sábado, 9 de janeiro de 2010

01 ANO SEM DONA EDITH DO PRATO

Há um ano, uma voz calou-se em Santo Amaro da Purificação (a 94 km de Salvador, no Recôncavo baiano). Em uma tarde com a mesma data de hoje (09 de janeiro), porém em uma sexta-feira, ao som de Luzes da Ribalta, de José Augusto, os santoamarenses deram o último adeus à sambista Edith Oliveira Nogueira, mais conhecida como Edith do Prato, 94, que ficou famosa por usar um prato e uma faca como instrumentos.

Edith participou do disco Araçá Azul, de Caetano Veloso, de quem foi mãe de leite. Trinta anos depois, aos 86 anos de idade, gravou o próprio CD, Dona Edith do Prato e Vozes da Purificação, produzido pelo cantor e compositor J. Velloso, com patrocínio do governo do Estado.

Foram poucas, mas marcantes, as vezes em que as chulas, sambas-de-roda e lundus, típicos do Recôncavo baiano, subiram aos palcos pontuadas pelo toque do prato de dona Edith, que nunca imaginou fazer carreira artística e nem usou esse dom como profissão. Não teve nenhuma referência artística, mas contou com o dom natural de tocar um simples prato de louça, ainda adolescente.

“Ela começava a tirar os primeiros sons da metade de uma cuia de queijo quando brincava de fazer comida no quintal de casa. Na adolescência, tocava prato e assim descobriu um som diferente e foi aperfeiçoando. Para ela, o prato tinha que ser de louça e o mais barato, e a faca de inox, sem cabo de madeira. Não teve referência artística, mas um dom, que foi desenvolvendo aos poucos. Ela nunca se imaginou artista”, contou o neto de criação e produtor Ninho Nascimento.

As duas famílias mais conhecidas de Santo Amaro, a Velloso e a Oliveira, são muito próximas porque a irmã caçula de Edith, Nicinha, foi criada por dona Canô, e Caetano é filho de leite de dona Edith.

EM PÚBLICO – A primeira aparição pública de dona Edith do Prato foi em Santo Amaro, há 60 anos, no aniversário de Maria Mutti, diretora do Núcleo de Incentivo Cultural de Santo Amaro. Tocando prato, ela se apresentou há dois anos e meio com Roberto Mendes no SESC Pompéia, em São Paulo. Em Salvador, foi em junho do ano passado que apareceu pela última vez em público, no lançamento do livro Mulheres negras do Brasil, na Fundação Pedro Calmon. “Na página 404, há relatos sobre a vida e a tardia, mas influente, musicalidade de dona Edith”, ressaltou Ninho. Em 2004, ela ganhou o Prêmio TIM de Melhor Disco Regional.

Segundo Ninho, que a acompanhava em todos os lugares há 14 anos, dona Edith do Prato não sofreu influência artística, mas foi uma referência para outros artistas como o próprio Caetano, Maria Bethânia e Mariene de Castro. A primeira vez que ela saiu de Santo Amaro foi em 1972, com Roberto Mendes, para se apresentar num festival, em Feira de Santana. “No ano seguinte Caetano a projetou como intérprete, foi quando se tornou mais conhecida. Teve participações também no disco Circuladô, de Caetano, em três discos de Roberto Mendes, e do disco Ciclo, de Maria Bethânia. Ela influenciou todos esses artistas que a tornaram conhecida”, contou.

Alguns até tentaram aprender a tocar prato com dona Edith, como Mariene de Castro e o próprio filho, Luciano Oliveira, 63 anos, que foi percussionista, além de Valmar Paim, que hoje é músico do Chiclete com Banana.

A técnica de tocar pratos descoberta por dona Edith tem particularidades. “O prato tem que ser o mais vagabundo e barato, de louça. Não é qualquer louça ou faca que produz o melhor som. A faca tem que ser fina e sem cabo de madeira, toda de inox”, ensinou o neto de criação, Edson Nasciento.

Dona Canô, a matriarca dos Velloso, relatou que Santo Amaro perdeu uma pessoa de boa índole e que ajudou a projetar a cidade. “Ultimamente Edith perdeu a força e deixou de tocar prato. Deu nome a Salvador e à Bahia. Uma voz que se calou no Recôncavo e deixa muitas saudades”, avaliou.

