PROFÍCUAS PARCERIAS

Gabaritados colunistas e colaboradores, de domingo a domingo, sempre com novos temas.

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

Um bate-papo com alguns dos maiores nomes da MPB e outros artistas em ascensão.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

GRAMOFONE DO HORTÊNCIO

Luiz Gonzaga - NO CEARÁ NÃO TEM DISSO NÃO - Guio de Morais - gravação de 1950



Por Luciano Hortêncio*


"Baião clássico, inesquecível sucesso de Luiz Gonzaga, que o imortalizou na RCA Victor em 10 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 80-0695-B, matriz S-092716." (Samuel Machado Filho)



Canção: No Ceará não tem disso não

Composição: Guio de Morais

Intérprete - Luiz Gonzaga

Ano - 1950

78RPM - 80-0695-B, matriz S-092716


* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 5000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

CURIOSIDADES DA MPB

Quando rebentou a revolução de 1930, Manezinho Araújo viajou com um contingente do Exército. Quando o navio já se aproximava do Rio de janeiro a revolução terminou com a vitória dos liberais. Mas a tropa seguiu até seu destino. Naquela época Manezinho Araújo já era conhecido como cantor de embolada por seus companheiros de farda. Na volta da tropa para o Recife também viajavam no mesmo navio alguns artistas famosos, entre os quais Carmen Miranda, Almirante, Josué de Barros e outros. Foi, então, organizado um show a bordo e Manezinho Araújo dele também tomou parte, por insistência de seus companheiros de farda. E a participação do desconhecido cantor foi um verdadeiro sucesso; todos gostaram de suas emboladas, gênero musical pouco conhecido. 0 sucesso foi tão grande. que Josué de Barros prometeu lançá-lo no mundo artístico da então capital do país.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA

Por DJ Ivan


Luiz Gonzaga – Sanfoneiro macho (1985) (RCA)

Mais um maravilhoso álbum lançado pelo rei do baião, esse disco tem duas particularidades, a primeira é que ele anuncia a participação de Dominguinhos na contra capa, mas ele não aparece em nenhuma faixa cantando, teria ele gravado sanfona? E a segunda é o fato de ter 13 faixas, creio que a última música não era nem pra entrar nesse trabalho, mas como é muito boa acabaram dando um jeito dela caber ali.

Participações especiais de Gal Costa na faixa "Forró nº1" de Cecéu, de Gonzaguinha na faixa “Eu e minha branca” dele em parceria com o pai, de Elba Ramalho na música “Qui nem jiló” de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, e de Glorinha Gadelha e Sivuca na faixa “A mulher do sanfoneiro” de Luiz Gonzaga e João Silva.

Produção executiva de Oséas Lopes e aranjos e regência de Chiquinho do acordeon. Destaque para dois forrós e um baião, respectivamente são “Deixa a tanga voar” de Luiz Gonzaga e João Silva, “Tá bom demais” de Onildo Almeida e Luiz Gonzaga, e “Amei à toa” de João Silva e Joquinha Gonzaga.


Faixas:
01 - Deixa a tanga voar (João Silva – Luiz Gonzaga)
02 - Forró nº1 (Cecéu)
03 - A puxada (João Silva – Luiz Gonzaga)
04 - Sanfoneiro macho (Luiz Gonzaga – Onildo Almeida)
05 - Flor do Lírio (João Silva – Luiz Gonzaga)
06 - Eu e minha branca (Gonzaguinha – Gonzagão)
07 - Maria baiana (João Silva – Zé Mocó)
08 - Qui nem jiló (Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga)
09 - Morena bela (João Silva – Luiz Gonzaga)
10 - Forró do bom (João Silva – Luiz Gonzaga)
11 - Tá bom demais (Luiz Gonzaga – Onildo Almeida)
12 - A mulher do sanfoneiro (João Silva – Luiz Gonzaga)
13 - Amei a toa (João Silva – Joquinha Gonzaga)

ZÉ GONZAGA, UM ARTISTA QUE NÃO DEVIA TER SIDO ESQUECIDO

Por Abílio Neto


O sucesso é mesmo complicado para se entender. Para um, a fama, todas as honras e homenagens, e o relançamento de toda a sua obra, mesmo às vésperas dos catorze anos da sua morte: Luiz Gonzaga. Para outro, embora melhor músico que o irmão, porém com uma voz não tão poderosa, o doloroso esquecimento em vida desde a década de 1970. Falamos de outro Gonzaga bem menos famoso, o Zé. Em 12 de abril de 2004, completaram-se dois anos do seu falecimento. Esquecido e condenado a ter o seu passado musical apagado, pois grande parte do seu acervo está mofando nas prateleiras da EMI, gravadora que comprou a Copacabana. Do restante nem se fala, pois não se sabe onde está. Há preciosos discos de 78 rotações e LPs somente em poder de colecionadores, alguns deles radialistas que fazem dos seus discos troféus para ganhar audiência, embora sejam verdadeiros coveiros culturais.

José Januário dos Santos, conhecido artisticamente como Zé Gonzaga, nasceu em Exu/PE em 15/01/1921 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 12/04/2002, aos 81 anos de idade. Era o mais novo dos cinco homens, dos filhos de Januário, pai de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Tal qual o pai Januário, o irmão Severino, a irmã Chiquinha e o irmão Luiz, Zé tinha um enorme talento musical e sem dúvida foi um dos maiores músicos de sanfona deste País, de todos os tempos. Todos tocavam sanfona de oito baixos, mas somente Luiz e Zé a trocaram por outra de 120 baixos. Zé também foi ótimo compositor. Eram lindas suas harmonias e tinha também talento como letrista. Luiz que era um mestre da sanfona considerava-o também o melhor músico da família que, ao todo, tinha sete artistas entre pai, irmãos e irmãs.

Fugindo da seca do sertão pernambucano, Zé Gonzaga, em 1939 saiu em direção ao sul do País em busca de ajuda dos seus irmãos Joca e Severino que moravam em São Paulo, ou Luiz, no Rio de Janeiro, que não via desde 1930. Não achou os irmãos de São Paulo, escreveu para a mãe, D. Santana, pedindo o endereço de Luiz no Rio de Janeiro. E foi assim que numa manhã de março de 1940, numa pensão situada na Rua São Frederico, 14, no Morro de São Carlos no Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga foi acordado antes da hora por D. Tereza, uma portuguesa, dona da pensão que lhe disse: - Gonzaga, acorda que cá está um gajo a dizer que é teu irmão. Gonzaga que ainda vivia no mangue tocando em praça pública para sobreviver, respondeu:

- Oxente D. Tereza, que diabo é isso?

