz (8179). Gravação (30/1/1947) / Lançamento (março/1947).




Anjos do Inferno


Da esquerda para a direita [plano alto]: Helio Verri, Léo Vilar (Antônio Fuína) e Roberto Medeiros (Paciência). Ainda da esquerda para a direita [plano baixo]: Harry de Almeida, Aluísio Ferreira (Lulu) e Walther. [componentes identificados com a valiosa ajuda dos pesquisadores/escritores Miguel Nirez Azevedo e Omar Frazão].

Outro Conjunto Vocal/Instrumental que registrou a criação de Ary Barroso, em relação a sua discografia, foi constituído em 1934 e batizado de “Anjos do Inferno” para fazer uma brincadeira em relação ao Grupo de Pixinguinha denominado “Diabos do Céu”. Gravaram quatro composições de Ary Barroso.

“Cinco horas da manhã” (Ary Barroso) # Anjos do Inferno. Disco Columbia (55.399-A) (*) / Matriz (596-2). Gravação (5/1/1943) / Lançamento (janeiro/1943). [* Este disco foi relançado no mês de dezembro de 1943 pela Continental, que adquiriu o acervo da gravadora Columbia – sob o nº 15.034-A].



“Cem por cento brasileira” (Ary Barroso) # Anjos do Inferno. Disco Columbia (55.399-B) (*) / Matriz (597-1). Gravação (5/1/1943) / Lançamento (janeiro/1943). [A observação feita no fonograma acima se aplica aqui, também: ‘Sob o nº 15.034-B].



“Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso) # Anjos do Inferno. Disco Victor (80-0539-B) / Matriz (S-078711). Gravação (31/3/1947) / Lançamento (novembro/1947).



“Aquarela do Brasil” (Ary Barroso) # Anjos do Inferno. Disco Victor (80-0539-A) / Matriz (S-078711). Gravação (31/1/1947) / Lançamento (novembro/1947).




Vocalistas Tropicais


De baixo para cima: Arlindo Borges (solista), Nilo Xavier da Mota, Artur de Oliveira, Raimundo Evandro Jataí de Souza e Danúbio Barbosa Lima.

O quarto Conjunto Vocal/Instrumental “Vocalistas Tropicais” iniciou carreira artística em Fortaleza (CE), em 1941. Gravaram apenas uma composição de Ary Barroso.

“Grave revelação” (Ary Barroso) # Vocalistas Tropicais com Raul de Barros e Seu Ritmo. Disco Odeon (12.827-B) / Matriz (8279). Gravação (8/10/1947) / Lançamento (janeiro/1948).


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Agradecimentos especiais aos escritores/pesquisadores Miguel Nirez Azevedo e Osmar Frazão, bem como os amigos Samuel Machado Filho e Luciano Hortencio, todos integrantes do grupoArquivo Confraria do Chiado (Facebook), pelos esclarecimentos quanto à denominação dos componentes dos Conjuntos Vocais/Instrumentais e ao Nirez, em especial, pela liberação dos fonogramas: “Aquarela do Brasil” e “Na baixa do sapateiro”.
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Fontes:
- Ary Barroso - Brasil Brasileiro / 20 CDs / 316 gravações / 1928/2006, do pesquisador e estudioso da MPB - Omar Jubran. Ano de produção: 2014.
- Banco de Dados do Acervo Nirez: Consulta e liberação de dois fonogramas.
- Edição dos áudios SoundCloud: Laura Macedo.
- Fotomontagem: Laura Macedo.
- Na cadência do samba, de Haroldo Costa. - Rio de Janeiro: Ed. Novas Direções, 2000.
- Site YouTube - Canais: “luciano hortencio”, “SenhorDaVoz”.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

PAUTA MUSICAL: ARY BARROSO - INTERPRETAÇÕES EM PIANO SOLO

Por Laura Macedo



Neste disco 78 rpm temos o grande Ary Barroso interpretando três composições suas, sem parceiros, em piano solo.

“Faceira” / “Foi ela” / “Terra de Iaiá” (Ary Barroso) # Solo de piano do autor com acompanhamento. Disco Victor (34.420-B) / Matriz (80.935). Gravação (16/11/1938) / Lançamento (fevereiro/1939).



Também achei interessante ouvirmos as três composições de Ary Barroso, agora completas, ou seja, letra e música juntas.

“Faceira” (Ary Barroso) # Sílvio Caldas com Orquestra. Disco Victor (33.446-A) / Matriz (65158). Gravação (09/06/1931) / Lançamento (julho/1931).



