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quinta-feira, 28 de abril de 2016

PALHAÇO CAREQUINHA, UMA DÉCADA DE SAUDADES

Por Fabrício Lima



O palhaço Carequinha


Quando pensamos em circo no Brasil, fica impossível não lembrar da figura encantadora e engraçada do palhaço Carequinha, ídolo durante décadas da criançada obediente. Carequinha nasceu George Savalla Gomes, no dia 18 de julho de 1915, na cidade de Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro. Este fluminense, filho dos trapezistas Elisa Savalla e Lázaro Gomes, teve a sina de nascer no circo, berço da história de vida daquele que chegou a ser considerado o melhor palhaço do mundo.

Reza a lenda, contada por ele mesmo nas entrevistas ao longo de sua carreira, que sua mãe sentiu as contrações do parto enquanto caminhava no arame, em pleno picadeiro. Levada às pressas para as barracas que serviam de camarim, Elisa deu à luz o filho nos bastidores do Circo Peruano, pertencente a José Rosa Savalla, avô materno de George que, com 2 anos, perdeu o pai e foi criado pelo padrasto Ozório Portilho que o encaminhou para a profissão de palhaço.

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Quando George tinha 5 anos, Portilho colocou uma careca postiça em sua pequena cabeça e disse: “Você será o palhaço Carequinha”. Este foi o ponto de partida de um dos maiores mitos mundiais das artes circenses. Com sua maneira peculiar de fazer rir, Carequinha aos poucos foi conquistando o coração das pessoas com bordões já imortalizados como: “Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor! E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher!”.

Criou o tradicional “Tá certo ou não tá, garotada?”, que era respondido sempre com um empolgante “Táááááá!”, em uníssono. Aliás, as crianças caíram definitivamente nas graças de Carequinha quando ele se tornou o primeiro palhaço a ter um programa – o Circo Bombril, que ficou no ar de 1951 a 1964, na extinta TV Tupi no Rio de Janeiro – junto com os parceiros Fred, Zumbi, Meio-Quilo e outros.

Carequinha inovou o conceito do palhaço no circo mundial. Tratado anteriormente como bobo, ingênuo e imaturo, o palhaço, na sua interpretação, ganhou novos ares: “Fiz uma nova escola. Antes de mim, o palhaço levava farinha na cara, era o bobo, só apanhava. Eu fiz o palhaço-herói, modifiquei o estilo. A intenção era fazer do palhaço um ídolo, e não um mártir”.

Em 1964 recebeu na Itália a medalha de ouro de Palhaço Moderno do Mundo. Devido ao seu sucesso, Carequinha ficou famoso entre os presidentes brasileiros e tornou-se amigo de Juscelino Kubitschek. Na década de 80, apresentouO Circo Alegre, na TV Manchete, programa que antecedeuO Clube da Criança, de Xuxa Meneghel. Em 2001 atuou naEscolinha do Professor Raimundo, da Rede Globo. Gravou 27 LPs e participou de cinco filmes.

Foi um lutador na área circense, sempre citando em suas entrevistas a necessidade da ajuda do Governo para a preservação do circo no Brasil. Por ironia do destino, não conseguiu que nenhum dos filhos o seguisse na profissão. Isto o fez cumprir a promessa de trabalhar até morrer. Carequinha faleceu aos 90 anos, no dia 5 de abril de 2006, no município de São Gonçalo (RJ), em decorrência de problemas cardíacos. Ao conceder uma entrevista ao jornalO Estado de S. Paulo, em 2001, Carequinha declarou: “O palhaço típico, aquele que nasce com o dom, morre comigo”.


Saiba mais sobre George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha:

TORRES, Antônio.O Circo no Brasil.Rio de Janeiro: Funarte; São Paulo: Atração, 1998.

CARVALHO, Raimundo.Circo Universal. Belo Horizonte: Dimensão, 2000.

CASTRO, Alice Viveiros de.O Elogio da Bobagem: Palhaços no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Família Bastos, 2005



Fonte: Funarte

sábado, 5 de setembro de 2015

GEORGE SAVALLA GOMES, O CAREQUINHA, “TÁ CERTO OU NÃO TÁ, GAROTADA?” (100 ANOS)

Depois de trazer os dez anos de saudades de Arrelia, vale relembrar este outro artista circense que marcou gerações em nosso país. Para relembrar o famoso palhaço o Musicaria Brasil republica uma reportagem sobre o artista que saiu, originalmente, em 2000 pela passagem dos 85 anos de idade de George Savalla Gomes, o Carequinha

Por Márcia Montojos e André Durão



Primeiro palhaço da televisão brasileira, George Savalla Gomes, o Carequinha, continua em plena atividade aos 85 anos. Todos os fins de semana, ele faz apresentações em alguma cidade do País, por um cachê de R$ 1 mil. “Tá certo ou não tá, garotada?”, repete, com o mesmo entusiasmo da época em que estreou o Circo Bombril, em 1951, na inauguração da extinta TV Tupi. Foram 13 anos de programa ao vivo com os companheiros Fred, Zumbi e o anão Meio Quilo. “Eles fizeram a maior besteira que poderiam ter feito: morreram”, diz, com seu incansável bom humor.

