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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CLUBE DA ESQUINA / 1972

Por Ricardo Moreira



Na cabeça de um Milton bem mais maduro e cosmopolita do que aquele rapazola do Edifício Levy – sua primeira morada em BH onde o destino o juntou à família Borges - é que o gérmen de um disco coletivo construído a partir da comunhão dos dois extremos de uma geração delimitados entre ele próprio e o talentoso menino Lô, começaria a ser gerado.

Comecinho dos anos 1970, bem-sucedido na carreira, com discos gravados no Brasil e no exterior, residência fixada no litorâneo Rio de Janeiro, Milton descobriu que fazer meia-volta e caminhar na direção do interior era tudo que precisaria fazer para avançar ainda mais sua música sem fronteiras. Configurando-se naquele momento da carreira inviável voltar fisicamente para as Gerais, Bituca decidiu mandar vir a montanha - neste caso, as de Minas - a Maomé. Os primeiros a migrarem para o Rio foram Lô Borges e Beto Guedes, ainda adolescentes, mas devidamente autorizados pelas mães. Morando sob a proteção do padrinho Milton, os meninos respiravam música (e ouviam Beatles) 24 horas por dia, conviviam com os amigos músicos do artista, iam a shows e, com esse trabalho de imersão, desenvolviam ainda mais sua arte. Quando Milton decidiu alugar o mágico retiro da casa de praia em Piratininga/Niterói, sobrou mais espaço para Toninho Horta, Ronaldo Bastos - o fluminense da turma, os mais raros Fernando Brant, Murilo Antunes e Márcio Borges, a galera do Som Imaginário e muitos outros que iam e vinham curtir, compor e tocar no aprazível quarto de vidro com vista para a praia. Boa parte do material gravado em Clube da Esquina seria resultado da abertura desse consulado mineiro à beira-mar.

Mais uma vez a amizade, antes de qualquer coisa, moveria o moinho de canções e ideias geniais preparando para o forno, a massa de um álbum eterno. Num tempo que a Ponte Rio-Niterói ainda não havia sido construída, os meninos do Clube fariam o caminho que dava a volta de 100 km em torno da Baía de Guanabara pelo município de Magé até chegar aos Estúdios da EMI-ODEON no Rio de Janeiro. Lá, encarariam a tarefa de impregnar o óxido da fita de gravação com a química resultante de mais de um ano da convivência entre amigos numa das mais delirantes pré-produções de disco já feita na história fonográfica nacional.

Rebobinando o tempo, não podemos esquecer que "Milton", disco de 1970, fora um marco importante na conquista da sonoridade independente que o Clube fincaria definitivamente dois anos depois. Até então as canções dos discos iniciais de Bituca eram embaladas em arranjos de maestros notoriamente estabelecidos que, como era de se esperar, colocavam a moldura que julgavam mais adequada à obra do estreante fazendo-o soar mais filiado à tradição da MPB. Seria tudo com que Bituca parecia querer romper na revolução que começou a partir do laboratório de sons imaginários feito em "Milton". O artista reinventou nesse disco o conceito de arranjo e mostrou a todos que um cantor podia e devia soar além de melodias, letras e até de sua própria voz.

Libertas Quæ Sera Tamen. Assim foi hasteada a bandeira do livre-arbítrio artístico conquistado com a benção de duas figuras queridas do staff EMI - Milton Miranda e Adair Lessa. Os mesmos executivos permitiram a Milton que quitasse com apenas um disco duplo a dívida contratual de dois álbuns de carreira que deveriam ser lançados ainda naquele ano. Toparam também que esse disco fosse dividido com um menino desconhecido que a gravadora não convidara e sequer contratara. Liberaram ainda uma capa mega-anticomercial onde ao invés do artista, figuraria uma foto de um menino branco e um negro agachados numa estrada, aludindo indiretamente aos nomes de Milton Nascimento e Lô Borges que só apareceriam na contracapa. Para felicidade e júbilo da MPB, eles fizeram tudo “errado”. 

Trancados no estúdio, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e seu Som Imaginário, cruzaram ideias em quatro faixas com as cordas do arranjador Eumir Deodato e coletivamente ornaram cada contorno das 21 canções de Clube da Esquina. Uma revolução sônica estava solta.

“Tudo o que você podia ser”, de Lô e Márcio Borges, é a pedra fundamental do álbum e um tanto premonitória no que diz respeito à trajetória do que estava sendo fundado com o disco Clube da Esquina. A comunhão mineira de músicos “oficializada” nesse álbum não tinha pretensões estratégicas de levantar bandeiras, mas acabou por sacudir muito mais a estrutura convencional da música brasileira do que, por exemplo, a Tropicália, movimento para o qual sempre fora creditado um compromisso maior com a rebeldia e a renovação. Interpretada por Milton Nascimento, vale notar na faixa o vigoroso violão-base de Lô e, ao final, o uso do falsete por Milton não como um recurso para alcançar notas mais altas, mas como linguagem estética assumida. O uso regular desse timbre vocal era uma inovação que se consolidaria tanto no trabalho de Milton, quanto, e principalmente, em outros inconfidentes mineiros, Beto Guedes e Flavio Venturini. 

A primeira colaboração do niteroiense Ronaldo Bastos no disco aparece na letra para a melodia do "trespontano" Milton Nascimento que desaguou em “Cais”. O encontro de montanha e praia proporcionou uma canção libertária de grande vigor poético. Climaticamente rica, a música possui num movimento à parte um diálogo de densa beleza entre o piano e a voz de Milton com o baixo tocado com arco por Luiz Alves (timbrando quase que como um violoncelo) que passaria a ser tão marcante quanto sua melodia e letra. Esta seria mais uma contribuição estética trazida pelo Clube: o instrumental, também protagonista, passa a ser mais do que um simples acompanhamento da voz do cantor e rouba a cena. Sempre atenta a tudo, a canção iria também para o repertório de Elis Regina no mesmo ano.


