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domingo, 13 de agosto de 2017

JOÃO FALCÃO E ISADORA MELO PREPARAM ESPETÁCULO DORINHA, MEU AMOR

Teatro Arraial Ariano Suassuna recebe, em setembro, a estreia do espetáculo que o diretor descreve como "show teatral ou um teatro musical"

Por Mateus Araújo



João Falcão e Isadora Melo já trabalharam juntos na série Amorteamo e no espetáculo Gabriela, Um Musical


SÃO PAULO - Com A Máquina (2000), João Falcão fez uma revolução no teatro brasileiro, à beira do Rio Capibaribe, no Recife. Ousada na estética, forte no texto e com um elenco de impressionantes atores (a peça revelaria ao Brasil Lázaro Ramos, Gustavo Falcão, Wagner Moura e Vladimir Brichta), a história de amor de Karina e Antônio, ambientada na cidade sertaneja chamada Nordestina e encenada no então Teatro Armazém 14, se tornou uma das principais obras da carreira do diretor pernambucano radicado no Rio desde 1996.

São 17 anos que separam A Máquina, essa última criação de Falcão no Recife, do regresso artístico do diretor à sua cidade natal. Em setembro, ele estreia no Teatro Arraial Ariano Suassuna Dorinha, Meu Amor, "um show teatral, ou um teatro musical", brinca. A montagem é uma parceria de João Falcão com a atriz e cantora Isadora Melo. A moça foi dirigida por ele na série Amorteamo, em 2015, e no espetáculo Gabriela, um Musical, em 2016 ? este inédito em Pernambuco.

"Fiquei muito próximo de Isadora e aí propus criar uma coisa menor, com ela, para o teatro. Um show para Dorinha. Queríamos algo que tivesse uma temporada. Vamos ficar em cartaz toda quinta-feira", conta Falcão. "É um trabalho entre amigos. E para realizá-lo, abrimos um crowdfunding, que é legal porque envolve as pessoas, além de financiar algo independente. No momento político em que vivemos, achei que era um bom momento de fazer isso", explica o diretor, se referindo à campanha de financiamento coletivo lançada na semana passada na internet para arrecadar R$ 50 mil, que serão usados na produção do espetáculo ? até agora foram doados cerca de R$ 7 mil.



Isadora Melo

Espetáculo de amor e drama para teatros e cabarés, como resume o subtítulo da peça, Dorinha, Meu Amor junta música e dramaturgia, num estilo de teatro de revista. "Vamos contar histórias através das músicas", explica Isadora Melo, que vai cantar um repertório de clássicos brasileiros e internacionais, passando por Ângela Maria e Edith Piaf, costurados por referências à cultura pop e a lembranças pessoais. "Ainda estamos criando tudo", diz a atriz.

A peça surge na carreira de Isadora como um projeto paralelo à sua trajetória de cantora. "É uma possibilidade de explorar mais lado atriz da minha carreira. Isso acontece desde Gabriela, de maneira natural, e agora retoma numa hora incrível, e em paralelo a Vestuário", avalia a pernambucana, referindo-se ao seu primeiro disco solo, lançado em outubro. "João é uma pessoa com amplitude nacional. Um gênio. E é muito bom vê-lo voltar a atenção para Pernambuco, num momento propício, querendo estabelecer essa relação com a música, o teatro, a dança e coletivos, tanta gente massa criando por aqui".



Recife como incubadora de talentos

O desejo de João Falcão de voltar a criar no Recife surgiu em abril, após uma oficina de teatro musical ministrada por ele na cidade. "Eram 20 pessoas participando das aulas, muitos eu não conhecia. Fiquei impressionado com o talento. Aliás, sempre penso: que terra para ter talento ? e digo isso longe de qualquer bairrismo".