Aí, tropeçando de sono foi até a porta, reclamando, e deu de cara com um rapaz moreno de olhos azuis iguais ao da sua mãe. Disse José, com quem Luiz sempre teve uma relação de amor e ódio, que ao aparecer aquele negão, de cara redonda, perguntou:

- Você é que é Luiz Gonzaga?

Eu sou José seu irmão, ao que Luiz respondeu:

- E você veio fazer o quê aqui, seu moleque safado que eu não mandei chamar ninguém porque eu estou pior que vocês?

– Eu vim praqui porque tá uma seca danada lá no Sertão e mãe mandou dizer pra tu dar um jeito de ajudar a gente.

De imediato, a ajuda de Luiz foi comprar um colchão para o irmão e pagar pra ele as despesas de hospedagem da pensão. Zé então com 19 anos passou a ajudar o irmão carregando-lhe a sanfona até o Mangue e a passar o pires no recolhimento das gorjetas. Depois com o passar do tempo e tendo Luiz Gonzaga ficado famoso, deu-lhe uma sanfona, o incentivo e abriu os espaços para o novo artista. José, que era exímio sanfoneiro, fez carreira à sombra do irmão, tendo adotado, a pedido deste, o nome artístico Zé Gonzaga. Depois do empurrão do irmão à sua carreira, venceu pelo seu próprio talento. Casou-se, e durante algum tempo Luiz morou com o irmão e a sua esposa Clara. No final da década de 1940, Zé Gonzaga já tocava na Rádio Guanabara e em 1949 gravou o seu primeiro disco de 78 rotações pela Star, o qual continha os choros, Teimoso, de Zé Gonzaga e Vira o Outro Lado, de Cipó. Em 1950 mudou de gravadora e na Odeon gravou o calango Ai Sanfona, de sua autoria e Jeová Rodrigues e a rancheira Bate Sola, da mesma dupla. Em 1951 gravou a batucada Bebida Não Mata Ninguém, de Kid Pepe e Arlindo Caldas e também o xote O Forró de Quelemente, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Em 1951 fez a música Viva o Rei, em parceria com Zé Amâncio, uma homenagem a seu irmão Luiz que tinha sofrido grave acidente de carro, a qual foi gravada pelos dois, fazendo mais sucesso na voz de Luiz. Em 1956 fez enorme sucesso com O Cheiro da Carolina, de sua autoria e Amorim Roxo. Em 1957 formou um conjunto próprio com o qual passou a se apresentar e a gravar por um determinado período. Chegou a gravar um disco somente composto de tangos, gênero musical que executava muito bem na sanfona pela gravadora Phonodisc. Tal qual um cowboy americano, Zé Gonzaga se apresentava todo de preto, porém com chapéu à moda de cangaceiro de Lampião. Usava também lenço no pescoço, cartucheira e revólver.



Zé Gonzaga deixou um legado de inúmeros discos de 78 rotações e 12 LPs gravados entre as décadas de 1940 e 1960. Seus maiores sucessos foram: Chorei Sim(1962), O Sertanejo(1963), Vendedor de Camarão(1962, música que contém uma deliciosa prosa), As Coisas Boas Que Eu Tenho(1962), Roseira do Norte(sua e de Pedro Sertanejo, gravada por Oswaldinho e Sivuca), Pisa na Fulô(1957), Barba de Bode(1958), Sanfoninha de Oito Baixos(1958), Baile da Tartaruga(1963), Estrada da Vida(S/D), O Cheiro da Carolina(1956), Viva o Rei(1951), Bebida Não Mata Ninguém(1951), Madalena(1953), Pensando Nela(1963), Não Corto Nem Penteio(1963), Recordando Januário(1963), Sanfoneiro Gordo(1964), Estrada Velha da Pavuna(1964),Vida de Cigano(1964), Margarida(1963), Ninon(S/D), Galope à Beira Mar(S/D), Januário Criou Fama(S/D), Encontro com Lampião(S/D), Gamação(S/D) e Areia do Mar(S/D).

Pelas andanças no Recife teve contato com o frevo e gravou de forma magistral o frevo mais conhecido do carnaval de Pernambuco, Vassourinhas. Também compôs belos frevos como Pernambuquinha(1960), Frevinho na Roça(1959) e Vai que é Mole(1963). Gravou também a famosa marchinha carnavalesca dos Irmãos Valença, de Pernambuco, chamada Você Não Gosta de Mim(1962). Apesar de ter a voz nasalada como o irmão Luiz, Zé era um cantor muito afinado, mas o seu sucesso mesmo vinha do seu instrumento: com a sanfona fazia o que bem queria e com ela gravou verdadeiras obras primas: O xamego Aperriado, o forró Recordando Januário, o frevo Vassourinhas, o xote Xote das Mulheres, o baião Fim de Mundo, o forró Segura Ele, o baião Luizinho Dançando, o frevo Frevinho na Roça e o choro Estrada Velha da Pavuna.

Em agosto de 1952 Zé Gonzaga participou da famosa excursão de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, à Paris para se apresentar no castelo de Coberville, fato que lhe rendeu outra briga homérica com o irmão porque Zé foi em seu lugar, pois Luiz havia brigado com Chateaubriand. Na França fez tanto sucesso que por lá permaneceu até o final de 1952, tendo feito show até no elegante cassino de Deauville.

O acervo de 78 rotações de Zé Gonzaga foi gravado pela Star, Odeon, Continental, Guanabara e Copacabana. Os LPs foram gravados pela Copacabana, Japoti, Beverly, Phonodisc e Cantagalo.

Zé Gonzaga morreu ressentido pelo fato de ter sido esquecido, de não ter sido procurado por gravadora e nem por promotores de eventos culturais, desde o fim da década de 1970. Também levou o coração magoado pelo não reconhecimento da crítica ao seu trabalho como músico e compositor. A grande mídia de hoje não sabe quem foi Zé Gonzaga. Até do irmão famoso disse ao jornalista Assis Ângelo, o homem que mais entende de forró no País: “Luiz não era tudo isso que se diz dele, não”.

Zé casou-se, mas passou pouco tempo casado. Como o irmão Luiz, era também muito alegre e conquistador. Teve inúmeros casos amorosos, mas demonstrava não ser feliz. Na verdade, era uma pessoa muito só. Não deixou filhos.Tinha adotado há vários anos a religião espírita. Sem dúvida, a sua sanfona, e a sua alegria faz enorme falta. Zé tinha uma puxada de fole ímpar jamais igualada por nenhum outro sanfoneiro mesmo os atuais. Talvez a música que diga muito dos seus sentimentos seja Estrada da Vida, de sua autoria:

Andei,
Pela Estrada da Vida
Na esperança de um dia
Encontrar um amor

Fiquei,
No meio da encruzilhada
A estrada fechada
E o meu sonho se acabou

Hoje,
Sei que estou condenado,
A viver desprezado,
Sem ninguém me querer
Ah Deus,
O que é que eu hei de fazer?

