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sexta-feira, 13 de abril de 2018

CAPIBA: 60 ANOS DO GRAFICAMENTE DESASTRADO, MAS ANTOLÓGICO LP SEDUÇÃO DO NORTE

Por José Teles



Os 20 anos da morte de Lourenço da Fonseca Barbosa, Capiba não passaram em branco apenas pelas autoridades culturais competentes do estado de Pernambuco. Passaram quase em branco pela imprensa. Insistindo em lembrar Capiba, encarco na tela da memória, e trago lá do fundo do baú, um disco que está inteirando 60 anos em 2018: Sedução do Norte, que foi relançado duas vezes com capas e título diferentes (a gravadora é a RGE), Sedução do Norte, Sedução do Norte – músicas de Capiba, e Sedução do Norte – Guerra Peixe e Orquestra RGE.

Um disco que comprova o descaso que se tinha (e ainda se tem), pela arte que não criada no Sudeste. As três capas só comungam entre si a visão estereotipada que sem tem do Brasil fora do Rio ou São Paulo. A primeira estampa uma moça de joelhos, com um violão cobrindo-lhe o maiô (ou biquíni), para aparentar que estivesse sem roupas. Está cercada por plantas tropicais. O título mais confunde, apenas Sedução do Norte (Norte e Nordeste são tudo a mesma coisa para o “sulista”).

Capiba contou em sua autobiografia (O livro das ocorrências, Fundarpe, 1988. Por que a CEPE não o relança?) que assim que soube, por Guerra Peixe, do disco, não gostou do título, e sugeriu, entre outros, Recife, cidade lendária. Não adiantou. Chegou a ir a São Paulo conversar com José Scatena, o chefão da RGE, para mudar também a capa.

Só mudaram numa segunda edição, colocando uma foto de uma praia deserta e idílica, que poderia estar em qualquer litoral do Nordeste (até do país). E ainda esqueceram completamente o grupo Os Titulares do Ritmo, um dos mais populares do país na época, que interpreta as canções. Mas pelo menos a segunda edição tem na contracapa um longo texto do maestro Guerra Peixe.



Pior foi a terceira edição, saída em 1978. Certamente ninguém na RGE tinha ideia de quem fosse Capiba, e nem sequer deram-se ao trabalho de escutara o conteúdo do disco. A capa traz chapéu de couro de cangaceiro, cartucheira, cinturão de balas, punhal, e peixeira. Pior. Esqueceram-se dos nomes do autor das músicas e novamente de Os Titulares do ritmo. Talvez a capa seja uma homenagem a Lampião e seus cangaceiros, no aniversário dos 50 anos da batalha de Angicos, onde o banco foi dizimado.


DISCO

Apesar dos percalços é o disco que melhor apresenta a diversidade de Capiba na música popular. Traz quatro dos seus poucos conhecidos maracatus-canção (Vira a moenda, É de tororó – com Ascenço Ferreira – Eh Luanda, e Nação Nagô), a trilogia Recife, cidade lendária, Olinda, cidade eterna, e Igarassu, cidade do passado. E mais, Por que você não me quer? A uma dama transitória (com Ariano Suassuna), Valsa verde, e o único frevo de rua de Capiba gravado, Um Pernambuco no Rio (composto para o clube Vassourinhas, quando este fez a célebre, e desastrada, viagem ao Rio, em 1951).

Um descaso Sedução do Norte continuar há 40 anos fora de catálogo, até porque quem está à frente do projeto é um dos grandes autores eruditos do país, que também incursionava pelo popular com toda destreza, e faz aqui uma curiosa homenagem a um ex-aluno seu. Capiba estudou com César Guerra-Peixe, no início dos anos 50, quando o maestro morou no Recife, trabalhando para a Rádio Jornal do Commercio. Foi demitido por ser comunista, mas aí é outra história.

Confiram Um Pernambuco no Rio, único frevo de rua de Capiba gravado.

sexta-feira, 28 de março de 2014

GUERRA PEIXE, 100 ANOS

Se vivo estivesse o compositor, arranjador e musicólogo estaria completando um século de existência



Aos sete anos de idade já tocava violão. Com nove anos de idade começou seus estudos musicais com teoria e solfejo junto ao professor Paulo Carneiro. Em 1925 ingressou na Escola de Música Santa Cecília em Petrópolis, onde foi aluno de piano da professora Adelaide Carneiro e posteriormente de Elfrida Strattman. Nos anos seguintes, dedicou-se aos estudos de violino, sua verdadeira vocação. De 1925 até 1930, estudou violino com o professor, theco Gao Omacht. Em 1926, foi premiado com com a medalha de ouro da Associação de Ciências e Letras de Petrópolis, devido ao seu aproveitamento nos estudos. Em 1929 encerrou o curso de teoria e solfejo com o professor Deoclécio Damasceno de Freitas. No mesmo ano passou a lecionar violino como professor assistente da Escola de Música Santa Cecília. No início da década de 30 costumava ir semanalmente ao Rio de Janeiro assistir aulas particulares com a professora Paulina d'Ambrósio. Em 1932 matriculou-se no Instituto Nacional de Música no Rio de Janeiro, onde teve aulas de harmonia com o professor Arnaud Gouveia e conjunto de câmara com Orlando Frederico. Em 1934 mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro. Entre 1938 e 1943, estudou contraponto, fuga, composição e instrumentação com Newton Pádua. Em 1941 ingressou no Conservatório Brasileiro de Música, sendo o primeiro aluno a concluir o curso de composição. A partir de 1944, passou a freqüntar o curso particular de Hans Joaquim Koellreutter, onde estudou a técnica dodecafônica da escola de Viena, princípios de música serial, análise, estética e harmonia acústica, escola que depois repudiaria.



Em 1929 começou a lecionar como professor assistente de violino na Escola de Música Santa Cecília e a tocar no Cine Glória. Começou também nesse período a fazer orquestrações para diversos instrumentos, mostrando seus arranjos para o mestre de banda Firmino Borrajo, que o incentivou. Em 1930, aos 16 anos, escreveu sua primeira composição, o tango "Otília", nome de sua primeira namorada. 

Em 1941, a dupla Jararaca e Ratinho gravou duas composições de sua autoria: a marcha "Levanta o pé", com Felisberto Martins e o samba "Me leva, baiana", com Jararaca, pela Odeon. Em 1942, a mesma dupla gravou a marcha "Ora bolas", parceria com Jararaca e Norah e, Silvio Caldas gravou na Victor a marcha "Fibra de heróis", parceria com Teófilo de Barros Filho. Em 1944, teve uma sinfonia composta durante o curso de composição no conservatório apresentada na Rádio Tupi. Nesse período passou a dedicar-se cada vez mais à orquestração e a especializar-se em música popular. 

Em 1945, tornou-se filiado do grupo Música Viva, que foi responsável pela divulgação, através da Rádio MEC, de suas primeiras composições. Em 1946 teve sua "Sinfonia nº 1", obra dodecafônica, divulgada pela BBC de Londres, com regência do maestro Maurice Milles. Posteriormente, foi tocada na Rádio de Bruxelas no Festival Internacional de Música Jovem sob a regência de André Joinin. Em 1947, o maestro Maurice Milles tocou em primeira audição seu "Divertimento nº 2". Em 1948, teve seu "noneto" tocado pela primeira vez na Rádio Zurique na Suíça com regência do maestro alemão Hermann Scherchen, que o convidou a residir por dois anos em sua casa em Zurique para estudar regência. Recusou o convite e foi para Pernambuco onde assinou contrato com uma rádio do Recife. Durante três anos desenvolveu intensa atividade de pesquisa sobre o folclore, recolhendo material sobre maracatus, xangôs e catimbós em diferentes cidades pernambucanas. 

Em 1950, ganhou o 1° prêmio do concurso de composições patrocinado pela Prefeitura do Recife em comemoração ao primeiro centenário do Teatro Santa Isabel. Sua "Abertura solene" recebeu o prêmio por unanimidade do júri. Em 1951, em concurso do Museu de Arte Moderna de São Paulo, ganhou uma bolsa para o III Curso Internacional de Férias de Teresópolis no Rio de Janeiro, com a composição "Sonata para violino e piano". No mesmo ano compôs a trilha sonora do filme "Terra é sempre terra" de Tom Payne. Em 1952, escreveu uma série de artigos para o suplemento literário do Diário de Pernambuco com o título de "Um século de música no Recife", fazendo um apanhado da vida musical da cidade. Em 1953, passou a morar em São Paulo. Na ocasião, fez a trilha sonora do filme "Canto do mar", de Alberto Cavalcânti, pela qual recebeu inúmeros prêmios no Rio e em São Paulo. No mesmo ano, teve "O canto do mar" e a canção "Maria do mar", parcerias com José Maria de Vasconcelos, gravadas por Inesita Barroso na RCA. 

