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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

BELCHIOR EM 1977: "QUERO CANTAR ATÉ QUANDO TIVER 120 ANOS"

Em entrevista a Juarez Fonseca há 40 anos, em Porto Alegre, cancionista refletiu sobre seu trabalho e o fazer artístico



Belchior em 1992 no antigo Teatro da Ospa, em Porto AlegreDulce Helfer / Agencia RBS


Leia, a seguir, entrevista concedida pelo músico – que morreu em 2017 – ao jornalista e colunista de Zero Hora Juarez Fonseca em 1977. Uma versão editada desta entrevista foi publicada em Zero Hora no dia 1º de maio daquele ano.


Belchior em 1977: "A arte é um poder inseparável da realidade humana"


Por Juarez Fonseca


Belchior esteve em Porto Alegre nesta semana, recebendo prêmio de um programa de tevê e promovendo o seu próximo disco, Coração Selvagem, que será lançado aqui no dia 10. Em quatro anos de carreira no centro do País, o terceiro elepê do compositor e cantor é também o título inaugural do cast brasileiro da gravadora Warner – Belchior foi seu primeiro contratado, o que provocou discussões, no ano passado, porque ele ainda estava vinculado à Phonogram, selo de seu segundo disco, Alucinação, um grande sucesso popular. Coração Selvagem terá três músicas já conhecidas (Galos, Noites e Quintais, Paralelas e Todo Sujo de Batom), mais seis inéditas: Caso Comum de Trânsito, Pequeno Mapa do Tempo, Clamor no Deserto, Populus, Carisma e a faixa-título. Nesta entrevista, o cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, 30 anos, volta a falar de seu assunto preferido: a arte e o artista.


Você é um dos artistas que mais receberam espaço no ano passado, inclusive em reportagens. Quando saiu o segundo disco, Alucinação, crítica e público o receberam com muita disponibilidade, inclusive por suas opiniões sobre a função da arte e do artista. Depois, vieram críticas como a de que alguns de seus questionamentos não encontram correspondência na música que você faz em si.
Bom, primeiro eu acho que as pessoas todas têm plena, total e irrestrita liberdade de manifestar a sua opinião contra e a favor. A essa altura, eu tô pensando que o despertar da crítica, em termos positivos ou negativos, é muito eficiente, na medida em que ele revela o trabalho. Claro que ele tem coisas que as pessoas gostam e outras que elas não gostam. Essa diversificação, do ponto de vista crítico, colocado na imprensa, é importantíssima. Se há unanimidade total a respeito de uma coisa, não sei como pensar sobre ela. Eu gosto quando a informação se manifesta na dialética que tem a colocação do meu trabalho. Se as minhas atitudes têm correspondido às minhas declarações, disso eu não tenho o menor receio, porque sei onde quero chegar com o meu trabalho e sei que tipo de atitude eu tomo quando faço determinada coisa. Então, eu quero que isso se manifeste publicamente. O meu trabalho é muito recente, ainda tem um caminho enorme para andar. A minha expectativa é que quando ele chegar à plenitude, esteja plenamente conhecido. Quer dizer, o fato de haver crítica eu acho positivo e importantíssimo, principalmente porque sou a favor da liberdade total de opinião.





Muitas vezes eu faço perguntas que não correspondem necessariamente ao que penso, pois quero colocar na roda opiniões diversas e provocar o entrevistado.

Eu acho essa coisa incrível, porque devemos fazer um longo papo nacional, geral, sobre todas as situações da música popular brasileira. Não seria eu a pessoa a restringir o diálogo, em nenhum nível. E eu não levo isso à omissão, mas até a confrontação pessoal com a crítica, não só do ponto-de-vista do pensamento, como de enfrentar qualquer pergunta. Como pessoa pública que hoje eu sou, devo explicações, e elas serão dadas, todas, desde que propostas.


