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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

QUEM É O AUTOR DA MÚSICA "CIDADE MARAVILHOSA"?

Por João Carino


A expressão “cidade maravilhosa” não era inédita quando virou título da marcha de Carnaval (e, depois, hino oficial da cidade). Ela foi criada pelo escritor maranhense Coelho Neto no artigo Os sertanejos para o jornal A Notícia, em 1908. Coelho Neto também publicaria um livro de contos chamado A cidade maravilhosa, primeira tiragem em 1928. Apesar de toda a polêmica, “Cidade maravilhosa” foi lançada em 1934 e não fez muito sucesso, passando quase despercebida — só conheceria sua consagração no Carnaval de 1935. Ressalte-se que a primeira parte da música é um plágio de Mimi é una civetta, do terceiro ato da ópera La Bohème, de Puccini. Aliás, a autoria desta marcha é atribuída oficiosamente a Noel Rosa. E a fonte dessa informação é ninguém menos que o irmão do compositor, o psiquiatra Hélio Rosa, que a teria revelado ao primo Jacy Pacheco, primeiro biógrafo de Noel em livro. Não apenas o disse, como pôs por escrito numa folha datilografada. Infelizmente, sem assinatura. Mas o documento foi encontrado quando Jacy vendeu a Carlos Didier o acervo de Noel Rosa, material fundamental com que depois escreveria, com João Máximo, Noel Rosa – uma biografia. 

Conta-se o seguinte: Jacy Pacheco e Hélio Rosa moravam juntos em Niterói quando o primeiro teve a ideia de colocar a vida de Noel em letra de imprensa. Hélio foi a principal fonte do livro. Por isso, a história parece plausível. Aliás, a marcha tem uma segunda parte ao estilo do Poeta da Vila. Sabe-se, além do mais, que Noel e André Filho eram amigos, tendo sido parceiros no samba “Filosofia”, gravado por Mário Reis em 1933, outra música com letra e melodia típicas de Noel. Um fato frequente, como registrou Jacy Pacheco, cheio de ironia, em seu Noel Rosa e sua época: “Aqui nos lembramos de composições que ele deu e que vendeu. Que foram divulgadas com outros nomes... dentro da cidade maravilhosa, cheia de encantos mil...”

André Filho morou na casa da mãe do músico Oscar Bolão entre o final dos anos 50 até início dos 60. Bolão conta, em depoimento aos autores, que André sofria de problemas psiquiátricos, tendo sido internado no hospital da Ordem do Carmo. Foi ali que, quando soube, tempos depois, por meio de um repórter do Diário da Noite, que“Cidade maravilhosa” tinha sido reconhecida como marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro — por meio da Lei n.o 5, de 5 de maio de 1960 —, enfiou a cabeça dentro do vaso sanitário e, dando descarga, gritava: "tô rico, tô rico” .

No entanto, o Rio de Janeiro quase perdeu seu hino oficial no final de 1967, quando um deputado apresentou um projeto de lei à Assembleia Legislativa sugerindo um concurso para escolha de novo hino. Argumentou que a marcha era “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Os cariocas protestaram. No início de 1968, jornalistas dos principais periódicos da cidade escreveram a favor da marchinha. Artistas como a cantora Aracy de Almeida, o compositor Fernando Lobo e o ator Grande Otelo vieram a público manifestar sua indignação. Em agosto daquele ano, o presidente da Assembleia desistiu do concurso. A marcha é cantada até os dias de hoje por foliões de todas as cidades do Brasil. É como se o título de cidade maravilhosa não pertencesse somente ao Rio de Janeiro. Os “encantos mil”, anunciados na marchinha em homenagem à cidade dos cariocas, passaram a adjetivar todas as cidades brasileiras. Quando a orquestra ataca a sua introdução instrumental, avisa a todos que o baile está chegando ao fim.

quinta-feira, 24 de março de 2016

ANDRÉ FILHO, O COMPOSITOR DE CIDADE MARAVILHOSA (110 ANOS)

Por Sueli Gushi



No dia 21 de março de 1906, na cidade do Rio de Janeiro, nascia o compositor, arranjador, cantor, multiinstrumentista (piano, violão, bandolim, violino, banjo, percussão)e radialista Antônio André de Sá Filho, o Andre Filho, que se tornaria conhecido pela composição Cidade Maravilhosa.

