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domingo, 19 de maio de 2019

ODAIR JOSÉ CONVIDA À DESOBEDIÊNCIA COM NOVO CD DA TRILOGIA ROQUEIRA

Em 'Hibernar na casa das moças ouvindo rádio', cantor dá seu recado contra uma época em que 'não se podia nada'


Por Mariana Peixoto 


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Já imaginou um show de Odair José sem Uma vida só (Pare de tomar a pílula)? É a mesma coisa que assistir a Roberto Carlos subir a um palco sem cantar Emoções. Pois, aos 70 anos, o cantor e compositor goiano quer, acima de tudo, coerência.

No próximo dia 3, ele estreia em São Paulo Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, show do álbum homônimo. Recém-chegado às plataformas digitais e lojas físicas, o 37º disco de uma carreira que soma 49 anos traz o conceito de uma ópera-rock.

Odair criou um universo de personagens que se encontram numa “casa de tolerância” onde tudo é permitido, desde que devidamente combinado. “Fiz isso justamente porque aqui fora não se pode nada. Este disco é um convite à desobediência. E, cara, eu não posso mandar uma prostituta parar de tomar a pílula”, diz ele, explicando a ausência de seu maior hit no repertório do show.

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio é mais uma agradável surpresa para a geração que descobriu o velho artista brega nesta década. O trabalho encerra a trilogia roqueira de Odair (que, vale dizer, era roqueiro muito antes de os novos fãs sequer terem nascido) iniciada com Dia 16 (2015), cuja sequência foi Gatos e ratos (2016).

Com a mesma banda dos trabalhos anteriores, Odair desfia sua crônica urbana direta e simples, que versa, boa parte das vezes, sobre excluídos. “Sinto-me um estrangeiro na esquina da minha casa, pois está sempre um querendo falar da vida do outro, com muito preconceito bobo. Isto é uma forma de se sentir um estrangeiro, não se sentir muito à vontade”, diz.



ESPERA

O título do álbum é, na verdade, a união do título das três primeiras das 11 faixas do disco: Hibernar (rock clássico, com ecos de iê-iê-iê), Na casa das moças (blues) e Ouvindo rádio (outro rock que bebe na fonte dos anos 1970). “Vou me hibernar por um tempo, me avise quando a cena mudar. O mundo está de ponta cabeça, espera ele aprumar”, são os versos iniciais cantados por Odair.

O apresentador, cantor e compositor Luiz Thunderbird atua no disco como uma espécie de MC. Antes de Hibernar, por exemplo, ouvimos sua voz como a de um velho locutor de rádio avisando da hibernação de Odair. Thunderbird retorna em algumas faixas, colocando o ouvinte a par das andanças do compositor/personagem.

O disco continua com canções como Rapaz caipira – “Está vivendo no centro de um furacão, onde a realidade é mera ilusão” –, O imigrante mochileiro – “Sou um visitante, sou um mochileiro, eu estou aqui apenas de passagem”, – Fetiche – “Tapa na cara, beijo na boca, tô numa transa louca” e Gang bang – “Tem uma moça na roda e rola um gang bang”. A narrativa vai convergir na última faixa, Liberdade, a única balada do disco – “Vai ser tudo de graça, e vai ter muita fartura, já tem gente na praça, esperando a abertura”.


O “novo” Odair mantém seu público fiel de outrora – tem um show só de hits. Mas é também figura fácil no cenário independente, “o pessoal de festival, de projetos culturais”, como ele diz. Tanto que o disco traz convidados que seriam improváveis tempos atrás.

Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi, coloca seu vozeirão grave a cargo do rock O imigrante mochileiro, uma das melhores faixas do disco. Também integrante da banda pernambucana, o percussionista Toca Ogan participou de Rapaz caipira e Assucena Assucena e Raquel Virginia, cantoras do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, fazem uma participação discreta em Chumbo grosso, a mais irônica das canções do disco – “Quem andar errado vai levar chumbo grosso”.

Odair comenta que começou a pensar em Hibernar durante a feitura de Gatos e ratos. “A forma de compor, com essa guitarra de garagem, é muito presente na minha carreira. Eu tinha vontade de fazer um trabalho com qualidade acima do que tenho conseguido”, explica.

AMEAÇAS E havia ainda a intenção de ligar a história de agora com um dos períodos mais difíceis da carreira de Odair. Em 1977, ele lançou a ópera-rock O filho de José e Maria. Originalmente, o álbum teria 18 canções, mas, como a censura caiu de pau, só 10 foram liberadas. Odair, um dos artistas mais populares da época, tornou-se também um dos mais censurados (só perdeu para Chico Buarque). Mesmo cortado quase pela metade, o trabalho foi condenado, não tocou em lugar nenhum e o cantor foi ameaçado de excomunhão pela Igreja Católica.

Hoje cultuado, o álbum O filho de José e Maria, gravado com o trio de jazz Azymuth, foi recuperado em uma série de shows que Odair fez em 2018 (com o próprio Azymuth). Hoje em dia, volta e meia ele sobe ao palco para cantar a história de um Jesus que descobre a sexualidade e se envolve com drogas. “Este trabalho me criou muitas dificuldades a ‘nível de’ mídia e de aceitação das pessoas. (Depois dele) Fiquei meio fragilizado, me escondi, e acho que Hibernar vem agora completar aquilo que fiz no passado, já que convida para desobedecer a falsa moral e a hipocrisia estabelecidas no país.”

O rádio foi o principal meio de comunicação de Odair com seu público. Mesmo que ele seja também um personagem do novo álbum, o cantor admite que, atualmente, pouco ouve rádio. “Nem sei se minhas músicas tocam hoje. Gostaria que tocassem. Mas desisti desse tipo de trabalho, ficar indo a rádio pedindo para programarem meus discos. Chega uma hora na carreira em que a gente tem que ceder. E o rádio mudou muito”, comenta ele, que gostaria de ver Rapaz caipira tocando nas emissoras.

Odair começa agora o novo show e espera chegar em breve a Belo Horizonte – cidade que, segundo ele, está sempre no topo das preferências quando pensa em sair de São Paulo. Depois do rock, ele não sabe o que virá.

Mas há boas perspectivas em vista. Uma parceria também improvável se concretizou recentemente, graças ao cinema. Odair se uniu a Arnaldo Antunes para compor a trilha sonora da comédia romântica Meu álbum de amores, longa-metragem de Rafael Gomes ainda sem data de lançamento prevista. A dupla compôs seis canções.

“Recebi os temas dos personagens, fiz as melodias e dei um pontapé nas letras. O Arnaldo terminou todas. Eu passava a ideia, e ele me devolvia a música de forma grandiosa”, conta ele. Odair adianta que os dois cantam no filme somente uma, a canção-título. “Com o lance do filme, possivelmente vamos lançar um disco. É para o ano que vem, a possibilidade é de 70%.”


