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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

DAVID NASSER, 40 ANOS DE SAUDADES...

Por Antonio Neves


David Nasser ficou conhecidíssimo no Brasil como jornalista da revista O Cruzeiro. Foi também compositor e escritor. Em sua biografia a Wikipedia publica trechos interessantes a respeito dele, como este:

http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Nasser

“Em 1944 viajou para Pedro Leopoldo, junto com Jean Manzon, com o intuito de entrevistar Chico Xavier. À época, a viúva de Humberto de Campos movia uma ação contra a Federação Espírita Brasileira e Chico Xavier, no sentido de obter uma declaração, por sentença, de que se a obra psicografada Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho “era ou não do ‘Espírito’ de Humberto de Campos”, e que em caso afirmativo, que ela obtivesse tivesse os direitos autorais da obra. Como Nasser não conseguia ser atendido por Chico Xavier, ele e Manzon usaram nomes falsos e fingiram ser estrangeiros, o que também acharam que serviria para testar se de fato o médium se comunicava com espíritos.

David Nasser e Jean Manzon fizeram uma reportagem não muito simpática com o extremamente retraído médium Chico Xavier, a qual foi publicada em “O Cruzeiro“4 ; todavia, quando Nasser e Manzon chegaram em casa após a reportagem, tiveram uma surpresa, como relatou Nasser numa entrevista à TV Cultura em 1980: “De madrugada, o Manzon me telefonou e disse: ‘você já viu o livro que o Chico Xavier nos deu?’. Falei que não. ‘Então veja’, ele falou. Fui na minha biblioteca, peguei o livro e estava escrito exatamente isso: ‘ao meu irmão David Nasser, de Emmanuel’. Ao Manzon ele havia feito uma dedicatória semelhante. Por coisas assim é que eu tenho muito medo de me envolver em assuntos de Espiritismo”5 . “

Como escritor, publicou inúmeros livros. Uma pesquisa rápida na Estante Virtual (livros usados) mostra alguns de seus títulos, inclusive este, mencionado algumas vezes aqui no blog do Nassif:

http://www.estantevirtual.com.br/qau/david-nasser


David Nasser é autor de várias letras de músicas, inclusive desta:

http://letras.mus.br/planet-hemp/79168/

Nega do Cabelo Duro


Ondulado, permanente
Teu cabelo é de sereia
E a pergunta que sai da mente
Qual’é o pente que te penteia?…

Quando tu entra na roda
O teu corpo bamboleia
Minha Nêga meu amor
Qual’é o pente que te penteia?…

Teu cabelo a couve flor
Tem um “que” que me tonteia
Minha nega, meu amor
Qual’é o pente que te penteia?
Misamplia a ferro e fogo
Não desmancha nem na areia
Toma banho em Botafogo
Qual’é o pente que te penteia?…

Nêga do Cabelo Duro
(Oh minha Nêga!)
Qual’é o pente que te penteia?
(Qual’é o pente!)
Qual’é o pente que te penteia?
(Qual’é o pente!)
Qual’é o pente que te penteia?
Oh! Nega!…(2x)

…………………

Mais composições de autoria dele, em


http://everaldofarias.blogspot.com.br/2012/03/os-compositores-do-brasil-46.html

sábado, 28 de janeiro de 2017

DAVID NASSER, 100 ANOS


“Adeus, ano velho!
Feliz ano novo!
Que tudo se realize
No ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso,
Saúde pra dar e vender…”

Cantados há 65 anos pelos brasileiros em toda virada de ano, os versos da valsa Fim de ano, lançada em outubro de 1951 em gravação do cantor paulista João Dias (1927 – 1996), lembram o compositor e jornalista paulista David Nasser (1º de janeiro de 1917 – 10 de dezembro de 1980), nascido há exatos 100 anos. Fim de ano é composição creditada a Nasser e a Francisco Alves (1898 – 1952), Jornalista polêmico, do tipo que adicionava doses de ficção aos fatos que contava em controvertidas reportagens, Nasser nasceu na cidade paulista de Jaú (SP), foi criado na mineira Caxambu (MG) e acabou fazendo nome na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde saiu de cena aos 63 anos, vítima de diabetes e câncer no pâncreas, deixando extensa obra musical que fez o Brasil cantar na era pré-Bossa Nova.

Com o compositor mineiro Alcyr Pires Vermelho (1906 – 1994), Nasser fez um dos mais belos títulos do gênero samba-exaltação, Canta Brasil, lançado em 1941 na voz do parceiro, amigo e padrinho artístico Francisco Alves. Com o compositor fluminense Herivelto Martins (1912 – 1992), o mais bem-sucedido parceiro musical de Nasser, o jornalista criou folhetinescos clássicos da canção popular brasileira como A camisola do dia (1953), Atiraste uma pedra (1958), Carlos Gardel (1954), Hoje quem paga sou eu (1955), Mamãe (1957), Pensando em ti (1957) e Vermelho 27 (1956), todos – com exceção de Mamãe – lançados na voz de barítono do cantor gaúcho Nelson Gonçalves (1919 – 1998), também intérprete original de Normalista (1949), parceria de Nasser com o compositor fluminense Benedito Lacerda (1903 – 1958).

Versátil, David Nasser também fez sambas e marchas para a folia de Momo. Nessa seara carnavalesca, o maior sucesso do compositor foi Nega do cabelo duro (1942), hit nas vozes do grupo vocal Anjos do inferno. Com cerca de 300 músicas gravadas, entre elas Mãe Maria (Custódio Mesquita e David Nasser, 1943), Nasser tem obra musical que, diferentemente da produção jornalística do repórter, jamais teve a veracidade questionada. É como compositor que o Brasil deve celebrar em 2017 o centenário de nascimento de David Nasser.