Dorinha, Meu amor é a primeira parte dessa retomada. "Minha ideia é fazer um grande musical com pernambucanos, no próximo ano", antecipa João Falcão. }"Um trabalho com atores e músicos locais. Eu quero que seja o primeiro de muitos outros trabalhos", completa. "Esse contato e essa volta ao Recife é um reencontro com coisas que eu não me lembrava mais: o humor, a cultura, o jeito de tratar as coisas que o recifense tem. Eu moro há tanto tempo fora, mas é sempre bom voltar. E quero encontrar mais pessoas".

Com a música pernambucana contemporânea João Falcão já estabeleceu uma relação mais próxima. "A atual geração de compositores me interessa bastante", afirma, que já teve em suas equipes nomes como Geraldo Maia, Juliano Holanda, Junio Barreto, Zé Manoel e Almério (que esteve também no elenco de Gabriela). "Certamente o novo musical será com composições de pernambucanos", garante. "Agora devo me aproximar mais do teatro. Já tenho notícias de grupos interessantes, como o (Coletivo) Angu - escutei coisas, vi trechos de vídeos - e do Magiluth. Pretendo assistir mais coisas, entender melhor o movimento".

Um dos mais pulsantes diretores de musicais do País - que resiste na criação de uma linguagem própria, centrada numa identidade nacional para essa seara teatral - Falcão defende a investida em criações originais. "Eu respeito todo mundo que faz qualquer tipo de arte, mas realmente não me interessa muito o estilo de musical franquia - que tem muita produção no Brasil e que normalmente consegue muito apoio, porque é produto testado e já teve um lançamento mundial. Nesse sentido, a gente deveria começar a arriscar mais em espetáculos inéditos, ousados, brasileiros, porque nossa música é imbatível. É preciso que a gente invista mais em teatro musical com dramaturgia".

Embora morando fora da cidade natal há 21 anos, o diretor pontua a criatividade recifense como um fator determinante na criação de obras singulares nas artes nacionais. "O Recife pode ser um centro gerador de criação de teatro musical, de espetáculos musicais e comédias. É uma cidade que tem tudo para isso. A gente já foi pioneiro em muita coisa, a gente tira muito leite de pedra. E minha cultura é muito essa, do que aprendi aqui, até meus 40 anos. O audiovisual pernambucano é uma prova disso", ressalta.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ISADORA MELO NUM DISCO COM SABOR DE FADO E SAUDADE


Por José Teles




Vestuário (independente/Funcultura) o primeiro álbum de Isadora Melo é um dos mais inovadores lançamentos de 2016, por sinal, um ano de boa safra. Enquanto parte dos músicos da nova geração da música brasileira procura descobrir alquimias sonoras experimentais, e outra se espelha no passado para compor seu presente, Isadora Melo canta com uma solução instrumental de instrumentos convencionais, mas saindo de um padrão estabelecido. Ela e seu grupo criam uma nova arquitetura para o chamado conjunto regional, com bandolim, acordeom, baixo acústico e violão. Sem percussão.

Um disco que não traz canções de autores consagrados (levando-se em conta que Zé Manoel ainda sendo descoberto pelo Brasil), mas todas de altíssima qualidade, e onze músicas, mais uma reprise de Partilha, fechando o disco. Os jovens autores cantados por Isadora Melo mostram que a canção não está morta, muito menos a melodia bonita, feito a da citada Partilha, daquelas que, lembrando Camões, nos põe na alma “Um não sei quê, que nasce não sei onde/Vem não sei como/ e dói não sei por que”.

Estes sentimentos afloram ao longo do disco, que poderia ser intitulado “Saudade”. Um repertório que tem um quê de fado, destilando a melancolia ancestral do gênero, mas interpretado à brasileira, com arranjos engenhosos e a arquitetura sonora de instrumentos básicos. Eles emolduram quase todas as canções, com poucas exceções, como acontece na ciranda Ave D’Alma, de Mavi Pugliesi, em que entra o celo de Jaques Morelembaum (com participação de Zé Manoel).