Eu gosto da sua música, não só porque carrega em si a qualidade. O que mais me motiva a gostar não é o nível de qualidade, mas a fertilidade.
Sinceramente, uma coisa que está me agradando, e até me espantando um pouco, é a minha colocação sobre o trabalho. Essa coisa de fertilidade do trabalho é a coisa que mais me toca. Eu não vou dizer, por exemplo, que os assuntos das minhas músicas sejam agradáveis para mim. Eu parto mais para a afloração, no sentido de observar as correntes emergentes do tempo, as palavras das pessoas, fatos, situações, e de colocar isso do ponto-de-vista estético, mesmo dando uma volta por cima naquela ideia de que a arte deve sempre gratificar. Então, a gente põe em xeque diversas coisas. É uma forma de exuberância, mesmo. Acho legal essa consideração.


Acho saudável a contradição. Mas uma das críticas que fizeram a você, por exemplo, é que uma música sua diz "um tango argentino me vai bem melhor que um blues". Noutra, você canta muito semelhante a Bob Dylan, um folk mesmo.

Primeiramente, a crítica tem que saber com clareza o que eu tô dizendo quando falo que "um tango argentino vai bem melhor que um blues". Em segundo lugar, o fato de eu cantar parecido com alguém depende da opinião das pessoas. Umas acham parecido, outras não. Do ponto de vista da opinião, eu me permito observar a liberdade das pessoas, que estão no seu direito de achar diversas coisas. O significado é que me preocupa: quando a gente diz "um tango argentino vai bem melhor que um blues", tá citando o poema é Pneumotorax, de Manuel Bandeira, que identifica o desespero humano máximo com o tango: "Agora só resta tocar um tango argentino". Eu estava fazendo uma música sobre o desespero íntimo e geral que, de repente, tomou conta de todos e que a gente procura mudar. Eu me servi então de um verso de Bandeira. Claro que eu não tenho predileções por blues ou tango, prefiro os dois. Mas, como artista, eu me permito fazer essa colocação, pra citar o poeta e identificar um sentimento. Estou falando de uma coisa bem mais profunda que os simples gêneros da música e bem mais ligada à vida do que à arte. Isso não significa que eu não vá cantar blues ou tango, ou que não me permita incorporar elementos criativos estrangeiros, novos, abstratos, aleatórios etc.


Há pouco, você questionava a arte que se propõe à gratificação.

Olha, eu gostaria de dizer coisas agradáveis às pessoas e de cantar o amor. Mas eu não sou mensageiro de coisas agradáveis. Estamos ficando cada vez mais silenciosos, mudos, ensurdecidos com o silêncio ensurdecedor. Então, eu quero testemunhar isso na minha obra. Do mesmo modo em que eu modifiquei, sem a menor reverência, um trabalho já estabelecido, de 1973 pra 1976, porque eu achava – e ainda acho – que a situação em 1973 tava igual à de 1975, desse ponto de vista que a música coloca, agora eu diria tranquilamente "o desespero de 77" (Nota da Redação [em 1977]: A Palo Seco, lançada por Fagner, em 1973, foi regravada por Belchior três anos depois, com um trecho atualizado da letra, dizendo que "Esse desespero é moda em 1976...").


Você já pensou na diferença de enunciados entre o primeiro disco, feito pouco tempo depois que você saiu do Nordeste, e esse terceiro, que envolve uma vivência de quatro ou cinco anos no centro do País?

Basicamente, o meu universo de pensamento não mudou, só que eu estou me aproximando cada vez mais de uma significação mais – vamos dizer – compreensível da continuidade do trabalho. Aquilo que estava contido formalmente nas letras e tal, hoje eu prefiro dizer direta e abertamente, sem recursos vulgarmente conhecidos por estéticos. Eu procuro violentar o arcabouço da melodia ou da letra, pra colocar mais significado dentro. E quando eu digo significado, é significado mesmo, que as pessoas possam compreender com maior facilidade.


No novo disco, Coração Selvagem, as letras continuam discursivas?

Continuam bem discursivas, como sempre, e eu cheguei ao extremo de musicar um trecho em prosa, prosa mesmo, fora da formulação poética tradicional. Com isso daí você já radicaliza esse fato.


