MUSICARIA BRASIL

A música brasileira em seus mais variados estilos e tendências

PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

E TUDO O MAIS QUE HÁ DE LIRISMO, POESIA E CANDURA

Em projeto pautado na delicadeza, o compositor Xico Bizerra reitera o seu vigor autoral e volta ao mercado fonográfico em álbum duplo.

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DA DURA POESIA CONCRETA DE SAMPA EIS QUE SURGE OS AMANTICIDAS SOB A INSÍGNIA DA VANGUARDA PAULISTA

O quarteto paulista chega ao mercado fonográfico apresentando as suas mais distintas influências a partir de uma hibrida sonoridade que não os fazem perder a identidade.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RENATO RUSSO SERÁ HOMENAGEADO EM DISCO DE RELEITURAS DE BANDAS DE ROCK BRASILEIRAS

Iniciativa faz parte do projeto Viva Renato Russo 20 Anos, que inclui, ainda, livros, peça sobre a vida do cantor, box com discos, filme e exposição


Foto: Legião Urbana Produções Artísticas/Divulgação


A Legião Urbana Produções Artísticas, empresa que trata da curadoria de toda a obra do cantor e compositor Renato Russo, anunciou o projeto "Viva Renato Russo 20 Anos". Composições do artista, morto 20 anos atrás, serão regravadas por 12 bandas de várias regiões do Brasil, todas da nova cena do rock nacional e representantes de diversos estilos.

O panorama vai do stoner rock da banda potiguar Far From Alaska, que traz o seu reconhecimento internacional e milhões de views no YouTube, a new wave do grupo curitibano Hu La La, passando pela psicodelia fluminense Supercordas, pelo metal paulista da República e pelo garage rock paraense da Molho Negro. As bandas farão releituras das canções, deixando claro que as letras de Russo resistem o tempo.

O lançamento está previsto para outubro e a coletânea será distribuída por streaming digital pelo Spotify e no formato de CD físico, de maneira gratuita, por meio de parcerias com veículos de comunicação e marcas. 

Além do álbum, outros projetos estão sendo desenvolvidos para homenagear o legado deixado por Renato Russo. Entre eles, há livros, peça sobre a vida do cantor, box comemorativo com discos e filme baseado na canção Eduardo e Mônica.

Ano que vem, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo receberá exposição inédita dedicada ao cantor e compositor. O inventário da exposição será composto por manuscritos, diários, discos, livros, esculturas, quadros, desenhos, fotos, instrumentos musicais e roupas, além de relíquias guardadas no seu antigo apartamento, em Ipanema, no Rio de Janeiro.


Fonte: Estado de Minas

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

VÔTE... ESCUTA SÓ: ALTO MERETRÍCIO – (BOÊMIOS, BARES E BORDÉIS) – PARTE 08

A vedete Virgínia Lane



A única coisa que rivalizava com a alegria e irreverência dos bordéis no Recife era o Teatro Marrocos, na Praça da República. Os homens abarrotavam a bilheteria. Os adolescentes esperavam ansiosos para completar os dezoito anos, necessários para entrar naquela casa de espetáculos, onde vedetes com biquínis e generosos decotes, dançavam e mostravam seus dotes físicos, era o já famoso Teatro de Rebolado. Imaginem, aquelas dançarinas, hoje, seriam consideradas ingênuas freirinhas, diante de qualquer jovem de “boa família” tomando banho nas águas mornas da Praia da Boa Viagem. Piadas picantes, “stripteese”, muito mal exibiam os seios, nada comparado ao que se vê nas novelas Globais das sete horas da noite. Músicas de duplo sentido, hoje parecem brincadeiras de criança diante das que ouvimos nas rádios locais, nos dias de hoje.

O Teatro de Rebolado é reconhecido como uma manifestação artística e cultural legítima, o seu fundador Barreto Junior, artista de teatro e cinema no início do século passado, pioneiro do teatro itinerante e das chanchadas das quais era considerado o Rei. Barreto Junior, de saudosa memória, dá nome a um dos teatros do Recife, localizado na Praia do Pina.

No local onde funcionou o Teatro Marrocos entre 1958 e 1970, pois, antes já existia na Avenida Dantas Barreto, foi erguida uma agência da Caixa Econômica denominada de Agência Teatro Marrocos para que fique na lembrança dos Recifenses as alegres e divertidas noites ali passadas. As homenagens feitas ao Marrocos e ao seu fundador são justíssimas, haja vista que fizeram parte da história do Recife e de seus habitantes. Alguns dias atrás, na Câmara Municipal do Recife, concederam o título de cidadania aos representantes da Banda Calypso, a troco de que, até agora me pergunto.

O Teatro Marrocos, era o primo pobre dos teatros da capital, construção de madeira, com aproximadamente quatrocentos lugares, por ironia ficava ao lado do majestoso Santa Isabel, cujos frequentadores, quando acompanhados de suas respectivas famílias, torciam o pescoço para os cartazes do Teatro de Revistas. No dia seguinte, estes mesmos senhores, compravam bilhetes na primeira fila, ou a do gargarejo, como ficou conhecida.

Ao estudante que ali deixavam toda a sua mesada, só restava sonhar com as belas pernas das vedetes e seus rebolados. No meu caso, com os trocados restantes, pegava o ônibus elétrico na Avenida Conde da Boa Vista com destino Torre – Madalena, feliz da vida, cantarolando… Chiquita bacana lá da Martinica se veste com uma casca de banana nanica.


Chiquita Bacana – Canta Emilinha Borba
Composição – Braguinha e Alberto Ribeiro

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Disco que marcou a história da música popular brasileira por propiciar o encontro musical entre Tom e Vinicius completa sessenta anos


Por Luiz Américo Lisboa Junior 


Orfeu da Conceição (1956) 

A função da música popular não é apenas ser um elemento de entretenimento fugaz como acontece hoje em dia com os "sucessos" fabricados a cada instante pelas gravadoras e divulgados pela grande mídia. Nos tempos de hoje o que mais se vê são canções com tiradas poéticas de tirar o fôlego de qualquer pessoa que tenha um pouco mais de sensibilidade e senso de ridículo. As letras de nossas canções atuais, diga-se de passagens, há exceções, são de um primarismo terrível absolutamente medíocres, o que de certo modo retrata o pouco caso dado a esse componente fundamental na realização da obra musical, ou, e esse é o problema que mais nos preocupa, o baixo nível de escolarização de nossos atuais compositores, se é que podemos assim chamá-los. 