Ary Barroso compôs esse samba em homenagem ao amigo Sílvio Caldas, que apresentou pela primeira vez, na revista “Brasil do amor”, com o nome de “Gente bamba”. Vale ressaltar, como curiosidade, que este registro é a primeira gravação da RCA-Victor Brasileira.

“Foi ela” (Ary Barroso) # Francisco Alves com Diabos do Céu. Disco Victor (33.880-A) / Matriz (79738-2). Gravação (16/10/1934) / Lançamento (janeiro/1935).



Ary Barroso, com este samba, participou do “Concurso Oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro” do ano de 1935, logrando o 2º lugar. Fez parte da revista musical homônima de Freire Júnior e Luís Iglésias, que estreou no Teatro Recreio. Também foi incluída da revista “Da favela ao Catete”. Integrou a trilha sonora do filme “Alô, alô Brasil”, cabendo ao cantor Francisco Alves a interpretação.

“Terra de Iaiá” (Ary Barroso) # Sílvio Caldas em dueto com Elisa Coelho e Orquestra. Disco Victor (33.463-B) / Matriz (65194). Gravação (14/07/1931) / Lançamento (setembro/1931).


Este samba foi incluído na peça “É do balacobaco”, revista musical de Marques Porto e Vitor Pujol, cuja estreia ocorreu em 25 de junho de 1931, no Teatro Recreio.
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Agradecimentos especiais ao escritor/pesquisador Miguel Nirez Azevedo pela liberação do fonograma “Terra de Iaiá”.
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Fontes:
- Ary Barroso - Brasil Brasileiro / 20 CDs / 316 gravações / 1928/2006, do pesquisador e estudioso da MPB - Omar Jubran. Ano de produção: 2014.
- Banco de Dados do Arquivo Nirez: Fonograma “Terra de Iaiá”.
- Fotomontagem: Laura Macedo.
- Foto Selo/Disco: Eduardo Saragiotto Begnini.
- Site YuoTube / Canais: “SenhorDaVoz”, ‘luciano hortencio”, “N2010R”

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ARY BARROSO, HISTÓRIAS DE UM LOCUTOR-PIRATA

Em 2014 completa-se meia década sem Ary Barroso e o Musicaria Brasil traz esta curiosidade história de sua biografia 

Por Regina Rocha 


Ele chegou a transmitir jogos em cima de um galinheiro




Um dia, depois de tanto criticar o Vasco da Gama, Ary Barroso foi proibido de entrar no estádio São Januário. E para não deixar os ouvintes na mão, o teimoso radialista simplesmente subiu no telhado de um galinheiro ao lado e de lá fez a locução do jogo. Esta não foi a única transmissão clandestina de Ary. De outra vez, novamente impedido de entrar no estádio num jogo de um campeonato sul-americano no Uruguai (outra emissora detinha os direitos de transmitir a partida), Ary não se deu por vencido e hospedou-se num hotel de Buenos Aires, na vizinha Argentina. De lá, sintonizado na rádio Mayrink Veiga, reproduziu a narração, como se ele próprio estivesse no campo. Mais que isso, a certa altura do jogo, passou a acompanhar a transmissão de uma rádio argentina, e foi "traduzindo" a partida. Com esse truque, conseguiu anunciar um gol antes da rádio carioca. No mesmo campeonato do Uruguai, o brasileiro chegou a desmaiar de emoção durante uma partida. 

Em 1944, na decisão do campeonato carioca entre Flamengo e Vasco, Ary estava na cabine de rádio quando aos 41 minutos do segundo tempo saiu o gol que dava o título de tricampeão ao rubronegro. Emocionado, ele abandonou o microfone e foi torcer à beira do gramado. 

Na final da Copa do Mundo de 1950, quando o uruguaio Gighia fez o Maracanã emudecer, Ary Barroso emudeceu, chorou e deu por encerrada suas transmissões futebolísticas. Acabou voltando, dois anos depois. 

Compositor prolífico, não escondia que sua maior paixão era mesmo o futebol... Flamenguista doente, torcedor fanático, marcou a história da locução esportiva no país por sua personalidade e também por inovações criativas. Exemplo: Ary foi o primeiro repórter de campo, desses de microfone em punho em busca da primeira declaração do goleador. Até então nenhum profissional saía da cabine de rádio.

