PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

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UM NOME POR TRÁS DA CANÇÃO

Um dos mais produtivos compositores da música brasileira ainda em atividade, Bráulio de Castro não pára de produzir nos mais variados gêneros da música popular brasileira, em especial a pernambucana.

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COMANDANDO O BLOCO DO AMOR, BEATRIZ RABELLO ESTREIA EM GRÁCIL PROJETO

De nobre linhagem, a intérprete estreia em disco onde dá voz a grandes nomes e conta com a participação de um dos ícones da MPB.

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

PAUTA MUSICAL: TRABALHO NÃO É MOLEZA!

Por Laura Macedo




Nas várias crises de cunho político/econômico pelas quais o Brasil passou/passa atualmente, a criatividade dos nossos compositores sempre esteve em alta. É isso que vamos conferir nesta, despretensiosa, postagem.

Houve uma época em que a sociedade não permitia que a mulher trabalhasse fora do lar. Mesmo os artistas, que sempre foram considerados mais abertos às inovações, não viam com bons olhos a [sua] esposa sair para trabalhar fora deixando de lado as lidas domésticas.



Noel Rosa e Marília Batista

Noel Rosa compôs um samba no qual repreende a esposa que adotava tal postura. O titulo já diz tudo.
Você vai se quiser” (Noel Rosa) # Noel Rosa/Marília Batista e Conjunto de Benedito Lacerda. Disco Odeon (11422-B) / Matriz (5446). Gravação (12/11/1936) / Lançamento (dezembro/1936).
Dorival Caymmi e Carmen Miranda

Dorival Caymmi, na sua estreia em disco, já demonstrava sua preocupação com aqueles que enfrentam a dureza da vida, como a protagonista da composição “A preta do acarajé”.
A preta do acarajé” (Dorival Caymmi) # Carmen Miranda/Dorival Caymmi. Disco Odeon (11710-B) / Matriz (6024). Gravação (27/2/1939) / Lançamento (abril/1939).


Wilson Batista e Dircinha Batista
Na composição “Inimigo do batente” a esposa questiona inconformada o marido/companheiro que não esquenta lugar no trabalho, ou seja, arranja um emprego pela manhã, e pede a conta no fim do expediente.
Inimigo do batente” (Wilson Batista/Germano Augusto) # Dircinha Batista. Disco Odeon (11834-A) / Matriz (6214). Gravação (5/10/1939) / Lançamento (maio/1940).

Ataulfo Alves, Wilson Batista e Cyro Monteiro

No início dos anos de 1940, o pessoal do DIP (Departamento e Imprensa e Propaganda), tentou colocar um freio nas composições que faziam a apologia da malandragem, “sugerindo” a adoção de temáticas com ênfase na exaltação do trabalho e rejeição à boemia.
O bonde de São Januário” (Ataulfo Alves/Wilson Batista) # Cyro Monteiro. Disco Victor (34691-A) / Matriz (52022). Gravação (18/10/1940) / Lançamento (dezembro/1940).



Joel e Gaúcho
Quando a temática do Carnaval é o “Trabalho”, o pesado vira folia, só restando cair na gandaia com as duas composições abaixo.
A mulher do padeiro” (J. Piedade/Germano Augusto/Nicola Bruni/Romeu Gentil/Carvalhinho) #Joel e Gaúcho. Disco Odeon (12076-A) / Matriz (6814). Gravação (22/10/1941) / Lançamento (dezembro/1941).

Milton de Oliveira, Haroldo Lobo e Aracy de Almeida


A mulher do leiteiro” (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira) # Aracy de Almeida. Disco Victor (34845-A) / Matriz (S-052390). Gravação (10/10/1941) / Lançamento (dezembro/1941).

Ary Barroso com Quatro Ases e Um Coringa

Em entrevista concedida à Revista da Música Popular, em 1954, (nº 1/ P. 30, 31 e 32) Ary Barroso destaca a sua composição preferida, no rol das que havia feito. Trata-se de “Terra seca” - canção de melodia elaborada/adequada a vozes de registro grave abordando o trabalho do negro escravo no Brasil.
Segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello a referida composição, com o passar do tempo, foi rotulada por alguns críticos como de cunho preconceituoso por colocar o personagem na perspectiva conformista. Os referidos autores afirmam que ela “permanece como um clássico, comparável a célebre - ‘Ol’ man river’”. Abaixo as duas composições citadas.
Terra seca” (Ary Barroso) # Quatro Ases e Um Coringa. Disco Odeon (12375-A) / Matriz (7387). Gravação (20/9/1943) / Lançamento (novembro/1943).



Ol’ man river” (Jerome/Kein/Oscar Hammerstein II) # Frank Sinatra.

Ary Kerner e Carlos Galhardo

No apagar das luzes do Estado Novo a exaltação do trabalho era o mote do governo Vargas, cujo objetivo era minar a insatisfação de segmentos da sociedade, que criticavam o regime ditatorial. Foi neste contexto que o compositor Ary Kerner Vieira de Castro compôs a marcha abaixo.
Canção do trabalhador” (Ary Kerner Veiga de Castro) # Carlos Galhardo. Disco Victor (34614-A) / Matriz (33380). Gravação (10/4/1946) / Lançamento (junho/1946).

Onéssimo Gomes

Ainda no apagar das luzes da primeira fase do governo de Getúlio Vargas (1937/1945), ainda havia espaço para músicas exaltando o “trabalho”, mas compositor Almeidinha desafinou o coro com a composição “Trabalhar, eu não”.
Trabalhar, eu não” (Aníbal A. de Almeida [Almeidinha/irmão da Aracy de Almeida]) #Onéssimo Gomes e Grande Escola de Samba. Disco Odeon (12692-B) / Matriz (8013). Gravação (26/3/1946). [No rótulo do disco aparece como intérprete, Joel de Almeida, que faltou à gravação].

Como réplica a composição “Trabalhar, eu não”, eis que o compositor Estanislau e Boscarino deram o troco com “Trabalhar, eu sim”.


"Trabalhar, eu sim" (Estanislau Silva/Boscarino) # Zé da Zilda/Zilda do Zé. Disco Continental (15740-A). Gravação (10/7/1946) / Lançamento (dezembro/1940)

Ary Barroso, Francisco Alves e Benedito Lacerda

A parceria entre Ary Barroso e Benedito Lacerda logrou o 3º lugar no Concurso de Músicas para o Carnaval de 1948, realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Este samba é uma crítica à eterna carestia, que reina até hoje.
Falta um zero no meu ordenado” (Ary Barroso/Benedito Lacerda) # Francisco Alves com Orquestra Odeon, sob a direção de Guari. Disco Odeon (12833-B) / Matriz (8304). Gravação (4/12/1947) / Lançamento (janeiro/1948).

