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domingo, 10 de novembro de 2019

MARCAS DE JACKSON DO PANDEIRO, AMOR À MÚSICA E RESISTÊNCIA FAZEM PARTE DE HISTÓRIAS DE ARTISTAS DA PB

Trajetória do interior para grandes cidades, sem desistir do gosto pela música, se repete em histórias de artistas paraibanos que seguem o compasso do rei do ritmo.

Por Sílvia Torres e Waléria Assunção, TV Cabo Branco e TV Paraíba


Jackson do Pandeiro — Foto: Aníbal Philot/18-8-1981 


Filho de pais pobres, nascido no interior do estado, que, mesmo em meio às dificuldades, nunca abandonou o gosto pela música. Inserida nessa narrativa está a vida de Jackson do Pandeiro. O refrão se repete na trajetória de outros músicos paraibanos. Como fonte de inspiração, o rei do ritmo também guiou o compasso de histórias parecidas. 

Em comemoração ao centenário de José Gomes Filho, nome real do compositor nascido em 1919, instrumentistas paraibanos comentaram sobre a trajetória na música e a relação com a vida e obra de Jackson, em entrevistas às reportagens das TV’s Cabo Branco e Paraíba.


Sinfonia do Pandeiro
Paraibano Maestro Chiquito criou a 'Sinfonia do Pandeiro' — Foto: TV Cabo Branco/Reprodução


Paraibano de Santa Luzia, no Sertão, Francisco Fernandes Filho explicou que foi praticamente criado pela avó, porque o pai morreu pouco tempo depois de que ele nasceu e a mãe dava aulas na zona rural da cidade.

Assim como na vida de Jackson, a paixão pela música foi despertada logo cedo. Ainda criança, o Maestro Chiquito, como é conhecido, começou a tocar um instrumento parecido com a zabumba, em um trio de forró.

“Aos 14 comecei a estudar música, aos 16 entrei na banda de música. Depois, quando fui tirar os documentos, me perguntaram se músico era profissão. Eu fiquei na dúvida, mas no meu pensamento, arriscando ser preso, eu disse que era”, disse.

Chiquito contou que, pouco tempo depois, se mudou para a capital paraibana para cursar um bacharelado. Em seguida, ingressou para a Orquestra Sinfônica, tomando um caminho parecido com de Jackson do Pandeiro. Em João Pessoa, o rei do ritmo tocou em bares e foi contratado para participar da orquestra da rádio Tabajara.

Francisco, que também é multi-instrumentista, relatou que ajudou a criar diversos grupos musicais, incluindo o projeto de forró "Fulô Mimosa", composto por sete mulheres.

No entanto, um dos trabalhos que mais se destaca é a “Sinfonia do Pandeiro”. Defensor da cultura nordestina, o maestro estudou as obras de Jackson e, após um desafio, criou a composição.

“Jackson fez todo tipo de ritmo, ele misturou todo tipo de ritmo, e essas coisas ficaram como o legado para a música nordestina. É uma referência como é para todos os músicos do Brasil e uma boa parte dos músicos do mundo. Jackson do Pandeiro é universal. É um gênio como foi Luiz Gonzaga, são dois gênios de estilos diferentes”, comentou


Melodias que correm nas veias

Assim como na vida do rei do ritmo, gosto de Ian Tales pela música surgiu ainda quando pequeno, devido às influências da família — Foto: TV Cabo Branco/Reprodução


Natural de Picuí, no Brejo paraibano, tal como Jackson que acompanhava a mãe nas rodas de coco, Ian Tales conviveu com a música desde pequeno. As melodias sempre estiveram por perto, por meio do avô, da avó e da mãe, que cantavam, e do tio e da irmã, que participavam de bandas marciais.

“Eu lembro que eu era bem pequeno, tipo uns quatro anos de idade. O primeiro instrumento, que não era instrumento, era um talo de carrapateira, que meu avô tirava e eu dizia que era flauta. Só que eu não chamava de flauta, não sabia que era flauta, chamava de ‘tuiútutu’”, disse.

Aos 16 anos, Ian se mudou para João Pessoa, caminho parecido com o seguido pela família do rei do ritmo ao deixar Alagoa Grande para ir para Campina Grande, em busca de uma vida melhor.