Hibernar na casa das moças ouvindo rádio
• Odair José
• Monstro Discos
• Disponível nas plataformas digitais e em CD (R$ 20)

terça-feira, 28 de agosto de 2018

ODAIR JOSÉ, 70 ANOS

Músico é considerado porta-voz das empregadas, prostitutas, homossexuais e outras minorias discriminadas.

Por Raphael Vidigal


Novidades. Disco de inéditas do cantor vai trazer 11 faixas autorais


Todas as músicas de sucesso do repertório de Odair José foram lançadas por ele na década de 70. Algumas resistiram ao tempo, como “Pare de Tomar a Pílula”, “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, “A Noite Mais Linda do Mundo” e “Cadê Você”, entre outras, e são cantadas a plenos pulmões por jovens de uma geração que mudou o status do ídolo: ele passou de brega a cult. 

Prestes a completar 70 anos – o aniversário é nesta quinta, dia 16 –, o intérprete, que até hoje é conhecido como “o cantor da pílula”, quer voltar ao passado de glórias. “Eu voltei a ser o que era, sou o Odair dos 70, mas é da década de 70”, brinca. A mudança, segundo ele, tem a ver com uma tomada de consciência que interferiu diretamente em seu processo de composição. 

“O ano de 1973 foi o ‘ano Odair José’. Todas as músicas daquele disco fizeram sucesso e tocaram no rádio, o que é uma coisa muito rara. Mas isso aconteceu porque eram músicas verdadeiras, úteis, com conteúdo. Dos anos 80 a 2000, meus álbuns foram irrelevantes, em cima do muro”, pondera. A nova atitude norteia o álbum “Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio”. 

O primeiro trabalho de inéditas desde “Gatos e Ratos” (2016) está previsto para chegar à praça em novembro, e traz 11 faixas autorais, entre elas as três que o batizam: “Hibernar”, “Na Casa das Moças” e “Ouvindo Rádio”. “O conceito do disco é que eu estou hibernando na casa das moças, ou seja, um prostíbulo, onde todos os fetiches são liberados: sexuais e no uso de drogas e bebidas. E tudo chega pelo rádio, as conversas sobre política e o que acontece no mundo”, diz o músico.

Rótulos. Apesar do êxito comercial, Odair se acostumou a conviver, ao longo de sua trajetória, com uma série de polêmicas. Convidado por Caetano Veloso para se apresentar com o baiano no Phono 73 (festival de música realizado no Anhembi, em São Paulo), foi vaiado pelo público. A ópera-rock “O Filho de José e Maria”, de 1977, o levou a ser excomungado pela Igreja Católica, porque o protagonista usava drogas e tinha dúvidas a respeito da própria orientação sexual.

Como se não bastasse, Odair foi o segundo artista com mais músicas censuradas pela ditadura militar, atrás apenas de Chico Buarque. Nada disso, porém, o incomodou tanto quanto o rótulo de “brega”. “Acho de mau gosto chamar a música dos outros de brega, o olhar preconceituoso é horrível”, critica. Em 2018, porém, a luta de Odair contra a discriminação foi compensada. Ele recebeu o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade, organizado pelo movimento LGBT de São Paulo, cidade que o goiano escolheu há três décadas para viver. 

“Sempre defendi a prostituta, a empregada, o homossexual, o cara que fuma maconha. A pior censura é a dos hipócritas. Eu gosto de falar de coisas atrevidas, porque estamos num momento de muita intolerância e hipocrisia”, finaliza Odair.


Cantor fala do início e da política atual

Embora não seja um conhecedor de numerologia, fato é que Odair José tinha 7 anos quando ganhou o seu primeiro instrumento musical. Foi com essa idade que ele recebeu de presente de aniversário o cavaquinho que guarda até hoje. Em seguida, passou para o violão. “Nunca tive nenhum ídolo cantor, sempre admirei o guitarrista ou o compositor. Achava o Tom Jobim o máximo. Eu não fazia aquele tipo de música porque não sabia”, conta Odair. 

Beatles, Luiz Gonzaga, Led Zeppelin, Emilinha Borba, Frank Sinatra, Tonico & Tinoco e Roberto Carlos chegavam na casa do garoto por meio do rádio, em Morretes, no interior de Goiás. Atualmente, ele têm preferido a internet. “O melhor do momento são os alternativos, que estão fora da mídia”, afirma. Atração do Festival Lula Livre, no Rio, ele se diz “preocupado com o futuro”. “Sou povo e tenho minha opinião, acho que o Lula está sendo injustiçado”, conclui.



Discos célebres
“Assim Sou Eu...”, de 1972, trazia o sucesso “Esta Noite Você Vai Ter que Ser Minha”.
“Odair José”, lançado em 1973, colocou as 12 faixas no rádio, como “Pare de Tomar a Pílula”.
“Lembranças”, de 1974, emplacou a romântica “A Noite Mais Linda do Mundo”.
“Odair”, de 1975, tem arranjos de Luiz Cláudio Ramos, músico que acompanha Chico Buarque.
“O Filho de José e Maria”, de 1977, foi a ópera-rock que lhe rendeu uma excomungação.

sábado, 27 de maio de 2017

ODAIR JOSE - FILHO DE JOSE E MARIA (AO VIVO)


Trinta e seis anos após o lançamento de O Filho de José e Maria, Odair José sobe ao palco do Theatro Municipal de São Paulo para apresentar todas as faixas do disco, considerado o mais polêmico de sua carreira.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ODAIR JOSÉ FOI UM DOS ARTISTAS MAIS PERSEGUIDOS NA DITADURA, DIZ ESTUDO

Em dissertação, pesquisador mostra que o compositor goiano sofria com a censura no período por causa de suas suas letras contra o preconceito e o moralismo

Por Breno Pessoa 


Odair José teve cerca de 40 letras vetadas em suas versões originais por causa das críticas às elites e por falar de relacionamentos "pouco convenientes" 


Quando pensamos em artistas brasileiros que foram perseguidos pela ditadura, rapidamente surgem os nomes de Chico Buarque, Gonzaguinha, Taiguara e outros. Menos lembrados, músicos populares como Odair José acabaram sofrendo censura não por questões políticas, mas morais, que interferiram igualmente na produção musical dos anos 1970. Passado o período de repressão criativa, o cantor e compositor romântico enxerga retorno ao conservadorismo no país, tema presente no recém-lançado Gatos e ratos (Independente, 10 faixas, R$ 25).