Fonte: http://www.sobrenoticias.com.br/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

AS BANDEIRAS DE DAVID NASSER - PARTE 02

Este ano completa-se 35 anos da morte do jornalista e compositor que partiu aos 63 anos na cidade do Rio de Janeiro

Por Letícia Nunes de Moraes*



Resumo – David Nasser foi um dos jornalistas mais famosos no Brasil dos anos 1940 e 1950. Não apenas famoso, mas controvertido. Sua carreira se confunde com a história da revista O Cruzeiro na qual ficou conhecido pela parceria com o fotógrafo francês Jean Manzon, ao lado de quem produziu jornalismo temperado com ilusão e polêmica. Letrista de canções memoráveis da música popular brasileira, Nasser foi também membro, como presidente de honra, de um grupo de extermínio ligado à polícia carioca, denominado Scuderie Le Coq.

Palavras-chave: imprensa, música, política, polícia, autoritarismo.



CRONISTA POLÍTICO

Em 1959, David Nasser tornou-se também um dos diretores de O Cruzeiro e passou a assinar o primeiro artigo da revista, em página dupla. Sobre a sua atuação como cronista político, escreveu:

Entenda-se, assim, que a orientação geral e política da Revista não é – Deus me livre! – traçada por mim. A única coisa que sou, graças a Deus, é chefe de mim mesmo. Destas duas páginas. Desta coluna independente. [...] Não podia ser doutra forma, havendo cento e tantas páginas para brincarem, opinarem, guerrearem, trucidarem, fazerem as pazes, deixando-me em paz em meu diálogo com o público. O meu DIP sou eu mesmo (NASSER, 1966, p. 9-13).

No mesmo ano, em 21 de setembro, Chateaubriand doou a 22 empregados 49% da propriedade do seu império de comunicação, dando origem ao Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados. David Nasser não foi contemplado no primeiro momento, passando a ser condômino somente a partir de 1962. Na TV Tupi, suas crônicas foram lidas no programa “Diário de um repórter”, entre 1962 e 1970.

Não aparecia ao vivo – era fanhoso, tinha a dicção atrapalhada e, explicou, Chatô não gostara quando o vira uma vez. Seus textos eram lidos por Alberto Curi, e “assinados” por uma imagem em que aparecia datilografando (CARVALHO, 2001, p. 423).

Em 28 de fevereiro de 1960, Chateaubriand sofreu uma dupla trombose cerebral que o deixou tetraplégico. Apesar das limitações físicas, continuou escrevendo de sua residência em São Paulo, a Casa Amarela, transformada, inclusive, num dos centros de conspiração contra o governo do presidente João Goulart nos anos que precederam o golpe que o depôs.

David Nasser teve participação ativa na conspiração civil-militar que pôs fim ao governo Goulart. Seu principal inimigo político foi o ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Eleito com 269 mil votos, o deputado federal mais votado da história do Congresso até aquela data, Brizola já havia mostrado sua força política e sua habilidade no trato com a imprensa em 1961 quando, para garantir a posse do cunhado e vice-presidente, João Goulart, após a crise que sucedeu a renúncia de Jânio Quadros, formou a chamada Cadeia da Legalidade, comandando 104 emissoras gaúchas, catarinenses e paranaenses e mobilizando a população em defesa da posse de Goulart. Denunciava a adoção do parlamentarismo como violação da Constituição.

Durante o governo Goulart, Leonel Brizola se tornou a principal liderança da esquerda e alvo de ataques, na imprensa, dos setores conservadores, envolvidos da Cadeia Democrática, coordenada pelo complexo formado pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), pelo Instituto de Pesquisa e Estudos Socais (Ipes) e pela Escola Superior de Guerra (ESG), que camuflavam suas intenções golpistas, apresentando-se como espaços de estudos e debates sobre a sociedade.

David Nasser foi um dos jornalistas que o enfrentram. E o fez da forma mais dura entre todos os políticos sobre os quais escreveu. Durante todo o ano de 1963, Nasser escreveu vários artigos insultando o ex-governador: “A besta do Apocalipse”, “O bandoleiro da sintaxe”, “Os Brizolas passam, o Brasil fica” e “Resposta a um pulha”, nos quais disparou ofensas contra o ex-governador: “covarde”, “bestinha fácil de montar”, “inimigo da imprensa, da gramática e do alfabeto”. Quando Brizola entrou com processo por injúria e difamação contra o jornalista, a resposta veio em “O réu feliz”:

Talvez tenha a minha mão carregado no adjetivo [...]. Não recorrerei, por desnecessário, à adjetivação que coloriu de marrom – reconheço – a minha resposta. Mas reconheçam, também, que não se responde a uma bofetada com uma flor [...]. Senhor juiz, sou réu confesso, se é possível medir o adjetivo. Porém, todas as vezes, neste mesmo lugar, neste mesmo banco onde me traz a profissão, todas as vezes que a honra me trouxer aqui, eu serei um réu feliz (NASSER, 1963c, p. 6-7).

A desavença entre os dois chegou à agressão física, quando, em dezembro de 1963, num encontro casual no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, foram ao chão, aos socos. Sobre o episódio escreveu “O coice do pangaré”:

Depois da agressão pelas costas – e do revide pela frente – bato o teclado desta máquina com a mão que esbofeteou um canalha pela segunda vez. A primeira, quando o retratou  moralmente. A segunda, quando respondeu ao ataque traiçoeiro. [...] Se Kennedy, que era Kennedy, não pode evitar a bala de um louco de Dallas – como poderia eu escapar ao coice de um pangaré de Carazinho? São acidentes do trabalho (NASSER, 1964).