Seguindo viagem do porto para a gare, a letra de “O Trem azul”, não foi inspirada, como se poderia imaginar, por um bucólico trenzinho entre montanhas mineiras, mas na verdade por uma composição europeia que o mochileiro Ronaldo Bastos tomou um dia. Este talvez seja um dos maiores standards eternizados por esse disco. Indispensável em qualquer roda de violão e até hoje uma saborosa audição nas emissoras de rádio, a melodia de Lô Borges flutua no céu numa viagem onírica acompanhado pelo inspirado solo oitavado da guitarra de Toninho Horta. Um clássico dos Deuses. Duas décadas depois, Tom Jobim pegaria o mesmo trem azul em seu derradeiro trabalho, o álbum Antônio Brasileiro, como mais uma prova de até onde e em quantas direções as influências do Clube poderiam se expandir. 

“Saídas e bandeiras Nº 1”, uma vinheta de 45 segundos fruto de uma parceria de Milton com Fernando Brant em cinco compassos musicais, é uma fuga guiada pelas vozes uníssonas de Beto Guedes e Milton Nascimento para o interior da alma de um Brasil precioso e distante daquele que em 1972, a fumaça de chumbo da Ditadura insistia em ainda encobrir. A picada bandeirante descansa na clareira de “Nuvem cigana” – de Lô e Ronaldo – uma canção hippie de coração sem medo, pontuada pela viola 12 cordas de Beto Guedes.

Antes que surja a dúvida, a morena em questão na música “Cravo e canela” era a amiga de Bituca, Dina Sfat. Apesar do tempero da atriz na letra de Ronaldo e melodia de Milton dar água na boca, ainda sim, ficou fora do filme de Ruy Guerra para o qual o tema fora encomendado. Não entrou na trilha, mas dentro da galeria de finos paladares musicais que este disco criou, ela é uma das mais saborosas. Milton e Lô dividem assovios e vocais.

“Dos cruces” do espanhol de Bilbao - Carmelo Larrea - na voz de Milton é uma das pontes pioneiras erguidas pela MPB em direção a los hermanos de língua espanhola. A interpretação livre dada ao bolero desenhada pelos experimentos sensoriais do Clube, redobram a carga dramática da letra e destacam essa leitura de qualquer outra das muitas regravações já feitas desta canção mundo afora. 

A placidez do piano de Lô em “Um girassol da cor de seu cabelo” chega atenuando o final incendiário de “Dos cruces”. Mais uma parceria dos irmãos Borges - Lô e Márcio. O clima meio espacial do início serve de pano de fundo para uma melodia de delicadeza quase feminina. A suavidade é interrompida pelo suspense das cordas escritas por Eumir Deodato. Mas estas servem, na verdade, de cortina para um surpreendente refrão pop cantado a pleno pulmão pela galera do Clube - como um final feliz para uma faixa de tintas cinematográficas.

Não foi para o cinema, mas para o teatro de José Vicente – que já havia escrito a peça Hoje é dia de rock – que Milton e Fernando Brant criaram “San Vicente”. A peça se passaria numa cidade latina, que na verdade representava o Brasil, numa tentativa de engabelar a Censura. Mas do que essa função satélite de trilha, a música acabou protagonizando a arquitetura de uma ponte na direção inversa do caminho trilhado em “Dos cruces”. Depois do lançamento do disco surgiram naturalmente regravações de chilenos, argentinos, venezuelanos, uruguaios - todos oprimidos da mesma maneira pelos seus regimes autoritários que estendiam a mão de volta em solidariedade através da música. A gravação é movida pelo violão agridoce de Tavito, por vibrantes interlúdios andinos e pelos falsetes arrebatadores de Bituca. Numa ordem perfeita de escalas de belezas heterogêneas, surge logo após o mini-poema musical “Estrelas” deixando saudade no seu brilho de curtíssima duração e trazendo um ilustre penetra no coro: Luiz Gonzaga Jr.

Apesar de composta pelo mesmo triunvirato sócio-fundador - Milton, Lô e Márcio - a letra de “Clube da esquina Nº2” só apareceria no disco-solo de Lô, "A Via-Láctea" e em outro, "Nana Caymmi", ambos de 1979. Aqui no álbum Clube da Esquina, ela faz um debut instrumental que até hoje soa como uma coisa não necessariamente vinculada às gravações letradas feitas sete anos depois. Tanta personalidade se deve ao conjunto do arranjo socialista do grupo que parece ninar a imprevisível melodia solfejada por voz e dobrada por violão, ambos de Milton, tudo quantizado pelas cordas escritas por Eumir Deodato. É para escutar e sonhar.

Se estivéssemos pilotando uma vitrola em 1972, chegaria a hora de trocar o lado do LP. Isso explica porque uma música excepcional como “Paisagem da janela” figura como décima-segunda no CD Clube da Esquina. Na verdade, ela era a abertura do lado B - uma posição importante na montagem de qualquer vinil setentista. Agulha no ponto, entramos num clima meio Butch Cassidy e um ritmo de trote nos conduz pela paisagem bucólica de um cavaleiro marginal embalados pela cama de guitarras de Nelson Ângelo e Tavito. Reza a lenda que a parceria bissexta entre Lô Borges e Fernando Brant teria sua letra inspirada com o avistar da Serra do Espinhaço pela janela de um hotel de Diamantina onde o grupo se hospedava para uma entrevista para revista O Cruzeiro.

Alaíde Costa, a Luluzinha do Clube, revive com Milton “Me deixa em paz”, de Monsueto e Ayrton Amorim, sucesso em 1951 com Linda Batista. Desde a combinação dos timbres negros das duas vozes, o vocalise em falsete de Milton costurando os solos de Alaíde, o surdo em duelo constante com o violão, tudo concorre para tornar a releitura única, definitiva, um dueto que entrou para história. Em seguida insurge “Os povos” (Milton Nascimento/Márcio Borges) trazendo à superfície a verve poética cheia de mergulhos em abstrações e viagens metafóricas características do universo Clube da Esquina oxigenando de novos significados a atmosfera da MPB. 

