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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

NELSON FERREIRA: 40 ANOS DO ADEUS DO DONO DA MÚSICA PERNAMBUCANA

Maestro marcou a cultura do estado durante seis décadas

Por José Teles


O maestro Nelson Ferreira à frente de sua orquestra, 1950


Nelson Heráclito Alves Ferreira, nasceu em 9 de dezembro de 1902, em Bonito, no agreste pernambucano, numa família musical. O pai Luiz Alves Ferreira, comerciário, foi um violonista competente. A irmã mais velha, Laura, por exemplo, deu a Nelson Ferreira as primeiras aulas de piano, seu instrumento ao longo de quase 60 anos de carreira, contados a partir da impressão da primeira composição, aos 14 anos, a valsa Vitória. A música foi uma encomenda da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. As irmãs Ladyclaire e Olga Linda formariam, já nos tempos do rádio, a dupla Lady e Linda.

A família mudou-se para o Recife, quando a mãe do compositor, a professora Josefa Torres Ferreira foi transferida para a capital, e foram morar no Bairro de São José, um dos focos do Carnaval recifense. Os genitores o queriam professor, mas o garoto preferia o piano, ou jogar de goleiro nas peladas da campina 13 de Maio. Os estudos, na Escola Normal Oficial, ficavam em terceiro plano. Não terminou o curso, foi arrastado pela música, depois de publicar a primeira composição. Aos 18 anos, os jornais já o tratavam por “maestro”. O sucesso de Nelson Ferreira podia ser medido pelo anúncio, nos jornais, em janeiro de 1920, da sexta edição de sua valsa Milusinha. Na década de 20, o “insigne maestro” Nelson Ferreira dirigia a orquestra que tocava durante a exibição dos filmes no Moderno, o cinema da elite pernambucana (começou a tocar em cinemas em 1917, no Cine Pathé) Era também um dos mais requisitados autores de trilhas de musicais e dramas teatrais.

Nelson Ferreira pairou sobre o show business pernambucano da década de 20 até meados dos anos 70. Uma característica comum a quase todos os grandes compositores, maestros, do frevo, a fidelidade atávica ao Recife. Nelson só se ausentou por mais tempo da cidade duas vezes. Em agosto de 1922, como músico de bordo, do Caxias, viajou para a Alemanha. Passou três meses longe de Pernambuco. Ficou mais cinco meses fora, no Rio, tocando no Cine-Teatro-Central, no Centro da então capital da República (funcionava no mesmo prédio do lendário Café - na verdade Leiteria - Nice).



Ao contrário de seu amigo/rival Lourenço da Fonseca Barbosa, Capiba, que, mesmo que imensamente talentoso, não dependia financeiramente da música, Nelson Ferreira sempre foi um músico profissional. Compunha profusamente, e a inspiração podia vir espontaneamente ou por encomenda. Borboleta Não É Ave, que tem a primazia de ter sido o primeiro frevo gravado, composto para uma agremiação que ajudou a fundar, o Bloco Concórdia. Coincidentemente, o cantor que faria no fim da vida um frevo para a Bahia, foi gravado pela primeira vez por um baiano, Manuel Pedro dos Santos (1870/1944), o Bahiano, um dos primeiros astros do disco no Brasil. 


O DONO DA MÚSICA 

Nos anos 60, como diretor artístico da Rozenblit, Nelson Ferreira era cognominado “O Dono da Música”, pejorativamente, pelos autores que não conseguiam ter suas músicas selecionadas pelo maestro. Mas ele se “apoderou” da música pernambucana em junho de 1931, quando foi contratado para dirigir a orquestra da Rádio Clube, formada por músicos escolhidos, em sua maioria por ele. Como todo poderoso diretor artístico da emissora, cargo que assumiu em 1934, idealizava programas e sugeria ou definia contratações. Uma de suas decisões foi, em 1947, contratar Claudionor Germano como cantor solo, tirando-o do grupo Azes do Ritmo. Mais tarde, escolheria o cantor para gravar os dois mais emblemáticos LPs de frevo lançados pela Rozenblit, em 1959, para o Carnaval de 1960: Capiba 25 anos de Frevo, e O Que Eu Fiz e Você Gostou, com composições suas. 