Um disco de luz e sombras suaves, com diversos gêneros entrelaçados, mas que não se destacam um dos outros, como em Braseiro, de Juliano e Julio Holanda, que se insinua um samba no inicio, para prosseguir quase como uma modinha. Isadora, que tem voz potente, não vai a tons altos, mas também não canta sussurrado, interpreta com a mesma sutileza dos instrumentos. Sai-se deste clima em Pequena, de Glauco Céar II, que estaria à vontade num álbum do pessoal da Vanguarda Paulistana.

Um disco de MPB de câmera. Isadora e os músicos cedem a preferencial às canções, feito se pedissem que não se tire a atenção delas, e merecidamente. São composições de tessituras delicadas, harmonias sofisticadas, e letras muito boas, como Do Tempo. de Juliano Holanda e Hugo Lins, ou a a faixa apropriadamente intitulada Canção Bonita, de Hugo Coutinho, uma iguaria servida em pequenas frases, pequenas porções.

Com Isadora Melo estão músicos com que ela trilha uma rota que já tem história, aqui, no Sudeste, exterior. Juliano de Holanda é o maestro do disco, cuja produção assina. Se já é talento carimbado como músico, ela se prova um dos mais inspirados compositores da MPB contemporânea, assina (sozinho ou com parceiros), metade da faixas de Vestuário, outro nome, que pontua a trajetória de Isadora é o de Zé Manoel, que participa com um composição, Habanera Hobie Cat Acalanto (com Mavi Pugliese e Kassin).

Em Vestuário, Isadora Melo, que também é atriz, com sua turma renovam a MPB, reforçam o papel da canção, – valorizando letra e melodia – num disco impecável, mas que não surpreende, porque os do Recife, Olinda e adjacências que conhecem a voz de Isadora, com o Arabiano, ou solo, e o talento dos músicos com que gravou, não esperavam outra coisa.

Confiram Isadora Melo em Partilha:


sábado, 14 de março de 2015

AS COISAS BELAS DE ISADORA MELO

Com voz suave, mas de timbre firme, a cantora pernambucana surge como uma das promessas da nova cena local apostando na nostalgia


Por Paulo Floro



O jeito tímido de Isadora Melo contrasta com a segurança e firmeza de sua voz. Basta alguns minutos para convencer o ouvinte sobre a verdade de seu canto, uma certeza que fica clara em cada interpretação. Um dos principais nomes da nova cena musical independente do Recife, Isadora está conectada ao círculo de nomes talentoso de sua geração. O seu primeiro disco, ainda inédito, tem tudo para se tornar um dos registros-chave para entender o bom momento desta nova safra.

Encontramos Isadora no Edifício Pernambuco em uma tarde de quarta-feira de muito sol no Recife. O local é um dos principais polos de economia criativa do Estado e se beneficia desses dias claros por causa de suas janelas largas e longas varandas. Isadora divide seu tempo entre a produção de seu disco de estreia e seu emprego de designer. Ela assinou cartazes do festival Excentricidades e trabalhou nas peças do longa A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti. Diz que está em um processo de escolher caminhos, assume a pouca experiência e avisa que está feliz.

“Escolhi a música por casualidade e me sinto feliz. É isso que quero fazer pelo resto da minha vida”, diz com a voz mansa, mas assertiva, sentada em um sofá confortável no andar sem divisórias e bem arejado do edifício. O disco está quase pronto e tem produção de Juliano Holanda, amigo e nome importante da nova geração de músicos pernambucanos. Ainda sem título, o álbum deve sair em setembro e terá ainda composições de Zé Manoel, Areia, Clara Simas, Hugo Linns, Paulo Paes e Caio Lima.


Tudo será gravado ao vivo com uma atmosfera acústica.

O trabalho terá um tom nostálgico, assume Isadora, fã de Elizete Cardoso – “a melhor cantora de todos os tempos” -, mas também irá trazer o olhar da cantora sobre coisas belas. “O disco é muito do que quero dizer e muito do que estou vivendo agora”. Como outros artistas de sua geração, Isadora olha o passado não como uma reverência, mas na busca de referências para compreender o presente. Um pouco da proposta artística dela está disponível no EP homônimo com três músicas.