“Saídas e bandeiras Nº 2” aparece novamente agora como que concluindo a reflexão poética de sua primeira aparição e acrescentando novos elementos instrumentais como um solo de baixo de Beto Guedes. Em seguida, Milton e seu piano em “Um gosto de sol”, dele e Ronaldo Bastos, evocam novamente abstrações que parecem brotar diretamente do inconsciente do poeta para a canção. A citação do tema instrumental final de “Cais”, agora orquestrada por Eumir Deodato, emerge tentando mostrar o parentesco intencional entre as duas canções.

“Pelo amor de Deus” é uma marcha-rancho apenas por definição técnica. O arranjo se vale dessa caricatura carnavalesca para revelar com mais nitidez a ironia e dramaticidade de seus versos. Milton canta e divide com Fernando Brant sua autoria. O vibrante momento instrumental a seguir marca a mais africana de todas as faixas de Clube da Esquina, “Lilia” – que não por acaso, é o nome da mãe adotiva de Bituca.

Em “Trem de doido”, de Lô e Márcio Borges, amigos embarcam num plano de fuga de uma realidade sórdida infestada de ratos. Uma balada-rock à moda mineira na voz de Lô Borges com guitarra-solo de Beto Guedes. 

Encerra o disco, a densa “Ao que vai nascer”. A canção como que tenta prever no nome as possibilidades de um movimento que surgia naquele disco. Antes dela, o clima já havia mudado no clássico “Nada será como antes” que acabou por dar título ao livro de entrevistas e crônicas musicais da jornalista Ana Maria Bahiana. Milton e Beto dividem os vocais numa ode à juventude e à amizade pontuada em melodia e arranjo por expressivas referências pop. Ironicamente, seu viço contemporâneo parece acalentar uma gostosa saudade de algum futuro bom que ninguém saber dizer qual, mas que premonitoriamente não seria como antes. A ensolarada canção de Nascimento e Ronaldo Bastos invoca alegria, fé no futuro e uma irresistível vontade de sorrir e cantar junto: “nada será como antes amanhã”. E desde então, nada mas foi.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

CLUBE DA ESQUINA É CITADO EM LISTA DE MELHORES MÚSICAS DOS ANOS 70

Além dos músicos mineiros, aparecem na lista Caetano Veloso, Tom Zé e Jorge Ben Jor


Clube da Esquina aparece em lista de site americano. (foto: Juvenal Pereira/Divulgacao)


O site americano especializado em música Pitchfork resolveu celebrar a música dos anos 1970. O site publicou uma lista com a relação das 200 melhores músicas do período. 

Entre grandes nomes da música mundial como The Beatles, Pink Floyd, Bruce Springsteen e Michael Jackson, foram citados os mineiros do Clube da Esquina, além de outros ícones da música brasileira como Tom Zé, Jorge Ben Jor e Caetano Veloso. 

O Pitchfork colocou Tudo que você podia ser na posição de número 167. Presente no primeiro álbum do coletivo formado por Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta na capital mineira, a canção é descrita como ''inspiradora'' com uma letra ''cuidadosamente composta''. 

Caetano Veloso aparece na 73ª posição com a música You don't know me, do álbum Transa, um de seus trabalhos mais celebrados no mundo todo. Tom Zé ocupa a 191ª posição com a música Dói, e Jorge Ben fica em 196ª com Taj mahal. 

O primeiro lugar foi dado à Life on mars? de David Bowie, lançada em 1971.

domingo, 23 de agosto de 2015

DISCO COMEMORATIVO DA PARCERIA ENTRE FERNANDO BRANT COM GERALDO VIANNA É LANÇADO

Divulgação do trabalho foi adiada diante da morte de Brant, em junho
Por Ailton Magioli



Um dos últimos textos escritos por Fernando Brant, a declaração de amor a Minas Gerais que permeia a abertura de cada canção do disco 'Mariana Brant interpreta Geraldo Vianna e Fernando Brant', da sobrinha do compositor, marca os 15 anos de parceria de Brant e Vianna, que ainda reserva outros materiais inéditos para o público.

Com lançamento agendado para o último dia 5 de julho, o show teve de ser adiado diante da morte repentina do poeta do Clube da Esquina. Brant morreu em 12 de junho, aos 68 anos, de complicações decorrentes de um transplante de fígado. O dia do nascimento do letrista (9 de outubro) deverá ser a nova data de encontro dos envolvidos no projeto. Vianna assina arranjos e direção musical. Mariana Brant (voz), Kiko Continentino (piano) e novamente Vianna (violão) completam o time, que se dá ao luxo de contar, ainda, com uma orquestra de cordas.

Longe de se considerar um cantor, função que costumava exercitar em shows, Fernando Brant mostra-se mais à vontade na declamação dos textos em que, além de temas como a reconhecida religiosidade mineira, ele aborda a presença do trem no cenário do estado. Dona de agudo característico, marcante na MPB, a sobrinha Mariana diz gostar muito da parceria do tio com Geraldo Vianna.

“Eles conseguiram criar uma identidade diferente da de outros parceiros de meu tio”, acredita a cantora, que, paralelamente à carreira solo, exercita-se no trabalho da voz, já que é fonoaudióloga por formação. Depois de participar, como convidada, de projetos dos artistas Tavinho Moura (o livro-CD 'Maria do Matué – Rua do Cachorro Sentado') e do show 'Conspiração dos poetas', ao lado do tio e de Tavinho Moura, Mariana, enfim, estreia como solista no disco comemorativo dos 15 anos da parceria Brant-Vianna.