Zé Gonzaga foi sepultado no cemitério de Duque de Caxias/RJ, na baixada fluminense, onde residia. Entre os amantes do forró que conheceram o seu trabalho, deixou muita saudade, pois nunca houve um sanfoneiro como ZÉ GONZAGA.

terça-feira, 23 de junho de 2015

LENDO A CANÇÃO

Por Leonardo Davino*




Por que cantar os clássicos? Sempre que me deparo com a regravação de uma canção canonizada - devidamente guardada na memória da história da canção e no afeto dos ouvintes - faço-me essa pergunta.

Será porque "tudo só se acha no passado", como Tom Zé afirma a cerca altura do filme Palavra encantada? Mas "o novo sempre vem", como diz o sujeito de "Como nossos pais", de Belchior. Salvo engano, acredito que o segredo está na união destas duas pontas da vida. O fato é que para o bem e para o mal há um vazio profundo na subjetividade do indivíduo latino-americano e isso se reflete na arte: no canto do povo deste lugar.

Cantar a vida é necessidade básica do indivíduo latino-americano. E ser um cantor aqui é ser antropófago: consciente de ser um devorador de canções. A musa latino-americana é híbrida e o cancionista atento a isso equilibra e canta “de um lado este carnaval / do outro a fome total”.

Ou seja, para que uma regravação obtenha relevância é preciso que ela ilumine lugares ainda não tocados pela própria canção; forje o efeito especial do ineditismo; promova, pelo empenho do cancionista, sensações novas; e imponha uma releitura do conhecimento: crie novidades - o velho-novo, de novo, em diferença.

Dito isso, a versão que Otto (trilha sonora da telenovela Cordel Encantado, 2011) oferece para "Carcará", de João do Vale e José Cândido, é metacanção. Egresso da cena Mangue beat, e já detentor de uma assinatura cancional própria, Otto sabe que o cancionista latino-americano é carcará: pega, mata e come canções para devolver à cultura - repor na linha evolutiva - uma canção que nunca termina de dizer algo novo.

Ao mesmo tempo em que emula versões anteriores, Otto se posiciona como parceiro criador e criativo de "Carcará". Clássico na voz da médium das sereias Maria Bethânia, com Otto "Cárcara" ganha áres de peleja: trilha sonora das emboscadas do cangaço, da movimentação do indivíduo nordestino, brasileiro.

A "Carcará" de Otto plasma uma barraca de cordéis - a métrica da letra e o arranjo ajudam isso - de alguma feira do interior na parede da memória do ouvinte: gesto vocal e melodia estão a serviço da manutenção de uma mitologia nordestina, latino-americana, quiçá, universal: o eterno retorno, em diferença. "O sertão aceita todos os nomes", diz o Riobaldo de Grande sertão: veredas, para mais adiante afirmar que o sertão "está movimentante todo-tempo".

Se o sujeito da canção não está no sertão - o "lá" indica isso -, e usa elementos urbanos - "avoa que nem avião" - para conseguir comunicação com seu interlocutor distante das realidades do lugar, Otto, sem rancor esterilizante, mergulha na tradição, remexe significantes e oferece uma nova canção: sertaneja, rosiana, misturada, nada plafetária, menos síntese épico-dramática e mais fragmento de subjetividade.

Eis a diferença e a relevância das duas versões: se a versão clássica de Bethânia - necessariamente seca, ferina e viril - interferia na doída repressão do contexto histórico, a versão de Otto festeja o hibridismo da cultura local: onde o "dentro" (autêntico) e o "fora" (ameaçador) se misturam; onde o indivíduo se mira e se movimenta.

Otto mantém a prosódia sintomática - as discordâncias verbais e nominais, por exemplo - do sujeito de "Carcará", que não teve acesso às normas cultas da Língua Portuguesa, questionando preconceitos linguísticos - estranhos à uma cultura tão diversa quanto a nossa - e reposicionando, para novos e antigos ouvintes, a beleza que surge da amizade entre a cultura popular (oral, folclórica) e a cultura mediatizada.

Parece óbvio, mas não custa lembrar que o sujeito de "Carcará" não fala errado, ele fala como sabe falar, como seus irmãos - com os recursos que sua condição social lhe permitiu para compor seu repertório conversacional. E afinal, como Haroldo de Campos anotou em Galáxias: "O povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia".

Cancionista-carcará, Otto, vendo a roça queimada, a tradição azeitada, canta "Carcará": relê o clássico, sustenta mitos rodando-os no mundo - promovendo invernada. Eis porque cantar (regravar, reler) uma canção já acomodada no espaço clássico e canônico: para mobilizar a tradição - uma contribuição tipicamente latino-americana para o pensamento do humano: o jeito de corpo carcará.


***

Carcará
(João do Vale / José Cândido)

Carcará lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro marvado
Tem um bico vorteado que nem avião

Carcará quando vê roça queimada
Sai voando e cantando
Carcará vai fazer sua caçada
Carcará come até cobra queimada

Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim não passa fome
Os burrego que nasce na baixada

Carcará pega, mata e come
Não vai morrer de fome
Carcará mas coragem do que homem
Carcará pega, mata e come

Carcará é malvado e valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho não pode andar
Ele puxa no imbigo até matar

Carcará pega, mata e come
Não vai morrer de fome
Carcará mas coragem do que homem
Carcará pega, mata e come


* Pesquisador de canção, ensaísta, especialista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Literatura Comparada, Leonardo também é autor do livro "Canção: a musa híbrida de Caetano Veloso" e está presente nos livros "Caetano e a filosofia", assim como também na coletânea "Muitos: outras leituras de Caetano Veloso". Além desses atributos é titular dos blogs "Lendo a canção", "Mirar e Ver", "365 Canções".

DOMINGUINHOS AO VIVO EM NOVA JERUSALÉM

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O FORRÓ COMO CULTURA POPULAR: DA CELEBRAÇÃO DO POVO AOS CURRÍCULOS ESCOLARES - PARTE 04

Por Silvério Leal Pessoa


RESUMO

Esta pesquisa está voltada para os Estudos Culturais e para área de Didática dos conteúdos específicos. Tem como objetivos investigar a relevância do forró como cultura popular e estruturador da identidade de um povo, e propor a inserção do forró nos temas transversais do currículo escolar. Utilizando de pesquisa bibliográfica, este estudo tem início com a análise dos conceitos de cultura popular e hegemonia. Analisa também o processo de globalização e como as novas tecnologias da comunicação e do mercado, influenciam a adoção de padrões culturais por parte da escola pública diferentes dos padrões culturais dos seus alunos e alunas. O currículo é averiguado como espaço de resistência e que envolve a construção de significados e valores culturais. Entretanto, não é um estudo que vai de encontro ao diálogo cultural, multicultural, pois avalia o conceito de hibridismo vinculado à identidade e subjetividade dos alunos e alunas em constante contato com diversas culturas. Assim, esta pesquisa não parte de uma perspectiva ortodoxa, isolando as culturas, e sim de uma interação e integração cultural averiguando o forró como possível fortalecedor de uma identidade, para daí iniciar o processo de diálogo. Para que essa proposta seja efetivada, o forró e a cultura popular devem ser inseridos como temas transversais do currículo escolar.