Em 1954, fez a trilha sonora para o filme "O craque", de José Carlos Burle. Na ocasião começou a freqüentar o curso de folclore musical do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade. Prosseguiu na coleta de temas populares visitando inúmeras cidades paulistas como Taubaté, Pindamonhangaba, Tauí, Carapicuíba e São José do Rio Pardo. Recolheu jongos, sambas, cateretês, cururus, folias-de-reis, modas-de-viola e congadas. No mesmo ano passou a escrever artigos sobre folclore brasileiro e música popular nos jornais "Tempo" e "A Gazeta". Em 1955, teve a "Suíte sinfônica nº 1" apresentada em primeira audição em São Paulo pelo maestro Edoardo de Guarnieri. Esta composição foi depois apresentada em Moscou, Leningrado, Odessa, Lvov e Kiev, na ex-União Soviética. No mesmo ano, gravou com um grupo intitulado de Seu Batuque, pela Copacabana, as "Jornadas da Lapinha nº 1 e 2", com arranjos de sua autoria sobre motivos populares. No mesmo ano, a cantora Leny Eversong gravou na Copacabana a toada "Nego bola-sete" e o ponto "Mamãe-Iemanjá". 



Em 1956, publicou em São Paulo o livro "Maracatus do Recife". Em 1958, no concurso de composições da Ricordi Brasileira, recebeu o primeiro prêmio pela composição "Suíte nº 2 - nordestina", para piano, e ganhou duas menções honrosas, para o "Trio nº2", para sopros e, com a "Sonatina nº1", para piano. No mesmo ano a cantora Maricene Costa gravou na RGE o samba canção "O amor nasce no olhar", parceria com Jair Amorim. Em 1959, foi nomeado chefe do setor musical da Comissão Paulista de Folclore. No mesmo Vilma Bentivegna gravou na Odeon o samba-canção "Vontade de enlouquecer", parceria com Odair Marzano e, José Orlando gravou na Chantecler o samba "Cortesia". Ainda em 1959 gravou de sua autoria e acompanhado de seus músicos a marcha frevo "Chora na rampa" pela Chantecler. 

Em 1960, classificou-se em segundo lugar no concurso promovido pela Rádio MEC do Rio de Janeiro, com "Trio", para piano, violino e celo. No mesmo ano Cláudio de Barros gravou pela Chantecler o bolero "Cartas recebidas", Vitor Rafael, pela RCA, o samba "É você que tem" e Fausto Casanova, pela Chantecler, o samba-canção "Amar assim não sei", parceria com Mário Lino. Ainda em 1960, gravou com sua Orquestra e Coro pela Chantecler a marcha "Cidade Maravilhosa", de André Filho e o samba "Menina-moça", de Luiz Antônio. Em 1961, no mesmo concurso da Rádio MEC, sua "Sinfonia nº 2" dividiu o 1° lugar com as de Cláudio Santoro e Guerra Vicente. No mesmo ano gravou com seus músicos o frevo "Vassourinhas", de Matias da Rocha e, Joana Batista Ramos. Ainda em 1961, Iza Reis gravou o samba-canção "É melhor não voltar" e José Tobias o samba "Se você voltasse", ambos pela Chantecler. 

Em 1962, transferiu-se para o Rio de Janeiro e no mesmo ano gravou com sua Orquestra e Coro, pela Chantecler, as marchas de bloco "Escuta, Levino" de João Santiago e "Quarta-feira de cinzas", de Geraldo Costa. No mesmo ano, Jane Simone gravou pela Continental o samba "Brincando de amar", parceria com Célio Moreira. Em 1963, passou a fazer parte da Orquestra Sinfônica da Rádio MEC como violonista ao mesmo tempo em que lecionava nos seminários de música da Pró-Arte. Nesse período gravou pela Chantecler o LP "Sambas clássicos", no qual com seus músicos, registrou entre outros clássicos "Ai que saudades da Amélia", de Ataulfo Alves, "Foi ela", de Ary Barroso, "Pelo telefone", de Donga e "Até amanhã", de Noel Rosa. 

Em 1965, foi um dos maestros arranjadores do espetáculo "Vinícius: poesia e canção", realizado no Teatro Municipal de São Paulo em homenagem a Vinícius de Moraes, no qual fez a abertura. Em 1968, a convite de R. C. Albin, diretor do MIS, passou a coordenar a Escola Brasileira de Música Popular, com várias cadeiras, inclusive violão, flauta e piano, além de matéria teórica, como contraponto, harmonia, etc. Também no MIS, foi membro dos Conselhos de Música Popular e de Música Erudita. 

A partir de 1970, passou a apresentar-se como violinista, regente e compositor em diversos concertos pelo país, sempre procurando selecionar um repertório dedicado a autores nacionais. Destacou-se como professor tendo diversos alunos que alcançaram renome no Brasil e no exterior entre os quais Jorge Antunes, José Maria Neves, Guilherme Bauer, Maria Aparecida Antonello Ferreira, Clóvis Pereira, Murilo Tertuliano dos Santos, Ernâni Aguiar, Antônio Guerrero, Paulo Moura, Airton Barbosa, Antônio Jardim, Carlos Cruz. Também teve como alunos diversos arranjadores e compositores populares tais como Chiquinho Morais, Capiba, Sivuca, Rildo Hora, Baden Powell, Formiga, Juca Chaves e Roberto Menescal. Lecionou harmonia, composição, orquestração, contraponto e fuga em diversos estados brasileiros. 

Entre os anos de 1972 e 1980 foi professor do Centro de Estudos Musicais do Rio de Janeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de São Paulo. Foi também professor da UFRJ, da Pró-Arte e da Escola Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Em 1978 gravou pela RGE Fermata o LP "Sedução do norte", todo com composições do compositor pernambucano Capiba, entre as quais "Recife, cidade lendária", "Um pernambucano no Rio" e "A uma dama transitória". Ao final dos anos 1970, desenvolveu o projeto de arranjos sinfônicos para song-books dos grandes compositores populares, dos quais se destacaram os elepês de Luiz Gonzaga e Tom Jobim, editados pela Copacabana Discos. 



Em 1982, recebeu a Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco. Em 1984 recebeu a Medalha Koeler da Câmara Municipal de Petrópolis. Em 1986, recebeu o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra. Recebeu por três vezes o Prêmio Golfinho de Ouro do MIS do Rio de Janeiro. Foi assíduo colaborador da "Revista Brasileira de Folclore". Em 1993, recebeu o título de Maior Compositor Brasileiro Vivo. Compôs dezenas de obras clássicas gravadas por inúmeras orquestras no Brasil e no exterior. Em 2010, sua obra passou por um processo de redescoberta com o lançamento de três CDs dedicados à suas composições. O primeiro CD foi "Tributo à Guerra-Peixe". O segundo CD foi gravado no Paraná pela orquestra de câmara solistas de Londrina intitulado "Retratos brasileiros". O terceiro CD foi gravado pela pianista Ruth Serra intitulado "O piano de Guerra-Peixe". Além disso, suas partituras manuscritas estão sendo editoradas com patrocínio do Sesc. Ainda em 2009/2010, o produtor Ricardo Cravo Albin apresentou na Rádio MEC AM/FM uma série de oito programas de uma hora cada um perfilando toda sua obra fonográfica para a radiodifusora.


Fonte: Dicionario da MPB

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

GUERRA PEIXE E OS MARACATUS NO RECIFE: TRÂNSITO ENTRE GÊNEROS MUSICAIS (1930–1950) - PARTE 02

Pela passagem dos 20 anos de morte do maestro, o Musicaria Brasil publica, em partes, o artigo escrito pela Doutora Isabel Cristina Martins Guillen* que aborda sobre a sua relação com os maracatus de Recife



RESUMO
Este artigo discute as relações culturais construídas em torno dos maracatus nas décadas de 1930 a 1950 na cidade do Recife, principalmente os trânsitos que a música promoveu entre compositores eruditos, artistas populares e grupos considerados folclóricos. Seu objetivo é demonstrar que nesses trânsitos as ressignificações culturais são amplas e complexas, e seu entendimento pressupõe a reconstituição das redes sociais e culturais em que se deram.


PALAVRAS-CHAVE: maracatus; Guerra Peixe; Recife

(continuação...)


