PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

FERNANDA CUNHA - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Um dos mais produtivos compositores da música brasileira ainda em atividade, Bráulio de Castro não pára de produzir nos mais variados gêneros da música popular brasileira, em especial a pernambucana.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

DOM, INSPIRAÇÃO E SUOR NA DOSE CERTA

Com uma extensa carreira musical e projetos executados no Brasil e no Exterior, Markus Britto busca não se delimitar naquilo que faz a partir dos distintos projetos .

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

QUEM NÃO GOSTA DE SAMBA BOM SUJEITO NÃO É...

O compositor Vinícius de Moraes certa vez disse: "O samba é uma forma de oração". E é assim, com a singeleza de sua voz unítona como prece ao Deus da música, que a cantora joinvilense Ana Paula da Silva apresenta seu mais recente trabalho intitulado "Pé de crioula".

Por Bruno Negromonte


O título desta matéria seria mero clichê se não houvesse como personagem central a figura da catarinense Ana Paula da Silva. A cantora que nasceu em Joinville vem há 14 anos desenvolvendo uma carreira muito coesa com a proposta a qual se empenhou em desenvolver desde o início. Isso talvez se tenha dado ainda na infância, quando teve a sua musicalidade estimulada, influenciada e de certa forma moldada sob a orientação do seu pai, aprendendo desde então a cultuar o rico universo musical brasileiro apresentado a partir das obras dos grandes nomes de nossa música popular.

Com esse impulso motriz dado por seu pai, Ana Paula deu continuidade ao desenvolvimento dessas habilidades, e de maneira auto-didata veio aperfeiçoando seus conhecimentos musicais e sua desenvoltura artística; tudo isso deu o embasamento necessário para que ela viesse desenvolvendo desde 1997 a sua trajetória profissional, progredindo de modo substancial e ascendente ao longo destes anos desde quando iniciou a sua carreira de intérprete, violonista e compositora.

O primeiro álbum começou a ser concretizado sete anos após a sua profissionalização, e ao projeto foi dado o título de "Canto Negro". Das quinze faixas do álbum, algumas são de autoria da própria Ana Paula, que traz além de suas composições músicas de artistas como Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho (Quando eu me chamar saudade), Paulo César Pinheiro (Sincretismo), Tavinho Moura (Serra do ão), Guinga e Sérgio Natureza (Nem mais um pio). A gestação deste trabalho durou cerca de um ano e cinco meses (entre janeiro de 2004 e junho de 2005) e foi elaborado inicialmente e finalizado na Áustria, pois nessa época Ana Paula encontrava-se lá sedimentando sua carreira no mercado internacional. Essa sua permanência por terras europeias fez com que apenas em 2006 o álbum fosse lançado no Brasil. Na celebração deste primeiro trabalho constam a participação de nomes consagrados de nossa música popular como Robertinho Silva, Beto Lopes, Alegre Corrêa, Arnou de Melo, Edson Santanna e outros novos talentos da nossa música. O álbum chegou a ser apresentado no Festival de Jazz de Montreux e algumas cidades da Europa e do Brasil.

Ainda no ano de 2006 veio o segundo álbum com o título de "Por causa do samba", um álbum que surgiu para selar a parceria e as afinidades musicais existentes entre Ana Paula da Silva e o guitarrista, compositor e arranjador gaúcho Alegre Corrêa. Essa parceria que deu-se a partir de junho 2004 em alguns lugares da Europa como Áustria e Viena, desde então tornou-se uma constante as apresentações da dupla em palcos europeus. No Brasil, a dupla chegou a se apresentar em concerto com a Vienna Art Orchestra.

"Por causa do samba" é a celebração (no sentido mais puro da etimologia) desse encontro musical a partir de um repertório (com arranjos elaborados pelo duo) que alternam-se entre composições de grandes nomes do cancioneiro popular brasileiro e composições da dupla a partir de algumas variantes. Estão presentes no álbum compositores como Ary Barroso, David Nasser, Zequinha de Abreu, Paulo César Pinheiro, Vicente Barreto, Milton Nascimento, Robertinho Silva e Raul Boeira e músicos da qualidade de Robertinho Silva, Márcio Tubino, Wolfgang Muthspiel entre outros. O lançamento do álbum e a turnê foram realizados essencialmente na Europa ao longo do primeiro semestre de 2006.



Passaram-se três anos até que no primeiro semestre de 2009 Ana Paula da Silva lança o seu terceiro projeto, que trata-se de um trabalho lítero-musical, onde a partir do livro-cd "Contos em Cantos" a artista catarinense assina a produção de todas as composições e a maioria dos arranjos (elaborados desde 2003) em parceria com o artista plástico e contador de história Humberto Soares, que além das histórias, também ilustra o livro. O projeto permeia o universo infantil a partir de canções inéditas e histórias que abordam a natureza e algumas questões ecológicas, tendo por característica a leveza e a graça necessária para o público atendido pela proposta que foi idealizado pelo edital do SIMDEC de Joinville.

Ainda em 2009, lança o projeto fonográfico e a turnê intitulados de "Aos de casa", fruto de sua conquista ao projeto Pixinguinha no ano anterior . O projeto além de vivenciar a cultural catarinense de compositores como Dentinho, Carlos Daddário, Chico Saraiva e outros da região, além de registrar pela primeira vez o ritmo catarinense catumbi na voz de uma mulher. O álbum produzido pela própria Ana Paula conta com conceituados instrumentistas brasileiros e foi apresentado em universidades catarinenses, cidades do sul e países platinos, além da Europa. Outro destaque relevante é o encarte que acompanha o cd e que traz imagens diversas da cultura catarinense e contato dos artesãos.
Agora, depois de dois anos, Ana Paula da Silva nos apresenta o seu quinto projeto que vem de maneira independente e que traz como título "Pé de crioula" (que você pode adquirir clicando na imagem ao lado); um álbum essencialmente feito pelo samba e o melhor de suas variantes, ritmo que segundo a própria artista considera enraizado em sua alma e coração. O trabalho conta com a direção musical e arranjos do conceituado cantor e compositor de samba Cláudio Jorge, este carioca que além de integrar a ala dos compositores da Escola de Samba Vila Isabel, também já foi parceiro de nomes como Cartola, João Nogueira e Hermínio Bello de Carvalho além de ter sido gravado por grandes nomes da nossa MPB.

"Pé de crioula" abre com uma composição do amigo e parceiro Alegre Corrêa intitulada "A voz do Brasil", canção de cunho ufanista que exalta os ritmos e as belezas do Brasil; Corrêa também assina outra faixa do álbum em parceria com o também gaúcho Raul Boeira, artista este que tivemos a oportunidade de apresentar aos frequentadores do Musicaria Brasil ao longo deste ano. Dessa parceria surgiu a canção "Negro coração", que trata-se do desejo de que o samba do sul viesse a ter o mesmo tempero, a malemolência, e mais algumas peculiaridades dos sambas feitos na Bahia por nomes como Caymmi, Assis Valente e Riachão. O álbum segue com "Curiosidade" (Wilson das Neves e Cláudio Jorge) um samba que conta a história de um sujeito que procura saber informações da ex e que acaba atestando tudo aquilo que ela havia dito: ela encontrou a felicidade e hoje é feliz. E como diz a letra: "as mágoas e ele ficaram lá no passado".



Os sambas continuam com "Macumba de sogra" (Carlos Daddário e Fábio Poletto) uma estória sobre superstições em macumbas, urucubacas e pragas e o que podemos fazer para evitá-las; "As guias de Moa" (Fio e Joazinho) que traz em sua letra uma singela homenagem ao grande sambista Moacyr Luz. O ritmo continua na mesma intensidade e qualidade com a faixa que dá título ao disco e que é uma parceria da Ana Paula com o o músico e compositor Serginho Almeida e que retrata a cultura africana a partir da figura feminina; A regravação da canção "Me alucina" (Wilson Moreira e Candeia) presente no álbum "Candeia - Luz da inspiração" (1977) e que retrata um amor impossível e proibido por circunstâncias maiores.

O disco ainda traz as canções como "Nuances do amor" (mais uma composição do Cláudio Jorge em parceria desta vez com Mauro Diniz), "Calma" (letra da compositora paulistana Giana Viscardi e música do violonista austríaco Michael Ruzitchka), "Em torno do samba" (Marco Pinheiro e Délcio Carvalho), que trata a relação da artista com o samba de maneira tão intensa que ele se faz fundamental em sua vida e "Samba na veia" (Renato Lemos) que trata-se de uma declaração de amor ao ritmo que rege o álbum e por fim "Longa espera" (Zorba Devagar e Chico Alves) que nos remete as canções praieiras da saudosa Clara Nunes.

Todos essas faixas são acompanhadas por músicos de primeira linha no mundo da música como Mauro Diniz (Cavaco), Carlinhos (7 cordas), o próprio Cláudio Jorge (nos violões e arranjos), Belôba (tantã e ganzá), Gordinho (surdo), Marcelinho Moreira (percussões), Ricardo Silveira (guitarras), Mário Séve (sopro), Serginho Coelho (trombone), Robertinho Silva (percussão), Ovídio Brito (cuíca), Gabriel Grossi (harmônica), Ronaldo Barcelos e Ari Brito (coros). Com um time de músicos desse gabarito o resultado não poderia ser diferente: um álbum de samba digno de destaque dentro da música brasileira contemporânea. Até porque, esses anos que transpassam um pouco mais de uma década de carreira (dedicados essencialmente ao cancioneiro popular brasileiro) credenciou Ana Paula a dividir apresentações com nomes como Elza Soares, Tavinho Moura, Toninho Horta, Leny Andrade, Lô Borges entre outros; e está presente em palcos de diversas cidades do Brasil, mas concomitantemente em turnês por países como a Argentina, Suíça e a Áustria, como em 2006 quando participou de uma turnê de cinco semanas com o conceituado músico austríaco Joe Zawinul (o tecladista falecido em 2007 era considerado um dos pais do jazz fusion e foi fundador do grupo Weather Report) no Joe Zawinul Syndicate e a participação no álbum do pianista também austríaco Martin Reiter. Isso tudo dá a cantora, violonista e compositora catarinense a propriedade necessária para ter o reconhecimento do seu trabalho por nomes como o de Nelson Motta e a pré-seleção para o mais recente Prêmio da Música Brasileira. Tudo isso só reforça a tese de que a qualidade cultura cultura brasileira é inegável, porém sendo muitas vezes sendo esquecidos no próprio país acaba fazendo o caminho inverso e sendo reconhecida como produto de algo de qualidade ímpar no exterior.



