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domingo, 14 de agosto de 2016

O GÊNIO INCORRUPTÍVEL DE MOACIR SANTOS (90 ANOS E DEZ ANOS DE SAUDADES)

“Coisas”, obra-prima do maestro pernambucano, dá ponto final à coluna Quintessência, que reconstituiu a história de 50 álbuns fundamentais da música brasileira


Por Marcelo Pinheiro



“Ao reunir suas composições, Moacir Santos criou, mais do que um disco, um documento histórico autêntico dentro do mapa da música popular brasileira. Autêntico, pois se trata de um músico negro escrevendo música negra e não de um garoto de Ipanema contando as tristezas da favela ou de um carioca que nunca foi além de Petrópolis a enriquecer o cancioneiro nordestino. Este disco é negro desde a capa até o vinilite, do músico ao som que se ouve.”

Quem passa tamanho recibo ao maestro Moacir Santos é Roberto Quartin, jovem produtor carioca, fundador, ao lado do amigo Wadih Gebara, do lendário selo Forma, que lançou em 1965 o primeiro álbum autoral de Moacir como compositor. Longe de, tão simplesmente, querer defender seu peixe no texto de apresentação do álbum, Quartin foi preciso ao afirmar que Coisas, o LP em questão, foi mesmo um divisor para a música popular instrumental brasileira. Sobre ele, em artigo de 2005, o historiador Zuza Homem de Mello sentenciou: “É o mais desconcertante disco instrumental dos anos 1960. É natural que suas consequências ficassem para muito depois. Na obra do maestro o primitivo encontra o futuro. O ontem, o amanhã”.

Como vimos em Quintessência, que chega, hoje, ao final de sua trajetória com a resenha deste 50° álbum, os anos 1960 foram território temporal absolutamente fértil para a música instrumental popular do País. Mas o que fez, então, de Coisas álbum tão distinto na discografia brasileira da segunda metade do século 20, como defendeu Zuza?! Claro, para além da audição que não deixa dúvidas, não há uma simples resposta para o fenômeno. Tampouco a coisa se explica na dicotomia entre Bossa-Nova e canção de protesto sugerida na aspa de Quartin. Uma convergência de fatos da trajetória pessoal e musical de Moacir permitiu a ele atingir tão elevado grau de sofisticação, modernidade e competência autoral. Um caminho de retidão, altivez e entrega à música, predicados também celebrados pelo chefão da Forma, na apresentação de seu contratado. “Moacir confere dignidade a tudo que escreve. É um músico que vai às raízes. Não sei até hoje se Moacir é de extrema esquerda ou extrema direita, mas sei que ele é de extrema musicalidade”.

Nascido em trânsito, na cidade de Bom Nome, no interior de Pernambuco, Moacir José dos Santos, e seus quatro irmãos (três meninas e um menino), ficaram órfãos da mãe, Julita, aos três anos de idade. Assim que nasceu Moacir, o pai, José, fugiu do seio familiar e aderiu à força volante que empreendia uma caçada ostensiva ao bando de Lampião. Entregues a própria sorte, os cinco irmãos foram adotados por diversas famílias da cidade de Flores do Pajeú, no agreste pernambucano. Em princípio, a guarda de Moacir ficou sobre a responsabilidade de sua madrinha Corina, mas logo o menino foi tutelado pela família Lúcio, ao cuidados de Ana, moça solteira que ingressou Moacir na escola e permitiu que ele tivesse desde os 9 anos de idade proximidade com a Banda Municipal de Flores do Pajeú. Em pouco tempo, nos intervalos dos ensaios, Moacir foi aprendendo, um a um, os instrumentos utilizados pela banda. Aos 10 anos, autodidata, ele já se aventurava em diversos instrumentos, como trompa, saxofone, percussão, clarineta, violão, banjo e bandolim. Tamanha vocação foi lapidada, pouco depois, com alguns professores locais, como Luís de Ginú, Antenor, da vizinha Afogados de Ingazeira, Severino Rufino, Alfredo Manoel da Paixão e Luiz Benjamin, os dois últimos militares da Brigada de Pernambuco. 