PALAVRAS-CHAVE: Cultura popular; forró; Hibridismo; Currículo escolar.



O FORRÓ, ELEMENTO ESTRUTURADOR DE IDENTIDADE


Música popular ou música folclórica?

Conforme Tinhorão (1986), a música folclórica geralmente é de autor desconhecido, é transmitida oralmente em situações festivas e vinculadas à religiosidade. A música popular é composta por autores conhecidos e tem sua divulgação realizada por meios gráficos, como as partituras, ou através de registros, gravações em discos, CDs, filmes etc. O forró como música popular teve sua constituição como resultado do aparecimento de cidades com um certo grau de diversificação social. (TINHORÃO, 1986, p. 7).

O forró existe nos terreiros dos povoados do interior, feito por trabalhadores que comemoram datas de colheitas ou religiosas, são músicos espontâneos, anônimos e que passam para os filhos a arte de tocar um acordeom, zabumba, pandeiro ou triangulo. Mas o forró também existe nas cidades, criado por músicos experientes e que conseguem registrar e mostrar seu trabalho em salões de festas, palcos de shows e em rádios e TVs, mesmo com o mercado fonográfico desfavorável para a música popular de origem tradicional, como o forró. Portanto o forró pode ser considerado como música popular por sua produção e criação elaborada e pode ser considerado como música folclórica pela originalidade e pela vinculação com o povo de um lugar, de uma cultura específica.

Em CASCUDO (2001, p. 406), a música popular é compreendida como os hinos, as marchas patrióticas, os cantos escolares e religiosos que o povo difunde. São peças artísticas, criadas de acordo com regras de harmonia, ortografia e sintaxe da boa música. O conceito de música popular confunde-se com o conceito de música folclórica. Na música folclórica existem peculiaridades ritmico-melódico-harmônicas e maneira típica de interpretar do artista, geralmente transcende o tempo em que foi criada, torna-se anônima e antiga passando de geração em geração até se tornar domínio público, como as cantigas de rodas e algumas canções religiosas. A música folclórica é criada espontaneamente, aceita coletivamente pelo povo, tem função relacionada com a vida do grupo. Por exemplo; as modas de viola, os aboios, os cantos e toques de várias danças e folguedos. Já a música popular é criada e registrada utilizando técnicas de composição e gravação, normalmente pensadas para um mercado de difusão que pode ser o rádio, a televisão, os comerciais. (CASCUDO, 2001, p. 405-407).


O forró é um gênero que aglutina ritmos, danças, hábitos, tradições, culinária, indumentária, religiosidade. O cultivo do milho, as procissões, a roupa dos cortadores de cana, um vocabulário próprio, e causos e contos incluídos em suas canções. O xote, o baião, o xaxado, a marcha junina, e o arrasta-pé, são ritmos que no Nordeste são resultados de diálogos com ritmos europeus como a polca, o schottisch, e a música do sul e sudeste da França, a música occitan, que tem em comum o acordeom como instrumento condutor. Tocado com sanfona, zabumba e triangulo, formação que ficou conhecida como o tradicional pé-de-serra, foi musicalmente ampliado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro  e outros compositores e intérpretes de uma nova geração.

O forró tocado em feiras públicas e terreiros, ganhou expansão no Brasil depois do surgimento do baião. Tem nomes gravados na história do gênero: Luiz Gonzaga, Januário, Jackson do Pandeiro, Elino Julião, Jacinto Silva, Dominguinhos, Trio Nordestino, Sivuca, Oswaldinho, Genival Lacerda, Marinês, Carmélia Alves, Zé Dantas, Onildo Almeida, Accioly Neto, Rosil Cavalcanti, Edgar Ferreira, Almira Castilho, Arlindo dos 8 baixos, Chiquinha Gonzaga, Duda da Passira, Genaro, Heleno dos 8 baixos, Zé Calixto, Luizinho Calixto entre tantos outros.


Os significados do forró. Dança, música e dimensão.

Como dança e música, o forró tem significados que fortalecem uma identidade particular associada ás tradições da Região Nordeste. Pelos vários significados o forró aglutina elementos que valorizam a história particular do Nordeste e consequentemente do seu povo. No dicionário Houaiss, verificamos a abrangência do significado do forró:

forró s.m. (1913) 1 DNc baile popular, em que se dança aos pares com música de origem nordestina; arrasta-pé 2 MÚS essa música, de gêneros variados (coco, baião, xote etc.) 3 B S.E. baile popular, em que se dança aos pares, com músicas de gêneros variados, esp. Sertanejas e ger. Ao som de sanfona. 4 p.ext. infrm. Festejo ruidoso; badalação, movimento  ETIM red. de forrobodó  SIN/VAR arrasta, arrastado, arrasta-pé, assustado, bachinche, bailarico, baile, baileco, bate-chinela, bate-coxa, bate-pé, biqueiro, bleforé, bochinche, bochincho, chinfrim, fobó, forrobodó, fuzo, gafieira, pagode, rala-bucho, samba, serra-osso, sorongo, sovacada, subacada, sumpes, surungo.

Bráulio Tavares, roteirista, escritor, poeta e compositor, amplia a compreensão sobre forró dividindo-o em três dimensões; Primeiro o forró em seu aspecto musical, é um gênero que reúne características melódicas , harmônicas e rítmicas na sua base, e é executado por uma instrumentação peculiar que lhe dá originalidade. Em segundo lugar o forró tem origem geográfica e social. Surgiu de um determinado povo ou de uma determinada fração do povo brasileiro. E em terceiro lugar, o forró tem um universo poético, o discurso poético que existe no forró é uma síntese entre as letras, os refrões, os estribilhos do folclore, a grande tradição poética do Nordeste que é a nossa literatura de cordel. (Anais VI Fórum de forró de Aracaju).