Musical mostra que o Odair José extrapola os clichês associados à cafonice Se, durante quase toda a carreira, Odair José teve a obra reduzida ao que se convencionou chamar de brega, rótulo que ele descarta, o músico tem enveredado cada vez mais pelo rock, como no mais recente trabalho. As incursões pelo gênero, no entanto, não são novidade, já que em 1977 lançou o álbum que é considerado a primeira ópera-rock nacional, O filho de José e Maria. Em Gatos e ratos, o artista mais uma vez retorna ao som mais cru e básico, guiado pela guitarra, baixo, bateria. Nas letras, ataques ao preconceito, às elites moralistas e, até mesmo, aos impostos pagos pela população.

Odair foi um dos artistas mais perseguidos nos anos 1970, por conta da Lei da Censura na ditadura. A extensiva atenção que os censores dedicavam às letras dele foi analisada pelo pesquisador Ivan Lima, na dissertação de mestrado em história “Ame, assuma e consuma: Canções, censura e crônicas sociais no Brasil de Odair José (1972-1979)”. “O que me chamou a atenção foi o número de reincidências. Ele foi muito censurado”.

Estima-se que pelo menos 40 letras foram vetadas em sua versão original. Na maioria dos casos, a participação de advogados das gravadoras e modificações nas canções garantiam liberação posterior. Mas algumas sanções foram mais severas, explica Lima. “Vou tirar você desse lugar (1972), por exemplo, saiu apenas em compacto”, diz o historiador, explicando que, embora tenha passado despercebida pelos censores inicialmente, a música acabou não entrando no disco seguinte do autor, como seria o esperado, já que a faixa foi grande sucesso na época. Algo parecido ocorreu com O filho de José e Maria, que acabou sendo recolhido pela gravadora e levando o músico a ser demitido.

“Através das letras desse artista, estabelecemos uma análise do país em um momento de repressão moral e política e de radicalização também no meio artístico”, analisa Lima na dissertação. “Aspectos do cotidiano popular, das relações amorosas, polêmicas sociais, transgressões morais e censura foram características essenciais dessa obra”, aponta.


HISTÓRIAS DE PROIBIÇÃO


Algumas das canções

» A primeira noite
A perseguição levou o músico a objetar várias das proibições impostas, ao ponto do músico procurar,
em 1974, o general Golbery Couto e Silva, chefe de gabinete civil de Geisel, para discutir sobre a situação. Sem sucesso nas negociações, Odair José mudou a letra de A primeira noite, vetada também por ser considerada de moral duvidosa para os jovens. A faixa acabou sendo modificada, inclusive 
no título, que virou Noite de desejo.

» Amantes
Outro caso foi a música Amantes, que teve o veto justificado no documento por conta da “Ligação Amorosa Irregular e comentários pouco convenientes”. Para Lima, “essas argumentações evidenciam a censura ao que fosse moralmente condenável. O casamento como instituição é atribuído como algo que não podia ser arranhado”. O pesquisador lembra também que o divórcio ainda não era legalmente instituído em 1974.

» Em qualquer lugar
Nem sempre as mudanças no conteúdo ou negociações com o DCDP garantiam aprovação de letras inicialmente vetadas. Em qualquer lugar é um dos exemplos: a letra foi analisada por 12 diferentes censores em quatro processos distintos e, em 15 de junho de 1973, o parecer definitivo do órgão proibiu a gravação. 
O problema alegado era conteúdo, considerado imoral, sugerindo a prática sexual em qualquer ambiente

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

MAIS ROQUEIRO DO QUE NUNCA, ODAIR JOSÉ ATACA O CONSERVADORISMO NO BRASIL: ''ESTOU COM AS MINORIAS''

Em seu novo CD, compositor quer despertar o povo brasileiro com canções sobre homofobia, drogas, violência e outros temas polêmicos

Por Pedro Galvão




O rótulo de cantor brega ele rejeita com veemência. Para alguns, é o “Paul McCartney brasileiro”, enquanto outros o definem como “o terror das empregadas”. O fato é que Odair José consolidou sua carreira falando sobre temas polêmicos nos momentos em que poucos tiveram essa coragem.

Censurado em algumas canções pelo governo militar e perseguido pela Igreja Católica por conta do disco Filho de José e Maria, na década de 1970, o compositor volta a problematizar o cotidiano no recém-lançado Gatos e ratos, o 34º álbum de sua discografia.

Para quem associa esse goiano, de 68 anos, apenas à imagem do cantor de músicas românticas e melosas, o novo CD é um soco no ouvido. Pesado nas melodias e conceitual nas letras, ele mostra justamente o contrário: um Odair roqueiro e questionador. “Não estamos vivendo o momento de falar sobre ir para a balada ou de um amor mal sucedido”, avisa.

Gatos e ratos foi lançado apenas um ano depois de 16, último disco de Odair. Assim ele explica o pequeno intervalo entre os dois trabalhos: “Era a necessidade de um compositor fazer alguma coisa para despertar um povo que está adormecido por fáceis e falsas informações”. O resultado são 10 canções sobre problemas e incoerências da sociedade brasileira.

O repertório não tem dor de cotovelo nem letras de amor. Com muitas figuras de linguagem, as letras falam sobre homofobia (Moral imoral), abuso das drogas (Açúcar mascavo), violência no trânsito (Trânsito), questiona impostos abusivos (Cobrador de impostos) e desigualdades sociais (Carne crua). Segundo ele, gatos e ratos, presentes também na arte da capa, são metáforas do antagonismo entre a “elite alienada em sua zona de conforto” e as classes desprovidas de privilégios.


Politicamente correto sim

Nestes tempos de embates ideológicos, Odair não teme a reprovação dos fãs mais conservadores. “Nesta idade, não tenho medo de colocar o pescoço na guilhotina. Não fiz um disco partidário, de jeito nenhum. Apenas falo sobre coisas que gostaria que o brasileiro repensasse”, garante.

Nesse sentido, é enfático ao dizer de que lado ficou na construção de um discurso politicamente correto: “Com certeza, estou com as minorias. Está tudo errado e temos que consertar isso, quero que cada um viva no seu quadrado, mas sempre respeitando as diferenças dos outros”.

Com vasto repertório que, no passado, tocou em temas delicados – sexo, drogas e prostituição –, Odair diz que seu único arrependimento foi não ter se posicionado mais em alguns momentos, especialmente após o lançamento do criticado O filho de José e Maria, em 1977. “Meu maior erro foi ficar em cima do muro. Depois desse disco, bateram o pé para mim e passei 20 anos fazendo um trabalho de merda, sem falar nada relevante”, assume.

Além do teor das letras, o novo CD chama a atenção pelo som bem mais pesado do que a maioria de seus trabalhos. Solos de guitarra, riffs e distorções aparecem em quase todas as faixas. Com inspiração declarada no primeiro álbum de Paul McCartney fora dos Beatles, a sonoridade traz referências do rock dos anos 1970.