Luiz Antonio e Marlene
Utilizando-se de uma linguagem cinematográfica a dupla de compositores Luiz Antônio e Jota Júnior criaram “Lata d’água”. Na época atuavam como capitães do Exército a serviço da Escola Especializada da Academia Militar. Segundo Jairo Severiano de Zuza Homem de Mello para chegar ao trabalho “os dois passavam diariamente por um morro ao pé do qual uma bica d’água servia aos moradores”. Uma das cenas mais comuns que ambos observavam era de mulheres equilibrando uma lata na cabeça ao mesmo tempo em que carregava uma criança.
Lata d’água” (Luiz Antônio/Jota Júnior) # Marlene. Disco Continental (16509-A) / Matriz (C-2778). Gravação (25/10/1951) / Lançamento (janeiro/1952).

Armando Cavacanti, Klecius Caldas e Blecaute

Contrastando com Maria lavadeira, do samba acima, os compositores Armando Cavalcanti e Klecius Caldas atacaram de “Maria candelária”. Na letra destaca: “alta funcionária” que “a uma vai ao dentista, as duas vai ao café, as três vai à modista e as quatro assina o ponto e dá no pé...”.
Maria Candelária” (Armando Cavalcanti/Clecius Caldas) # Blecaute. Disco Continental (16502-A) / Matriz (C-2760). Lançamento (janeiro/1952).
Os autores de “Zé marmita”, em apenas duas estrofes, focaliza a via sacra de um trabalhador.
Zé marmita” (Brasinha/Luiz Antonio) # Marlene. Disco Continental (16670-A) / Matriz (C-2989). Lançamento (janeiro/1953).

Como o Post está ficando muito grande vamos deixar os complementos para os nossos queridos leitores que podem/devem contribuírem com outros períodos da nossa história recente. Combinado?

Maioria sem nenhum” (Elton Medeiros/Mauro Duarte) # Elton Medeiros/Paulinho da Viola. LP Na Madrugada. Selo RGE, 1966. [Essa música foi censurada por muito tempo].

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Fontes:
- A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1997.
- A História Cantada no Brasil em 78 Rotações. Miguel Ângelo Azevedo [Nirez]. - Fortaleza: Edições UFC, 2012.
- Coleção Revista da MúsicaPopular. - Rio de Janeiro: Funarte / Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006.
- Fotomontagem: Laura Macedo.
- Marchas Brasileiras / Luiz Américo Lisboa Júnior. - Ilhéus, BA: Editus; Itabuna,BA: Via Litterarum, 2014. Vol. 2.
- Montagem áudios: Laura Macedo.
- Site YouTube - Canais: “TheM209”, “SenhorDaVoz”, “Gravadora Galeão II”, “1000amigovelho”, “CanaldoRádio”, “Roberto Seresteiro”, “Edgard Vita de Pina”, “Daniele Nogueira”, “issu17”.
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MORRE O VISIONÁRIO JOSÉ ROZENBLIT, FUNDADOR DA FÁBRICA DE DISCOS ROZENBLIT

Empresário chegou a manter no Recife a principal fábrica de discos fora do eixo Rio-São Paulo, aberta até meados dos anos 1980

Por Larissa Lins


José Rozenblit manteve a principal gravadora de discos fora do eixo Rio-São Paulo até meados dos anos 1980. Fotos: Heitor Cunha/Arquivo DP 


Morreu na noite deste sábado (29), aos 89 anos, o empresário José Rozenblit, fundador da Fábrica de Discos Rozenblit, uma das maiores fábricas de discos do país, fundada em 1954 no Recife. Ex-presidente do Sport Club do Recife, Rozenblit nasceu em família judaica tradicional da cidade e liderou com pioneirismo o mercado fonográfico nacional por anos. Um dos selos mais importantes de sua gravadora, o Mocambo, nome pelo qual a empresa ficou conhecida popularmente, registrou trabalhos simbólicos de ícones do frevo, como Capiba e Nelson Ferreira. Foi homenageado pelo Carnaval do Recife em 2003, e, há alguns anos, mantinha postura reservada e sofria complicações de um acidente vascular cerebral.

Para o historiador pernambucano Jacques Ribemboim, a importância de Rozenblit - cujo nome tem origem russa - para a cultura do estado vai além da música. Em Boa Vista, o berço das artes plásticas pernambucanas, Ribemboim cita a família Rozenblit, que residia no Centro do Recife, onde José Rozenblit viveu até o casamento, quando mudou-se para a Av. 17 de Agosto, em Casa Forte - endereço tombado hoje como referência da arquitetura modernista local. 

"Muitos artistas locais só conseguiram lançar seus discos no mercado graças à [Fábrica] Rozenblit. Mas o legado foi além. Ele promoveu artistas locais ao encarregá-los da concepção das capas desses discos. Entre os chamados 'capistas' da Rozenblit, se lançaram grandes artistas plásticos locais. Ele contratou, por exemplo, Wilton de Souza, hoje com 82 anos. Souza, junto com Lula Cardoso Ayres, que por sua vez não chegou a integrar o quadro de funcionários da fábrica, foi um dos principais precursores do design pernambucano. Um pioneiro", explica Ribemboim. A Rozenblit lançava os discos pelos selos Mocambo (regional), Passarela(coletâneas), Arquivo (coletâneas especiais), Artistas Unidos (artistas do Sul e Sudeste do Brasil) e Solar(música experimental).

O artista plástico Wilton de Souza, que fundou o Clube da Gravura e o Ateliê Coletivo em parceria com Abelardo da Hora, Gilvan Samico, José Cláudio e outros nomes das artes plásticas do estado, via em Rozenblit um incentivador. Foi, por muitos anos, encarregado de coordenar o departamento de artes da fábrica. "Perdemos um elemento de grande sensibilidade, não somente pela música, pela divulgação do nosso frevo, dos ritmos locais, mas pela arte de maneira geral", observa. Aos 82 anos, Souza se recorda do teste para trabalhar na Fábrica, um desenho que seria encartado em LP, e dos conselhos trocados com o empresário em relação à indústria da música e aos nomes dos discos prensados na Rozenblit. Em entrevista ao Viver, se emociona: "Falar sobre Rozenblit é, para mim, uma oportunidade de devolver um pouco do que ele me proporcionou", diz.

No documentário Rosa de sangue, com direção, roteiro e produção da jornalista e produtora cultural pernambucana Melina Hickson, a história da gravadora se revela em detalhes. Premiado com o 1º lugar de melhor documentário da XXV Jornada Internacional de Cinema da Bahia e 3º Lugar na categoria documental do VI Festival de vídeo de Teresina, em 1998, ano em que foi lançado, o filme reúne depoimentos de músicos locais e nomes ligados à indústria fonográfica, como Zé da Flauta, Lula Cortes e Zé Ramalho. Nele, é reforçado o valor histórico da Fábrica Rozenblit, naquela época o maior parque industrial fonográfico do país fora do eixo Rio-São Paulo.