CASCUDO (2001) mostra o forró como música e dança surgida por volta da segunda metade do século XX, como resultado da migração de nordestinos para Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Era a presença da música e da dança a serviço das camadas mais humildes que se encontravam na periferia das grandes cidades. Geralmente eram trabalhadores rurais encaminhados à construção civil. Em São Paulo, o surgimento do forró oficialmente acontece em 1962 na Vila Carioca, com o sanfoneiro Pedro Sertanejo. O forró tem sua origem explicada também nos bailes que os gringos radicados no Nordeste do país realizavam for all, ou seja, para todos, sendo permitida a presença da população local. De for all para forró teria sido uma passagem natural. Essa origem é bastante questionada, pois tira a autenticidade da origem do forró de seu povo, de seus artistas populares. (CASCUDO, 2001, p. 250).

Outra versão sobre a origem do forró pode ser encontrada no Dicionário HOUAISS, dessa vez a partir do termo forrobodó:

forrobodó s.m. (1899) B infrm 1 DNç baile popular arrasta-pé, festança 2 confusão, tumulto, balbúrdia; briga  ETIM segundo Evanildo Bechara, var. Atual do galg. forbodó, termo privativo, mas comum a todo o Portugal, associando-o Joseph Piel a farbodão, do fr. faux-bourdon, figuradamente sensaboria, desentoação  SIN/VAR ver sinonímia de forró.

Forrobodó. Essa versão da origem do forró, como uma reunião, uma festança, uma confusão, que geralmente resultava em briga (A briga é tema bastante presente nas letras das canções de vários compositores), encontra aceitação na maioria dos músicos, compositores e poetas vinculados com o forró, pois assegura que essa versão retrata o que eram e ainda são os bailes de forrós no interior do Nordeste e atualmente nos variados salões das cidades, confirmando sua autenticidade de uma música e dança originada de um povo específico, o povo Nordestino. Conforme CASCUDO (idem), o termo forrobodó: “Usa-se em Natal (RN), na imprensa, anterior a 1930, como sinônimo de baile popular, pagode, samba movimentado, entre o povo”.


O forró e o Nordeste. O Nordeste tem uma identidade própria versus o Nordeste estereotipado

O forró como música e dança surge no Nordeste, resultado da chegada do acordeom e das canções advindas da cultura européia. O Nordeste é uma região e um espaço de identidade de um povo, de uma particularidade que envolve valores, hábitos, culinária e música como elementos que estruturam uma cultura. O Nordeste é o terreno sobre o qual o forró foi plantado, tendo Luiz Gonzaga e o baião como protagonistas. No baião, Luiz Gonzaga traduziu a região Nordestina com sua geografia, sua política, sua culinária, sua religiosidade, seus valores e hábitos. Portanto o Nordeste é o cenário principal da obra de Luiz Gonzaga e do forró. ALBUQUERQUE JÚNIOR (1999), quando trata sobre a problemática do Nordeste estereotipado, comenta o sentido caricaturado que os meios de comunicação apresentam o Nordeste ao Brasil, quando mostram feiras livres, filmes, programas de TVs, cidades do interior, coronéis, heróis e bandidos do Sertão em tiroteios, procissões, expressões características da região, pessoas falando de forma postiça se passando por Nordestinos, crianças nuas brincando com ossos no terreiro, miséria, fome e seca. Diz o autor que “O que podemos encontrar de comum entre todos os discursos, vozes e imagens que acabamos de arrolar, é a estratégia de estereotipização”. (ALBUQUERUQE JÚNIOR, 1999, p. 20). O discurso da estereotipia é persistente, arrogante, que motiva a situação acrítica e resume em poucas palavras o outro. O grupo estranho, diferente, recebe uma caracterização grosseira e tem suas diferenças individuais suprimidas. (idem).

O autor não responsabiliza somente os meios de comunicação pela criação do estereótipo, mas atribui parte da responsabilidade aos próprios nordestinos pela reprodução desse discurso de “pobres coitados”. E para tentar superar esse discurso o autor propõe ir em busca das relações de poder e de saber, o que geram esse discurso, e que inventaram este Nordeste e estes Nordestinos. (idem, 1999, p.21). O forró é um gênero musical que trás em seus textos e situações vivenciadas e mostradas nas canções, os vários momentos que os valores, os hábitos, a geografia da região, a política e a identidade do lugar é reconhecida e traduzida em forma de música.

A busca das verdadeiras raízes regionais, no campo da cultura, leva à necessidade de inventar uma tradição. Inventando tradições tenta-se estabelecer um equilíbrio entre a nova ordem e a anterior; busca-se conciliar a nova territorialidade com antigos territórios sociais existenciais. A manutenção de tradições é, na verdade, sua invenção para novos fins, ou seja, a garantia da perpetuação de privilégios e lugares sociais ameaçados. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 76)

Esta relação de poder foi criada quando o movimento migratório se intensificou como uma estratégia particular de um grupo social e sua busca de pertencimento à formas menos angustiantes de relação profissional. O sul passa a ser na década de 40 o suposto porto seguro para homens e mulheres pobres desgarrados de sua terra de origem. O movimento migratório oferece possibilidades para que a cultura desse povo advindo do Nordeste possa ser conhecida e utilizada como fator de comunicação entre os diversos grupos migrantes e os novos patrões, empreendedores, empresas e grupos empresariais, doadores de novas formas de emprego. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 152). Mas, como o forró foi divulgado? Como ficou conhecido?


O forró, o rádio e a música de Luiz Gonzaga. Nova forma de ouvir música.

O rádio surgiu no momento que o discurso populista necessitava de um canal de comunicação com os migrantes. O rádio como veículo de comunicação de massas, é pensado como elemento de comunicação que produz um tipo de integração nacional, através do encurtamento das distâncias e capaz de divulgar e produzir uma cultura nacional. O rádio tem esteio das propagandas, do comercial, e tutelado pela censura foi utilizado para ser um canal das propostas e idéias políticas do populismo. É nesse ciclo histórico que o rádio além de falar do país, mostra sua diversidade cultural principalmente pela execução das músicas que representam essa diversidade migratória nas grandes cidades. (Idem, p.152).

Segundo ALBUQUERQUE JÚNIOR (1999), a sensibilidade dos nacionalistas aliado a uma estrutura de poder, investe em uma mudança de gosto, no qual as camadas populares, elites e classe média, recebem a sugestão de um novo conceito de belo a partir da produção nacional e popular. Uma música nacional, seria uma música rural, associada aos cânticos populares, e vista “como uma manifestação musical autêntica do pais”. É na década de 40, exatamente, que surge Luiz Gonzaga como o criador da “música nordestina”, tendo o baião como criação central. (ibidem, p. 153).