Rompendo amarras, caindo no batuque dos maracatus: Guerra Peixe no Recife

Guerra Peixe esteve no Recife pela primeira vez em julho de 1949, quando teve a oportunidade de ver uma apresentação do maracatu-nação Elefante, de Dona Santa. Em crise com o movimento dodecafônico, o maestro aceitou a tarefa de conduzir a orquestra da Rádio Jornal do Commercio, recém-inaugurada. Já acumulava experiência como arranjador, tendo trabalhado nos estúdios da indústria fonográfica, fazendo arranjos para Aurora Miranda, Marília Batista e Francisco Alves. Para Nepomuceno, “os estúdios foram uma grande escola para ele, que se transformaria num dos maiores arranjadores da música popular brasileira. E música já era território sem fronteiras para Guerra Peixe, que compôs até marchinhas em parceria com o caipira nordestino Jararaca, o genial alagoano parceiro de Ratinho”.

Em 1948, Guerra Peixe apresentava no Rio de Janeiro um programa de rádio que se chamava “Ritmos cruzados” e que levaria para o Recife no ano seguinte. O rádio viria a se constituir num espaço relevante para a “expansão de sua inventiva personalidade”. Nesse programa, Guerra Peixe “brincava com gêneros e ritmos: apresentava sucessos populares com arranjos eruditos, e transportava peças clássicas, como uma de Beethovem, para o ritmo de samba”.

O trabalho na Rádio Jornal do Commercio o colocou em contato com os músicos recifenses, ao mesmo tempo em que lhe deu chances de fazer as recolhas de música popular. Atuava em diversos programas de auditório, a exemplo de “Harmonia Nitroquímica” ou de “Mil, três mil, cinco mil”. Ao lado de Teófilo Barros, Sebastião Lopes e outros músicos, compositores e cantores, Guerra Peixe era responsável pelos arranjos e “efeitos  orquestrais” da programação da emissora31. Seu grande programa, no entanto, foi o “Jardim de Melodias”, em que oferecia aos ouvintes “as mais belas páginas da música brasileira, notadamente as recolhidas por Guerra Peixe em motivos folclóricos”.

Ao mesmo tempo, Guerra Peixe não ficou improdutivo em termos de composição. Em 1950, ganhou o 1° prêmio do concurso de composições patrocinado pela Prefeitura do Recife em comemoração ao centenário do Teatro Santa Isabel, acontecimento abundantemente discutido nos jornais do Recife. Sua Abertura solene recebeu, por unanimidade, o primeiro prêmio do júri, e o segundo colocado foi Capiba. Em 1951, em concurso do Museu de Arte Moderna de São Paulo, obteve uma bolsa para o III Curso Internacional de Férias de Teresópolis, no Rio de Janeiro, com Sonata para violino e piano. No mesmo ano compôs a trilha sonora do filme Terra é sempre terra, de Tom Payne. Também comporia, em 1953, já morando em São Paulo, a trilha sonora do filme Canto do mar, de Alberto Cavalcanti. Em 1952, escreveu uma série de artigos para o suplemento literário do Diário de Pernambuco com o título de “Um século de música no Recife”, fazendo um apanhado da vida musical da cidade no século XIX. Morando no Recife, teve a oportunidade de conhecer Câmara Cascudo, com quem trocou idéias, sendo por ele incentivado a publicar um livro sobre as recolhas que fazia. Recebeu também visita de Renato Almeida, com o qual conversava sobre o desenvolvimento das pesquisas. Ao relembrar esses anos vividos no Recife, Guerra Peixe comenta:

Três anos de muita pesquisa e muito trabalho, não foi de passeio. Eu estava completamente por fora dos meios musicais. Era só rádio e dali xangô, maracatu, etc. Levei 40 dias para entender os toques característicos dos tradicionais maracatus. Nenhum músico profissional no Recife conhecia aqueles toques. Só depois que fui para lá é que passou a ser questão de honra para os bateristas saberem tocar o ritmo dos maracatus. Antes, ninguém dava bola. Um toque de xangô levei 60 dias para aprender. E só aprendi por causa do sábio conselho do preto velho que tocava: “Se ficar olhando para minha mão, o senhor não vai aprender nunca.”

E quanto aos maracatus? Em 1952, escreveu a Vasco Mariz a respeito dos maracatus de Capiba:

Quanto aos maracatus do Capiba devo dizer o seguinte: conheço-os todos. Como canções são muito bonitinhos e inspirados. Capiba arranjou um ritmo qualquer para cada um deles. Mas de maracatu eles não têm é nada. Aliás, o maracatu autêntico, o que veio dos negros bantus — de Angola ou do Congo —, é coisa completamente diferente. Quem julgar que esses maracatus do Capiba têm alguma coisa a ver com a dança, verificará o tremendo engano. O maracatu autêntico (com o ritmo autêntico, digo) nunca foi dançado nos salões de baile e nem as orquestras faziam o seu verdadeiro ritmo. Agora, apesar de não ser mais executado em bailes, é que as orquestras começam a [fazê-lo] um pouco, depois que eu consegui escrevê-lo para a rádio. Diziam que o ritmo era muito difícil, e que a orquestra não o tocaria. Eu, porém, acabei com essa lenda e os poucos que escrevi são executados com extraordinário sucesso. [...] Acrescente-se: o próprio Capiba parece ter reconhecido seu erro. Tanto que desde que as orquestras da rádio começaram a executar o maracatu no seu toque autêntico, ele, o Capiba, nunca mais escreveu outro maracatu. E levei meses até conseguir grafar o ritmo dos zabumbas, que é, sem nenhum exagero, aquilo que eu escrevi no artigo que mandei para você: O zabumba no maracatu A carta aponta para muitas questões que precisam ser mais bem discutidas e analisadas. No entanto, fica muito claro que, para o maestro, a transposição do maracatu tradicional para a música orquestrada de Capiba guardava uma enorme distância do “maracatu autêntico”, que só poderia ser rompida quando se levasse a sério a análise da música folclórica. No final da carta, refere-se ao primeiro trabalho que publicou sobre a música dos maracatus, no Diário de Pernambuco. Esse artigo traz uma análise preliminar, destacando em especial a atuação dos bombos (ou zabumba, como prefere Guerra Peixe). Ela seria retomada como ponto de partida para o livro Maracatus do Recife, publicado em 1955. O maestro salienta que a primeira impressão ao ouvir o Maracatu Elefante era a de que “os tocadores de zabumba articulavam seus baques sem nenhuma obediência a qualquer disciplina rítmica”. Tal impressão devia-se à própria concepção de harmonia rítmica que ele como músico tinha e que se chocava com a produzida pelos maracatus. Para Guerra Peixe, essa diferença radical provinha “da orientação que cada representante de grupos sociais diferentes recebe no desenvolvimento de suas aptidões e necessidades espirituais”. Na concepção ocidental, aos instrumentos de tonalidade grave cabe uma função rítmica mais básica, o que não ocorre nos maracatus: “os baques são articulados fora daqueles momentos em que o sentimento rítmico do homem comumente encontra referência para medir o tempo”. Nesse sentido, “o maracatu tem uma batucada que desnorteia o mais experimentado ouvido que o escuta pela primeira vez.” É notório que a estadia de Guerra Peixe no Recife foi decisiva para sua carreira a partir desse período. Em Maracatus do Recife, ele afirma:

Em junho de 1949 visitamos o Recife pela primeira vez. Influenciados pela leitura de trabalhos publicados sobre o maracatu (cortejo), aproveitamos a ocasião para, naquela cidade, compor um maracatu (música) a fim de integrar uma “suíte” para quarteto ou orquestra de cordas. Dias depois tivemos a oportunidade de assistir, mais ou menos como turista, a uma exibição especial do Maracatu Elefante, e a desilusão sobrevinda é absolutamente indescritível... Apesar da mencionada obra haver obtido o aplauso de pessoas bem intencionadas nos problemas estéticos da música brasileira, não podemos deixar de denunciar, agora, o distanciamento que separa a peça musical da fonte. Posteriormente estudados os grupos populares do Recife, incluímos um maracatu na “Suíte Sinfônica n. 2”, na qual as principais características dessa modalidade de música popular estão entrosadas de maneira mais direta. É esse atualmente nosso ponto de vista, quanto ao aproveitamento do folclore na criação de obras que anunciam as fontes que lhe dão origem.