Quando conversamos na outra vez em que você esteve aqui, em outubro de 1975, o elepêAlucinação ainda não tinha sido lançado e não havia um maior contato seu com o público. Já no ano passado você deve ter feito muitas apresentações...
Eu estive em cerca de 60 cidades e fiz mais de cem shows, nos mais diversos lugares e condições. Em sala de aula, penitenciária, praça pública, igreja, televisão, teatro, festa, calçada, museu. Então, eu tenho uma experiência vasta, não digo profunda, desse percurso de contato com o público. As apresentações foram sempre estimulantes, do ponto de vista de que o público sempre se manifestava, provocadoramente, fazendo perguntas, querendo saber coisas, pedindo explicações e – vamos dizer – explanações sobre o meu trabalho. De forma que os shows sempre foram completados assim, com conversas, discussões, algumas até violentas. Foi uma barra enfrentar essa situação, depois de toda a estimulação pública que aconteceu com o trabalho. Eu nunca tinha imaginado uma confrontação pública nesse nível. Ao mesmo tempo em que havia uma aceitação irrestrita, o trabalho desperta ódios, interesses e paixões: as pessoas que amam até o extremo e as que odeiam. Esse tipo de dialética eu acho que prova a profundidade do trabalho. Ele tem trilhos e está andando.


Você tem algo mais ou menos formulado a respeito da continuidade desse trabalho? Isso é suposição, especulação, mas como ele poderá se desenvolver?

Eu sempre penso no meu trabalho em termos longos mesmo. Hoje fazer uma coisa, amanhã outra, dar continuidade ao pensamento do trabalho... Aliás, você deve estar admirado com o quanto eu insisto na palavra "pensamento", não é? Porque eu acho que, basicamente, o meu modus cantandi, o método de fazer música, é um modo de pensar a realidade. Então me preocupo nesse nível, da obra, de vê-la mais ou menos acabada, finalizada, de forma que eu penso isso em termos de uma vida toda. Eu sou uma pessoa que não tem a mínima condição de me afastar voluntariamente do exercício de cantar, de fazer música, sabe? Eu quero cantar até quando tiver 120 anos. E de cantar com todo o humor, negro ou branco, incorporar os elementos humanos, sem complicações. Tudo o que é humano me diz respeito, então incorporo isso no meu trabalho, sem pensamentos elitistas e tal. A minha obra pretende ser um símbolo de liberdade em todos os níveis. A previsão pro meu trabalho é de que ele continue, vigoroso e estimulante, porque eu nunca penso em acomodar uma vida à carreira. O meu trabalho é uma coisa em movimento, dinâmica, que simplesmente se vai aprendendo com o que acontece e projetando o que vem depois.


Não me oponho à música estrangeira, de forma xenófoba, e sim à invasão internacional que impede o surgimento de novos valores. De qualquer forma, há muitos exemplos – e estou diante de um deles – de caras que conseguem emergir.