Em Livre, a faixa de seis minutos que encerra o disco, ele explora ritmos mais psicodélicos como fundo para a letra que questiona as liberdades que as pessoas acreditam ter.

Mais roqueiro à medida que envelhece, Odair ainda não chegou a seu objetivo musical, apesar de os últimos trabalhos terem ficado cada vez mais agitados. “O que quero, mesmo, é o formato de bandinha crua”, explica, referindo-se ao trio guitarra, baixo e bateria, apenas com um teclado intruso.

Ele promete “pesar mais a mão” nos próximos lançamentos “O rock não precisava nem do som, só da atitude. Sou um cara de rua. Se o Roberto (Carlos) era o cantor das famílias, eu era o dos bares. Musicalmente, minha intenção é desarrumar a casa”, avisa.

A turnê de lançamento de Gatos e ratos vai começar em janeiro, ainda sem data para Belo Horizonte. “Vou ter o cuidado de avisar que é o lançamento de um disco novo. Não posso incluir neste show música que não tenha a ver com proposta. Não vou cantar sucessos antigos só porque o público gosta”, garante. A versão física do álbum já chegou às lojas. O formato digital está disponível no Spotify.


Três perguntas para...

Odair José
Cantor e compositor

Por que você disse que seu novo disco é um despertador para pessoas que estão adormecidas devido a falsas e fáceis informações?

O povo se apega muito fácil ao que é mais confortável. É aquela ideia de “se não vai ser contra mim, não importa se vai ser ruim pra todo mundo”. Isso é o fácil. As pessoas deveriam buscar a informação difícil, que nem sempre é a conveniente. A falsa nos dá aquilo que queremos ouvir. Estamos vivendo em uma época que dizem: “estão fazendo errado”, “estão nos prejudicando”, mas não estão tendo a visão honesta do que estão fazendo. No Brasil, aceitamos isso como se não fosse com a gente. Queria ser um despertador nesse sentido. Por isso cutuquei, e acho até que deveria ter cutucado mais. Sem querer ser a palmatória de nada, temos que ficar atentos. O que acontece lá em cima, na política, é reflexo do que fazemos aqui em baixo.


Nesse sentido, quem apoiou o impeachment de Dilma Rousseff estaria “adormecido”?

Sim. O Brasil era uma carreta possante e desgovernada descendo a ladeira. Uma freada brusca ia provocar capotagem – e não parar a carreta. Em 2014, quando teve a campanha, manifestei minha preocupação com a reeleição da Dilma, porque previa que aquilo não ia dar certo, achava que ia ganhar e não ia levar. Tomara que esteja errado, mas não vai adiantar quase nada disso aí (o impeachment). Estamos caminhando da mesma forma, com os mesmos perigos. A coisa está muito mais difícil, culpa da informação falsa e fácil – “tira a mulher que conserta tudo”. Não é assim. Embora a postura dela sempre tenha me incomodado pelo pouco diálogo, mesmo não sendo partidário, não estou vendo novidade nenhuma depois da saída dela. O povo brasileiro tem que ficar esperto, pois a coisa pode feder mais que já fedeu.


Em 1977, quando você lançou O filho de José e Maria, o disco chegou a ser censurado e a Igreja Católica te perseguiu. Quarenta anos depois, há forte escalada da igreja evangélica, inclusive na política. Como você vê isso?

Fico impressionado com políticos ou pastores querendo oprimir a opção sexual das pessoas. Isso não é certo há 2.000 anos. Não gosto disso. Acho muito bonito a pessoa ter a sua fé, mas temos que procurar melhorar a nossa vida sem nos apegarmos à religião. Alguém já disse que se mede a cultura de um povo pos seu nível de religiosidade. Não digo que não tem que ter religião, sei que na hora do aperto as pessoas se apegam a ela. Porém, não aceito e tenho medo do uso da religião para se chegar ao poder. Isso é perigoso. É de novo aquela fácil informação: “O pastor disse que isso é bom”... Malandro, procure saber se é bom mesmo!





GATOS E RATOS
De Odair José 
Canal 3 
Preço médio: R$ 21,90 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

ODAIR JOSÉ LANÇA 'DIA 16', DISCO COM PEGADA ROCK'N'ROLL

No novo álbum, cantor flerta com o folk rock, gospel e country americano

Por Kiko Ferreira



O goiano Odair José tem, em sua obra, alguns versos lapidares. Nessa categoria está a máxima: “Felicidade não existe. O que existe na vida são momentos felizes”. E o autor de 'Cadê você', 'Essa noite você vai ter que ser minha', 'Eu vou tirar você desse lugar' e outros hits popularíssimos dos anos 1970 e 1980 está num destes momentos de bonança na carreira.

Com 35 discos e mais de 400 músicas compostas e gravadas, acaba de lançar 'Dia 16', sucessor do álbum 'Praça Tiradentes', em que Zeca Baleiro e Rossana Decelso promoveram sua inclusão no lado A da indústria fonográfica do terceiro milênio.

Com uma pegada mais rock’n’roll, explicitada na levada AC/DC da música título, Odair flerta com o folk rock e gospel ('Deixa rolar'), apresenta sinais de country americano ('Sem compromisso'), demonstra ter ouvido Erasmo Carlos e o amigo de primeira hora Raul Seixas ('Começar do zero', 'Encontro'), emula Mick Jagger e Keith Richards ('Fera', faixa que ficou de fora da célebre e cult ópera rock 'O filho de José e Maria') e justifica o apelido de Bob Dylan da Praça Tiradentes ('A moça e o velho').

As letras, como sempre diretas, sem meias ou difíceis palavras, tratam de temas como o amor de mãe ('Lembro'), um amor pessoal vivido num morro carioca ('Morro do Vidigal'), casos diferentes de fim de caso ('Me desculpe', 'Sai de mim'), uma proposta explícita de amor a qualquer custo ('Sem compromisso') e, ao final, três minutos de Cores beatlemaníacas.

Com o refrão festeiro “hoje vai chover/ hoje a casa cai”, celebrado na música 'Dia 16', Odair José reassume seu posto de ícone popular. E reencontra as raízes musicais roqueiras, cultivadas na adolescência, quando montou a banda Monft para tocar Beatles, Stones e Animals, para alegria das novas gerações, que, assim como fizeram com Reginaldo Rossi, Márcio Greyck e outros músicos outrora restritos à prateleira do brega, o veneram como ídolo e fonte de inspiração.