"José Rozenblit foi um visionário. Ele estava recluso há muitos anos. Não falava à imprensa, o que reforça o valor documental de Rosa de sangue, para o qual ele abriu as portas por vários dias de registros e gravações", explica Melina. Ela aborda, nas filmagens, não somente as memórias da fase áurea da gravadora, mas também sua derrocada. "As cheias do Recife levaram muito material dele por água abaixo. Ele foi processado por muitos músicos, ficou muito abatido", conta a pernambucana. Por vezes, enchentes quase destruíram a empresa, causando enormes prejuízos a José Rozenblit, que optou pelo encerramento das atividades da fábrica em meados dos anos 1980. A situação era insustentável: praticamente todo o acervo de fitas matrizes havia sido perdido em sucessivas inundações nas décadas de 1960 e 1970.

Na internet, familiares compartilham o luto. "Tenho, na sua história de vida e de garra, elementos suficientes pra sentir um orgulho danado. Um avô que só me traz recordações incríveis dos fins de semana e das histórias que ele contava quando foi presidente do Sport. Fundador da Fábrica Rozenblit, ajudou muito a música pernambucana e nordestina. Orgulho!", publicou um dos netos no Facebook, Daniel Ribas Rozenblit.


>> DEPOIMENTOS

"Os irmãos Rozenblit, em especial José Rozenblit, iniciaram um trabalho no mercado fonográfico que foi, provavelmente, o mais importante para a música nordestina. Era para o Recife que convergiam todos os artistas nordestinos. Aqui, eles gravavam seu trabalho e Rozenblit os lançava para o país. Primeiro, na Rua da Aurora, prensaram os primeiros discos em 78 rotações. Depois, ele fundou e comandou a Fábrica Rozenblit, sempre com enorme disposição. Era um homem de Pernambuco, para Pernambuco e por Pernambuco. Contou com a colaboração preciosa de nomes como Expedito Baracho, Nelson Ferreira e Capiba. Com artistas locais, ele fez história na música regional. Brilhantemente. Resgatou tradições folclóricas do Norte e Nordeste, como as emboladas e o bumba meu boi. Coisas que o Sul e Sudeste não conheciam. Foi um homem que mereceu todos os aplausos. Ele enalteceu o Nordeste, abriu um mercado que resiste até hoje. Um grande industrial pernambucano." (Renato Phaelante, produtor, escritor e pesquisador fonográfico)


"Sou grata porque ele me abriu as portas pra a construção de Rosa de sangue. Além de visionário, ele era dinâmico. Os artistas chegavam à Fábrica com ideias e saiam com os discos debaixo do braço. Isso porque ele fazia questão de manter não somente a prensa, mas uma gráfica, com designers, e todas as etapas da cadeia produtiva de um álbum. Ele fazia o processo completo. Era algo impressionante." (Melina Hickson, produtora cultural e diretora e roteirista do documentário Rosa de sangue, dedicado à história da Fábrica Rozenblit)


"Trabalhei por quase dez anos com ele. Ainda me lembro de quando fiz uma prova a convite dele para ser desenhista da fábrica. Terminei sendo aprovado. O meu primeiro teste, o projeto de capa que eu fiz, foi impresso em LP e eu garanti meu emprego. Um momento inesquecível. Permaneci lá por quase dez anos. E ele foi, além de meu chefe, um grande amigo. Ele me chamava para ajudar a escolher títulos de discos. Eu recebi muita confiança da parte dele. Desenvolvemos grande amizade, que perdurou até hoje. Perco um grande amigo, um grande incentivador. Ele me permitiu coordenar o departamento de ambientação da loja. Eu também dirigi o departamento de arte e design da Fábrica, criei a Galeria de Arte Rozenblic, através da qual houve um grande movimento artístico, e ele sempre foi um grande apoiador da nossa cultura. Perdemos um elemento de grande sensibilidade, não somente pela música, pela divulgação do nosso frevo, dos ritmos locais, mas pela arte de maneira geral. Eu me emociono nesse momento. Falar sobre Rozenblit é, para mim, uma oportunidade de devolver um pouco do que ele me proporcionou. Da confiança dele, do carinho dele. Me emociono muito." (Wilton de Souza, artista plástico)

NOITES TROPICAIS - SOLOS, IMPROVISOS E MEMÓRIAS MUSICAIS (NELSON MOTTA)*



As Frenéticas começaram a gravar o seu primeiro disco, como as primeiras contratadas da nova gravadora Warner, dirigida por André Midani, na primeira produção do ex-Mutante Liminha. Pensando nelas, escrevi uma letra de música e mandei para Rita Lee e Roberto de Carvalho em São Paulo: “Eu sei que eu sou bonita e gostosa e sei que você me olha e me quer eu sou uma fera de pele macia cuidado, garoto, eu sou perigosa...” Alguns dias depois, eles mandaram uma fita com a música pronta, um rock’n’roll básico e suingado, com riffs rolling-stonianos e uma preciosa contribuição de Rita no final da letra. A que mandei a eles terminava assim: “Eu posso te dar um pouco de fogo, eu posso prender você meu escravo, eu faço você feliz e sem medo, eu vou fazer você ficar louco, muito louco, muito louco...” E Rita acrescentou, femininamente: “... dentro de mim!” Só por isso já mereceria entrar na parceria, mas a Censura jamais aprovaria uma letra assim. Então, quando mandamos o pedido de autorização, só com a letra escrita, colocamos “dentro de mim” não como o último, mas como o primeiro verso da letra: “Dentro de mim eu sei que eu sou bonita e gostosa...” Deu certo. “Perigosa” foi liberada e na gravação as Frenéticas “esqueceram” de cantar “dentro de mim” na abertura e cantaram todas as outras vezes, até o final, quando ficavam repetindo “dentro de mim” entre gemidos lúbricos e toda sorte de sacanagens.

Assim que chegou às rádios a música explodiu: homens, mulheres e crianças, feios e bonitos, cantavam alegremente “eu sei que eu sou bonita e gostosa” e diziam com entusiasmo que iam fazer alguém “ficar louco, muito louco, dentro de mim”, as bichas iam à loucura, as velhotas assanhadas desreprimiam geral. A música foi uma das mais tocadas do verão e das mais cantadas no carnaval de 1977, de norte a sul do Brasil. Na Bahia, tocada pelo Trio Elétrico de Dodô e Osmar em ritmo de frevo acelerado e cantada por milhares de vozes, levava a Praça Castro Alves ao delírio e me fazia chorar de felicidade em frente à televisão: é a maior alegria que um compositor pode ter. No final do verão, as Frenéticas tinham vendido mais de 100 mil discos e explodiam nos programas de televisão com seus espartilhos e cintas-ligas, sua sexualidade esfuziante, sua alegria e irreverência. Tornaram-se também as favoritas das crianças, que cantavam e dançavam suas músicas e imitavam os seus movimentos sensuais. As Frenéticas não eram uma imitação das estrelas internacionais de disco music, eram uma versão pop das vedetes de teatro de revista, das estrelas de cabaré e de chanchadas da Atlântida, em ritmo de rock e discoteca.