A situação é tão desesperadora que nos parece que a crise sócio/econômico que passa o país atingiu parâmetros estarrecedores na área cultural e reflete nos baixos índices de avaliação educacional que são divulgados a todo instante. Ora, é muito mais fácil escrever qualquer bobagem e conquistar fama e dinheiro do que esquentar o precioso tempo em bancos escolares. Em nome da "cultura" criamos um país de iletrados, em prol do sucesso, destruímos os mais elementares sinais de respeito à língua portuguesa. Mas de que adianta ficar reclamando, afinal de contas, esse estado de coisas esta tão disseminado que qualquer atitude contrária será logo recebida como reacionária e elitista, que assim seja, não me importo, pois pelo menos me dou o direito de estabelecer um nível de discernimento que me imuniza contra essa proliferação inculta e deletéria em que se envolveu a nossa tão bela e rica musica popular, mas antes que alguém diga que isso sempre existiu, que o discurso é velho e datado, devo dizer que nunca e em nenhum período de nossa história musical, chegamos aos níveis de mediocridade quanto aos que nos encontramos nos dias atuais. Viva o Axé sertanejo pagodeiro!

Deixemos contudo, esses conceitos que não irar mudar o quadro existente e vamos falar de Musica Popular Brasileira, assim mesmo com as iniciais em maiúsculas, verdadeira, poética, culturalmente correta, eterna, linda e terna. Existem muitos aspectos em nossa canção popular que precisam ser estudados com mais atenção, um deles é sua inclusão em teatro, cinema ou televisão, compondo trilhas de peças, filmes e em alguns casos isolados e antigos, de algumas telenovelas, quando essas tinham por objetivo maior um trabalho de arte/cultura mais elaborado onde as trilhas sonoras era uma parte fundamental. 

Um dos momentos mais brilhantes de nosso teatro deu-se com a estréia em 25 de janeiro de 1956 no Teatro Nacional do Rio de Janeiro da peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer. A História baseava-se na tragédia grega do mito Orfeu, musico da Tracia e cuja lira tinha o poder de encantar os animais numa perfeita comunhão do homem com a natureza. Adaptada para a ambientação de uma favela carioca onde não faltavam os elementos associativos do carnaval e das escolas de samba, o protagonista Orfeu que a todos fascinava iria se envolver com Eurídice, sua bem amada e após a sua morte iria buscá-la mergulhado num misto de trevas e paixão tentando resgatá-la para si. 

O sucesso da peça foi muito grande e protagonizado por atores negros como Haroldo Costa (Orfeu), Lea Garcia (Mira) e Dirce Paiva (Eurídice). Aproveitando o momento a Odeon lançou um LP com a sua trilha sonora contendo a belíssima Valsa de Eurídice, de Vinicius de Moraes em arranjo instrumental e as suas canções com Tom Jobim, Um nome de mulher; Mulher, sempre mulher; Eu e o meu amor; Lamento do morro e a inesquecível Se todos fossem iguais a voce. O disco ainda traz o Monólogo de Orfeu, declamado por Vinicius. A orquestração e os arranjos foram feitos por Tom Jobim, as canções interpretadas por Roberto Paiva e o acompanhamento de violão por Luiz Bonfá.

Um disco histórico responsável pela união primeira de dois gigantes, Tom e Vinicius, que com sua arte souberam extrair momentos eternos de nossa canção popular, cujos frutos iriam desembocar na Bossa Nova e depois com a trajetória individual de cada um, onde a poesia e a musica iriam encontrar um pouso seguro e os nossos ouvidos seriam respeitados em sua dignidade. 


Músicas: 
01 - Overture (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 
02 - Monólogo de Orfeu (Vinícius de Moraes) 
03 - Um nome de mulher (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 
04 - Se todos fossem iguais a voce (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 
05 - Mulher, sempre mulher (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 
06 - Eu e o meu amor (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 
07 - Lamento no morro (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) 

Ficha Técnica
Intérprete: Roberto Paiva 
Violão: Luiz Bonfá 
Orquestra Odeon sob a regência de Tom Jobim 
Capa: Raimundo Nogueira 
Texto da contra capa: Vinicius de Moraes 
Gravadora: Odeon

MPB - MÚSICA EM PRETO E BRANCO

Péricles

terça-feira, 23 de agosto de 2016

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*





Em "A crise da filosofia messiânica" (In: A utopia antropofágica) Oswald de Andrade anota que o canibalismo é um tipo de antropofagia. Porém, enquanto o segundo trata-se de um rito, o primeiro acontece movido pela fome e pela gula. Ambos caracterizam uma "fase primitiva de toda a humanidade" (p. 138).

A antropofagia por fome se contrapõe à antropofagia ritual naquilo que esta tem de transformar o tabu em totem: "Do valor oposto, ao valor favorável". "A vida é devoração pura. Nesse devorar que ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao homem totemizar o tabu", escreve Oswald (p. 139). E o que é o tabu, "senão o intocável, o limite?", pergunta-se.

O indivíduo ocidental é educado a jogar fora toda prosódia e todo saber oral, em benefício do racionalismo. No entanto, nas coerentes palavras de Tom Zé: "Aquilo que os meninos do Nordeste jogavam fora quando travavam contato com Aristóteles escapulia do córtex, se alinhava no hipotálamo e ali adormecia. Tornava-se lixo, só que um lixo dotado de lógica própria. (...) Um lixo lógico!" (Revista Bravo! 179, jul/2012).

O "lixo lógico" não é outro senão a promoção do "tabu em totem", a construção inconsciente de uma "gaia ciência", de um saber não catalogado e que escapa às ciências instituídas. Saber que se cria e se alastra sem o controle da razão. Eis o que venho defendendo aqui em relação ao saber implícito à canção popular brasileira, com suas profusões de sujeitos cancionais.