Em 1964, quando saiu da Tupi, foi à Itália receber o título de Palhaço Moderno do Mundo, prêmio conferido pelo governo daquele país. Ele diz ter sido o primeiro a imprimir esperteza ao personagem. “Fiz do palhaço um herói, um ídolo, e não um bobo que só levava farinha na cara”, explica Carequinha, cidadão honorário de oito capitais brasileiras.

O palhaço que fez rir sete gerações de crianças não ficou rico. Ele ganha R$ 1.100 de aposentadoria. Na confortável casa de três quartos, em São Gonçalo, no Rio, moram três de seus quatro filhos, Marlene, Wellington e Sílvia Cristina. “Isso é mania de quem sempre viveu em circo”, comenta. O outro filho de Carequinha chama-se Tayrone. O palhaço tem cinco netos e três bisnetos.

Carequinha surgiu quando o menino George tinha cinco anos e seu padrasto, Osório Portírio, dono de circo, pôs uma peruca careca na cabeça do garoto. E sentenciou. “A partir de hoje você é o Carequinha.” Ele gostou da idéia, sentiu que tinha o dom para fazer rir e não parou mais. Hoje usa tintas apropriadas para maquiar-se, mas houve um tempo em que seu nariz era feito com chiclete mastigado, moldado e pintado, que durava cerca de 90 dias. “Tinha de ser de hortelã, porque o de tutti frutti não dava liga.”

A origem circense acompanha três gerações da família. Seu avô materno era dono de circo no Peru. Sua mãe, Elisa, nascida no Brasil, era trapezista e malabarista. Foi numa das viagens de Carequinha com o circo do padrasto que ele conheceu a mulher, Eufídia Gomes. O encontro deu-se em Poços de Caldas (MG). “Conheci, namorei e casei em quinze dias”, conta. O casal comemorou uma união de 58 anos. Mas o palhaço nunca quis ter seu próprio circo nem que sua mulher ou filhos se dedicassem ao picadeiro. “A vida de artista é muito difícil no Brasil.”




MARCHA POLÊMICA

A saída de Carequinha do picadeiro para a televisão aconteceu por acaso. Em 1950, chegou ao Rio de Janeiro o circo italiano Sarranzi. Os proprietários abriram vagas para alguns brasileiros. E ele foi um dos escolhidos. Depois de um ano de sucesso no Sarranzi, em São Paulo, foi chamado para comandar o programa na Tupi, onde ficou até 1964. Carequinha também fez parte do primeiro elenco da Rede Manchete, inaugurada em 1981. Ficou quase três anos no ar até ser substituído peloClube da Criança, apresentado por Xuxa. Ele diz que não suportou o ritmo de gravações diárias do programa, que tinha Marlene Mattos como assistente de direção. “Era muito estressante”, diz. “A Xuxa é muito bonitinha, mas quem inventou brincar com crianças na televisão foi o Carequinha”, afirma.

O palhaço também se aventurou na carreira fonográfica. Foram 20 discos gravados. Seu primeiro grande sucesso foi em 1958, com a música “Fanzoca de Rádio”, de Miguel Gustavo. Era uma marchinha de carnaval que vários cantores da época se recusaram a gravar. A letra ironizava as donas de casa e empregadas domésticas que paravam o serviço para ficar ouvindo seus ídolos no rádio. Entre eles, a letra mencionava Emilinha Borba, o que causou grande alvoroço.

Diante da polêmica, Emilinha teve de ir às emissoras defender Carequinha e dizer que se sentia homenageada com a música. Como resultado, a música foi a campeã do Carnaval daquele ano, estourando nas rádios do Brasil.

Diretor do Sindicato dos Artistas Circenses, Carequinha desaprova o uso de animais nos atuais espetáculos de circo. “Antes, usavam, no máximo, pombas adestradas”, conta. Ele acredita que os bichos provocam medo nas crianças e considera perigosa a proximidade com a platéia. Também lamenta que os proprietários não sejam artistas, mas empresários. Mas não deixa de aplaudir Beto Carrero e o Circo Garcia, que apresentam superproduções para o público.

“As pessoas querem as novidades”, diz. “Por isso os circos de lona de antigamente não fazem mais sucesso.” Nomes como Arrelia, Piolim, Picolino, Torresmo e Chimarrão são lembrados com admiração, respeito e um pouco de saudosismo por ele. “O palhaço perdeu espaço para a tecnologia.

P.S. - O palhaço mais famoso do Brasil foi premiado na Itália, gravou 20 discos, emplacou marchinhas carnavalescas nas paradas de sucesso e trabalhou com Marlene Mattos na extinta Rede Manchete

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