Sua marca era uma indefectível gaitinha de boca, dessas agudas de criança, que ele adquiriu numa loja de instrumentos, e que tocava sempre que se fazia um gol. Bem, quase sempre...porque, se o gol era do Flamengo, a gaitinha soava forte e musical; o mesmo não acontecia quando era gol contra o seu time do coração. Mas também, ora essa, Ary nunca tinha escondido dos ouvintes sua tendência a torcedor rubro-negro. Quando transmitia jogos de seu time, os ouvintes já nem estranhavam se a figura invadia o campo pra xingar o juiz, abandonava o microfone para incentivar os jogadores ou mesmo emprestava sua gravata pra servir de tala pra um jogador chamado Jaú, que machucou a clavícula num lance contra um time inimigo.

Tem ainda mais uma história bem engraçada, envolvendo uma aposta feita pelo flameguista Ary e outro compositor, o fluminense Haroldo Barbosa. Como conta o escritor Ruy Castro: "Em 1953 ou 1954, os dois apostaram o bigode num Fla-Flu. Quem perdesse teria o bigode raspado pelo outro, com imprensa e tudo. Haroldo ganhou, e a história, anos depois, acabou num samba: "Flamengo já parou de perder por aí / Eu vi o Haroldo Barbosa raspar o bigode do Ary. / Às vezes, com dez homens ele vence / Mas, também com onze, perdeu para o Fluminense".

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CAIXA COM GRAVAÇÕES ORIGINAIS DE ARY BARROSO SAI APÓS ANOS SEM PATROCÍNIO

Por Lucas Nobile

A partir dos anos 1930, Ary Barroso (1903-1964) ficou conhecido não apenas por seus sucessos musicais, mas também pela fama de carrasco que construiu ao comandar o programa Calouros em Desfile. Ranzinza, reprovou nomes como Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves e Ângela Maria, além de ridicularizar tantos outros, como Elza Soares e Vinicius de Moraes.
Ironia do destino, o mineiro de Ubá, autor de clássicos como Aquarela do Brasil, No Rancho Fundo, Risque, Na Baixa do Sapateiro, Morena Boca de Ouro, É Luxo Só e  Pra Machucar Meu Coração, não poderia imaginar que sua obra seria de certa forma “gongada” por seu próprio país durante muito tempo.
Em novembro, mês que marcam os 110 anos de seu nascimento, as primeiras gravações de seu cancioneiro serão lançadas após uma batalha de mais de sete anos em busca de patrocínio.
O pesquisador Omar Jubran, que organizou e remasterizou as gravações originais de todas as músicas do compositor, chegou a um acordo na última segunda-feira com o Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, para lançar uma caixa com 20 CDs, batizada deAry Barroso – Brasil Brasileiro.
O box, que teria tiragem inicial de 2 mil cópias (se o valor captado em patrocínio fosse suficiente), sairá com mil. Serão 316 das 321 músicas de Ary Barroso, já que cinco desses fonogramas não foram localizados. Omar Jubran levanta a hipótese de que tais canções foram de fato compostas, segundo levantamento do cancioneiro de Ary, mas podem não ter sido prensadas e lançadas.
“Trabalhos como este estão na essência do Museu da Imagem e do Som: a recuperação de um dos maiores compositores do País, com obra tão brilhante”, diz André Sturm, diretor-executivo do MIS.


Segundo Sturm, essas primeiras cópias serão distribuídas pelo MIS. Uma parte irá para instituições do estado de São Paulo parceiras da Secretaria de Estado da Cultura, e, outra, ficará no museu para uso cultural. Foi feito um acordo, dizendo que a Novodisc (selo que fabrica os CDs de Jubran) poderá fazer quantas outras edições quiser por sua conta desde que conste que o projeto recebeu apoio do MIS e da Secretaria do Estado da Cultura. O preço do box para o público ainda não foi definido.

O projeto, que teve autorização do Ministério da Cultura para captar cerca de R$ 1 milhão via Lei Rouanet, receberá verba do MIS, mas também aguarda investimentos de mais um patrocinador. Negociações com o herdeiro de Ary Barroso, o neto, Márcio Barroso, e com as editoras estão encaminhadas, restam apenas alguns acordos com gravadoras.


Aos 60 anos, Jubran, que é biólogo aposentado, espera pela viabilização da caixa desde 2006, ano em que concluiu todo o trabalho sobre Ary, iniciado por ele em 1996. Imaginava-se que haveria um interesse maior pelo projeto por parte de investidores, já que, em 2000, o pesquisador havia mostrado suas credenciais ao lançar o elogiado Noel Pela Primeira Vez, box que trazia 14 CDs com as primeiras gravações de Noel Rosa (1910-1937) remasterizadas.