Embora a família Lúcio tenha garantido a Moacir uma boa formação, cada vez mais ele se dava conta de que, no fundo, não passava de espécie de escravo da família, tendo de lidar diariamente com contingências pesadas para uma criança, como ir buscar água no rio, trabalhar no roçado, cuidar do consumo de lenha da casa e tratar dos porcos da família. Aos 14 anos, gozando do prestígio local em apresentações musicais como o “Neguinho de Flores”, Moacir tomou a decisão de fugir de casa e peregrinar por várias cidades do sertão nordestino. Seu primeiro destino foi a cidade de Alagoa do Monteiro, na Paraíba. Pouco depois, ele partiu para Rio Branco, atual Arcoverde, em Pernambuco. Por capricho do acaso – ou do destino, diriam alguns – em Rio Branco Moacir reencontrou seu mestre Alfredo Manoel da Paixão, que o acolheu como a um filho e ingressou o adolescente em sua banda.



O maestro e sua big-band americana, Moacir santos Band, na Califórnia, em 1970

Em seguida, Paixão levou Moacir para Recife, cidade que o deixou fascinado, mas a estadia também foi breve. Poucos meses depois, ele foi parar em Serra Talhada, também no sertão pernambucano. A passagem pela cidade rendeu a Moacir o ingresso na Filarmônica Vilabelense e também o fez ter maior proximidade com o jazz americano, pois o mestre da orquestra, o sargento Luiz Benjamin, era também líder da jazz-band local. Ainda em Serra Talhada, por recomendação de Benjamin, Moacir fez também alguns trabalhos para o Circo Farranha. Em uma apresentação a qual chegou atrasado, Moacir foi repreendido pelo sargento com um empurrão. Ofendido com a intolerância de Benjamin, ele foi narrar o episódio ao dono do circo e, ironicamente, acabou sendo contratado como diretor musical. Seguindo a itinerância do Farranha, Moacir cruzou diversas cidades do agreste pernambucano, entre elas, Salgueiro, Bodocó, Ouricuri, Serrinha e Bonfim. Quando o circo aportou na Bahia, um episódio fútil foi o estopim de mais uma fuga de Moacir. Incumbido de observar o perímetro para evitar que pessoas invadissem a lona do circo sem pagar ingresso, ele não se deu conta de que todos os funcionários haviam sido intimados a uma força-tarefa para reunir candeeiros, pois havia faltado energia elétrica, o que inviabilizaria o espetáculo. Moacir foi repreendido por não ter colaborado com a tarefa e, considerando a repreensão injusta, uma vez que estava no cumprimento de sua contingência, ele decidiu partir para Salvador. Na capital baiana, recomendado por um amigo do circo, Moacir conseguiu emprego de entregador de pães. Dias depois, quando voltava para casa de bonde, ele topou com um grupo de músicos e pediu para mostrar a eles seus dotes no saxofone, tomando emprestado o instrumento de um deles que, encantado com o que ouviu, recomendou a Moacir que fizesse um teste na Banda da Polícia Militar, expectativa que o fez abandonar por dias o trabalho na padaria e acabou por não se concretizar, por ele ser menor de idade. O episódio fez com que Moacir dormisse na rua por várias noites e enfrentasse fome. Ele pretendia voltar para Recife, mas acabou parando, de carona, na cidade de Crato, no Ceará. Pouco depois, o andarilho já estava em Pesqueira, passou por Gravatá e retornou ao Recife no início de 1943, aonde foi contratado para integrar o elenco do programaVitrine, da Rádio Clube de Pernambuco, sob o codinome artístico de “O Saxofonista Negro”. Mas o ingresso em um ofício formal como artista não rendeu a Moacir o conforto que ele tanto carecia. No breve período em que atuou na rádio, seu rendimento mais valioso foi um saxofone tenor, novinho em folha, que ganhou da rádio. Vendo pouco futuro na emissora, Moacir tentou ingressar na banda da Aeronáutica de Pernambuco, mas foi reprovado com a justificativa de que, apesar de seus dotes inquestionáveis, a banda já estava formada. Dias depois, ele soube que a banda sequer tinha contratado um terço dos músicos e que estes eram brancos. A evidência de que havia sido, mais uma vez, vítima de racismo fez Moacir desgostoso e, aos 17 anos, novamente foi ele peregrinar, desta vez com destino a Timbaúba, na zona da mata pernambucana. Na cidade, além de ingressar na Banda Pé de Cará, Moacir também trabalhou em uma fábrica de calçados. Uma costura mal feita e uma bronca rigorosa foram suficientes para fazê-lo voltar ao Recife. Pouco depois, ele seguiu para João Pessoa, na Paraíba, onde cumpriu serviço militar, com idade presumida de 18 anos, pois ele não sabia ao certo o dia e o ano em que nasceu.