Com um trabalho da estirpe do "Pé de crioula", que traz o samba como força-motriz do seu canto, não me resta outra outra alternativa a não ser atribuir ao título desta apresentação da Ana Paula da Silva aqui no Musicaria Brasil um dos trechos mais populares do cancioneiro brasileiro de autoria do saudoso Dorival Caymmi, quando na antológica composição de 1940 "Samba da minha terra" ele afirmava: "Quem não gosta de samba bom sujeito não é... é ruim da cabeça ou é doente do pé...". Eu vou um pouco além de Caymmi afirmando que "Quem não gosta de samba não tem o pé de crioula".


Maiores informações:
Contatos para shows e aquisição dos álbuns: crioulabrasilproducoes@gmail.com
Fone: (47) 8816-1464
Site - www.anapauladasilva.com
Myspace - www.myspace.com/apdasilva
Youtube - www.youtube.com/anacrioula

TÚLIO BORGES CHEGA PARA MOSTRAR, ALÉM DE TALENTO, UM NOVO PRUMO PARA A MPB CONTEMPORÂNEA

Túlio Borges, um dos mais talentosos cantores e compositores da nova geração da música brasileira, apresenta "Eu venho vagando no ar", um álbum que traz um novo alento para a mpb contemporânea.

Por Bruno Negromonte


Anotem esse nome: Túlio Borges. Sim! o tradutor, poeta, cantor e compositor brasiliense merece que seu nome seja lembrado posteriormente, apenas por seu primeiro álbum. Túlio além de ser um apaixonado por música (estudou piano na Escola de Música Brasileira) e ser fã de gêneros como o fado e o jazz (tendo participado inclusive de um grupo do gênero) e de nomes como Rosa Passos e João Gilberto, vem ganhando destaque no novo cenário musical brasileiro.

Borges morou nos EUA e também na Inglaterra; e foi justamente em Londres que começou a reunir as cerca de 40 composições que havia feito até então no intuito de gravá-las. De volta ao Brasil deu início a compilação desse primeiro trabalho a partir das canções trazidas na bagagem, além de dar início a sua participação em diversos festivais. Esse laboratório rendeu-lhe dentre outros prêmios, o primeiro lugar no Sesc de Brasília e o segundo na Semana da Canção Brasileira, em SP, num júri que contava com Dante Ozzetti e Alice Ruiz.

Paradoxalmente por ser tão aficionado por música hesitou bastante antes de envolver-se com tal arte da maneira tal qual hoje está envolto, essa hesitação veio de forma positiva pois parece que surtiu como efeito o extravasamento máximo de ideias e acepção de novos ares para a nossa MPB em um tipo de efervescência agradabilíssima que resultou em seu álbum de estreia. O álbum (gravado entre 2007 e 2009) já habilita Borges como um incrível compositor e intérprete dos mais representativos da nova geração da música brasileira, tal qual um artesão musical virtuoso e inovador a partir da tradução de uma harmonização rara traduzido em um disco inovador e que demostra uma maturidade peculiar.

De canto brando e trazendo novos e prolíferos ares para a música popular brasileira, Túlio indubitavelmente vem para fazer parte do hall dos recentes compositores que merecem a atenção do grande público. Suas músicas e letras são fidedignas o suficiente para chamar a atenção da imprensa especializada, como a do crítico e musicólogo Zuza Homem de Mello, que ao ouvir o trabalho desse brasiliense foi sintético e enfático ao dizer: "Proponho aos ouvidos atentos prestarem bastante atenção ao trabalho músical de Túlio Borges. Depois a gente conversa." E é desta forma mesmo, sinteticamente impactante que este primeiro trabalho, "Eu venho vagando no ar" do Túlio Borges chega ao mercado fonográfico brasileiro.



Essa sua estreia no mercado fonográfico além da ter uma excelente receptividade do público e da imprensa especializada, traz um trabalho simples e que tem em sua contemporaneidade tudo aquilo que anseavamos encontrar sempre que surgem novas promessas na música brasileira. O músico Túlio nos traz alguns dos diversos ritmos brasileiros e suas tradições a partir de letras que são dignas das mais atentas audições para aqueles que prezam por textos coesos e coerentes o suficientes para receber inúmeras comparações como grandes nomes da MPB.

O álbum começa com a adaptação de alguns "Pontos" do folclore afro-brasileiro de domínio público a partir do canto de Borges e da percussão de Ribas que traz por peculiaridade a companhia nos vocais de sua segunda mãe (como costuma se referir) à Dona Inácia Maria da Conceição, que sola no último dos pontos e o criou e trabalha com a família do músico brasiliense há mais de três décadas. Segundo o próprio músico ela talvez tenha sido a pessoa que mais tenha o influenciado em sua formação musical por sempre ter ouvido ela cantar. “Era ela quem trazia o negro e o popular, o nordeste e as histórias para dentro de casa”, relatou em recente entrevista. Segundo Túlio a ideia era gravar fazer da gravação desses pontos um agradecimento em vida pela força que a piauiense sempre lhe deu, força essa expressada de maneira tão singela através de pequenos gestos que "limpam a alma de tão sinceros e puros", como define Túlio.

O álbum é essencialmente um trabalho autoral, cabendo apenas duas faixas que foram feitas em parceria com a carioca Vytória Rudan, que Borges a partir de festivais ao qual participou conheceu. No fado "Zorro" (a primeira das duas parcerias existentes), a sociedade existente na composição se repete nos vocais da faixa. A outra canção da dupla é o samba "Paraty", que fala da saudade de forma peculiar e destrinchada.

Por falar em saudade o tema também é abordado na faixa composta exclusivamente pelo cantor nascido em Brasília e intitulada "Cicatriz", a canção aborda o tema de maneira visceral ao ponto de referendar a saudade que devora e que deixa cicatrizes. As demais faixas também são assinadas unicamente por Túlio como o baião "Trem" que traz consigo uma propriedade do ritmo de maneira tão encorpada pelo acordeom de Ferragutti que ao tratar de um arrependimento em não confessar um amor tipo de amor cheio de peculiaridades nos remetes as mais genuínas composições do gênero. O álbum segue com blues e solos de guitarra como em "Shirley", que aborda uma relação com uma doidivana que inclui tardes de rum barato, linguicinha com pão e a cerimônias do chá.



Em "Birosca" (um samba típico das crônicas musicais de compositores da estirpe de Noel Rosa), o protagonista finge que torce para que o vento não vente o suficiente para levantar a pequena saia de frequentadora do bar que por sua simples presença já aguça o libido dos frequentadores do estabelecimento. A clarineta, os violões e o piano remete-nos aos clássicos sambas de nossa música. Já as faixas "Oi/Morro de rir", "Altar" e "Toca aí" têm as suas peculiaridades. A primeira trata-se de um choro onde a competência musical aflora a partir de instrumentos como a trompa e a clarineta acompanhadas pelo toque do pandeiro trazendo o relato de alguns desejos em forma de chorinho; já "Altar" (que tem nos vocais a participação do cantor e compositor fluminense Fred Martins) traz sentidos figurados tão consistentes em seu propósito que chegam a ganhar valor denotativo; e por fim "Toca aí", uma canção que traz o alerta: "Se eu chorar, continua há muito choro em mim...".

Sem deixar de abordar o lado feminino, Túlio vem com a faixa "Sua" que traz o compositor ao piano e tem por característica uma competência inerente a nomes como o de Chico Buarque e por fim a faixa que dá título a obra: "Eu venho vagando no ar", canção de uma singularidade melódica e de uma estética lírica fascinante.

Na tessitura instrumental do álbum há participações de nomes como o do pianista, maestro, compositor e arranjador paulista Leandro Braga que dá seu toque peculiar em faixas como "Altar", "Birosca" e "Cicatriz" e do músico, arranjador e compositor paulista Toninho Ferragutti que participa das faixas "Trem", "Zorro" e "Sua". Além desses renomados músicos, participam do disco o percussionista Amoy Ribas, os violonistas Marcus Moraes, Rafael dos Anjos e Fernando César; os bateristas Sandro Araújo e Leander Motta; o cavaquista Pedro Vasconcellos, o bandolinista Jorge Cardoso, o guitarrista Genil Castro, o trompista Yuri Zuvanov, o clarinetista Ademir Júnior e o baixista Oswaldo Amorim que completam com requinte e sofisticação as faixas apresentadas em "Eu venho vagando no ar". Os músicos, procuraram partir em busca da construção de uma sonoridade que flerta com ritmos como o samba, o fado e o jazz a partir de variantes que acabam classificando-se como uma sonoridade atípica (no sentido mais sublime da palavra).

E é dessa forma impressionante que o álbum do brasiliense Túlio a cada nova faixa, vai ganhando a consistência no limite exato sem perder a leveza, algo que torna-se perene pelo conjunto e qualidade. Dessa forma chega a ser possível afirmar que "Eu venho vagando no ar" (que pode ser adquirido clicando na imagem ao lado ou através dos endereços abaixo) supre uma parcela significativa da esperança que temos em firmar novos e talentosos nomes no cenário musical brasileiro a partir dos últimos anos. Não é que não haja tais talentos, pelo contrário, existem muitos, porém poucos são aqueles que trazem em suas composições a robustez necessária para se firmar como tal. As letras de Túlio Borges trazem-nos um tipo de linguagem que apresenta um novo tipo de consciência estética tal qual o poeta francês Arthur Rimbaud e a sua linguagem libertária, já as suas melodias remetem-me a uma gama de ritmos de caráter contemporâneo e universal, partindo de suas mais profundas raízes. E é no paradoxo desta dicotomia que encontramos um álbum que merece uma atenção especial ao ser ouvido, pois Borges apresenta um timbre agradável aos ouvidos em uma combinação perfeita entre letras e músicas, fazendo de cada faixa uma agradabilíssima descoberta a partir de um projeto muito bem elaborado procurando apresentar tudo o que precisamos para uma excelente audição na medida certa. Parafraseando o título da obra do autor Aldous Huxley analogicamente com este disco vos digo: Admirável disco novo!