Assista ao clipe de 'Cinema':



“Cresci ouvindo esta música”, diz, a respeito da criação poética do tio, musicada por parceiros como Milton Nascimento, Tavinho Moura, Toninho Horta, Ronaldo Bastos, entre outros. “O que mais me atrai são as mensagens que ele deixa em suas letras”, elogia Mariana.



Geraldo Vianna diz que, além de outras canções inéditas com o poeta, ele ainda tem a peça, composta de uma fantasia e cinco movimentos, 'I Fioretti – Fantasia para um homem bom', inspirada em livro sobre a vida de São Francisco de Assis, escrito por amigos dele, na Idade Média. A ideia do compositor é levar a peça para o palco, com dois violões e uma voz (Bárbara Penido é a cantora escolhida), além de uma orquestra de cordas.

Distribuído pela Tratore, 'Mariana Brant interpreta Geraldo Vianna e Fernando Brant' reúne nove canções do repertório inédito de Brant e Vianna, entre as quais 'Pavane', de Gabriel Fauré, letrada pelo poeta. 'Cinema', 'Carpe diem', 'Estação Caymmi' (originalmente feita para o show homônimo, com o Trio Amaranto), 'O beijo', 'Falso chorinho', 'A travessia', 'Muchino riá congo' e 'Trem' completam a relação. Disponibilizado via YouTube, o clipe de 'Cinema' conta com a participação de Fernando Brant.

domingo, 26 de julho de 2015

ESCOLA MINEIRA DESENVOLVE PROJETO PARA APRESENTAR AOS ALUNOS A HISTÓRIA DO CLUBE DA ESQUINA

Alunos do Colégio Padre Eustáquio se emocionaram com visita de Lô e Márcio Borges


Por Sandra Kiefer




Não apenas os versos da canção Linda juventude personificaram-se ontem nos mais de 150 estudantes, que se esparramaram no chão e custaram a conter a euforia no auditório do Colégio Padre Eustáquio, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Um dos autores da letra do 14 Bis – o compositor Márcio Borges, e o irmão mais novo, Lô Borges – aportaram também na esquina da Rua Cesário Alvim com Padre Eustáquio, no colégio e no bairro de mesmo nome. Os dois artistas ficaram à vontade, sentados em cadeiras no palco, em frente a um mural de fotos deles, com capas de CDs, letras e poemas escritos à mão em cartolinas coloridas. Amanhã, o material será parte de uma mostra cultural aberta à comunidade.

Desde março, os integrantes do Clube da Esquina são aguardados pela diretoria e pelos pais de alunos, professores e estudantes da escola, que se dedicaram com afinco ao projeto Sonhos não envelhecem, elaborado em dupla pelas professoras de língua portuguesa do 6º ano, Raquel Abreu e Fabiane Braga. A morte de Fernando Brant, parceiro dos dois, acabou atrasando ainda mais a ida dos músicos ao colégio. “Ficamos recolhidos um tempo no sítio, porque foi muito pesado para nós”, explicou Cláudia Brandão, mulher de Márcio Borges e idealizadora do Museu Clube da Esquina. Ela fez a ponte com a escola. “Quem disse que o Fernando morreu? Ele continua morando sempre no nosso coração”, emocionou-se Márcio, na sala dos professores.

Como lembrança de Fernando Brant, a música escolhida pelos estudantes para ser cantada em coro na presença dos dois artistas foi Paisagem da janela, de autoria do compositor. Os jovens cantaram alto e claro, como se quisessem exibir que sabiam a letra de cor. E sabiam mesmo. No espaço aberto a perguntas, os alunos aproveitaram para esclarecer se a janela lateral seria em Diamantina ou em Ouro Preto, dúvida que paira na biografia do compositor. Márcio Borges, porém, pôs mais lenha na fogueira: “Da última vez em que o ouvi falar sobre isso, ele disse que não tinha sido nem uma nem outra cidade. Falou que tinha feito a música na Cachoeirinha mesmo, em Belo Horizonte”. 

“Desde o início do ano, estamos sonhando com este encontro. Ficamos imaginando como iríamos conseguir envolver as crianças com músicas elaboradas há 40, 50 anos. A solução foi buscar a ajuda dos pais delas”, contaram as professoras, que usaram como base o livro O segredo do disco perdido, de Caio Tozzi e Pedro Ferrarini. O romance juvenil narra as férias do menino Daniel, que se depara com um mistério: o sumiço do disco Clube da Esquina, autografado por Lô Borges. “Os pais chegaram a levar os meninos para conhecer a célebre esquina de Santa Tereza”, completou a professora Raquel.

“A ditadura militar não era cor-de-rosa, mas sim cinza, tanto que passaria a ser chamada de anos de chumbo”, completou Márcio Borges. Indagados sobre os “gases lacrimogêneos” de Clube da Esquina II, de autoria dos irmãos com Milton Nascimento, Lô relatou aos meninos uma realidade de outra época, onde a juventude não podia se reunir nem se expressar e, quando se reunia, vinha cassetete e gás lacrimogêneo em cima. Para rejuvenescer a palestra, contou aos jovens que havia tomado café no dia anterior com Samuel Rosa, do Skank, com quem deve gravar um DVD em setembro. Há 16 anos, os dois se apresentam juntos, mas será a primeira vez em que vão assinar um trabalho autoral.

Ao fazer um balanço sobre o evento, Márcio Borges aproveitou a oportunidade para explicar o porquê de os sonhos nunca envelhecerem: “Nossas músicas são como filhas, a quem dedicamos nossa vida a construir e a fazer sentido. Elas foram feitas há 45 anos, mas seguem caminhando no mundo à nossa revelia, passando de pai para filho e de filho pra os netos, criando um caminho próprio. Quero agradecer a cada um de vocês, um por um, que nos proporcionaram grande emoção”.

