Composição: Sergio Britto, Marcelo Fromer e Arnaldo Antunes
Direção e Fotografia: Marcos Hermes
Edição e finalização: Fabio Luis III
Produção: Marcos Hermes, Rafael Ramos e Pedro Loureiro
Figurino, maquiagem e cabelo Elza Soares: Wesley Pachu
#ElzaSoares#Titãs#Comida
Ouça nas plataformas digitais: https://ElzaSoares.lnk.to/TitasComidaID
Letra
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade
Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê? (De quê?)
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo (é)
Necessidade, vontade (é)
Necessidade
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ELZA SOARES
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Celebrando indicação ao Grammy Latino, do disco 'Planeta fome', cantora aproveita ocasião especial para lançar composição do grupo, que conversa diretamente com a temática do álbum
(foto: Comida/Divulgação)
Em dupla comemoração, Elza Soares lança, nesta sexta-feira (23/10), Comida, uma parceria especial com os Titãs. A gravação da música composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, na voz icônica da diva brasileira marca o aniversário de um ano do último disco da cantora, Planeta fome e a indicação dele ao Grammy Latino.
Originalmente, a canção faria parte do repertório do disco por resumir o conceito e temática da obra, entretanto Elza preferiu guardar a gravação para lançar numa ocasião especial. “Escolhi essa música porque acho impressionante a força de sua letra e a interpretação dos Titãs, de quem sempre fui fã”, explicou a cantora por meio de nota.
“A voz da Elza Soares é atemporal e única, é um grito de liberdade. Poder cantar e tocar com ela uma de nossas canções mais emblemáticas e participar do clipe, é uma honra e uma glória”, disse o guitarrista da banda, Tony Belloto.
Já Sérgio Britto, um dos compositores da canção, destacou a admiração por Elza Soares é mais do que mútua. “Foi um prazer dividir essa música com ela, uma das figuras mais importantes da história da música brasileira, com quem já tivemos vários encontros durante nossa trajetória. Acho que tudo isso veio coroar nossa relação com ela, que já vem de muitos anos”, lembra o músico.
Comida já está disponível nos aplicativos de música e o clipe, dirigido por Marcos Hermes, pode ser assistido no canal da artista no YouTube.
Indicação ao Grammy Latino
Elza Soares lança novo single em comemoração à indicação do álbum 'Planeta fome' ao Grammy Latino
(foto: Marcos Hermes/Divulgação)
Com status de obra prima, o álbum Planeta fome ecoa importantes temáticas na voz inconfundível de Elza Soares. O álbum tem 12 canções, entre elas, pela primeira vez, uma composição autoral da cantora. O álbum é sobre o Brasil, que tem fome, de comida, mas também de dignidade, de educação, de igualdade. Isso é o que cantora clama no trabalho indicado à premiação latina.
O nome do disco recorda um trecho da participação no programa da rádio Tupi, Calouros em desfile, de Ary Barroso, ainda na década de 1950. Pelas roupas humildes da artista, o apresentador perguntou inquisitivo, "De que planeta você veio, minha filha?" e obteve como resposta um "do mesmo planeta que o senhor, do planeta fome", retruca Elza.
O vídeo foi gravado no litoral norte de São Paulo e conta com direção e roteiro de Ana Julia Travia e Cesar Gananian
(foto: Reprodução Facebook )
A cantora Elza Soares lançou o clipe da canção O Que Se Cala, faixa de abertura do álbum Deus É Mulher (2018).
Classificado pela artista como uma ode à liberdade de expressão, o clipe foi gravado no litoral norte de São Paulo e conta com direção e roteiro de Ana Julia Travia e Cesar Gananian.
A música é de autoria de Douglas Germano, responsável pela letra de Maria da Vila Matilde, presente no disco anterior de Elza, A Mulher do Fim do Mundo (2015).
'Deus é mulher' aborda temas como o empoderamento e a sexualidade femininos. Disco é o 81º da carreira da cantora
Elza Soares lança o disco 'Deus é mulher'. (foto: Deck Disc/Divulgação)
Com 11 faixas inéditas, o álbum transita entre diferentes temas que estão em voga. O que se cala introduz o público nesse universo, agora já conhecido e reconhecido. Elza resgata a discussão sobre lugar de fala e apropriação cultural. O disco segue com Exú nas escolas, que conta com a participação do rapper Edgar, que canta: ''Exú te ama e ele também está com fome/ Porque as merendas foram desviadas novamente/ Num país laico, temos a imagem de César na cédula e um 'Deus seja louvado'''.