Logo após o golpe civil-militar de abril de 1964, David Nasser publicou, em 2 de maio de 1964, uma coletânea de advertências sob o título “Caiu de burro” em referência ao presidente João Goulart: “Longos, longos meses, adverti a Nação da marcha batida do Sr. João Goulart para a deposição ou a renúncia. O Brasil não acreditava. O presidente sorria”. Ao final do texto de Nasser, foi reproduzido um telegrama: “Esta vitória teve em você um dos seus mais formidáveis generais. Foi o maravilhoso anjo vingador. Chateaubriand”. A mensagem evidencia a participação de David Nasser na conspiração que derrubou João Goulart. Um mês depois escreveu:

Pertenço àqueles que vêem na atitude firme dos militares, que planejaram e executaram esse movimento, com a ajuda de governadores e parlamentares democráticos, um propósito nobre: o de salvar o Brasil da ameaça comunista e da hemorragia inflacionária (NASSER, 1964b, p. 4-5).

Apoiou o regime militar em todas as suas etapas, mesmo nos períodos de maior violência repressiva, sempre fazendo coro com o discurso dos presidentes militares. Desde o primeiro (marechal Humberto de Alencar Castelo Branco – 1964-1967) até o último (general João Baptista de Oliveira Figueiredo – 1979-1985) dos presidentes militares, nos discursos para o grande público, notadamente aqueles nos quais tomam posse formalmente no exercício das funções presidenciais, fazem questão de reafirmar suas ações e comportamentos em nome da defesa e da democracia no país (AQUINO 1997).

O último presidente militar, o general João Baptista Figueiredo, chegou a afirmar em pronunciamento que defenderia a democracia, mesmo que para isso fosse preciso “prender e
arrebentar”. Contudo, de acordo com a historiadora Maria Aparecida de Aquino (1997, p. 273):

A democracia é, por sua origem, um regime que não usa da violência, não é imposto, respeita a escolha do cidadão e, em função de sua liberdade e integridade mental e física, é exercido. “Prender e arrebentar” não são atributos seus, e sim a garantia da manutenção de todos os direitos inalienáveis do cidadão, inclusive o de discordância pública com os governantes. Estes, na plena vigência do regime, devem demonstrar inequivocamente a capacidade de convivência com os mais variados antagonismos que são fruto da sociedade, entendida como conflituosa por natureza.

Defesa da democracia, combate ao comunismo e à corrupção: esses três pilares sustentaram o discurso conspiratório para a deposição de Goulart e a intervenção militar que perdurou 21 anos. O Poder Executivo apenas retornou aos civis após duas décadas de autoritarismo. David Nasser aplaudiu as ações das forças repressivas que lhe deram sustentação dizimando a oposição. Quando Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército e principal líder da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) (MACIEL, 2006), foi morto, em setembro de 1971, durante emboscada no sertão da Bahia, David Nasser (1971b, p. 16) escreveu sobre o guerrilheiro: “de nada adianta insultar os mortos, mas apontar os seus erros”, entretanto:

Tumultuado, passional, fanático, nem ele mesmo sabia o que pregava nem o rumo que seguia. Primata ideológico, indigente político, misturava tudo, idéias, mapas, planos, granadas, sandálias, mágoas, sonhos, e saía por aí como cangaceiro do marxismo de tempero chinês, ora pregando a guerrilha urbana, ora defendendo a guerrilha rural – mas só, sempre só, sem agrupar em torno de si, de suas idéias, de sua loucura, mais do que um grupo ultraradical. [...] Delirante, paranóico, briga com a própria sombra.


Estabeleceu laços estreitos com membros do governo militar. Entre todos os ministros com os quais se relacionou, Mário David Andreazza, ministro dos Transportes nos governos de Costa e Silva e Médici e, posteriormente, do Interior, no governo Geisel, foi o mais próximo, “de maior confiança e intimidade”, segundo Carvalho (2001, p. 463-464), a quem “pediu e prestou serviços”:


David escrevia seus discursos, defendia-o das acusações, aconselhava-o nos problemas internos do ministério, tinha acesso a informações confidenciais sobre as crises no governo, levava-o a grandes festas na sua casa. Era o “seu” ministro, como gostava de dizer.


EMPREITEIROS DE JESUS

Paralelamente à perseguição política aos opositores do governo, durante a década de 1970, ganhava terreno a ação clandestina dos esquadrões da morte. Em diversas ocasiões, Nasser defendeu publicamente a atuação dos “empreiteiros de Jesus”. Em 30 de março de 1963, defendeu a lei do olho por olho ao escrever sobre o assassinato do filho do jornalista Odylo Costa Filho, seu colega em O Cruzeiro, por outros jovens menores de idade:

Morreu com a dignidade de um veterano, caiu sob armadura medieval, defendendo a sua dama contra bandidos. E eram talvez bandidos de sua idade. Hoje – seu pai, que retoma o trabalho e vê paginar o drama que lhe sai das entranhas – sabe que tem comigo, com todos os homens decentes dessa submerdência (e é submerdência mesmo), uma responsabilidade maior: poupar a vida de nossos filhos, encurtando a dos assassinos. Vamos almoçá-los antes que jantem os nossos meninos. A ordem é essa: um revólver na cintura e atirar para matar (NASSER, 1963b, p. 4).