Ao ser chamado para descer do palco e posar para a foto entre as crianças, Márcio Borges não pensou duas vezes. Largou o microfone e saltitou os degraus, aboletando-se no meio da garotada. “Poderia ficar aqui até as 18h e nem iria perceber”, comentou ele, que era só sorrisos e gentilezas. Cláudia Brandão observou o marido enlevada com a cena, como se já não estivesse acostumada com o preço da fama. Já a professora Fabiane, ao assistir a tudo, começou a assoviar espontaneamente a letra de Bola de gude, bola de meia, que pode ter sido inspirada nos irmãos Borges.

No meio da multidão, Lô ainda arriscou uns acordes ao violão: “Todo artista tem de estar aonde o povo está”. Os estudantes foram ao delírio. Não há lugar para todos eles na roda. Apesar da diferença de geração, querem chegar perto dos artistas, pegar nos cabelos deles, fazer uma selfie. “Não sei se vou ter outra oportunidade como essa na minha vida, sabe? De chegar tão perto de alguém famoso”, disse Maria Eduarda Rabelo, de 11 anos, que conseguiu autografar o livro.

“Sabe o que percebi? Que as músicas de hoje são muito pesadas e inadequadas para a minha idade. Já as músicas deles me tocaram muito. Dá vontade de ouvir de novo e de ensinar para meus filhos, netos e bisnetos”, disse Lívia Kely, de 11 anos, que transbordou Nos bailes da vida.

sábado, 13 de junho de 2015

FERNANDO BRANT, UM DOS FUNDADORES DO CLUBE DA ESQUINA, MORRE EM BH

O mineiro de Caldas morreu após complicações em uma cirurgia de fígado.
O corpo do músico mineiro será enterrado neste sábado, segundo irmã.



Integrantes do movimento Clube da Esquina. Da esq para dir: Toninho Horta, Nelson Angelo, Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Beto Guedes. (Foto: Fábio Motta/Estadão Conteúdo)



Morreu na noite desta sexta-feira (12) o compositor e músico Fernando Brant, aos 68 anos. Um dos mineiros mais importantes para a música nacional, fundador do movimento Clube da Esquina, Brant morreu por volta das 21h30, no Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte, após complicações por uma cirurgia de fígado.

De acordo com Ana Brant, irmã do músico, ele foi submetido a uma cirurgia que precisou ser refeita 48 horas depois. Ele não resistiu ao segundo procedimento.

Natural de Caldas, Fernando Brant nasceu em Caldas em outubro de 1946. Em 1967, compôs sua primeira música, "Travessia", que se tornou um sucesso nacional na voz de Milton Nascimento. Bituca, como Milton é carinhosamente chamado, foi um dos parceiros mais importantes da carreira de Brant. Entre outros companheiros estão os irmãos Borges, Beto Guedes, entre outros.

O corpo de Fernando Brant será enterrado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, neste sábado.

Fonte: G1 MG

sábado, 7 de abril de 2012

ESTADO DE MINAS LOCALIZA TONHO E CACAU, A DUPLA QUE ESTAMPOU A CAPA DO CLUBE DA ESQUINA HÁ 40 ANOS

Por Ana Clara Brant e Carlos Marcelo


Ainda mais rápidos do que o habitual, os passos do editor de Cultura, João Paulo Cunha, na manhã de terça-feira, só poderiam significar duas coisas: ou algum artista importante tinha morrido ou… “Achamos os meninos!”. João Paulo acabara de saber que a repórter Ana Clara Brant e o fotógrafo Túlio Santos tinham cumprido a missão que lhes foi confiada na semana passada: percorrer os arredores de Nova Friburgo e localizar, 40 anos depois, os dois garotos que aparecem na capa do Clube da Esquina. A única referência eram indicações um tanto imprecisas do autor da imagem, o fotógrafo pernambucano Cafi, que clicara os garotos a caminho da fazenda da família de um dos letristas do disco, Ronaldo Bastos, e jamais havia os reencontrado.

Munida de cartazes com a reprodução da fotografia, a dupla chegou à Região Serrana do Rio de Janeiro e saiu em busca do objetivo. Conversou com mais de 50 moradores da região. Suposições, negativas, dúvidas… até que uma das entrevistadas, Beth, bateu o olho na foto e, sem hesitar, identificou os garotos. Vieram outras confirmações e o trabalho passou a ser não só localizá-los, mas promover o inédito reencontro. Às 16h de quarta-feira, a repórter ligou para a redação e, eufórica, anunciou que a missão estava cumprida. Depois de escutar o relato, temperado por surpreendentes coincidências e lances inusitados, perguntei a Ana Clara se havia ficado emocionada com o desfecho da busca. E a resposta não poderia ser mais mineira: “Nó! Tirei até uma foto com eles, uai!”.

Com vocês, a história de dois meninos brasileiros que partilharam pães e sonhos numa estrada de terra no início dos anos 1970. Lô e Bituca? Não, Tonho e Cacau. Essa é uma história de poeira, espelho, vidro e corte. Mas é, acima de tudo, uma história com gosto de sol.


Nova Friburgo - Você já ouviu falar em Tonho e Cacau? Ou quem sabe em José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira? Provavelmente não, mas certamente já deve ter se deparado com a fotografia deles por aí. Isso porque os dois Antônios ilustram a capa de um dos discos mais importantes da história da música brasileira: o Clube da Esquina. Passados 40 anos que a câmera de Carlos da Silva Assunção Filho, o Cafi, registrou os dois meninos sentados na beira de uma estrada de terra perto de Nova Friburgo, Região Serrana do Rio, o Estado de Minas conseguiu localizá-los depois de uma busca que envolveu dezenas de pessoas e teve histórias saborosas.

Durante bom tempo, muita gente chegou a achar que as duas crianças da capa do LP seriam Milton Nascimento e Lô Borges, mas os próprios artistas sempre desmentiram. “A gente chegou a ir atrás deles, mas era muito difícil localizá-los. Eles devem ter caído no mundo”, declarou Cafi antes de a reportagem botar o pé na estrada rumo a Nova Friburgo. Na verdade, “Lô” e “Milton” praticamente nunca deixaram a região conhecida como Rio Grande de Cima, na zona rural da cidade fluminense, onde nasceram e cresceram.