Toda Santo Amaro se mobilizou para se despedir da sambista. Ela morreu às 22h30 de quinta-feira, aos 94 anos, depois de apresentar insuficiência respiratória. Estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Português desde o último dia 18, devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Nas palavras do poeta Hermínio Bello de Carvalho, Dona Edith do Prato é uma espécie de cartão postal sonoro da Bahia. Nascida há 87 anos em Santo Amaro da Purificação, região do Recôncavo Baiano, Dona Edith surgiu para a música brasileira há exatas três décadas, com uma participação indelével no disco Araçá Azul, de Caetano Veloso.Na faixa de abertura do álbum, Dona Edith fazia o que mais sabe: entoar samba de roda (no caso Viola meu bem, D.P.) e raspar a faca no prato, num suingue personalíssimo que lhe valeu o nome artístico. A partir daí, Dona Edith tornou-se referência para diversas gerações de cantadores.

O disco Vozes da Purificação, lançamento do selo Quitanda (distribuição Biscoito Fino), apresenta Dona Edith do Prato em toda a sua simplicidade gloriosa. Gravado em 2002 (e lançado a princípio numa tiragem comercial restrita), o álbum chega ao grande público pelas mãos de Maria Bethânia, que participa dos sambas de roda Quem Pode Mais, Dona da Casa e Eu Vim Aqui. Dona Edith já havia sido recebida por Bethânia no disco Ciclo, onde interpretou a chula Filosofia Pura.

Caetano Veloso é outro a purificar as vozes do Recôncavo de Edith. Ele participa de Minha Senhora, música que inspirou a composição tropicalista homônima de Gilberto Gil e Torquato Neto. Apontando para diversas gerações dos Velloso (assim mesmo, com L dobrado, como aparece no encarte do CD), Caetano une o samba de Santo Amaro a How Beautiful Could a Being Be, de autoria de seu filho Moreno. Outro filho talentoso do Recôncavo é o sambista Roque Ferreira, que participa da faixa Ariri Vaqueiro.

Das 14 faixas do álbum, apenas três não pertencem ao Domínio Público. Além da já citada How Beautiful, são elas Raiz, de Roberto Mendes e Jota Velloso (este, o produtor do disco), e o Hino de Nossa Senhora da Purificação, de Carlos Sepulveda. A predominância das faixas de autoria desconhecida se deve ao fato de o samba de roda ser um gênero primitivo, cantado e cultivado pelas baianas antes do aparecimento do samba propriamente dito, no Rio, na década de 10.

Nas palmas e na cantoria coletiva, típica dos sambas do Recôncavo, destaca-se o grupo de cantadoras septuagenárias de Santo Amaro, não por acaso batizado com o mesmo nome do disco: Vozes da Purificação. A arte da capa e do encarte é de Gringo Cardia.


Vozes da Purificação (2004)

Faixas:
01 - Abertura e Cavaleiro (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
02 - Quem Pode Mais / Dona da Casa / Eu Vim Aqui (com Maria Bethânia) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
03 - Marinheiro Só (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
04 - Casa Nova / Raiz (com Mariene de Castro) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
05 - Tombo do pau (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
06 - Samba Numerado (com Cortejo Afro) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
07 - Ariri Vaqueiro (com Roque Ferreira) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
08 - Senimbú e Calolé (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
09 - Ai Dindinha (com Nené Barreto) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
10 - Minha Senhora / How Beautiful (com Caetano Veloso) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
11 - Santo Amaro ê ê (Erlon Portugal) (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
12 - Viola Meu Bem (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)
13 - Vivas (D. Edith do Prata e Vozes da Purificação)

3 comentários:

Anônimo disse...

Muuito valorosa esta postagem!
Nossa! Ninguém se lembra dessas figuras!

Parabéns, já tá nos vetores do meu blog.

Um abraço!

familai&amigos disse...

CARLOS FRANÇA/RIO.
DONA EDITH, É SHOW,SEU SOM NOS PRATOS, MUITO BOM!COMO BAIXAR ESTE CD?
COMPRAR NAS LOJAS, VÃO ME PERGUNTAR...QUEM É???

PARABENS PELOS COMENTARIOS DO VELHO SAMBA DE RODA DA BAHIA...

Bruno Negromonte disse...

Estimado Carlos!

A saudosa Dona Edith é uma das mais simples e musicais que eu conheci... de talento nato!
Quanto ao álbum para download talvez você procurando por aqui na internet consiga encontrar.
Caso queira comprar o álbum existe uma loja especializada em música popular brasileira quem o atender com certeza não vai estranhar se você perguntar pelo álbum da dona Edith. A loja é uma das parceiras do nosso espaço e lá você é sempre atendido pelo dono (caso venha a entrar em contato avise ao proprietário Fábio que entrou em contato por indicação nossa). o endereço é o:
http://www.passadisco.com.br/

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