Esta longa citação enuncia o quão complexa é para Guerra Peixe a transcrição do popular-folclórico em sua música, ao mesmo tempo em que explica a exigência do maestro quanto à qualidade e profundidade do que chama de pesquisa folclórica, pois, diferentemente de muitos outros folcloristas e músicos, não se limitou a recolher as manifestações da cultura popular como matéria-prima a ser trabalhada por ele musicalmente.  Seu trabalho não pode ser classificado como de um folclorista “tradicional” ou “típico”, transpondo as fronteiras que delimitam os campos do saber, caminhando em direção a uma etnomusicologia, ainda que intuitiva. Outros trabalhos de Guerra Peixe, publicados posteriormente, revelam o mesmo cuidado e contribuíram para que as manifestações culturais neles abordadas alcançassem um estatuto e uma legitimidade até então não obtidos, notadamente nos seus estudos sobre os caboclinhos, as bandas de pífano ou zabumbas e as rezas de defunto. Se o Recife foi um momento de inflexão na carreira de Guerra Peixe, como a obra do maestro foi recebida na cidade? Em reportagem publicada no Diário da Noite do Recife, encontramos indícios de como pode ter sido a estada de Guerra Peixe na cidade e sua inserção no meio intelectual. Nela se lê que “o Recife não deu a este homem o valor que realmente possui”, recusando-se a publicar em forma de livro artigos que Guerra Peixe publicara no Diário de Pernambuco, sob o título “Um século de música”. O Instituto Joaquim Nabuco também teria se recusado a aceitá-lo como pesquisador, “negando-lhe a oportunidade pleiteada de organizar as pesquisas de folclore musical” com “temor de que o ingresso de uma tão relevante personalidade lançasse ao segundo plano as glórias da terra...”. O livro, no entanto, acolhia uma “lição de pernambucanismo”, de amor ás tradições.

Maracatus do Recife revelava uma grande distância dos seus primeiros trabalhos intelectuais a respeito da musicalidade dos maracatus. É produto de uma reflexão madura, pautada em muitas pesquisas, tanto bibliográfica quanto fruto de suas observações nos grupos, momentos em que anotava as músicas ou mesmo as gravava. Essas pesquisas lhe deram segurança para criticar outros autores, seja por lançarem hipóteses sem fundamentos em pesquisa, seja por tratarem as informações com descuido, como se fossem coisas de somenos importância. Neste último caso, o maestro chamava a atenção para o trabalho de Ascenso Ferreira, porque ele não diferenciara as toadas dos maracatus de baque-virado dos maracatus de baque-solto. Ao que tudo indica, os maracatus observados por Ascenso, em sua infância em Palmares, não eram os maracatus iguais aos observados por Guerra Peixe no Recife. Essa confusão é atribuída a uma possível “irreflexão” de Ascenso...

É possível também fazermos uma leitura comparada de Guerra Peixe, atentando para aqueles com quem dialoga e de quem quer guardar distância. Uma leitura mais histórica, enfim. Algumas questões são centrais no texto de Guerra Peixe; elas lhe permitem marcar a diferença com o saber posto em circulação sobre os maracatus, no momento em que escrevia. A primeira delas diz respeito à origem do maracatu. Havia, quanto a isso, um saber instituído, contra o qual Guerra Peixe se insurgiu, o que é perceptível para seus críticos e resenhadores: Maracatus do Recife surpreendeu porque deu mostras do “pesquisador paciente, responsável, cheio de cautelas, amplo nas suas investigações” Para Paulo Afonso Grisolli, Guerra Peixe “foi ao arquivo” e não simplesmente repetiu o que os modernos costumavam fazer ao afirmar que o maracatu “ é um cortejo real cujas práticas são reminiscências decorrentes das festas de coroação de reis negros, eleitos e nomeados na instituição do Rei do  Congo”. Fórmula consagrada desde Pereira da Costa, inexistiam, entretanto, quaisquer estudos sobre essa prática cultural e sobre sua relação com os maracatus. Guerra Peixe trouxe para a discussão em torno da pesquisa folclórica a necessidade de se desconstruírem esses saberes, ao apontar para a existência de autos e outros indícios, como as Aruendas, de que a origem do maracatu não se deu em linha reta com a instituição dos Reis do Congo. Ele sentiu a necessidade de não repetir simplesmente o já sabido e admitido. E o fez “sem temer usar o talvez e o parece que, quando isso lhe é exigido, pela sua responsabilidade de estudioso das coisas do folclore”.

Guerra Peixe não temeu discordar de autoridades estabelecidas, a exemplo de Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga. Questionou inclusive seus argumentos em relação à etnologia da palavra maracatu, que ambos os autores remontavam a maracá, e sua origem indígena, portanto. Pareceu-lhe mais verossímil a observação de Gonçalves Fernandes, que associa maracatu ao vocábulo maracatucá (vamos debandar), ressaltando a sua proximidade com a língua falada pelos que faziam o maracatu46. Mas é na discussão sobre a “dama do paço” — grafia hoje não questionada — que se revelou o tino de pesquisador de Guerra Peixe, sua proximidade com aqueles que praticavam o maracatu, mostrando a diferença que faz quando quem escreve se assenta em observação direta. A calunga do maracatu constituía-se num enigma a ser pensado, para além do costumeiro jargão “reminiscência de antigos totens africanos”.

Mário de Andrade tinha dito que as damas que a conduziam desenvolviam um passo distinto e, por isso, eram chamadas de “dama do passo”. Para Guerra Peixe, em uma cuidadosa linguagem em que aventa “a hipótese da interpretação dos estudiosos haver-se derivado de um engano inicial”, podia-se levantar a possibilidade de que o vocábulo se referia à posição da dama enquanto membro do cortejo real, ou melhor, do paço. Mas concluia que “não há (...) [dúvida], o problema é complexo...” Palavras que não devemos esquecer quando se trata de enfocar duas outras questões de enorme complexidade, que Guerra Peixe enfrenta (se bem ou mal, este é um outro problema). A primeira delas envolve a relação dos maracatus com os xangôs, constatada pelo maestro e posta às claras. No momento em que publicou seu livro, essa associação não provocou mais temores ou perseguições policiais, o que lhe facilitou a constatação. Importa frisar que essa associação não aparecia claramente na historiografia, a não ser como subterfúgio utilizado pelos populares para escaparem da sanha policial. O livro de Guerra Peixe não autoriza os atuais pesquisadores a sustentar a tese de que a relação dos maracatus com os cultos afros lhes é inerente ou constitutiva. Podemos afirmar que hoje a relação dos maracatus-nação com as religiões afrodescendentes é identitária, mas não devemos ler as afirmações de Guerra Peixe como indícios de que sempre foram assim. O fato de que essa relação era evidente na década de 1940 não autoriza nenhum historiador ou estudioso da cultura popular a concluir que os maracatus-nação sempre estiveram relacionados com os xangôs.

A segunda questão diz respeito à diferença que Guerra Peixe identifica entre os tipos de maracatus. Para nós, hoje, essa diferença é obvia, porém no momento em que publicou sua obra, houve tal resistência que o impacto de suas idéias só se tornaria perceptível após a publicação do livro de Katarina Real, Folclore do carnaval do Recife, na década de 1960, e que consagrou as denominações de maracatu-nação e maracatu de orquestra, ou rural, e a segunda edição do livro do maestro. Para Guerra Peixe, como músico que se deteve a ouvir os que faziam os maracatus, essa diferença era gritante, a ponto de criticar Roger Bastide e Ascenso Ferreira por não perceberem as diferenças nas toadas. Seus trabalhos nos provêem de indícios preciosos a partir dos quais podemos formular importantes questões sobre as práticas culturais, sobre os trânsitos que delineamos neste artigo. A análise que efetuamos denota que, na cidade do Recife, os percursos culturais entre os gêneros musicais, o ir e vir entre o que se denominava música folclórica, popular e erudita, eram mais freqüentes do que se pensa, e o trânsito se dava em vias de mão dupla, sem falar nos constantes cruzamentos. Ao analisar as mediações culturais, a historiografia tem enfatizado apropriações, contribuições, contatos e circularidades, mas nem sempre se destaca que essas mediações não transitam numa via de mão única. Por que não transitar pela contramão e se interrogar sobre os modos como a “cultura popular” se apropria da “cultura erudita”? Por que partirmos do pressuposto empobrecedor de que a “cultura popular” não tem acesso à “erudita”? Uma historinha, que aparece “folclorizada” (evidenciando a dificuldade de se transitar nessa contramão), nos dá fortes indícios de que se trata de um campo de pesquisa muito promissor:


O maestro Guerra Peixe, há dias, me contou caso que bem demonstra a mistificação a que ficam sujeitos muitos pesquisadores. Quando viveu no Recife, catando pontos de xangôs, seu guia era o famoso babalaô Gobá. Depois de lhe cantar muita música de terreiro, Gobá se tomou de simpatia e decidiu ser honesto:
— Tudo o que lhe ensinei foi errado. 
Ante o espanto de Guerra Peixe, explicou:
— Sempre ensino errado aos “brancos” que vêm aprender pontos. Troco o nome das entidades, confundo as melodias e as letras. Mas hoje somos amigos e vamos corrigir tudo o que cantei...
Gobá passou a freqüentar a casa do maestro. Ficou íntimo da família. Um dia:
— Guerra, fiz um ponto novo para xangô. Agradou muito no terreiro. Todos os cavalos já o aprenderam. Ficou uma beleza! Acrescentou: 
— Inspirei-me naquela musiquinha que sua esposa toca no piano.
Cantou o folclore de sua autoria e Guerra Peixe quase caiu pra trás. O novo ponto de xangô lançado com êxito nos terreiros recifenses era, precisamente, Pour Elise, peça para piano de Beethoven. Beethoven está agora nos xangôs pernambucanos, servindo de apoio à incorporação do orixá... Imagino que daqui a alguns anos, um desses pesquisadores improvisados descubra a melodia. E saia afirmando que Beethoven se inspirou no folclore brasileiro para compor Pour Elise...”