A faixa Banho, escrita por Tulipa Ruiz, aborda a sexualidade feminina com uma série de metáforas que envolvem a água. Os tambores se devem ao trabalho do bloco paulista formado apenas por mulheres Ilú Obá de Min. A temática segue na animada em Eu quero comer você. Assim como na já clássica Maria da Vila Matilde, Elza Soares fala sobre o empoderamento e a sororidade femininos em Língua solta. A música foi composta por Alice Coutinho.
Hienas na TV é marcada pela reaproximação da cantora ao gênero que lhe fez famosa: o samba.Clareza traz o experimentalismo próprio do compositor Rodrigo Campos, enquanto Um olho aberto é irônica e até divertida com a repetição dos metais ao fundo.
Obedecendo à premissa do disco, anunciada no título, Elza Soares defende uma perspectiva religioa própria em Credo. ''Credo, sai pra lá com essa doutrinação'', canta ela no refrão escrito por Douglas Germano. O tema feminino volta em Dentro de cada um, de Luciana Mello e Pedro Loureiro. Na letra, a cantora estabelece a mulher como uma força em si.
O disco chega ao fim com a cacofônica e quebradiça Deus há de ser. Controversa, a música escrita por Pedro Luiz usa o jogo de palavras e sons para definir uma suposta Deusa como ''mulher'', ''fêmea'', ''fina'' e ''linda''. A música, em ritmo acelerado, vem acompanhada de percussão pulsante e sons eletrônicos.
Apesar de não de afastar da boa surpresa que foi A mulher do fim do mundo, Deus é mulher capta os temas correntes e os traduz em uma espécie de samba-punk-rock-eletrônico. Dessa vez, no entanto, menos samba do que o normal. O disco repete a parceria da carioca com Guilherme Kastrup, além do quarteto de músicos paulistanos Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Kiko Dinucci - integrantes do grupo Passo Torto.
Vídeo faz uma homenagem à trajetória de Elza por meio de uma colagem de vários momentos da carreira da veterana
Na música, cantoras falam sobre machismo, homofobia, preconceito, maternidade e rock
Pitty divulgou, nesta segunda-feira (7), o clipe de Na pele, dueto com Elza Soares em que abordam temáticas como machismo e maternidade. O vídeo faz uma homenagem à trajetória de Elza, com uma colagem de vários momentos da carreira da veterana, desde a década de 1960, incluindo imagens de apresentações, capas de discos, sua relação com o samba e até menções ao jogador Garrincha.
Após ficar um ano longe dos palcos para cuidar da pequena Madalena, fruto de seu relacionamento com o marido e baterista do NX Zero, Daniel Weksler, Pitty, de 39 anos, lançou a canção na última sexta-feira (4). A música, disponível nas plataformas digitais, foi, inicialmente, escrita por Pitty para o seu último disco, Sete vidas (2014). No entanto, acabou ficando de fora do registro.
Dividindo os vocais, Pitty e Elza Soares falam sobre temáticas em alta na sociedade contemporânea, como o empoderamento das mulheres, a homofobia e maternidade, além do atual momento do rock nacional. Em Na pele, as cantoras são acompanhadas pelos músicos Duda (bateria), Guilherme Kastrup (percussão), Marcelo Cabral (baixo e synth), Martin (guitarra) e Rodrigo Campos (guitarra).
Considerada “a melhor cantora do milênio” pela BBC, descrita como “uma mistura explosiva de Tina Turner e Celia Cruz” pela Time Out, e conhecida no mundo todo como A Rainha do Samba. Nascida na favela da Moça Bonita, passava a infância “rodando pião e brigando com os meninos”.
Casou pela primeira vez aos 12 anos, teve seu primeiro filho aos 13, ficou viúva aos 21, e se tornou sensação internacional aos 30. Elza Soares não é apenas um ícone como artista, é também um ícone como pessoa, e um exemplo de superação. A vida não deu trégua pra essa mulher: teve que ser forte pra lidar com inúmeras dificuldades, e ainda assim, nunca deixou de subir no palco com um belo sorriso no rosto e contagiar a plateia com a alegria do samba.