Datam dessa época as amizades com investigadores da polícia civil. De acordo com Carvalho
(2001, p. 412-414), o que era uma relação informal “iria se tornar oficial entre o final de 63 e o golpe militar, quando Nasser levou os ‘empreiteiros de Jesus’, como os chamava, para dentro de casa”, onde lhe deram proteção contra uma eventual reação ao golpe, o que não ocorreu. No Rio de Janeiro, o nome Scuderie Le Cocq foi uma homenagem do grupo de extermínio carioca ao detetive Milton Le Cocq, morto em 27 de agosto de 1964. Sobre o amigo assassinado, Nasser (1964a, p. 14) escreveu:

O Detetive Le Cocq era um homem sério. Se não tivesse sido policial – um dos mais brilhantes e queridos que a corporação teve em sua história –, teria sido um lavrador tranquilo. [...] Realmente é preciso responder com um único argumento que eles entendem, à bala, levando o terror até onde esses bandidos vivem [...] que dêem aos policiais uma ordem: atirem para matar. Dez bandidos mortos por um policial tombado, como o inesquecível Le Cocq, no cumprimento de um dever mal pago pelo Estado e mal compreendido pelo povo. 

Quando a Scuderie Le Cocq foi legalizada, em 1971, Nasser foi oficialmente escolhido seu presidente de honra. No mesmo ano, escreveu artigo no qual contava que o cineasta francês Marcel Camus lhe teria procurado com a proposta de fazer um filme sobre o esquadrão da morte. Nasser (1971a, p. 20) rechaçou a ideia, argumentando:

Um filme como este seria contra o Brasil, muito mais de que contra todos os abomináveis esquadrões da morte. Contribuiria pra que lá fora imaginassem que a Revolução compactuaria ou ao menos não reprimiria esses processos sumários de combater o crime. [...] Sou contra todas as penas de morte – sejam ditadas pelos esquadrões dos terroristas, dos policiais ou as penas capitais inseridas nas leis brasileiras após quase um século.

Inconformado com a proporção adquirida pela atuação do esquadrão da morte, Hélio Bicudo (1976, p. 25), então procurador da Justiça do Estado de São Paulo, obteve, em 23 de julho de 1970, autorização do procurador-geral de Justiça, Dario de Abreu Pereira, para orientar e supervisionar o trabalho do Ministério Público no caso do esquadrão da morte:

Adepto, por formação caracteriológica e profissional, de uma atuação decidida do Ministério Público no combate ao crime, entendia e entendo que as coisas não poderiam ficar no ponto que se encontravam já. Se às escâncaras, com intensa cobertura jornalística, o escândalo já ultrapassava as nossas fronteiras e revistas de todo o mundo narravam as façanhas do “Esquadrão”, a Procuradoria da Justiça não podia descansar de braços cruzados.

As ações dos esquadrões da morte não ficaram restritas ao Estado da Guanabara. Em São Paulo, uma representação do grupo paulista funcionava no Palácio da Polícia Civil, onde
atuava o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o homem forte da repressão política durante o regime militar. Segundo o jornalista Percival de Souza (2000, p. 17):

A fama lhe veio, entretanto, quando um grupo de policiais formou um órgão de extermínio autodenominado Esquadrão da Morte, para liquidar os que seriam os bandidos mais perigosos da cidade, num desafio aberto à Justiça e com apoio irrestrito dos mais altos escalões dos responsáveis pela segurança pública. Então Fleury passou a ser reverenciado como se seus homens – “a equipe do doutor Fleury”, conforme se dizia – tivessem licença especial para matar, sem nenhum questionamento.

A ausência de garantias individuais imposta pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado em 13 de dezembro de 1968, abriu caminho para ações violentas da polícia sobre a população, misturando a repressão aos chamados crimes políticos (contra a segurança nacional) à perseguição aos criminosos “comuns” e esmoreceu a atuação dos órgãos de fiscalização do
Estado, reféns da estrutura de poder montada pelo regime militar. 


VELHO CAPITÃO

Em junho de 1967, David Nasser foi afastado de O Cruzeiro por causa do artigo “Burrice americana”, no qual criticava duramente a política comercial do governo brasileiro. No mesmo ano, embora mantivesse o nome no expediente da revista dos Diários Associados,
passou a escrever para a revista Manchete, fundada em 1952 para ser a principal concorrente de O Cruzeiro. No mesmo ano, recebeu da Academia de Ciências de Lisboa o Prêmio Camões pelo livro Portugal, meu avozinho, publicado em 1965, uma coletânea de artigos sobre a terra de Camões publicados em O Cruzeiro e escritos durante 1964, quando David Nasser esteve em Portugal. Sobre a premiação, o dono dos Diários Associados escreveu o artigo “Nem Camões escapou desta peste!”, no qual reafirma a ligação do jornalista com a revista que o tornou célebre:

O galardão é o maior concedido pela Academia. E se aqueles homens graves, que conservam a nobre e alta tradição do espírito português, resolveram-se a premiar o turco com tão alta comenda, é que o consideram, no melhor sentido da palavra, um brilhante homem de letras. Nós, aqui de O CRUZEIRO, e dos “Diários Associados”, estávamos habituados a ver nele o colunista que brotou do repórter, em uma evolução natural do escriba que amadureceu e que, de revelador de grandes temas e denunciador de grandes escândalos, passara a comentador de energia e coragem, dono de um estilo agressivo, e de uma coragem pessoal rara em nossa vida pública. [...] O prêmio é de David, mas a glória é também nossa, porque nosso, dos “Associados”, é o turco da peste que o conquistou (CHATEAUBRIAND, 1967, p. 6).

Quando Chateaubriand faleceu, em abril de 1968, Nasser (1968, p. 15) despediu-se do Velho Capitão com um artigo publicado em Manchete: 

Chateaubriand não apenas respeitava, mas suportava as minhas divergências, meus descaminhos, minhas rebeldias. Nunca fui seu pau-mandado. Não quero tratar aqui, por uma questão de higiene literária, das tentativas que fizeram para transformar um desacordo político numa questão pessoal. Nunca o conseguiram.