Uma de suas primeiras músicas define bem a sua atitude artística: “Dançar para não dançar”, de Rita Lee, um jogo de palavras com a liberdade da dança e o perigo de “dançar”, irônica e terrível gíria da época para “ser preso, desaparecer, morrer”. Tudo que elas cantavam ganhava novo sentido, ambíguo e sacana, alegre e libertário. Até uma música do angry young man Gonzaguinha, recordista de músicas censuradas e um compositor político militante e agressivo, ganhou uma nova ironia e se transformou num hit das Frenéticas. Com esfuziante arranjo disco de Dom Charles, da turma de Tim Maia, o samba de Gonzaguinha que ironizava o “milagre brasileiro” virou disco music e se tornou o seu primeiro grande sucesso popular. 

“O trem da alegria promete — elas davam uma pausa, rebolavam lubricamente e repetiam: mete, mete, mete e garante que o riso será mais barato agora, agora, agora em diante...” O “Trem da alegria” das Frenéticas partia da Rádio Nacional para a Central do Brasil, carregado de ioiôs, miçangas, tangas e bugigangas, como dizia a letra de Gonzaguinha, e fazia o Brasil dançar como Rita Lee. Ao contrário da música do Led Zepellin que deu nome à casa, os dias de dança não estavam de volta: para mim estavam apenas começando. Embora eu não gostasse de dançar e raras vezes tenha me aventurado na pista do Dancing Days. Com a aventura do Dancing e o espetacular sucesso nacional das Frenéticas, minha vida ganhou um novo ritmo, noturno e acelerado, além das minhas obrigações diárias e diurnas no jornal e na televisão. O casamento entrou em crise.

Na noite, tudo estava dando certo e ninguém queria parar. A equipe vitoriosa do Dancing , do DJ aos músicos, produtores e seguranças (todos tinham participação nos lucros), os amigos, os artistas, o público queria mais, todo mundo queria mais, no escritório de Ipanema choviam telefonemas perguntando quando e onde iria (re)abrir o Dancing. “Só se for no Pão de Açúcar”, eu dizia brincando, como se falasse do Coliseu de Roma ou da Torre Eiffel. Porque não imaginava fazer um novo Dancing Days em lugar nenhum e queria preservar a sua memória gloriosa, a história e a lenda, a marca da casa. Não ia abrir em qualquer lugar, correndo, só para aproveitar a onda e a popularidade do nome. Estava feliz por tudo ter sido tão bom e em tão curto tempo, pelo Dancing ter terminado em seu melhor momento, por não ter sofrido as humilhações da decadência. Por ter me ajudado a pagar minhas dívidas. Dois meses depois do fim do Dancing, fui procurado pelos diretores da companhia que operava os bondinhos e explorava as lojas e restaurantes do Morro da Urca e do Pão de Açúcar. Almoçamos no The Fox, na Praça General Osório, e o presidente, um enérgico velhinho, Dr. Christovam Leite de Castro, e seu filho, engenheiro Antero, em nome da companhia, me ofereceram seus 20 mil metros quadrados de floresta no alto do morro, com bar e restaurante, um anfiteatro de madeira cercado de árvores, com um pequeno palco — e a visão deslumbrante do Rio noturno, a 200 metros de altura. E nos associamos para abrir um Dancing Days no alto do Morro da Urca.

A curta e intensíssima vida do Dancing Days original o tornou conhecido em todo o Brasil, como a grande novidade da vida noturna, a nova moda, a primeira discoteca brasileira, embora algumas semanas antes de nós já funcionasse em Ipanema, num espaço bem menor, a New York City Discotheque, que não tinha música ao vivo e era muito mais comportada. E não tinha as Frenéticas. Em todas as centenas de entrevistas que as seis garotas deram pelo Brasil inteiro em sua turnê triunfal, e que começavam inevitavelmente pelo “como começou a sua carreira?”, tudo que falavam aumentava a popularidade e a lenda do Dancing Days, que se transformou em sinônimo de “discoteca”. Quando Gilberto Braga ambientou sua novela, estrelada por Sônia Braga, na nova onda de música e dança das noites cariocas, não encontrou título melhor nem mais adequado. O diretor Daniel Filho e Boni concordaram entusiasticamente.

Mas “Dancing Days” era uma marca registrada legalmente por mim, quando abri a casa. E a TV Globo precisava ter todos os direitos, já que planejava licenciar uma série de produtos da nova moda a partir da novela. Do contrário, escolheriam outro título. Negociei com Boni a venda para a TV Globo dos direitos da marca por uma besteira em dinheiro e uma série de comerciais para o novo Dancing Days que ia abrir no Morro da Urca. Como se precisasse: teria uma novela da TV Globo, das oito, com o nome de minha discoteca. Além disso, Daniel
pediu que eu fizesse uma música, dançante, disco, para ser o tema de abertura da novela. Cantada pelas Frenéticas, claro. Chamei o pianista Ruban Barra, que tocava com elas desde o primeiro show, e ele me mostrou a base de uma animadíssima disco, de melodia fácil e alegre, irresistivelmente dançante e carnavalesca. Perfeito registro do espírito da época.

Entre goles de uísque e linhas de cocaína, a música ficou pronta em menos de uma hora. As Frenéticas gravaram uma base no Rio com farta percussão e o produtor Mazola levou a fita para Los Angeles, onde acrescentou um arranjo de big band de cordas e metais, tocado pela
fina flor de músicos americanos de estúdio. Mixou e masterizou no melhor estúdio de LA. Ficou sensacional, sem dever nada aos similares estrangeiros. Antes mesmo de a novela entrar no ar, a execução maciça da música nas chamadas da TV Globo detonou saraivadas de telefonemas para as rádios e em poucos dias “Dancing Days” já tocava intensamente no Brasil inteiro e era o terceiro hit consecutivo das Frenéticas em menos de um ano. E o maior de todos. “Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nesta festa.”

As Frenéticas convidavam e o Brasil cantava e dançava. “A gente às vezes sente, sofre, dança, sem querer dançar. Na nossa festa vale tudo vale ser alguém como eu como você.” A novela estreou com grande sucesso e passou a ser acompanhada apaixonadamente. No início do verão de 1978, com um show das Frenéticas e uma festa de arromba, o Dancing Days abria sua imensa pista ao ar livre, numa clareira entre árvores exuberantes, num platô no alto do Morro da Urca. Sem vizinhos, sem polícia, sem Administração Regional, entre as nuvens e cercado pelo silêncio e pela floresta tropical. Um sonho de verão. Mas a “volta triunfal” foi um completo desastre.