José Antônio Rimes tem 47 anos e curiosamente exerce o ofício de recompositor, responsável por encaixotar, organizar e distribuir as mercadorias na seção de congelados de um supermercado da cidade. Apesar de a reportagem ter percorrido quilômetros até chegar a Tonho, como é conhecido, ele trabalha a um quarteirão do hotel onde estávamos hospedados. O encontro com o “menino branquinho do disco”, como ficou conhecido, foi cercado de expectativas. Os colegas do supermercado já sabiam da história e quando o recompositor chegou até se assustou: “Que tanto de gente é essa? Por que está todo mundo parado?”, espantou-se. Quando viu a capa do disco, não titubeou: “Oh, sou eu e o Cacau. Como é que vocês conseguiram isso? Quem tirou essa foto? Eu me lembro desse dia”, revelou.

Antônio Rimes recorda que estava brincando em um morro de terra removida pelos tratores que ficava próximo a um campinho de futebol, quando Cafi e Ronaldo Bastos passaram dentro de um Fusquinha. “Alguém do carro me gritou e eu sorri. Estava comendo um pedaço de pão que alguém tinha me dado, porque eu estava morrendo de fome, e para variar descalço. Até hoje não gosto muito de usar sapato. Mas nunca soube que estava na capa de um disco. A minha mãe vai ficar até emocionada. A gente nunca teve foto de quando era menino”, disse Tonho, que nunca ouviu falar em Milton Nascimento, tampouco em Clube da Esquina. “É aquele moço que foi ministro?”, indagou.

Já Antônio Carlos Rosa de Oliveira, de 48 anos, o Cacau, conta que não se lembra do exato momento da foto, mas que anos depois, quando morava em Macaé, no litoral norte do estado do Rio, se deparou com a capa do Clube da Esquina em uma loja de discos e desconfiou que se tratava dele mesmo. “Coloquei a mão sobre a minha foto e fiquei reparando aquele olhar. Achei que era eu mesmo e acabei comprando o CD, porque o LP não tinha mais. Até queria um para poder guardar”, frisa Cacau, que durante toda a reportagem não se desgrudou do álbum que pertence a um dos jornalistas do Estado de Minas . “Vou roubar este pra mim”, brincou.

Cacau e Tonho nasceram na fazenda da família Mendes de Moraes, na zona rural de Nova Friburgo, onde os pais trabalhavam como lavradores. Não desgrudavam um do outro e aprontavam bastante, segundo o relato de parentes e vizinhos que ajudaram a reconhecê-los. Jogavam futebol, bola de gude, pegavam frutas nas vendas da região, nadavam na prainha do Rio Grande e nas cachoeiras. Ficaram muito próximos até os 20 anos, quando as famílias acabaram se mudando para bairros diferentes de Nova Friburgo. Tonho ainda vive na cidade com a mãe, a esposa e as duas filhas, mas Cacau se mudou recentemente para Rio das Ostras, na Região dos Lagos, onde presta serviços como jardineiro e pintor.

Mesmo morando a 100 quilômetros de Nova Friburgo, topou reviver com o amigo a clássica fotografia da capa do Clube da Esquina. Não foi fácil localizar o exato lugar, já que a região do Rio Grande sofreu muito com os efeitos da tragédia de janeiro do ano passado e com o tempo. “Isto aqui mudou demais, então não dá para precisar. Quarenta anos não são 40 dias”, filosofou Cacau. Apesar do sol escaldante e da posição desconfortável, eles não se importaram de posar para a máquina fotográfica. “Quer que eu tire o sapato pra ficar parecido? Adoro ficar descalço mesmo! Se tiver um pão, também pode me dar”, pediu Tonho, dando gargalhadas. 

Surpresa


A princípio, Tonho e Cacau ficaram ressabiados com a história de estamparem a capa de um LP e ao saber que a imprensa estava atrás deles. As famílias também desconfiaram. A mãe de Tonho, dona Aparecida Rimes, de 69 anos, a toda hora ligava para saber do filho, com receio de ele ter sido sequestrado. “A gente nunca viu isso por aqui. Mas agora que vocês chegaram à cidade estão dizendo que meu filho está até no computador. Fico preocupada”, admitiu a aposentada.

Cacau revela que só se deslocou de Rio das Ostras para Nova Friburgo porque achava que tinha alguma pendenga familiar para resolver. “Pensei que era coisa de pensão de ex-mulher. Essas coisas. Não acreditei muito nessa conversa de repórter não”, justificou o jardineiro, que é fã de MPB e conhece a obra de Bituca. “Gosto muito de Canção da América. É muito bonita. Mas o que vai acontecer agora que o povo vai descobrir que esse menino do disco não é o Milton Nascimento? Será que vão achar ruim comigo?”, questionou receoso.

Apesar de não compartilharem a intimidade de outrora, vez por outra eles se esbarram por Nova Friburgo e colocam o papo em dia. “A gente não tem tempo, fica nessa correria de trabalho, família. Eu fico no serviço das 6h às 18h, então complica demais encontrar com o pessoal. Cada um tomou o seu rumo, mas sempre que a gente se vê é uma farra. Amigo é amigo, né? Para toda a vida”, destacou Tonho.


Cara do Brasil

Autor da imagem original, o fotógrafo pernambucano Cafi conta como nasceu o clique: “A gente ficava andando com o Fusquinha do Ronaldo (bastos) pelas estradas, tirando foto de nuvens, porque a gente ia criar a nossa empresa, Nuvem Cigana. Uma das nuvens, inclusive, está no encarte do Clube da Esquina”. Ao ver os meninos, decidiu fazer o registro: “Foi como um raio”, lembra Cafi. “ É uma imagem forte. A cara do Brasil. E foi na época em que vários artistas estavam exilados fora daqui. E tinha essa coisa da amizade presente também. O Milton adorou a foto e ela acabou indo para a capa”, relembra Cafi, 61 anos, radicado no Rio de Janeiro.