A música de Luiz Gonzaga foi dirigida aos migrantes nordestinos, bem como ao público das capitais que podiam comprar discos. O rádio foi fundamental para consolidar o forró, e a música de Luiz Gonzaga vai ser pensada como uma música que representa a identidade regional. A sonoridade específica do baião unida a uma série de ritmos e temas folclóricos oferece uma nova criação comercial. Vai existir no baião um hibridismo com outros elementos do samba carioca e outros ritmos urbanos que Gonzaga executava anteriormente. O baião atendeu à necessidade de substituir uma música para dançar que antes era estrangeira e assume um posto de música nacional. O baião canta o nacional, rompe com a aristocracia carioca e emerge nos salões sofisticados, utiliza o rádio como meio de propagação e o público são os migrantes nordestinos. (ibidem, p. 155).

O migrante nordestino em sua terra natal, se relacionava com a música de maneira prática, “muscular”, muito mais que “auditiva”, pois não estavam acostumados a parar para ouvir música. Eles faziam música e dançavam, como uma celebração. Tocar um instrumento como pandeiro, zabumba, acordeom, ou viola, era uma prática do povo que aos poucos foi se deixando abandonar pelo ritmo do trabalho e o contato com a sociedade urbano-industrial. Por isso que o ouvir rádio sugere uma mudança de hábito, uma nova educação musical e auditiva surgindo uma nova escuta social. “Trabalhar na fábrica com o seu ruído constante, que dificulta ouvir música, é um trauma para ouvidos acostumados a acompanhar o trabalho com no mínimo o assovio de um forró”. (ibidem, p.156).

Um corpo que cantava, dançava, tocava, praticava a música em um ambiente natural familiar ou de trabalho, passa a ser um corpo que escuta e obedece. (ibidem, p. 156). A música de Gonzaga promovia um laço de ligação entre a saudade do lugar que se deixou e um consolo de se sentir representado por um ícone que associava a indumentária, a linguagem, os gestos, e o imaginário do nordeste. Os textos cantados exaltavam as imagens, a geografia do Sertão, Zona da mata e Agreste. O forró levava os trabalhadores a lembrarem paisagens, hábitos e valores do seu antigo lugar. Gonzaga despertava atenção para os problemas da Região e afirmava um jeito local. A música de Gonzaga reúne elementos diversos que afirmam a identidade do lugar que os migrantes deixaram em busca de novos momentos de vida; “Nordeste de dor, que geme nas toadas, Nordeste da alegria que dança no forró, Nordeste sensual no esfregar-se dos corpos no xote”. (ibidem, p. 160).


Como nasceu o baião?

O baião foi criado por Luiz Gonzaga a partir do bordão das violas dos repentistas que preparavam o caminho para as glosas e improvisações, o que se chamava de “levada”, um andante que despertou a criatividade do sanfoneiro de Exú. Encontram-se no baião, elementos das cantigas dos cegos das feiras, tradições ibéricas, africanas, indígenas, literatura de cordel e dos tocadores de rabeca. Um universo que une o xaxado da pisada de Lampião e seu bando, à exaltação do Sertão. (Vieira, Sulamita, 2000, p. 26). O baião está inserido no gênero forró. Forró e baião se confundem e se fundem como música e dança. Na música de Luiz Gonzaga, em sua obra, está distribuída várias formas de ver e refletir as particularidades culturais de um povo e região. Por isso que:

Estudar a cultura implica, pois, um exercício cuidadoso de ordenamento, que possibilita compreender como se articulam supostas “universalidades” e “particularidades”. Assim, o estudo da música de Luiz Gonzaga, como produtora/reprodutora de representações, criando, ao mesmo tempo, uma nova linguagem, empurra para um mergulho no complexo espaço em que se encontram ou se cruzam dimensões do “local” e do “universal”; comparecem a pluralidade de classes e segmentos de classes, a história, o cotidiano dos atores sociais etc. (VIEIRA, 2000, p. 26-27).

Mesmo trabalhando sobre a tradição, Luiz Gonzaga era visto por artistas de uma nova geração, como artista pop, por ter criado algo, o baião, por ter projetado uma região. O pop nesse contexto é um conceito em pleno movimento, e Caetano Veloso, por exemplo, acreditava que Gonzaga estava em plena continuidade, em perpétuo movimento (DREYFUS, 1996, p. 254).

O forró, o baião, o Nordeste, e a vida de Luiz Gonzaga, são conteúdos que trabalhados na escola pública que recebe os filhos e as filhas de migrantes, fortalecem a história desse povo e da região nordestina, como também inspiram o diálogo e a compreensão de outras culturas a partir do padrão cultural de origem desse povo, do povo nordestino. É necessário que a escola esteja atenta ao modo como os livros didáticos tratam os conteúdos escolares relacionados ao Nordeste, a cultura popular, às tradições, ao folclore, ao forró. E que utilize o currículo escolar como espaço de reflexão e de afirmação do jeito local, que discuta com os alunos e alunas e com a comunidade escolar, temas sobre valores, hábitos e sobre a criatividade do povo. Que reflita sobre a situação e sobre a história do povo nordestino, que tem no forró um dos elementos afirmadores de sua cultura.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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O FORRÓ “PÉ DE SERRA” E A MOTIVAÇÃO DOS JOVENS FORROZEIROS DE BELO HORIZONTE - PARTE 04

Por Camila Moura Cardilo*


RESUMO: 
O forró “Pé de Serra” contagia muitos jovens da cidade de Belo Horizonte. Assim, este estudo procura compreender o motivo que os levam a viver e reviver esta dança, música e espaço definido como forró. Primeiramente foi realizada uma pesquisa bibliográfica para apresentar o significado do forró “Pé de Serra”, do jovem e da motivação. Posteriormente, uma observação em um dos espaços da cidade em que se realiza o forró e uma aplicação de questionários a 20 jovens frequentadores, deu continuidade à pesquisa. Quanto aos resultados verificou-se que, mesmo com as influencias externas do meio, os jovens possuem um forte envolvimento intrínseco com o forró pelo forte despertar de sentimentos e emoções.

PALAVRAS-CHAVE: Dança. Atividades de Lazer. Recreação.



A motivação...

A motivação é a força interna que emerge, regula e sustenta todas as nossas ações. Ela é estudada indiretamente, portanto, analisada a partir do comportamento humano. O comportamento humano pode ser irracional ou racional (VERNON, 1973).

O comportamento irracional está relacionado com as questões de sobrevivência (fuga e medo; repulsão e repugnância; curiosidade e espanto; combatividade e ira; auto-degradação e sujeição; auto-afirmação e orgulho; instinto paternal e ternura; reprodução e desejo sexual). Por sua vez, o comportamento racional está relacionado à plena consciência do homem diante de suas ações, com objetivo definido e direção guiada pelo pensamento (FLETCHER apud VERNON, 1973).