Como já escrevi: o sujeito cancional é uma categoria da performance vocal; é a entidade - primitiva - que surge no momento exato em que a canção é executada por alguém e ouvida por outro alguém conectado ao primeiro via "estados-de-espírito" no instante do tempo que dura a canção. Daí a riqueza de nossa canção popular e suas múltiplas temáticas totêmicas, favorecedoras da pluralidade dos sujeitos cancionais e, consequentemente, da "gaia ciência".
Parafraseando Nietzsche, podemos afirmar que o habitat dos grandes problemas é a canção, na rua. Ao menos no Brasil, onde tradicionalmente a canção dá voz a saberes os mais diversos, seja por fome, seja por ritual de inserção íntima na vida coletiva distante da divisão do trabalho e da organização da sociedade em classes. Dito de outro modo: Não falta canção para mimar o brasileiro e fazê-lo se sentir incluído, igual.

Isso é resultado da devoração, da antropofagia que nos une. Achar que um tipo ou um gênero de canção é ruim e/ou aliena o indivíduo é subestimar a competência antropofágica do indivíduo. Aliena em que? Para que? Em detrimento de que? Eis as perguntas que devemos fazer diante do latente preconceito: "(...) mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina", canta o narrador de Galáxias, de Haroldo de Campos.

O fato é que o saber dos "analfabetos em Aristóteles (os "analfatóteles"), nas palavras de Tom Zé, impregnam a canção mediatizada com brilho e força. Seja o funk com a totemização do sexo, seja o rap com a totemização da violência, por exemplos.

É preciso pensar a dívida para com este saber não científico. É este débito - que dessacraliza o intocável para lhe restituir a beleza - que move, por exemplo, o grupo Cabruêra, com suas ressignificações da cultura popular oral nordestina: prenha da cultura moçárabe e dos cantadores das feiras livres.

O som do Cabruêra é o processamento de dados vocais, ainda transmitidos vocalmente na rua, na "festafeira no pino do sol a pino", como canta o narrador de Galáxias, em sua lagrimalegria esperançosa por suporta a condição presente.

Calcado na mistura inventiva da música nordestina com os sons do oriente, o discoNordeste oculto (2012) recupera a promiscuidade originária. Aboio e microtonalidade, cítara e safona, xote e raga, a feira de Campina Grande e um mercado público do Oriente Médio em devoração antropofágica, ritual.

O disco é uma viagem sonora rica, complexa e orgânica (simples, natural). Mas, para continuar no tema da tradução do tabu (o intocável) em totem, gesto comum nas culturas antropófagas e tendentes ao matriarcado, destaco "Beira mar", de Alberto Marsicano, Arthur Pessoa, Pablo Ramires, Edy Gonzaga e Leo Marinho, e "Marujo antigo", de Oliveira de Panelas. Vindo esta antes daquela na sequencia do disco, aquela é a resposta deformativa e sagradora desta.

O grande repentista-trovador Oliveira de Panelas (canto-quase-fala e viola) tem sua função de cantador ressemantizada na canção do Cabruêra. O saber que lhe constitui e que ele oferece à cultura é absolvido pelo Cabruêra (percussão, violão, teclados, guitarra, acordeom, viola, baixo) que, por sua vez, devolve a tradição à tradição: desreprimindo o desejo.

"Cantador pra cantar beira mar comigo / tem que saber bem do oceano", canta do sujeito de "Beira Mar" após o sujeito de "Marujo antigo" ter dito "além de poeta sou marujo antigo / conheço esses mares por dentro e por fora (...) sou filho das águas convivo com elas / cantando galope na beira do mar".

O encontro hibridizador dos dois poetas - do "marujo antigo" com o "beira mar"; daquilo que é dito com o modo como é dito - revela a tradição em movimento: "lírica viagem de brisa e luar". O que ouvimos não chega a ser um desafio no sentido clássico do termo, mas um diálogo com a atemporalidade das sabedorias populares. Algo só possível na eficácia do gesto devorador do sujeito cancional criado pelo Cabruêra.


***

Marujo antigo
(Oliveira de Panelas)

Além de poeta sou marujo antigo
Conheço esses mares pode dentro e por fora
Dos raios poentes à luz da aurora
O ritmo das águas viajam comigo
Sereias de sonhos entendem o que eu digo
Na lírica viagem de brisa e luar
O mar nordestino é meu reino é meu lar
Não vejo fronteiras nas suas procelas
Sou filho das águas convivo com elas
Cantando galope na beira do mar


Beira mar
(Alberto Marsicano / Arthur Pessoa / 
Pablo Ramires / Edy Gonzaga / Leo Marinho)

Cantador pra cantar beira mar comigo
Tem que saber bem do oceano
Dos seus movimentos não terão engano
A fim de livrar-se de qualquer perigo
Além de poeta sou marujo antigo
Conheço galope na beira do mar





* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

ÁLBUM 'ÁFRICA BRASIL', DE JORGE BEN JOR, COMPLETA 40 ANOS E GANHA HOMENAGEM

Negão, Jorge du Peixe, Russo Passapusso, Xênia França e Nayra Costa farão duas apresentações em São Paulo, mês que vem, com repertório do disco


(foto: Polysom/Divulgação)

O disco "África Brasil" (1976), de Jorge Ben Jor, será homenageado por um time de peso da música popular brasileira. Em comemoração aos 40 anos do emblemático trabalho do cantor e compositor brasileiro, BNegão (BNegão & Seletores de Frequência / Planet Hemp), Jorge du Peixe (Nação Zumbi), Russo Passapusso (BaianaSystem), Xênia França (Aláfia) e Nayra Costa farão duas apresentações em São Paulo, no Sesc Pinheiros, nos dias 6 e 7 de agosto.