Em 2004, o selo Revivendo já havia compilado parte da obra de Ary em seis CDs, mas o trabalho de Jubran tem fôlego maior. “Já escolado, no fundo, vejo que não há interesse e boa vontade. O trabalho feito sobre o Noel foi parar até na biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Todo mundo sabia do meu trabalho com o Ary, mas este é um País sem memória”, diz Jubran.

“Há quem possa (ajudar). Bancos, montadoras, mas não se interessa. Eu costumo dizer que isso é dinheiro de pinga para eles. Eu já estava desanimado sobre lançar este projeto. Faço por puro diletantismo, sem esperar algo em troca. No centenário do Ary, o máximo que me deram foi um ‘parabéns’ pelo projeto”, completa o pesquisador, que recebeu negativas de mais de dez empresas ao longo do caminho.

Nos moldes do que foi feito com Noel Rosa, além das primeiras gravações de 316 músicas de Ary Barroso, a caixa trará também um livro com informações relacionadas às canções: todas as letras, ano de gravação de cada uma delas, levantamento das músicas por gênero, nome das gravadoras pelas quais foram registrados os fonogramas, histórias e curiosidades sobre Ary e suas criações.

No time dos intérpretes, nomes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Aracy de Almeida, Jamelão, Orlando Silva, além de Ângela Maria e Moacyr Franco. E ainda gravações menos conhecidas, como as de um disco que Ary gravou no México, e outra, a de Semente do Amor, retirada da trilha de Três Colegas de Batina, filme em que o compositor atuou com o Trio Irakitan no início dos anos 1960.

Todo o material foi não só compilado como remasterizado individualmente por Jubran. “Dá um trabalho danado você remasterizar, melhorando a qualidade do som, mas sem perder a fidelidade”, comenta o pesquisador autodidata em relação às técnicas de recuperação sonora. “Aprendi tudo sozinho. No começo, era complicado. Uma mídia virgem custava US$ 15, e, se algo dava errado, você jogava um bom dinheiro fora”, completa Jubran.

“Não sou um entusiasta do Ary Barroso, que muito deve aos arranjos e às orquestrações do Radamés Gnattali, mas louvo o trabalho do Jubran. É um trabalho de relojoeiro, e muito necessário, esse de recuperar com os recursos de hoje as gravações daquela época, que tinham suas deficiências”, diz o pesquisador e crítico musical José Ramos Tinhorão.



Próximas etapas serão Lamartine, Adoniran e carnaval

Depois de compilar e remasterizar as primeiras gravações de Noel e Ary, Omar Jubran repete o feito com as obras de Lamartine Babo (1904-1963) e de Adoniran Barbosa (1910-1982).

O trabalho sobre as cerca de 230 canções de Lamartine foi finalizado em julho deste ano e, sem patrocínio, ainda não tem previsão de lançamento. ,

“Como essas coisas não me cobram muito compromisso, vou fazendo com calma. O Noel levou 13 anos, o Ary, dez. O Lamartine foi um pouquinho menos, trabalhei nele de 2006 a 2013”, conta Jubran.

O pesquisador, que faz todo o trabalho de remasterização em seu apartamento, em Pinheiros, também tem um projeto finalizado sobre a história do carnaval carioca.

A caixa, com mais de 300 músicas divididas em 27 CDs, compreende um período que vai desde o início de 1899, quando Chiquinha Gonzaga compõe Ó Abre Alas, até a produção de meados dos anos 1970.

“Esse projeto, para o qual ainda esperamos patrocínio também, pode ser mais fácil de conseguir, pois marchinhas e essa história de carnaval fazem mais parte do cotidiano das pessoas”, diz Lucas Sacay, diretor-geral do selo Novodisc, que fabrica os projetos de Jubran.

O próximo projeto de resgate do pesquisador, sobre as primeiras gravações das músicas de Adoniran Barbosa, já foi iniciado. “Resolvi ter três filhos: o Noel, o Ary e o Lamartine, que são três pilares dos quais todo mundo depois bebeu. Do Adoniran, devo ter quase todo o material, não deve demorar tanto tempo para ser finalizado. Tem bastante coisa interessante, que muita gente não conhece”, diz Jubran, que tem um acervo particular de cerca de 15 mil discos.



Menos conhecidas de Ary

Dona Alice
A canção foi gravada pelo ator argentino Palitos. É um dos exemplos da recuperação das composições de Ary para o teatro de revista

Semente do Amor
A música, que não chegou a ser lançada em disco, foi pinçada do filme Três Colegas de Batina, interpretada pelo Trio Irakitan em 1962

Amor Fatal
Fox inédito, encontrado em uma partitura incompleta, sem letra, foi gravado em versão instrumental pela primeira vez pela pianista Janete Alonso

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