O clube da busca

Foram necessárias, pelo menos, 53 pessoas para chegar até os dois “garotos”. Porém, algumas tiveram um papel fundamental. O desenrolar do fio da meada se deu quando, a pedido do Estado de Minas, um jornalista de Nova Friburgo, Wanderson Nogueira, anunciou na rádio local sobre a procura. Uma ouvinte da região, a costureira Rogéria dos Santos, de 56 anos, entrou em contato com a reportagem, comunicando que nunca tinha ouvido falar da história do disco, mas conhecia muitos moradores da zona rural que poderiam auxiliar na busca.

Rogéria dos Santos nos levou até a auxiliar de produção Gilcelene Tomaz Ferreira, de 33 anos, pois muitos da cidade desconfiavam que o menino negro do Clube seria alguém da família dela, filho de Severino, um antigo lavrador. Por indicação da mãe de Gilcelene, Helena, chegamos até Erasmo Habata, floricultor da região. Com o LP na mão, assegurou: “Este pretinho não é filho do Severino. Mas este mais branquinho é filho do Laerte Rimes, um lavrador da região. E deve ser o Tonho”, frisou. Outras indicações – pistas falsas – nos levaram a checar várias pessoas, entre elas um paciente internado em clínica psiquiátrica e até um foragido da Justiça.

Na manhã seguinte, partimos atrás de um casal que morou mais de 30 anos na região e conhece todo mundo: a dona de casa Elizabeth Fernandes Silva, de 58 anos, e o pedreiro Fernando da Silva, de 62. “Na época, a dona Querida, que é a mãe do Ronaldo e do Vicente Bastos, lá da Fazenda Soledade, nos mostrou essa foto num pôster. Sempre soube que eram o Tonho e o Cacau. Não temos dúvidas que são eles, porque eles viviam juntos pra cima e pra baixo”, apontou Beth. “Os dois conservam aquele jeitinho. São eles sim e acho que eles vão ficar muito felizes”, opinou Fernando. E em menos de 24 horas, com a ajuda da população local, finalmente estava desvendado a identidade dos dois meninos da capa do Clube da Esquina. “A gente fica até emocionado. Eles mereciam ser descobertos. É um reconhecimento mesmo com tanto tempo”, resumiu Rogéria dos Santos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A VOZ DA BATERIA MINEIRA

Considerado por muitos como o maior nome da bateria de Minas Gerais, Esdras Ferreira deixa de lado todo a sua excelência e virtuosismo para dar essa belíssima entrevista.

Por Eduardo Tristão Girão

Criado em terreiro de candomblé, o baterista Esdra Ferreira bebeu nas fontes do jazz, do samba e do congado para criar sua inconfundível batida.
Com cerca de três décadas de carreira, o baterista Esdra Ferreira, belo-horizontino do Barro Preto, já tocou com praticamente todas as estrelas mineiras, além de Dominguinhos, Nana Caymmi, Paulinho da Viola e João Nogueira.


Eduardo Tristão Girão - Há músicos na sua família?
Esdra "Nenem" Ferreira - Profissionais, como eu, não. Mas quase todos os tios e primos tocavam alguma coisa. Meu pai cantava muito bem, tinha voz bonita. Toda a família dele gostava de cantar, de jazz, de Nat King Cole, de Frank Sinatra e de Billie Holiday. Já a parte da minha mãe é o povo do samba. São de Diamantina. Ela tocava quase todos os instrumentos de percussão, pois foi fundadora de uma das primeiras escolas de samba de Minas Gerais, a Monte Castelo. Com ela aprendi a parte do samba. Meus tios tocavam trompete. Fui criado nesse meio.

ETG - Quando você começou a se envolver com música?
ENF - Quando fui morar na casa da minha tia, no Bairro Colégio Batista, aos 7 anos. Por problemas de saúde, minha mãe não pôde cuidar de mim e me entregou para essa tia, que tinha um centro de candomblé. Ela era babalorixá, a manda-chuva do lugar. Lá comecei a brincar com o atabaque. Achava bonito, tinha ritmo, pois vinha da escola de samba da mamãe. Pequenininho, já a via tocar surdo, tamborim, tantã. Era natural. Foi uma experiência muito rica, pois aprendi vários ritmos e formas de tocar. Inclusive, aprendi o jeito primitivo de tocar, com aquela força.

ETG - Quando veio a bateria?
ENF - Passando pela Praça do México, no Bairro Concórdia, vi um cara tocando bateria. Achei absurdo um cara conseguir tocar aquele monte de coisas que formam a bateria. Era do outro mundo. Quando me mudei para o Alto dos Pinheiros, passei a frequentar o baile do Clube Recreativo. Não ia dançar, mas olhar o baterista. Ficava do lado dele. A bateria ficava num porão o dia inteiro e pedi para praticar enquanto o pessoal não estivesse ensaiando. Comecei assim, sozinho. E aprendi.

ETG - Você teve professor?
ENF - Tive, mas muitos anos depois. Foi o Emílio Gama. Ele foi meu professor técnico e o Laércio Vilar, professor intelectual. Percebi que tinha de estudar depois de receber muitas críticas das pessoas, quando me apresentava na boate Sucata. Era o bar da noite. Só fechava às 5h, 6h. Todo mundo ia para lá, inclusive o Laércio Vilar. Me criticavam muito por não ter técnica, ser muito bruto. Minha base, na verdade, era a do tambor, que é muito diferente. Bateria tem técnica especial, como tudo. Encontrei o Emílio quando ele veio do Rio de Janeiro ensinar aqui, na Ordem dos Músicos. Laércio me aconselhou a fazer o curso. O problema era a técnica correta, que eu não sabia usar. Eu e vários bateristas jovens fizemos esse curso. Estudei técnica, estudo até hoje e vou estudar eternamente. No dia em que parar, já era.