Até os primeiros anos do século XX, a teoria mais popular da palavra “motivação”, era a denominada hedonismo psicológico , que significa a procura do prazer (VERNON,1973). “A motivação tipicamente dirige o comportamento para um determinado incentivo que produz prazer ou alivia um estado desagradável” (ATKINSON et al., 2002, p.372). Esse “prazer” está associado à emoção e aos sentimentos que movem e envolvem o homem antes, durante e após a ação, proporcionando-lhe sensações prazerosas e incentivando-o a querer vivenciá-la novamente. No presente estudo, não será possível falar de motivação sem considerar as emoções e os sentimentos, pois estamos lidando com o jovem (ser que possui essas “virtudes da vida” muito bem afloradas) e do forró “Pé de Serra” (prática que desperta as emoções com suas canções, ritmos e gingado da dança).

As emoções são:

[...] expressões afetivas acompanhadas de reações intensas e breves do organismo, em resposta a um acontecimento inesperado ou, às vezes, a um acontecimento muito aguardado (fantasiado) e que, quando acontece[...] são fortes e passageiras, intensas, mas não imutáveis (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002, p.194-197).

Os sentimentos por sua vez, também estão relacionados ao afeto, mas “diferem das emoções por serem mais duradouros, menos explosivos e por não virem acompanhados de reações orgânicas internas” (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002,p. 198).

As reações emocionais e sentimentais, como fatores motivadores do ser humano, estão intensamente presentes no forró. Isso porque o som e as letras das músicas fazem com que os jovens despertem seus sentimentos: o amor, a ternura, a amizade; fazem despertar as emoções: o coração bate mais forte, o suor toma conta da pele, acontece um arrepio no corpo, os rostos refletem uma expressão de felicidade, paixão e desejo. As músicas remetem a um mundo de sonhos e realidades; desejos e dificuldades; letras que inspiram aventuras; um mundo de alegria, chamego, balanço, saudade, paixão e amor... aquilo que o jovem sente de mais forte...aquilo que mexe com ele. Muitas músicas cantam o envolvimento, o contato, a relação e o afeto com o outro. Como por exemplo, De rosto colado:

Quando olho nos seus olhos eu sinto
Uma vontade louca de beijar sua boca
Seu beijo é doce feito mel
È uma felicidade que chega
Zumbando meu peito, deixando sem jeito
Esse meu coração
Tu eis minha flor
Linda como o sol ardente no verão
É só parar e perceber
Que eu estou te amando
Tão linda flor, tão bela flor
Beleza da cor morena me faz viajar
Vem fazer parte de mim
Vou lhe mostrar que a vida é melhor
Quando estás comigo amor
Quero dormir ao seu lado
E de rosto colado, acordar com você
(TRIO ALVORADA)

Além das emoções e dos sentimentos, que fazem parte da motivação intrínseca do individuo e que envolvem os jovens e os levam a vivenciar o forró, há também motivos extrínsecos que podem levá-los á praticar essa manifestação. Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), o estudo da motivação é constituído por três variáveis: o ambiente, as forças internas do individuo e o objeto. Neste contexto, os fatores ambientais são dados: pelo local onde se dança o forró (casas alternativas ou escolas de dança que se ouve e se dança o forró “Pé de Serra”), pelas pessoas que o compõe (seja do convívio do jovem ou não) e por tudo que caracteriza o grupo social dos forrozeiros (acessórios, roupas, sapatos, costumes e cultura), ou seja, são representados pelos fatores externos do meio. Já os fatores das forças internas do individuo é dado pelos seus sentimentos, emoções, desejos, interesses, impulso ou instinto; neste caso pode aflorar, no jovem forrozeiro sentimentos e emoções que fazem com que ele admire e vivencie a dança e a música; sentindo então o prazer, o amor, a atração, o bem estar e a alegria de praticá-la. Finalmente o fator objeto, que é representado, inevitavelmente, pelo o forró “Pé de Serra”.

Com base nas variáveis que fazem parte da motivação é questionável que os jovens busquem o mesmo objetivo, porém podem ter motivos diferentes para buscá-lo. Assim, com a diversidade de interesses existentes entre os indivíduos permite que as pessoas não façam as mesmas coisas pelas mesmas razões (BERGAMINI apud BANDEIRA, 2008). Portanto, o que move um jovem a praticar o forró “Pé de Serra” pode não ser o que move o outro. Partindo desta ideia, o estudo desse trabalho quer verificar quais são os principais fatores que de forma mais intensa “chamam” os jovens para viver e reviver o forró. Momento este, que os jovens estão à procura da sua identidade e em busca de emoções.

“A identidade é a denominação dada às representações e sentimentos que o individuo desenvolve a respeito de si próprio, a partir do conjunto de suas vivências” (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002, p.145). Assim, ao vivenciar e identificar com o forró, o jovem faz a descoberta de mais um fator que o leva à construção de sua identidade. Então, é o momento em que ele se reconhece, sente-se à vontade, tem prazer. Esta identidade é construída pelos fatores motivadores, pelo que o leva a dançar, ouvir, cantar e vivenciar o forró. Como diz na música Saudade de Itaúnas: “sem saber pra onde ir, sem saber onde ficar... eu encontrei um lugar pra me encontrar...” e assim, quando o jovem se “encaixa” numa cultura e num prazer que se torna prática fundamental em sua vida, ele se identifica para si mesmo e para sociedade... no caso dos jovens deste estudo, tornam-se “forrozeiros”. 


METODOLOGIA E RESULTADOS

A pesquisa bibliográfica foi fundamental para dar inicio ao trabalho. Ela foi à base para que fosse possível definir o forró “Pé de Serra”, o jovem e a motivação.

Posteriormente, foi necessária uma pesquisa de campo, na qual ocorreu uma observação participante para a descrição do local (espaço alternativo) e dos jovens forrozeiros analisados na pesquisa. Portanto, por meio da observação, foi possível analisar o comportamento, práticas, hábitos, costumes e valores dos jovens. Além da observação participante foram aplicados questionários, cada um com nove questões. Para respondê-los, foram escolhidos aleatoriamente 20 jovens; 10 deles mulheres e 10 homens. Por meio da observação e dos questionários, foi possível analisar o comportamento e o significado do forró “Pé de Serra” para cada um deles, remetendo a algumas diferenças e igualdades do que os motivam a dançar e frequentar o forró. Com isso, foi verificada qual a motivação que se apresenta de forma mais marcante na vida dos jovens, fazendo-os viver e reviver o forró “Pé de Serra”. 


O espaço alternativo...

O espaço observado é tipicamente uma casa noturna, como já descrita anteriormente. Localiza-se na Zona Sul da Cidade, região em que reside a maior parte da alta classe social de BH e onde também se encontra o maior número de equipamentos de lazer. No local, o forró “Pé de Serra” é ouvido e dançado especificamente aos domingos. Inicia-se por volta das 19:30 e seu término é por volta das 01:30 da manhã.