Maiores informações:
Myspace -
http://www.myspace.com/tulioborges


Compra de CDs
euvenhovagandonoar@gmail.com

São Paulo
Livraria Cultura, Market Place. Tel: (11) 3474.4033
Livraria Cultura, Bourbon Shopp Pompeia. Tel: (11) 3868.5100
Livraria Cultura, Paulista. Tel: (11) 3170.4033
Livraria Cultura, Vil. Tel: (11) 3024.3599
Pop's Discos. Tel: (11) 3083.2564

Campinas
Livraria Cultura, Campinas

Fortaleza
Livraria Cultura, Fortaleza

Brasília
Livraria Cultura, Casa Park. Tel: (61) 3410.4033
Livraria Cultura, Lago Norte

Recife
Passadisco Tel: (81) 3268 - 0888

Rio de Janeiro
HPI, Novo. Tel: (21) 3215.4943
Moviola. Tel: (21) 2285.8339
Tracks, novo. Tel: (21) 2274.7182

Porto Alegre
Livraria Cultura (Ode). Tel: (51) 3028.4033

A lista acima indica as lojas que compraram o CD recentemente. Entre em contato com a loja para garantir que o CD ainda está em estoque.

Contato para shows:
Sarah Pontes
(61) 8407.6707

Zé Alexandre (SP)
(11) 3822.1472
(11) 7260.1837

Crédito das fotografias:
Foto 01 - Raquel Pellicano
Foto 02 - Fabrício Olivieri
Foto 03 - Raquel Pellicano

Compra Online: http://www.cdbaby.com/cd/tulioborges/from/viglink

domingo, 14 de agosto de 2011

ADRIANA GODOY - ENTREVISTA EXCLUSIVA

De família extremamente musical, Adriana Godoy completa quinze anos de carreira em 2011; e contextualizada com essa comemoração divulga o álbum Marco, onde dentre as faixas há canções inéditas de Fátima Guedes e Elton Medeiros.

Por Bruno Negromonte


Possuidora de um talento nato, a cantora paulista que vem apresentando o espetáculo "Marco" e, ao longo de 2011, comemora 15 anos de uma bem conceituada carreira. Com sucesso de crítica e público, Adriana recentemente foi apresentada ao público do Musicaria Brasil a partir da matéria ADRIANA GODOY COMEMORA QUINZE ANOS DE CARREIRA E APRESENTA MARCO, UM ÁLBUM QUE TRAZ POR EXCELÊNCIA O REQUINTE E O BOM GOSTO ((http://musicariabrasil.blogspot.com/2011/07/adriana-godoy-comemora-quinze-anos-de.html), pauta esta que abordou com uma ênfase maior o seu mais recente trabalho fonográfico. Sempre solicita, a cantora paulista Adriana Godoy nos concedeu um pouco do seu tempo para nos conceder esta entrevista exclusiva onde fala, dentre outras coisas, um pouco sobre sua trajetória artística (a partir de suas maiores influências) e sobre o seu mais recente álbum que dá nome a sua turnê.


A música é algo presente em sua vida desde sempre (talvez por conta de ter seus pais envolvidos com tal arte). Se não houvesse esse contexto musical em sua família você acha que seguiria esse ofício?

Adriana Godoy - Bela pergunta Bruno, talvez não, talvez só descobrisse meu amor pelo canto, tarde...desde pequena ouvia dizer que tinha uma bela voz, mas isso me encabulava, depois adolescente gostava de cantar na roda com amigos achava bacana ser mais afinada que os outros, mas encarar isso como um talento, uma profissão, não, para mim era questão familiar meu ouvido apurado. Até hoje tenho paixão pelas pessoas, sociedade e comportamento humano e suas associações com a natureza, era isso que eu queria fazer, estudar as estruturas sociais da natureza, inclusive a humana, meu verdadeiro hobby. O canto me pegou como uma onda imensa que arrasta o que vê pela frente e te mostra um lado da ilha que você nem fazia idéia que exista. E então percebe que essa é a paisagem que quer para você o resto de sua vida. Aos 18 anos subi no palco a primeira vez. Meu pai pediu que eu substituísse uma cantora em seu grupo eu escutava os ensaios que aconteciam em casa, desde pequena sempre foi assim, como na casa do “Vila”, fazíamos lição da escola na mesa da sala, com o ensaio rolando ao lado...mas ele acreditava que eu cantava eu não! Até que em nossa segunda apresentação me emocionei comigo e as pessoas que me ouviram também, um teatro lotado quase 800 pessoas, em Bauru. Desci do palco e pensei: Meu Deus eu sou cantora!


Quando de fato veio a decisão de iniciar uma carreira de cantora profissional?

AG - Logo após o fato que acabei de descrever. Percebi que “o bichinho da música tinha me mordido” e quando isso acontece, não há volta! Eu e meus irmãos estudamos piano desde criança, como parte da educação. Então fui estudar canto, primeiro com Maria Alvim, aqui em SP. Depois cursei a extinta Universidade Livre de Música Tom Jobim. Lá fiz grandes amigos musicais, como Fabiana Cozza, éramos colegas de classe. Foi onde conheci um universo musical que até então eu não tinha acesso mesmo sendo filha de músico, eu era uma adolescente bem comum, com gostos musicais bem diversificados. A partir daí é que fui verdadeiramente educada na música brasileira...aliás continuo...! Meu primeiro show solo foi no então reduto de MPB em SP, na casa Vou Vivendo, em 06 de junho de 1996, há 15 anos! Que comemorei no último dia 01/07, junto com meus 35 anos de vida, na casa Tom Jazz.


Como foi a experiência de sete anos e centenas de apresentações junto a uma de suas principais referências musicais, que é o seu pai, com o espetáculo “Canto, piano e canções”?

AG - Posso dizer fundamental. Meu pai é um músico livre, os arranjos eram criados no palco e aperfeiçoados a cada dia que o executávamos. Tínhamos uma estrutura base, mas ele muda um show inteiro na hora se ele achar que esta perdendo o público. E isso é uma bela escola. No palco a “peteca não cai jamais”, seja pela emoção, pelo virtuosismo ou pela ousadia, mas se as pessoas saem de suas casas para nos ouvir elas precisam ser muito bem tratadas, lhes devemos o nosso melhor! É isso que me ensinou, com casa cheia ou vazia, éramos sinceros no palco e estávamos a serviço das músicas que iríamos tocar. Então não conheci a palavra tédio trabalhando na noite. E sim escola. Aprendi o público, exercitei meu canto diariamente e tive experiências diversificadas, das mais excepcionais, como cantar para mais de 40 integrantes da Orquestra Filarmônica de Berlim, que foram lá para me ouvir e deixaram de ir à recepção do presidente Fernando Henrique, oferecida para eles, como fazer parte da história de alguns casais.


Você trouxe para os estúdios algo que hoje é perceptível em seus álbuns dessa sua longa temporada do “Canto, piano e canções”?

AG - Coragem. Acredito também que a capacidade de interpretação, dar vida as palavras e clareza às melodias em cumplicidade com a harmonia que nos direciona.


05 – Sua mãe recentemente voltou ao Mercado fonográfico com o álbum “Ave rara”, seu pai sempre esteve na ativa assim como também seus tios. Nas reuniões familiares cogita-se a possibilidade de registro de algum tipo de projeto familiar onde todos estarão presentes?

AG - Olha tivemos em 2009, quase todos...faltou minha mãe. O Dvd chama-se “Três Irmãos , Três Histórias”. Foi gravado no Auditório do Ibirapuera, SP. Meu pai sempre “pressionou” os irmãos pra isso. Com participação do Zimbo Trio, Orquestra Arte Viva (do Amilson), comigo e meus dois primos músicos, Tico de Godoy (filho do Amilton) e Frederico de Godoy (filho do Amilson). Apresentaram composições importantes de suas carreiras. Nós os filhos, abrimos o show. Agora com minha mãe, com certeza...ela que me aguarde!!!!


Como e por que surgiu o convite para gravar junto com o Quinteto de Sopros da Orquestra Filarmônica de Berlim o CD de composições de clássicos da MPB?

AG - Quando estiveram aqui em 2000, Julio Medaglia fez uma recepção para eles em sua casa e convidou meu pai Adylson, meus tios, Amilton, Amilson e o grupo de Altamiro Carrilho para tocarem música brasileira e jazz para eles. Então o Amilson falou “Dédi, leva a Adriana eles precisam conhece-la”. Foi ai. Eles procuravam uma cantora para esse projeto que eles tinham e depois de muitas cantoras que já haviam escutado, várias “figuronas”... então como disse o Julio: “Adriana você foi aprovada”. Eu não entendi nada e falei: “ah que bacana, que bom que eles gostaram da apresentação...”, isso já dois dias depois da recepção, quando os convidamos para ouvir o show “Canto Piano e Canções”. E então o Julio falou, “Não você não esta entendendo, ele querem gravar com você”. Tomei um susto, no dia seguinte tinha uma “Platéia Filarmônica de Berlim”, para ouvir a menina escolhida.


Quem assistiu ao vídeo release do álbum "Marco" sabe que o projeto (que já estava em andamento com a escolha do repertório) voltou a estaca zero quando você decidiu gravar a canção "Crescente fértil". Daí em diante, a seleção das músicas tinha como critério possuir uma certa, digamos, unidade com a composição do Ed Motta e do Aldir Blanc. Nessas novas escolhas você procurou priorizar letras ou melodias? Você poderia definir aquilo que você julgou por unidade nessas novas escolhas?

AG - Para mim a escolha de repertório é de caráter puramente emocional. Esse é o elo entre elas. A liberdade e a transformação que a emoção propicia. Minha formação e meu gosto pessoal vão do erudito ao popular, eu gosto de composições que me desafiam como interprete e como cantora, entendo os dois conceitos de maneiras distintas...esse foi meu critério.


Como surgiram esses “presentes” inéditos que foram as canções “Garrafas ao mar” da Fátima Guedes e a composição "Mea culpa", que tem entre os compositores o Elton Medeiros?

AG - Tive meu primeiro contato com Fátima no Cd Todos Os Sentidos (2003), a conheci através de uma amiga em comum, Guete, produtora daqui de SP, a Guete levou meu CD para Fátima e um dia ela me liga, meu coração veio na boca, eu desavisada lavando louça, veja a cena... E meu marido, “Adri, a Fátima Guedes no telefone.”, kkkk, só rindo mesmo! Ela é uma querida, que me apoiou me desejou boa sorte e disse que para os próximos eu a procurasse porque tinha músicas que gostaria de me mostrar e assim o fiz. Com o Mestre Elton, foi através de meu parceiro Dino Galvão Bueno, trabalhamos juntos há 10 anos, canto suas composições e sou produtora musical e executiva de seu primeiro CD Mestre Navegador, que será lançado em setembro deste ano pela Dabliu. Eles são parceiros em outras composições. O Elton me ouviu num show que produzi aqui, depois disso me convidou para um projeto dele, que acabou não acontecendo... Mas quando fui gravar o disco, tomei coragem e liguei como um padrinho musical, aceitou! Agora, gravo, ao vivo, com ele o Centenário de Nelson Cavaquinho, dia 16/06, próximo, no Sesc Pinheiros em SP. O disco sairá pelo selo do Sesc.