O artista luta contra essa fatalidade de que os novos não podem, de que o que é bom não pode, de que o pensamento certo não pode. Essa é uma mistificação do sistema para manter o status de quem já se sentou nas cadeiras. Não vamos pretender que o sistema dê colher-de-chá, porque ele não tá a fim de dar sopa pra ninguém. O artista tem que batalhar, encontrar a sua linguagem, fazer uma música tão forte que o sistema se sinta obrigado a incorporá-la ao sistema de produção, mesmo com toda a sujeira que é isso. Sou uma pessoa que acredita no poder do artista. E depois, ele vai conseguir o seu espaço, em que poderá desenvolver o seu trabalho criativo. Isso envolve problemas de economia seríssimos, de grana em cima, que a gente não vai nem discutir aqui porque não é só problema de gravadora, mas do sistema em geral. Mas o artista vive nesse meio e tem que fazer a sua obra. A dificuldade dos novos eu não interpreto como uma interinidade, porque compreendo arte como uma coisa profundamente humana, que acompanha o homem de forma radical, em qualquer circunstância. É um poder humano, inalienável de sua realidade. O problema é que os emergentes dependem das comunicações, da indústria do disco e da diversão, mas também de certa batalha do artista, de querer fazer o disco e que o disco apareça, de ter paciência consigo mesmo e com o seu trabalho. Claro que eu também dou o meu irrestrito apoio aos artistas que não têm saco pra isso, que não querem transar com o sistema, que acham que gravar disco não é uma coisa condizente com a sua obra. Eu acho que esses são os sublimes, os radicais que chegaram à desobediência civil e à omissão voluntária. Bom, mas quem está querendo fazer discos e aparecer (no sentido próprio da palavra) sente as dificuldades nos veículos de comunicação, na produção fonográfica, na compreensão do seu trabalho, por ser uma coisa nova. As gravadoras não querem investir em quem elas não tenham certeza de sucesso. A imprevisibilidade do talento, com que o artista joga, não é a mesma ideia da gravadora, que pensa mais horizontalmente sobre isso. Investimento, lucro, novo investimento, maior lucro: é uma coisa que faz parte do sistema de produção. Se o artista não entra com rigor nessa linha de montagem, atrasa o trabalho dele com respeito à empresa, né? Então ele tem que traçar estratégicas ofensivas para o seu trabalho.


Na música popular internacional de hoje, é dada muita importância à indústria do disco, que produz artistas como quem fabrica sabonetes. O disco é um veículo, um tentáculo, mas o artista existe antes e depois da indústria.

Exatamente. O artista tem que ter essa noção clara de que a obra é mais importante que sua veiculação, pelo amor de Deus! Então ele precisa ter a consciência de que a empresa é simplesmente um dado nesse trabalho todo. E, naturalmente, seria até uma certa inutilidade falar de artistas pré-fabricados, porque também são desfabricados e absorvidos pelas novas embalagens, novos perfumes. Eu sou tão apaixonado quando falo da figura do artista, que até me omito sobre os fabricados. Claro, eu sei que existem e que chegam a sensibilizar diversas áreas, não é? Da televisão, do rádio, do jornal e tal, mas não me interessam.


Como você veria a possibilidade desses novos talentos desenvolverem e mostrarem o seu trabalho fora da indústria da diversão? Viajar pelo Interior, cantar nas ruas?

Eu acho incríveis as alternativas do trabalho. O disco é uma delas. Nós somos tão novos com respeito a ele, que ainda temos uma reverência assim, mística, quando o trabalho do artista não deveria ser apenas o disco. O cara pode nunca gravar e mesmo assim ser um grande artista, fazer show, cantar nos cafés, boates, bocas, ruas, em todos os locais. As alternativas estão abertas, desse ponto-de-vista da escolha particular: "As gravadoras não estão interessadas em minha obra, então eu vou cantar nas universidades", essas coisas.

quarta-feira, 9 de março de 2016

CADA VEZ MAIS LIVROS SOBRE MÚSICA

Só em 2015 foram lançadas cinco biografias de artistas gaúchos, entre elas o “Almanaque do Lupi”


Por Juarez Fonseca


Em outros tempos, a bibliografia sobre a música do Rio Grande do Sul era muito pobrezinha. Nos anos 2000, felizmente, até acompanhando a efervescência nacional nesse sentido, os títulos começaram a se multiplicar. Em minha estante alinham-se cerca de 70 livros publicados no Estado desde a década de 1960 ­– e cerca de 40% deles de 2000 para cá. Mas para este comentário fico nos últimos cinco anos, tempo em que chegaram às livrarias pelo menos 18 volumes, que são os que tenho. Desses, separo 10 como sugestão de compra na Feira do Livro, começando com os cinco lançados em 2015, todos biográficos.