“Desde que eu realmente entendi o gosto pela música, o que eu queria fazer, eu decidi que eu queria me aventurar no mundo e me arriscar como todas as pessoas fazem, em busca de seus objetivos, seus sonhos”, contou.


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Na capital paraibana, o então adolescente decidiu prestar vestibular para o curso de música na Universidade Federal da Paraíba. A paixão pelo clarinete surgiu quando ele encontrou o instrumento no arquivo morto da banda, em meio aos itens que haviam deixados de ser usado por outros.

“Ele era metade de uma marca e metade de outra. Era até de duas cores. Na época, como eu não tinha condições pra comprar um instrumento, como tinha esse lá, eu peguei. Montei o instrumento, não saía nada”, lembrou.

Depois de passar por cinco audições, o instrumentista ingressou na Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba, grupo que ainda integra, com o sonho de que a música seja um meio de transformar a vida das pessoas.


Além do talento, Baixinho do Pandeiro é lembrado pelas semelhanças com o rei do ritmo — Foto: TV Paraíba/Reprodução



Forró em Campina

Em Campina Grande, terra pela qual Jackson do Pandeiro demonstrou um enorme carinho em diversas ocasiões, as influências do artista podem ser observadas em dois fortes nomes da cultura regional: Baixinho do Pandeiro e Biliu de Campina. O depoimento dos músicos sobre Jackson é retratado no curta-documental "Galos de Campina", dirigido por Yago Paolo.

Lembrado pelo talento e pela semelhança física com o rei do ritmo, inclusive a estatura, o amor de Baixinho pelo pandeiro também surgiu quando ele era ainda criança, mas, devido às condições financeiras da família, o artista decidiu montar o próprio instrumento.

Para isso, José Pedro Fernandes utilizou uma lata de goiabada. Natural de Remígio, município do Brejo do estado, o instrumentista começou a carreira em Campina Grande e transformou a brincadeira em profissão.

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Já Biliu de Campina se assemelha a Jackson no estilo de tocar, ao passear pelos diferentes ritmos, especialmente o conhecido como "rojão". Com admiração, o músico lembrou as vezes em que ouviu apresentações do rei do ritmo.


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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

MÚSICA 'SEBASTIANA' NASCE NO IMPROVISO E MARCA CARREIRA DE JACKSON DO PANDEIRO; CONHEÇA




Músicos paraibanos transformaram os ritmos de Jackson em influência para seguir carreira artística.


Por Dani Fechine, G1 PB

27/08/2019 05h52 Atualizado há uma semana


Jackson do Pandeiro, na Paraíba — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco


Faltava um mês para o Carnaval quando “Sebastiana” ganhou o mundo. Ela veio prematura, já que a previsão do seu lançamento era apenas depois da festa mais esperada no Rio de Janeiro. No improviso, o rei do ritmo apresentou a moça para quem quisesse ver e ouvir, durante a estreia da revista “A Pisada é Essa!”. Hoje com 66 anos de história, Jackson do Pandeiro transformou “Sebastiana” em um grande sucesso. A música que marcou a carreira do rei do ritmo fez parte também da vida de músicos paraibanos que têm em Jackson a inspiração e o espelho da música popular brasileira.

Segundo o historiador Fernando Moura, autor do livro "Jackson do Pandeiro - o rei do ritmo", Sebastiana, convidada para dançar e xaxar na Paraíba, é a primeira música de maior sucesso de Jackson. Com composição de Rosil Cavalcanti, a canção envolvente e coreográfica balança corpos desde o dia do seu lançamento. Um coco que não impede de ser dançado como forró. Como tudo que Jackson fez na música, Sebastiana marca a mistura de ritmos protagonizada por ele.

Era lançamento da revista “A Pisada é Essa!”. Jackson, miúdo e de bom humor, vestia terno, chapéu, sapato e cinto brancos. Apenas a gravata dava cor ao seu figurino. Ele mesmo conta. "Tava eu e Zé Pilintra", disse, relembrando uma entidade da umbanda que é representada com vestimentas semelhantes às que o baixinho usava.

Minutos antes da apresentação de Jackson, uma conversa com o produtor da revista, Amarílio Nicéas, mudou tudo. Ele pediu ao cantor que substituísse o repertório já ensaiado por um coco. Jackson, no entanto, havia previsto um samba e uma marcha.