SINAL DOS TEMPOS 

Nascido em 16 de agosto de 1948, em Morrinhos, interior de Goiás, Odair José Araújo chegou a tocar música caipira na adolescência. Montou banda de rock e, na mudança para o Rio de Janeiro, em 1968, começou a tocar em circos, bares e inferninhos. A observação da vida noturna fez com que se tornasse um cronista das moças de vida fácil e difícil.

Gravou dois discos na CBS, em 1970 e 1972, com parte do repertório feita por compositores que vieram da Jovem Guarda, como Rossini Pinto e Getúlio Côrtes. E registrou, no primeiro, a faixa Tudo acabado, do amigo Raulzito, que em breve estouraria como o maluco beleza Raul Seixas.

Foi a partir da ida para a Philips (hoje Universal) que conheceu o sucesso popular. O compacto com Eu vou tirar você deste lugar vendeu mais de 1 milhão de cópias, e Odair passou a integrar o time de artistas que falavam diretamente às camadas mais populares, ao lado de Cláudia Barroso, Agnaldo Timóteo, Fernando Mendes, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e outros habituais campeões de audiência em parques de diversões, quartos de empregada e bares de beira de estrada.

Enquanto Chico Buarque, Caetano, Gil, Milton e Tom Jobim sofisticavam a poesia da MPB, com letras bem construídas e metáforas para driblar a censura da ditadura, Odair ia direto aos assuntos. E batia direto nos corações românticos com versos como “vamos viver nessa noite/ a vida inteira num segredo” (A noite mais linda do mundo), “meus olhos procuram achar teu sorriso em toda cidade/ nem mesmo sorrindo consigo fugir dessa minha saudade” (Sem saída), ou “eu quero que você não pense em nada triste/ pois quando o amor existe/ não existe tempo sem sofrer” (Eu vou tirar você desse lugar).

Com o fim da ditadura, a MPB envelheceu e, na metade da década de 1980, veio o rock brasileiro com Cazuza, Arnaldo Antunes, Fausto Fawcett, Renato Russo e uma nova geração de poetas sintonizados com os novos tempos de liberdade de temas e abordagens.


BOM GOSTO 

Nos anos 1990 e 2000, depois de axé music, funk carioca, mangue beat e a eletrificação da música sertaneja, os limites entre o que seria bom gosto e mau gosto começaram a se diluir. A ressignificação definitiva desses artistas junto às plateias jovens e mais antenadas se dá, simbolicamente, a partir do álbum Reginaldo Rossi – um tributo, de 2000, que reunia dos “MPB” Lenine, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho a bandas queridas da crítica, como mundo livre s/a, Cascabulho e Comadre Florzinha.

Seis anos depois, foi a vez de Vou tirar você desse lugar, com Leela, Pato Fu, Mombojó, o titã Paulo Miklos e Zeca Baleiro, entre outros, celebrando Odair José. Agora, o brega passava a ser, oficialmente, cult.

Baleiro, que fundou, ao lado da produtora Rossana Decelso, a gravadora Saravá, já trabalhava na recuperação das carreiras fonográficas de artistas como Tiago Araripe e Sérgio Sampaio, homenageou a poeta Hilda Hilst e lançou nova luz sobre artistas pouco conhecidos do público, como Antenor Vieira, Lopes Bogea, Patativa. E, vale reconhecer, provocou o veterano Fagner a sair do tom popularesco dos últimos tempos e voltar à velha forma no disco Fagner & Zeca Baleiro, de 2003.

Odair, que andava meio sumido e fez um retorno ao disco em 2006, com o álbum Só pode ser amor, virou parceiro de Baleiro num tema em homenagem a Bruna Surfistinha (E depois volta pra mim) e, em 2012, lançou pela Saravá o CD Praça Tiradentes, que incluía canções feitas por Carlinhos Brown e Chico César. O compositor popular por excelência conquistou a crítica mais jovem, que não viveu a divisão intelectual de três décadas antes, e retomou a confiança para fazer a síntese de sua história, suas memórias e suas influências neste Dia 16.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

ODAIR JOSÉ É FESTEJADO COM MUSICAL, DISCO, DVD E COLETÂNEAS

Cantor é um dos principais artistas nacionais da década de 1970

Por Paula Bittar



A voz que embalou grandes sucessos da década de 1970 continua a mesma. Talvez a ansiedade da juventude tenha desacelerado depois de 44 anos de carreira, mas a determinação, umas das características mais marcantes da sua personalidade, é perceptível nas pausas entre as falas que as lembranças necessitam para reviver. As músicas de Odair José escondem um complexo jogo entre a simplicidade das letras e os arranjos elaborados. O melhor do repertório do músico embala o musical Eu vou tirar você desse lugar, de Sérgio Maggio, em cartaz em Brasília. O garoto que fugiu de casa para ir atrás do sonho de ser músico “deu certo”.

Odair José de Araújo nasceu em Morrinhos, Goiás, em 16 de agosto de 1948. Ao 7 anos, pediu um violão, mas ganhou um cavaquinho. O pai achou que era mais adequado um instrumento menor por causa do tamanho do filho. “Algum tempo depois, convenci meu pai de que eu queria um violão, e não um cavaquinho. Fui aprendendo os acordes e me enturmando com a rapaziada”, lembra o músico.

A família se mudou para Goiânia quando Odair tinha 12 anos. Participou de várias bandas, entre os 15 e os 16 anos. No repertório das apresentações, só canções de sucesso nas rádios, como The Beatles e Rolling Stones. “Essas eram nossas influências. Tocávamos em festas, escolas. Tinha a TV Anhaguera e a gente sempre tentava entrar nos musicais”, conta.

Foi na adolescência que começou a compor. A primeira tentativa de deixar a cidade foi impedida pelo irmão mais velho. “O goiano, de um modo geral, ia para São Paulo. Tentei ir para lá também. Mas o Luiz Jerci me tirou de dentro do ônibus. Alguém me dedurou”, lamenta. Um ano depois, saiu de casa escondido. “Peguei meu caderno e uma mala e parti para o Rio de Janeiro em busca de alguns contatos. Fui para lá achando que seria fácil.”


Dificuldades

O dinheiro que levou para o Rio, em 1966, pagou uma semana em um hotel barato no centro da cidade. Nem de longe, as dificuldades do início deram sinal de existência nos sonhos que o cantor cultivava. “Tive que dormir na rua. A primeira noite foi na escadaria do Theatro Municipal. Depois, descobri o banheiro do Santos Dumont. Dormia sentado no vaso. Ao lado do aeroporto, encontrei o restaurante Calabouço, frequentado por estudantes. Assim, conheci a Casa do Estudante. Como havia chegado ao Rio na época das férias, esperei para me matricular”, recorda.