A Débora Gurgel e o Grupo Triálogo mostram-se como, de certa forma, a alma do álbum "Marco". Como foi se deu esse envolvimento deles com o projeto?

AG - Era isso que eu queria. Construímos os arranjos juntas, cada acorde, cada pausa. Claro em suas devidas proporções, a Débora é a arranjadora, não eu. Durante quase um ano, nos encontramos duas vezes por semana, para falar sobre conceitos e tocar. O resultado é a cumplicidade do CD. Depois que estávamos totalmente juntas voz e piano, levamos o trabalho para o baixo e bateria. Filó Machado quando ouviu uma de nossas apresentações de piano e voz, já com os arranjos do CD, falou sobre isso, vocês estão coladas, fiquem atentas e levem isso para o trio. Que bom que você percebeu!!! Acho que deu certo! Claudio Machado (baixo) e Christiano Rocha (bateria) trabalham comigo desde sempre, há 14 anos. O Christiano é meu co-produtor musical, porque ele sabe o que eu quero ouvir, mesmo que eu não saiba pedir. E o cuidado que tem com o trabalho faz toda diferença, ele cuida se fosse dele. A produção musical é minha e peço para os músicos tocarem sua verdade e a favor da música, não de sua execução. Então se for muito, retire, se for pouco construa.


São 15 anos de estrada, reconhecimento tanto da crítica especializada quanto do público, 2 álbuns gravados a pré-seleção ao Prêmio da música brasileira em 2011 com o álbum "Marco", além de diversos prêmios. Hoje você se sente realizada enquanto cantora ou há ainda metas que você almeja alcançar?

AG - Fico feliz, mas não me envaideço, não acho que a arte foi feita para alimentar egos, foi feita para aprimorar sentimentos. O que mais quero é ter 80 anos e cantar lindo como Zezé Gonzaga cantou num show que ouvi há anos atrás. Voz limpa, clara, afinadíssima! E que emoção! Esse é meu prêmio! Eu respiro música, assim como respiro meus filhos, são dois!
Quero sim cantar muito, viajar pelo Brasil e pelo mundo. Conhecer culturas diferentes e levar o que eu tiver de melhor para o público. Todo artista tem de ir aonde o povo está!

CADA UM SABE A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É...

Por Bruno Negromonte


A arte como um todo em nosso país nunca teve o seu devido reconhecimento, talvez até por conta da ausência quase que total de estímulos que venham a executar o mínimo que seja em relação a mudanças substanciais nesse panorama ao longo dos anos. É perceptível a falta de incentivos nos diversos âmbitos culturais de nosso país, seja nas artes plásticas ou na música; seja na falta de amparo aos pequenos grupos que procuram preservar as culturas regionais nos mais recônditos lugares do Brasil ou até mesmo quando através de leis como a Rouanet vultosas quantias são direcionadas a projetos que beneficiam meia dúzia de pessoas. Isso talvez seja reflexo da história recente do Brasil, onde através de regimes autoritários impostos em alguns momentos em nosso país a cultura tenha tido alguns revés de forma significativa.

Acredito que o primeiro momento no século XX que talvez mereça destaque tenha sido o Estado Novo, período em que o então presidente Getúlio Vargas impôs o primeiro regime ditatorial em nosso país e mesmo com a criação do Sphan (o atual Iphan) teve também momentos profícuos cerceados (típicos como toda ditadura nos tem mostrado ao longo dos anos) e, mesmo sendo superado pelos poucos anos de democracia pós-Estado Novo acabou levando mais um baque a partir de 1964. E que baque!

Na minha humilde concepção a alienação e o ufanismo impostos por circunstâncias maiores a partir dos Atos Institucionais na década de 60 deixaram profundas marcas na forma de se ver e se valorizar a arte como um todo em nosso país, talvez por isso grande parte da população do Brasil não tenha por hábito frequentar ambientes culturais como cinemas, bibliotecas e teatros.

Ou talvez todo esse reflexo da deficiência cultural enfrentada no Brasil seja consequência de outro fator que se aprofundado aqui seja motivo para um outro artigo: a falta de investimento em educação. Muito do que se ver na educação do nosso país fica aquém do que realmente deveria ser, pois os estudantes deveriam desde a educação básica até o ensino superior contextualizar-se mais com a cultura brasileira como um todo.

E é nesse contexto de depreciação que eu vejo aqueles que fazem cultura no sentido mais significativo da palavra profusão sucumbirem pela falta de reconhecimento e apoio por parte dos que deveriam, de certa forma, colaborarem ou financiarem as diversas ideias existentes nos mais variados segmentos culturais. Desses que fazem e vivem da arte muitos são aqueles que historicamente não tem os seus devidos reconhecimentos; e um dos que mais sofrem com isso são aqueles que exercem o árduo ofício de compositor (até mesmo pela falta de prática dos meios de comunicação em difundir seus respectivos nomes, atribuindo aos intérpretes toda o reconhecimento da obra).

Todo o contexto anterior veio apenas para dar o embasamento para a história que irei contar a partir de então, pois dentre outras alegrias proporcionadas pelo singelo espaço que aqui vos escrevo estão as gratas surpresas e manifestações que recebo a partir dos mais diferentes canais; e são essas gratas manifestações e descobertas que proporcionam-me a renovação diária na fé de que nem tudo está perdido em nossa cultura popular como um todo. Como o nosso espaço é particularmente dedicado a música, hoje gostaria de destacar uma dessas gratas surpresas que me surgiram nos últimos dias que é o compositor Milton Bezerra da Silva, mais conhecido no município paulista de Ilha Solteira por Bezerra e que aqui representará o exemplo de tantos outros que arduamente lutam por seu espaço e contra as dificuldades nos diversos âmbitos culturais existentes.

Pois bem, nesse árduo porém prazeroso ofício (por essa razão o título da pauta) Bezerra procura se manter na composição; e apesar de ter o nome semelhante ao do partideiro pernambucano (falecido em 2005) Bezerra da Silva, a busca por seu reconhecimento e lugar ao sol é um trabalho árduo. Bezerra já possui algumas de suas composições interpretadas em festivais nos municípios paulistas por nomes como o do cantor e compositor Hugo César (ganhador de festivais de MPB no estado de São Paulo, como o de Ilha Solteira) e o da cantora Magda Faria (que defendeu uma de suas canções no mesmo festival de MPB em Ilha Solteira recentemente), além de alguns cd's que registram esses festivais.

Em 2010, no ano em que foi comemorado o centenário de Noel Rosa, Milton Bezerra compôs a canção "O céu de Noel", canção defendida por Magda no 36º Festival de MPB de Ilha Solteira. Segundo Bezerra "A canção tenta retratar, de forma alegre como sempre foi Noel Rosa, a sua passagem por esse mundo, pois apesar do pouco tempo que a sua estrela brilhou entre nós, até hoje o reflexo de sua luz se faz presente no cenário artístico e musical de nosso país e sutilmente faz parte de seu contexto os nomes de algumas das obras primas deste grande instrumentista, cantor e compositor".




O CÉU DE NOEL (Milton Bezerra da Silva (Bezerra))

Seu nascer mudou o samba, de forma tão genial
Deu sabor à sua época, enfeitou o carnaval
Com frescor de coisa nova, inovou na poesia
E só hoje é que se sabe, por que é que ele fazia

Foi além dos horizontes, conquistou a eternidade
Coisa rara de se vê, para alguém de pouca idade
E juntando ao Tangarás, mostrou criatividade
Quem quiser; deixa falar, é novo, é samba
Passou pela Estácio de Sá.

Tornou-se amigo do pinho, esse menino rueiro
Só a paixão pela vida lhe fazia prisioneiro
No escudo de madeira, fez sua filosofia
Ser um ser apaixonado era o risco que corria

Amigo da boemia, lugar de proezas mil,
Viva a Central do Brasil, viva a Central do Brasil (2x)

Da saúde descuidou, o menino descuidou,.
E muito jovem, conheceu o criador.
E na hora do chamado, questionou o menino Noel
Com que roupa eu vou, pra esta festa no céu?

Vou de lenço no pescoço, e levo a minha viola
Seus acordes bem tocados é o som que me consola
A minha felicidade é viver sem dar adeus
Fiquem com os seus amigos que eu vou rever os meus

E quando eu lá chegar, vai ter, vai ter uma festa no céu
Amigos que lá estão, cantarão pro menino Noel
Perdoe-me pelo abuso, se eu não me controlar
Peço que dê três apitos, para o samba terminar

Instrumentistas
Violão: Roberto Maranhão (Betinho)
Baixo: João Carlos P. Neto
Bateria: Heron Luiz de Oliveira
Sax: Rafael Fernandes Cunha
Trombone: Jefferson Douglas dos Santos
Trompete: Bruno Ricardo Ludovino
Pandeiro: Mateus Giovani Nascimento de Paula

Aproveito a oportunidade para citar outras das composições do compositor Bezerra, dentre as quais "Ave de Rapina", um música que muito me recordou o saudoso maranhense João do Vale e o seu "Carcará" interpretado divinamente por Maria Bethânia na década de 60.



Além da canção acima também merecem destaque "Instrumental do samba", samba contagiante pela malemolência presente tanto na melodia quanto na letra; "Uma queixa diferente", um partido-alto que conta a inusitada história de um sujeito que vai a delegacia prestar uma queixa inusitada e que se faz digna da voz de nomes como Wilson Simonal e "Sob a lua cheia", um singelo choro que canta o encontro entre amigos para tocar boa música, música esta que o cronista relata tudo o que acontece de interessante a partir dela, uma praça e uma lua cheia.

A quem for de interesse conhecer melhor o trabalho e as composições do Milton Bezerra da Silva (ou simplesmente Bezerra) citadas acima (além de também outras composições) podem entrar em contato através do nosso link CONTATOS através do sub-link PÚBLICO EM GERAL para que possamos encaminhar as canções que foram apresentadas aqui.

sábado, 13 de agosto de 2011

BETO GUEDES, 60 ANOS

Alberto de Castro Guedes. Este é o nome do cantor, multinstrumentista e compositor mineiro nascido em Montes Claros (MG) em 13 de agosto de 1951.