Fartamente ilustrado, o Almanaque do Lupi – 100 Anos (Editora da Cidade), de Marcello Campos, é a mais completa reunião de informações e histórias sobre Lupicínio Rodrigues já publicada. Vitor Ramil – Nascer Leva Tempo(Fumproarte), de Luís Rubira, recorta e analisa a trajetória do compositor através de seus discos. Julio Reny – Histórias de Amor & Morte (Artes e Ofícios), de Cristiano Bastos, narra em primeira pessoa a delirante e dolorida vida de um dos mais originais criadores do rock brasileiro. Esse Tal de Borghettinho (Belas Letras), de Márcio Pinheiro, conta como o gaiteiro tornou-se um símbolo do Rio Grande. E Elis Regina – Uma Biografia Musical(Arquipélago), de Arthur de Faria, agrega à história da maior cantora um inédito olhar porto-alegrense.

Nos anos 1980, os jornalistas Kenny Braga e Danilo Ucha começaram a destacar personagens da noite e da boemia da capital gaúcha, publicando pequenas biografias de Plauto Cruz, Jessé Silva e Túlio Piva. Da safra recente, o primeiro foi Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão (Libretos/Fumproarte, 2010), do jornalista Paulo César Teixeira, sobre o lendário músico que tocou com Lupi e acompanhou três gerações de cantores até morrer, em março passado. Paulo forma com Marcello Campos e Arthur de Faria a trindade dos novos pesquisadores do Sul. São de Marcello, igualmente jornalista, as biografias de dois cantores também ligados a Lupicínio: Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves (Editora da Cidade, 2011) e Johnson – “O Boxeur Cantor”(Fumproarte, 2014).

Para fechar a lista, indico Na Ponta da Agulha (Editora da Cidade, 2012), saborosas memórias do DJ e radialista Claudinho Pereira, sobre a vida noturna de Porto Alegre dos anos 1960 aos 80, e Suingue, Samba-Rock e Balanço(Medianiz, 2013), em que o músico Mateus Berger Kuschick reconstitui, analisa e amplia a particularíssima cena musical surgida nos anos 1960 no bairro Partenon.


A Nega Lu e o alemão Gessinger

São mais sobre cultura e comportamento do que sobre música, mas têm muita música outros dois livros de Paulo César Teixeira que recomendo sem pestanejar: Esquina Maldita (Libretos/Fumproarte, 2012), que já pode ser considerado um clássico, e o recém-lançado Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita (Libretos/Fumproarte), sobre esse mitológico personagem da vida mundana da Capital – autógrafos nesta terça-feira, às 18h, na Feira do Livro. De forma direta (Editora da Cidade) ou indireta (Fumproarte), é impressionante a participação da prefeitura de Porto Alegre neste cenário de recuperação de memória: está em oito dos 13 livros mencionados aqui.

E não posso desembarcar deste texto sem sugerir os livros de Humberto Gessinger lançados pela editora Belas Letras a partir de 2009, com memórias, causos e reflexões da estrada, dos palcos, da vida. O quarto, de 2013, chama-seSeis Segundos de Atenção. Ele escreve muito bem.

terça-feira, 8 de março de 2016

AS DIMENSÕES DE VANDRÉ

"Uma Canção Interrompida"detalha com consistência a biografia do enigmático músico


Por Juarez Fonseca


Geraldo Vandré em 1968


No dia 18 de agosto de 1973, o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu reportagem sobre a volta ao Brasil de Geraldo Vandré, depois de quatro anos e meio de exílio. A chegada, no aeroporto de Brasília, teve entrevista exclusiva. Vandré disse que decidira abandonar a linha política em suas canções, respondendo às perguntas do repórter cujo rosto não era mostrado. “Minhas canções estão mais anunciativas que denunciativas”, disse. Mas tratava- se de uma farsa. O fato: o compositor chegara ao Brasil um mês antes, 17 de julho, pelo Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro, sendo preso ao desembarcar. O Jornal do Brasil publicou discretamente a notícia no dia seguinte e, à tarde, como todas as redações do país, recebeu uma ordem da censura federal: “Está proibida a divulgação de notícias e comentários sobre o subversivo e cantor Geraldo Vandré”. 