Mas seu maior sucesso aconteceu há 60 anos, com o frevo de bloco Evocação, gravada com o Coral do Batutas de São José, uma música tão popular em Pernambuco quanto Vassourinhas. Gravada em 1956, para o Carnaval de 1957, Evocação, com uma letra que nem os próprios pernambucanos entendiam bem, estourou no Carnaval Carioca, e daí Brasil afora. Foi o mais bem sucedido frevo gravado na Rozenblit. Ele compôs outras seis evocações (estas numeradas). A sétima delas tem o subtítulo de Ruas da Minha Infâncias. 

Famoso pelos frevos canção, Nelson Ferreira, que não achava que dominava o frevo instrumental, é autor de alguns dos mais perfeitos exemplares do gênero. Dois deles, Gostosão e Isquenta Muié, já o colocariam em destaque como compositor de frevo de rua. Mas ele foi também um dos mais inventivos arranjadores da música brasileira. Como diretor da Rádio Clube ou da Rozenblit, criou incontável número de arranjos, que não se preocupava em guardar. Fazia-os com extrema facilidade, e deixava-os sobre o piano, no estúdio, e quase todos jogados no lixo pelo da faxina, testemunham os músicos e cantores que conviveram com ele. 

Nelson Ferreira, “O Moreno Bom”, epíteto como também o tratavam na imprensa, foi o dono da música até o final dos anos 60, quando a Rozenblit iniciou seu caminho para a falência, e o rádio passou a tocar todo tipo de sucesso no Carnaval. Nelson Ferreira continuou trabalhado no que mais gostava: animar festas. Com sua sempre azeitada orquestra tocou até o fim. Quando faleceu tinha vários bailes agendados para o Carnaval de 1977. 

O progresso teimava em tirar de linha gênios feito ele. E melhor metáfora para esta luta contra a mudança dos tempos aconteceu em 1974, quando foi notificado de que a casa onde morava desde 1937, seria demolida para a abertura da Avenida Mario Melo (inspiração da Evocação nº3). Saiu de lá com a família para um apartamento tão pequeno que não tinha espaço para o piano. Só viveria mais dois anos. sua última composição, feita para mais um LP Capital do Frevo, intitula-se Vamos Aprender a Amar o Recife.

sábado, 17 de dezembro de 2016

MÚSICAS DE NELSON FERREIRA AINDA EMBALAM CARNAVAIS, 40 ANOS APÓS A MORTE DO COMPOSITOR

Autor da 'Evocação nº1' também foi diretor da Rádio Clube e da fábrica de discos Rozenblit, em Pernambuco


Por Isabelle Barros 


Há quarenta anos, a música de Pernambuco ficou em tom menor.


Em 1976, o maestro Nelson Ferreira morreu e levou com ele um talento musical prodigioso, que deu origem a cerca de 600 composições, entre eles frevos ouvidos até hoje nas ruas, casas e clubes. Se nomes como Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon ainda são lembrados, é por causa dele e de sua composição mais famosa, Evocação nº 1. No entanto, a importância de Nelson Ferreira não se resume às suas composições e ao seu talento como pianista e arranjador - como se isso fosse pouco. Ele foi o responsável por revelar talentos e desbravar um espaço novo para a música pernambucana como diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco e da Fábrica de Discos Rozenblit. Na primeira, impulsionou carreiras como a de Sivuca (1930-2006), que ficou grato a Nelson até o fim de sua vida, e, na segunda, gravou frevos que não estariam registrados se não fossem pela sua ligação umbilical com a música pernambucana.