O livro de Guerra Peixe, Maracatus do Recife, tem uma história semelhante. É inegável que ele não ficou restrito aos âmbitos da cultura erudita ou acadêmica. Ao longo das décadas, após duas edições, as apropriações da obra de Guerra Peixe precisam ser pensadas com mais vagar. Assim como a historinha de Gobá, muitos participantes dos maracatus têm lido Guerra Peixe. Citado por muitos mestres e donos de maracatus, o livro do maestro constituiu-se em saber consagrado, autoridade suficiente para legitimar na atualidade muitas práticas culturais e para defini-las como tradicionais ou não.

Dessa forma, os caminhos que percorremos, entre maracatus folclóricos e tradicionais, maracatus compostos por Capiba, e os compostos por Guerra Peixe, nos levam a concluir, tal com esclarece Chartier, que práticas de representação modificam práticas culturais e vice-versa. Mas esta não é uma constatação de menor importância ou que deva ser banalizada quando pensamos na complexidade das relações culturais, pois nos permite perceber os sujeitos em constante movimento, em meio ao qual as práticas culturais estão sempre sendo criadas ou recriadas. E, acima de tudo, esse movimento permanente também nos possibilita apreender a dimensão social e política em que as práticas culturais são vivenciadas.


*Isabel Cristina Martins GuillenDoutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Autora, entre outros livros, de Errantes da selva: histórias da migração nordestina para a Amazônia. Recife: Editora da UFPE, 2006. iguillen@uol.com.br

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

GUERRA PEIXE E OS MARACATUS NO RECIFE: TRÂNSITO ENTRE GÊNEROS MUSICAIS (1930–1950) - PARTE 01

Pela passagem dos 20 anos de morte do maestro, o Musicaria Brasil publica, em partes, o artigo escrito pela Doutora Isabel Cristina Martins Guillen* que aborda sobre a sua relação com os maracatus de Recife



RESUMO
Este artigo discute as relações culturais construídas em torno dos maracatus nas décadas de 1930 a 1950 na cidade do Recife, principalmente os trânsitos que a música promoveu entre compositores eruditos, artistas populares e grupos considerados folclóricos. Seu objetivo é demonstrar que nesses trânsitos as ressignificações culturais são amplas e complxas, e seu entendimento pressupõe a reconstituição das redes sociais e culturais em que se deram.


PALAVRAS-CHAVE: maracatus; Guerra Peixe; Recife



A obra de Guerra Peixe, Maracatus do Recife, publicada em 1955, pode ainda hoje ser considerada como o estudo mais completo sobre os maracatus e tem como mérito indiscutível uma vasta pesquisa de campo, da qual resultou a categorização dos dois tipos de maracatus existentes em Pernambuco: o maracatu-nação (ou de baque-virado) e o maracatu de orquestra (ou de baque-solto). Naqueles anos em que Guerra Peixe esteve no Recife (1949–1952), havia entre folcloristas, jornalistas e demais intelectuais uma grande imprecisão quanto à categorização dos maracatus. Tinha-se como legítimo maracatu o tipo hoje denominado de nação ou baque-virado, descrito por Pereira da Costa no início do século XX. 

Este maracatu é constituído de uma corte real da qual fazem parte rei, rainha, príncipes e princesas, além de damas da corte, embaixadores etc. Integram ainda o cortejo real algumas figuras emblemáticas,tais como a dama do paço, que carrega a boneca (ou calunga), o pálio, que protege rei e rainha, e o estandarte. Esse cortejo é acompanhado por um conjunto musical formado por instrumentos de percussão, denominado de batuque (bombos, caixas de guerra e tarol, gonguê e mineiro).

Nas décadas de 1930 e 1940, outro tipo de maracatu tomava corpo na cidade do Recife; Guerra Peixe em seu livro chamaria de orquestra ou baque-solto. Ele se diferencia do nação principalmente pela composição do seu conjunto musical, constituído de um terno (gonguê de duas campânulas, porca — espécie de cuíca —, ganzá e bombo) e de instrumentos de sopro. Além disso, é emblemática do maracatu de orquestra a presença do caboclo de lança, muito conhecido na atualidade e tido como um dos símbolos da cultura popular pernambucana. Os tuchaus, brincantes fantasiados de índios com grandes cabeleiras de pena, também ganhavam visibilidade, e os encontramos nos dois tipos de maracatus.

A não-diferenciação entre as manifestações existentes denota que o significado de maracatu era polissêmico, não se referindo exclusivamente a um tipo específico, visto que algumas “troças”, como o Timbu Coroado, formado de esportistas do clube Náutico, designavam-se igualmente como maracatu. Estou denominando de troças esses grupos porque portavam cartazes de crítica, fossem elas sociais ou críticas de costumes.

Esses grupos, no entanto, convidavam os batuques dos maracatus-nação para desfilarem com eles nos dias de carnaval, a exemplo do Estrela Brilhante, que acompanhou o Timbu Coroado por muitos anos. A imprensa recifense do período não fazia a mínima distinção entre os maracatus nação, como o Elefante ou o Leão Coroado, os maracatus de orquestra, como o Pavão Dourado ou o Estrela da Tarde, e as “troças”, como o Timbu Coroado e o Cata Lixo. Todos os três tipos eram tratados como maracatus.

Entretanto, à medida que adquiriam visibilidade, os maracatus de orquestra começaram a ser encarados como mera descaracterização ou deturpação do “autêntico” maracatu de origem africana, o maracatu-nação. Guerra Peixe foi o primeiro a estabelecer as diferenças entre os dois grupos a partir da análise dos conjuntos musicais e de suas performances. Destacou-se, na ótica de Guerra Peixe, a discussão em torno da extrema complexidade musical existente nos maracatus, contribuindo para a quebra dos conceitos construídos por estudiosos anteriores, que caracterizavam esses grupos como uma música primitiva. Além disso,Guerra Peixe promoveu uma grande revisão bibliográfica, explicitando incoerências e deslizes nas obras de autores que lhe antecederam no estudo dos maracatus, a exemplo de Renato Almeida, Mário de Andrade e Ascenso Ferreira.

Guerra Peixe também foi importante no que diz respeito ao processo de mediação entre os maracatus e a sociedade recifense, contribuindo para que eles fossem vistos de maneira mais positiva. A sua obra foi marcante o suficiente para que ainda hoje seja tomada como referência que orienta tanto intelectuais interessados no estudo da cultura popular como os maracatuzeiros que nele se apoiam buscando um referendo para a legitimidade e autenticidade nos maracatus-nação.

Em que contexto Guerra Peixe escreveu esse livro? Quais foram os debates e questões a que o maestro buscava responder na época? Para encontrarmos respostas a estas indagações, não podemos prescindir de uma discussão sobre as relações, bastante complexas, que se estabeleceram entre música erudita, música popular e folclore no Brasil, nas décadas de 1930 a 1950, e a inserção de Guerra Peixe nesse debate.


Folclore e música: o nacionalismo em Mário de Andrade e suas repercussões

A obra de Guerra Peixe pode ser mais bem compreendida se analisada tomando-se como escopo as idéias que Mário de Andrade colocou em circulação, entre os intelectuais do período, sobre a relação entre modernidade e tradição, entre a música popular e a erudita. Para Mário, o artista moderno (ou modernista) não deveria se apresentar ou pensar sua produção como negação do passado, mas sim como atualização do mesmo, não se afastando, portanto, de certo compromisso com a tradição que a cultura popular sintetizaria. Mário de Andrade propôs uma discussão sobre como deveria ser a música “genuinamente” nacional, entendendo que caberia ao artista (músico) promover uma transfiguração erudita das manifestações populares, enfatizando-se os elementos folclóricos. Essa discussão sobre o papel de Mário como mediador entre música erudita e popular, bem como a influência que ele exerceu sobre os músicos de modo geral, foi encampada pela historiografia. Tomando-se essa discussão como substrato, importa analisar como Guerra Peixe elaborou alguns desses elementos ao pensar o maracatu-nação, principalmente ao formular uma crítica às suas próprias composições no momento em que se confrontou com a cultura popular e os maracatus, de modo especial na cidade do Recife.