A farsa, a “versão oficial” arquitetada pelo governo para que ele pudesse sair em liberdade, é descrita em minúcias num dos capítulos mais tensos da biografiaGeraldo Vandré – Uma Canção Interrompida, do jornalista paulista Vitor Nuzzi, lançada no final de dezembro. Na verdade, todo o livro é tenso, pois desde antes dos infortúnios agudos, a partir da fuga do Brasil (no Carnaval de 1969, pela fronteira gaúcha com o Uruguai), o temperamento do artista paraibano o levava frequentemente a entrechoques. Ao talento para montar grupos como o Quarteto Novo, que lançou Hermeto Pascoal e Airto Moreira na criação do futuro clássico Disparada (para muitos sua obra-prima), ele contrapunha a facilidade de desfazê-los. Desde que chegou ao Rio, em meados dos anos 1960, integrando-se ao clima bossa-novista, nunca se enturmou por muito tempo.

No ápice de tudo, a canção Caminhando – Ou pra Não Dizer que Não Falei das Flores (que perpassa todo o livro, como um personagem), ele estava sozinho ao violão no palco do Maracanãzinho – mas com um coro de 30 mil vozes. Música-símbolo daquele período que afinal “traria” em 1968 o AI-5 e a ditadura dentro da ditadura, Caminhando o levou ao céu e ao inferno. O livro pinta isso com todas as cores e deixa bem claro, com fartos depoimentos de militares, jornalistas e artistas (como seu desafeto Caetano Veloso), que, se Vandré fosse preso naquele dezembro, tinha sólidas chances de não escapar com vida. Os milicos o odiavam como um inimigo. Felizmente ele não foi nosso Victor Jara, assassinado por Pinochet – do qual escapou por pouco, pois o golpe no Chile viria apenas 40 dias depois de sua saída para o fim do exílio.


Exílio reconstituído

Ao fim de 10 anos de trabalho, Vitor Nuzzi aprontou seu livro no início de 2015, quando ainda estávamos naquela bronca das biografias não autorizadas, caso dele, que nunca conseguiu ser recebido por Vandré. Foi por isso recusado por seis editoras. Decidiu imprimir cem cópias por conta própria e distribuí- las entre amigos e jornalistas. No meio tempo, outras duas biografias foram lançadas, em setembro e outubro (veja abaixo). Em outubro, Nuzzi conseguiu editora, teve tempo de ler essas duas e, sem preconceitos, ainda agregar informações a seu livro, que é o melhor de todos. Uma Canção Interrompidatalvez seja o mais completo documento das “relações” da ditadura com a arte e a cultura. Há inúmeras biografias da época e em nenhuma se encontra os mesmos detalhamento e consistência.

O livro documenta todos os passos de Vandré, revela muitas coisas e desfaz algumas verdades que se tinham como definitivas sobre ele. Nuzzi viajou a Santiago do Chile e a Paris para reconstituir os errantes movimentos do compositor no exílio. Cercada de fantasias, suspense e algum sensacionalismo (teria enlouquecido pelas torturas), a quase enigmática vida de Vandré de 1973 aos dias atuais é tratada por Nuzzi com objetividade plena. Em nenhum momento se trai com a condescendência de fã. A dimensão do Vandré artista, propriamente dita, vai até o exílio. Depois, começa a dimensão do homem que decidiu viver como um cidadão comum, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, funcionário público federal aposentado, 80 anos. Os dois juntos formam a dimensão do mito.


GERALDO VANDRÉ – UMA CANÇÃO INTERROMPIDA 
De Vitor Nuzzi Biografia, 351 páginas, Editora Kuarup.


Mais Vandré

– Vandré, o Homem que Disse Não, de Jorge Fernando dos Santos (Geração Editorial).

– Não me Chamem Vandré, de Gilvan de Brito (Editora Patmos).