Nelson Ferreira já era um compositor e pianista bastante conhecido no Recife, onde morava desde um ano de idade, antes de entrar na Rádio Clube de Pernambuco, em 1931. A emissora era a única do Nordeste e o rádio começava a se popularizar como meio de comunicação. A versatilidade do músico, por sua vez, havia sido moldada após sua experiência como pianista do cinema mudo. “O trabalho musical era, na maioria das vezes, feito de improviso, para acompanhar as cenas mais distintas de comédias, dramas e romances”, explica o pesquisador Renato Phaelante. Precoce, já havia composto e editado, aos 14 anos, a valsa Vitória, para a Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. Nessa época, ele também tinha a seu favor a gravação de Borboleta não é ave, em 1923, o primeiro frevo registrado pela indústria fonográfica, e várias músicas que ficavam na boca do povo durante os Carnavais. 

No entanto, para a jornalista e biógrafa de Nelson Ferreira, Angela Fernanda Belfort, a incursão na rádio foi uma virada fundamental. “Ao meu ver, a maior contribuição dele à cultura não foi como compositor, mas como diretor artístico da Rádio Clube, a partir de 1934. Quando ele assumiu o cargo, abriu as portas da rádio para um grupo que compunha frevos de primeira. Nelson Ferreira massificou o ritmo e a emissora tinha uma audiência enorme enquanto ele ocupou essa função. Com a execução nas rádios, surgiu um mercado local e, por isso, o frevo não se tornou uma música de gueto”. A versatilidade dele também transpareceu nas outras funções exercidas na empresa: produtor, arranjador, apresentador do programa A hora azul das senhorinhas e até radioator, além de conduzir a orquestra da estação. Fora da rádio, ainda encontrava tempo para incursões nas artes cênicas, contribuindo com músicas para o Grupo Gente Nossa, fundado por Samuel Campelo, e com o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP).

A visibilidade de Nelson como diretor artístico na Rádio Clube o levou a desempenhar a mesma função na Fábrica de Discos Rozenblit a partir da fundação da gravadora, em 1953. Lá, teve a mesma atitude que balizou sua atuação na rádio: se cercou dos melhores músicos disponíveis e, generosamente, deu espaço a outros gêneros musicais pernambucanos. “Nelson contribuiu para a divulgação de compositores como Antônio Maria, Aldemar Paiva, Luiz Bandeira, José Menezes. Ele também abriu espaço para a música folclórica e regional, focalizando cirandas, cantadores de coco, violeiros, repentistas, aboiadores, tornando mais importante o trabalho desses abnegados”, lembra Phaelante.

Em paralelo às suas atribuições, Nelson nunca deixou de compor. “Ele tinha uma facilidade enorme para isso, assim como Capiba”, pontua Angela Belfort. A relação entre os dois compositores de frevo mais famosos de Pernambuco é um ponto que ainda deixa margem a versões divergentes. No livro Nelson Ferreira, o dono da música, a biógrafa afirma que havia uma rivalidade cordial entre eles. Por sinal, os dois nunca fizeram parceria em nenhuma música. “Eles se tratavam muito bem, eram amigos”, afirma Luiz Carlos Ferreira, único filho de Nelson. Já o cantor Claudionor Germano, que gravou dezenas de músicas de ambos, apresenta outro ponto de vista. “Existia, sim, uma certa disputa entre eles. Um falava do outro e eu ficava no meio”.

Além de dar espaço a artistas locais, o compositor também usou as instalações da Rozenblit para escoar sua própria produção de frevos, fossem eles antigos ou novos. Foi justamente tendo Nelson Ferreira como diretor artístico da gravadora que a empresa emplacou seu maior sucesso em 1957: o frevo-de-bloco Evocação, posteriormente rebatizada com o nome de Evocação nº1 já que, estimulado pelo sucesso dessa música, compôs mais seis canções com a mesma temática. “Ele tinha saudade das canções entoadas pelos blocos carnavalescos dos anos 20, que mal conseguiam sobreviver nos anos 50. Foi esta a inspiração para a música. O compositor não achava que esse frevo-de-bloco ia vender, mas, ao vencer um concurso da Rádio Nacional, ele estourou no Brasil inteiro”, detalha Angela. 

