PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

Mostrando postagens com marcador Geraldo Maia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Geraldo Maia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

GERALDO MAIA LANÇA AVIA; DISCO POLÍTICO, MAS LÍRICO

Álbum é o décimo primeiro da carreira do músico pernambucano e é coproduzido com Juliano Holanda e Breno Lira. 

Por Kalor Pacheco



É verdade que o cantor Geraldo Maia não é intérprete somente, embora prefira cantar do que qualquer outro fazer musical. Quando ele diz “Avia amor / que a vida arde”, logo na faixa-título que abre o seu novo disco, Avia, atesta o quanto a sua voz toma para si as atmosferas narrativas. “Tem músicas que são exatamente aquilo o que eu diria e acabou se revelando meu e puramente meu, sem ‘pretensiosismos’”, diz ele. 

O 11º álbum de Geraldo traz, além de sua incontestável voz, os acordes do violão dele em praticamente todas as músicas – Se Me Quer Bem, de Silvério Pessoa, e Afiado, de Tibério Azul, são as exceções. Ao amigo Everardo Norões, com quem Geraldo nunca havia composto, além do incentivo, credita-se quatro letras: Bicho-gente, Rock do Ofício, O Olho do Menino e Goiaba. “Ele me instigou a escrever um disco novo. Porque ele sempre me incentiva na coisa da composição, sempre me achou um bom compositor e fico um pouco negligenciando isso. Eu disse ‘faz uma letrinha’, e ele mandou Goiaba. E musiquei num estalo. A letra me bateu de uma forma imediata, ou seja, com a forma que normalmente penso a melodia. Então a melodia saiu num fôlego só. Fiz, no outro dia liguei. Ele gostou e começou a me mandar as outras.”

Co-produzido com Breno Lira e com o artista múltiplo Juliano Holanda, parceiro de longa data de Geraldo, Avia reúne ainda como letristas Marcelo Pereira, editor deste Caderno C – com a dobradinha O Filósofo no Trapézio e Por que?, esta com a participação do rapper Zé Brown, cujos improvisos foram gravados em São Paulo, sob recomendação do autor. E também Paulo Marcondes e Xico Bizerra, além do seu companheiro há 24 anos, John Holtappel, que escreveu Changes, como que numa brincadeira pessimista com The Times They Are A-Changin (cantada por Bob Dylan, em 1964). A foto do casal, num sítio em Taquaritinga, ilustra uma das páginas do encarte, assinado por Luis Arraes e viabilizado graficamente pela Cepe.

“Avia foi literalmente feito a partir do meu crowdfunding pessoal. Fiz uma campanha com familiares e amigos mais íntimos, uma coisa com três dúzias de amigos (todos que estão nos agradecimentos, com exceção de John, Marcelo Soares e Ricardo Melo). Cada cota era de R$ 100 e cada um comprou duas, três ou quatro cotas. Foi feito sem incentivo cultural oficial”, revela Geraldo, que teve também o apoio do Musak nas horas de gravação no estúdio e finalização.

Ao longo de sua trajetória musical, percebe-se o apreço de Geraldo pela música mais enxuta, e talvez por isso mais compenetrante. “Queria que Avia fosse simples, despojado, minimalista, com o mínimo de texturas possível. As letras são muito boas e tem uma harmonia perpassando todo o disco. Tenho essa coisa do menos... o menos é mais.” Foi assim, por exemplo, quando o próprio dividiu A Deusa da Minha Rua com o violonista Yamandu Costa ou no disco voz e violão com as 7 cordas Vinícius Sarmento.

Ao contrário de Peso Leve, o seu primeiro CD mais autoral, que abre ruidoso como Estrondo, Avia busca a suavidade do minimalismo. Isso pode ter algo a ver com a sua límpida voz, que na maior parte dos casos dispensa informações e texturas musicais demasiadas. Assim sendo, dividiu-se Avia em duas nuances principais, explica Geraldo: “O primeiro momento do disco reflete essa angústia. Passei para os letreiros essa coisa de não saber pra onde vamos – politicamente, sociologicamente, filosoficamente. Acho que a gente está num momento muito estranho e acho que o disco busca refletir um pouco sobre isso. E depois ele ganha mais um viés mais poético. Não há antagonismo, as duas partes se complementam – a política e a lírica”.

A partir da música Olho de Menino, como se fosse um vinil a mudar de lado – relembrando, quem sabe, Cena de Ciúme, seu LP de estreia –, o disco flerta com o lirismo. No entanto, percebe-se as inquietações e provocações políticas do início ao fim de Avia. Exemplo: na voz de Aninha Martins, quando O Filósofo no Trapézio retoma como vinheta, ele quis algo mais firme e visceral: “Queria uma voz mais rasgada possível. Um timbre que, guardando as proporções, tivesse aquela explosão de Janis Joplin”.?

LinkWithin