O álbum de onze músicas representou um marco na trajetória musical de Jorge Ben Jor e da música nacional: foi a partir deste trabalho que ele trocou o violão acústico pela guitarra elétrica. Munido de uma nova sonoridade, Jorge Ben Jor consolidou seu estilo mundialmente, desenvolvendo uma fusão de gêneros musicais e técnicas composicionais que entrelaçam a música pop negra afro-brasileira com a norte-americana. O resultado é um álbum extraordinário, que abre com o clássico "Umbabarauma" e no qual a suingada guitarra elétrica dá o tom.

Não à toa, "África Brasil" foi eleito como o 22º melhor álbum do mundo pela revista Rolling Stone dos Estados Unidos. Este foi o único disco brasileiro na lista compilada pela revista norte-americana em 2002.

"Para longe da reverência e das facilidades do baile, África Brasil 40 anos aceita a missão de dar um novo olhar sobre a magnífica obra de Jorge Ben, rei do ritmo e da melodia. Samba, rock, samba-rock, soul, funk, africanismos, tudo isso é contemplado neste registro sonoro. Um show para todos os sentidos", disse Regis Damasceno, diretor musical.


Fonte: Agência Estado

CURIOSIDADES DA MPB

Adileia Silva da Rocha adotou o nome Dolores Duran aos 16 anos, quando assinou contrato com a boate Vogue, no Rio de Janeiro. Ela foi chamada para o emprego depois de ganhar um concurso de boleros. Por ser muito jovem, a cantora teve que falsificar documentos para poder trabalhar. Dolores cantava em inglês, francês, italiano, espanhol e português. Autodidata, ela aprendeu todos os idiomas ouvindo músicas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

PAUTA MUSICAL: REVELANDO O TALENTOSO NESTOR AMARAL

Por Laura Macedo



As fontes de pesquisas sobre o compositor, cantor e instrumentista Nestor Amaral (16/9/1913 - 26/2/1962) são bastante escassas. Basta dizer que nem verbete no Dicionário Cravo Albin da MPB ele possui. Encontrei algumas poucas referências na Revista Carioca, O Malho e no siteWikipédia as quais compartilho com vocês.

Nestor Amaral além de cantar valsas, sambas, jongo, rumba, marcha, choro, canções e outras formas de música popular, também foi cantor e um baita instrumentista: piano, violão, bandolim, violão tenor e violino.


Sua estreia no rádio foi via Cesar Ladeira (foto acima), na Rádio Record de São Paulo, onde atuou por um ano e meio.

Em São Paulo atuou, também, nas seguintes rádios: Rádio Cruzeiro do Sul (um ano) e Rádio Difusora (oito meses).


Flagrante de uma audição de composições de Edgard Cardoso, em São Paulo, pelo cantor Nestor Amaral em homenagem à Noite Ilustrada.


Sua estreia na Cidade Maravilhosa foi, em 1935, na Rádio Ipanema. Sua “veia de cigano” o levou para a Argentina, onde atuou na Rádio Stentor, de Buenos Aires, e para outros destinos, como Montevidéu e depois Pelotas e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Depois desse “tour” lança âncora, novamente, em São Paulo e, logo depois, no Rio de Janeiro onde atuou na rádioMayrink Veiga.


Depoimento à Revista Carioca (nº139/página 38/1938)

- “Minha primeira visão do Rio de Janeiro foi muito gostosa. Cheguei aqui com a impressão que ficaria deslocado no ambiente radiofônico carioca. Mas logo vi que não. O Rio assusta a quem não procura estudar sua vida e prefere evitar o contato exterior metendo-se na concha como o caracol. Eu cheguei, hesitei e atirei-me a luta”.

Quando bateu a saudade, Nestor Amaral retornou à São Paulo por um tempinho, mas logo não resistiu ao tentador convite para integrar a PRE8 - Rádio Nacional.

Ainda respondendo ao repórter da Revista Carioca no tocante as suas preferências musicais.

- Quais os artistas que mais admira?

- “Antes de tudo admiro Radamés Gnattali com seus arranjos maravilhosos. Considero Radamés o maior artista do piano no ‘broadcasting’ brasileiro: como verdadeiro mágico ele tira lindíssimas dos ritmos mais rústicos e banais”.

Continuando a responder: “Em cada gênero musical eu admiro um artista”:

- Sambista: Aracy de Almeida.

- Cantor de valsas: Orlando Silva.

- Samba Choro: Odete Amaral.

- Canções: Francisco Alves.

- Tangos: Mauro de Almeida.

- Marchas: Carmen Miranda.

- Foxes: Bob Lzzy.

- Humorismo: Sylvinha Melo.

- Dupla: Castro Barbosa e Dircinha Batista.

Vamos conferir algumas das suas gravações da década de 1930.


A morte de um cantador” (Nestor Amaral/Raul Torres) # Nestor Amaral/Raul Torres. Disco Odeon (11238-B) / Matriz (4999). Gravação (18/1/1935) / Lançamento (julho/1935).

Se amas és feliz” (Antenógenes Silva/Osvaldo Santiago) # Nestor Amaral/Antenógenes Silva e Orquestra Odeon. Disco Odeon (11647-B) / Matriz (5677). Gravação (27/6/1938) / Lançamento (outubro/1938).


Sonhador” (Eratóstenes Frazão/Francisco Malfinato) # Nestor Amaral e Orquestra. Disco Columbia (8348-B), 1938.


Garota do dancing” (Alberto Ribeiro/Jorge Faraj) # Nestor Amaral e Conjunto Benedito Lacerda. Disco Columbia (55044-A) / Matriz (137). Lançamento (abril/1939).

Rebola a bola” (Nestor Amaral/Aloysio de Oliveira/Brant Horts) # Carmen Miranda. (incluída no Álbum ‘Carmen Miranda on Films and Airshots'/1999). [Gravação original Disco Decca americana (283580-B), 1941].



Bando da Lua: Da esquerda para a direita: Zé Carioca, Vadico, Nestor Amaral, Carmen Miranda, Afonso, Stênio e Aloysio, durante as filmagens de “Minha secretária brasileira”, em 1942.