Nos últimos anos de vida, Nelson se preocupava com os destinos da música local. Ao se aposentar da Rádio Clube, em 1968, montou a Orquestra Nelson Ferreira, mas a concorrência com a música vinda do Sudeste, especialmente o samba, e a crise da Rozenblit, debilitada após sucessivas enchentes que danificaram suas instalações, não lhe eram favoráveis. Mesmo assim, se manteve ativo, compondo e à frente de sua orquestra até pouco tempo antes de falecer. Em 21 de dezembro de 1976, foi a vez de Nelson ser alvo de evocações e homenagens. No cortejo para seu enterro, compareceram mais de duas mil pessoas. Entre elas, Evocação nº 1, sua ode ao Recife e ao Carnaval. 


DEPOIMENTOS:

MAESTRO EDSON RODRIGUES

"Ele realmente foi o dono da música. Ninguém gravava nada sem passar por ele. Eu era um ilustre desconhecido quando ele pôs meu frevo Duas épocas no disco Sua excelência, o frevo de rua, em 1965. Este foi o meu primeiro contato com Nelson. Era um cara muito jovem, uma pessoa com um humor espetacular. Quando Nelson morreu, fui chamado para liderar a Orquestra Nelson Ferreira, e eu entrei em contato com uma faceta desconhecida para mim: ele não sabia dizer não. Era legal demais e um defensor intransigente das coisas de Pernambuco. Ao tomar conta da orquestra dele, tinha o dever de seguir com sua bandeira. Ele lutou o bom combate. O frevo não vai morrer, mas lamentavelmente as rádios não tocam. Não se sabe o que não se ouve e, se não se ouve o frevo, ninguém vai saber o que ele é. Abrimos a guarda e tomaram conta do nosso Carnaval. É um crime de lesa-cultura que está acontecendo em Pernambuco."


CLAUDIONOR GERMANO

O cantor estabeleceu uma relação longeva com Nelson Ferreira. Em 1963, o artista gravou um LP de 78 rotações que se tornou o primeiro lançamento do selo Mocambo, da Fábrica de Discos Rozenblit, com o frevo-de-rua Come e dorme e o frevo-canção Boneca, composto por Aldemar Paiva e José Menezes. “Nelson colaborou comigo em 60 músicas. Frequentei muito a Rádio Clube quando Nelson Ferreira era diretor artístico e cheguei a ser crooner da orquestra liderada por ele. Lembro que ele ficava danado da vida porque eu não acompanhava o grupo nas viagens que a orquestra fazia, já que constituí família muito cedo e tinha de fazer trabalhos paralelos para me sustentar. Após uma premiação, foi ele quem me disse que eu deveria fazer carreira solo. Ele era delicado, humilde, se vestia muito bem e era festejado onde quer que passasse". 


LUIS CARLOS FERREIRA, FILHO DE NELSON FERREIRA

O único filho de Nelson Ferreira, Luiz Carlos Ferreira, recebeu a reportagem em seu apartamento, no Bairro da Boa Vista. Este foi o imóvel onde o maestro passou seu último ano de vida, após ter sua casa desapropriada pela Prefeitura do Recife para o alargamento da Avenida Mário Melo, em Santo Amaro. No lugar exato do imóvel, foi criada uma praça em homenagem ao músico.