Ambos os livros foram lançados em 2015.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

JUAREZ FONSECA: TRAJETÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELLO NA IMPRENSA ESTÁ CONCENTRADA EM SEU NOVO LIVRO

O colunista escreve semanalmente no Segundo Caderno

Por Juarez Fonseca


Entre cerca de mil textos publicados de 1957 a 2014, Zuza selecionou 140

Zuza Homem de Mello é uma das maiores vocações do jornalismo musical brasileiro, se não a maior. Dono de um sobrenome heráldico, poderia ter escolhido ser fazendeiro, como seu pai. Poderia ser engenheiro, curso que chegou a iniciar. Poderia trabalhar como músico, tinha 20 anos quando começou a tocar contrabaixo profissionalmente em São Paulo. Quatro anos depois, iria para os EUA, onde, entre 1957 e 1959, cursou a School of Jazz (tendo como orientador o célebre baixista Ray Brown), estudou musicologia na Juilliard School of Music e literatura inglesa na New York University. Mas não, encontrou sua razão de viver escrevendo sobre música para jornais e revistas, apresentando programas de rádio, promovendo a música fora dos palcos. Seu currículo é vasto, bastando lembrar três atividades além do jornalismo para ressaltar isso: foi engenheiro de som da TV Record na época dos grandes festivais e programas como O Fino da Bossa; foi coordenador da Enciclopédia da Música Brasileira; foi/é curador dos principais festivais de jazz realizados no Brasil.

A trajetória de Zuza na imprensa está concentrada nas 544 páginas de seu novo (e sétimo) livro, Música com Z. Entre cerca de mil textos publicados de 1957 a 2014, ele selecionou 140. Não há ordem cronológica, os textos estão agrupados em capítulos, ou seções. Em “Canções e Momentos”, ele conta saborosas histórias de canções como As Time Goes By e Fascinação, faz crônicas como E se Elis Fosse Viva? e O Disco de Jazz que Mudou minha Vida. Em “Reportagens”, está desde uma matéria sobre o início da construção do Lincoln Center, em 1958, até uma sobre o projeto Emoções, a maior turnê já realizada por Roberto Carlos, em 1983. No capítulo “Entrevistas”, brilham conversas com Charles Mingus (que não costumava falar com a imprensa, principalmente com jornalistas brancos), Chico Buarque, Chet Baker, Itamar Assumpção, Dizzy Gillespie, Moacir Santos, entre tantos. Outro bloco, “A nobreza da música brasileira”, reúne comentários de discos e shows de Paulinho da Viola, Cartola, João Gilberto, Kleiton & Kledir, Bezerra da Silva, Elizete Cardoso, Elis, Caetano, Tom, Tim etc.

Um capítulo particularmente interessante é “De dar água na boca”, no qual Zuza relembra shows inesquecíveis a que assistiu nestes 57 anos. A propósito, no prefácio, o jornalista Humberto Werneck anota que Zuza “esteve sempre no lugar certo, e na hora certa”. Nos anos em que viveu em Nova York, ele ia a shows de jazz diariamente. Num dos textos, de 1957, dá suas impressões sobre duas “jovens promessas do jazz”, Cecil Taylor e John Coltrane. Noutro, escreve sobre o show de Sinatra em São Paulo. 

Noutro ainda, sobre uma apresentação-surpresa de João Gilberto em uma festa particular. Ao longo do livro, inúmeros textos são finalizados com uma “Nota em 2014”, isto é: Zuza hoje, atualizando e enriquecendo as informações. Na última seção do livro, estão reunidas as “Figuraças” do crítico, entre elas Miles Davis, Carmen Miranda, Duke Ellington, João do Vale, Hermínio Bello de Carvalho, Noel Rosa e, juntos, num texto de 2014, os centenários Caymmi e Lupicínio. Só não procure rock em Música com Z. A elegante, minuciosa e precisa escrita de Zuza passa ao largo disso.


Música com Z
> De Zuza Homem de Mello
> Artigos, reportagens e entrevistas, Editora 34, 544 páginas, R$ 69 (em média)
> Cotação: 5 (de 5)

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