No exército, claro, Moacir logo foi acolhido pela banda marcial. Depois de quase um ano e meio de cumprimento de serviços, Moacir foi liberado do serviço militar para poder ingressar na Rádio Tabajara da Paraíba, como saxofonista solista. Em João Pessoa, ele conheceu também o grande amor de sua vida, sua futura mulher, pelas seis décadas seguintes, Cleonice Santos.

Seis meses depois de casados, Moacir e Cleonice decidiram tentar a vida no Rio de Janeiro, no início de 1948. “Enquanto o prático não vinha, fiquei admirando a vista do Rio do navio. Tive a impressão de estar num conto de fadas, numa cidade lendária feita de caixas brancas de fósforos, uma coisa que eu jamais tinha visto, como um sonho”, relatou ele em depoimento biográfico feito ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 1992. Recomendado por políticos paraibanos, Moacir ingressou no final de 1948 na Rádio Nacional, na qual foi o primeiro e único maestro negro. Ao ser indagado pela direção da emissora como havia sido o teste feito com o jovem pernambucano, maestro Chiquinho definiu: “O teste foi para nós, senhor diretor. Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Entretanto, ele colocou umas músicas para nós e nós não as tocamos”.

Em abril de 1949 nasceu o filho único do casal, Moacir Santos Jr. Aos 23 anos decidido a mergulhar nos estudos de regência, Moacir ingressou no curso do maestro César Guerra-Peixe, um dos mais importantes do País. Pouco depois, desenvolvendo uma formação multidisciplinar – piano, orquestração, harmonia, história da música e contraponto – Moacir também teve como mestre o maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter, precursor do dodecafonismo no Brasil. Em três anos, e não em cinco, como era previsto, Moacir atingiu excelência em todas as disciplinas. Entre 1954 e 1956, ele atuou como diretor artístico da TV Record em São Paulo, retornando depois ao Rio de Janeiro, quando trabalhou como assistente de Ari Barroso nas gravadoras Rozenblit e Copacabana.

Na virada dos anos 1950 para os 1960, Moacir passou a atuar como professor. Entre seus alunos, ninguém menos que: Nara Leão, João Donato, Paulo Moura, Baden Powell, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Oscar Castro Neves. Dom Um Romão, Flora Purim, Airto Moreira, Maurício Einhorn, Raul de Souza e Sergio Mendes.

Sobre ele, e suas primeiras composições, Baden relatou: “Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas sabedorias, ficamos muito amigos, e por causa dessa amizade ele começou me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava para ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: ‘Olha essa coisa que eu fiz, escuta essa outra coisa’. As composições não tinham nome, foi então que ele resolveu batizá-las de ‘Coisa n° 1’, Coisa n° 2’”.

No intervalo entre a composição dos temas e o registro do álbum Coisas, Moacir compôs as trilhas sonoras dos filmes Ganga Zumba e A Grande Cidade, de Cacá Diegues, O Santo Módico, de Sacha Gordine, Os Fuzis, de Ruy Guerra, O Beijo, de Flávio Tambellini e Seara Vermelha, de Alberto D’Aversa. A trilha de Ganga Zumba preconiza elementos estéticos de Coisas e traz, inclusive, os temas Coisa n° 4, Coisa n° 9 e Nanã.