Por Marcelo Janot


O cantor e compositor Beto Guedes (filho de Godofredo Guedes, seresteiro e compositor) teve a sua iniciação musical ainda na adolescência, quando ao lado dos irmãos e do hoje também cantor e compositor Lô Borges tocava no grupo "The Beavers", além de outros "conjuntos" musicais, dentre os quais "Os Bructos".

Em 1970, aos 18 anos de idade, participou do V Festival Internacional da Canção (FIC) com a música "Feira Moderna", composta em parceria com Fernando Brant. Nesse mesmo ano, essa composição foi gravada pelo Som Imaginário no primeiro LP do grupo, lançado pela Odeon, sendo sua primeira composição a ser gravada em disco.

A música e os aviões sempre tiveram muito em comum na vida de Beto Guedes. Quando pegou num instrumento ela primeira vez - aos oito anos, em Montes Claros (MG), sua cidade natal - ele não seria capaz de adivinhar que um dia voaria tão alto na carreira de músico. E nem que conseguiria pisar num avião de verdade - seu medo de voar contrastava com a obsessão por aeromodelismo. O tempo livre de Beto sempre foi dividido entre os aviõezinhos de brinquedo e a paixão pelos instrumentos herdada do pai, Godofredo Guedes, músico e compositor, responsável pela maioria dos bailes e serestas de Montes Claros.



O gosto pela música estava diretamente ligado aos Beatles. Em 1964, aos 12 anos, quando o quarteto de Liverpool já era febre no mundo inteiro, Beto, morando em Belo Horizonte, juntou-se aos vizinhos para formar o grupo, The Bevers (com repertório dedicado aos Beatles, obviamente). Os vizinhos, no caso, eram os irmãos Márcio, Yé e Lô Borges. A Beatlemania durou toda a adolescência e ainda incluiu um outro grupo, Brucutus, que animava festinhas durante as férias em Montes Claros. No final da década, mais amadurecidos, Beto e Lô começaram a compor e participar de festivais. Em 1969, quando foram ao Rio participar do Festival Internacional da Canção com a música "Feira Moderna", bateram na porta do conterrâneo Milton Nascimento. A acolhida de Milton não poderia ter sido mais proveitosa. A amizade e a admiração profissional mútua fizeram com que ele convidasse Beto Guedes para participar do antológico LP "Clube da Esquina", de 1972. Neste primeiro disco do grupo, Beto participou tocando baixo, viola de 12 cordas, guitarra, percussão, atuando no coro, e cantando ao lado de Milton Nascimento as faixas "Saídas e Bandeiras nº 1" e "Saídas e Bandeiras nº 2", ambas de Milton e Fernando Brant, e "Nada será como antes", de Milton e Ronaldo Bastos. A partir daí o mineiro de Montes Claros começava a ganhar projeção junto com uma turma talentosa, que incluía nomes como Wagner Tiso, Ronaldo Bastos e Toninho Horta.

A safra de novos músicos mineiros era completada por Flávio Venturini, Sirlan, Vermelho, Tavinho Moura, entre outros, que Belo foi encontrar quando decidiu voltar a BH. As gravadoras passaram a abrir os olhos e em 1973 a Odeon resolveu bancar o LP "Beto Guedes/Danilo Caymmi/Novelli/Toninho Horta". A Beto, coube um quarto do disco. Não era muito, mas para ele, era o suficiente. Perfeccionista e naquela altura ainda muito inseguro, não conseguia acreditar no valor de suas músicas, embora a gravadora já lhe acenasse com ofertas para gravar um disco solo. O LP "Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta" (EMI-Odeon), incluiu duas composições suas: "Caso você queira saber" e "Belo horror".

Participou ainda do LP "Minas", de Milton Nascimento (um marco na carreira do cantor), com uma importante atuação na faixa "Fé cega, faca amolada", parceria de Milton com Ronaldo Bastos, onde sua voz soa "como um eco ao canto de Milton" (Cf. Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo, "A canção no tempo" vol. 2, p. 210.), tendo alcançado popularidade no ano de 1975.



Quatro anos foi o tempo necessário para que criasse asas próprias. Em 1977, ele finalmente levantou vôo, a bordo do LP "A Página do Relâmpago Elétrico" (EMI). O título foi sugestão do parceiro Ronaldo Bastos, depois que este viu no álbum de um colecionador de fotos de aviões da 2ª guerra, uma imagem do avião "Relâmpago Elétrico". Tá na cara que Beto, fanático por aviõezínhos de brinquedo, adorou a sugestão. O disco, que tinha a colaboração de vários amigos mineiros, chamou a atenção por revelar seus dotes como cantor, já que até então, ele era conhecido apenas pela versatilidade de multiinstrumentista. O tímido sucesso das músicas "Lumiar" e "Maria Solidária" foi suficiente para que o disco chegasse às 21 mil cópias vendidas, três vezes mais do que calculava a gravadora.



Mal sabiam eles, que "Lumiar" viraria um dos hinos da juventude cabeluda paz-e-amor e pró-natureza. E que Beto seria um dos ídolos dessa geração, principalmente após o lançamento de seu segundo álbum, "Amor de Índio". A faixa-título, dele e de Ronaldo Bastos, integrava o espírito de todo o disco. Versos como "A abelha fazendo o mel/Vale o tempo em que não vôou" ou "Todo dia é de viver/Para ser o que for/E ser tudo", segundo Beto, expressavam o lado primitivo e puro que ainda havia em cada uma das pessoas, como um canto de louvor à vida.

Quando lançou seu terceiro disco, "Sol de Primavera", em 1979, alcançou também grande repercussão, principalmente com a faixa que dá nome ao disco, que recebeu letra de Ronaldo Bastos e arranjo de Wagner Tiso, além disso já tinha uma legião de fãs no eixo Rio-São Paulo. Mas nunca abandonou a mineirice que se tornara sua marca registrada. Botava o pé na estrada - de carro, porque não perdia o medo de voar - , mas continuava morando em Belo Horizonte, onde tinha a tranqüilidade para se dedicar aos brinquedinhos voadores e às novas composições. Era na janela, esperando o anoitecer que as idéias surgiam. E amadureciam tanto, que seus álbuns demoravam no mínimo dois anos para sair. O quinto deles, "Viagem das Mãos", de 1984, foi um marco em sua carreira. Àquela altura, Beto Guedes já era um artista de primeira linha, com vendagens oscilando entre 50 e 60 mil cópias e uma marca sonora registrada. Mas este álbum trazia a canção que, junto com "Amor de Índio", seria o maior sucesso de sua carreira: "Paisagem da Janela", de Lô Borges e Fernando Brant. Ao mesmo tempo, representava o estouro nacional do compositor, que naquele momento superava o medo de voar e, pasmem, já cogitava pilotar um ultraleve construído por ele mesmo!

A viagem de Beto alcançara as alturas, e o ápice acabou sendo "Alma de Borracha", que, lançado em 1986, finalmente lhe rendeu um Disco de Ouro com a venda de 200 mil cópias e o reconhecimento no exterior. O título do disco (tradução de "Rubber Soul") homenageava os Beatles, enquanto o repertório trazia uma grata surpresa: a faixa "Objetos Luminosos", primeira parceria com seu mentor e padrinho musical Milton Nascimento. O Rio de Janeiro - cidade onde fez shows antológicos e sempre teve recepção calorosa do público - foi o local escolhido para a gravação de um disco ao vivo, no final de 1987. Resultado: 400 mil cópias vendidas de um álbum que além dos grandes sucessos consta com a participação do cantor e compositor Caetano Veloso.

Ao todo, foram cinco anos longe dos estúdios. Em 1991, Beto Guedes voltou a gravar. Com a meticulosidade de sempre, ele cuidou de cada detalhe de "Andaluz", seu oitavo disco e último contrato com a EMI-Odeon. Um disco em que o uso de sintetizadores dava um chega pra lá em alguns instrumentos barrocos tão utilizados pelo compositor em trabalhos anteriores. No ano seguinte, era de se esperar que Beto caísse na estrada mais uma vez. Mas ele preferiu trocar o violão pelo macacão de mecânico e passou a dedicar cada vez mais à sua paixão por aviões, só que construindo um monomotor de verdade. Foram mais sete anos restritos a shows esporádicos e muita reflexão.

Na década de 1990, lançou apenas dois discos, "Andaluz" (1991) e "Dias de Paz" (1998).

Em 2004, lançou o CD "Em algum lugar", com músicas inéditas.



Em 2010 foi gravado o segundo DVD do cantor e compositor mineiro Beto Guedes, "Outros Clássicos" (Biscoito Fino) traz composições menos conhecidas da obra do artista. Isso porque os maiores sucessos já haviam sido lembrados no primeiro trabalho audiovisual de Guedes, "50 Anos ao Vivo", lançado em 2001.

Desta vez, há espaço para sucessos como "Veveco, Panelas e Canelas", "O Medo de Amar" e "A Página do Relâmpago Elétrico", além de faixas que somente os fãs vão lembrar, tais como "Rio Doce", a instrumental "Nena" e "Meu Ninho", com participação especial de Daniela Mercury. Também lançado em CD, o projeto foi gravado no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em julho do ano passado.

Suas composições foram gravadas por vários artistas, dentre eles constam nomes como Elis Regina ("O medo de amar é o medo de ser livre", com Fernando Brant); Simone ("O sal da terra", com Ronaldo Bastos), e Milton Nascimento ("Canção do novo mundo", com Ronaldo Bastos), entre outros.


Depoimentos sobre Beto Guedes

"Beto, o homem dos mil instrumentos, da voz emocionada e de melodias ricas de som e ritmo. Esse é um cara em quem aposto e acredito desde que conheci. Faz parte de uma turma radicada em Minas, que canta como vive: trocando idéias, participando uns dos trabalhos dos outros; mas individualmente, cada um com seu próprio segredo. Cada novo trabalho traz surpresas e sempre me deixa emocionado. Aliás, também a todas as pessoas que sabem ouvir (o que também é um Dom). Tô com ele e não abro. Menos na arte de pilotar um Ultra-leve juntos, porque eu posso ser doido, mas não tanto. Força Beto. Sai da toca e mostra pro mundo. Todos nós precisamos. Beijos - Compadre Nascima" (Milton Nascimento)


"Beto Guedes é um dinossauro da Música Popular Brasileira. Apesar de ser poucos anos mais velho do que eu, quando eu apenas começava, garoto ainda, navegando os mares de nossa música a bordo d'A Barca do Sol, Beto Guedes e seus companheiros de Clube da Esquina já eram referência, fonte de inspiração e estímulo à nossa vontade de criar.

