Em vários grupos há histórias de superação e transição bem-sucedida entre o velho e o novo
Por Samir Mendes
Reconhecida como uma das maiores bandas do rock brasileiro, os Titãs foram formados em 1982, quando a maior parte dos seus integrantes se conheceu no Colégio Equipe, em São Paulo. No primeiro show do grupo, ainda chamado de Titãs do Iê-Iê, a formação contava com nove integrantes: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto, Tony Belloto, Ciro Pessoa e André Jung. Eventualmente, os Titãs se “estabilizariam” com oito integrantes, com a entrada de Charles Gavin, formação clássica que gravou o clássico Cabeça dinossauro e inúmeros outros hits. Depois de 34 anos, com a saída de Paulo Miklos, anunciada na semana passada, apenas Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belloto permanecemMudanças na formação das bandas ocorrem desde o começo da história da música e se dão por diferentes motivos: ambição, brigas internas, dinheiro ou o famigerado “diferenças musicais irreconciliáveis”. Alguns grupos conseguem fazer a transição entre velhos e novos integrantes sem maiores prejuízos, dando bem-sucedida continuidade a suas carreiras. Outras não superam a perda de talento e, inevitavelmente, começam a lançar trabalhos repetitivos e procuram se reinventar sob diferentes formatos, como acústicos ou turnês em que promovem os velhos sucessos.
Os Titãs, por exemplo, começaram a perder integrantes em 1991, com a saída de Arnaldo Antunes. Anos depois, seguiram o guitarrista Marcelo Fromer (morto em um acidente de moto) e o baixista Nando Reis, que deixou a banda em 2002. Apesar de o grupo ter, naturalmente, sentido a ausência de compositores da qualidade de Antunes e Reis em seus novos trabalhos, os Titãs continuaram a gozar de imensa popularidade em diversos momentos, como quando lançaram o Acústico MTV, em 1995, com os lançamentos do CD e DVD Paralamas e Titãs juntos ao vivo, em 2008, e com o documentário A vida até parece uma festa, em 2009.
Contemporâneos do grupo paulista, os cariocas do Barão Vermelho também tiveram que superar uma grande perda. Enquanto ensaiavam para gravar o quarto álbum, em julho de 1985, ninguém menos que Cazuza, a voz do grupo, e a esta altura já considerado um dos grandes jovens compositores do país, decidiu partir para a carreira solo. Embora os primeiros discos com Frejat nos vocais não tenham sido bem-aceitos por fãs e crítica, o grupo voltou a emplacar sucessos com Carnaval, de 1988, tendência que continuou nos anos 1990, com Amor, meu grande amor, Puro êxtase e Cuidado, entre outras.
“A questão de bandas que perdem integrantes e decidem continuar é algo que precisa ser analisado caso a caso. Os Titãs, por exemplo, apesar de ter perdido Paulo Micklos, integrante essencial para a identidade da banda, vem perdendo integrantes há muito tempo e, mesmo assim, gravaram um dos melhores discos da banda em 2014. Não sei o que vai acontecer com eles daqui para frente, e questiono quando artistas gravam novos álbuns usando o nome clássico, porque aí, está oferecendo para os fãs um produto descaracterizado. Mas enfim, é uma escolha pessoal”, analisa o apresentador e crítico musical Guilherme Guedes.
Guilherme comentou, também, o fato de o músico Sérgio Dias continuar fazendo shows com o nome Mutantes, mesmo sendo o único integrante da formação original. “Ele fundou o grupo com o Arnaldo Baptista e a Rita Lee, mas é parte essencial da história da banda. Se os outros integrantes não querem mais fazer parte disso, ele tem todo direito de continuar esse legado”, opinou.
Na gringa
Não são apenas os brasileiros que sofrem com dramas em suas bandas. Queen, Iron Maiden, The Rolling Stones, Kiss e diversos outros grandes dinossauros do rock tiveram trocas de integrantes bastante traumáticas e bem documentadas ao longo da história.
A recente união entre Axl Rose e AC/DC é um exemplo simbólico de duas bandas lendárias que passaram, ao longo de suas histórias, por intensas reconstruções. Apesar de hoje o Guns n’ Roses na turnê Not in this lifetime, na qual reuniu Slash e o baixista Duff MacKagan com Axl Rose, até alguns meses atrás a banda americana só contava com o vocalista da formação original. A utilização de dezenas de músicos na última década rendeu não só o famigerado disco Chinese democracy, como diversas acusações de que o Guns n’ Roses teria virado um cover de si mesmo.
Apesar da onda de críticas, Axl Rose e Cia. continuaram fazendo turnês pelo mundo e, além de se comprometer com a reunião do Guns n’ Roses, o vocalista também emprestou seus talentos para o AC/DC em breve turnê europeia. Axl substituiu Brian Johnson, que teve que deixar o grupo às pressas devido a graves problemas de audição. O próprio Johnson já era um substituto ao entrar na banda em 1980, no lugar de Bon Scott, morto devido ao abuso de álcool. Além da dança de vocalistas, a banda australiana já perdeu o guitarrista Malcom Young e o baterista Phil Rudd, e o baixista Cliff Williams avisou que se aposentará após a atual turnê, só restando Angus Young da formação original.
“O que ocorre com o AC/DC me incomoda mais do que ocorreu com o Guns n’ Roses. Querendo ou não, o vocalista é grande parte da identidade da banda e, apesar de o Angus Young ser um guitarrista icônico, se eles continuarem, será muito mais complicado do que o grupo já foi”, afirmou Guilherme Guedes.
Entre os motivos que levam uma banda a seguir na estrada e produzir trabalhos novos, estão o ganho financeiro e dar a possibilidade de fãs mais jovens assistir às bandas clássicas ao vivo, mesmo em suas versões, digamos, reformadas. No entanto, há grupos que dão prioridade a manter o legado do passado vivo na cabeça dos admiradores. O exemplo mais óbvio é o Led Zeppelin, que desde a morte do baterista John Bonham, vem recebendo ofertas milionárias para se reunir, mas resistem à ideia, principalmente o vocalista Robert Plant. Embora os saudosos e os jovens fãs de rock lamentem a oportunidade perdida, e embora os deuses do rock de outrora envelheçam e, consequentemente, têm suas habilidades diminuídas, fica o consolo de que a música vive para sempre.
Há males...
Há ocasiões em que a saída de membros icônicos acabam funcionando como uma bem-vinda renovação e fonte de inspiração para uma banda. Foi o que ocorreu no começo da década de 1970 com o Deep Purple. O vocalista Ian Gillan e o baixista Roger Glover alegaram cansaço e problemas com Ritchie Blackmore para deixar a banda, apesar de o grupo estar no auge da popularidade. Com David Coverdale e Glenn Hughes, que adicionaram harmonias e elementos de funk e blues, o Deep Purple lançou Burn e Stormbringer, dois dos mais aclamados discos da discografia da banda. “Embora tenha balançado o núcleo da banda, a saída de Gillan e Glover serviu para rejuvenescer o Deep Purple para o lançamento do disco Burn, de 1973, o qual representou melhoria inquestionável em relação aos esforços não inspirados de Who do we think we are”, escreveu o site All Music em sua crítica ao trabalho.
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