TESTE, PALCO E TURNÊ DE SUPETÃO

Apesar de surgir como uma boa surpresa na música pernambucana, a história de Isadora Melo como artista começou bem antes, ainda criança. Sua lembrança mais remota é se empolgar com o clima dos bastidores e ensaios em trabalhos de seus pais. Ela é filha da atriz Sônia Cristina, que fez Manual Prático da Felicidade, entre outros e do cantor Karlson Correia. Estudou violoncelo no Conservatório Pernambucano de Música, mas abandonou para estudar para o vestibular.

Já no curso de design da Universidade Federal de Pernambuco se deparou com um cartaz para testes da peça O Baile do Menino Deus, uma das mais tradicionais do ciclo natalino do Recife. “Fui bem despretensiosa para a audição e consegui o papel. O diretor também me deu um solo”, lembra. “Foi meu primeiro trabalho profissional.” De zero experiência passou direto para um palco com 10 mil pessoas no Marco Zero, Centro do Recife. Ainda lembra bem daquele dia de estreia quando no momento em que tinha todas as atenções voltadas para si, errou a letra. “Eu errei a letra. Na verdade, achei que tinha errado e por isso parei e disse ‘ai meu deus'”, conta rindo.

ESCOLHI A MÚSICA POR CASUALIDADE E ME SINTO FELIZ. É ISSO QUE QUERO FAZER PELO RESTO DA MINHA VIDA

Foi no Baile que Isadora conheceu o bandolinista Rafael Marques, nome decisivo para seu ingresso na carreira de cantora. Ele estava precisando de uma cantora para seu projeto de chorinho, Arabiando. “A cantora tinha acabado de sair e eles estavam atrás de alguém para seguir em turnê”. Foi apenas um mês de ensaio e lá estava Isadora em Viçosa do Ceará em um festival cheio de nomes importantes do gênero. Estavam lá Jorge Cardoso e o Choro das Três, grupo de garotas de São Paulo sucesso no meio.

“Entrei sem saber nada de chorinho, mas acabou sendo uma experiência incrível. Eles já estavam no nivel de profissionalização muito além do que eu estava na época e isso foi incrível para mim.” A experiência do choro levou Isadora ao samba. Chegou a trabalhar com o Trio Pouca Chinfra e a Cozinha. Conforme a segurança crescia, seu círculo aumentou além dos gêneros que a colocaram no mundo da música. “O início da vida que estou vivendo hoje foi quando conheci Mery Lemos, hoje minha produtora. Ela procurava uma cantora para fazer os shows do novo disco de Juliana Holanda.

Nome importante da atual cena recifense, Juliano tinha cinco músicas cantadas por mulheres e precisava de uma cantora fixa para excursionar junto com sua banda. Na turnê, Isadora fez laços que se fortaleceram para gerar sua estreia em disco. “Juliano Holanda e Areia me instigaram a fazer outras histórias. Comecei a ampliar meus interesses e percebi que poderia experimentar na música outras experiências de vida que eu tinha”. Passado os shows, a cantora estava pronta para estrear ao vivo em um projeto onde sua voz era o centro de tudo.


SEXTO ANDAR E ALÉM

A estreia de Isadora Melo foi no Coletivo Sexto Andar em um show intimista com apenas sete músicas. Em seguida ela foi ao estúdio Muzak para registrar as faixas do EP. A repercussão foi boa e marcou o início da carreira solo. “Eu perguntei que nome daria para o projeto e Mery disse ‘coloca Isadora Melo mesmo’.” A afirmação foi acertada: a música reflete bem a personalidade da intérprete, que assume um estilo muito próprio já neste início.

“Apesar de não serem minhas as letras, consigo me conectar com que elas dizem e tornar aquilo parte de mim”, explica. “Tive sorte de trabalhar com Juliano que é um artista foda, muito talentoso”. Para quem começou de maneira despretensiosa, Isadora já enfrentou muitos desafios. Agora, é a vez do público desfrutar dessa visão das coisas belas que ela trouxe para seu canto.

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