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domingo, 31 de janeiro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB


Antônio Maria (Mar/1921 – Out/1964)

Hoje trarei mais algumas curiosidades sobre o nosso cancioneiro. Ao longo do último mês, tive a oportunidade de aqui, no Musicaria Brasil, contar algumas passagens interessantes na vida do poetinha Vinícius de Moraes, que na ocasião estava completando um século de existência. E abordar o nome do “branco mais preto do Brasil” (como o próprio Vinícius se auto intitulava) me fez lembrar de outra figura do nosso cancioneiro que por muitos anos acompanhou o poeta carioca em sua vida noturna assim como também em algumas situações inusitadas como veremos a seguir.

Quem conhece a biografia do Vinícius não desassocia-o da figura do poeta, cronista, comentarista esportivo e compositor pernambucano Antônio Maria. Parceiro de pena e de copo, Antônio era tão notívago quanto o poetinha, e isso os aproximaram-se de modo bastante intenso e essa aproximação além de uma grande amizade gerou uma parceria musical que rendeu canções como “Quando tu passas por mim”, “Dobrado de amor a São Paulo” e “Bate, coração”. Vale salientar que Antônio Maria foi autor de clássicos do nosso cancioneiro como as canções “Manhã de carnaval”, “Ninguém me ama”, “Frevo Nº 3 do Recife” entre outras.

Começou sua carreira como locutor da Rádio Clube de Pernambuco aos 17 anos. Dois anos depois resolve mudar-se para o Rio de Janeiro e arrisca a carreira de locutor esportivo na Rádio Ipanema. No Rio foi morar no Edifício Souza, na Cinelândia, no apartamento 1005. Este prédio tornou-se famoso por ter entre seus moradores nomes como Dorival Caymmi, Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, que então ainda não era o famoso Chacrinha (o poeta e compositor descreve em sua coluna Pernoite, publicada na revista Manchete, um pouco dessa época em que morou no Souza). No entanto, por não ter alavancado a sua carreira passou apenas dez meses na então capital federal e resolveu voltar para o Recife onde acabou casando.

Como funcionário dos Diários Associados muda-se para duas cidades nordestinas: Fortaleza e Salvador. Na primeira vai trabalhar na Rádio Clube do Ceará, já na capital baiana trabalha como diretor. Por volta de 1947 volta ao Rio de Janeiro para trabalhar como diretor artístico na Rádio Tupi. Sendo em seguida convidado pelo próprio Assis Chateaubriand a ser o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951. No ano seguinte a então maior concorrente da Rádio Tupi, a Rádio Mayrink Veiga, contrata Antônio Maria por 50 mil cruzeiros, o salário mais alto do rádio brasileiro de então.

Vem dessa segunda estadia no Rio a sua aproximação ao então poeta, compositor e ainda diplomata Vinícius de Moraes. Dessa época uma passagem interessante na biografia do pernambucano, que ocorreu quando Maria precisou fazer uma viagem até São Paulo e como morria de medo de aviões passou a noite junto a Vinícius de Moraes que tentava o tranquilizar entre uma dose e outra. Todas as tentativas foram em vão. Vinícius o acompanhou até o aeroporto ainda na esperança de deixar o amigo mais tranquilo. No entanto, Antônio Maria manteve-se apreensivo até o momento do embarque.

Já dentro do avião, Maria senta-se ao lado de uma lindíssima loira que abriu a bolsa e retirou um dos livros do poetinha. Antônio, que sabia a obra de cor e salteado, não perdeu a oportunidade e citou um dos poemas existentes no livro em voz alta chamando atenção da mulher que estava ao seu lado. Ao perceber que a loira havia “caído em sua armadilha”, disse o nome do poema, a página onde ele encontrava-se e apresentou-se como sendo Vinícius de Moraes.

A partir daí o medo de avião esvaiu-se e a investida foi tão bem sucedida que “Vinícius de Moraes” conseguiu marcar um jantar a noite com a loira. A noite rendeu boas conversas e um convite do falsário (prontamente aceito pela loira) de passarem a noite juntos. Na volta ao Rio, Vinícius de Moraes foi recepcionar o amigo e saber como tinha sido a viagem. Encontrou um Antônio bem diferente daquele que havia saído do Rio e o questionou:

– O que lhe fez ficar assim tão animado?

Antônio respondeu:

– Tenho uma notícia boa e outra ruim, qual você quer primeiro Vinícius?

O poetinha responde que queria primeiro a notícia boa, aí então Maria começou a contar:

– Conheci uma baita loira no vôo e ela estava lendo um livro seu. Confesso que me apresentei como você e ela encantou-se por mim…

Vinícius por curiosidade nem deixou Antônio Maria terminar de contar a história e perguntou logo pela notícia ruim que foi respondida da seguinte forma:

– Meu amigo, após o aterrizagem marcamos um jantar e entre uma taça e outra a convidei para irmos até o local onde eu estava hospedado e não é que Vinícius de Moraes falhou…


Fica aqui duas belíssimas canções da lavra de Antônio Maria. A primeira trata-se de "Frevo Nº3", aqui na interpretação do cantor Geraldo Maia:




A segunda canção é outro belíssimo frevo na voz da consagradíssima Maria Bethânia e vem a ser o "Frevo Nº1":

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

50 ANOS SEM ANTONIO MARIA

No último mês de outubro completaram-se cinco décadas sem o autor de "Meu mundo caiu" 


Por Wladmir Paulino

Antônio Maria antecipou em décadas o conceito de multimídia

Quando o coração do jornalista Antônio Maria de Araújo Morais encerrou os trabalhos na madrugada de 15 de outubro de 1964, punha um ponto final não apenas na vida do homem, mas encerrava a carreira daquele que pode ser considerado um dos primeiros multimídia da imprensa brasileira. Sem tablet, smartphone e sequer computador, o pernambucano nascido no Recife em 17 de março de 1921 misturava 'apenas' doses cavalares de talento e energia para brilhar como cronista, narrador esportivo, produtor de rádio, televisão e compositor no Rio de Janeiro durante toda a década de 1950 até o dia de sua morte.