Deslumbrados com a imensidão da área, calculamos mal e convidamos muito mais gente do que as três mil pessoas que poderíamos. O pessoal da velha e pacata companhia do bondinho, acostumado a atender turistas, calculou pior ainda e pouco depois de meia-noite os bares não tinham mais nem água mineral. Os bufês foram devastados em minutos. Mais de cinco mil pessoas, entre artistas, celebridades, habitues do velho Dancing, populares e penetras subiram o morro. Os novos bondinhos italianos eram grandes, modernos e seguros. Mas lentos. Subiam 70 passageiros de cada vez, em dois bondinhos, com uma longa e cuidadosa manobra de embarque e desembarque, cada viagem levando quase dez minutos.
Filas monstruosas se espalhavam pela Praia Vermelha e desembocavam na estação do bondinho. 

Lá em cima, o caos. Com o anfiteatro e a pista abarrotados, gente pendurada nas árvores e metade do público sem poder ver o palco, as Frenéticas fizeram um show sensacional e levaram o público à loucura. E depois todos pularam feito pipoca com os hits de Donna Summer e de “Saturday Night Fever” que Dom Pepe detonava nas caixas. Mas sem bebida, com os banheiros em colapso e a pista superlotada, os excedentes e excluídos queriam ir embora (para nunca mais voltar) e filas monstruosas se formavam na estação do bondinho para a batalha da descida. Muita gente levou mais de uma hora esperando e nos xingando, entre eles muitos amigos e habitues do velho Dancing. Nenhum de nós foi à praia no dia seguinte. Ao contrário do que esperávamos, quando abriu para o público, o novo Dancing não partiu de onde tinha terminado o velho, com seu público habitual de artistas e garotada da praia. Todas as sextas e sábados três mil pessoas lotavam os bondinhos, vindos não mais da Zona Sul mas principalmente da Zona Norte e dos subúrbios, muita gente que confundia a novela com a discoteca, que imaginava “estar” na novela, que esperava encontrar a Sônia Braga dançando na pista. Um público completamente diferente da Gávea, quando se conhecia todo mundo: agora não conhecíamos mais ninguém. A casa era um sucesso absoluto de público, estávamos ganhando mais dinheiro, mas todo mundo estava se divertindo muito menos.

Divertida mesmo foi a festa que Rod Stewart deu no Copacabana Palace, por conta da Warner. Estrelíssima internacional, ele era alucinado por futebol e não veio para cantar, mas para ir ao Maracanã. Para aproveitar a oportunidade e fazer uma promoção do seu novo disco, a gravadora convidou para jantar com Rod a imprensa especializada e alguns artistas e VIPs, coisa de 40 pessoas. Mas a notícia se espalhou na praia do Posto 9 e a suíte presidencial do Copa recebeu mais de 250 (não) convidados, de todos os sexos, animados ààà beça. Rod e seus amigos adoraram e a noite terminou com um disputado futebol de salão de três contra três na “quadra” de mármore da suíte, com resultado de alguns abajures e cadeiras quebrados. Rod foi expulso do hotel, mas gostou tanto do Rio que alugou um apartamento no vizinho e chiquissimo Edifício Chopin, na Avenida Atlântica. Na festa de réveillon de Guilherme Araújo, no Morro da Urca, o escocês se esbaldou. Seu amigo Elton John, vestido de marinheiro, também, os dois cheirando cocaína como aspiradores humanos.

O grande acontecimento do Dancing Days foi a festa de arromba que a gravadora Ariola ofereceu para dois mil convidados, em homenagem a sua estrela Bob Marley, que fazia sua primeira viagem ao Brasil para lançar o novo disco. Marley chegou como um rei, fumou diversos baseados, dançou e tomou guaraná, ficou louco com o visual do Rio de Janeiro iluminado, da ponte Rio-Niterói ao Leblon. Nessa noite, o público foi o do antigo Dancing. Com a novela, a febre mundial da discoteca se espalhou por todo o Brasil, o segundo Lp das Frenéticas, puxado por “Dancing Days”, estourou nas paradas de sucesso, grandes artistas como Tim Maia e Ney Matogrosso gravaram disco-music, todo mundo começou a gravar. Tudo virou discoteca, havia uma discoteca em cada esquina, a moda discoteca, as meias arrastão, os sapatos de plataforma, os ternos brancos, as roupas de lurex, os produtos licenciados pela TV Globo. O disco com a trilha internacional da novela vendeu  quase um milhão de cópias. Era hora de mudar de praia. No final do verão, com o final da novela e o início das aulas, o público começou a diminuir e resolvemos fechar, melhorar o palco e o anfiteatro, que eram precários, fazer novos bares e banheiros, para reabrir no verão seguinte com outro nome, outra decoração e outra música. Eu não aguentava mais disco-music.



* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe , com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

SPOTIFY ULTRAPASSA A MARCA DE 40 MILHÕES DE USUÁRIOS PAGANTES

Serviço de streaming teve um aumento de mais de 30% de usuários que pagam para utilizar a plataforma em seis meses





Daniel EK, co-fundador do Spotify. (foto: Andrew Burton)


A plataforma de música on-line sueca Spotify anunciou nesta quarta-feira, 14, que ultrapassou 40 milhões de usuários que pagam pelo serviço, consolidando seu posto de número um mundial.

''Quarenta é o novo 30. Milhões'', publicou no Twitter o cofundador e diretor-geral do serviço de streaming musical, Daniel Ek.

Uma porta-voz do grupo confirmou à AFP que a declaração do executivo tratava dos assinantes que pagam pelo serviço - que também pode ser utilizado gratuitamente, mas de forma limitada.

Ek se referia, assim, aos 30 milhões de usuários pagantes que a empresa registrou em março passado. Por tanto, o crescimento foi de mais de 30% em seis meses.

Spotify está muito à frente do seu principal concorrente, a Apple Music, que tinha cerca de 15 milhões de assinantes em junho. 

No final de junho, o Spotify ultrapassou a marca de 100 milhões de usuários ativos.

O streaming musical cresceu de maneira espetacular no mundo todo nos seis primeiros meses de 2016, mais do que duplicando o nível atingido no mesmo período do ano anterior, segundo a empresa especializada BuzzAngle Music. 

Nos Estados Unidos, o maior mercado, o streaming musical atingiu durante o primeiro semestre de 2016 a marca de 140 bilhões de reproduções, ultrapassando pela primeira vez o número de visitas a vídeos on-line.

Desde que foi lançado na Indonésia, em março, o Spotify está presente em 59 mercados no mundo. Mas ainda não registrou lucros, visto que a maior parte do dinheiro arrecadado foi usado para pagar direitos de autor.