- Você vai cantar aquele negócio que 'cê' canta, aqueles 'coquinho', do tempo da sua mãe - disse Nicéas.

- Você vai me botar pra cantar coquinhos e tal, aqui? Agora que é uma revista de carnaval? Todo mundo vai contar com uma grande orquestra e tá tá tá! e eu com regional, rapaz... - argumentou Jackson.

Não houve argumento. Parece que Nicéas previa o sucesso que Sebastiana traria para o Brasil. Jackson do Pandeiro então não mais rebateu. Passou a música rapidamente com os músicos e ensinou o coro à radioatriz Luiza de Oliveira. "Eu vou cantar isso 'assim, assim, assim'. E a senhora lá, a senhora faz assim: 'a, e, i, o, u, ypsilone', tá?", explicou Jackson.

No momento da música que tinha participação de Luiza, a atriz deu uma "umbigada" em Jackson e a plateia ficou em um misto de aplauso e gargalhada. Jackson não ficou inerte com a brincadeira e entrou no mesmo clima. "Eu digo: 'Deixa ela vim de vorta agora que eu vou lascar ela na umbigada'. De quando ela veio de lá, eu me preparei de cá, bati no pé no chão, castiguei a mulher na umbigada!", conta Jackson.

Jackson do Pandeiro e as irmãs — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco

O momento foi marcante para Jackson. Ele conta que no momento da apresentação lembrou do tempo que via a mãe, Flora Mourão, batendo coco. Naquele instante, o rei do ritmo fazia uma conexão com toda a tradição cultural que foi recebida e partilhada pela família.

“Sebastiana é uma música icônica que traz o DNA da sua mãe, Flora Mourão, com quem aprendeu a cantar o ritmo do coco e também de quem ganhou o instrumento que se tornaria sua marca maior. Acredito que essa ligação de Jackson com a sua origem trouxe uma força grande pra música e fez com que ela se tornasse o seu maior sucesso, ainda na década de 30, o tornando conhecido no Brasil inteiro. Jackson era um cronista da realidade e suas músicas são repletas de histórias e personagens”, declara Arthur Pessoa, vocalista do grupo Cabruêra.

Na mistura de ritmos que criou, Jackson e a umbigada marcaram ali a trajetória artística do cantor. A grande visibilidade e o sucesso repentino do público foram primordiais. Mas o que "Sebastiana" trouxe para a música brasileira, junto à forma com que foi apresentada, está diretamente ligado ao redirecionamento do repertório de Jackson e o restabelecimento da sua identidade cultural. Em apenas uma semana, a revista carnavalesca foi rebatizada como A, E, I, O, U, Ypsilone.

Lucy Alves tem Jackson do Pandeiro como uma grande influência na música brasileira — Foto: Divulgação / Renata Magalhães


'Escola de canto e de músicas'

De acordo com Fernando Moura, a primeira grande regravação de “Sebastiana” foi realizada por Gal Costa, em 1969, com participação de Gilberto Gil na parte mais famosa da letra. A música fez parte do primeiro disco gravado por Gal. A música também já passou pelas vozes de Lenine, Luiz Gonzaga, Luan Estilizado, Genival Lacerda e pelo grupo Clã Brasil.

Com Lucy entre os destaques do grupo composto por pessoas da mesma família, o Clã foi indicado ao Grammy Latino, em 2017, na categoria de melhor álbum de músicas de raízes brasileiras, com um disco exclusivo de regravações de Rosil Cavalcanti, cujas músicas ficaram eternizadas na voz do rei do ritmo. O álbum em cheque era “No Forró do Seu Rosil”, uma grande homenagem a um dos principais compositores de Jackson do Pandeiro.

Lucy Alves, claro, coloca Jackson na bagagem musical e também pessoal. “É uma escola de canto e de música para todos nós”, revela. Ela fez do artista fonte de inspiração e hoje segue os caminhos do rei também na mistura dos ritmos. “Jackson foi muito importante para mim como paraibano, como musicista, pela obra e representatividade dele, tudo que ele criou em cima de ritmo, de músicas e da poesia, atrelado ao instrumento que o tornou rei”, declarou Lucy.