No início dos anos de 1940, Nestor Amaral, aceita o convite de Carmen Miranda para acompanhá-la aos Estados Unidos integrando o conjunto “Bando da Lua”, substituindo Aníbal Augusto Sardinha - Garoto -, e participa de alguns dos filmes da Pequena Notável, a exemplo de “Aconteceu em Havana” (1941), “Uma noite no Rio” (1941), “Minha secretária brasileira” (1942), “Entre a loura e a morena” (1943).

Carmen Miranda e o Bando da Lua no filme “Uma noite no Rio”. Nestor Amaral é o primeiro da esquerda para a direita.


Cenas do filme “Uma noite no Rio” (1941). Carmen Miranda cantando “Cai, Cai” (Roberto Martins/Bando da Lua). Disco Decca americana, 1941.

Em 1944 participou da trilha sonora do filme “Você já foi à Bahia?” (“The Three Caballeros”).


Os quindins de Iaiá” (Ary Barroso) # Nestor Amaral com Bando da Lua e Charles Wolcott and his Orchestra. Disco Odeon (288032-A). S/D. [Gravação americana conforme o selo acima].
Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso) [versão em inglês: Ray Gilbert] # Nestor Amaral cantando no filme “Você já foi à Bahia?” (The Three Caballeros), 1944.



Nestor Amaral, em 1948, cantando com Doris Day, no filme “Romance em alto mar” a música “It’s Magic”, indicada ao Oscar de melhor canção original.


Os dois vídeos abaixo constam de trechos do filme “Rose Hobart”, de Joseph Cornell produzido em 1936. Trata-se de uma curta metragem experimental de 19 minutos filmado em Bornéu, usando imagens de um documentário sobre um eclipse filmado pelo diretor.

Na década de 1960, o diretor substituiu a trilha sonora original, por músicas do brasileiro Nestor Amaral, extraídas de um disco clássico chamado “Holiday in Brazil” gravado em 1957 e lançado nos Estados Unidos pela “High Fidelity Records”.

As músicas são "Currupaco", "Porto Alegre", "Bamba no Samba", "Ba Tu Ca Da" e outras, interpretadas por Nestor Amaral.

A música de Nestor Amaral na trilha do filme surrealista "Rose Hobart", de 1936. Acesso ao primeiro vídeo AQUI (A incorporação foi desativada).



Nestor Amaral, diferentemente de outros integrantes do Bando da Lua, fincou bandeira na América do Norte, ou seja, não mais retornou ao Brasil. Foi lá que nasceu seu filho - Roy Alan Amaral (25/9/1950) do qual Carmen Miranda foi madrinha de batismo.

Laurindo Almeida e Nestor Amaral eram muito amigos

Nas minhas garimpagens sobre Nestor Amaral descobri um vídeo fantástico com os “Cariocas Boys” (Nestor Amaral, Laurindo Almeida, Zé Carioca e outros) ao lado de grandes mestres do Jazz: Louis Armstrong, Benny Goodman, Golden Gate Quartet, Tommy Dorsey, Lionel Hampton e outros... Uma delícia!




O que é que a baiana tem” (Dorival Caymmi) [Versão: Nacio Herb Brown/Leo Robin) / “Quando eu penso na Bahia (Ary Barroso/Luiz Peixoto) # Carmen Miranda e Bando da Lua. Cena do filme "Greenwich Village" ou "Serenata Boêmia" (1944). [Nestor Amaral no bandolim].



Batuque no morro” (Russo do Pandeiro/Sá Moriz) # The Carioca Boys (Nestor Amaral, Zé Carioca, Russo do Pandeiro e Russinho). Cenas do filme “Road to Rio” (Paramount Pictures, 1947). [Observem Nestor Amaral no violão tenor].

Nestor Amaral lançou, na década de 1950, alguns discos pela gravadora “Tops Records”. Nas minhas pesquisas localizei quatro discos da série: “Nestor Amaral And His Continentals”, batizados de: “Holiday in Brazil”, “Holiday in France”, “Holiday in Spain” e “Holiday in Italy”. Nestas gravações Nestor conta também com a participação de seu amigo, o violonistaLaurindo Almeida.

Tico Tico” (Zequinha de Abreu) # Nestor Amaral. LP Holiday in Brazil - Nestor Amaral and His Continentals, 1957.



Ba tu ca da” (Nestor Amaral) # Nestor Amaral. LP Holiday in Brazil - Nestor Amaral and His Continentals, 1957.




Bamba no samba” (Nestor Amaral) # Nestor Amaral. LP Holiday in Brazil - Nestor Amaral and His Continentals, 1957.

Capas dos LPs “Holiday in Italy” e “Holiday in Spain”


Autumn Leaves” (Johnny Mercer/Joseph Kosma [versão em inglês/Joseph Prevert]) # Nestor Amaral.


Poor people of Paris” (Marguerite Mannot) # Nestor Amaral.


Confesso que há semanas estou envolvida na elaboração deste post em homenagem ao multifacetado artista brasileiro Nestor Amaral. Pesquisei em inúmeras revistas das décadas de 1930/1940. O resultado da garimpagem não é proporcional a brilhante trajetória do Nestor Amaral no seu país de origem. Com o pouco que consegui tentei montar “essa colcha de retalhos” na tentativa de dar uma unidade a sua trajetória dentro e fora do país, o que não foi fácil.

A sensação que fica é a de que a maioria dos brasileiros desconhece o importante papel de Nestor Amaral à cultura brasileira, com ênfase na composição, interpretação vocal e de vários instrumentos musicais.

Vou colocar um ponto final (provisório). Explicando melhor: Vou continuar a garimpagem e peço ajuda dos amigos que tenham mais informações sobre o Nestor Amaral que socializem conosco.

Agradecimentos especiais aos amigos Samuel Machado Filho e Helô Lima pela liberação dos áudios: “Se amas és feliz” e "Ba-Tu-Ca-Da", respectivamente.


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Fontes:

- Documentário “Laurindo Almeida: Muito Prazer”. Direção e texto: Leonardo Dourado / Canal a cabo GNT, em três episódios / Produtora TeleNews, com apresentação do violonista/compositor Toquinho, 1999.

- Fotomontagens: Laura Macedo.