O jovem ficou um ano sem dar notícias à família. “Olha que inconsequente! Sabia que, quando dissesse onde estava, alguém iria me buscar. Não deu outra. Meu irmão foi me ver. Viu que estava estabilizado, que a coisa era difícil mas estava caminhando. Foi a forma que achei de preservar minha estada no Rio”, narra o músico. Naquela época, os colegas não acreditavam que alguém pudesse sair de Goiânia e se tornar conhecido no país inteiro. “Meus pais, evidentemente, se manifestaram contra. Queriam que eu fosse estudar e arranjar um emprego. Não achavam era que eu era doido o bastante para entrar dentro do ônibus. De certa forma, não estava errado porque consegui muito mais do que esperava. Dois anos e meio depois, já estava gravando meu disco.”


“Virtuoso”

Em contato com os músicos da cidade e uma cultura bem diferente daquela que reinava nos bailes de Goiânia, Odair descobriu que as músicas que estavam no caderno eram muito “verdes e amadoras”. Apesar de não se considerar um músico “virtuoso” na época, a dura realidade não atrapalhou sua determinação. Nesse período, começou a tocar nos bares cariocas. Não se cansa de dizer que só existe dois tipos de música: a boa e a ruim, independentemente do estilo. A noite nos botecos mostrou para o jovem ritmos que iam além do regionalismo goiano e das baladas estrangeiras. Lá, conheceu o samba de Ataufo Alves e Dolores Duran, e a bossa nova de Tom Jobim.

“Dormia às 3h, mas, às 9h, estava de pé na porta das gravadoras. No início, ninguém está a fim de dar oportunidade. Precisei insistir muito. As pessoas sempre acham que você não tem talento, que é mais um chato que vai tomar o tempo delas. Com humildade e insistência, tem que provar para os caras que merece uma chance”, diz, convicto. Um dos produtores que Odair José mais procurou foi Rossini Pinto. “Fiquei no pé dele. Ia sempre ao escritório na Cinelândia. Foi ele que me colocou na CBS e gravou o meu primeiro disco. Estar na CBS era como estar na Seleção Brasileira”, afirma, orgulhoso.

De 1972 a 1977, Odair José foi o artista que mais vendeu discos no Brasil. Eu vou tirar você desse lugar; Eu, você e a praça; Assim sou eu; Na minha opinião; A noite mais linda do mundo; Essa noite você vai ter que ser minha; Foi tudo culpa do amor e Sem saída são sucessos gravados nesse período. “Em 1972, vendi 1 milhão de cópias. Voltei para casa sendo o cara que tinha as músicas mais tocadas no rádio. Senti muita felicidade nos olhos dos meus pais, porque o garoto deu certo. Aquilo de ninguém acreditar ficou para trás”, completa.

Em 1977, o projeto Filho de José e Maria não teve a mesma repercussão dos trabalhos anteriores. A resposta do público e da mídia foram negativas. “Fiquei muito chateado porque todos os segmentos brasileiros me barraram naquele projeto. O cantor da pílula não podia ser pop. Só que nada era mais pop do que falar de pílula. O cantor do Eu vou tirar você desse lugar não podia ser rock’n’roll, quando nada mais é rock do que um cara declarar o amor a uma prostituta. Me desencantei muito. Fui me afastando aos poucos e perdendo o interesse. Eu não fui atrás da mídia nem fiz algo relevante para irem atrás de mim”, reflete. O cantor, que não dá a mínima atenção para os rótulos, está na moda. Alguns enganos estão sendo corrigidos.

A reavaliação de sua obra já não é taxada como brega, mas como um acervo de grande importância para a música popular brasileira. Ao perguntar ao músico o motivo pelo qual o sucesso tenha ficado concentrado na década de 1970, a resposta foge do estrelismo dos mais egocêntricos: “Não mantive a disciplina e o foco dos primeiros anos de carreira. Há uns cinco anos, voltou a vontade de fazer as coisas acontecerem. Hoje, consigo ver minha obra com mais respeito”, avalia, humildemente.

Odair José tem 32 disco gravados. São mais de 450 músicas na carreira. A rotina dos últimos meses tem sido dividida com a produção do CD Dia 16, com lançamento previsto para agosto. “O que eu sou hoje é devido ao meu trabalho. Posso dizer sem pretensão que ele foi benfeito. Mas, evidentemente, para que esse trabalho tenha dado certo houve muita ajuda. Tive muitos parceiros, muitas pessoas me ajudaram fosse num apoio ou numa ajuda para mostrar uma música no rádio e na televisão. Não consegui sozinho”, destaca o goiano.


O que eles dizem

Alexandre Fontanetti, produtor do CD Dia 16, que será lançado em agosto deste ano.

Há alguns anos fizemos um remake de cinco músicas para uma coletânea. Convivendo com Odair, constatei que ele era muito mais do que eu tinha ideia. Muito culto musicalmente, de raro bom gosto e gente finíssima. O Odair sabe muito bem o que quer e o que não quer. As pessoas vão se surpreender com a grande forma que o Odair se encontra. Para mim, é um dos grandes artistas em ação. O Neil Young brasileiro! Tenho orgulho de fazer parte desse álbum.


Raphael Freitas, filho e jornalista.

É difícil achar uma memória mais marcante dele. Acho que, como todos os pais, ele me passou valores importantes sobre a vida, sobre ser uma pessoa de caráter, digna, honesta. Eu penso que a vida artística e o seu meio me ensinou muito a não ter preconceito, a ser uma pessoa mais ‘mente aberta’.


Donni Araújo, irmão e jornalista.

Odair tem muitas virtudes. Ele é extremamente profissional, sabe o que quer fazer e como. No lado pessoal, é muito humanitário. Ele ajuda muitas pessoas, mas sem se vangloriar por isso. Fazer o sucesso que Odair fez naquela época era muito difícil, mas sempre manteve a humildade.



Números
Total de discos lançados - 32
Número de músicas compostas - 450
Tempo de carreira - 44 anos

quinta-feira, 16 de maio de 2013

EM 2013, GRANDES NOMES DA MPB LEVARÃO AO PALCO DO TEATRO MUNICIPAL DISCOS EMBLEMÁTICO DE SUAS CARREIRAS AO LONGO DA VIRADA CULTURAL

Por Pedro Alexandre Sanches




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Em programação já tradicional da Virada Cultural, o Teatro Municipal abrigará neste ano sete artistas e uma banda reinterpretando álbuns clássicos de suas carreiras, num cardápio variado que inclui a revisão de discos dos anos 1970 de Angela Ro Ro, Eumir Deodato, Fagner, Jorge Mautner, Odair José, Som Imaginário, Walter Franco e Wanderléa.