Pouco antes de entrar em estúdio para o registro de Coisas, Moacir foi convidado a fazer alguns arranjos do álbum É Samba Novo, do baterista Edison Machado, ícone do samba-jazz, egresso do Bossa Três de Luiz Carlos Vinhas. Um dos temas escolhidos pelo baterista foi Nanã, de Moacir. Ignorando o fato do próprio autor estar escrevendo o arranjo para o tema, Edison, sem papas na língua, pediu ao maestro para reescrever a orquestração que, no seu ponto de vista, estava muito previsível e comercial. A resposta foi tão explosiva, com um arranjo que trazia um solo arrebatador de Raul de Souza, e revigorava a força polirrítmica de Edison, que o tema acabou se tornando abertura do álbum. O LP antecipou também outro tema de Coisas, Coisa nº 1, com arranjo de Paulo Moura.

Em manuscritos que seriam fonte para uma autobiografia não concretizada, revelados na recém-lançada biografia Moacir Santos, ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro, de Andrea Ernest Dias, Moacir deixou registrado quais eram suas intenções enquanto compositor: “Procuro dar-lhes (às composições) caráter essencialmente moderno, bem atual. Espero criar algo absolutamente pessoal – e para isso estou dando o melhor dos meus esforços. Esforços de quem quer vencer, criar. Eu sou um africano nascido no Brasil. Há 500 anos, eu fui trazido para o Brasil nos genes de meus ancestrais. Sonho em fazer minha música para um aspecto que não se enquadra na poética popular do ‘pintar um quadro diferente’. Na música popular o ritmo é constante, é uma diferença. Eu sinto a falta, quando estou embrenhado em música sinfônica, sinto falta daquele ritmo que é o meu berço. Vou ter que achar um jeito de que os instrumentos façam minha percussão, que eu fique satisfeito. Pois bem, esse é meu sonho não realizado.”

A realização do sonho de Moacir deu-se dez anos depois desse depoimento com a chegada ao mercado de Coisas. Embora o álbum não tenha obtido êxito comercial, o reconhecimento artístico veio a contento. Com seu primeiro álbum, Moacir deixou atônita toda uma geração de grandes instrumentistas brasileiros que, à despeito da excelência em linguagens modernas como o samba-jazz, jamais haviam amalgamado tantos elementos diversos como o jazz, o samba, o maracatu, o coco, o xaxado, com tradições da diáspora africana que se fizeram perpetuar em ancestrais brasileiros. Como afirmou Roberto Quartin, trata-se de um álbum negro desde a capa, que dialoga com o legado escrito em décadas anteriores por outros gênios como Pixinguinha e o maestro Abigail Moura, da Orquestra Afro-Brasileira.

Pouco depois do lançamento de Coisas, também chegou ao mercado, via Elenco, o LP Vinicius de Moraes & Baden Powell, no qual o Poetinha prestou singela homenagem a Moacir em Samba da Benção: “A benção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião.” A menção, clichê, caro leitor, é para concluir esse texto e afirmar que depois de Coisas, Moacir partiu em 1967 para os Estados Unidos e por lá foi ainda mais cultuado tendo, inclusive, feito parte do elenco de gravadoras históricas, como a Blue Note, celeiro dos maiores jazzistas do mundo, no qual gravou, por recomendação de Horace Silver, três álbuns autorais, Maestro (1972), Saudade (1974) e Carnival of the Spirits (1975). Vale conferir essa história, aliás, muito bem reconstituída na biografia de Andrea Ernest Dias.

Chegamos, enfim, ao ponto final da coluna Quintessência, que prestou reverência a 50 álbuns históricos da música brasileira produzida entre os anos de 1960 e 1980. Foi um prazer tê-los conosco nessa jornada. Para fins de pesquisa, o conteúdo das 50 resenhas e perfis biográficos permanecerão hospedados no portal da Brasileiros.