É bastante consolidada entre os estudiosos da obra de Guerra Peixe a ideia de que ele apenas teria incorporado temas nacionalistas em sua musica após a fase dodecafônica, depois do período que passou no Recife. Faria Júnior, no entanto, observa que Guerra Peixe teria tido uma primeira fase, que se poderia denominar de protonacionalista, em que a influência das ideias de Mário de Andrade foi patente e reconhecida pelo próprio compositor. Em meados da década de 1930, Guerra Peixe teria lido a obra de Mário de Andrade,Ensaio sobre a música brasileira, e, mais, a incorporação e manuseio de material nacional não se deram apenas por influência de Villa-Lobos, admitida pelo próprio Guerra Peixe, mas também por coleta direta de material folclórico, anterior à sua estadia no Recife. Guerra Peixe teria o hábito de registrar tudo o que ouvia: pregões, desafios etc. Faria Júnior, aliás, fez uma instigante análise da primeira Suíte infantil, baseada em material inédito existente no arquivo do compositor, demonstrando que Guerra Peixe, nos anos de 1942 e 1943, transcrevia para sua obra música popular brasileira, obtida através de coleta direta (“Fanfarra” é coleta de fanfarras executadas por clarins à porta do Teatro João Caetano no carnaval de 1942, porém o mais interessante são os “achechês” fornecidos por J. Espinguela, o Irajá, e por Donga!). Esses pontos não se dissociam da tão controversa questão de haver Guerra Peixe composto e publicado música “popular” sob pseudônimo, deslindando os véus que ocultam as incursões não permitidas dos músicos eruditos pelo mercado da música popular.

Rosa Nepomuceno e Vasco Mariz também reconhecem a influência de Mário de Andrade no trabalho de Guerra Peixe, notadamente nas diretrizes gerais da pesquisa folclórica e sua utilização na música erudita. Mário seguidamente defendeu a pesquisa do folclore como fonte de reflexão para o compositor erudito preocupado em criar uma música nacional. Em Ensaio sobre a música brasileira, ele observava criticamente que poucos intelectuais no Brasil demonstravam real interesse pelos estudos folclóricos:

Pode-se dizer que o populário musical brasileiro é desconhecido até de nós mesmos. Vivemos afirmando que é riquíssimo e bonito. Está certo. Só que me parece mais rico e bonito do que a gente imagina. E sobretudo mais complexo. (...) Do que estamos carecendo imediatamente é dum harmonizador simples mas crítico também, capaz de se cingir à manifestação popular e representá-la com integridade e eficiência.


Devido à influência modernista e à força de Mário de Andrade, além, evidentemente dos modismos vigentes em Paris, que valorizavam o primitivo, especialmente de matriz africana, Villa-Lobos, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri, cada um a seu modo e tempo, trataram de incorporar em suas composições elementos da música popular, correndo muitas vezes o risco de serem criticados por produzirem obras que eram “verdadeiros pastichos da música folclórica”. Ressalte-se que, no início dos anos 1930, Francisco Mignone compôs as primeiras obras do chamado ciclo negro, dentre as quais sobressai Maracatu de Chico Rei. Qual o significado de maracatu nesse contexto? Que tipo de música a palavra agencia? Batuque, tambores, instrumentos de percussão, sinônimos de música folclórica negra. Simbolicamente aliados ao rei negro, que lidera os escravos e libertos, na construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Vila Rica.

Mário de Andrade envidou denodados esforços para promover a recolha folclórica em bases que considerava mais científicas. Enquanto diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, criou a Discoteca Pública Municipal, em 1935, e promoveu a Missão de Pesquisas Folclóricas, que em 1938 realizou um levantamento etnográfico nas regiões Nordeste e Norte, registrando em discos e filmes diversas manifestações da cultura popular, principalmente a musical. Essa tarefa Mário de Andrade já havia sinalizado como de primordial importância quando de sua viagem pelo Nordeste e Norte em meados da década de 1920, em que ele próprio recolheu músicas por Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, particularmente o coco, base para seu projeto inconcluso “Na pancada do Ganzá”.

Guerra Peixe tomou as palavras de Mário de Andrade sobre a recolha do folclore como advertência e indicativo da necessidade de aprofundar o estudo da cultura popular. Em correspondência a Vasco Mariz, afirmava:

O folclore musical brasileiro não está nem recolhido; muito menos estudado e nada aproveitado. O que tem havido é simples imitação da música urbana principalmente do Rio de Janeiro. O folclore musical continua sendo no Brasil o ilustre desconhecido. O seu aproveitamento na música erudita tem sido uma mistificação. Os nossos compositores têm substituído o seu aproveitamento por um suposto nacionalismo. Tem-se é camuflado a música erudita com as sugestões da modinha, da valsa, do choro, etc. Mas isso não é folclore, nem aqui e nem na China.

Nesse sentido, Guerra Peixe aliou-se à tradição andradiana, transformando-se em folclorista renomado, trabalhando durante sua estadia no Recife na recolha de material para posterior estudo sobre caboclinhos, rezas de defunto, maracatus, xangô, cocos, mamulengos e outras manifestações. Em São Paulo, Guerra Peixe atuou com igual dedicação, graças também ao apoio de Rossini Tavares de Lima, da Comissão Paulista de Folclore. Pelo interior paulista, Guerra Peixe registrou jongos, cateretês, modas de viola, congados, dentre outras manifestações que se refletiriam em suas composições. Sobre seu trabalho de recolha, escreveu do Recife a Vasco Mariz:

Meti-me a estudar a música popular desta terra. Quase todas as semanas vou a um brinquedo qualquer, munido de papel, lápis e uma máquina gravadora. Tenho recolhido material que não é vida. A parte rítmica, que tem sido tão descuidada entre nós, tem sido o meu alvo principal. Pois, até agora, só de Xangô, recolhi cerca de 250 ritmos diferentes. Mais uns 80 de maracatu, uns 30 de caboclinhos, etc. Não se contando, naturalmente, as toadas e as loas.
Do maracatu já fiz um trabalho completo, anotando o ritmo de cada instrumento, do conjunto e as toadas, conforme a finalidade e a ordem. Dos caboclinhos, idem. No Xangô é que a coisa se complica. Pois vejo que este estudo requer pelo menos mais um ano de trabalho intenso. As toadas são muitas, os ritmos idem, e tudo isso obedece a uma certa ordem que deve ficar esclarecida. Não são cantadas a esmo, pois estão subordinadas à vinda dos orixás. Por sua vez, os orixás dependem da seita, se nagô, gegi, bata, conco [sic], ou o diabo.
Também tenho visitado um Bumba-meu-boi, uns Guerreiros, uma Ciranda e uma Aruenda.
É coisa que não acaba mais, e que nossos compositores não conhecem. Mesmo que já tenham assistido a esses brinquedos uma vez ou outra, não basta, porque isso tudo tem algo de muito mais profundo e exige um estudo demorado. Mesmo o teatrinho de bonecos típicos, o Mamulengo, tem sido alvo de minhas atenções.
Para o mês irei a Garanhuns para assistir a dois reisados, um inteiramente de homens, outro de mulheres. E os nossos folcloristas (inclusive O. Alvarenga) dizem não haver reisado em Pernambuco. Esses brinquedos não são conhecidos dos nossos compositores, nem mesmo do Villa. Depois dessa pequena série de manifestações desconhecidas, como afirmar que a música erudita brasileira é baseada no folclore?

Sua presença no Recife seria, portanto, da maior importância, refletindo-se não só em suas composições. É inegável que Guerra Peixe, a partir dessa recolha, contribuiria decisivamente para a compreensão e o estudo da cultura popular. Se tal estudo foi fundamental para a trajetória de Guerra Peixe, como essas questões eram discutidas em Pernambuco?
De que modo ele atuou na cidade e na cena cultural do Recife? Que debates suscitou?