A programação do Municipal começará às 18 horas do sábado (18), com uma apresentação da Orquestra Sinfônica Municipal. Às 21 horas, começa a maratona dos álbuns, com o retorno de Manera Fru Fru, Manera (1973), de Fagner. A programação, como toda a Virada, é gratuita, mas está sujeita às peculiaridades do palco mais nobre da cidade. O espaço é sujeito a lotação, e os ingressos devem ser retirados antes de cada apresentação, no próprio Municipal. Prepare-se para inevitáveis filas.

Saiba abaixo um pouco sobre cada artista e álbum programados para a Virada 2013, na ordem cronológica das datas originais de edição.

1972 ...Maravilhosa.
…Maravilhosa (Polydor, 1972), Wanderléa – Produzido por Guilherme Araújo, empresário do grupo tropicalista, este disco marca a tentativa da artista mineira de dar um grito de libertação e se descolar da imagem de “ternurinha” da jovem guarda. O repertório começa e termina com duas típicas baladas iê-iê-iê, “Mata-Me Depressa” e “Tempo de Criança”. O recheio, ao contrário, é surpreendente. Começa com “Back in Bahia”, canção de volta do exílio do baiano Gilberto Gil. Apresenta o bardo carioca influenciador da tropicália Jorge Mautner (que estreava em LP próprio naquele mesmo ano), com “Quero Ser Locomotiva”, e o soulman baiano Hyldon (três anos antes de ele estourar com “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”), em “Vida Maneira” e “Deixa”. O disco e o show de tons tropicalistas (na foto acima, o folheto original do espetáculo, de 1973) se valem também da influência colossal da portuguesa-carioca Carmen Miranda, de cujo repertório Wanderléa reinterpreta as picarescas “Uva de Caminhão”, do baiano Assis Valente, e “Casaquinho de Tricot”. O show está previsto para as 9 horas de domingo.

1973 Deodato 2
Deodato 2 (CTI, 1973), Eumir Deodato – Talento precoce da segunda leva de bossa-novistas, o carioca Eumir Deodato estreou em disco aos 20 anos, com Inútil Paisagem (1964), um LP de versões instrumentais para temas de Tom Jobim. Nos anos seguintes, se notabilizou como arranjador de trabalhos de artistas como Marcos Valle, Milton Nascimento, Astrud Gilberto e Elis Regina. A bordo do prestígio internacional da bossa nova, mudou-se para os Estados Unidos e iniciou uma carreira bem-sucedida baseada em discos instrumentais de sabor hollywoodiano, retrofuturista. Deodato (1972) iniciou essa fase, tendo por carro-chefe era uma versão funkeada para “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, que fora reutilizada quatro anos antes na saga espacial 2001: Uma Odisseia no Espaço, do cineasta Stanley Kubrick. Deodato 2 dá prosseguimento a essa rota funk-jazz-hollywoodiana, com composições próprias (como “Skyscrapers”) e versões futuristas para temas de Maurice Ravel (“Pavane for a Dead Princess”) e George Gershwin (“Rhapsody in Blue”). Domingo, às 15 horas.

1973 Manera Fru Fru, Manera
Manera Fru Fru, Manera (Philips, 1973), Fagner – Álbum de estreia do cearense Raimundo Fagner, inicia-se por uma versão áspera do conhecido tema de retirantes nordestinos “Último Pau-de-Arara” e segue abrasileirando o blues-rock sessentista “Born to Cry”, na versão em português, escrita por Erasmo Carlos e gravada por Roberto Carlos em 1965, no auge da explosão da jovem guarda. Ainda desconhecido, Fagner ganhava aqui legitimidade conferida pela deusa bossanovista capixaba Nara Leão, que cantava com ele a tradição campestre de “Penas do Tiê” e a contemporaneidade cearense de “Pé de Sonhos”. De futuros clássicos da obra de Fagner, estão aqui “Canteiros”, calcado em poema da carioca Cecília Meireles, e “Mucuripe”, composição nova em parceria com o conterrâneo Belchior, a essa altura já imortalizada pela versão da gaúcha Elis Regina um ano antes. Sábado, às 21 horas.

1973 Matança do Porco
Matança do Porco (Odeon, 1973), Som Imaginário – Integrado em diversas formações por músicos como os mineiros Wagner Tiso e Tavito, o carioca Zé Rodrix (já falecido) e o pernambucano Naná Vasconcelos, o Som Imaginário surgiu em 1970 como grupo de acompanhamento de shows do carioca-mineiro Milton Nascimento - e contribuiu, assim, para a formulação do som popularizado como “clube da esquina”. A seguir, a big band acompanhou shows de Gal Costa em 1971, na mítica fase em que a cantora baiana se tornou porta-voz, no Brasil, dos colegas tropicalistas exilados em Londres. Matança do Porco é o terceiro e derradeiro disco de gurpo do Som, e também o mais experimental. Contém temas instrumentais compostos por Tiso, como “Armina”, “Bolero” e “Mar Azul”. A faixa-título é uma suite de 11 minutos de duração, originalmente com vocalizações de Milton. Domingo, às 18 horas.

1974 Jorge Mautner
Jorge Mautner (Philips, 1974), Jorge Mautner – Esse é o segundo álbum de Mautner e o que contém a versão autoral de sua obra-prima, “Maracatu Atômico”, tornada sucesso um ano antes na voz de Gilberto Gil. O parceiro e conterrâneo Nelson Jacobina, morto no ano presente, é coautor de “Maracatu Atômico”, “Cinco Bombas Atômicas”, “Rock da TV”, “Herói das Estrelas”, “Nababo Ê”, “Salto no Escuro” e “Um Milhão de Pequenos Raios”. A veia hippie bem-humorada do pré-e-pós-tropicalista Mautner está exuberantemente exposta em temas como “Pipoca à Meia-Noite”, “Samba dos Animais”, “Guzzy Muzzy” e “O Relógio Quebrou”. “O relógio quebrou/ e o ponteiro parou/ em cima da meia-noite/ em cima do meio-dia/ tanto faz porque depois de um vem dois/ e vem três e vem quatro/ e eu fico olhando o rato/ saindo do buraco do meu quarto”, ele canta nessa última, em clave híbrida niilista, existencialista, hedonista. Pela banda de Mautner à época passaram músicos que ficariam conhecidos a seguir, como o paulista Guilherme Arantes e o carioca Roberto de Carvalho, futuro parceiro e marido da paulista Rita Lee. Domingo, às 12 horas.