Ouça a íntegra de Coisas


Fonte: brasileiros

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

MAESTRO PERNAMBUCANO MOACIR SANTOS RECEBE TRIBUTO NO SANTA ISABEL

Via NE10


Grandes nomes do jazz mundial, como o pianista californiano Mark Levine e a The Clare Fischer Big Band vão participar da primeira edição do Festival Moacir Santos, evento que homenageia o maestro pernambucano e aconte nos dias 2 e 3 de agosto, no Teatro de Santa Isabel.

Além da programação musical, que também traz o Quarteto Coisas e a Banda Ouro Negro, ambos do Rio de Janeiro, o festival terá duas mesas redondas com músicos e pesquisadores para debater o impacto da música de Moacir Santos nos Estados Unidos, sua linguagem jazzística afro-brasileira, o Projeto Ouro Negro e seus desdobramentos.


Confira a programação completa do festival:

Sexta-feira (2)

10h - Mesa redonda: Moacir Santos, o Duke Ellington brasileiro? O impacto da música de Moacir Santos nos EUA; sua linguagem jazzística afro-brasileira. Debatedores: Brent Fischer, Mario Adnet, Mark Levine, Maurício Carrilho, Steve Huffsteter e Teco Cardoso. Mediadora: Andrea Ernest Dias.

20h - Mark Levine & The Latin Tinge (São Francisco).

21h - Banda Ouro Negro (Rio de Janeiro). Direção: Mario Adnet e Zé Nogueira.


Sábado (3)

10h - Mesa redonda: O Acervo Moacir Santos em perspectiva. O Projeto Ouro Negro e seus desdobramentos; Moacir Santos e as novas gerações.Debatedores: Andrea Ernest Dias, Brent Fischer, Marco César, Mario Adnet, Moacir Santos Júnior, Zé Nogueira e Cacá Malaquias.Mediador: Paulo Braga. Participação especial: Filarmônica Maestro Israel Gomes, Carnaíba (PE). Direção: Cacá Malaquias. Regência: Gilson Malaquias.

20h - Quarteto Coisas (Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo) Maurício Carrilho, Marco César, Paulo Braga e Andrea Ernest Dias.

21h - The Clare Fischer Big Band (Los Angeles). Direção: Brent Fischer. Participação especial: Steve Huffsteter.


SERVIÇO
Festival Moacir Santos
Sexta-feira e sábado (2 e 3), a partir das 20h, no Teatro de Santa Isabel
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia entrada)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

05 ANOS SEM MOACIR SANTOS

Ao longo deste mês completam-se 05 anos do falecimento de um dos maiores destaques da música instrumental brasileira. Considerado por críticos e pesquisadores musicais como um dos principais arranjadores e compositores brasileiros, aquele que renovou a linguagem da harmonia no país teve sua importância registrada e eternizada por Vinicius de Moraes, em seu "Samba da Benção" quando cantou: “A benção maestro Moacir Santos. Não és um só, és tantos”.

Por Bruno Negromonte


Nascido no município de São José do Belmonte, o pernambucano Moacir José dos Santos nasceu como tantos outros nordestinos na época. De família poucos recursos ao completar dois anos de idade foi morar com a mãe e os 3 irmãos em Flores do Pajeú, tendo por objetivo fugir das adversidades existentes. Um ano após se estabelecerem em Flores, Dona Julita falece e o pequeno Moacir acaba adotado pela madrinha Corina até chegar a viver com a tutora Ana. Desde cedo, sua brincadeira preferida era a de imitar, com outros meninos, a banda de música de sua cidade. Improvisava a brincadeira utilizando-se de latinhas e pífanos. Presente em todos os ensaios da banda, foi eleito vigia, com a função de evitar que as crianças mexessem nos instrumentos e com o direito de experimentá-los. Aos 11 anos, já tocava tocar clarinete e sua inclinação para a música era tão forte que os músicos da cidade lhe presenteavam com instrumentos, como violão e flautim, que o menino também tocava intuitivamente.