Fonte: AFP

domingo, 30 de outubro de 2016

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Resultado de imagem para "Imyra Tayra Ipy"


Falar sobre Taiguara é, sem dúvida alguma, rememorar um dos mais talentosos artistas que já aportaram em terras brasileiras, pois em uma carreira de quase três décadas o músico que infelizmente faleceu bastante jovem deixou uma significativa obra e álbuns que entraram para a história de nossa música. Um músico controverso par ao regime existente ao longo de boa parte de sua carreira. O cantor e compositor teve músicas e discos censurados como foi o caso do álbum "Imyra Tayra Ipy", álbum de carreira, lançado pela EMI-Odeon em 1976 em LP, mas que foi banido do mercado fonográfico brasileiro pela censura apenas 72 horas depois de seu lançamento, durante a ditadura militar no Brasil. Composto por 14 faixas, o disco só apresenta uma canção não assinada por Taiguara ( trata-se de "Três pontas", de autoria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos). Hoje não me estenderei acerca da biografia do saudoso artista, mas a ocasião suscita lembrar que Taiguara foi um dos artistas da música popular brasileira mais perseguido pela censura durante boa parte de sua carreira e talvez esse fator tenha corroborado substancialmente para gerar a mítica história que envolve este disco que viria a seu último lançado ao longo da década de 1970. Vale o registro que "Imyra Tayra Ipy" não foi o primeiro disco do artista uruguaio a ser proibido no Brasil. Um ano antes, após um período de cerca de dois anos em auto-exílio na Europa, Taiguara que havia gravado o álbum "Let the children hear the music" em Londres, viu este projeto fonográfico totalmente censurado pelo Regime Militar brasileiro. Com apenas as faixas "Porto de Vitória" e "Terra das Palmeiras" em português (o álbum tinha 90% de suas letras em inglês), Taiguara usou de sua criatividade para ir de encontro à Ditadura Militar.

Nesse período em Londres, Taiguara aprofundou-se em teorias musicais, dedicou-se com afinco nos estudos de composição e arranjos no Ghildhall School of Music e chegou a tocar com a orquestra sinfônica de Londres. Longe do seu torrão natal, a saudade o proporcionou não apenas ter uma visão do Brasil com maior clareza, mas também p fez aproximar-se de um estilo de composição exaltação, onde chegou a compor canções que falavam da saudade de sua terra, o sofrimento de seu povo e a opressão do governo durante esta época. "Let the children hear the music" denunciava as atrocidades cometidas em toda a América Latina e para poder driblar a censura usava pseudônimos na autoria de algumas faixas e o nome de sua esposa na época, Gheisa Chalar da Silva como autora de três canções: Terra das Palmeiras, Situação e Público. "Imyra Tayra Ipy" (nome dado em homenagem a seus filhos) traz muito em seu bojo muito dessa característica que rege o disco anterior. A ficha técnica do álbum citado consta com alguns dos maiores nomes da música instrumental brasileira de todos os tempos tal qual Wagner Tiso, Toninho Horta, Novelli, Jacques Morelembaun, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise, Raul Mascarenhas, Ubirajara Silva e Hermeto Pascoal. Reza a lenda que um dos técnicos de som da EMI, chamado Nivaldo, responsável pela mixagem do disco, quase enlouqueceu na mesa de edição com o Taiguara e o Hermeto querendo ouvir todos os detalhes milhões de vezes. Devido a tamanho stress, assim que terminou a edição do disco o pobre do técnico teve que se internar em uma clínica para tratar-se de uma crise nervosa. A filha do cantor, instrumentista e compositor, anos depois, definiria o disco como uma espécie de Guernica Latino Americana. A quem não se recorda, Guernica é um painel pintado por Pablo Picasso em 1937 por ocasião da Exposição Internacional de Paris e que busca retratar o bombardeio sofrido pela cidade espanhola de Guernica em 26 de abril de 1937 por aviões alemães, apoiando o ditador Francisco Franco. Além do disco apreendido, o pretenso show de lançamento do mesmo também não foi permitido pelos militares. Marcado para o 1º de Maio de 1976, nas ruínas das Missões no Rio Grande do sul, o espetáculo  foi cancelado apenas 24 horas antes de sua estreia. Banido do mercado brasileiro, o álbum teve os seus direitos comprados por produtores japoneses que lançaram na terra do sol nascente em 1980, só vindo a ser lançado no Brasil mais de três décadas depois da edição japonesa.

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

DISCO QUE ACABA DE SER LANÇADO REÚNE O PIANISTA MICHEL FRIEDENSON E OS SOPROS DE TECO CARDOSO

'Dois por dois' traz a música dos compositores Luiz Millan e Moacyr Zwarg

Por Kiko Ferreira



A origem está nas sessões que os autores fazem, aos sábados, para “conversar sobre música, sobre a vida, para jogar conversa fora, para ouvir o trabalho dos compositores e intérpretes que admiramos e, principalmente, para compor”, na descrição de Millan.

Já os veteranos Teco e Michel se conhecem desde os 14/15 anos, quando eram alunos da escola do Zimbo Trio, Clam, e guardam na memória afetiva a primeira visita que o pianista fez à casa do flautista, por sugestão do baixista Chico Valente, com destaque para as músicas que a mãe de Cardoso, a pianista Norma Guerreiro Cardoso, mostrou ao jovem instrumentista.

Mais tarde, eles formaram um dos mais interessantes grupos instrumentais dos anos 1980, o Zonazul, e não deixaram de se encontrar desde então.

O CD conta, ainda, com participação da cantora Anna Setton, que, então grávida de nove meses, canta a única melodia com letra, Janeiro de 1976.

Os versos sintomáticos e nostálgicos de Millan partem de uma foto desbotada e fazem referência a Drummond, Simone de Beauvoir e Beatles. Mais especificamente, da música Let it be, ouvida numa vitrola.

Gravado em três dias de novembro do ano passado (um para Janeiro de 1976 e dois para as outras 13 músicas), o álbum tem um clima de intimidade que remete mais a encontros como o da gaita de Toots Thielemans com o piano de Bill Evans (Affinity) do que àqueles duetos que soam como duelos e desafios, tipo o Samambaia, de Hélio Delmiro e Cesar Camargo Mariano.

A autêntica ação entre amigos sugere uma música popular de câmara. Tem samba (Quem sabe..., O passar das horas), baião (Dois por dois), frevo (Frevo pra Léa, feito para homenagear a flautista Léa Freire) e misturas rítmicas que remetem a influências de jazz, bossa nova, choro e música erudita, aqui e ali lembrando Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque. Enfim, música inspirada e erguida em encontros sólidos e férteis.

sábado, 29 de outubro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

PAULINHO DA VIOLA, O VICE-REI DA MÚSICA BRASILEIRA

Paulinho da Viola, a Música Popular Brasileira por um compositor clássico


Tenho para mim que o melhor remédio para banzo, mau humor, espinhela caída, enxaqueca, apatia e lundu é ouvir Paulinho da Viola, o príncipe dos sambistas brasileiros.