"Ele era uma pessoa que tinha uma inteligência muito forte e foi subindo gradativamente de posição social. Pessoas como ele fazem muita falta quando se vão. Ele veio do nada, mas era extremamente comunicativo, talentoso e, com isso, ganhou muitos amigos. Ele era muito bem-humorado, gostava muito de trocadilhos, mas, se ele não gostava de alguém, não tinha jeito de fazê-lo falar. Ele era muito rigoroso com a música e desagradava muita gente por causa disso. Meu pai sempre me educou bem e, o que é importante, sempre viveu de música. Sua contribuição para o frevo foi muito forte - suas músicas não morrem".


LINHA DO TEMPO
1902 - Nasce, em Bonito (PE), Nelson Heráclito Alves Ferreira
1916 - Teve sua primeira música editada, a valsa Vitória
1917 - Começa a carreira como pianista de orquestra no cinema Pathé, na Rua Nova
1923 - Nelson Ferreira tem sua primeira composição gravada, Borboleta não é ave, que é também o primeiro frevo gravado em disco
1931 - É contratado como funcionário da Rádio Clube de Pernambuco
1934 - É promovido a diretor artístico da Rádio Clube, posto que ocupou por 15 anos
1953 - Assume a direção artística da Fábrica de Discos Rozenblit
1957 - Estoura o maior sucesso do compositor, Evocação nº 1, com o qual fez sucesso no Brasil inteiro
1968 - Se aposenta da Rádio Clube
1976 - Morre de aneurisma em 21 de dezembro


FONTE: Livro Nelson Ferreira, o dono da música, de Angela Fernanda Belfort

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

MÚSICAS DE NELSON FERREIRA AINDA EMBALAM CARNAVAIS, 40 ANOS APÓS A MORTE DO COMPOSITOR

Autor da 'Evocação nº1' também foi diretor da Rádio Clube e da fábrica de discos Rozenblit, em Pernambuco

Por Isabelle Barros





Há quarenta anos, a música de Pernambuco ficou em tom menor. Em 1976, o maestro Nelson Ferreira morreu e levou com ele um talento musical prodigioso, que deu origem a cerca de 600 composições, entre eles frevos ouvidos até hoje nas ruas, casas e clubes. Se nomes como Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon ainda são lembrados, é por causa dele e de sua composição mais famosa, Evocação nº 1. No entanto, a importância de Nelson Ferreira não se resume às suas composições e ao seu talento como pianista e arranjador - como se isso fosse pouco. Ele foi o responsável por revelar talentos e desbravar um espaço novo para a música pernambucana como diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco e da Fábrica de Discos Rozenblit. Na primeira, impulsionou carreiras como a de Sivuca (1930-2006), que ficou grato a Nelson até o fim de sua vida, e, na segunda, gravou frevos que não estariam registrados se não fossem pela sua ligação umbilical com a música pernambucana.


Nelson Ferreira já era um compositor e pianista bastante conhecido no Recife, onde morava desde um ano de idade, antes de entrar na Rádio Clube de Pernambuco, em 1931. A emissora era a única do Nordeste e o rádio começava a se popularizar como meio de comunicação. A versatilidade do músico, por sua vez, havia sido moldada após sua experiência como pianista do cinema mudo. “O trabalho musical era, na maioria das vezes, feito de improviso, para acompanhar as cenas mais distintas de comédias, dramas e romances”, explica o pesquisador Renato Phaelante. Precoce, já havia composto e editado, aos 14 anos, a valsa Vitória, para a Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. Nessa época, ele também tinha a seu favor a gravação de Borboleta não é ave, em 1923, o primeiro frevo registrado pela indústria fonográfica, e várias músicas que ficavam na boca do povo durante os Carnavais. 

