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quarta-feira, 4 de março de 2020

DISCO REÚNE PEÇAS PARA CORDAS ESCRITAS POR ANDRÉ MEHMARI

Os universos erudito e popular dialogam no álbum 'Música para cordas', do Selo Sesc, dirigido pelo maestro e spalla Emmanuele Baldini. Faixas homenageiam Monteverdi, Shostakovitch e Vivaldi


O compositor e pianista André Mehmari se destaca nos cenários erudito e popular (foto: Elcio Paraíso/divulgação)


Há alguns momentos em que não sabemos se estamos no universo da música popular ou de concerto. “Essa é, na verdade, uma das principais virtudes dessa música”, diz o violinista e maestro Emmanuele Baldini, que assina a direção de um disco recém-lançado pelo Selo Sesc, dedicado a obras do compositor André Mehmari.

“A liberdade é justamente uma das marcas do trabalho de André”, afirma Baldini. Música para cordas nasceu da ideia de Mehmari de reunir em um só álbum peças do gênero escritas por ele, cobrindo o período que vai de 2006, ano de Shostakovitchiana, até 2015, quando estreou Música para harmônica e cordas. O repertório chama a atenção pela enorme variedade. “Uma das marcas de Mehmari é o poliestilismo, a multiplicidade de vozes”, explica Baldini.

Ballo, escrita a pedido da São Paulo Companhia de Dança, evoca o compositor barroco Claudio Monteverdi, uma das paixões de Mehmari, que batizou com o nome do italiano seu estúdio, em São Paulo, onde o disco foi gravado.

Vivaldi aparece em Strambotti, peça para clarinete, acordeom e cordas. Por sua vez, Shostakovitchiana, encomendada pela Orquestra de Câmara do Amazonas, homenageia o compositor Dmitri Shostakovich, mas o faz, à certa altura, em diálogo com o choro.


PARCERIAS 

Além da orquestra formada especialmente pelo projeto, o álbum reúne importantes solistas, com quem Mehmari tem uma importante relação profissional: o gaitista José Staneck (na faixa Música para harmônica e cordas), o clarinetista Gabriele Mirabassi e o acordeonista Christian Riganelli (em Strambotti), o fagotista Fabio Cury e a harpista Paola Baron (Concerto para fagote, cordas e harpa), o percussionista Sergio Reze e o contrabaixista Neymar Dias (Concerto para jazz trio e cordas).

“As partituras são sempre bem escritas, originais. Quando Mehmari se inspira em outros compositores, percebe-se um respeito incrível, as liberdades que ele toma estão sempre dentro dos limites do bom gosto, nunca passam do ponto”, diz Baldini. “Quando você considera peças como o Concerto para jazz trio, há quase um sentido de improvisação, mas tudo está ali escrito. Essa também é uma virtude: o trabalho artesanal único unido à liberdade de improvisação, que é a melhor herança da música popular brasileira e sua capacidade de sempre soar nova.”


Spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), Baldini tem atuado como maestro nos últimos anos – dirige, no Chile, a Orquestra de Câmara de Valdívia e recentemente passou a trabalhar com a Orquestra Sphaera Mundi, de Porto Alegre, dedicada ao repertório barroco.

“A visão polifônica do maestro, a visão do todo de uma partitura, abriu muito meus horizontes musicais. Sinto que, como músico e violinista, sou extremamente mais rico desde que comecei a trabalhar como maestro”, explica.


BACH 

Nessa missão dupla, Baldini vai gravar, em Porto Alegre, um disco com os concertos de Bach. Aliás, o compositor é parte de um novo projeto com Mehmari. Outro projeto do maestro, também pelo Selo Sesc, é o álbum com sonatas para piano e violino de Claudio Santoro, gravadas com Alessandro Santoro, filho do compositor – além das cinco conhecidas, os dois registraram uma sonata inédita.

Também já está pronto, para o selo Naxos, um disco com as sonatas do italiano Wolf-Ferrari. Este mês, Baldini se une ao pianista Pablo Rossi para gravar em Nova York as sonatas para violino e piano de Villa-Lobos, “projeto de sonho para qualquer violinista que atue no Brasil”. 




ANDRÉ MEHMARI: MÚSICA PARA CORDAS
. Selo Sesc
. 23 faixas
. R$ 35
. Disponível em www.sescsp.org.br/livraria e plataformas digitais


Fonte: Estado de Minas

sexta-feira, 12 de maio de 2017

NA CADÊNCIA DO SAMBA


Por José Teles 



Três no Samba seria “apenas” um ótimo disco de sambas, com André Mehmari, Eliane Faria e Gordinho do Surdo (com selo SESC) se a produção não fosse assinada por João Carlos Botezelli, mais conhecido como Pelão, a quem o epíteto “lenda” não é um clichê surrado. Contra tudo e todos, ele promoveu a estreia em disco de Nelson Cavaquinho e Cartola, e produziu craques como Raphael Rabello e Radamés Gnatalli.

Pelão entende profundamente de música brasileira, conhece como poucos tanto o samba, quanto a música caipira (a que já foi chamada de “sertaneja”), e aparentemente conservador (ele não aprova mesmo é musica ruim), concebeu este Três no Samba com dois instrumentos que raramente caminham juntos, como dupla. num mesmo disco, o piano (de André Mehmari), e o surdo (de Gordinho do Surdo). A voz é de Eliane Faria, cantora já com um bom tempo de estrada, filha de Paulinho da Viola, de quem herdou o timbre suave, e maneirismos no fraseado.

A combinação funciona com perfeição, embora nenhum dos três tivesse trilhado tal caminho antes. André Mehmari confessa que até então nunca tinah tocado estes sambas. Um repertório impecável, que enfatiza a fartura do repertório do gênero, saindo de sucessos e autores óbvios, mas também regravando-os, porém com roupagem que nunca tiveram.


As 12 faixas de Três no Samba formam um todo conceitual, mostram o samba em épocas diferentes, dos enredos pioneiros e antológicos, como Heróis da Liberdade (os portelenses Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, e Manoel Ferreira), ao elegante samba de salão Na Cadência do Samba (de Ataulfo Alves). Entre os autores estão os obrigatórios Cartola, Nelson Cavaquinho, mais também Lupicínio Rodrigues (Esses Moços), Valzinho (Doce Veneno, com Carlos Lentine e M.Goulart), Batatinha (Direito de Sambar) ou Capiba (A Mesma Rosa Amarela, com Carlos Penna Filho), Monarco (O Quitandeiro, inspirado sambão de quadra, com Paulo da Portela).

André Mehmari cria um arranjo para samba (também fez a mixagem e remasterização). Ele se reinventa a cada faixa, não se limita a acompanhar, cria outras melodias, faz citações. Ocupa todos os espaços, e aproxima o piano da percussão, com a marcação discreta do surdo do virtuoso Gordinho. Eliane Faria também não sai do clima camerístico que permeia o álbum. Um disco que converge para o popular e para requinta, e que se escuta como um bálsamo em meio à bagaceira musical que assola o país.

Confiram o making of de Três no Samba:

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ANDRÉ MEHMARI – ODEON

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