Clã Brasil era composto por mãe, pai e três filhas — Foto: José Hilton/Arquivo Pessoal


Jackson levou para Lucy e para o Clã Brasil a coragem de encarar as músicas rápidas e os trava-línguas. Trouxe presença para um grupo que sabia estar presente por onde passava. “Jackson era muito representativo. Meu avô materno era muito fã, dizia que ele era o maior artista do país. Então ele, junto com Luiz Gonzaga, sempre foram dois ícones que tiveram muitos representantes e estiveram de forma muito direta na minha casa”, relata Lucy.


Jackson e os Afrobatuques

A música de Jackson do Pandeiro ultrapassou gerações. Hoje, os jovens das bandas paraibanas Os Fulano e Cabruêra, se reúnem para homenagear o rei do ritmo com um projeto chamado “Jackson e os Afrobatuques”. Os meninos já fizeram mais de 30 shows desde o início do projeto disparando para várias cidades a música e a memória de Jackson.

Projeto Jackson e os Afrobaduques começou em 2017, na Paraíba, com as bandas Cabruêra e Os Fulano — Foto: Rafael Passos/Arquivo


O projeto nasceu em 2017, em um encontro de Jader Finamore, que toca cavaquinho no grupo Os Fulano, com Arthur Pessoa, vocalista de Cabruêra. “Nós lembramos que dali a dois anos era o centenário de Jackson e pensamos em montar o projeto”, conta Jader. A primeira reunião foi em julho do mesmo ano, a segunda em agosto e, em setembro, o repertório já estava definido.

Para os meninos, a influência que Jackson do Pandeiro trouxe para a Paraíba reflete diretamente nos trabalhos musicais. “De forma geral, a maneira de fazer música de Jackson e a forma de pensar a música nos inspira bastante. Ele pensava a música de forma muito livre. O que ele fazia era samba, mas não era samba, era forró, mas não era forró, era coco, mas não era coco. Ele saía misturando tudo”, comenta Jader. “Essa forma livre que Jackson tem de fazer música nos faz tentar alcançar esse lugar de liberdade na hora de compor ou de produzir”, completa.

Jackson e os Afrobatuques já fez mais de 30 shows desde o início do projeto — Foto: Rafael Passos/Arquivo


A maneira de Jackson fazer as divisões dos ritmos e de misturar a forma como as frases vão ser ditas, dão uma característica única de brincar com o ritmo e as palavras. “Jackson também sempre traz uma alegria pras canções explorando os ritmos brasileiros como o samba, o forró, o coco e o rojão. Então, essa fonte rítmica inesgotável da música brasileira e, em especial, da nordestina, continua sendo um lugar onde todos buscam dessa água 'Jacksoniana'”, relata Arthur.

Para Jader, a própria comemoração do centenário de Jackson comprova sua obra e o seu legado. “Quantas pessoas nasceram há 100 anos e a gente não faz nem ideia? Eu acho que uma pessoa que consegue fazer sua memória durar por 100 anos é um ser muito iluminado, muito especial, é um ser grandioso. É uma obra fincada em uma verdade, em uma cultura, é uma obra que tem raiz, e que cresce, é uma árvore que cresce muito dessa raiz. E a gente está aqui se alimentando e usufruindo da sombra desse grande artista que é Jackson do Pandeiro”, enfatiza Jader.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

JACKSON DO PANDEIRO E ALAGOA GRANDE: REI DO RITMO INFLUENCIA TURISMO E CULTURA NA CIDADE

Memorial homenageia o artista centenário em Alagoa Grande. Isaías Vicente, de 25 anos, começou a interpretar Jackson após uma gincana escolar.

Por Luana Almeida*, G1 PB


Pórtico do Pandeiro, em homenagem a Jackson do Pandeiro, em Alagoa Grande, na Paraíba — Foto: Divulgação/Secretaria de Turismo de Alagoa Grande


A relação de Jackson do Pandeiro com sua cidade natal, Alagoa Grande, no Brejo paraibano, não era das melhores. Foi lá que viveu uma infância humilde, passou fome e perdeu o pai. E de lá saiu, a pé, com a mãe, rumo a Campina Grande. Apesar disso, a cidade ‘louva’ ao rei do ritmo e a história construída por ele.