Suas melodias repletas do romantismo mineiro, seu requinte harmônico e seu descompromisso formal, sua voz única e misteriosa, unindo uma sensação de fragilidade a uma profunda expressão, eram e continuaram a ser até hoje, norte para nossas aspirações de fazer uma música que pudesse ser universal e brasileira, e que fosse capaz de enriquecer o espírito das pessoas, ampliar os horizontes de um povo tão belo como é o brasileiro. Minhas identificações com Beto Guedes sempre foram enormes.Minha primeira aproximação

com a música popular foi através da desenfreada paixão pelos Beatles, claramente compartilhada por Beto. Assim foi repleto de alegria que recebi o convite de Ronaldo Vianna, diretor artístico da Epic-Sony para produzir este novo disco de Beto Guedes. Foi maravilhoso trabalhar a nova safra de Beto, e, especialmente, poder recriar e regravar seus eternos sucessos, como por exemplo "Sol de Primavera", "Amor de lndio", "Lumiar", "Belo Horror", que com nova letra virou "Asas". Foi um baluarte em minha adolescência musical e é um dos exemplos neste disco de se poder resgatar uma obra-prima, registrada com uma série de limitações técnicas em sua gravação original. É quase uma ópera-rock-progressivo, gravada por Beto com o 14Bis em quatro pistas, e que agora toma roupagem sinfônica, gravada em 48 pistas, com a participação de mais de 80 músicos, incluindo dois arranjadores, três bateristas, dois baixistas e três guitarristas, utilizando-se toda a mais moderna tecnologia que se possa contar atualmente.Foi altamente gratificante redescobrir "Pedras rolando", minha canção favorita neste disco, com sua pujança e sua letra que, embora tão representativa de uma época específica, os anos 70, permanece atualíssima. Tomou parte deste disco um primeiro time do nosso cenário atual, com participações de Milton Nascimento, Djavan e Toni Garrido, entre outros. Arranjadores entre os que mais admiro, como Cristóvão Bastos, Lincoln Oliveti, Eduardo Souto, Wagner Tiso e a revelação do enorme talento de Marcelo Martins, músicos do mais alto nível como o pianista Paulo Calasans, guitarristas Luiz Brasil e Celso Fonseca, baixistas Artur Maia, Fernando Nunes e a revelação de Alberto Continentino, bateristas Marcelo Costa, Robertinho Silva, Jorge Gomes e Cesinha, entre tantos outros instrumentistas que abrilhantaram esta produção.Tive a oportunidade de assinar, além da produção, alguns dos arranjos orquestrais neste disco, e assim dar vasão mais efetivamente à grande paixão que me desperta a música deste importante criador que é Beto Guedes." (Jaques Morelenbaum)



"Que camarada mais inspirado, meu Deus!" é uma exclamação que ouço sempre quando alguém está do meu lado ouvindo as canções do Beto Guedes. O Beto tem este dom magnífico que é o de inventar um som; o de inventar um acorde, uma frase melódica, uma melodia.

Não posso imaginar como é que uma coisa como esta pode acontecer a uma pessoa: pensar numa frase e ela sair como o ruído de uma brisa, de um vento nas montanhas, de uma onda do mar quebrando na areia, de um canto de pássaro; não posso imaginar como alguém pode pensar uma canção... Beto Guedes é um grande pensador de canções.E tem mais o rapaz: aquela qualidade que transforma um músico inspirado num compositor: ele tem estilo!Reconhece-se uma canção de Beto Guedes ao fim do seu primeiro verso melódico. Assim como quem reconhece, por exemplo, o Cole Porter, o Dorival Caymmi, o Henry Mancine ou - last but not least - o Martinho da Vila.

Quando imagino estilo, as coisas que me vêm à cabeça são de uma concretude clara: penso no uso de determinadas cores numa pintura; na leveza de um traço num desenho; na força de uma linha saída do bico da velha pena de aço... Acho fantástico isto de se ter estilo em música. O que me fez ouvir o Beto com o maior encantamento.

Beto é meu conterrâneo - Ahhhááá!!! explica-se! - e devo mencionar aqui outra suas qualidades (uma que Mário de Andrade elogiava no geral): sua universalidade.

As canções do Beto, que comovem a todos indistintamente, são universais justamente porque são particulares. Ele canta e encanta os mineiros (que entendem cada uma de suas notas e cada uma de suas palavras: "Isto é comigo!") como encanta os cariocas e os paulistas, os brasileiros e os residentes, todos que ouvem seus discos, seja aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar para onde levo alguns deles, quando viajo pelo mundo. Tudo o que estou dizendo poderá ser confirmado quando você ouvir as canções do seu novo CD, "Dias de Paz" (o que lhe acenta como título) e começar a sentir um Beto mais maduro e mais inspirado ainda. E, o que é muito importante, em belíssima companhia: os arranjos e a produção do Jaquinho Morelenbaum. Mas esta é uma outra história..." (Ziraldo)


"O Beto é desses caras que já nasceram prá música. Seu pai, o grande Godofredo deixou pro filho toda uma influência de música mineira (modinhas, valsas, etc.) Beto juntou toda essa riqueza com os Beathes, Crosby e Still e o som Pop dos anos 60/70, e criou uma música bela, que tem a sua cara, que mexe com o coração e a sensibilidade das pessoas.Feliz de quem conhece o trabalho de Beto Guedes." (Toninho Horta)


"Sou super tiete de Beto. Dele já gravei "Luz e Mistério." Acho um cara fantástico e super autêntico. É um artista que consegue estar sempre fazendo algo interessante e bonito. Tem uma integridade artística que me emociona.

Foi incrível quando ele me chamou pra gravar no seu disco. Abri um sorriso de orelha a orelha. Não via a hora de gravar. Ficou chocante. O timbre bateu bem demais.

Profissionalmente foi muito importante. Obrigado Beto." (Zizi Possi)


"Beto é o que há de bom gosto na música brasileira. Seu "rock" é de primeiríssima qualidade.
Sem contar ainda com o enorme carisma e a sinceridade com os amigos.
Beijos do Wagão." (Wagner Tiso)



"Beto sempre foi pra mim, além de amigo e companheiro, um exemplo de integridade musical no panorama da música brasileira. Um dos músicos mais intuitivos que conheço, antes de tudo, um criador nato." (Flávio Venturini)


"Ai, Viramundo de minha vida, que vira Minas pelo avesso, sem revelar aos meus olhos o seu mais impenetrável mistério! Ai, Minas de minha alma, alma do meu orgulho, orgulho de minha loucura, acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos de meu entendimento e mostrai-me onde se esconde esse mineiro maravilhoso, esse meu irmão desvairado que no fundo vem a ser a melhor razão existir".

Assim implorei a Geraldo Viramundo, personagem do romance "O Grande Mentecapto", que me dissesse o que vem a ser mineiro. Pergunte a um deles para ver só: - Se sou mineiro? Uai, é conforme...(Toda resposta é conforme: sabe-se lá por que estão perguntando?)

Para ser mineiro, basta ter nascido em Minas? O que é Minas, afinal? O próprio poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade confessou num poema:

"Ninguém sabe Minas
Só os mineiros sabem. E não dizem
Nem a si mesmos o irrevelável segredo
Chamado Minas".

Sendo assim, quem disse que sou mineiro, afinal? Só por ter nascido na capital de Minas? Neste caso o sol também é, já que nasce todo dia em tão belo horizonte.

Pois basta ouvir Beto Guedes, para ver como ele é mineiro, e quanto!

Dos melhores que Minas já produziu. É ouvi-lo, e concluir que ele transportou para as suas admiráveis criações musicais o que a nossa eterna Minas Gerais tem de melhor". (Fernando Sabino)



Discografia completa - Beto Guedes


Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta (1973)
Faixas:
01 - Caso você queira saber (Márcio Borges - Beto Guedes)
02 - Meu canário vizinho azul (Toninho Horta)
03 - Viva eu (Novelli - Wagner Tiso)
04 - Belo Horror (Flávio Hugo - Márcio Borges - José Geraldo - Beto Guedes)
05 - Ponta Negra (José Carlos Pádua - Danilo Caymmi)
06 - Meio a meio (Novelli)
07 - Manuel, o audaz (Toninho Horta - Fernando Brant)
08 - Luiza (Novelli)
09 - Serra do mar (Danilo Caymmi - Ronaldo Bastos)



A página do relâmpago elétrico (1977)
Faixas:
01 – A Página do Relâmpago Elétrico (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
02 – Maria Solidária (Milton Nascimento e Fernando Brant)
03 – Choveu – Beto Guedes e Ronaldo Bastos
04 – Chapéu de Sol (Beto Guedes e Flávio Venturini)
05 – Tanto (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
06 – Lumiar (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
07 – Bandolim (Beto Guedes)
08 – Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes)
09 – Salve Rainha (Zé Eduardo e Tavinho Moura)
10 – Belo Horizonte (Godofredo Guedes)



Amor de índio (1978)
Faixas:
01 – Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
02 – Novena (Milton Nascimento e Marcio Borges)
03 – Só Primavera (Beto Guedes e Marcio Borges)
04 – Findo Amor (Tavinho Moura e Murilo Antunes)
a) Vinheta l (Beto Guedes)
05 – Gabriel (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
06 – Feira Moderna (Fernando Brant, Beto Guedes e Lô Borges)
07 – Luz e Mistério (Beto Guedes e Caetano Veloso)
08 – O Medo de Amar É O Medo de Ser Feliz (Beto Guedes e Fernando Brant)
09 – Era Menino (Beto Guedes, Tavinho Moura e Murilo Antunes)
10 – Cantar (Godofredo Guedes)



Sol de Primavera (1979)
Faixas:
01 - Sol De Primavera (Beto Guedes & Ronaldo Bastos)
02 - Como Nunca (Luiz Guedes, Thomas Roth & Murilo Antunes)
03 - Cruzada (Tavinho Moura & Márcio Borges)
04 - Rio Doce (Beto Guedes, Tavinho Moura & Ronaldo Bastos)
05 - Pedras Rolando (Beto Guedes & Ronaldo Bastos)
06 - Roupa Nova (Milton Nascimento & Fernando Brant)
07 - Norwegian Wood (This Bird Has Flown) (John Lennon & Paul McCartney)
08 - Pela Claridade Da Nossa Casa (Beto Guedes, Murilo Antunes & Márcio Borges)
09 - Monte Azul (Beto Guedes)
10 - Casinha De Palha (Godofredo Guedes)