- Revista Carioca: Nº 127/Página 38/1938 / Nº139/Página 38/1938 / Nº596 / Página 19/1947).

- Revista O Malho: Nº266/Página 8/Em 7/7/1938 / Nº267/Página 7/Em 14/7/1938 / Nº282/Página 6/Em 27/10/1938 /Nº 313/Página 8/Em 1/6/1939 / Nº30/Página 10/setembro de 1942 / Nº 52/Página 75/maio de 1944.

- Site YouTube: Canais: (“luciano hortencio”, “Adilson Flávio Santos”, “amarallmusic”, “SenhorDaVoz”, “saopaulo450”, “oocleckboy”, “Doni Sacramento”).

- Site Wikipédia (Aqui).

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TOOTS THIELEMANS, CONSIDERADO 'REI DA GAITA', MORRE AOS 94 ANOS

Lenda do jazz tocou com Frank Sinatra, Nick Cave e gravou com Elis Regina.
Ele ajudou a popularizar gaita cromática e fez trilhas como 'Perdidos na noite'.


Músico de jazz Toots Thielemans em foto de 2012 (Foto: KRISTOF VAN ACCOM / BELGA / AFP)

O músico belga Toots Thielemans, considerado o rei da gaita, morreu nesta segunda-feira (22) aos 94 anos, após uma longa carreira internacional durante a qual tocou junto aos maiores nomes do jazz.

Thielemans, cuja música pode ser ouvida em trilhas sonoras de filmes como "Bonequinha de Luxo" (1961), morreu "enquanto dormia" um mês depois de ter sido hospitalizado devido a uma queda, anunciou à AFP seu agente, Veerle Van de Poel.

Figura mundial do jazz, tocou junto aos maiores: Ella Fitzgerald, Quincy Jones, Bill Evans, Frank Sinatra, Ray Charles, Larry Schneider e Oscar Peterson.

Também acompanhou artistas como Nick Cave, Paul Simon, Billy Joel e Stevie Wonder.

Ele também tocou com músicos brasileiros e no final dos anos 60 gravou um disco com Elis Regina.

Nascido em 29 de abril de 1922 em um bairro popular de Bruxelas onde seus pais trabalhavam em um café, Thielemans, também guitarrista, foi o primeiro músico a levar a gaita cromática ao reconhecimento geral.

Thielemans descobriu este instrumento em 1938. Seduzido em um primeiro momento pela música de Ray Ventura, foi picado pelo vírus do jazz durante a Segunda Guerra Mundial e, com uma guitarra nas mãos, adotou como modelo o cigano Django Reinhardt.

No fim da década de 1940 se instalou nos Estados Unidos, onde acompanhou o saxofonista Charlie Parker. Retornou posteriormente à Europa para uma turnê com o clarinetista Benny Goodman.

Após o êxito de "Bluesette" em 1962, interpretou com sua gaita a trilha sonora do filme "Perdidos na Noite", de John Schlesinger (1969) e, mais tarde, de "Jean de Florette", de Claude Berri (1986).

"Perdemos um grande músico", escreveu no Twitter o primeiro-ministro belga, Charles Michel, após o anúncio da morte de Thielemans, a quem o rei Alberto II concedeu o título de barão em 2001.

Em 2012, e apesar de estar em um estado delicado de saúde, Thielemans fez um show no Palácio de Belas Artes de Bruxelas para celebrar seus 90 anos, antes de iniciar uma turnê que o levou a Estados Unidos e Japão.

"Levou a gaita ao topo da arte e se converteu em um maestro", havia declarado na época o instrumentista brasileiro Oscar Castro-Neves, que o acompanhava regularmente.

Em 2014, ao sentir que perdia forças e "para não decepcionar seu público", cancelou seus shows e colocou um ponto final a sua carreira.

Em 2009, os Estados Unidos concederam a ele o prêmio "jazz master award", uma distinção dada poucas vezes a europeus, e a Academia Charles Cros entregou ao belga em 2012 um prêmio em homenagem a sua carreira.

Disco lançado por Toots Thielemans e Elis Regina em 1969 (Foto: Divulgação)


Fonte: AFP

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*




O “Som Livre” tinha participação fixa de Os Mutantes e das revelações do MAU — Movimento Artístico Universitário — Gonzaguinha, César Costa Filho, Aldyr Blanc e Ivan Lins, além de convidados especiais. Alguns especialíssimos, como Caetano Veloso, que recebeu uma autorização especial do governo para participar do programa e passar uns poucos dias na Bahia, onde fui entrevistá-lo para a TV Globo e matar saudades. A entrevista foi meio frustrante: quase tudo o que eu gostaria de perguntar ele não poderia responder. Mas na gravação do programa, no Rio, ele surpreendeu o auditório jovem e roqueiro, que esperava dele algo elétrico, pesado, mais próximo de Os Mutantes do que de Elis e Ivan Lins. Ao contrário, sem gritos e nem guitarras, apenas se acompanhando ao violão, Caetano cantou, radicalmente gilbertiano, um antigo e belíssimo samba de Synval Silva, gravado por Carmen Miranda. Um clássico da música brasileira, uma obra-prima popular que quase ninguém naquele auditório conhecia. Foi um espanto: “Adeus, adeus, meu pandeiro de samba, tamborim de bamba já é de madrugada vou me embora chorando com meu coração sorrindo...” E voltou para o exílio.

Eu estava sempre com Elis, nos ensaios, gravações e viagens com o “Som Livre exportação” para Belo Horizonte, Brasília e outras capitais. No Rio, de manhã cedo, nos encontrávamos secretamente no apartamento de um casal amigo, André Midani e Márcia Mendes, a mais bonita e popular apresentadora da TV Globo, minha colega no telejornal “Hoje”. Ou então à tarde, na casa de Rogério, irmão de Elis, que detestava Ronaldo e nos protegia e dava cobertura. Mas resisti muito pouco tempo à vida dupla e, soterrado de culpa, achei que resolveria metade do problema me separando de Mônica e saindo de casa, que deixei para ela e Joana com tudo o que tinha dentro. Fui morar na Lagoa, na cobertura do amigo Tato Taborda, um dos editores da Última Hora, onde já moravam duas outras amigas, Sônia Dias e Marta Costa Ribeiro, também recém-separadas. O apartamento era um imenso duplex de cinco quartos, onde Tato vivia com a mulher, a jornalista Elizabeth Carvalho, e um filho adolescente, e se transformou em uma espécie de comunidade de divorciados. Nos fins de semana, o apartamento se enchia de amigos, e as viagens de ácido coletivas eram frequentes, baseados rolavam permanentemente, Cat Stevens cantava horas seguidas no toca-discos, garças revoavam na Lagoa.