Nada é doce e suave quando se trata de Elza Soares. Desde sua expressão dura, emoldurada por seu afro volumoso coroado com flores ou um turbante, até sua voz metálica, suas feições felinas, seu sorriso largo e rasgado, sobrancelhas desenhadas altas e arqueadas, e sua eloquência curta e grossa, aquilo que Elza transmite mais que tudo é força.
Hoje, tem 60 anos de carreira musical. Seu samba alegrou e inspirou três gerações, e continuará a alegrar e inspirar as próximas. Elza Soares é um clássico, e não apenas um daqueles clássicos antigos, tipo aquela galera que fez músicas geniais e se aposentam, ficando presas no passado. Ela é um clássico que provou que enquanto estiver viva vai continuar se adaptando às novas gerações e aos novos mundos, sempre dando um jeitinho de adaptar seu talento.
Em Outubro, surpreendeu os fãs, já acostumados a ouvir sua voz entre os batuques e aranhas do samba de raiz e da bossa tradicional, ao lançar um álbum, sem muito estardalhaço ou promoção prévia. Sim, Dona Elza fez a linha Beyoncé e surpreendeu os fãs com um álbum quando ninguém esperava, e como se não bastasse: o primeiro álbum inteiramente composto de músicas inéditas, depois de sua longa discografia recheada de interpretações de músicas muito bem conhecidas pelo Brasil. A princípio, é difícil de acreditar que uma senhora de 78 anos tenha lançado onze faixas tão contemporâneas, e tão relevantes em 2015. Os principais temas do “A Mulher do Fim do Mundo” é a violência contra a mulher, negritude, morte, e sexo.
Abrindo o álbum, a belíssima faixa “Coração do Mar” é um poema de Oswald de Andrade cantado acapella, um ode a uma terra imaginária, “terra que ninguém conhece”. “É um navio humano / Quente e negreiro / Do mangue”. Conforme a voz de Elza desaparece, surge um quarteto de cordas anunciando a próxima faixa, e talvez a mais bela do álbum, que rendeu seu título: “A Mulher do Fim do Mundo”. Em contraponto às cordas, aparece a percussão típica do samba, acompanhada da voz ríspida de Elza: “Meu choro não é nada além de Carnaval / É lágrima de samba na ponta dos pés”.
“Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou – e vou – até o fim cantar”
Eu fico arrepiada só de lembrar dessa música. É incrível como o trabalho de Elza pode soar tão familiar, tão tradicional, tão samba, e ainda assim, tão diferente e inovador. Sua voz nesse álbum, suja, pesada, carrega seus 60 anos de carreira, bem como seus 78 anos de dor – desde sua infância difícil até a recente morte de seu quinto filho. E ainda assim, Elza se mostra mais empoderada do que nunca, o que fica bem claro na terceira faixa do álbum: “Maria da Vila Matilde – Porque Se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde”, faixa que mistura um samba sujo com rock.
“Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome e explicar meu endereço
Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço
…
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”
Empoderamento de encher os olhos d’água, né? O melhor é o deboche que permeia essa faixa – Elza diz que quando o servidor público chegar ela oferece um cafezinho e mostra o roxo no seu braço, e que quando a mãe do agressor ligar, ”Eu capricho no esculacho / Digo que é mimado, que é cheio de dengo / Mal acostumado, tem nada no quengo”. Em entrevista, disse “Amor com pancada não existe. Mulher só deve gritar quando for de prazer”. E como coisa do destino, esse álbum foi lançado três semanas antes da prova do ENEM, cuja redação era justamente sobre a violência contra a mulher. Não é à toa que eu digo que a Elza é um clássico que continua relevante.
Seguem duas faixas agressivas e pós-apocalípticas: “Luz Vermelha” e “Pra Fuder”. A primeira é a descrição de um Rio de Janeiro após o fim do mundo, por onde Elza vaga, sobrevivente. A segunda é sobre uma experiência sexual em que Elza se sente como uma espécie de entidade nativa do fogo. Em entrevista para O Globo, Elza explica: “A mulher do fim do mundo é a que vai ficar. O fim do mundo é a eternidade. Sou espírita, dentro do espiritismo existe uma entidade que se chama Iansã. Ela é o fogo, a lava. Eu me vejo como essa entidade maravilhosa se incendiando, mas viva, viva eternamente”. Pra TV Carta, ainda completou: “Pra Fuder não é só sobre cama, não. É a mulher que bota pra fuder de verdade”.