O desacordo político mencionado no texto era o ex-presidente Juscelino Kubitschek, em cujo governo Chateaubriand fora embaixador do Brasil na Inglaterra, entre 1957 e 1960. Em 1963, Nasser escreveu: “Quantas, quantas brigas tivemos, eu e meu patrão, por você, Juscelino! [...] Não queria que eu o maltratasse”. No fundo, reivindicava para si a responsabilidade pelo assassinato político do ex-presidente:

Permita-me, Chefe, que não aceite de suas mãos de anatomista, o cadáver insepulto do homem que ajudei a assassinar politicamente. Permita-me dizer-lhe, companheiro da Casa Amarela, que o verdadeiro Juscelino é o seu Juscelino de ontem, o meu Juscelino de hoje. Somos um trio desafinado (NASSER, 1963a, p. 4).

Em 8 de setembro de 1970 retornou à revista O Cruzeiro ocupando novamente as primeiras páginas. Com grande alarde foi anunciada “A volta do turco”. Nessa fase, escreveu diversos artigos enaltecendo o governo Médici e minimizando a repressão política. Engrossou o discurso ufanista, alimentado, de um lado, pela prosperidade alcançada por meio do chamado milagre econômico e, de outro, pela conquista do tricampeonato na Copa de Mundo pela seleção brasileira de futebol, em junho de 1970:

Nenhum outro governo, nenhuma outra revolução, nenhum outro momento mais propício do que este – sem que seja preciso mudar, cassar ou prender. É o momento estelar de um povo que quer encurtar a distância entre a riqueza e a miséria. E é também o momento estelar de um Presidente que veio do desconhecido para a possível imortalidade (NASSER, 1972, p. 22).

Nesse momento, encontrou em Dom Helder Câmara o novo alvo para seu habitual apedrejamento verbal. A campanha desmoralizadora foi motivada pelas denúncias de tortura no Brasil feitas pelo arcebispo no exterior. Também escreveu em causa própria, pois, a essa altura, era proprietário de fazendas e produtor de café e gado. Apesar de não escrever mais para O Cruzeiro desde 1973, a sua saída definitiva foi formalizada em 20 de maio de 1975, em carta encaminhada a João Calmon, presidente do Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados desde a morte de Chateaubriand, amplamente divulgada na imprensa, na qual declarava discordar “frontalmente do modo pelo qual está sendo administrado [...] traindo as nobres intenções do criador do instituto” (CARVALHO, 2001, p. 526). A revista saiu de circulação melancolicamente em 1975.

Em 1976, David Nasser retornou à revista Manchete, para onde levou as mágoas, as lembranças, a saudade da revista para a qual escrevera por três décadas: de 1943 a 1973. Para lá, levou também o ressentimento contra João Calmon, tema de vários artigos escritos em Manchete, o que causou desconforto junto a Adolph Bloch, fundador da revista, que encarregou Carlos Heitor Cony, então diretor de Manchete, a informá-lo de que um de seus artigos seria vetado e substituído por uma matéria, escrita pelo próprio Cony: “David Nasser, o repórter”. Em entrevista concedida a Luiz Maklouf Carvalho (2001, p. 537), Carlos Heitor Cony revelou a primeira impressão que teve ao conhecer Nasser pessoalmente, em junho de 1975, durante a crise dos Associados:

A sensação mais importante que eu tive foi a disparidade entre a imagem pública um boca-de-fogo, um repórter agressivo – e aquele caco que eu encontrei. Era uma pessoa
frágil, indefesa, precisando de apoio para descer uma escada, abotoar uma camisa. A fragilidade de chocou muito.

Dono de uma personalidade autoritária, David Nasser adotou o estilo de seu “Velho Capitão”
de fazer jornalismo, ou seja, usar a informação como moeda de troca para obtenção de benefícios pessoais. Deixou uma fortuna em imóveis e fazendas à esposa, Isabel, quando faleceu em 10 de dezembro de 1980, vítima de câncer de fígado. Seu corpo foi velado do prédio da Manchete. Atendendo a um desejo seu, a bandeira da Scuderie Le Cocq guarneceu o caixão. 


REFERÊNCIAS
ALVES, M. H. M. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Bauru: Edusc, 2005.
ACCIOLY NETTO, A. O império de papel: os bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre: Sulina, 1998.
AQUINO, M. A. de. A especificidade do regime militar brasileiro: abordagem teórica e exercí-
cio empírico. In: REIS FILHO, D. A. (Org.). Intelectuais, história e política: séculos XIX e XX. Rio
de Janeiro: 7letras, 1997. p. 271-289.
BICUDO, H. P. Meu depoimento sobre o esquadrão da morte. 2. ed. São Paulo: Pontifícia Comissão
de Justiça e Paz de São Paulo, 1976.
CARVALHO, L. M. Cobras criadas: David Nasser e O Cruzeiro. 2. ed. São Paulo: Senac, 2001.
CHATEAUBRIAND, F. de A. Nem Camões escapou deste peste! O Cruzeiro, Rio de Janeiro,
1967.
DREIFUSS, R. A. 1964 – a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. 6. ed.
Petrópolis: Vozes, 2006.
HAMBURGUER, E. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In: SCHWARCZ,
L. M. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000. p. 439-487.
MACIEL, W. A. O capitão Lamarca e a VPR. São Paulo: Alameda Editorial, 2006.
NASSER, D. Um trio desafinado. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, 2 fev. 1963a.
_______. Só mesmo à bala. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, 30 mar. 1963b.
_______. O réu feliz. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 6-7, 28 set. 1963c.
_______. O coice do pangaré. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 6-7, 18 jan. 1964a.
_______. Caiu do burro. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, maio 1964b.
_______. A revolução que se perdeu a si mesma. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1965a.
_______. O Rei David. Manchete, Rio de Janeiro, 1965b.