Órfão muito cedo, sendo por isso criado pela avó, começou a estudar música erudita aos oito anos com Pascoale Gambardella.


Anos depois,dedicou-se a estudos de vários instrumentos (violão, violino, piano, bandolim), dedicando-se, então, à música popular. 

Formou-se em Ciências e Letras no Colégio Salesiano de Niterói, RJ, onde foi colega de Almirante. Neste colégio publicou seus primeiros versos (com 13 anos) e mais tarde, ainda estudante, colaborou em diversas publicações literárias.

Iniciou sua carreira cantando na Rádio Educadora, passou em seguida, a ser compositor, arranjador, locutor e autor de "jingles" de emissoras de rádio, tais como Philips, Mayrink Veiga, Tupi e Guanabara.



Em 1929, interpretada por Henrique de Melo Morais (o tio de Vinícius), faz a primeira gravação de uma música sua -Velho Solar -e no mesmo ano, Ascendino Lisboa lançou o samba Dou tudo.

Em 1930 Carmen Miranda lançou duas músicas suas: o samba O meu amor e a marcha Eu quero casar com você. No mesmo ano, Sílvio Caldas gravou o seu samba Nem queiras saber, em parceria com Telácio da Silva.

Em 1932 teve diversas composições gravadas por diferentes intérpretes, Carmen Miranda registrou os sambas Mulato de qualidade, Quando me lembro e Por causa de você; Sílvio Caldas o samba Jurei me vingar, parceria com Valfrido Silva e o Grupo da Guarda Velha e Trio TBT, o samba Como eu te amei.

Bamboleô - Nei Matogrosso


Em 1933 gravou os sambas Vou navegar e Nosso amor vai morrendo e teve gravados por Carmen Miranda, os sambas Fala meu bem e Lua amiga e por Elisa Coelho os sambas O samba é a saudade e A lua vem surgindo. No mesmo ano, Mário Reis foi convidado por Noel Rosa para gravar Filosofia, da qual é parceiro.


Gravou em 1935, de sua autoria e Valfrido Silva a marcha Guarda um lugarzinho para mim e o samba Jura outra vez, de Alcebíades Barcelos e Valfrido Silva. Com Aurora Miranda, gravou de sua autoria, a marcha Ciganinha do meu coração e o samba O que você me fez.

Em 1936 lançou as marchas Teu cabelo vou pintar e Cadê a minha colombina. No mesmo ano, Aurora Miranda gravou o samba Quero ver você sambar e a marcha Bacharéis do amor e Carmen Miranda a marcha Beijo bamba e o samba Pelo amor daquela ingrata.


Teve mais duas marchas gravadas por Aurora Miranda em 1937, Se a moda pega... e Quero ver você chorando e em 1938 ela gravaria a marcha Na sua casa tem..., parceria com Heitor dos Prazeres e o samba Chorei por teu amor.



Filosofia - Noel Rosa


Em 1934 Carmen Miranda lançou, junto com Mário Reis, o samba Alô...alô..., um grande sucesso no carnaval daquele ano. 

Ainda em 1934, gravou aquele que seria seu grande sucesso, a marcha Cidade maravilhosa, em dupla formada com a então "novata" Aurora Miranda, de apenas 19 anos. O lançamento de Cidade maravilhosa, se deu no entanto, sem grande sucesso na "Festa da mocidade", em outubro daquele ano. A marchinha foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação do autor, a 2ª colocação.



Cidade Maravilhosa - com Aurora Miranda


Lançou a marcha Linda Rosa e o samba Quem mandou? no ano de 1939 e em 1941 gravou a marcha Carnaval na China, de sua parceria com Durval Melo e o samba Estrela do nosso amor, de sua autoria. No mesmo ano, Vicente Celestino gravou a valsa Cinzas no coração, obtendo grande sucesso e a canção Cancioneiro do amor.

Depois disso, devido a uma crise no sistema nervoso, passou mais de vinte anos internado no Hospital da Ordem do Carmo, afastando-se completa e prematuramente da vida artística, o que obscureceu a avaliação de sua obra, fazendo com que seu trabalho fosse lembrado basicamente apenas pela marcha Cidade maravilhosa.