No entanto, para a jornalista e biógrafa de Nelson Ferreira, Angela Fernanda Belfort, a incursão na rádio foi uma virada fundamental. “Ao meu ver, a maior contribuição dele à cultura não foi como compositor, mas como diretor artístico da Rádio Clube, a partir de 1934. Quando ele assumiu o cargo, abriu as portas da rádio para um grupo que compunha frevos de primeira. Nelson Ferreira massificou o ritmo e a emissora tinha uma audiência enorme enquanto ele ocupou essa função. Com a execução nas rádios, surgiu um mercado local e, por isso, o frevo não se tornou uma música de gueto”. A versatilidade dele também transpareceu nas outras funções exercidas na empresa: produtor, arranjador, apresentador do programa A hora azul das senhorinhas e até radioator, além de conduzir a orquestra da estação. Fora da rádio, ainda encontrava tempo para incursões nas artes cênicas, contribuindo com músicas para o Grupo Gente Nossa, fundado por Samuel Campelo, e com o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP).

A visibilidade de Nelson como diretor artístico na Rádio Clube o levou a desempenhar a mesma função na Fábrica de Discos Rozenblit a partir da fundação da gravadora, em 1953. Lá, teve a mesma atitude que balizou sua atuação na rádio: se cercou dos melhores músicos disponíveis e, generosamente, deu espaço a outros gêneros musicais pernambucanos. “Nelson contribuiu para a divulgação de compositores como Antônio Maria, Aldemar Paiva, Luiz Bandeira, José Menezes. Ele também abriu espaço para a música folclórica e regional, focalizando cirandas, cantadores de coco, violeiros, repentistas, aboiadores, tornando mais importante o trabalho desses abnegados”, lembra Phaelante.

Em paralelo às suas atribuições, Nelson nunca deixou de compor. “Ele tinha uma facilidade enorme para isso, assim como Capiba”, pontua Angela Belfort. A relação entre os dois compositores de frevo mais famosos de Pernambuco é um ponto que ainda deixa margem a versões divergentes. No livro Nelson Ferreira, o dono da música, a biógrafa afirma que havia uma rivalidade cordial entre eles. Por sinal, os dois nunca fizeram parceria em nenhuma música. “Eles se tratavam muito bem, eram amigos”, afirma Luiz Carlos Ferreira, único filho de Nelson. Já o cantor Claudionor Germano, que gravou dezenas de músicas de ambos, apresenta outro ponto de vista. “Existia, sim, uma certa disputa entre eles. Um falava do outro e eu ficava no meio”.

Além de dar espaço a artistas locais, o compositor também usou as instalações da Rozenblit para escoar sua própria produção de frevos, fossem eles antigos ou novos. Foi justamente tendo Nelson Ferreira como diretor artístico da gravadora que a empresa emplacou seu maior sucesso em 1957: o frevo-de-blocoEvocação, posteriormente rebatizada com o nome de Evocação nº1 já que, estimulado pelo sucesso dessa música, compôs mais seis canções com a mesma temática. “Ele tinha saudade das canções entoadas pelos blocos carnavalescos dos anos 20, que mal conseguiam sobreviver nos anos 50. Foi esta a inspiração para a música. O compositor não achava que esse frevo-de-bloco ia vender, mas, ao vencer um concurso da Rádio Nacional, ele estourou no Brasil inteiro”, detalha Angela. 

Nos últimos anos de vida, Nelson se preocupava com os destinos da música local. Ao se aposentar da Rádio Clube, em 1968, montou a Orquestra Nelson Ferreira, mas a concorrência com a música vinda do Sudeste, especialmente o samba, e a crise da Rozenblit, debilitada após sucessivas enchentes que danificaram suas instalações, não lhe eram favoráveis. Mesmo assim, se manteve ativo, compondo e à frente de sua orquestra até pouco tempo antes de falecer. Em 21 de dezembro de 1976, foi a vez de Nelson ser alvo de evocações e homenagens. No cortejo para seu enterro, compareceram mais de duas mil pessoas. Entre elas, Evocação nº 1, sua ode ao Recife e ao Carnaval. 