_______. Jânio: a face cruel. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
_______. Meu último encontro com Chateaubriand. Manchete, Rio de Janeiro, 7 abr. 1968.
_______. Le Cocq foi o antiesquadrão. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 20, 23 jun. 1971a.
_______. O último diálogo. O Cruzeiro, Rio de janeiro, p. 16, 6 out. 1971b.
_______. A revolução do homem. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 22, 19 jan. 1972.
NUNES, A. Já não se faz imprensa assim. Ainda bem. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 dez.
2001. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp19122001998.
htm>. Acesso em: 12 maio 2011.

SOUZA, P. de. Autópsia do medo. São Paulo: Globo, 2000.



* Mestra e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Autora do livro Leituras da revista Realidade (1966-1968), publicado pela Alameda Editorial.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

AS BANDEIRAS DE DAVID NASSER - PARTE 01

Este ano completa-se 35 anos da morte do jornalista e compositor que partiu aos 63 anos na cidade do Rio de Janeiro

Por Letícia Nunes de Moraes*


Resumo – David Nasser foi um dos jornalistas mais famosos no Brasil dos anos 1940 e 1950. Não apenas famoso, mas controvertido. Sua carreira se confunde com a história da revista O Cruzeiro na qual ficou conhecido pela parceria com o fotógrafo francês Jean Manzon, ao lado de quem produziu jornalismo temperado com ilusão e polêmica. Letrista de canções memoráveis da música popular brasileira, Nasser foi também membro, como presidente de honra, de um grupo de extermínio ligado à polícia carioca, denominado Scuderie Le Coq.

Palavras-chave: imprensa, música, política, polícia, autoritarismo.


INTRODUÇÃO
Esse brasileiro que nasceu na cidade paulista de Jaú, viveu uma infância pobre no Rio e uma adolescência difícil em Caxambu foi também outra evidência de que um mesmo indivíduo pode exibir, simultaneamente, muito talento, bastante sensibilidade, nenhum escrúpulo, alguma misericórdia e excessiva brutalidade (NUNES, 2001). David Nasser foi o jornalista mais famoso do Brasil nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira é inseparável da história da revista O Cruzeiro, num tempo em que a televisão ainda não era presença cotidiana nos lares brasileiros. Escritor primoroso, consagrou-se letrista de canções memoráveis da música popular brasileira, entoadas nas vozes dos mais diferentes intérpretes; de Agnaldo Timóteo a Gal Costa. O homem de andar desajeitado e com dificuldade de visão, sequelas da meningite que o acometeu na infância, destoava da imagem pública que construiu. Foi repórter numa época em que jornalismo e entretenimento eram, muitas vezes, indistinguíveis. Fazia reportagem como criação, mais do que como narrativa ao lado do parceiro, o fotógrafo Jean anzon. David Nasser foi também cronista político em tempos conturbados politicamente, de conspiração e autoritarismo. Foi partidário tanto do movimento conspiratório que derrubou o presidente João Goulart, em 1964, como do regime militar que o sucedeu. Agressivo, defendeu publicamente, em diversas ocasiões, a atuação do grupo do extermínio carioca, a Scuderie Le Cocq, do qual foi membro, como presidente de honra. A documentação remanescente de todas essas atividades foi guardada e catalogada pelo próprio David Nasser, numa compulsão pela sua obra, observou o jornalista Luiz Maklouf Carvalho (2001), que teve acesso ao arquivo pessoal de Nasser, disponibilizado pela viúva, Isabel Nasser. O contato com essa documentação lhe permitiu conhecer os bastidores da maior revista brasileira. Após três anos de pesquisa, entre 1999 e 2001, concluiu a biografia Cobras criadas: David Nasser e O Cruzeiro. Ao longo dos 61 anos que viveu, David Nasser publicou 17 livros. Compôs centenas de letras de canções; teve parceiros na música, inimigos (e ministros) na política, amigos na polícia.


CANTA, BRASIL
Terceiro dentre sete irmãos, David Nasser nasceu em Jaú, interior paulista, em 1º de janeiro
de 1917, filho de imigrantes libaneses. Viveu a infância no Rio de Janeiro. O pai, Alexandre Nasser, era comerciante de joias e pedras preciosas – e nunca fora fotógrafo das expedições  do marechal Cândido Rondon e da Coluna Prestes, como chegou a escrever em seus artigos, anos mais tarde. Quando David tinha nove anos, a família mudou-se para Caxambu, no sul de Minas Gerais. Foi entregador de pão na cidade mineira, antes de trabalhar numa loja de joias, emprego conquistado com a ajuda do pai, logo que voltaram a residir na capital carioca. Ainda estudante, já mostrava gosto pela leitura e pela escrita. Aos 17 anos, fez estágio como contínuo em O Jornal onde conheceu Assis Chateaubriand. Antônio Accioly Netto (1998, p. 109), diretor de O Cruzeiro durante quase 40 anos, escreveu sobre como teria sido o encontro dos dois:


Dizem que Assis Chateaubriand, ao vê-lo, duvidou que fosse capaz de escrever e aplicou-lhe um teste: trancou-o numa sala com algumas folhas de papel em branco e uma máquina de escrever, depois de lhe dar um tema para que desenvolvesse. Meia hora depois, ele entregava àquele que depois passaria a chamar de “Velho Capitão” um texto excelente e limpo, sem qualquer rasura. Foi contratado na hora.

A permanência em O Jornal, contudo, foi breve. Após desentendimento com o irmão de Chateaubriand, Urbano Ganot, diretor do diário, foi demitido. Em 1936, Nasser foi contratado por Roberto Marinho, diretor de O Globo e filho de Irineu Marinho, fundador do jornal onde atuou por quase nove anos. Data desse período o início de sua carreira como letrista, época em que passou a frequentar o Café Nice, ponto de encontro de compositores e intérpretes, que ficava próximo à redação de O Globo.