Para lembrar Jackson, foi construído em 2008 o Memorial Jackson do Pandeiro, no Centro da cidade, uma iniciativa da prefeitura em conjunto com o escritor Fernando Moura e parentes de Jackson, que fizeram doações dos objetos para a exposição permanente no local.

No acervo, muitas peças que contam a história de José Gomes Filho, como fotos, livros, peças do vestuário e instrumentos. Os discos do artista também estão expostos, incluindo o primeiro disco lançado em 1953, doado por um fã de Jackson.

Os restos mortais do artista também estão expostos no Memorial, que recebe atualmente cerca de 1.500 visitantes por semana, segundo a administração municipal. O local é aberto ao público todos os dias e não cobra taxa de visitação.

"O fato de Jackson do Pandeiro ter nascido em Alagoa Grande tem trazido muitos visitantes à sua cidade natal. Com isso, vários segmentos têm se beneficiado desse aumento de turistas", disse o Secretário de Cultura e Turismo da cidade, Marcelo Félix.

Isaías Vicente, de 25 anos, natural de Alagoa Grande, Paraíba, faz apresentações como o cantor Jackson do Pandeiro para eventos e turistas. — Foto: Arquivo Pessoal/Isaías Vicente


Isaías Vicente é ator e, assim como Jackson, nasceu em Alagoa Grande. O jovem teve o primeiro contato com Jackson do Pandeiro por volta dos 10 anos de idade, em uma gincana escolar. Com a imitação, Isaías venceu a gincana.

“Como eu era neguinho, pequenininho e dizia que parecia com Jackson, pela semelhança e também pela 'umbigada' que dei em Sebastiana, eu ganhei o festival”, conta Isaías.

Na época, Isaías não tocava e nem cantava. Após a competição, o jovem só voltaria a interpretar Jackson novamente aos 16 anos, quando se envolveu com a dança de rua e a dança popular e passou a ser convidado por alguns grupos para interpretar Jackson dançando.

Por volta de 2014, já estudando canto, Isaías foi convidado pelo ator e diretor Misael Batista, também alagoa-grandense, a interpretar Jackson no espetáculo “A Ópera do Pandeiro”, que retrata vida, obra e morte do rei do ritmo.

Atualmente, além do papel no espetáculo, Isaías tem o projeto solo intitulado "Momento Jackson" e a banda “Forró Jacksonianos”. No projeto solo, o ator se apresenta também no Memorial, recebendo os turistas que visitam o local.

O tempo da participação pode durar de cinco a dez minutos, mas também pode se estender por cerca de 30 minutos, caso Isaías seja contratado para guiar o grupo no Centro da cidade. É suficiente para viver da arte em uma cidade com pouco mais de 28 mil habitantes.

"Minha fonte de renda hoje é a minha arte, desde 2013. Comecei a desenvolver a arte em 2010, assim iniciante, principiante. Em 2013 eu já comecei a desenvolver pequenas oficinas, pequenos trabalhos", disse.

Para Isaías, Jackson é um gênio. "Eu vejo ele como um gênio da música popular, como um cara inquieto, curioso, no seu jeito de viver e a forma que ele vivia era a forma que ele trabalhava, aquela coisa inquieta... Eu vejo Jackson como um cara inquieto, com uma mente avançada, além do seu tempo. Um cara que demonstrava muita inteligência, vejo como um 'caba' inteligente, gênio da música e sempre carregou a humildade", afirmou.

Isaías Vicente, 25 anos, ganha a vida interpretando Jackson do Pandeiro em Alagoa Grande, na Paraíba — Foto: Arquivo Pessoal/Isaías Vicente

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

GAROTA DE BOTAFOGO (ÁLVARO CASTILHO E DE CASTRO)

domingo, 27 de outubro de 2019

ELIMINAÇÃO DO BRASIL NA COPA DO MUNDO FEZ MÚSICA DE JACKSON DO PANDEIRO FICAR 53 ANOS 'PERDIDA' - PARTE 02

No centenário de Jackson do Pandeiro, colecionador da PB encontrou 'Garota de Botafogo' em um compacto lançado em 1966. Descoberta também muda história de 'Frevo do Tri'.