Desta vez, com esse show que vi sábado, resolvi elevá-lo à categoria de vice-rei. De ‘Sinal Fechado’ ao ‘Pagode do Vavá’, de ‘Coração Leviano’ a ‘Foi um Rio…’, Paulinho é, na minha modesta opinião, o mais clássico dos compositores populares brasileiros, com os dois pés no samba de Partido Alto, Sambas-Canção, quase boleros, Sambas-Enredo, melodias sem fim, harmonias de um mestre que é o próprio instrumento musical, mas também de uma grandiosidade melódica e complexidade harmônica, geralmente guardada aos eruditos.

Com letras belíssimas, líricas e graves, harmonias incomuns, instrumentação impecável e arranjos soberbos, Paulinho, a completar 74 anos agora em 12 de novembro, é um artista completo: exímio compositor, afinadíssimo cantor e – colher de chá – instrumentista formado na melhor escola do samba.

O filho de seu Paulo César Faria (Época de Ouro) aprendeu o ofício com monstros sagrados como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Nelson Cavaquinho, sem falar no seu mais dileto parceiro Elton Medeiros.

“Jogando com o Capeta”, de Moreira da Silva – 1958, com Paulinho da Viola

Esse escorpião, de gestos leves e a elegância de lorde na sua lhaneza e forma de se relacionar, é quase tímido. Às vezes para (do verbo parar) uma história que estava contando para a plateia e desiste do final porque acha (?) que é melhor mostrar do que dizer.

No exemplo da homenagem que fez a Moreira da Silva, contava que o que lhe chamara a atenção nesse breque eram os versos “Deus me defenda do senhor, falei em Deus, mas sem má intenção”.

Para Paulinho, perfeccionista com a palavra, tanto quanto com a melodia, soava-lhe estranho uma letra de que constasse “Deus, mas sem má intenção”.

Antes que a plateia completasse a gargalhada, Paulinho já iniciara a música, que cantou de pé, só ele e o cavaquinho.

JARBAS CAVENDISH - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Band Leader da exitosa Pequi, o multifacetado e inquieto Jarbas Cavendish volta ao nosso espaço para esta entrevista generosamente concedida onde aborta distintos temas 

Por Bruno Negromonte




De família musical, Jarbas Cavendish souber aproveitar e sorver toda a musicalidade com a qual convivia diariamente em sua casa a partir de sua mãe e sua avó. Desta experiência foi aglutinando outros elementos e características que hoje refletem-se em suas composições e projetos nos quais se envolve por onde tem passado ao longo de todos estes anos dedicados à música. Depois de ter iniciado seus estudos musicais em Pernambuco, graduou-se pela Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO) em 1992. Como professor auxiliar na UNIRIO, foi responsável por disciplinas como Harmonia e Teclado, Percepção Harmônica e Prática de Conjunto. Atualmente, é professor na Escola de Música da UFG, estando a frente de um exitoso e bem-sucedido projeto de extensão e cultura da escola de música da instituição, a Banda Pequi, que ao longo dos últimos quinze anos já soma três projetos: um CD (que conta com a participação da cantora Leila Pinheiro), e dois DVD's (sendo o mas recente uma parceria com o instrumentista Nelson Faria e o cantor, instrumentista e compositor mineiro João Bosco como pode ser conferido recentemente aqui mesmo neste espaço a a partir da pauta "EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA"). Inquieto, atualmente ainda soma à suas atividades o projeto de pesquisa acadêmica que visa observar resultados de performance musical na área da MPB. Batizado de Garagem (alusão aos espaços que durante muitos anos em décadas passadas serviam para guardar os automóveis mas também como estúdio de ensaios), o projeto vem sendo encabeçado por dois grupos: Diphobia e SotaqueFormado por 5 músicos com idade até 18 anos da rede municipal estadual e federal, Diphobia busca apresentar um  repertório autoral na linguagem do Rock; já Sotaque é formado por alunos de graduação e pós graduação a partir de um repertório composto pelo próprio Jarbas. Tais projetos vem ganhando a devida notoriedade e o êxito tão peculiar àqueles projetos que deixa-se envolver tal qual pode ser conferido a partir da TV UFG em programas distintos assim como também a partir de um curso de gravação e mixagem avançada feito com Rodrigo Lopes, engenheiro ganhador do Grammy 2016 com o disco da Eliane EliasPelo visto, tal qual o personagem mitológico Midas, tudo o que Jarbas toca vira ouro.



Sem sombra de dúvidas, sua maior incentivadora e influência foi sua mãe, Carmen Cavendish. Qual a marca mais profunda dela que pode-se observar hoje em seu trabalho?


JC - Acredito que o que trago hoje em minha vida musical advinda da influência da minha mãe foi o talento e a consciência de que ele só se estabelece e floresce com muito estudo e trabalho. Ela foi incansável em acreditar que eu poderia um dia viver da minha arte e não mediu esforços, enquanto pode, para que eu tivesse uma formação sólida e consistente. Além disso me jogou no lúdico que a música proporciona com muito amor e alegria, promovendo verdadeiro ambiente de descontração, harmonia e socialização. Tocamos muito juntos quando eu era muito criança ainda. Na minha casa, em Casa Forte, tinham dois pianos na sala e ela e minha avó Graziela protagonizavam horas de muita música, popular, erudita e o que pudesse ser tocado. 


Ao longo de sua trajetória pelo Conservatório Pernambucano de Música você teve a oportunidade de estar ao lado de nomes de extrema relevância dentro da música instrumental pernambucana como Clóvis Pereira, Guedes Peixoto, Mestre Duda, entre outros. Desses nomes há algum que você sempre busca inspiração na hora de compor?

JC - O Conservatório Pernambucano de Música foi o grande formador de diversos músicos da minha geração e também das seguintes. Uma instituição extremamente séria e comprometida com a formação musical de crianças e adolescentes. Tive a oportunidade de conviver com diversos "ídolos" da música pernambucana como Eliane Silveira, Henrique Anes, Maurício Quiapeta, Edson Rodrigues, Cussy de Almeida entre outros. Mas muito me impressionava a linguagem musical de Clóvis Pereira, refinada, com as raízes nordestina bem definidas associadas a uma elaboração composicional que muito me impressionava. E ver o Mestre Duda tocando regendo sua orquestra nos bailes de carnaval dos clubes pernambucanos sempre foi inspirador pra mim. Vivi essa experiência por muitos anos da minha infância e adolescência.