Aos 14 anos de idade já tocava como gente como gente grande, tanto era a sua desenvoltura que com tão tenra idade já era um dos integrantes da banda local, tocando saxofone, clarinete, pistom, banjo, violão e bateria. A limitação para o desenvolvimento de seu talento musical na cidade em que vivia acabou por fazer com que Moacir resolvesse fugir de casa tendo por propósito ir para uma cidade maior. Para isso teve que pegar caronas diversas com jovens caminhoneiros até chegar em Alagoa de Baixo. Mas ainda assim nova cidade era pouco e decidiu começar uma vida meio mambembe por diversas cidades do nordeste, sempre procurando trabalho nas bandas de música e sendo bem acolhido pelos músicos locais até se apresentar pela primeira vez em 1943, no programa "Vitrine", da Rádio Clube de Pernambuco.



Ainda na década de 40 ingressou na Banda da Polícia Militar da Paraíba , onde como sax-tenorista, chegou ao posto de sargento músico de primeira classe e conheceu o maestro Severino Araújo (líder da Orquestra Tabajara) que nessa época trabalhava na Rádio PRI-4. Também nessa mesma época (por volta de 1948) recebeu o convite para atuar na então capital do Brasil. Com isso, houve a necessidade de se estruturar uma nova orquestra na qual o instrumentista foi convidado a participar no Rio de Janeiro. Ingressou, assim, na função de sax-tenorista e clarinetista da Jazz Band da Rádio PRI-4, Rádio Tabajara da Paraíba. Moacir continuou conciliando com seus ofícios o ato de compor suas músicas e cerca de dois anos depois já casado com Cleonice, foi nomeado regente da Orquestra.

Nessa época a sua carreira já desleixava e muitos já reconheciam seu talento. Uma das pessoas responsáveis por propagá-lo foi o músico Lourival de Souza, da Orquestra Tabajara, que o apresentava como o "fera do saxofone". Daí em diante começou a tocar no Clube Brasil Danças.

Por volta de 1951, ingressou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, de maneira interessante, pois o diretor artístico, Paulo Tapajós, convidou-o para fazer parte do programa "Quando os maestros se encontram". O instrumentista escreveu, então, os arranjos musicais de duas músicas, "Na baixa do sapateiro", de Ary Barroso, e "Melodia para trompa em fá", de sua autoria, tornando-se, após a apresentação, membro efetivo do Quadro de Maestros da emissora, além de atuar como sax-tenorista solista da Orquestra do Maestro Chiquinho, participando de todos os programas de envolvimento orquestral da emissora, onde permaneceu por 19 anos.

Na década de 50 outros fatos importantes aconteceram na carreira do já então maestro Moacir Santos, o músico pernambucano Santos foi para São Paulo onde dirigiu a orquestra da TV Record por volta de 1953. Dois anos depois, ele voltou ao Rio de Janeiro, retomando seu trabalho na Rádio Nacional, além de atuar, como assistente de Ary Barroso, na direção artística da gravadora Rozemblit, e como condutor de orquestras em gravações da Copacabana Discos, tendo-se revelado como um dos mais competentes arranjadores brasileiros. E foi nesse período que começou a lecionar e tornou-se professor de grandes nomes de nossa música popular brasileira como Baden Powell, Paulo Moura, João Donato, Nara Leão, Roberto Menescal, Sérgio Mendes, Oscar Castro-Neves, Maurício Einhorn, Dori Caymmi, Airto Moreira entre outros.

Mesmo sendo um auto-didata virtuosíssimo fazia arranjos sem conhecer as regras, por isso resolveu não acomodar-se e estudar dentre outras coisas teoria musical com Guerra Peixe. Além disso estudou também harmonia, contraponto, fuga e composição com nomes como Paulo Silva, José Siqueira, Virgínia Fiusa, Cláudio Santoro, João Batista Siqueira, Nilton Pádua, e também com o grande musicólogo e compositor alemão Hans Joachim Koellreutter, de quem Santos depois se tornou assistente. Tal era a habilidade que o aluno tinha que um fato interessante marcou o período em que Moacir passou pelas salas de aula de grandes nomes da música mundial, um deles foi quando matriculado no Curso de Composição do Professor Ernst Krenek, realizado em Teresópolis (RJ) o o professor austro-americano ministrou, na primeira aula, os preceitos e regras da Técnica dos 12 Sons, sistema criado por Arnold Schoenberg. Como o instrumentista não falava inglês nessa época, Koellreutter, diretor artístico do curso, serviu de intérprete para a comunicação entre professor e aluno, que surpreendeu Krekek e Koellreutter ao compor, de imediato, uma música no novo método de composição.