Do lado de fora, antes do horário previsto para seu início, é formada uma fila. Por questões legais, apenas maiores de 18 anos entram. O local fica bastante cheio, principalmente em dias de shows. A decoração remete a fantasias, ao meio rural, ao rústico e tradicional. Ao olhar para o teto, são observados alguns objetos de madeira pendurados. As mesas e a estrutura do local também são predominantemente de madeira. Além disso, existem alguns objetos antigos que ajudam a enfeitar o local como, por exemplo, uma máquina de escrever próxima a uma escada existente no espaço. Também são encontradas flores e retalhos de tecidos, usados para alegrar o ambiente.

No espaço vendem-se bebidas (cerveja, refrigerantes, xiboca e catuaba) e há um pequeno palco, onde ficam o Dj, cantor (a), banda ou trio. Quando não ocorrem os shows os Djs tocam, nas caixas de som, o forró “Pé de Serra”; canções que remetem ao cenário nordestino, aos sentimentos e emoções, além das que fazem parte de outros gêneros musicais e são tocadas no ritmo do “Pé de Serra”. Dentre elas, a música “Segue o Seco” leva muitos forrozeiros a pista de dança. Ela lembra o cenário nordestino, porém faz parte do gênero musical MPB.

A boiada seca
Na enxurrada seca
A trovoada seca 
Na enxada seca
Segue o seco sem secarque o caminho é seco
sem sacar que o espinho é seco
sem sacar que seco é o Ser Sol
Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino seca
Ô chuva vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você
Ó chuva preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão
Se acabar não acostumando
Se acabar parado calado
Se acabar baixinho chorando
Se acabar meio abandonado
Pode ser lágrimas de São Pedro
Ou talvez um grande amor chorando
Pode ser o desabotado do céu
Pode ser coco derramado
(Carlinhos Brown).

Nos momentos finais da noitada, a casa encontra-se vazia. Assim, os jovens que restaram, aproveitam o espaço vazio para dançar com mais giros, mais “remelexos” e sem a preocupação de trombar em outro casal, nas mesas de madeira ou em outros objetos.


Os jovens forrozeiros de Belo Horizonte...

Aparentemente, o público frequentador das “noitadas” do forró “Pé de Serra” é, predominantemente, jovem. Os jovens se apresentam alegres e envolvidos com a música e com a dança; vão bem caracterizados: meninas com saias, vestidos, roupas mais soltas e sandálias ou sapatilhas nos pés; os meninos com calças ou bermudas, com chinelos ou tênis. Também se vê os colares e pulseiras de sementes, tornozeleiras; brincos de concha, pena e madeira. Parece que as bolsas foram descartadas no forró, raramente observa-se alguém com a famosa cartucheira ou com as pequenas bolsas, de alça longa, atravessadas no ombro.

No espaço, observa-se que, em sua maioria, são as mesmas pessoas que o frequentam toda semana e existem “pequenas turminhas” de amigos, as chamadas “panelinhas”. Quando eles não estão conversando, estão à espera de um convite para dançar.

É perceptível o quanto eles se envolvem com a dança e com a música. Alguns ouvem e cantam, de olhos fechados; outros, de olhos fechados, dançam...envolvem-se no contato com o outro. Outros ainda trocam ideias e conversam com a “galera” da turma, tomando alguma bebida. A xiboca e a catuaba são as mais vistas.

Ao aplicar os questionários houve um fato surpreendente o qual eu não havia reparado antes: os jovens forrozeiros são, em sua maioria, jovens adultos, ou seja, aqueles que estão numa faixa etária que alcança os 35 anos de idade (como mencionado anteriormente neste trabalho). Descobri que é realmente difícil encontrar um jovem no forró que tenha menos que 21 anos de idade. Por isso a faixa etária dos participantes foi definida com base na observação e na idade dos respondentes dos questionários.

Dos jovens respondentes, apenas dois deles são casados, o restante, solteiros. Eles moram em diferentes regiões da cidade de Belo Horizonte, não aparecendo nenhuma região específica que tenha uma quantidade maior de residentes jovens forrozeiros, apesar da casa noturna se localizar na zona sul da cidade. Assim, presumi-se que jovens de várias regiões de BH frequentam o local, desde as mais próximas do espaço até as mais distantes, como por exemplo, os que residem na zona norte. Quanto ao tempo, em sua maioria, frequentam e praticam o forró “Pé de Serra” há aproximadamente cinco anos. Essa alternativa foi selecionada por quatorze jovens. 

Além disso, em sua maior parte, são jovens estudantes ou concluintes do ensino superior. Desses, nove possuem ensino superior incompleto e sete possuem ensino superior completo, apenas quatro deles possuem somente o ensino médio completo. Partindo da ideia de que cada ser humano, jovem ou não, vê e sente o mundo do seu jeito e que tudo flui do seu pensamento, conhecimento e percepção... alguns jovens escreveram no questionário, uma frase do que o forró representa para eles, do que remete essa vivência de dançar, ouvir e sentir o forró “Pé de Serra”:

O forró é meu refúgio, um lugar onde o mundo treme e eu fico firme/ É um vício que faz bem / É minha paixão/ É deixar se levar pelas músicas/ É um momento que esqueço meus problemas/ Faz o corpo arrepiar e o coração bater mais forte/ Traz leveza à alma/ É o momento de curtir o meu dia fazendo o que realmente gosto/ É o prazer de ouvir, sentir e dançar...

Apesar dessa percepção única de cada ser humano, dos jovens forrozeiros participantes deste estudo, dezessete deles interessaram-se pela vivência do forró por meio da observação da dança e da música, nove devido a influencias de outras pessoas que já frequentavam o forró, três por causa de lugares que ouviam e dançavam o forró (seja escola de dança ou casa noturna), dois por causa de roupas e acessórios dos forrozeiros. Apenas um deles se interessou por influencias da rádio e da TV e um se interessou devido a influências familiares. 

Quanto ao motivo pelo qual eles buscam reviver o forró, dezessete jovens afirmam que o ritmo mexe com os sentimentos e emoções, seis por gostarem dos “ambientes alternativos”, quatro porque pessoas do seu convívio frequentam e três buscam a prática do forró para conhecer novas pessoas e novos lugares.

Quanto ao significado de “dançar” o forró, dezessete jovens o consideram como uma prática de lazer/ prazer, sete afirmam ser uma diversão e “balada”, sete acreditam ser uma encontro com os amigos, quatro afirmam ser uma atividade física e dois acreditam ser uma manifestação cultural.

A partir desses resultados, será discutida e concluída qual a motivação dos jovens forrozeiros de BH, tendo em vista a observação deles, dentro do espaço alternativo e, principalmente do que os motivam a viver e dar continuidade a essa vivência. 




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* Bacharel em Educação Física pela PUC- Minas.

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