Seu primeiro sucesso foi “Nega do cabelo duro”, de 1940, em parceira com o lutador de boxe Rubens Soares, também frequentador do Nice: “Nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia?”. No ano seguinte, compôs “Canta, Brasil” em parceira com Alcyr Pires Vermelho, inspirada em “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, sucesso absoluto no carnaval de 1939. Francisco Alves foi o primeiro intérprete de “Canta, Brasil”:

Brasil / Minha voz enternecida / já dourou os teus brasões
Na expressão mais comovida / das mais ardentes canções...
Também, / a beleza deste céu
Onde o azul é mais azul / na aquarela do Brasil,
Eu cantei de norte a sul,/ mas agora o teu cantar,
Meu Brasil, quero escutar / nas preces da sertaneja
Nas ondas do rio-mar...
Herivelto Martins foi outro dos muitos parceiros musicais que encontrou nas noites de boemia do Café Nice. Com Herivelto escreveu inúmeras canções: “Camisola do dia”, “Pensando em ti”, “Ave-Maria no Morro” e, entre tantas outras, “Atiraste uma pedra”:

Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem
E quebraste um telhado, perdeste um abrigo
Feriste um amigo
Conseguiste magoar quem das mágoas te livrou
Atiraste uma pedra com as mãos que essa boca
Tantas vezes beijou
Quebraste um telhado
Que nas noites de frio te servia de abrigo
Perdeste um amigo que os teus erros não viu
E o teu pranto enxugou
Mas acima de tudo atiraste uma pedra
Turvando esta água
Esta água que um dia, por estranha ironia
Tua sede matou

Herivelto foi casado com a cantora Dalva de Oliveira. Quando o casal se separou, no início da década de 1950, começou entre os dois uma intensa “polêmica musical” em que um rebatia o outro por meio de canções. David Nasser entrou na briga defendendo Herivelto e deu o tom da campanha na qual procurou desmoralizar a cantora. Dalva pôs fim à discórdia com a música “Bandeira branca”, de autoria de Laércio Alves e Max Nunes, em 1970.


ESQUADRÃO DE OURO

A revista semanal O Cruzeiro integrava os Diários Associados, império jornalístico construído pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello. Adquirido em 1924, O Jornal foi o primeiro veículo de comunicação de sua empresa jornalística. Chateaubriand deixou no Nordeste a carreira de professor universitário para continuar exercendo as atividades jornalísticas, às quais se dedicava desde a juventude. Formado em Direito, chegou a ser aprovado no concurso da Faculdade de Direito de Recife para a cátedra de professor de Direito Romano e de Filosofia do Direito.

Lançada em novembro de 1928, O Cruzeiro foi a revista que mais tempo permaneceu em circulação no mercado brasileiro: cinco décadas. Foi o primeiro veículo de informação com circulação nacional e, para sua criação, foi decisiva a influência de Getulio Vargas, então ministro da Fazenda do governo Washington Luís.

Quinze anos após o lançamento, O Cruzeiro ainda não havia se consolidado no mercado editorial brasileiro e esteve a ponto de fechar. No início dos anos 1940, a circulação da revista era de 11 mil exemplares. Em 1954, com a notícia do suicídio de Getulio Vargas, a tiragem saltou para 720 mil exemplares em outubro daquele ano, quando a população brasileira estava em torno dos 45 milhões de habitantes. Em 1957, atingiu os 887 mil exemplares, estabilizando-se em 550 mil no restante dos anos 1950 e início dos 1960, quando entrou em declínio.

O sucesso de O Cruzeiro é comparável ao da TV Globo, décadas mais tarde, em termos de faturamento e inserção junto à população. A comparação dá a noção do que representava a presença da revista O Cruzeiro no dia a dia dos leitores nas décadas de 1940 e 1950. Embora a primeira emissora de televisão brasileira, a Tupi de São Paulo, tenha sido inaugurada pelo próprio Assis Chateaubriand, em 1950, é importante lembrar que a televisão ainda não fazia parte do cotidiano das pessoas nos anos 1950. O rádio, as revistas e os jornais eram os principais veículos de comunicação. Só nos anos 1970, o veículo se consolida pela forte presença no cotidiano dos telespectadores (HAMBURGUER, 2000, p. 454).

David Nasser foi para O Cruzeiro em 1943, em meio a uma importante reforma gráfica e editorial que fez do semanário uma revista de fotorreportagem. Jean Manzon, experiente fotógrafo francês, foi o expoente dessa modernização. Veio para o Brasil em 1940 quando, na Europa, a França sofria a invasão alemã. Aqui, trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de controle e censura à imprensa do Estado Novo (1937-1945). Suas fotos agradaram Getulio Vargas, como agradariam posteriormente os leitores de O Cruzeiro. O Brasil nunca vira fotos produzidas como as de Manzon, a não ser quem comprava as revistas ilustradas estrangeiras. Enquadramento perfeito, ângulos novos, closes de arrepiar, caras e bocas que pareciam em movimento, um estilo completamente novo se comparado ao da imprensa brasileira, incluindo O Cruzeiro (CARVALHO, 2001, p. 67).

O encontro de David Nasser e Jean Manzon aconteceu na redação de O Cruzeiro, de acordo com Freddy Chateaubriand, que dirigiu a reformulação editorial e convidou Nasser para fazer parte da equipe do semanário. Prometeu-lhe que suas matérias seriam assinadas, o que não ocorria em O Globo, de onde saiu definitivamente em 1944.