Por Diogo Almeida, G1 PB



Compacto simples com "Garota de Botafogo", música "perdida" de Jackson do Pandeiro — Foto: Jocelino Tomaz/Acervo pessoal



Identificação do ano de lançamento

O disco que contém “Garota de Botafogo” é no formato compacto simples, de 33 ⅓ rotações por minuto (RPM), com duas faixas, sendo uma de cada lado. No lado A, está a faixa “Frevo do Tri”, também de Jackson. Já a composição ‘perdida’ aparece no lado B. O vinil contém o selo fonográfico da Continental, da então gravadora Gravações Elétricas S.A., porém não há nenhuma marca indicando o ano de gravação.

“De cara, duas coisas me chamaram a atenção para a possível data de lançamento do disco. Uma foi o design do selo fonográfico e do número de série do compacto, que pelas características azuis e brancas o colocaria entre os lançamentos de 1966; e outra foi o fato de que Jackson só passou um ano nessa gravadora”, explica o pesquisador de forró e vinil Érico Sátiro, para quem Jocelino mostrou o material.

Capa do LP "O Cabra da Peste" (1966), de Jackson do Pandeiro — Foto: Reprodução


“Garota de Botafogo” foi escrita por Álvaro Castilho e por De Castro. A mesma dupla é responsável por “Capoeira Mata Um”, música que abre o álbum “O Cabra da Peste”, lançado em 1966 e o único LP de Jackson do Pandeiro pelo selo Continental.

“Somente uma coisa não batia com a probabilidade do disco ter sido lançado em 1966. O fato de que o lado A do disco descoberto por Jocelino ter a música ‘Frevo do Tri’, que aparece em todos os registros da discografia de Jackson como sendo lançada no ano de 1970, após a Copa do Mundo conquistada pelo Brasil, em um compacto simples que tem ‘O Caneco é Nosso’, do Coral 70, como lado B”, diz Érico.

Duas hipóteses foram levantadas por Érico e Jocelino. Ou o disco “Frevo do Tri/Garota de Botafogo” foi lançado em 1970 como uma versão alternativa a “Frevo do Tri/O Caneco é Nosso” ou ele saiu em 1966, no ano em que o Brasil perdeu a copa. O que colocaria a faixa “Frevo do Tri” como tendo sido escrita quatro anos antes da conquista da Taça Jules Rimet pela terceira vez.

Uma vez que nenhuma biografia continha a música “Garota de Botafogo” e que todos os registros de “Frevo do Tri” eram datados de 1970, o pesquisador precisou fazer uma busca mais extensa em arquivos de jornais e até mesmo conversou com um dos diretores da gravadora na época.

Jackson do Pandeiro — Foto: Reprodução



Amarga derrota e vendas fracassadas


A Seleção Brasileira de Futebol, como defensora do título de 1962, se classificou automaticamente para a Copa do Mundo FIFA de 1966, sediada na Inglaterra. Mesmo entrando como favorita e com Pelé e Garrincha na escalação, o time comandado por Vicente Feola não teve um bom desempenho na competição.

Ainda na fase de grupos, a seleção venceu a Bulgária por 2 a 0, mas perdeu para a Hungria por 3 a 1 e foi eliminada após uma nova derrota, também de 3 a 1, em um jogo contra Portugal, em 19 de julho de 1966. O Brasil acumulou apenas dois pontos e ficou em 11º na classificação final, frustrando o sonho do tricampeonato.
Comemoração do segundo gol de Eusébio no jogo em que Portugal venceu por 3 a 1 e eliminou a Seleção Brasileira da Copa do Mundo FIFA de 1966, na Inglaterra — Foto: Reprodução/Globoesporte.com



Um artigo publicado no Jornal do Brasil no dia 20 de julho de 1966, o dia seguinte à amarga derrota para Portugal, mostrou a repercussão da eliminação da seleção com os torcedores e também com os lojistas.

"Várias agências de publicidade já estão cancelando anúncios com base no clima da Copa do Mundo, as gravadoras suspenderam a prensagem de discos sôbre os jogos do Brasil e o comércio não sabe o que fazer com mais de vinte mil canarinhos tri, de plástico, estocados para venda na fase final da campanha em Londres", diz o texto de uma reportagem de repercussão da partida intitulada "Paulistas sofrem e pensam numa crise", diz o texto.