Elis começou a fazer análise com Hélio Pellegrino, se queixava cada vez mais de Ronaldo, dizia que ia se separar e, embora eu não perguntasse, várias vezes me disse que já tinha falado com o advogado Haroldo Lins e Silva para tratar do divórcio. Mas nada mudava, tudo
continuava secreto e cada vez mais perigoso. Cada vez mais envolvido, eu sofria, não só de culpa, mas de ciúmes de Ronaldo. Em abril foi lançado o Lp Ela, que gravamos durante o verão. Além da bela e sombria canção de César Costa Filho e Aldyr Blanc que dava título ao disco e de uma música nova e agressiva de Erasmo e Roberto, “Mundo deserto”, Elis gravou os Beatles pela primeira vez — “Golden Slumbers” —, numa de suas grandes performances em disco. E duas de Caetano, o fado “Argonautas”, e uma regravação audaciosa, “Cinema Olympia”, já gravada por Gal Costa espetacularmente e aclamada por crítica e público. Elis demorou bastante até aceitar o desafio e quando entrou no estúdio produziu uma interpretação vibrante, rasgada, roqueira. Pena que o arranjo de Erlon Chaves, gravado depois sobre a base, fosse totalmente equivocado (tinha até violinos em pizzicatto!) e nem ela nem seu produtor, talvez ocupados em namorar, se deram conta.

Os timbres e frases musicais eram antigos, jazzísticos, em total desconexão com a modernidade roqueira da música e, sem querer, ou por querer demais, Elis acabou fazendo apenas um “cover” pobre do sucesso de Gal. Dois sambas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, ainda na linha “trator na margarida”, adequadíssimos ao atual momento de guerra conjugal de Elis, garantiram o sucesso no rádio: “Aviso aos navegantes” e “Falei e disse”. Mas a música mais polêmica era dos louríssimos irmãos Valle, “Black Is Beautiful”, uma estupenda balada soul de Marcos com uma letra provocativa e talvez um pouco excessiva de Paulo Sérgio. Elis soltava a voz em vibrato, como uma negona americana: “Eu quero um homem de cor, um rei negro do Congo ou daqui. Que se integre com meu sangue europeu. Black is beautiful, black is beautiful, black beauty is so peaceful, I wanna a black, a beautiful.” No seu conceito básico e na abertura de seu repertório, o disco era muito parecido com o anterior e, mesmo bem-sucedido, não teve tanto sucesso, embora fosse tão bom quanto. Elis sabia disso e estava feliz. Eu também. Mas por pouco tempo. Durante esses poucos meses em que estivemos tão juntos nunca houve qualquer briga ou bate-boca entre nós, por qualquer motivo, pessoal ou artístico. Conhecendo Elis e seu estilo, eu pensava às vezes em um milagre de amor. E em um encontro de interesses: eu estava mergulhado e ligado no movimento jovem internacional, nas profundas transformações por que passava a música no mundo, ansiava obsessivamente ir adiante, quebrar barreiras, abrir portas e janelas na cabeça e no coração oprimidos pela repressão política. Ela queria aprender, queria ir junto com sua geração para um lugar que não conhecia, queria ampliar seus limites, abrir seus horizontes, seu coração e sua voz.

Estava ficando cada vez mais difícil manter o romance em segredo. Eu tinha certeza que Ronaldo já sabia. E mais ainda quando me falaram da reação dele, ao saber dos boatos sobre o meu namoro com Elis. O “Véio” fuzilou de bate-pronto, no seu melhor estilo: “Finalmente Elis encontrou alguém à sua altura.” Touché. Mesmo incendiado de raiva e de ciúmes dele, do alto de meus 1,67m explodi numa gargalhada. Mas a alegria durou pouco. Numa manhã cinzenta de outubro, depois de passar a noite com Elis, deixei-a em casa e fui trabalhar. Tínhamos planejado uma viagem “secreta” para Londres, o paraíso de liberdade e modernidade de nossa geração. Na hora do almoço, Elis telefonou. Dura, seca, formal, com a
voz mais grave do que nunca, estranhíssima. Disse que Ronaldo estava internado em uma clínica com depressão nervosa, que ela estava ao lado dele e, indignada, me responsabilizou pelos boatos absurdos de que estaríamos tendo um caso e me passou uma descompostura pelo atrevimento, reiterando de todas as formas e com todas as letras que não havia nem nunca houve nada entre nós. E desligou. Perplexo, imaginei que poderia ser uma cena teatral, recitada sob pressão. Mas não: era verdade, era a sua escolha. Desesperado, tentei de
todas as formas falar com ela, mandei recados por Rogério, pela mãe dela, dona Ercy, por amigos comuns, cheguei até a devolver por Rogério todas as muitas cartas que ela tinha me escrito, numa patética manobra para tentar sensibilizar sua memória afetiva. Em vão. Duas
semanas depois, lendo e relendo as cópias xerox das cartas de Elis, fui para Londres sozinho e passei meu aniversário viajando de ácido com uma turma de doidões em Portobello Road. Desde Woodstock os jovens brasileiros passaram a ter um sonho obsessivo: seu próprio Woodstock, a fantasia de uma república independente de música e liberdade, a céu aberto, sem polícia e sem ladrões, sem pais e professores, em total harmonia e comunhão, todo mundo doidão. 