Já tá sem fôlego depois de tanto samba (literalmente)? Pois segura esse tamborim aí que tem mais: a sexta faixa do CD é sobre “Benedita”, uma travesti traficante.
“Ele que surge naquela esquina
É bem mais que uma menina
Benedita é sua alcunha
E da muda não tem testemunha
Ela leva o cartucho na teta
Ela abre a navalha na boca
Ela tem uma dupla caceta
A traveca é tera chefona”
Talvez a faixa mais agressiva do álbum, ela transparece a realidade violenta da travesti no Brasil, e podemos sentir a adrenalina da perseguição policial às que traficam ou se prostituem. Ao longo da música, fica claro o porquê de Elza ter inserido essa faixa no álbum: ela se enxerga na travesti – violentada, injustiçada, forte, persistente e guerreira, Benedita é uma verdadeira “mulher do fim do mundo”, como a própria Elza. E Elza não simplesmente largou essa faixa e saiu correndo: em entrevistas sobre o álbum, quando questionada sobre a faixa, ela não deixa de falar sobre a situação da comunidade trans no nosso país, revoltada com a violência que sofremos. Rainha mesmo, né? Isso sim que é sororidade. Em entrevista à TV Carta, disse “A mulher não tomou ainda o conhecimento que uma mulher ajuda a outra, que a gente precisa ter mulheres do nosso lado. Precisamos de amigas.”
A faixa “Firmeza” é uma conversa descontraída entre jovens amigos que “se trombaram” na rua, provando o quão contemporânea Dona Elza realmente pode ser, simulando naturalmente um diálogo cheio de “qualés” e “firmezas”. “Beleza mano, fica com Deus / Quando der a gente se tromba, beleza? / Você é mermão muleque”. Em “Dança”, faixa mais tranquila que as cinco anteriores, que dialoga com o tango, Elza retorna a questões existenciais e espirituais. “Daria a minha vida a quem me desse o tempo / Soprava nesse vento a minha despedida / … / E se eu me levantar, ninguém vai saber / E o que me fez morrer, vai me fazer voltar”.
Se o álbum abriu com duas músicas belíssimas, ele também encerra com três faixas tão belas quanto. A instrumentação de “O Canal” tem forte influência da música africana, que acompanha o tema da letra: uma jornada espiritual. “Solto” é a única faixa sem distorções, fora o prelúdio acapella do álbum, “Coração do Mar”. Descreve o processo de morrer: a alma se desprendendo do corpo. E, finalmente, fechando o álbum com chave de ouro, “Comigo” começa num crescendo de ruídos e distorções, construindo a tensão do ouvinte. Ao chegar na metade da faixa, o ruído de repente cessa, e a voz de Elza surge novamente num acapella belo e singelo, que encerra o álbum:
“Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
Talvez por sermos tão parecidos
Levo minha mãe comigo
De um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
Pois deu-me seu próprio ser”
O novo álbum de Elza é fogo, é melancolia, é sofrimento e é liberdade, como há de ser o samba, como é Elza Soares, e como é a mulher brasileira. Empodera, toca na ferida, é aquele tapa na cara que dói, mas nos faz acordar. Trata de racismo, de misoginia, de transfobia. A voz de Elza está rouca, rasgada, e sempre prestes a falhar, e exatamente por isso, mais bela do que nunca. É uma cicatriz que mostra a força que ela precisou pra enfrentar o que enfrentou, e é bela, como as marcas da idade no seu rosto. “Boto o passado todo num cantinho, guardadinho em mim, mas sabendo que o now está aqui. Ontem já foi, amanhã não sei. Então, tem que ser agora”.
Elza Soares é o olhar misterioso de Capitu, a casca grossa de Maria da Penha, o sorriso alegre de Carmen Miranda, o braço forte de Dandara, tudo junto. É daquelas mulheres que fazem História pra lembrar às mulheres do Brasil que esse país é nosso.
'Temos avanços muito lentos ainda. O dia a dia ainda é nosso maior desafio. É de uma ignorância tão grande, uma estupidez ter que desafiar a cor', diz Elza Soares
Por Agência Brasil
'My name is now'. Meu nome é agora, na tradução livre, é, ao mesmo tempo, um documentário e o sentido da vida para a cantora e compositora Elza Soares. A artista é uma das homenageadas da edição deste ano do Latinidades – Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. A exibição do documentário sobre sua trajetória de superações e o seu novo show A Voz da Máquina abriram no mês passado a primeira noite do festival.