ETG - É preciso praticar todos os dias?
ENF - É bom. Todo instrumento deve ser praticado diariamente. É claro que, quando você está esgotado, não convém. Tudo tem limite. Quando a gente é mais jovem, estuda mais, mas é preciso manter, tocando e estudando. Estudar não é só a coisa de técnica. Para mim, o momento de estudo é de criação. Com os rudimentos que toco ao estudar, vou bolando várias coisas rítmicas e melódicas. Assim, a gente se prepara para se apresentar em público, o legal da história.

ETG - Quem foi o seu grande mestre?
ENF - No geral, foi o Laércio Vilar. O primeiro que me fez enxergar os outros bateristas do mundo. Ele e outro amigo nosso, o baterista Dinelli, que hoje é advogado. Íamos para a casa do Dinelli, no Padre Eustáquio, ouvir os grandes mestres, pois não tínhamos radiola. Ouvíamos Elvin Jones, meu grande mestre, Art Blakey, Max Roach e Buddy Rich. Os mais novos também, como Jack Dejohnette, meu ídolo maior na atualidade, Billy Cobham, Steve Gadd, Philly Jo Jones e Tony Williams. São caras criativos, inventaram o que o mundo todo copia. Criaram vários estilos. Nessa mesma época, também tive ídolos brasileiros, músicos que ouvi muito lá na casa do Dinelli, como Edson Machado, Airto Moreira, Dom Um Romão, Paulo Braga e Robertinho Silva. São meus ídolos.

ETG - O que está presente no seu toque de bateria?
ENF - A coisa africana, por causa dos tambores, a escola de samba e o congado. Participei disso tudo. Além do toque jazzístico das músicas que ouvia com meus pais, de Nat King Cole e de Count Basie. Então, é tudo misturado: o lado africano com a paixão pelo jazz e as coisas brasileiras, pois sou brasileiro, graças a Deus, com baião, xaxado, maracatu, samba e samba de roda.

ETG - É possível falar em estilo brasileiro de tocar bateria?
ENF - Sim. Isso começa pelo fato de que samba é um estilo em si. Só o baterista com estilo e sangue brasileiros consegue tocar samba com o nosso suingue. Mesmo assim, não são todos. É cultural, está no ar, na comida, nas pessoas, nas conversas. É coisa pura brasileira, assim como baião, choro e guarânia mineira.

ETG - Você é ogã. O que significa isso?
ENF - No meu caso, graças a Deus, é o seguinte: ogã, numa casa de candomblé em que se pratica iorubá, é o responsável pelo toque de chamado dos orixás, é o coração do candomblé, daquele momento de transe. Ele canta as cantigas em dialeto iorubá para a manifestação dos orixás. É uma pessoa muito responsável. Existe uma hierarquia: ogã alabê é o que canta, que tira a zuela. O ogã rum e o rumpi são os tambores médio e menor, respectivamente. Todos com funções independentes, cada um faz uma coisa para o todo da orquestra de tambores. Ogã é uma espécie de sacerdote, ligado ao dono do candomblé. Tudo dele é com o ogã, responsável pelo toque; se está bom, se é regular, se está mal tocado ou cantado. É complexa a coisa.

ETG - Musicalmente isso te influência?
ENF - Muito, pois ouvi demais as cantigas de candomblé e fiz um trabalho em cima disso com o flautista Mauro Rodrigues, a Suíte para os orixás. No meu toque, isso tudo está presente.

ETG - "Suíte para os Orixás" é seu único trabalho autoral lançado?
ENF - Por enquanto, é. Há o projeto de fazer um disco solo meu, com composições minhas e de compositores que quero interpretar. Este ano ou no ano que vem.

ETG - Como você compõe?
ENF - Canto uma melodia, ponho o ritmo e alguém coloca a harmonia para mim – Mauro Rodrigues, Beto Lopes ou Juarez Moreira, por exemplo. Sempre coloco o ritmo para eles. É uma troca, não é? Estou errado? (risos)

ETG - O que você vê de tendência na cena musical belo-horizontina?
ENF - Tenho gostado da garotada que vai ao Conservatório Music Bar, onde toco semanalmente. Fica lotado de gente que gosta de tudo que é bem tocado, bom e, principalmente, brasileiro. As pessoas se voltaram para a música brasileira com muita força. Os jovens estão se interessando mais por forró, samba, bossa nova, Clube da Esquina, Tropicália. Toda a vida, os ritmos brasileiros foram ricos, tocados por muitas pessoas. Mas, de uns anos para cá, essa tendência se fortaleceu. Por exemplo: tocamos jazz e, quando tocamos samba ou baião, parece que gostam mais. O negócio não era assim, era mais americanizado.

ETG - O que te vem à cabeça quando pensa na expressão música mineira?
ENF - Hoje ela é, com certeza, uma das músicas mais respeitadas e apreciadas no mundo. Principalmente depois do Clube da Esquina. Já fui ao Japão e à Rússia com o Toninho Horta. Viajei muito com Milton Nascimento e Beto Guedes, além do Marku Ribas, cuja música não tem muito a ver com o Clube, mas é respeitadíssima no mundo. Isso é um todo. No Japão, com o Toninho, a gente tem de fazer duas sessões por dia, de tanta gente que quer ouvi-lo. As pessoas me param para perguntar quando é que o Lô Borges, o Beto Guedes, o Flávio Venturini, o Juarez Moreira vão para lá. Todos os lugares por onde a gente viaja são assim. No Brasil, então, nem se fala. A música mineira está num momento maravilhoso. Mesmo depois do Clube da Esquina, continua muito bem com Skank, Jota Quest, Pato Fu, Flávio Henrique, Kadu Viana, Vítor Santana e Mariana Nunes.

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