Em outro trecho, com um intertítulo de "A Mudança", o jornal repercute o que poderia acontecer com as gravadoras, em particular. O texto erroneamente cita "Trevo do Tri", ao invés de "Frevo do Tri".

"A indústria de discos deverá ser bastante afetada pelo fracasso da seleção brasileira. A Continental havia planejado um grande lançamento para o disco Trevo do Tri, de Jackson do Pandeiro. A RCA Victor preparou duas fitas sôbre os jogos do Brasil para gravação em long-play e a RGE já tinha capa pronta para um disco sôbre o tricampeonato", relata o artigo.

Recorte de artigo de repercussão da derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1966 publicado no Jornal do Brasil em 20 de julho de 1966 — Foto: Reprodução/Jornal do Brasil


Com essas informações, Érico Sátiro encontrou a resposta para uma das perguntas. “Frevo do Tri” definitivamente havia sido planejada e escrita para o ano de 1966. Mas ainda faltava saber se ela chegou a ser lançada no ano da derrota ou só em 1970, com outro lado B que não “Garota de Botafogo”.

“Tudo ficou esclarecido depois que consegui conversar, por e-mail, com Biaggio ‘Braz’ Baccarin, que foi diretor artístico do selo Chantecler, que também era da Gravações Elétricas S.A., assim como a Continental”, explica Érico.

O diretor confirmou que o disco chegou a ser comercializado, mesmo com a derrota do Brasil, pois havia a música “Garota de Botafogo” para ser explorada. Porém, como especulou o Jornal do Brasil, a eliminação da Seleção Brasileira fez com que o público perdesse o interesse por qualquer coisa relacionada à Copa do Mundo naquele ano e o disco foi um fracasso de vendas.

Conforme Braz Baccarin explicou ao pesquisador, por causa das baixas vendas, os discos encalhados foram recolhidos e a gravação foi retirada do catálogo da gravadora, tendo apenas um lote sendo colocado à venda. “Esse é o motivo dessa raridade do disco”, pontua o ex-diretor no e-mail.

Jocelino Tomaz segura disco que contém "Garota de Botafogo", música "perdida" de Jackson do Pandeiro — Foto: Jocelino Tomaz/Acervo pessoal

“Fiquei feliz em fazer a descoberta justamente no ano do centenário. Não só é a divulgação de uma música que há mais de 50 anos ficou esquecida do público, como também a pesquisa sobre ela mudou o curso da história da composição ‘Frevo do Tri’. Com certeza é algo para se comemorar”, completa o colecionador - e agora dono de uma raridade - Jocelino Tomaz.

A Continental relançou “Frevo do Tri” com a enfim conquista da taça em 1970, no México. Antes disso, em 1967, Jackson do Pandeiro ainda deixou registrada a revolta com o resultado da Copa do Mundo de 1966 criticando a vitória da Inglaterra na música “A Taça Era Dela”, a última do disco “A Brasa do Norte”. Ouça a música "Garota de Botafogo" na íntegra no vídeo abaixo.


Letra de “Garota de Botafogo”
Composição: Álvaro Castilho e De Castro
Intérprete: Jackson do Pandeiro

Lá em Botafogo tem uma garota
Que tá quase louca só fala em casar
E só namora no canto do muro
Num lugar escuro pra ninguém olhar

Gosta de cinema, rádio e futebol
Na roda do samba ela é a maior
Sai acompanhada mas só volta só
Diz que tem 20 anos e não é de menor

JPB1 mostra legado deixado por Jackson do Pandeiro
JPB 1ª Edição

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sábado, 26 de outubro de 2019

ELIMINAÇÃO DO BRASIL NA COPA DO MUNDO FEZ MÚSICA DE JACKSON DO PANDEIRO FICAR 53 ANOS 'PERDIDA' - PARTE 01

No centenário de Jackson do Pandeiro, colecionador da PB encontrou 'Garota de Botafogo' em um compacto lançado em 1966. Descoberta também muda história de 'Frevo do Tri'.