A década de 60 foi quando Moacir atingiu o ápice de sua carreira. Vários acontecimentos levam a veracidade dessa afirmação, onde podemos destacar o diploma de Músico do Ano, conferido pelo Sindicato dos Músicos Profissionais do então Estado da Guanabara (Rio de Janeiro) juntamente com a União dos Músicos do Brasil em 1960; os diversos convites para a composição de diversas trilhas sonoras para o cinema como "Seara vermelha", de Jorge Amado, com direção de R. Aversa, "Ganga Zumba", de Cacá Diégues, "O santo médico", do diretor francês Sacha Gordine, "Os fuzis", de Ruy Guerra e "O beijo", de Flávio Tambellini, entre outros; foi considerado o "patrono da bossa nova"; a ele se referiu Vinícius de Moraes no famoso "Samba da bênção", composto em parceria com Baden Powell; em 1963, escreveu os arranjos do disco "Vinicius de Moraes e Odete Lara" e participou, também, de um disco de Baden Powell, como pianista e cantando em dueto com Alaíde Costa e foi nomeado Membro da American Society of Composers Authors and Publishers (Ascap).

Em 1965, lançou o antológico disco "Coisas". Acerca do título, explicou que desde que se empenhou em estudar música clássica foi tocado pelo desejo de que suas composições tivessem a catalogação dos clássicos no que diz respeito à numeração. Como suas músicas inseriam-se na área popular, perguntado, na ocasião da gravação, sobre o título das canções, respondeu: "Coisas", já que não podia referir-se a elas como "Opus". Ainda nesse ano, escreveu pela primeira vez a trilha musical de um filme norte-americano, "Amor no Pacífico", que lhe valeu, como prêmio concedido pelo Itamaraty, uma passagem para Nova York (EUA) para que estivesse presente na pré-estréia do filme. O Maestro aguardou a data do evento por mais de um ano, quando então viajou para aquele país. Nessa ocasião, o Clube Brasileiro de Nova Jersey, sabendo de sua presença em Nova York, convidou-o para a solenidade de comemoração do dia da Independência do Brasil, ao lado de outros brasileiros, como o Presidente Juscelino Kubitschek.

Dois anos depois, desligou-se espontaneamente da Rádio Nacional e convidado para a a estreia mundial do filme "Amor no Pacífico", do qual havia sido compositor nos EUA, resolve fixar residência definitivamente nesse país, onde retomou sua atividade de professor, ensinando em casa, como fazia no Brasil, até que se tornou membro da Associação dos Professores de Música da Califórnia, em Los Angeles. "Estava ficando difícil viver aqui. Cheguei a pensar em colocar meu carro na praça", lembrou Santos quando questionado sobre o porquê de ter ido embora do Brasil. Moacir nos primeiros tempos ganhou a vida tocando piano numa igreja batista, em Los Angeles. Também trabalhou como "músico fantasma", fazendo arranjos para filmes de Hollywood, sem receber créditos até ser "descoberto" pelo pianista de jazz Horace Silver, que o conhecera na casa do pianista Sérgio Mendes, e começou a gravar para o mercado norte-americano. Fez grandes discos pela Blue Note e pela Discovery, como "The Maestro" (1972 - indicado para o Prêmio Grammy Award, "Saudade" (1974) e "Carnaval dos Espíritos" (1975) e "Opus 3 nº 1 (1979) hoje todos fora de catálogo no Brasil. Nos EUA chegou a ser nomeado Membro da Music Teachers Association of California (MTAC).