Em entrevista à Radioagência Nacional e ao programa Viva Maria, da Rádio Nacional, veículos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Elza fala do novo trabalho e do que lhe motiva a subir aos palcos. Entusiasta das novas tecnologias e ritmos, ela quer misturar o samba com o “house” e levar música brasileira para a juventude. A “voz do milênio” pede mais arte e menos tapete vermelho no cinema. Elza cobra também a inserção de mulheres negras nas telas e diz que o racismo nas redes sociais é apenas a nova forma de manifestação do preconceito.
“Percebi o racismo com porta batendo na minha cara. Não tinha rede social. Aí você se pergunta: mas por que bateram a porta na minha cara? Não fiz nada. Fez, sim. Você nasceu negra. E é assim”, constata.
Confira trechos da entrevista:
EBC - O que representa pra você cantar em Brasília e ser homenageada pelo Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha?
Elza Soares - Agradeço muito por estar em Brasília, parece que estou vivendo aqui. Comecei a vir a Brasília desde o início da cidade. Tenho muito a ver com essa terra. E ser homenageada pelo festival de mulheres negras é um coroamento. Ainda mais para quem veio do planeta fome em um país tão rico. Quando a gente participa de uma coisa tão importante, uma coisa que é você, sua cara, sua vida, realmente coroa você. Me sinto orgulhosa de participar e estar presente.
EBC - Como tem sido a sua busca por novos ritmos e sonoridades expressas nos seus shows?
Elza - Tem sido muito fácil. Como my name is now, eu sou o agora, eu estou por dentro e gosto muito de fazer esse trabalho. É uma maneira também de levar compositores para essa juventude que não conhece a música brasileira. Até outubro teremos CD novo, feito por compositores de São Paulo, com o título Mulher do Fim do Mundo. Gosto desses desafios.
EBC - O festival também exibe um documentário sobre a sua vida. Como foi essa experiência?
Elza - Foi uma experiência muito boa. Fui buscar uma diretora mulher – a Elizabete Martins Campos. Muito melhor falar de mulher para mulher. Ela te entende melhor. O cinema brasileiro precisa de mais arte e menos tapete brasileiro.
EBC - Você acha que a televisão brasileira retrata de forma adequada as mulheres negras?
Elza - Quase não tem negro no país, né? Na televisão não aparece. Tá faltando mulher negra na televisão, programa de mulheres negras, mais mulheres negras falando. Mulher negra quando entra na novela vai fazer novela de época pra chamar nhá, nhó, sinhozinho. Não vejo mulher negra na televisão. É brabo isso.
EBC - Como você vê a situação da mulher negra hoje no país?
Elza - Temos avanços muito lentos ainda. O dia a dia ainda é nosso maior desafio. É de uma ignorância tão grande, uma estupidez ter que desafiar a cor. Dizem que tem política pública de combate ao racismo e a gente tenta acreditar nisso. Mas na sociedade vejo tudo muito encubado, por trás da cortina, por debaixo da mesa.
EBC - O caso da jornalista Maria Júlia Coutinho – a Maju, da TV Globo, que sofreu racismo nas redes sociais – é revelador desse preconceito?
Elza - Sim. É uma coisa que conheço demais. Não precisava ter redes sociais, internet. Percebi o racismo com porta batendo na minha cara. Não tinha rede social. Aí você se pergunta, mas por que bateram a porta na minha cara? Não fiz nada. Fez, sim. Você nasceu negra. E é assim.
EBC - Como você busca enfrentar esse preconceito no cenário da música, das gravadoras?
Elza - Hoje eu me articulo bem porque eu me imponho, e quando você se impõe você é bem recebida. Tem que saber onde pisa, a hora que pisa, como fala, com quem fala, é por aí. A vida foi feita nesse sentido. Se impondo, se posicionando, aí você chega bem.
EBC - O que te motiva a subir nos palcos e qual a música do seu 'agora'?
Elza - A vida dá motivação pra tudo. O que me motiva é ela, meus filhos, meus amigos e as pessoas que acreditam em mim. São muitas as músicas da minha vida. Mas a música do meu 'agora' é A Carne. A carne mais barata do mercado é a carne negra. Que vai de graça pro presídio. E para debaixo do plástico. Que vai de graça pro subemprego. E pros hospitais psiquiátricos. A carne mais barata do mercado é a carne negra. Que fez e faz história. Segurando esse país no braço.