Por Diogo Almeida, G1 PB


Compacto simples com "Garota de Botafogo", música "perdida" de Jackson do Pandeiro — Foto: Jocelino Tomaz/Acervo pessoal

Quando a Seleção Brasileira foi campeã da Copa do Mundo pela segunda vez consecutiva, em 1962, o cantor e compositor paraibano Jackson do Pandeiro não perdeu tempo em homenagear os vencedores e lançou “Frevo do Bi”. Quatro anos depois, esperando o mesmo desempenho, o artista já preparava uma homenagem, mas a eliminação da competição na Inglaterra não só postergou o tricampeonato, como fez com que uma outra música, sem relação com o futebol, ficasse 53 anos “perdida”.

A descoberta da existência da música “Garota de Botafogo” coincidentemente aconteceu em 2019, ano em que se comemora o centenário de Jackson do Pandeiro. Jocelino Tomaz de Lima é um colecionador e pesquisador de Jackson que mora em Caiçara, a 130 quilômetros de João Pessoa. Ele preparava uma exposição itinerante do acervo dele e buscava adquirir outro disco quando fez o achado da música.

“Um dos discos que faltava na minha coleção era exatamente o primeiro registro da voz de Jackson gravado, o compacto simples de 1953 com ‘Forró do Limoeiro’ e ‘Sebastiana’. Em julho deste ano, achei o compacto à venda pela internet com um vendedor de Porto Ferreira, no interior de São Paulo, e consegui fazer a compra com ele”, explica Jocelino.

Parte do acervo de Jocelino Tomaz com obras de Jackson do Pandeiro — Foto: Jocelino Tomaz/Acervo pessoal


Miguel Bragioni, dono de uma coleção de vinis com mais de 120 mil unidades no acervo, contou que depois de finalizar a venda, mostrou para Jocelino outros discos de Jackson que estavam à venda, porém sem anúncio na internet. De cara, o colecionador paraibano compreendeu que estava diante de algo incomum.

“Quando me deparei com o disco com esse nome, ‘Garota de Botafogo’, estranhei logo de cara. Eu não sei 'de cor' os nomes das mais de 430 músicas de Jackson, mas como esse nome lembra o clássico ‘Garota de Ipanema’, seria fácil de se recordar a existência desta composição no repertório de Jackson”, conta Tomaz.

Para se certificar de que a canção realmente era uma música ‘perdida’ de Jackson, Jocelino buscou fontes bibliográficas sobre a história e a obra do cantor paraibano. Além da internet, o colecionador buscou informações sobre “Garota de Botafogo” no livro “A Musicalidade de Jackson do Pandeiro”, de Inaldo Soares, e em “Jackson do Pandeiro: o rei do ritmo”, de Antônio Vicente e Fernando Moura. Em todo lugar, Jocelino só encontrou a mesma resposta: nenhuma citação sobre a música.

“Pedi para o vendedor me mandar um áudio com a música e não só eu como também os autores Inaldo Soares e Fernando Moura confirmamos que era, de fato, a voz de Jackson e uma música ‘inédita’. Não perdi tempo, comprei o disco e assim tivemos acesso a uma canção esquecida por 53 anos”, comenta Jocelino Tomaz.

Miguel Bragioni Lima Coelho, colecionador de Porto Ferreira (SP) que vendeu o compacto "Frevo do Tri/Garota de Botafogo" para Jocelino Tomaz. — Foto: Miguel Bragioni/Acervo pessoal


A descoberta foi feita no ano do centenário, mas poderia ter acontecido há uma década. “Eu comprei esse compacto em um sebo de Ribeirão Preto, há uns 10 anos. Sempre fui ‘garimpeiro’ - identificava um disco que não tinha no acervo e, estando com o valor acessível, comprava. Eu sabia que esse compacto de Jackson era incomum e comprei”, comenta Miguel Bragioni, que repassou o bolachão para o colecionador paraibano por R$ 90.

A primeira exibição pública da faixa na Paraíba foi no dia 25 de julho de 2019, durante a programação de abertura do Festival de Artes Jackson do Pandeiro, em João Pessoa. Na mesma ocasião, Jocelino lançou o folheto “100 fatos dos 100 anos de Jackson do Pandeiro”. Veja a letra da música no final da reportagem.

Capa do compacto simples "Frevo do Tri/Garota de Botafogo" (1966), de Jackson do Pandeiro — Foto: Jocelino Tomaz/Acervo pessoal

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