Em 1994 participou, como professor, do curso Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP) e ainda nesse ano, recebeu o diploma da Academia Pernambucana de Música. Dois anos depois, recebeu a Comenda de Grau de Oficial da Ordem do Rio Branco, do Presidente da República do Brasil, Grão-Mestre daquela entidade, outorgada pelo Decreto de 26 de abril, em cerimônia realizada no Consulado Brasileiro de Los Angeles. Ainda em 1996, foi homenageado com o "Tribute to Moacir Santos", pelo Brazilian Summer Festival, realizado no Teatro Ford em Los Angeles (California, EUA).

É por essas e outras que Moacir Santos é considerado um dos grandes mestres da renovação harmônica da MPB até os dias atuais. Por dominar diversos instrumentos tal qual o saxofone, piano, clarineta, trompeta, banjo, violão e bateria como poucos é considerado como um dos maiores instrumentistas brasileiro. Nessa passagem pelos 05 anos de sua ausência vale o registro não apenas de sua estátua (vista em foto ao lado) na cidade na qual nasceu, mas também o singelo registro de seu nome aqui em nosso espaça, afinal este que foi um mestre da renovação harmônica da música popular brasileira merece todas as homenagens prestadas.


Obras

O seu primeiro álbum intitula-se "Coisas" e foi lançado em 1965 pela gravadora Forma. Tornou-se um clássico da música instrumental brasileira, principalmente depois que uma das faixas do álbum ganhou a letra do Mário Telles e ficou muito mais conhecida por nanã. Já radicado nos Estados unidos lançou os álbuns "The Maestro" (1972), "Saudade" (1974) e "Carnival of the Spirits" (1975) pelo selo Blue Note, e "Opus 3 Nº 1" (1978) pelo selo Discovery.



05 anos antes de sua morte uma boa parte obra foi novamente lançada no Brasil através de um álbum que teve por objetivo prestar-lhe uma homenagem. E assim o álbum "Ouro Negro" contou com a participação especial de Milton Nascimento em "Coisa nº 8 - Navegação" (c/ Regina Werneck e Nei Lopes), João Bosco em "Oduduá (What’s my name)" (c/ Nei Lopes), Joyce e João Donato em "De repente estou feliz (Happy happy)", Djavan em "Sou eu (Luana)" (c/ Nei Lopes), Gilberto Gil em "Maracatu, Nação do Amor (April child)" (c/ Nei Lopes), Ed Motta em "Orfeu (Quiet Carnival)" (c/ Nei Lopes) e do próprio Maestro, ao lado de Sheila Smith e Muiza Adnet em "Bodas de prata dourada". Atuaram na gravação os produtores do disco, Mario Adnet (violão) e Zé Nogueira (sax barítono), além de Cristóvão Bastos (piano), Marcos Nimrichter (órgão), Ricardo Silveira (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico), Armando Marçal (bateria), Jurim Moreira (flauta e flautim), Andréa Ernest Dias (sax alto), Vittor Santos (trombone) e Hugo Pilger (cello), entre outros instrumentistas. Em 2005 foi lançado um DVD com um show da "banda ouro negro" gravado ao vivo no SESC Pinheiros em São Paulo, e um disco, pela biscoito fino, com várias composições do inicio da carreira do Maestro, nunca antes gravadas chamado "Choros & Alegria" (que ganhou o Prêmio Tim, na categoria Melhor Disco/Projeto Especial e o Prêmio Shell de música de 2006).



Foi o último registro fonográfico do maestro que veio a falecer no dia 06 de agosto de 2006 na região de Pasadena (Califórnia), este foi o local onde fixou moradia depois de sua chegada em Los Angeles, nos Estados Unidos. No dia 8 de novembro desse mesmo ano, sua viúva Cleonice Santos, e seu filho, Moacir Santos Jr., receberam das mãos do presidente Lula e do ministro Gilberto Gil a medalha da Ordem do Mérito Cultural conferida ao músico.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

MOACIR SANTOS NO AUDITÓRIO DO IBIRAPUERA

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