No Brasil da ditadura era impensável. Mas por isso mesmo era um de nossos sonhos mais queridos e constantes. Para a paranóia militar, juntar algumas dezenas de pessoas, principalmente jovens, em qualquer lugar e a qualquer pretexto era uma abertura à subversão/oportunidade de contestação/tentativa de conspiração. Para ! realizar um evento musical ao ar livre, era indispensável cumprir incontáveis exigências burocráticas, tirar licenças e alvarás do Estado, do Município, da Polícia, dos Bombeiros e da Censura Federal, que só autorizava o espetáculo depois de checar uma relação individual de todos os músicos
que se apresentariam, com todos os seus documentos, todas as letras completas de todas as músicas que seriam apresentadas com as respectivas liberações. No final de 1971, depois de enfrentar a via-crucis burocrática junto com Carlos Alberto Sion, fizemos o I Concerto Pirata no Estádio de Remo da Lagoa, reunindo 800 jovens numa noite de sábado para ouvir e dançar rock com bandas novas. Foi lindo: o palco iluminado parecia uma nave espacial brilhando na noite carioca, com a deslumbrante paisagem da Lagoa ao fundo. Esperávamos muito mais gente, muita gente não pagou entrada, o aluguel dos equipamentos de som e iluminação era caríssimo, não tínhamos qualquer patrocínio e comemoramos a vitória contabilizando um baita prejuízo. 


* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

REPPOLHO, 60 ANOS

Grande percussionista, o músico completa este ano seis décadas de vida



Multi-instrumentista (percussionista), compositor, produtor, pesquisador, arranjador e cantor. O pseudônimo "Reppolho", lhe foi dado, ainda na infância, por seu Everaldo, amigo de seu pai, pela simples razão de ser um garotinho bem gordinho, redondinho, mais parecido com um repolhinho. Nasceu no bairro de Água Fria, comunidade de grande concentração de terreiros de Xangô (candomblé pernambucano de ascendência comum, jeje-nagô, aos da Bahia e do Rio de Janeiro), terreiro no qual a mãe, Maria Isabel dos Santos - descendente de escravo e filha-de-santo, frequentava. Aos dez anos, em 1966, tinha a mania de batucar nos pratos usando colheres e garfos, tentando descobrir ou tocar algum ritmo. Poucos anos depois já fazia seus próprios brinquedos musicais, instrumentos construídos com latas de manteiga, borracha de câmara de ar de pneus velhos do caminhão que o pai trabalhava, usados como pele para os tambores. Esses instrumentos - rudimentares - eram usados nas Troças (espécie de bloco de sujos recifense) que organizava e desfilava pela rua onde morava com os pais, irmãos e a avó materna. Estudou o primário no Colégio Externato Misto Santo Antônio e depois o ginásio no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, onde se formou em Artes Gráficas, na função de Tipógrafo. Em 2011 lançou, pela GJS Editora, o "Dicionário Ilustrado de Ritmos & Instrumentos de Percussão" no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro. O livro contou com prefácio de Ricardo Cravo Albin, do qual destacamos o seguinte trecho: "Este Dicionário Ilustrado de Ritmos & Instrumentos de Percussão é uma realização importante de pesquisa e representa uma singular tentativa de agregar, convergir, somar-se a poucos outros trabalhos congêneres, como o catálogo da exposição de 1997 de São Paulo, Brasil, Sons e Instrumentos, com curadoria de Alberto T. Ikeda, ou como os instrumentos afro-brasileiros cuidadosamente alinhados nos livros de Iracy Carisse, cuja trajetória acompanho de perto há décadas. O que mais me estimula a lhes recomendar este trabalho é precisamente por causa do seu autor, o percussionista Reppolho. E por quê? Por todas as razões, insufladas pela paixão e tenacidade dele. Repolho é, dentre os músicos brasileiros, um dos maiores representantes na percussão, possivelmente o item mais rico de nossa MPB, miscigênica e orgiasticamente temperada com vigor pelo ritmo. Mas o que cabe considerar aqui - e o faço em reverência e respeito ao Reppolho - é justamente o fato de ele ter adentrado na pesquisa em busca de informações, com o propósito de aprofundar na curiosidade, e de sistematizar as definições acadêmicas". O livro contou com apresentação de Jorge Mautner e primeira orelha de Moraes Moreira, da qual destacamos o trecho: "Lembro-me bem de tê-lo visto logo que desembarcou de Pernambuco. Na sua cabeça todos os sons, todos os sonhos. Não demorou muito e já exibia uma embrionária figura performática que foi se revelando, se desenvolvendo com o tempo. Trazia a carga emocional de quem viveu nos terreiros, abalava as catedrais, juntando em seu baticum tradição e modernidade. Com outros nomes fortaleceu as bases da escola de Percussão Brasil, que o mundo tanto admira". Da segunda orelha, de Fred Góes, destacamos o seguinte trecho: "Na língua portuguesa falada no Brasil, usamos popularmente a expressão 'dar um toque', sempre que recebemos uma dica, um conselho, uma informação de caráter positivo. É exatamente isso o que Reppolho faz neste incrível 'Dicionário Ilustrado de Ritmos & Instrumentos de Percussão'. O trabalho é resultado de pesquisa cuidadosa com paixão profunda por seu ofício. Artista de repercussão internacional, Reppolho, há anos, coleciona, estuda tanto os ritmos quanto os instrumentos percussivos. Desde menino viu e aprendeu a se comunicar com as divindades por meio dos toques, das batidas, nos terreiros, nas festas populares de sua Recife natal". O livro também contou com estudo biográfico e artístico do autor pelo pesquisador Euclides Amaral, além de depoimentos sobre a carreira do músico feitos por Alceu Valença, Moraes Moreira, Paulo Moura, Pepeu Gomes e Raphael Rabelo. No ano de 2013 fez o lançamento da segunda edição do "Dicionário Ilustrado de Ritmos & Instrumentos de Percussão" na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Em 2015 participou do "Projeto Roda de Conversa Percussiva", na cidade de Aracaju (SE). Convidado pelo percussionista Pedro Mendonça e Antonio Passos fez o lançamento da segunda edição do "Dicionário Ilustrado de Ritmos & Instrumentos de Percussão", no Museu da Gente Sergipana



Fonte: Dicionário da MPB

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