Um decreto de 1960, oficializou Cidade maravilhosa como hino da cidade. No final da década de 60 gravou histórico depoimento para o Museu da Imagem e do Som, tendo sido seu estado mental considerado bastante razoável pelo entrevistador.

sábado, 26 de julho de 2014

40 ANOS SEM ANDRÉ FILHO

Este mês completa-se quatro décadas que partiu André Filho, autor de "Cidade maravilhosa", hino oficial da cidade do Rio de Janeiro



Compositor, arranjador, multiinstrumentista (piano, violão, bandolim, violino, banjo, percussão), radialista e cantor. Eis André Filho, artista que ficou órfão muito cedo, sendo criado pela avó. Começou a estudar música erudita aos oito anos com Pascoale Gambardella e estudou, anos depois, vários instrumentos (violão, violino, piano, bandolim), dedicando-se, então, à música popular. Formou-se em Ciências e Letras no Colégio Salesiano de Niterói, RJ, onde foi colega de Almirante. Na década de 1940, esteve internado com problemas psíquicos, que, somados a alguns outros, acabaram por fazê-lo abandonar a vida artística. É autor de muitos sucessos, entre os quais a marcha "Cidade Maravilhosa" que se tornou o hino da cidade do Rio de Janeiro. 

É figura histórica do Rio de Janeiro, já que é o autor de "Cidade maravilhosa", hino oficial da cidade, além de ser o parceiro de Noel Rosa no samba "Filosofia". É reconhecido como o autor da marchinha mais famosa dos cariocas, já que esta faz parte da tradição dos bailes carnavalescos. Quando os foliões escutam os primeiros acordes de sua introdução, é porque o baile está chegando ao fim. Começou a carreira artística cantando na Rádio Educadora. Foi arranjador, compositor de "jingles", locutor de várias emissoras como a Tupi, Mayrink Veiga, Phillips e Guanabara. Sua primeira composição a ser gravada foi "Velho solar", em 1929, pela Parlophon, interpretada por Henrique de Melo Morais (o tio de Vinícius). No mesmo ano, Ascendino Lisboa lançou o samba "Dou tudo". Em 1930, Carmen Miranda lançou duas músicas suas pela RCA Victor, o samba "O meu amor" e a marcha "Eu quero casar com você". No mesmo ano, Sílvio Caldas gravou também pela RCA Victor o seu samba "Nem queiras saber", em parceria com Felácio da Silva. Em 1931, Carmen Miranda gravou os sambas "Bamboleô" e "Quero só você", Jaime Vogeler a canção "Meu benzinho foi-se embora" e Francisco Alves a valsa "Manoelina". No mesmo ano, gravou seu primeiro disco, na Parlophon, interpretando os sambas "Estou mal", parceria com Heitor dos Prazeres e "Mangueira", de Saul de Carvalho. Também no mesmo ano, lançou com J. B. de Carvalho, a macumba "Anduê, anduá", de Maximiniano F. da Costa e o samba "É minha sina", de sua autoria. Em 1932 teve diversas composições gravadas por diferentes intérpretes, Carmen Miranda registrou os sambas "Mulato de qualidade", "Quando me lembro" e "Por causa de você"; Sílvio Caldas o samba "Jurei me vingar", parceria com Valfrido Silva e o Grupo da Guarda Velha e Trio TBT, o samba "Como te amei". Em 1933, gravou os sambas "Vou navegar"e "Nosso amor vai morrendo" e teve gravados por Carmen Miranda, os sambas "Fala meu bem" e "Lua amiga" e por Elisa Coelho os sambas "O samba é a saudade" e "A lua vem surgindo". No mesmo ano, Mário Reis foi convidado por Noel Rosa para gravar "Filosofia", pela Columbia. Em 1934, Carmen Miranda lançou, junto com Mário Reis, o samba "Alô...alô...", um grande sucesso no carnaval daquele ano. Ainda em 1934, gravou seu grande sucesso, a marcha "Cidade maravilhosa", em dupla formada com a então "novata" Aurora Miranda, de apenas 19 anos. Segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, a escolha de Aurora "refletia de certo modo a tendência de romper com uma constante da época: a hegemonia masculina na gravação do repertório carnavalesco". De qualquer modo, o certo é que a entrada de Aurora em cena deve-se mesmo ao fato de ser irmã de Carmen, já então no auge da popularidade, inclusive nos carnavais. O lançamento de "Cidade maravilhosa", se deu no entanto, sem grande sucesso na "Festa da mocidade", em outubro daquele ano. A marchinha foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação do autor, a 2ª colocação. Também em 1935, gravou de sua autoria e Valfrido Silva a marcha "Guarde um lugarzinho para mim" e o samba "Jura outra vez", de Alcebíades Barcelos e Valfrido Silva e com Aurora Miranda, gravou de sua autoria, a marcha "Ciganinha do meu coração"e o samba "O que você me fez". No ano seguinte, lançou as marchas "Teu cabelo vou pintar" e "Cadê a minha colombina", de sua autoria. No mesmo ano, Aurora Miranda gravou de sua autoria, o samba "Quero ver você sambar" e a marcha "Bacharéis do amor" e Carmen Miranda a marcha "Beijo bamba" e o samba "Pelo amor daquela ingrata". Em 1937 teve mais duas marchas gravadas por Aurora Miranda, "Se a moda pega..." e "Quero ver você chorando". No ano seguinte, Aurora Miranda gravou a marcha "Na sua casa tem...", parceria com Heitor dos Prazeres e o samba "Chorei por teu amor". Em 1939 lançou a marcha "Linda Rosa" e o samba "Quem mandou?". Em 1941, gravou a marcha "Carnaval na China", de sua parceria com Durval Melo e o samba "Estrela do nosso amor", de sua autoria. No mesmo ano, Vicente Celestino gravou pela RCA Victor a valsa "Cinzas no coração", obtendo grande sucesso e a canção "Cancioneiro do amor". Em 1960, um decreto oficializou "Cidade maravilhosa" como hino da cidade. No final da década de 1960, convidado e entrevistado por R. C. Albin, então diretor do MIS, gravou histórico depoimento para o Museu da Imagem e do Som, tendo sido seu estado mental considerado bastante razoável pelo entrevistador. Em 1974, Chico Buarque resgatou "Filosofia", regravando o samba em seu álbum "Sinal fechado", dedicado a outros autores por causa da censura imposta à sua produção. O samba foi, na época, grande sucesso e uma maneira inteligente de dar um recado ao regime militar. O samba voltaria a ser ouvido na voz de Mário Reis, na década de 1970 e, posteriormente, incluído no filme "Brás Cubas", adaptação do cineasta Júlio Bressane para o clássico de Machado de Assis "Memórias Póstumas de Brás Cubas". No filme, "Filosofia" é o tema do personagem Quincas Borba. 