Em muitas canções de sua autoria é possível observar elementos que tem uma forte ligação com a sua região de origem. Essa sonoridade é algo que surge naturalmente em suas composições e arranjos ou acabou tornando-se uma válvula de escape para matar a saudade da região?

JC - Quem viveu a arte nordestina nunca mais sai dela, por mais que queira, devido ao amor e orgulho de representar um povo de cultura tão rica e expressiva. Costumo dizer que embora há quase trinta anos que saí de Recife, o Recife nunca saiu de mim. Minha consciência musical borbulha em frevo, maracatu, xote, baião e por aí vai... embora o Recife que eu vivi não exista mais, o bairro de Casa Forte onde pude deslumbrar de tanta riqueza e liberdade esteja hoje totalmente desconfigurado das minhas percepções emotivas, minha música também me ajuda a manter essa ligação com minhas raízes, meu sotaque. E o interessante é que esse sotaque me trás uma identidade reconhecida e de inquestionável aceitação do meu trabalho.


Desde o ano de 2012, ao menos na teoria, todas as escolas brasileiras deveriam incluir o ensino de música em suas respectivas grades. No entanto, na prática, não é bem isso que acontece. Em sua opinião como bem sucedido docente nesta área, qual a importância da música na formação cognitiva e cidadã?

JC - A música é transformadora, inclusiva e reveladora como forma de transmissão de conhecimento e cultura de qualquer sociedade. É capaz de arregimentar pensamentos, unir ideais e socializar as pessoas de forma clara, simples e objetiva. A educação através da oralidade musical é de uma eficiência inquestionável, haja visto os povos indígenas, que têm na música sua maior forma de transmissão de conhecimento e informação. Acredito que o ensino da música nas escolas regulares é de grande e vital importância para que uma sociedade se identifique e evolua. Mas não é bem isso que vemos acontecer por parte dos nossos governantes, infelizmente. 


A Banda Pequi como todos sabem trata-se de um Projeto de Extensão e Cultura da Escola de Música da UFG, que é uma instituição pública federal. Esta nova conjuntura política que vendo sendo delineada de um tempo pra cá corrobora ou interfere de algum modo neste projeto?

JC - A Banda Pequi, por suas características específicas, se consagra como uma forte expressão artística e cultural da Universidade Federal de Goiás, e uma verdadeira escola de formação de músicos com foco na prática da música popular. São mais de 150 músicos que sentaram em nossas estantes desde o ano de 2000 até o presente momento, sem nenhum prejuízo no que diz respeito a sua qualidade e evolução artística. Um projeto consolidado em 16 anos de atividades ininterruptas, proporcionando uma verdadeira interação entre as unidades acadêmicas através de suas apresentações. A atual conjuntura política para as universidades é de extrema contenção orçamentária, inibidora de projetos como a Pequi. Mas felizmente as instâncias superiores da universidade entendem a importância do projeto e o apoio continua sendo o mesmo. 







Agora vamos falar a respeito deste novo projeto lançado recentemente cujo título é "João Bosco, Banda Pequi e Nelson Faria". Composto essencialmente por canções da lavra de Bosco, há no repertório um tema de sua autoria intitulado "Girando em torno do sol". Quais foram os critérios que você buscou adotar para a inclusão desta canção no DVD?

JC - O Projeto original se intitula "Banda Pequi e convidados especiais - João Bosco e Nelson Faria". A ideia é apresentar a banda com suas características musicais e convidar um artista consagrado com o seu arranjador. Nesse sentido as duas primeiras músicas do Dvd apresentam a Pequi, sua forma de tocar, de pesquisar seu repertório enquanto grupo de pesquisa sonora. Nesse contexto a minha música se encaixa como luva numa perspectiva de laboratório de arranjos. Em seguida o Nelson Faria se integra ao grupo com mais duas músicas, uma delas, Um abraço na Pequi, composta especialmente para a ocasião e finalmente vem a participação bombástica do João Bosco com suas extraordinárias canções.


Sua parceria com o Nelson Faria vem de longa data, inclusive gerando além deste DVD um CD com a participação da Leila Pinheiro. Como se deu esse encontro?

JC - Conheci o Nelson pessoalmente no início dos anos 90 quando trabalhamos juntos no Cigan, escola que o Yan Guest tinha no Rio de Janeiro. Desde então fiquei muito impressionado com o músico e o professor que ele é. E em 1994 gravei o CD Orquestra de Música Popular da UNIRIO que tinha um frevo dele (que tocamos até hoje com a Pequi) intitulado Ioio. Em 2008 fomos convidados para fazer uma apresentação no festival Canto da Primavera, em Pirenópolis-GO, onde também se apresentariam o Nosso Trio, formado pelo Nelson, Kiko Freitas e Ney Conceição. Eles iriam acompanhar a cantora Leila Pinheiro e por iniciativa do Nelson, que conhecia nosso trabalho, foi proposto a junção desses artistas numa apresentação única. O show foi um dos melhores da nossa carreira e não deu outra, logo em seguida estávamos em estúdio registrando este importante trabalho.


E a participação do João Bosco? Em que circunstância surgiu essa ideia e como se deu o convite?

JC - De novo o Nelsinho. Comentei com ele do sonho de poder fazer um trabalho com o João e ele fez essa ponte, apresentado a Pequi ao João que também aceitou de imediato diante do endosso do Nelson. Foi feito então um grande projeto para o Fundo Estadual de Cultura com a proposta de gravar um DVD. Aprovado o projeto tivemos também a participação da pro - Reitoria de Extensão e Cultura de UFG assumindo uma grande parte desse projeto. 


E as canções que entraram no projeto? Como se deu a escolha diante do vasto repertório deste artista que vem escrevendo a sua história na MPB por mais de quatro décadas?

JC - Deixamos o João a vontade para cantar o que quiser, afinal de contas não impomos nenhum tipo de obrigatoriedade a nossos convidados. Contudo sabia que o que ele escolhesse seria um primor para o nosso DVD, já que tudo que o João faz é de um valor artístico incalculável. E nas mãos do Nelsinho arranjando a certeza de que seria sucesso era um fato. Pra mim ficou até um pouco difícil separar o profissional do fã diante das canções que gravamos e estar num palco com o João Bosco. Foi a maior e mais rica experiência que tivemos. 


Como tem sido a divulgação deste novo projeto? Há pretensões desse encontro com o João se repetir em mais algumas apresentações?

JC - Infelizmente nada é tão fácil nesse nosso país em relação às artes em geral, principalmente às que não têm características midiáticas. Mas com calma e perseverança estamos com algumas perspectivas para fazer um lançamento digno do Dvd. Aplicamos 2 editais para o Sesi e Banco do Brasil para um lançamento em São Paulo e estamos também preparando um projeto de circulação com algumas apresentações de lançamento em algumas capitais.



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