Contos da lua vaga (1981)
Faixas:
01 - O Sal da Terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
02 - Tesouro da Juventude (Tavinho Moura e Murilo Antunes)
03 - Boa Sorte (Luiz Guedes, Thomas Roth e Márcio Borges)
04 - Contos da Lua Vaga (Beto Guedes e Márcio Borges)
05 - Rio Doce (Beto Guedes, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos)
06 - Vevecos, Panelas e Canelas (Milton Nascimento e Fernando Brant)
07 - Quatro (Beto Guedes e Márcio Borges)
08 - Sete Flautas (instrumental) (Beto Guedes)
09 - Dona Julia (instrumental) (Luiz Guedes e Beto Guedes)
10 - Canção do Novo Mundo (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
11 - Noite sem Luar (Godofredo Guedes)


Viagem das mãos (1984)
Faixas:
01 - O Amor não Precisa Razão (Beto Guedes, Ronaldo Bastos e Ricardo Milo)
02 - Balada dos Quatrocentos Golpes (Márcio Borges, Thomas Roth e Luiz Guedes)
03 - Viagem das Mãos (Tavinho Moura e Márcio Borges)
04 - Rádio Experiência (Tunai e Milton Nascimento)
05 - Quando te Vi (Meredith Wilson - versão de Ronaldo Bastos)
06 - Paisagem da Janela (Lô Borges e Fernando Brant)
07 - No Céu, com Diamantes (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
08 - Izabel (Beto Guedes e Murilo Antunes)
09 - Nena (Beto Guedes)
10 - Um Sonho (Godofredo Guedes)



Alma de borracha (1986)
Faixas:
01 - Flor da Razão (Beto Guedes, Márcio Borges e Ronaldo Bastos)
02 - Calor Humano (Beto Guedes, Dalto e Ronaldo Bastos)
03 - Tudo em Você (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
04 - São Paulo (Luiz Guedes e Thomas Roth)
05 - Quando a Saudade não se Vai (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
06 - Lágrima de AmoR (Luiz Guedes e Márcio Borges)
07 - Objetos Luminosos (Milton Nascimento, Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
08 - Alma de Borracha (Telo Borges e Márcio Borges)
09 - Amormeuzinho (Tavinho Moura e Fernando Brant)
10 - Choro de Pai (Instrumental) (Beto Guedes e Tadeu Franco)



Ao vivo (1987)
Faixas:
01 - Overture
01.1 - Canção do Novo Mundo (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
01.2 - Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
01.3 - Cruzada (Tavinho Moura e Márcio Borges)
02 - Balada dos 400 Golpes (Luiz Guedes, Thomas Roth e Márcio Borges)
03 - Tudo em Você (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
04 - Luz e Mistério (Beto Guedes e Caetano Veloso)
05 - Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
06 - Quando Te Vi (Till There was You) (Meredith Wilson - versão Ronaldo Bastos)
07 - Gabriel (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
08 - Lumiar (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
09 - Canção do novo Mundo (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
10 - Roupa Nova (Milton Nascimento e Fernando Brant)
11 - Sol de Primavera (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
12 - O Sal da Terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)



Andaluz (1991)
Faixas:
01 - Andaluz (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
02 - Olhos de Jade (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
03 - A Mulher (Beto Guedes e Fernando Brant)
04 - Meu Ninho (Wagner Tiso e Ronaldo Bastos)
05 - Coração é a Lei (Luiz Guedes, Beto Guedes e Paulo Flexa)
06 - Leo, o Menino (Instrumental) (Renato Vasconcelos)
07 - Qualquer Palavra é Amor (Luiz Guedes e Paulo Flexa)
08 - Garotos (Vinícius Cantuária)
09 - Pago pra Ver (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
10 - M16 ( Ariazinha) (Instrumental) (Beto Guedes)
11 - Choro de Pai (Beto Guedes e Tadeu Franco)
12 - Tem Cego que Vê (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)



Dias de paz (1998)
Faixas:
01 - Dias Assim (Beto Guedes e Chico Amaral)
02 - Lumiar (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
03 - Pedras Rolando (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
04 - Se Ela Deixar (Beto Guedes, Lulu Guedes e Chico Amaral)
05 - As Vitrines (Chico Buarque)
06 - Amor de Índio (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
07 - Sol de Primavera (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
08 - Dias de Chuva "Rainy Days And Mondays" (P.Williams / R.Nichols) (versão: Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
09 - Espelhos D`Água (Dalto e Claudio Rabello)
10 - No Céu com Diamantes (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
11 - Maria Solidária (Milton Nascimento e Fernando Brant)
12 - Contos da Lua Vaga (Beto Guedes e Márcio Borges)
13 - O Sal da Terra (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)
14 - Tristesse (Telo Borges e Milton Nascimento)
15 - Asas (Beto Guedes, Flávio Venturini, Vermelho e Márcio Borges)



Em algum lugar (2004)
Faixas:
01 - Até Depois (Luis guedes, Paulo Flexa e Thomas Roth)
02 - Sonhando o Futuro (Cláudio Venturini e Lô Borges)
03 - O Amor por Nós (Jimmy Webb, versão: Beto Guedes e Tadeu Franco)
04 - Um Sonho Pra Viver -(Renato Vasconcelos e Murilo Antunes)
05 - Outra Manhã (Beto Guedes e Murilo Antunes)
06 - Lamento Árabe (Godofredo Guedes)
07 - Em Algum Lugar (Frederick Rousseau, versão: Fernando Brant)
08 - Eu Te Dou Meu Coração (Beto Guedes, Léo Lopes e Ronaldo Bastos)
09 - Amor de Filho (Beto Guedes e Milton Nascimento)
10 - A Via Lactea (Lô Borges e Ronaldo Bastos)
11 - Tua Canção (Ronaldo Cotrim e Carolina Futuro)
12 - Vem Ver o Sol (Cláudio Faria)
13 - Júlia (Gabriel Guedes)



50 anos ao vivo (2001)
Faixas:
01 - Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
02 - Era Menino (Beto Guedes, Tavinho Moura e Murilo Antunes)
03 - Dias Assim (Beto Guedes e Chico Amaral)
04 - No Céu com Diamantes (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
05 - Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes)
06 - Quando Te Vi (Till there was you) (Meredith Wilson - Vers. Ronaldo Bastos)
07 - Cantar (Godofredo Guedes)
08 - As Vitrines (Chico Buarque)
09 - Gabriel (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
10 - Espelhos D`Água (Dalto e Cláudio Rabello)
11 - Feira Moderna (Fernando Brant, Beto Guedes e Lô Borges)
12 - Maria Solidária (Milton Nascimento e Fernando Brant)
13 - Lumiar (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
14 - Pedras Rolando (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
15 - O Sal da Terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
16 - Andaluz (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
17 - Sol de Primavera (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)



Outros clássicos (2011)
Faixas:
01 - O medo de amar é o medo de ser livre (Beto Guedes e Fernando Brant)
02 - Olhos de Jade (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
03 - Um sonho pra valer (Renato Vasconcelos e Murilo Antunes)
04 - Rio Doce (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
05 - Quatro (Beto Guedes e Márcio Borges)
06 - Boa sorte (Luiz Guedes, Thomas Roth e Márcio Borges)
07 - Só primavera (Beto Guedes e Márcio Borges)
08 - Luz e mistério (Beto Guedes e Caetano Veloso)
09 - Meu ninho (Wagner Tiso e Ronaldo Bastos)
10 - Nena (Beto Guedes)
11 - Tudo em você (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
12 - 0 A página do relâmpago elétrico (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
13 - Tanto (Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
14 - Veveco - panelas e canelas (Milton Nascimento e Fernando Brant)
15 - O amor não precisa razão (Beto Guedes, Ronaldo Bastos e Ricardo Milo)
16 - Balada dos 400 golpes (Luiz Guedes, Thomas Roth e Márcio Borges)
17 - Lágrima de amor (Luiz Guedes e Márcio Borges)



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

05 ANOS SEM MOACIR SANTOS

Ao longo deste mês completam-se 05 anos do falecimento de um dos maiores destaques da música instrumental brasileira. Considerado por críticos e pesquisadores musicais como um dos principais arranjadores e compositores brasileiros, aquele que renovou a linguagem da harmonia no país teve sua importância registrada e eternizada por Vinicius de Moraes, em seu "Samba da Benção" quando cantou: “A benção maestro Moacir Santos. Não és um só, és tantos”.

Por Bruno Negromonte


Nascido no município de São José do Belmonte, o pernambucano Moacir José dos Santos nasceu como tantos outros nordestinos na época. De família poucos recursos ao completar dois anos de idade foi morar com a mãe e os 3 irmãos em Flores do Pajeú, tendo por objetivo fugir das adversidades existentes. Um ano após se estabelecerem em Flores, Dona Julita falece e o pequeno Moacir acaba adotado pela madrinha Corina até chegar a viver com a tutora Ana. Desde cedo, sua brincadeira preferida era a de imitar, com outros meninos, a banda de música de sua cidade. Improvisava a brincadeira utilizando-se de latinhas e pífanos. Presente em todos os ensaios da banda, foi eleito vigia, com a função de evitar que as crianças mexessem nos instrumentos e com o direito de experimentá-los. Aos 11 anos, já tocava tocar clarinete e sua inclinação para a música era tão forte que os músicos da cidade lhe presenteavam com instrumentos, como violão e flautim, que o menino também tocava intuitivamente.

Aos 14 anos de idade já tocava como gente como gente grande, tanto era a sua desenvoltura que com tão tenra idade já era um dos integrantes da banda local, tocando saxofone, clarinete, pistom, banjo, violão e bateria. A limitação para o desenvolvimento de seu talento musical na cidade em que vivia acabou por fazer com que Moacir resolvesse fugir de casa tendo por propósito ir para uma cidade maior. Para isso teve que pegar caronas diversas com jovens caminhoneiros até chegar em Alagoa de Baixo. Mas ainda assim nova cidade era pouco e decidiu começar uma vida meio mambembe por diversas cidades do nordeste, sempre procurando trabalho nas bandas de música e sendo bem acolhido pelos músicos locais até se apresentar pela primeira vez em 1943, no programa "Vitrine", da Rádio Clube de Pernambuco.



Ainda na década de 40 ingressou na Banda da Polícia Militar da Paraíba , onde como sax-tenorista, chegou ao posto de sargento músico de primeira classe e conheceu o maestro Severino Araújo (líder da Orquestra Tabajara) que nessa época trabalhava na Rádio PRI-4. Também nessa mesma época (por volta de 1948) recebeu o convite para atuar na então capital do Brasil. Com isso, houve a necessidade de se estruturar uma nova orquestra na qual o instrumentista foi convidado a participar no Rio de Janeiro. Ingressou, assim, na função de sax-tenorista e clarinetista da Jazz Band da Rádio PRI-4, Rádio Tabajara da Paraíba. Moacir continuou conciliando com seus ofícios o ato de compor suas músicas e cerca de dois anos depois já casado com Cleonice, foi nomeado regente da Orquestra.