DEPOIMENTOS:

MAESTRO EDSON RODRIGUES
"Ele realmente foi o dono da música. Ninguém gravava nada sem passar por ele. Eu era um ilustre desconhecido quando ele pôs meu frevo Duas épocas no disco Sua excelência, o frevo de rua, em 1965. Este foi o meu primeiro contato com Nelson. Era um cara muito jovem, uma pessoa com um humor espetacular. Quando Nelson morreu, fui chamado para liderar a Orquestra Nelson Ferreira, e eu entrei em contato com uma faceta desconhecida para mim: ele não sabia dizer não. Era legal demais e um defensor intransigente das coisas de Pernambuco. Ao tomar conta da orquestra dele, tinha o dever de seguir com sua bandeira. Ele lutou o bom combate. O frevo não vai morrer, mas lamentavelmente as rádios não tocam. Não se sabe o que não se ouve e, se não se ouve o frevo, ninguém vai saber o que ele é. Abrimos a guarda e tomaram conta do nosso Carnaval. É um crime de lesa-cultura que está acontecendo em Pernambuco."


CLAUDIONOR GERMANO
"O cantor estabeleceu uma relação longeva com Nelson Ferreira. Em 1963, o artista gravou um LP de 78 rotações que se tornou o primeiro lançamento do selo Mocambo, da Fábrica de Discos Rozenblit, com o frevo-de-rua Come e dorme e o frevo-canção Boneca, composto por Aldemar Paiva e José Menezes. “Nelson colaborou comigo em 60 músicas. Frequentei muito a Rádio Clube quando Nelson Ferreira era diretor artístico e cheguei a ser crooner da orquestra liderada por ele. Lembro que ele ficava danado da vida porque eu não acompanhava o grupo nas viagens que a orquestra fazia, já que constituí família muito cedo e tinha de fazer trabalhos paralelos para me sustentar. Após uma premiação, foi ele quem me disse que eu deveria fazer carreira solo. Ele era delicado, humilde, se vestia muito bem e era festejado onde quer que passasse". 


LUIS CARLOS FERREIRA, FILHO DE NELSON FERREIRA
O único filho de Nelson Ferreira, Luiz Carlos Ferreira, recebeu a reportagem em seu apartamento, no Bairro da Boa Vista. Este foi o imóvel onde o maestro passou seu último ano de vida, após ter sua casa desapropriada pela Prefeitura do Recife para o alargamento da Avenida Mário Melo, em Santo Amaro. No lugar exato do imóvel, foi criada uma praça em homenagem ao músico.

"Ele era uma pessoa que tinha uma inteligência muito forte e foi subindo gradativamente de posição social. Pessoas como ele fazem muita falta quando se vão. Ele veio do nada, mas era extremamente comunicativo, talentoso e, com isso, ganhou muitos amigos. Ele era muito bem-humorado, gostava muito de trocadilhos, mas, se ele não gostava de alguém, não tinha jeito de fazê-lo falar. Ele era muito rigoroso com a música e desagradava muita gente por causa disso. Meu pai sempre me educou bem e, o que é importante, sempre viveu de música. Sua contribuição para o frevo foi muito forte - suas músicas não morrem".




LINHA DO TEMPO
1902 - Nasce, em Bonito (PE), Nelson Heráclito Alves Ferreira
1916 - Teve sua primeira música editada, a valsa Vitória
1917 - Começa a carreira como pianista de orquestra no cinema Pathé, na Rua Nova
1923 - Nelson Ferreira tem sua primeira composição gravada, Borboleta não é ave, que é também o primeiro frevo gravado em disco
1931 - É contratado como funcionário da Rádio Clube de Pernambuco
1934 - É promovido a diretor artístico da Rádio Clube, posto que ocupou por 15 anos
1953 - Assume a direção artística da Fábrica de Discos Rozenblit
1957 - Estoura o maior sucesso do compositor, Evocação nº 1, com o qual fez sucesso no Brasil inteiro
1968 - Se aposenta da Rádio Clube
1976 - Morre de aneurisma em 21 de dezembro


FONTE: Livro Nelson Ferreira, o dono da música, de Angela Fernanda Belfort

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