Manzon trouxe para O Cruzeiro a sua experiência na revista francesa Match, na qual foram publicadas diversas reportagens fotográficas repletas de imagens raras e exclusivas, obtidas com espertezas, como ofertas de retratos a funcionários do segundo escalão, formando assim uma rede de informantes ou ainda forjando situações. Nasser logo “pegou o jeito” como ele mesmo lembrou no artigo “O Rei Davi” na revista Manchete, edição de outubro de 1965, em matéria citada por Carvalho (2001, p. 75):

Naquele tempo, ninguém fazia reportagens, no sentido literal da palavra. [...] Quando o Manzon chegou aqui, era como um tenista de primeira classe ensinando um tenista de província – eu. Aprendi muito. Em primeiro lugar, aprendi a vencer a timidez, depois iniciei-me nos truques da profissão. O Manzon, embora não sendo um homem de cultura, possui extraordinária sensibilidade jornalística, acima do comum.

Uma das reportagens mais famosas da dupla foi “Barreto Pinto sem máscara”, publicada em 29 de junho de 1946. Exibia o deputado federal Edmundo Barreto Pinto, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), trajando cueca samba-canção e fraque. De acordo com Luiz Maklouf Carvalho (2001, p. 156):

Nasser mantinha uma relação promíscua com o deputado, pois o mesmo escrevia também no Diário da Noite, o folhetim em que o parlamentar narrava suas memórias. Era Barreto que assinava o folhetim – mas o próprio Nasser confessou na Manchete, que a obra era de sua autoria, sem esclarecer se remunerada ou não. É fato indiscutível que o deputado pagou aos Diários Associados pelas memórias, como comprova o recibo que Nasser guardou em seu arquivo pessoal. É de 12 de abril de 1949 e está assinado por Barreto Pinto. Não cita o valor, mas dá o número do cheque. 

A parceria com Manzon durou quase uma década. Em 1954, Nasser foi homenageado por Chateaubriand, seu admirador, por quem era chamado afetuosamente de “beduíno de uma figa” ou “turco louco”, com uma matéria de oito páginas em O Cruzeiro, ilustrada com 81 fotos e muitos adjetivos sob o título “David, o repórter”, um registro da importância e do prestígio daquele que apareceria dali em diante no expediente da revista como “repórter principal”, como lembrou Augusto Nunes (2001). 

Segundo Accioly Netto (1998, p. 106), O Cruzeiro transformou a imagem dos repórteres, antes considerados “cidadãos de segunda classe, quase marginais cujo estereótipo era um homem mal barbeado, bebendo no bar embaixo da redação, em plena madrugada”:

Em O Cruzeiro, os repórteres foram alçados à condição de estrelas [...]. E foi um grupo desses brilhantes repórteres, expoentes da fase mais espetacular da revista – ao longo dos anos 40 e 50 –, que recebeu de David Nasser (aliás, um dos componentes do grupo) o nome de “esquadrão de ouro”. Eram grandes repórteres, capazes de trajar um smoking com naturalidade, beber uísque com elegância e freqüentar os mais requintados salões sem qualquer constrangimento. Eles produziam histórias sensacionais, sendo por isso, admirados e queridos por seus leitores.


REFERÊNCIAS
ALVES, M. H. M. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Bauru: Edusc, 2005.
ACCIOLY NETTO, A. O império de papel: os bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre: Sulina, 1998.
AQUINO, M. A. de. A especificidade do regime militar brasileiro: abordagem teórica e exercí-
cio empírico. In: REIS FILHO, D. A. (Org.). Intelectuais, história e política: séculos XIX e XX. Rio
de Janeiro: 7letras, 1997. p. 271-289.
BICUDO, H. P. Meu depoimento sobre o esquadrão da morte. 2. ed. São Paulo: Pontifícia Comissão
de Justiça e Paz de São Paulo, 1976.
CARVALHO, L. M. Cobras criadas: David Nasser e O Cruzeiro. 2. ed. São Paulo: Senac, 2001.
CHATEAUBRIAND, F. de A. Nem Camões escapou deste peste! O Cruzeiro, Rio de Janeiro,
1967.
DREIFUSS, R. A. 1964 – a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. 6. ed.
Petrópolis: Vozes, 2006.
HAMBURGUER, E. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In: SCHWARCZ,
L. M. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000. p. 439-487.
MACIEL, W. A. O capitão Lamarca e a VPR. São Paulo: Alameda Editorial, 2006.
NASSER, D. Um trio desafinado. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, 2 fev. 1963a.
_______. Só mesmo à bala. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, 30 mar. 1963b.
_______. O réu feliz. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 6-7, 28 set. 1963c.
_______. O coice do pangaré. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 6-7, 18 jan. 1964a.
_______. Caiu do burro. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 4-5, maio 1964b.
_______. A revolução que se perdeu a si mesma. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1965a.
_______. O Rei David. Manchete, Rio de Janeiro, 1965b.
_______. Jânio: a face cruel. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
_______. Meu último encontro com Chateaubriand. Manchete, Rio de Janeiro, 7 abr. 1968.
_______. Le Cocq foi o antiesquadrão. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 20, 23 jun. 1971a.
_______. O último diálogo. O Cruzeiro, Rio de janeiro, p. 16, 6 out. 1971b.
_______. A revolução do homem. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, p. 22, 19 jan. 1972.
NUNES, A. Já não se faz imprensa assim. Ainda bem. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 dez.
2001. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp19122001998.
htm>. Acesso em: 12 maio 2011.
SOUZA, P. de. Autópsia do medo. São Paulo: Globo, 2000.



* Mestra e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Autora do livro Leituras da revista Realidade (1966-1968), publicado pela Alameda Editorial.

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