1975 Revolver
Revolver (Continental, 1975), Walter Franco – Trata-se do segundo LP do experimentador pós-tropicalista paulista, e o primeiro depois da rumorosa estreia no Festival Internacional da Canção de 1972 e no célebre “disco da mosca” de 1973. Ainda experimental, mas composto de rocks e MPBs de melodias fortes (como o rock rascante de abertura, “Feito Gente”), o álbum revela no título a influência pop dos Beatles, enquanto se espalha por canções de sabor concretista como “Eternamente”, “Mamãe d’Água”, “Partir do Alto/ Animal Sentimental”, “Toque Frágil”, “Arte e Manha”, ”Cachorro Babucho” e ”Bumbo do Mundo”. Domingo, às 6 hora

1977 O Filho de José e Maria
O Filho de José e Maria (RCA Victor, 1977), Odair José – Se …Maravilhosa foi o grito de liberdade de Wanderléa, O Filho de José e Maria foi o de Odair, e ainda mais radical. O cantor e compositor popular goiano quis criar uma ópera-rock fundada na figura de Jesus Cristo, mas tratando-o de modo ora desconfiado, ora iconoclasta (a homossexualidade do personagem e o uso de drogas são insinuados de leve), ora adaptada à realidade dos anos 1970 (“O Casamento”, por exemplo, existe para questionar a validade daquela instituição, à época às voltas com a liberação ou não do divórcio). Virtuoso, o disco é acompanhado por músicos como Jaime Alem (futuro maestro de Maria Bethânia), o trio Azymuth, Hyldon e Robson Jorge, esses últimos responsáveis pela levada black de faixas como “Não Me Venda Grilos (Por Direito)”. Imaginado inicialmente como um álbum duplo, o trabalho foi retalhado pela Censura da ditadura – momentos mais picantes foram limados e voltaram, menos chamativos, no posterior Coisas Simples (1978), de que constam “Forma de Sentir” (uma canção explícita sobre homossexualidade, que termina decantando o “é proibido proibir” de 1968) e “Agora Sou Livre (O Divórcio)”. Sábado, às 24 horas.

1979 Angela Ro Ro
Angela Ro Ro (Polydor, 1979), Angela Ro Ro – O álbum de estreia da blues-MPB-roqueira carioca traz o petardo romântico “Amor, Meu Grande Amor”, seu maior sucesso popular, mas apenas uma entre 12 peças de altos teores de inspiração. O repertório 100% autoral inclui “Não Há Cabeça” (que a igualmente estreante Marina Lima lançou no mesmo ano), “Gota de Sangue”, “Balada da Arrasada”, “Tola Foi Você”, “Agito e Uso” (também gravada pelas Frenéticas), “Cheirando a Amor”, “Me Acalmo Danando”, “Minha Mãezinha”, “Abre o Coração” e “Mares da Espanha”. “Loucura é loucura, não me compreenda/ loucura é loucura, pior é a emenda/ loucura é loucura, não me repreenda, eu amei demais”, Angela canta em “Mares da Espanha”, clamando por liberdade. Não foi totalmente percebido a época, mas os adventos de Angela e Marina, somados à carreira a toda popa de Rita Lee, configuravam um levante feminino na música popular brasileira do início dos anos 1980, que ainda renderia muitos frutos. Domingo, às 3 horas.

Confira a programação completa clicando AQUI.

sábado, 13 de dezembro de 2008

ODAIR JOSÉ, FILHO DE JOSÉ E MARIA

Em 1977, Odair José resolve lançar um LP com estilo totalmente diverso do que costumava lançar e que o consagrara junto ao público. Seu plano era produzir um disco em ritmo de rock, estilo garage rock, mesmo sem maiores sofisticações ou requintes técnicos. As influências assumidas de Odair são tão diversas quanto o pianista de Jazz Herbie Hancock, o cantor Peter Frampton e o filósofo Gibran Khalil. Na concepção original de Odair, esse disco seria um álbum duplo que contaria a história de um indivíduo de seu nascimento à morte.

Só que nem tudo saiu como Odair José queria. Mesmo com o aval da sua nova gravadora, os produtores não quiseram arriscar com uma “banda de garagem” e Odair gravou esse disco com a sua tradicional banda Azimute. A gravadora também não quis lançar o álbum duplo, preferindo lançar um único LP.

Em dez faixas, Odair relata em versos a conturbada história do casal-título e do fruto dessa relação fugaz. Em momento algum Odair afirma estar falando de Jesus, e sim de um indivíduo, do “Filho de José e Maria”. Mas a associação é inevitável. E ao colocar o personagem em dilemas existências quanto ao uso de drogas e da sexualidade ele causou celeuma, como também às críticas tecidas à instituição do casamento religioso e a própria igreja. Mesmo sem Odair adotar o termo, a imprensa logo o classificou como uma ópera-rock, certamente comparando-o a obras como Tommy, do The Who, ou The Wall, do Pink Floyd. A gravadora BMG/RCA, que acabara de contratá-lo, apostou em um novo sucesso popular, e ficou a ver navios quando o disco “O Filho de José e Maria” teve críticas desfavoráveis e baixa receptividade do público, e um padre chegou a excomungar Odair José. Muitos acusaram Odair José de tentar elitizar sua obra, se afastando do povão. Resumo da ópera-rock: o disco não vendeu porra nenhuma, o povo não entendeu, a crítica esculhambou, o padre excomungou, a gravadora ficou puta da vida e Odair José só teve aborrecimento. E o pobre ainda teve que ir ao Vaticano pedir perdão ao Papa.

Não obstante o fracasso comercial e a dor de cabeça obtida, vinte anos depois ele mesmo admite que esse disco é um dos melhores trabalhos de sua carreira. Hoje o disco pode ser considerado cult, e não apenas pela curiosidade de ser uma ópera-rock gravada por um ícone brega. O disco tem seus méritos, com arranjos legais, entre o psicodélico e o progressivo, talvez um pouco datados, mas nada que impeça de ser apreciado. Mas o Odair José está presente na simplicidade das letras e no jeito de cronista dos excluídos sociais. Uma pena que o disco não foi bem recebido naquela época, em que o público era bem menos tolerante com ousadias de seus ídolos. E como ele ainda é inédito em CD, só recorrendo a sebos em busca do vinil ou baixando as versões MP3 que circulam pela Internet. No tributo a Odair José, lançado ano passado, a banda Shakemakers regravou a primeira faixa do disco, “Nunca Mais”, e o Pato Fu participou com uma versão de Uma Lágrima, faixa do disco “Coisas Simples”, que seria o segundo disco do LP duplo que Odair originalmente concebera, e que foi lançado apenas em 1978.

Odair José - O filho de José e de Maria (1979)
Faixas:
01 - Nuca mais
02 - Não me venda grilos (por direito)
03 - Só pra mim, pra mais ninguém
04 - É assim
05 - Fora da realidade
06 - O casamento
07 - O filho de José e Maria
08 - O sonho terminou
09 - De volta às verdadeiras origens
10 - Que loucura

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