O mais curioso é que a intensa atividade intelectual contrastava com a formação acadêmica. Maria era... agrônomo. Explica-se. Seu pai, Inocêncio, era dono de uma usina de açúcar. Nada mais óbvio do que o filho estudar a terra. A vida abastada o fez ter tudo do bom, principalmente a educação. Estudou no Colégio Marista, teve lições de francês e piano. Porém o mundo da comunicação o seduziu bastante cedo. Aos 14 anos, estreava na Rádio Clube como apresentador de programas musicais.

Em 1940, foi tentar a sorte no Rio de Janeiro, agora como locutor esportivo na Rádio Ipanema. O estilo diferente do padrão da época rendeu-lhe vida curta nesta função. Para se ter uma ideia, quando alguém chutava a bola para fora, Maria bradava: "Bola no fotógrafo". O trabalho como radialista caminhava lado a lado com a vida boêmia recém-descoberta na então capital federal. Nessa época, morava no edifício Souza, na Cinelândia, dividindo o apartamento com outros dois conterrâneos: Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, futuramente conhecido como Chacrinha.



O estranhamento causado pelas narrações esportivas encurtaram a vida na Ipanema. Dez meses depois, com poucos tostões no bolso, Antônio Maria estava de volta ao Recife. Em 1944, casou com Maria Gonçalves Ferreira e foi trabalhar em outra Rádio Clube, agora a de Fortaleza. O espírito multimídia citado lá no começo do texto começa a se manifestar. Depois de Fortaleza, voltou ao Rio, agora para vencer como diretor de produção da Rádio Tupi e das Emissoras Associadas. 

Ao mesmo tempo começou a escrever a coluna Jornal de Antônio Maria em O Jornal. A multiplicidade de funções também teve um tanto de necessidade, já que precisava sustentar a família. Maria dividia o amor pela comunicação com a esposa, os dois filhos e a noite. Essa última, a grande musa insipiradoras de suas mais de 3 mil crônicas, também impressas no Globo e Última Hora. Do rádio e do jornal partiu também para a televisão. O todo-poderoso Assis Chateubriand o nomeou diretor de produção da TV Tupi. A saída da casa que o acolheu durante todo esse tempo o transformou no mais bem pago personagem do rádio brasileiro. No final de 1952, a Rádio Mayrink Veiga, encharcada com o dinheiro injetado pelo Governo de Getúlio Vargas, contratou Antônio Maria por 50 mil cruzeiros. Tanto dinheiro fez o jornalista ostentar um dos maiores símbolos de status da época: um Cadillac.

Na TV Rio, dividiu com Ary Barroso um programa que fez muito sucesso: Rio, Eu Gosto de Você. Nas entrevistas, não aliviava para os convidados, que também não se faziam de rogados e devolviam na mesma moeda, como fez a candidata a deputada Sandra Cavalcanti. Travou-se o seguinte diálogo:

Antônio Maria - Quer dizer, dona Sandra, que a senhora é mal-amada?
Sandra - Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música Ninguém Me Ama - retrucou, lembrando um grande sucesso do compositor.



Falando em compor - a última das quatro faces de Maria -, contava a lenda que ele não sabia a linguagem das notas musicais. Cantarolava a música, criava a letra e depois pedia para algum amigo músico 'traduzir' numa partitura. Por causa disso, muitas canções podem ter rolado sem que seu nome recebesse crédito. Até a citada Ninguém Me Ama virou alvo de polêmica quando Fernando Lobo disse que era o único autor. A resposta veio numa crônica recheada de cortante sarcasmo:

"(…) Devo explicar, todavia, que os versos onde estão as palavras ‘de fracasso em fracasso’ não são de Fernando. E é fácil provar, porque a palavra ‘fracasso’ está escrita corretamente, isto é, como dois ‘ss’. Caso fosse, em verdade, uma colaboração sua, eu juro que lhe respeitaria as cedilhas (çç) habituais."

A lista de parcerias do jornalista era enorme, onde se destacavam nomes como Vinícius de Moraes, com quem compôs os sambas Quando tu passas por mim e Dobrado de amor a São Paulo, gravadas por Aracy de Almeida, sua grande amiga. Entre os frevos,Frevo número dois do Recife, Frevo número um do Recife são os mais conhecidos. A lista de intérpretes consagrados não ficou apenas em Aracy. Nora Ney, Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e Jamelão também colocaram suas vozes em músicas de Antônio Maria. Na vida pessoal, separou-se de Maria Gonçalves e casou com a também jornalista Danuza Leão.



MORTE PRECOCE - A vinda intensa cobrou seu preço. Antônio Maria reclamava constantemente de dores nas costas, que um médico diagnosticara como problema na coluna. O incômodo era tão grande que, muitas vezes, ele sequer conseguia dormir. Ao consultar outro especialista, ficou sabendo que não apenas era o coração que dava sinais de desgaste como estava enfartando naquele mesmo instante. A boemia reduziu drasticamente e a noite deixou de ser uma criança. Mas não foi possível evitar um segundo enfarte, esse fatal, na madrugada de 15 de outubro. Com parcos 43 anos, Antônio Maria deixava um enorme e nem tão conhecido legado, que até hoje ainda precisa ser melhor descoberto.

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