Recife: trânsitos entre o popular e o erudito

Ao se debruçar sobre a história da música popular brasileira, pode-se constatar a complexidade com que os trânsitos culturais entre popular e erudito contribuíram para deslindar as fronteiras então supostamente tão bem estabelecidas entre um e outro. Hoje, hibridismos, mestiçagens, transculturação ou mediação cultural são conceitos utilizados para se tentar dar cabo dessa complexidade que pôs em circulação cultural Villa-Lobos, Ernesto Nazaré, Donga, Mário de Andrade e muitos outros. A história do samba no Rio de Janeiro é exemplar e muito bem estudada, demonstrando — como Chartier tão bem colocou — que os trânsitos entre o popular e o erudito dissolvem essas fronteiras. No entanto, nas décadas de 1930–1950 essas fronteiras apareciam para muitos intelectuais como territórios muito bem demarcados.

Torna-se necessário, no entanto, dilatar a visão dos círculos por onde se deu esse trânsito com a explícita intenção de mostrar que os percursos são mais amplos e mais complexos, principalmente quando se trata da discussão sobre o nacionalismo na história da música brasileira, seja ela popular ou erudita. É óbvio que nessa questão a contribuição de Guerra Peixe ainda precisa ser debatida. É notável, por sinal, a ausência na historiografia brasileira de um debate mais acurado sobre essa temática na década de 1950, após as críticas ao movimento dodecafônico feitas por Camargo Guarnieri e as defecções de Guerra Peixe e Carlos Santoro, seguindo orientações do II Congresso Internacional de Compositores e Críticos Musicais, ocorrido em Praga, em 1948, em que explicitamente se recomenda aos compositores que adiram à cultura nacional de seus países.

Importa acentuar, para nossa discussão, que, nos anos de 1930 a 1950, em meio à intensa repressão aos maracatus e às religiões afro-descendentes desencadeada pelo governo de Agamenon Magalhães, houve, sim, um movimento que alçou os maracatus-nação do lugar de “coisas de negro”, reminiscência de antigas práticas de escravos africanos, para a condição de cultura autenticamente pernambucana, matriz africana na mestiçagem cultural que se promoveu e valorizou nesse período. É importante destacar que esse movimento foi perpassado por uma forte tensão social e política entre duas grandes tendências, quais sejam, as que viam na cultura popular as bases para se firmar a identidade regional — e Gilberto Freyre é seu grande representante — e aqueles que, atuando no governo de Agamenon, promoveram a repressão à cultura afro-descendente com o intuito preciso e explícito de lançar as bases para a civilização e modernização da cidade. Tensão social evidentemente também presente entre os populares, aqueles que precisavam tocar para os orixás, que desfilavam no carnaval com seus maracatus e que procuravam se inserir nessa discussão e disputa política, buscando legitimidade e aliados para manter suas práticas e crenças.

O maracatu encontrava-se no centro desse debate e apareceu pontualmente na obra de alguns dos modernistas que atuavam no Recife, notadamente Lula Cardoso Ayres, não mais com aquele caráter saudosista e melancólico que encontramos na obra de Pereira da Costa ou Mário Sette. Esse novo olhar, perceptível na obra de Lula quando elegeu como um de seus temas a rainha do maracatu em sua majestade, foi precedido de um significativo movimento que, entre 1930 e 1950, também reposicionou o lugar da cultura afro-descendente. A realização do I Congresso Afro-brasileiro no Recife, ao final do ano de 1934, causou grande impacto cultural na cidade. A forma como foi organizado — na verdade, seu caráter informal — foi decisiva para certa aceitação das “contribuições” da cultura afro-brasileira para a formação da nacionalidade.
Após a realização do I Congresso Afro-brasileiro, os trabalhos nele apresentados foram publicados e prontamente discutidos nas páginas do Diário de Pernambuco. Aos poucos, novos sinais de incorporação da cultura afro-descendente adentraram as práticas culturais das elites, o que não implicou sua plena aceitação — é preciso se discutir o quanto ela ainda é vista como manifestações pitorescas e reminiscências de antigas práticas de negros escravos. A folclorização apaziguadora é capaz de fazer com que certa cultura seja aceita e, ao mesmo tempo, que se mantenham os negros “no seu devido lugar”. No artigo “Negros e brancos no carnaval da Velha República”, Peter Fry e demais autores observam que

explicar por que os batuques — ou mais precisamente a identidade étnica que eles simbolizavam — se transformam em problema público implica, com certeza, a compreensão da alteração significativa que ocorre na relação entre governantes e governados. Aos escravos podia-se permitir manter seus valores e crenças — porque eram concebidos como estando fora da sociedade. Aos negros cidadãos deviam ser negros só na pele. No mais, há a necessidade de eliminar os vestígios africanos.

O governo de Agamenon Magalhães resolveu levar a sério tal necessidade e redobrou esforços intelectuais e recursos institucionais para reprimir práticas consideradas bárbaras e incivilizadas. Durante esses anos, a cultura afro-descendente viveu momentos de dura repressão, legitimada pelo Estado.

Entre idas e vindas, em 1938, a famosa bailarina Eros Volusia, que provocava furor no Rio de Janeiro, veio ao Recife e apresentou, no Teatro Santa Izabel, duas coreografias que tinham como tema o frevo e o maracatu. No Anuário do carnaval pernambucano, publicação feita pela Federação Carnavalesca Pernambucana (FCP), em 1938, podemos admirá-la em uma fotografia em que vestia uma fantasia assemelhada aos caboclinhos e ficamos sabendo que esses artistas não perdiam a oportunidade de conhecer a cultura afro-descendente, pois lá apareciam fotografias de nossa esfuziante dançarina no Xangô do Pina e no Maracatu Cruzeiro do Forte. Percorrendo ainda as páginas desse anuário, encontramos outras fotografias de xangôs, bem como do Maracatu Leão Coroado e do Maracatu Elefante. Será que podemos afirmar que essas imagens e descrições da cultura afro estavam se transformando em algo corriqueiro? E isto pode ser tomado como indício de sua aceitação pela sociedade? Infelizmente, não! Sob a égide de Agamenon Magalhães, que tinha como entre seus principais assessores um grupo de católicos fervorosos, as religiões afro-descendentes conheceram dias de intensa perseguição. E os clubes, as troças, os caboclinhos e os maracatus, dias de normatividade.

Ainda em 1938, aportou no Recife a missão folclórica organizada por Mário de Andrade, que percorreu o Norte e o Nordeste gravando, filmando e fotografando diversas manifestações da cultura popular. Dirigida por Luis Saia, a missão ficou poucos dias no Recife, gravou os famosos cantos de carregadores de piano, mas teve enorme dificuldade em conseguir um terreiro para gravar o xangô devido à situação política (vigilância policial em torno das religiões afro-descendentes):


A manifestação folclórica de maior interesse etnográfico para a Missão, em Recife, era o xangô. A delicadeza da situação política dificultava a obtenção de autorização oficial prévia, cedida pela Polícia da capital, necessária para registro dos cultos de feitiçaria afrobrasileira. No entanto, apesar da radicalização do processo empreendido pelos Católicos Marianos, no sentido de apagar da sociedade todo e qualquer tipo de manifestação religiosa afro-brasileira, os integrantes da missão conseguiram permissão pra que fosse realizado um toque de xangô para efeito de filmagem.


A missão folclórica gravou alguns segundos do Maracatu Leão Coroado, além de Saia ter anotado em suas cadernetas de campo algumas toadas que ouviu. Se o maracatu não foi privilegiado pela missão, graças, no entanto, ao trabalho de diversos intelectuais, bem como à atuação de seus próprios dirigentes, encontrava-se em vias de ser alçado a símbolo da autêntica cultura negra em Pernambuco, presente nas obras de Ascenso Ferreira, Capiba e Lula Cardoso Ayres.

Lula foi inegavelmente um dos grandes responsáveis por um olhar positivo sobre os maracatus (tanto o de baque-virado quanto o de baque solto). Desempenhou um papel-chave no sentido de firmar uma imagem da rainha do Maracatu Elefante — Dona Santa — através dos seus desenhos e suas fotografias. Em 1941, em plena repressão aos xangôs e catimbós, Lula surpreendeu o Recife com os murais que elaborou para decorar o Clube Internacional, introduzindo temas do carnaval de rua, como maracatus, caboclinhos e ursos. Toda a imprensa reagiu favoravelmente, admirada com a beleza da cultura popular. Mais do que isso, seus murais suscitaram um rico debate sobre a identidade do carnaval pernambucano e as contribuições da cultura popular para a tradição.