Devido a várias crises pessoais, inclusive o fim prematuro de (mal sucedido) casamento com a esposa Zilda, o que lhe teria provocado graves crises psíquico-nervosas, afastou-se completa e prematuramente da vida artística, passando a orar com a mãe que o abrigou, cercando-o de carinho e cuidados. O que obscureceu a avaliação de sua obra, fazendo com seu trabalho fosse lembrado basicamente apenas pela marcha "Cidade maravilhosa". Em 2006, seu acervo passou a pertencer ao Instituto Moreira Sales que o homenageou por ocasião do centenário de seu nascimento com uma exposição de partituras, documentos e fotografias. 


Principais obras: 
Alô... Alô?, André Filho, 1933 
Baiana do tabuleiro, André Filho, 1937 
Bamboleô, André Filho, 1932 
Cidade Maravilhosa, André Filho, 1934 
Cinzas no coração, André Filho, 1941 
Eu quero casar com você, André Filho, 1930 
Filosofia - André Filho e Noel Rosa, 1933 
Mamãezinha está dormindo, André filho, 1930 
Mulato de qualidade, André Filho, 1932 
Nem queiras saber, André Filho e Felácio Silva 
O meu amor tem, André Filho, 1930 
Primavera da vida, André Filho e Almanyr Grego, 1937 
Quando a noite desce, André Filho e Roberto Borges, 1930 
S.O.S., André Filho, 1935 



Fonte: Dicionário da MPB

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