Nessa época a sua carreira já desleixava e muitos já reconheciam seu talento. Uma das pessoas responsáveis por propagá-lo foi o músico Lourival de Souza, da Orquestra Tabajara, que o apresentava como o "fera do saxofone". Daí em diante começou a tocar no Clube Brasil Danças.

Por volta de 1951, ingressou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, de maneira interessante, pois o diretor artístico, Paulo Tapajós, convidou-o para fazer parte do programa "Quando os maestros se encontram". O instrumentista escreveu, então, os arranjos musicais de duas músicas, "Na baixa do sapateiro", de Ary Barroso, e "Melodia para trompa em fá", de sua autoria, tornando-se, após a apresentação, membro efetivo do Quadro de Maestros da emissora, além de atuar como sax-tenorista solista da Orquestra do Maestro Chiquinho, participando de todos os programas de envolvimento orquestral da emissora, onde permaneceu por 19 anos.

Na década de 50 outros fatos importantes aconteceram na carreira do já então maestro Moacir Santos, o músico pernambucano Santos foi para São Paulo onde dirigiu a orquestra da TV Record por volta de 1953. Dois anos depois, ele voltou ao Rio de Janeiro, retomando seu trabalho na Rádio Nacional, além de atuar, como assistente de Ary Barroso, na direção artística da gravadora Rozemblit, e como condutor de orquestras em gravações da Copacabana Discos, tendo-se revelado como um dos mais competentes arranjadores brasileiros. E foi nesse período que começou a lecionar e tornou-se professor de grandes nomes de nossa música popular brasileira como Baden Powell, Paulo Moura, João Donato, Nara Leão, Roberto Menescal, Sérgio Mendes, Oscar Castro-Neves, Maurício Einhorn, Dori Caymmi, Airto Moreira entre outros.

Mesmo sendo um auto-didata virtuosíssimo fazia arranjos sem conhecer as regras, por isso resolveu não acomodar-se e estudar dentre outras coisas teoria musical com Guerra Peixe. Além disso estudou também harmonia, contraponto, fuga e composição com nomes como Paulo Silva, José Siqueira, Virgínia Fiusa, Cláudio Santoro, João Batista Siqueira, Nilton Pádua, e também com o grande musicólogo e compositor alemão Hans Joachim Koellreutter, de quem Santos depois se tornou assistente. Tal era a habilidade que o aluno tinha que um fato interessante marcou o período em que Moacir passou pelas salas de aula de grandes nomes da música mundial, um deles foi quando matriculado no Curso de Composição do Professor Ernst Krenek, realizado em Teresópolis (RJ) o o professor austro-americano ministrou, na primeira aula, os preceitos e regras da Técnica dos 12 Sons, sistema criado por Arnold Schoenberg. Como o instrumentista não falava inglês nessa época, Koellreutter, diretor artístico do curso, serviu de intérprete para a comunicação entre professor e aluno, que surpreendeu Krekek e Koellreutter ao compor, de imediato, uma música no novo método de composição.



A década de 60 foi quando Moacir atingiu o ápice de sua carreira. Vários acontecimentos levam a veracidade dessa afirmação, onde podemos destacar o diploma de Músico do Ano, conferido pelo Sindicato dos Músicos Profissionais do então Estado da Guanabara (Rio de Janeiro) juntamente com a União dos Músicos do Brasil em 1960; os diversos convites para a composição de diversas trilhas sonoras para o cinema como "Seara vermelha", de Jorge Amado, com direção de R. Aversa, "Ganga Zumba", de Cacá Diégues, "O santo médico", do diretor francês Sacha Gordine, "Os fuzis", de Ruy Guerra e "O beijo", de Flávio Tambellini, entre outros; foi considerado o "patrono da bossa nova"; a ele se referiu Vinícius de Moraes no famoso "Samba da bênção", composto em parceria com Baden Powell; em 1963, escreveu os arranjos do disco "Vinicius de Moraes e Odete Lara" e participou, também, de um disco de Baden Powell, como pianista e cantando em dueto com Alaíde Costa e foi nomeado Membro da American Society of Composers Authors and Publishers (Ascap).

Em 1965, lançou o antológico disco "Coisas". Acerca do título, explicou que desde que se empenhou em estudar música clássica foi tocado pelo desejo de que suas composições tivessem a catalogação dos clássicos no que diz respeito à numeração. Como suas músicas inseriam-se na área popular, perguntado, na ocasião da gravação, sobre o título das canções, respondeu: "Coisas", já que não podia referir-se a elas como "Opus". Ainda nesse ano, escreveu pela primeira vez a trilha musical de um filme norte-americano, "Amor no Pacífico", que lhe valeu, como prêmio concedido pelo Itamaraty, uma passagem para Nova York (EUA) para que estivesse presente na pré-estréia do filme. O Maestro aguardou a data do evento por mais de um ano, quando então viajou para aquele país. Nessa ocasião, o Clube Brasileiro de Nova Jersey, sabendo de sua presença em Nova York, convidou-o para a solenidade de comemoração do dia da Independência do Brasil, ao lado de outros brasileiros, como o Presidente Juscelino Kubitschek.

Dois anos depois, desligou-se espontaneamente da Rádio Nacional e convidado para a a estreia mundial do filme "Amor no Pacífico", do qual havia sido compositor nos EUA, resolve fixar residência definitivamente nesse país, onde retomou sua atividade de professor, ensinando em casa, como fazia no Brasil, até que se tornou membro da Associação dos Professores de Música da Califórnia, em Los Angeles. "Estava ficando difícil viver aqui. Cheguei a pensar em colocar meu carro na praça", lembrou Santos quando questionado sobre o porquê de ter ido embora do Brasil. Moacir nos primeiros tempos ganhou a vida tocando piano numa igreja batista, em Los Angeles. Também trabalhou como "músico fantasma", fazendo arranjos para filmes de Hollywood, sem receber créditos até ser "descoberto" pelo pianista de jazz Horace Silver, que o conhecera na casa do pianista Sérgio Mendes, e começou a gravar para o mercado norte-americano. Fez grandes discos pela Blue Note e pela Discovery, como "The Maestro" (1972 - indicado para o Prêmio Grammy Award, "Saudade" (1974) e "Carnaval dos Espíritos" (1975) e "Opus 3 nº 1 (1979) hoje todos fora de catálogo no Brasil. Nos EUA chegou a ser nomeado Membro da Music Teachers Association of California (MTAC).

Em 1994 participou, como professor, do curso Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP) e ainda nesse ano, recebeu o diploma da Academia Pernambucana de Música. Dois anos depois, recebeu a Comenda de Grau de Oficial da Ordem do Rio Branco, do Presidente da República do Brasil, Grão-Mestre daquela entidade, outorgada pelo Decreto de 26 de abril, em cerimônia realizada no Consulado Brasileiro de Los Angeles. Ainda em 1996, foi homenageado com o "Tribute to Moacir Santos", pelo Brazilian Summer Festival, realizado no Teatro Ford em Los Angeles (California, EUA).

É por essas e outras que Moacir Santos é considerado um dos grandes mestres da renovação harmônica da MPB até os dias atuais. Por dominar diversos instrumentos tal qual o saxofone, piano, clarineta, trompeta, banjo, violão e bateria como poucos é considerado como um dos maiores instrumentistas brasileiro. Nessa passagem pelos 05 anos de sua ausência vale o registro não apenas de sua estátua (vista em foto ao lado) na cidade na qual nasceu, mas também o singelo registro de seu nome aqui em nosso espaça, afinal este que foi um mestre da renovação harmônica da música popular brasileira merece todas as homenagens prestadas.


Obras

O seu primeiro álbum intitula-se "Coisas" e foi lançado em 1965 pela gravadora Forma. Tornou-se um clássico da música instrumental brasileira, principalmente depois que uma das faixas do álbum ganhou a letra do Mário Telles e ficou muito mais conhecida por nanã. Já radicado nos Estados unidos lançou os álbuns "The Maestro" (1972), "Saudade" (1974) e "Carnival of the Spirits" (1975) pelo selo Blue Note, e "Opus 3 Nº 1" (1978) pelo selo Discovery.



05 anos antes de sua morte uma boa parte obra foi novamente lançada no Brasil através de um álbum que teve por objetivo prestar-lhe uma homenagem. E assim o álbum "Ouro Negro" contou com a participação especial de Milton Nascimento em "Coisa nº 8 - Navegação" (c/ Regina Werneck e Nei Lopes), João Bosco em "Oduduá (What’s my name)" (c/ Nei Lopes), Joyce e João Donato em "De repente estou feliz (Happy happy)", Djavan em "Sou eu (Luana)" (c/ Nei Lopes), Gilberto Gil em "Maracatu, Nação do Amor (April child)" (c/ Nei Lopes), Ed Motta em "Orfeu (Quiet Carnival)" (c/ Nei Lopes) e do próprio Maestro, ao lado de Sheila Smith e Muiza Adnet em "Bodas de prata dourada". Atuaram na gravação os produtores do disco, Mario Adnet (violão) e Zé Nogueira (sax barítono), além de Cristóvão Bastos (piano), Marcos Nimrichter (órgão), Ricardo Silveira (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico), Armando Marçal (bateria), Jurim Moreira (flauta e flautim), Andréa Ernest Dias (sax alto), Vittor Santos (trombone) e Hugo Pilger (cello), entre outros instrumentistas. Em 2005 foi lançado um DVD com um show da "banda ouro negro" gravado ao vivo no SESC Pinheiros em São Paulo, e um disco, pela biscoito fino, com várias composições do inicio da carreira do Maestro, nunca antes gravadas chamado "Choros & Alegria" (que ganhou o Prêmio Tim, na categoria Melhor Disco/Projeto Especial e o Prêmio Shell de música de 2006).



Foi o último registro fonográfico do maestro que veio a falecer no dia 06 de agosto de 2006 na região de Pasadena (Califórnia), este foi o local onde fixou moradia depois de sua chegada em Los Angeles, nos Estados Unidos. No dia 8 de novembro desse mesmo ano, sua viúva Cleonice Santos, e seu filho, Moacir Santos Jr., receberam das mãos do presidente Lula e do ministro Gilberto Gil a medalha da Ordem do Mérito Cultural conferida ao músico.

LinkWithin