À revista Contraponto, editada em Recife a partir de 1946, coube, em larga medida, a difusão do traço de Lula. Nela, ele publicou muitas gravuras que tinham como tema a cultura popular, principalmente o carnaval e, em especial, o maracatu. Nos seus primeiros números, Lula colocou na capa gravura sobre o maracatu e, no número 7, de março de 1947, vemos Dona Santa estampada na capa. A divulgação que Lula promoveu de Dona Santa a tornou célebre, através não só das fotografias que publicou, mas também das gravuras que fez da rainha de maracatu, com a legenda “quem não conhece, nas ruas do Recife carnavalesco, esta rainha de Maracatu apanhada pelo lápis de Lula?” E lá estava Dona Santa consagrada e reconhecida como “a” rainha de maracatu. Contudo, é na figura do que hoje denominamos de caboclo de lança que Lula revelou seu poder de observação. Foi indubitavelmente um dos primeiros a difundir imagens dos caboclos de lança e dos tuchaus, interessando-se pela sua exuberância dessas manifestações e distinguindo a diferença em meio às várias personagens da cultura popular. Devido às lentes de Lula, e a seu traço, o olhar se esmiuçou no detalhe que o conjunto oculta. Não mais descrições generalizadas, e, sim, personagens específicos, pessoas que fazem o carnaval.

Mas, sem dúvida alguma, é a atuação dos compositores de maracatu que devemos aqui discutir, com o intuito de estabelecer uma relação com as composições de Guerra Peixe. Capiba, no início dos anos 1930, tinha composto uma série de “maracatus”, musicando algumas poesias de Ascenso Ferreira e compondo outras. Venceu concursos musicais com É de tororó e Eh! Uá! Calunga. O maracatu constituía-se, ou estava se constituindo, portanto, num gênero musical da “cultura popular” não folclórica. Assim como o frevo e as marchinhas, era composto especialmente para o carnaval, animando os bailes nos clubes em dias de festa de momo. Existiam concursos promovidos pela Federação Carnavalesca Pernambucana, e os vencedores tinham suas composições publicadas nas páginas dos jornais. Houve um grande esforço por parte da FCP e, sobretudo, de seu dirigente, Mário Melo, para que o maracatu se firmasse nacionalmente como gênero musical genuinamente pernambucano. Para tanto, se incumbiram de divulgar esses maracatus nas rádios cariocas, gravavam essas músicas na voz de Francisco Alves e outros mais. O esforço não era para difundir o folclore pernambucano, e, sim, pela criação de um novo gênero da música popular, quase que disputando espaço com o já consagrado samba.

Porém, esse gênero de maracatu efetivamente não se consolidou, e podemos encontrar nas páginas dos jornais do Recife do final dos anos de 1930 uma discussão sobre as razões que o levaram a “cair de moda” em meio à década de 1940, lamentando-se seu “desaparecimento”. Instando os compositores a comparecer nos concursos musicais, o cronista da coluna “Mundos de Luz e Som” lamentava o fato de que não mais se compunham maracatus. Sebastião Lopes aceitou o desafio e compôs novo maracatu, enquanto Capiba prestava esclarecimentos: não havia “ambiente” para se comporem músicas daquele gênero. “Não sei se a transição política que sofremos tem contribuído para isto, mas o fato é que o ambiente não é o mesmo de 1933 e 1937, quando lancei É de tororó e Eh. Uá. Calunga.”

Essas composições de Capiba, datadas dos anos 1930 e classificadas como maracatus, e que aparecem transcritas e publicadas na obra organizada por Ascenso Ferreira, É de tororó, editada em 1951, não foram devidamente analisadas do ponto de vista musical, exceto por Ariano Suassuna, em ensaio publicado no mesmo volume. O maracatu composto por Capiba, com letra de Ascenso Ferreira, É de tororó, não obstante, foi sucesso no Recife, seguindo para o Rio de Janeiro, onde foi incluído em um dos quadros da revista de Jardel Jércolis, que excursionou pelo Brasil, Espanha e Portugal. Esse mesmo maracatu tornou-se sucesso carnavalesco no Rio de Janeiro no ano seguinte. Ao comentar a publicação do livro É de tororó, Manuel Bandeira afirma:

Uma das mais fortes impressões que guardo do tempo da meninice foi o meu primeiro encontro com um maracatu. Era terça-feira gorda e eu ia para a Rua da Imperatriz, no Recife, assistir de um sobrado a passagem das sociedades carnavalescas. Filomomos, Pás, Vassourinhas. De repente, na esquina da Rua da Aurora, me vi quase no meio de um formidável maracatu. De que “nação” seria? Porto Rico? Cabinda Velha? Leão Coroado? Não me lembro. Dos melhores era, a julgar pelo apuro e dignidade do Rei, da Rainha e seu cortejo — príncipes, damas de honra, embaixadores, baianas. Pasmei assombrado.
Tudo em volta de mim era carnaval: aquilo não! Mas o que é que me fazia o coração pulsar assim em pancadas de medo? Analisando agora, retrospectivamente o meu sentimento, creio que o motivo do alvoroço estava na música, naquela música que mal parecia música — percussão de bombos, tambores, ganzás, gonguês e agogôs, num ritmo obsessor, implacável, pressago... Mesmo de longe (lembro-me de certas noites em que, na velha casa de Monteiro, a viragem trazia uns ecos de batuque, o ritmo dos maracatu...) invocava.
Todas essas memórias dos meus oito anos, impagáveis como o cheiro entre mar e rio do cais da rua da Aurora, buliram em mim, mais vivas do que nunca, à leitura do livrinho É de tororó... 

Bandeira ressalta que Capiba não foi apenas compositor popular, mas cuidou igualmente de transpor para música erudita os temas da cultura popular. Na sua Suíte nordestina, transcrita para orquestra por Guerra Peixe, a música negra e o batuque estão presentes. Bandeira identifica na sonoridade dos maracatus de Capiba os velhos maracatus de sua infância, notadamente o Eh, Luanda! “Reconheci logo nos acordes da mão esquerda aquele ritmo obsessor, implacável...” Tema intrigante e que deixo como instigação para que os músicos se dediquem a pensar no assunto.

Ainda a respeito dos maracatus de Capiba, o ensaio de Ariano Suassuana analisa as composições em questão, discutindo os caminhos que os compositores poderiam percorrer quando se tratava da relação com a música popular. O compositor simplesmente poderia, “sem maiores aspirações que lhe seriam insufladas por um talento maior”, compor novos frevos, maracatus etc. Nessa categoria classifica Eh, Luanda! e Maracatu Elefante, que Capiba criou em homenagem a Dona Santa. O segundo caminho apontava para a “superação do popular”. Deixemos que o próprio Ariano Suassuna nos explique:

Partindo da simples imitação das formas populares, passará ela por uma fase de transposições, para chegar finalmente à recriação, sua forma mais alta. A imitação é, no caso, o campo do compositor popular; e a transposição o de uma espécie intermediária, importantíssima para a criação de uma música nacional. (...) Em nossa região, foi Capiba um dos primeiros que tentou realizar aquilo que chamamos acima de transposição do popular, rasgando novos caminhos que só mais tarde serão realmente apreciados.

Capiba teria feito uma série de “transposições” em frevos, valsas, choros e “canções”. Ariano Suassuna observa que há nessas composições claros contatos com as músicas de Stravinsky e Mozart, porém a melhor criação nesse terreno foi sem dúvida a Suíte nordestina. Assim posto, classifica grande parte dos maracatus de Capiba nessa segunda categoria (apesar de reconhecer que alguns deles foram compostos para concorrer aos concursos do Diário de Pernambuco e da FCP). O maracatu É de tororó, com poema de Ascenso Ferreira, “apresenta uma espécie de reversão ao trágico espírito religioso do negro, mesclado da angústia que assumirá formas musicais lentas e dolorosas — em estilo sempre romântico-negro”. Tal estilo refere-se à “música melancólica” acrescida, entre outras, de palavras como penar, sofrer, chorar e esquecer. Essa ligação “líteromusical” remete à “tragédia de raça do negro”, evocada por música e palavra.

Esse era o ambiente que se vivia no Recife quando Guerra Peixe chegou, em 1949, contratado pela Rádio Jornal do Commercio. Que trabalhos musicais desenvolveu? Como atuou na cidade, entre seus intelectuais? Sabemos que Capiba foi seu aluno, em aulas de harmonia e composição, da qual resultou a orquestração feita por Guerra Peixe de sua Suíte nordestina. O mesmo aconteceu com Sivuca e muitos outros músicos importantes na cidade. Vejamos agora como essa estadia de Guerra Peixe no Recife foi fundamental em sua carreira musical, bem como para a relação que estabelecerá entre o popular, o folclórico e o erudito.



*Isabel Cristina Martins Guillen
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Autora, entre outros livros, de Errantes da selva: histórias da migração nordestina para a Amazônia. Recife: Editora da UFPE, 2006. iguillen@uol.com.br

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